Clínica MédicaGastroenterologia

Doença do refluxo gastroesofágico

Quem trata empiricamente, quem precisa de endoscopia e quem vai para cirurgia. A prova cobra a lista de sinais de alarme, a idade de corte e o horário do comprimido.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 52 anos relata pirose retroesternal e regurgitação ácida há 6 meses, com piora ao deitar-se e após refeições volumosas, sem disfagia, perda de peso ou anemia. Exame físico normal, sinais vitais normais. Qual é a classe de medicamento mais eficaz para o controle sintomático e a cicatrização de esofagite na doença do refluxo gastroesofágico?

02

Como esse tema cai

Refluxo é o tema de gastroenterologia com maior distância entre o que o aluno estuda e o que a banca pergunta. Ninguém cai por não saber o que é pirose. Cai por não saber a lista de sinais de alarme, por errar a idade que obriga endoscopia, por não saber que o comprimido tem hora certa, e por achar que melhorar com omeprazol prova que o paciente tem a doença.

O eixo do capítulo é a decisão na atenção básica, e ela tem três saídas. A grande maioria dos pacientes com pirose e regurgitação sem alarme é tratada empiricamente e nunca vê um endoscópio. Uma minoria bem definida — por sinal de alarme, por idade, ou por falha do tratamento otimizado — precisa de endoscopia digestiva alta, e é a endoscopia que separa a doença erosiva da não erosiva, encontra o esôfago de Barrett e muda a manutenção. Uma minoria menor ainda vai para cirurgia, e nunca sem prova objetiva de refluxo.

A DRGE atinge de 12% a 20% da população urbana brasileira, segundo a diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia de 2024. Isso significa que ela chega à UBS todo dia e que a prova pode cobrá-la com vinheta de qualquer nível de complexidade. O que segue está calibrado nesta ordem: o protocolo brasileiro de regulação ambulatorial como texto operacional, a diretriz da FBG de 2024 para a parte terapêutica, e as diretrizes do American College of Gastroenterology de 2022 mais o Consenso de Lyon 2.0 de 2024 onde o Brasil não cobre ou onde divergem — sempre com o número escrito e a fonte nomeada.

03

O que muda decisão

O que é DRGE — e o que não é dispepsia

A definição que a ACG usa é deliberadamente prática: DRGE é a condição em que o refluxo do conteúdo gástrico para o esôfago causa sintomas incômodos e/ou complicações. Objetivamente, ela é definida pela presença de lesão de mucosa característica na endoscopia e/ou por exposição ácida esofágica anormal demonstrada em monitorização de refluxo. Note as duas metades da frase: uma é clínica, a outra é de exame. Elas não coincidem — e é dessa não coincidência que saem quase todas as pegadinhas do tema.

Refluxo em si é fisiológico. Todo mundo reflui, sobretudo no período pós-prandial, por relaxamentos transitórios do esfíncter esofágico inferior. Vira doença quando produz sintoma incômodo ou lesão. A barreira antirrefluxo não é uma estrutura só: é o esfíncter esofágico inferior somado ao pilar diafragmático crural que o abraça, ancorados pela membrana frenoesofágica. Hérnia de hiato desloca o esfíncter para cima e desfaz essa sobreposição — por isso hérnia grande aparece tanto nas indicações cirúrgicas.

Os sintomas típicos são dois: pirose (queimação retroesternal ascendente) e regurgitação (retorno de conteúdo à boca ou à faringe, sem esforço e sem náusea). Dor torácica de origem esofágica entra no mesmo grupo de alta probabilidade, com uma exigência: cardiopatia isquêmica precisa ter sido afastada primeiro. O protocolo brasileiro de regulação usa um corte operacional de frequência para caracterizar o quadro típico: sintomas típicos mais de uma vez por semana.

A DRGE tem dois fenótipos, e a endoscopia é que os separa. Na doença erosiva há solução de continuidade visível da mucosa; na doença não erosiva (a sigla internacional é NERD) o paciente tem sintoma típico e a endoscopia é normal. A não erosiva é a mais comum. Guardar isso resolve de imediato duas questões clássicas: endoscopia normal não exclui DRGE, e a intensidade do sintoma não prevê a gravidade endoscópica — há paciente com esofagite grau D quase assintomático e paciente com esôfago íntegro em sofrimento diário.

Um último acerto de vocabulário que a prova explora: DRGE não é dispepsia. Dispepsia é dor ou desconforto epigástrico, plenitude pós-prandial, saciedade precoce — não é queimação retroesternal. A distinção não é acadêmica: no Brasil, os dois têm protocolos de encaminhamento diferentes e, sobretudo, a erradicação de Helicobacter pylori faz parte do tratamento otimizado da dispepsia e não faz parte do tratamento otimizado da DRGE.

Corte sagital da junção esofagogástrica normal, com o esfíncter esofágico inferior abraçado pelo pilar diafragmático, ao lado da mesma região com hérnia de hiato por deslizamento, em que o estômago sobe acima do diafragma e separa as duas barreiras.
A barreira antirrefluxo é dupla: o esfíncter esofágico inferior e o pilar crural do diafragma, sobrepostos e ancorados pela membrana frenoesofágica. A hérnia de hiato desloca o esfíncter para cima e desfaz a sobreposição — daí a hérnia grande figurar entre as indicações de cirurgia antirrefluxo.

Sintoma atípico e manifestação extraesofágica: onde a associação é honestamente fraca

A lista clássica de manifestações extraesofágicas — tosse crônica, pigarro, rouquidão, disfonia, globus, asma, laringite — é repetida em prova como se todos os itens tivessem o mesmo peso. Não têm. O Consenso de Lyon 2.0 organizou os sintomas por probabilidade de serem realmente refluxo, e essa é a informação útil: alta probabilidade para pirose, regurgitação e dor torácica esofágica; relação variável para eructação e para tosse crônica/asma; baixa probabilidade para rouquidão, globus, náusea, dor abdominal e dispepsia.

A consequência prática, na ACG de 2022, é uma inversão de ordem. Diante de manifestação extraesofágica, a primeira recomendação é procurar causas que não sejam DRGE — rinossinusite, gotejamento pós-nasal, asma mal controlada, tabagismo, medicamentos, uso vocal abusivo — antes de atribuir o sintoma ao refluxo. E há uma bifurcação clara: quem tem manifestação extraesofágica sem sintoma típico associado deve fazer teste objetivo de refluxo antes de receber IBP (recomendação forte, evidência moderada); quem tem manifestação extraesofágica com sintoma típico pode receber um teste terapêutico de IBP duas vezes ao dia por 8 a 12 semanas antes de investigar (recomendação condicional).

Três coisas que a prova cobra pela negativa. Endoscopia digestiva alta não é o método para estabelecer que a tosse crônica, a asma ou o refluxo laringofaríngeo são causados por DRGE — ela pode achar esofagite, o que prova que existe refluxo, mas não prova que o refluxo é a causa daquele sintoma. Laringoscopia isolada não faz diagnóstico de refluxo laringofaríngeo: eritema, edema e paquidermia interaritenoidea são achados frequentes em pessoas assintomáticas. E pesquisa de pepsina salivar não é recomendada, porque não separa o paciente com sintoma laríngeo do controle normal.

Fecha o raciocínio a regra cirúrgica: procedimento antirrefluxo, cirúrgico ou endoscópico, em paciente tratado por sintoma extraesofágico só se houver evidência objetiva de refluxo. A diretriz brasileira da FBG é ainda mais direta e afirma que a cirurgia antirrefluxo não é recomendada para sintomas extraesofágicos — os melhores resultados operatórios estão em quem tem sintoma típico e responde ao IBP.

Sinais de alarme e a idade que separa os documentos

Esta é a lista que precisa estar decorada. O protocolo brasileiro de regulação define como sinais de alarme, tanto na dispepsia quanto na DRGE: disfagia esofágica; odinofagia; emagrecimento não explicado; vômitos persistentes; sangramento gastrointestinal crônico ou anemia por deficiência de ferro sem causa definida após investigação na atenção primária; massa epigástrica; alterações suspeitas em radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno; e dispepsia recente em pessoa com história familiar de neoplasia gástrica ou esofágica em parente de primeiro grau. Sintoma típico mais de uma vez por semana somado a qualquer um desses itens indica endoscopia digestiva alta.

Somam-se a esses, ainda como indicação de endoscopia no protocolo brasileiro: pessoa com 50 anos ou mais com dispepsia recente de causa inexplicada; pessoa com dispepsia que precisa iniciar antiagregação plaquetária ou anticoagulação; dispepsia não controlada com tratamento clínico otimizado (IBP por 8 semanas e erradicação de H. pylori); e DRGE não controlada com tratamento otimizado por 2 meses. Note que a investigação de anemia ferropriva sem causa definida em adulto pede endoscopia E colonoscopia — a alternativa que pede só uma das duas está incompleta.

A ACG de 2022 monta a mesma decisão por um caminho diferente: para pirose e regurgitação clássicas sem sintoma de alarme, o primeiro passo é o teste terapêutico de 8 semanas, sem corte etário nenhum. A endoscopia é o primeiro exame quando há disfagia ou outro sintoma de alarme — o documento nomeia especificamente perda de peso e sangramento gastrointestinal — e quando o paciente tem múltiplos fatores de risco para esôfago de Barrett. Quem estabelece corte por idade é a diretriz de dispepsia da ACG com a CAG, de 2017, e o número dela é 60 anos.

A diferença entre 50 e 60 não é discordância metodológica: é epidemiologia de câncer gástrico, e o capítulo trata dela no bloco de divergências. Vale desde já registrar a régua: a idade só decide quando não há alarme. Com disfagia, emagrecimento ou sangramento, endoscopia é a conduta em qualquer idade e em qualquer documento.

Por fim, um segundo grupo de critérios que a prova confunde com o primeiro: o que manda para o gastroenterologista, e não apenas para a endoscopia. São eles esofagite graus C e D de Los Angeles, estenose péptica, hérnia hiatal com DRGE refratária ao tratamento otimizado por 2 meses, esôfago de Barrett sem displasia quando indicada vigilância, e esôfago de Barrett com displasia na biópsia. Diagnóstico de neoplasia maligna do trato gastrointestinal não vai para o gastroenterologista clínico — vai para cirurgia do aparelho digestivo ou oncologia cirúrgica.

O teste terapêutico: o que ele decide e o que ele não decide

A ACG de 2022 recomenda, com força forte e evidência moderada, um teste empírico de 8 semanas de IBP uma vez ao dia, antes da refeição, para o paciente com pirose e regurgitação clássicas sem sintoma de alarme. A leitura do resultado tem três saídas, e todas as três estão escritas no documento. Se os sintomas respondem, deve-se tentar suspender o IBP. Se não respondem adequadamente, ou se voltam assim que o IBP é retirado, indica-se endoscopia diagnóstica — idealmente após 2 a 4 semanas sem o medicamento, para que a mucosa não esteja cicatrizada pelo próprio tratamento e o exame não venha falsamente normal.

Agora o ponto que mais cai: responder ao IBP não confirma o diagnóstico. Os números estão na diretriz brasileira da FBG — o teste empírico tem sensibilidade de 71% a 78% e especificidade de apenas 44% a 54% quando comparado à endoscopia e à pHmetria. Detalhando: respondem ao IBP 68% dos pacientes com esofagite de refluxo, mas também 49% dos que têm endoscopia normal e 35% dos que têm investigação inteiramente normal. Pirose funcional e hipersensibilidade ao refluxo melhoram com IBP e melhoram com placebo. Uma especificidade em torno de 50% é, na prática, o mesmo poder discriminatório de uma moeda.

Por isso a FBG é explicitamente mais restritiva que a ACG neste ponto, e classifica o uso empírico de IBP por 8 semanas como abordagem diagnóstica e terapêutica controversa, que não deve ser usada de rotina, apenas em casos selecionados (recomendação fraca, evidência moderada). As duas posições convivem sem contradição real se o aluno separar dois verbos: tratar empiricamente o paciente típico sem alarme é conduta consagrada; diagnosticar pela resposta ao tratamento não é.

O Brasil operacionaliza tudo isso numa expressão que precisa ser reconhecida no enunciado: tratamento otimizado. No protocolo de regulação, tratamento otimizado da DRGE é a associação de medidas comportamentais com IBP em dose plena, mantida por 2 meses. Quem não controla com isso tem indicação de endoscopia ou de encaminhamento. Não é IBP em dose padrão, não é dose plena por duas semanas, e não é medida comportamental isolada.

IBP na prática: a dose, o horário e o desmame

O horário é o item mais cobrado e o mais errado na vida real: o IBP se toma de 30 a 60 minutos antes da refeição, e não ao deitar. A ACG grada essa recomendação como forte, com evidência moderada, e o protocolo brasileiro escreve 30 minutos antes do café da manhã em cada linha da tabela de doses. A farmacologia explica: o IBP é um pró-fármaco que precisa ser ativado em meio ácido e que só inativa irreversivelmente a bomba H+/K+-ATPase que estiver ativa naquele momento. Sua meia-vida plasmática é curta. Tomar em jejum, meia hora antes de comer, faz o pico plasmático coincidir com o recrutamento de bombas provocado pela refeição. Tomar ao deitar, longe de qualquer estímulo secretor, joga fora boa parte do efeito.

O vocabulário de dose é uma armadilha de tradução. No Brasil, dose padrão é omeprazol 20 mg pela manhã; dose plena ou alta é 40 mg pela manhã; dose máxima é 40 mg antes do café e antes do jantar. O que o texto internacional chama de twice daily corresponde à nossa dose máxima, não à dose plena. A tabela completa dos cinco IBPs está no bloco de critério — e a equivalência importa menos do que parece, porque o protocolo brasileiro afirma que não há evidência de superioridade de uma apresentação sobre a outra: a escolha depende de disponibilidade e tolerância.

Disponibilidade, no SUS, tem nome próprio. O único inibidor de bomba de prótons da RENAME 2024 é o omeprazol, cápsula de 10 mg e de 20 mg, no Componente Básico da Assistência Farmacêutica. Pantoprazol, esomeprazol, lansoprazol e dexlansoprazol não constam da lista. Alternativa que prescreve esomeprazol na farmácia da UBS não erra por mérito clínico — erra por indisponibilidade.

Duração inicial: 4 a 8 semanas em dose padrão uma vez ao dia, segundo a FBG; 8 semanas no teste empírico da ACG; 2 meses em dose plena no protocolo brasileiro de tratamento otimizado. Se o paciente com doença não erosiva não responde em 4 semanas, a dose pode subir para duas vezes ao dia, mas a própria FBG registra que há pouca evidência conclusiva de que isso traga alívio adicional. Antes de dobrar, cheque o óbvio: adesão e horário. Trocar de IBP uma vez é razoável; mais de uma troca não se sustenta em evidência, segundo a ACG.

O desmame é estratificado pelo achado endoscópico, e é aqui que a manutenção deixa de ser genérica. Para quem não tem esofagite erosiva nem Barrett e ficou assintomático, deve-se tentar suspender o IBP ou passar para uso sob demanda — tomar quando o sintoma aparece e parar quando alivia. Para quem precisa de manutenção, a orientação é usar a menor dose que controla o sintoma e mantém a esofagite cicatrizada. Na doença não erosiva, a ACG sugere explicitamente uso sob demanda ou intermitente. E o outro extremo: paciente com esofagite la grau C ou D tem recomendação forte de IBP de manutenção indefinidamente, ou cirurgia antirrefluxo — não é candidato a sob demanda nem a suspensão.

Sobre o temido rebote ácido após retirada abrupta, a ACG é sóbria: o fenômeno foi demonstrado em voluntários saudáveis, mas falta evidência forte de aumento real de sintomas depois da suspensão abrupta em pacientes. Não é motivo para não tentar suspender em quem tem indicação de tentar.

As outras drogas em uma linha cada. Antagonistas H2 são inferiores aos IBPs tanto para cicatrizar quanto para manter cicatrizada a esofagite erosiva (duas recomendações fortes). Alginato somado ao IBP acrescenta cerca de 14% de controle de sintomas, segundo a FBG. Procinético só com evidência objetiva de gastroparesia. Sucralfato só na gestação. Baclofeno não, na ausência de evidência objetiva de DRGE. Os bloqueadores ácidos competitivos de potássio, como a vonoprazana, mostram na FBG ganho de cicatrização de 8% a 19,3% sobre os IBPs na esofagite erosiva, 19,6% sobre o lansoprazol nos graus C e D, e cicatrizam 60% dos refratários — mas não estão na RENAME.

Endoscopia: o que ela responde e o que ela não responde

A endoscopia entra por três portas: sinal de alarme (com a idade como porta acessória quando não há alarme), falha ou recidiva após o tratamento otimizado, e rastreamento de esôfago de Barrett em quem tem múltiplos fatores de risco. Em qualquer delas, o exame idealmente é feito após 2 a 4 semanas sem IBP, porque o medicamento cicatriza a mucosa e transforma uma esofagite grau C em um exame normal.

O achado se descreve pela classificação de Los Angeles, que gradua a esofagite erosiva de A a D e é uma escala ordinal real — cada degrau é definido por tamanho, confluência e extensão circunferencial da erosão. Os quatro graus estão desenhados no bloco de critério, e as definições literais são: grau A, uma ou mais erosões de até 5 mm, nenhuma se estendendo entre os topos de duas pregas mucosas; grau B, uma ou mais erosões maiores que 5 mm, nenhuma se estendendo entre os topos de duas pregas; grau C, erosões que se estendem entre os topos de duas ou mais pregas, envolvendo menos de 75% da circunferência esofágica; grau D, erosões que envolvem 75% ou mais da circunferência.

O grau A é o mais frequente e o menos informativo. Erosões pequenas isoladas aparecem em pessoas sem sintoma nenhum, e por isso o Consenso de Lyon — tanto o 1.0 quanto o 2.0 — não aceita la grau A como evidência conclusiva de DRGE. A novidade do Lyon 2.0, de 2024, é que o grau B passou a contar como evidência conclusiva, o que antes exigia pelo menos grau C. Isso muda quem precisa de pHmetria: um paciente com la B, no critério novo, já tem DRGE provada e não precisa de monitorização para confirmar o diagnóstico.

A endoscopia normal, insistindo, não exclui a doença — apenas diz que o fenótipo é não erosivo. Se o paciente tem sintoma típico, não respondeu e a endoscopia é normal, o próximo passo não é dobrar o IBP indefinidamente: é monitorização de refluxo fora do medicamento, para separar DRGE de pirose funcional e de hipersensibilidade ao refluxo.

E o que a endoscopia muda de conduta: graus C e D mudam a manutenção (indefinida) e disparam encaminhamento ao gastroenterologista; estenose péptica dispara encaminhamento; mucosa de aspecto colunar no esôfago tubular dispara biópsia e, se confirmada metaplasia intestinal, programa de vigilância.

Esôfago de Barrett: definição, risco real e vigilância

Esôfago de Barrett é a substituição do epitélio escamoso do esôfago distal por epitélio colunar metaplásico contendo células caliciformes — ou seja, metaplasia intestinal. A ACG exige duas coisas para o diagnóstico: metaplasia intestinal comprovada em biópsia E pelo menos 1 cm de mucosa colunar no esôfago tubular. Linha Z de aspecto normal não deve ser biopsiada de rotina. Entre 5% e 12% dos pacientes com DRGE crônica têm Barrett, e ele é a única lesão precursora conhecida do adenocarcinoma de esôfago.

O risco anual é baixo, e sabê-lo em número evita duas distorções opostas — o pânico e o descaso. Para o Barrett sem displasia, a progressão para adenocarcinoma fica na faixa de 0,2% a 0,5% ao ano. O dado mais útil, porque é o que justifica a conduta, é a estratificação por comprimento: numa coorte multicêntrica de 1.883 pacientes citada pela ACG, segmentos menores que 3 cm progrediram para adenocarcinoma a 0,07% ao ano contra 0,25% ao ano nos segmentos de 3 cm ou mais. Displasia de baixo grau progride a aproximadamente 0,7% ao ano.

Rastreamento não é para todo mundo com azia. A ACG sugere uma única endoscopia de rastreamento para o paciente com sintomas crônicos de DRGE que tenha 3 ou mais fatores de risco adicionais, entre: sexo masculino, idade acima de 50 anos, raça branca, tabagismo, obesidade e história familiar de Barrett ou de adenocarcinoma de esôfago em parente de primeiro grau.

A vigilância do Barrett sem displasia segue o comprimento do segmento: menos de 3 cm, endoscopia a cada 5 anos; 3 cm ou mais, a cada 3 anos. O protocolo brasileiro resume como 3 a 5 anos em centro de referência e acrescenta dois limites que a prova gosta: não há indicação de vigilância em pacientes com mais de 75 anos, e considera-se não vigiar quem tem comorbidades limitantes. A lógica é a mesma de todo rastreamento — vigiar quem não é candidato a tratar não gera benefício.

Havendo displasia, a régua muda. Displasia de qualquer grau precisa ser confirmada por um segundo patologista com expertise em patologia gastrointestinal (recomendação forte), porque a concordância entre patologistas para displasia de baixo grau é de apenas 42%. Para displasia de baixo grau, a ACG sugere terapia endoscópica de erradicação em vez de vigilância; se o paciente e o médico optarem por vigiar, o intervalo é de 6 em 6 meses no primeiro ano e depois anual. Para displasia de alto grau, terapia endoscópica de erradicação. Lesão visível é ressecada endoscopicamente antes de qualquer ablação, e o tratamento se faz em centro de alto volume.

Uma consequência prática que fecha o assunto do IBP: Barrett não é motivo para suspender o inibidor de bomba. É o contrário — é um dos fenótipos em que a tentativa de suspensão não está indicada.

pHmetria, impedanciometria e manometria: quando cada uma, e quando nenhuma

A monitorização de refluxo responde a uma pergunta específica: este paciente tem exposição ácida esofágica anormal? Ela é indicada quando a DRGE é suspeitada mas não está clara e a endoscopia não mostra evidência objetiva de doença — e nesse cenário o exame é feito fora do IBP (recomendação forte da ACG), porque o objetivo é estabelecer o diagnóstico, não avaliar tratamento. O Consenso de Lyon 2.0 acrescenta que o maior rendimento diagnóstico está nos estudos prolongados sem fio, de 96 horas, e que a suspensão do IBP deve anteceder o exame em 2 a 4 semanas.

A recomendação simétrica é tão cobrada quanto a primeira, e é uma proibição: não se faz monitorização de refluxo fora do IBP como teste diagnóstico em quem já tem esofagite la grau C ou D à endoscopia, ou Barrett de segmento longo. Nesses pacientes o diagnóstico já está provado pela endoscopia; repetir a pergunta é submeter o paciente a um exame que não pode mudar a conduta.

Quando a DRGE já está provada e o sintoma persiste apesar do tratamento otimizado, muda a pergunta e muda o protocolo: aí se testa com o IBP, com pH-impedanciometria, para caracterizar refluxo não ácido, refluxo fracamente ácido e associação entre sintoma e episódio. A pH-impedanciometria fora do IBP também é valiosa quando a suspeita é de eructação supragástrica ou de ruminação.

Os limiares do Lyon 2.0, para quem precisar reconhecê-los no enunciado: tempo de exposição ácida acima de 6% em estudo de 24 horas, ou em pelo menos 2 dias num estudo sem fio, é evidência conclusiva de DRGE; abaixo de 4% em todos os dias, com associação sintoma-refluxo negativa, exclui. Como evidência adjuvante entram mais de 80 episódios de refluxo por dia (contra menos de 40) e impedância basal noturna média abaixo de 1500 ohms (contra acima de 2500). DRGE refratária em uso otimizado é definida por exposição ácida acima de 4% somada a mais de 80 episódios por dia. Hipersensibilidade ao refluxo é exposição ácida abaixo de 4% com associação sintoma-refluxo positiva.

A manometria esofágica de alta resolução, por sua vez, não é teste diagnóstico de DRGE — a ACG afirma isso como conceito-chave. Ela tem dois papéis: excluir acalasia e ausência de contratilidade antes de qualquer procedimento antirrefluxo, e posicionar corretamente o cateter de pHmetria. Antes de cirurgia ou de terapia endoscópica antirrefluxo, ela é obrigatória, e na motilidade esofágica ineficaz deve incluir teste provocativo com deglutições múltiplas rápidas para avaliar reserva contrátil. Operar acalasia achando que é DRGE é o desastre que essa exigência existe para evitar.

Fecha a lista de exames dispensáveis: a esofagografia baritada não deve ser usada isoladamente como teste diagnóstico de DRGE; a pHmetria orofaríngea ou faríngea não é recomendada de rotina no sintoma extraesofágico; e a pesquisa de pepsina salivar não é recomendada.

Medidas não farmacológicas: o que sustenta e o que não sustenta

Essa seção existe porque a prova cobra a diferença entre a medida que tem evidência e a lista de proibições alimentares que se repete por tradição. A ACG grada apenas uma medida de estilo de vida como recomendação forte: perda de peso em pacientes com sobrepeso e obesidade, com evidência moderada. Todas as demais são condicionais, com evidência baixa — evitar refeições nas 2 a 3 horas antes de deitar, evitar tabagismo, evitar alimentos-gatilho, elevar a cabeceira da cama para sintoma noturno.

A diretriz brasileira da FBG coloca três medidas no patamar de evidência mais firme: perda de peso em sobrepeso e obesidade, elevação da cabeceira e cessação do tabagismo. Ou seja, o Brasil é um pouco mais generoso que a ACG com a cabeceira e com o cigarro. Nos dois documentos, elevar a cabeceira é medida para sintoma noturno — não muda a pirose pós-prandial de quem reflui depois do almoço.

A FBG classifica como sustentadas por estudos, porém ainda controversas: evitar deitar logo após comer, respeitando intervalo de 2 a 3 horas; evitar o decúbito lateral direito (o esquerdo é melhor, por posição anatômica da junção); e cessação do álcool.

E o que não sustenta: a lista universal de exclusão alimentar. Café, chocolate, cítricos, tomate, refrigerante, hortelã, frituras e comida apimentada aparecem em toda orientação de consultório, mas a evidência é descrita pelos dois documentos como limitada e variável, quase sempre de estudos pequenos e não controlados. A conduta recomendada é individualizar: identificar com o paciente quais alimentos reproduzem o sintoma dele e retirar esses. Prescrever a lista inteira a todo mundo é restrição alimentar sem retorno demonstrado.

O limite de tudo isso precisa estar claro: medida comportamental não cicatriza esofagite erosiva. Ela compõe o tratamento otimizado ao lado do IBP — no protocolo brasileiro, a expressão 'tratamento otimizado' exige as duas coisas juntas — mas nunca o substitui em quem tem doença erosiva.

Cirurgia antirrefluxo: quem opera, o que é a fundoplicatura e o que dói depois

A indicação, na ACG de 2022, é recomendação forte com evidência moderada e tem uma pré-condição não negociável: evidência objetiva de DRGE. Dentro disso, os candidatos preferenciais são os pacientes com esofagite de refluxo grave (la grau C ou D), com hérnias hiatais grandes, e/ou com sintomas persistentes e incômodos, operados por cirurgião experiente. A FBG acrescenta hérnia hiatal sintomática maior que 5 cm, eventos adversos ou refratariedade ao IBP, e refluxo fracamente ácido comprovado em casos selecionados.

Há uma segunda indicação, menos clínica e mais legítima do que parece: o paciente com DRGE provada que precisaria de IBP indefinidamente e não deseja essa perspectiva. A esofagite grave não cicatriza de modo confiável com nenhum tratamento medicamentoso que não seja IBP, e volta rapidamente quando o IBP é suspenso; diante disso, cirurgia e IBP vitalício são as duas opções reais, e a escolha entre elas é compartilhada.

O paradoxo que a prova adora: os melhores resultados cirúrgicos estão nos pacientes cujo sintoma típico responde ao IBP — não nos que não respondem. Refratariedade verdadeira exige investigação antes de operar, porque frequentemente o problema não é refluxo ácido: é pirose funcional, hipersensibilidade, acalasia, ou adesão insuficiente. E, novamente, a FBG não recomenda a cirurgia para sintomas extraesofágicos.

O preparo é obrigatório e cai em questão de conduta: manometria esofágica de alta resolução antes de qualquer procedimento antirrefluxo, para excluir acalasia e ausência de contratilidade; e, se a DRGE ainda não estiver objetivamente provada, prová-la antes — não se opera refluxo presumido.

A operação: a fundoplicatura consiste em envolver o esôfago distal com o fundo gástrico, recriando a barreira antirrefluxo, associada ao fechamento dos pilares diafragmáticos quando há hérnia. A fundoplicatura de Nissen é a total, 360 graus; as parciais são a de Toupet, 270 graus posterior, e a de Dor, anterior. A escolha entre total e parcial é do cirurgião e leva em conta a motilidade esofágica.

As complicações que o aluno precisa saber nomear: disfagia pós-operatória, comum e habitualmente transitória nas primeiras semanas, persistente numa minoria; incapacidade de eructar e de vomitar, com a chamada síndrome gas-bloat, distensão e aumento de flatulência; recorrência dos sintomas ao longo do tempo, com parcela relevante dos operados voltando a usar IBP; deslizamento ou migração da válvula; e lesão vagal com gastroparesia.

As alternativas ao Nissen, em uma linha cada: o dispositivo de aumento do esfíncter magnético é opção à fundoplicatura laparoscópica em paciente com regurgitação que falhou ao tratamento clínico (recomendação forte); a fundoplicatura transoral incisionless serve a quem não deseja cirurgia e não tem esofagite grau C ou D nem hérnia maior que 2 cm (condicional); a radiofrequência tipo Stretta não é recomendada como alternativa, por dados inconsistentes; e, no paciente obeso candidato a cirurgia bariátrica, a ACG sugere o bypass gástrico em Y de Roux — nomeadamente o bypass, e não a gastrectomia vertical.

Duas vistas cirúrgicas lado a lado da fundoplicatura: à esquerda a válvula total de 360 graus, com o fundo gástrico circundando por completo o esôfago distal; à direita a válvula parcial posterior de cerca de 270 graus, que deixa livre a parede anterior do esôfago.
A fundoplicatura envolve o esôfago distal com o fundo gástrico e fecha os pilares diafragmáticos. Total (Nissen, 360 graus) à esquerda; parcial posterior (Toupet, cerca de 270 graus) à direita. A incapacidade de eructar e de vomitar e a síndrome gas-bloat derivam diretamente da competência que a válvula recria.

Uso prolongado de IBP: o que é alegado e o que a evidência sustenta

A ACG de 2022 resolveu esse tema com um conceito-chave escrito como fala para o paciente, e vale reproduzir o conteúdo. Estudos associaram o uso prolongado de IBP a infecções intestinais, pneumonia, câncer gástrico, fraturas por osteoporose, doença renal crônica, deficiências de vitaminas e minerais, infarto, acidente vascular cerebral, demência e morte precoce. Esses estudos têm falhas, não são definitivos e não estabelecem relação de causa e efeito. Estudos de alta qualidade não encontraram aumento significativo do risco de nenhuma dessas condições, exceto infecções intestinais. Não se pode excluir um pequeno aumento de risco, mas o benefício bem estabelecido do IBP na DRGE supera largamente os riscos teóricos.

Os números da própria tabela da ACG mostram por que o alarme não se sustenta: demência com odds ratio de 1,20 (intervalo de confiança de 0,81 a 1,78), fratura óssea 0,96 (0,79 a 1,17), atrofia gástrica 0,73 (0,40 a 1,32). Intervalos que atravessam o 1 não demonstram associação. Sobre câncer gástrico, a FBG registra que não há evidência de aumento de risco. A FBG classifica a qualidade global dessa literatura como muito baixa.

As condutas que decorrem disso são tão cobradas quanto a lista de riscos, e a maioria delas é de não fazer. Em paciente que usa IBP e não tem outro fator de risco para doença óssea, não se aumenta ingestão de cálcio ou vitamina D nem se faz densitometria de rotina. Sem outro fator de risco para deficiência de B12, não se dosa B12 de rotina. Sem outro fator de risco renal, não se monitora creatinina de rotina. Em paciente em uso de clopidogrel que tenha esofagite la C ou D, ou sintomas não controlados por outras terapias, o benefício estabelecido do IBP supera o risco cardiovascular proposto e altamente questionável.

A FBG, mais cautelosa, sugere monitorar vitamina B12, magnésio e função renal em idosos e frágeis, e atenção à prevenção de infecção por Clostridioides difficile. As duas posições não se contradizem: monitorar seletivamente o paciente vulnerável não é a mesma coisa que rastrear todo usuário de omeprazol.

Há um risco de mecanismo, porém, que o Maastricht VI de 2022 documenta com evidência forte e que muda conduta: o tratamento prolongado com IBP altera a topografia da gastrite por H. pylori, espalhando-a do antro para o corpo e aumentando a atrofia de corpo gástrico — o odds ratio para atrofia comparando pacientes H. pylori positivos e negativos em uso de IBP é de 11,5 (acordo de 94%, grau A1). Como a atrofia é etapa precoce do caminho para o câncer gástrico, esse é o argumento mecanístico para pesquisar e erradicar H. pylori em quem vai permanecer anos em IBP. Note que isso é diferente de erradicar H. pylori para tratar refluxo — assunto do bloco de divergências.

E o erro clínico mais caro deste tema: suspender o IBP de um paciente com esofagite la grau C ou D, ou com esôfago de Barrett, por medo dos riscos do uso prolongado. Nesses dois fenótipos, a recomendação é manutenção indefinida — a alternativa legítima não é parar, é operar.

04

Da pirose à endoscopia: o fluxo de decisão da DRGE na atenção básica

O fluxo abaixo percorre a decisão do primeiro atendimento até a cirurgia, usando o protocolo brasileiro de regulação ambulatorial como espinha dorsal e nomeando onde a ACG entra. Os cartões trazem a classificação de Los Angeles, que é a única escala ordinal verdadeira deste capítulo: cada grau é definido por tamanho, confluência e extensão circunferencial da erosão. As quatro tabelas separam o que não deve ser misturado — doses de IBP, sinais de alarme, vigilância do Barrett e indicação dos exames funcionais.

  1. 11. Caracterizar o sintoma. Pirose e regurgitação são típicos; dor torácica esofágica entra no mesmo grupo, desde que causa cardíaca já tenha sido afastada. Epigastralgia, plenitude e saciedade precoce são dispepsia — protocolo diferente, e é lá que mora a erradicação de H. pylori. Sintoma típico mais de uma vez por semana caracteriza o quadro no protocolo brasileiro.
  2. 22. Procurar sinal de alarme (tabela de alarme). Havendo qualquer um, a conduta é endoscopia digestiva alta, em qualquer idade e em qualquer documento. Não havendo, siga.
  3. 33. Aplicar o corte etário — e este é o ponto em que os documentos divergem. Protocolo brasileiro: 50 anos ou mais com dispepsia recente inexplicada indica endoscopia. Diretriz ACG/CAG de dispepsia (2017): 60 anos. Diretriz ACG de DRGE (2022): na pirose clássica sem alarme, teste terapêutico primeiro, sem corte etário.
  4. 44. Sem alarme e abaixo do corte: iniciar tratamento otimizado. Medidas comportamentais com evidência (perda de peso se sobrepeso/obesidade, não comer nas 2 a 3 h antes de deitar, elevar a cabeceira se sintoma noturno, cessar tabagismo, retirar apenas os alimentos-gatilho DAQUELE paciente) somadas a IBP. Duração: 8 semanas em dose padrão pela ACG; 2 meses em dose plena no protocolo brasileiro. Sempre de 30 a 60 minutos ANTES da refeição.
  5. 55. Reavaliar em 8 semanas. Respondeu: tentar suspender o IBP, ou passar a uso sob demanda, se não houver esofagite erosiva nem Barrett conhecidos. Não respondeu, ou recidivou ao suspender: endoscopia — idealmente depois de 2 a 4 semanas SEM o IBP. Antes de dobrar a dose, confirmar adesão e horário.
  6. 66. Ler a endoscopia. Normal: doença não erosiva, e o diagnóstico continua em aberto — se o sintoma persiste, o próximo passo é monitorização de refluxo FORA do IBP. Los Angeles A a D: ver os cartões. Mucosa colunar no esôfago tubular: biopsiar em busca de metaplasia intestinal.
  7. 77. Conduzir pelo achado. LA A ou B: manutenção com a menor dose eficaz, tentativa de desmame possível no A. LA C ou D: IBP de manutenção indefinidamente ou cirurgia antirrefluxo, e encaminhamento ao gastroenterologista. Estenose péptica: encaminhamento. Barrett: entrar no programa de vigilância (tabela do Barrett).
  8. 88. Persistindo sintoma com tratamento otimizado e DRGE já provada: pH-impedanciometria EM uso de IBP, para caracterizar refluxo não ácido e associação sintoma-refluxo. Se a DRGE não está provada e a endoscopia é normal: monitorização FORA do IBP. Nunca fazer monitorização fora do IBP só para 'confirmar' em quem já tem LA C/D ou Barrett de segmento longo.
  9. 99. Cogitando cirurgia: exigir evidência objetiva de DRGE e manometria de alta resolução para excluir acalasia e ausência de contratilidade. Candidatos preferenciais: LA C ou D, hérnia hiatal grande, sintomas persistentes e incômodos, ou recusa ao IBP indefinido. Sintoma extraesofágico isolado não é indicação.
  10. 1010. Manifestação extraesofágica: investigar causas não relacionadas ao refluxo antes de atribuir. Sem sintoma típico associado, testar antes de tratar. Com sintoma típico associado, IBP duas vezes ao dia por 8 a 12 semanas antes de novos exames. Laringoscopia isolada não fecha diagnóstico.

Los Angeles A

Uma ou mais erosões de mucosa com até 5 mm, nenhuma delas se estendendo entre os topos de duas pregas mucosas. É o grau mais frequente e o menos específico: aparece em pessoas assintomáticas, e por isso o Consenso de Lyon (1.0 e 2.0) NÃO o aceita como evidência conclusiva de DRGE.

Los Angeles B

Uma ou mais erosões maiores que 5 mm, nenhuma delas se estendendo entre os topos de duas pregas mucosas. A erosão cresceu no eixo longitudinal, mas continua confinada a uma prega. Mudança do Lyon 2.0 (2024): o grau B passou a valer como evidência conclusiva de DRGE — no Lyon 1.0 exigia-se pelo menos grau C.

Los Angeles C

Erosões que se estendem entre os topos de duas ou mais pregas mucosas — ou seja, confluem e cruzam o vale entre as pregas — envolvendo MENOS de 75% da circunferência esofágica. Já é doença grave: indica manutenção com IBP e encaminhamento ao gastroenterologista.

Los Angeles D

Erosões que envolvem 75% OU MAIS da circunferência esofágica. É o grau mais alto da escala. Junto com o grau C, define recomendação forte de IBP de manutenção indefinidamente ou cirurgia antirrefluxo, e é onde a esofagite recidiva em quase todos os pacientes dentro de 6 meses se o IBP for suspenso.

Inibidor de bomba de prótonsDose padrãoDose plena (alta)Dose máxima
Omeprazol — único IBP da RENAME 2024 (cápsula 10 e 20 mg, Componente Básico)20 mg, 30 min antes do café40 mg, 30 min antes do café40 mg antes do café e do jantar
Esomeprazol20 mg, 30 min antes do café40 mg, 30 min antes do café40 mg antes do café e do jantar
Pantoprazol20 mg, 30 min antes do café40 mg, 30 min antes do café40 mg antes do café e do jantar
Lansoprazol15 mg, 30 min antes do café30 mg, 30 min antes do café60 mg antes do café e do jantar
Dexlansoprazol30 mg, 1x/dia30 mg, 1x/dia60 mg, 1x/dia

Sinais de alarme e demais gatilhos de endoscopia digestiva alta (protocolo brasileiro de regulação)

GatilhoPor que muda a conduta
Disfagia esofágicaSuspeita de neoplasia do trato digestivo alto ou de estenose péptica; endoscopia em qualquer idade
OdinofagiaSugere lesão mucosa significativa, esofagite infecciosa ou induzida por medicamento
Emagrecimento não explicadoMarcador clássico de doença orgânica; entra na lista de suspeita de neoplasia
Vômitos persistentesSuspeita de obstrução ou de neoplasia gastroduodenal
Sangramento gastrointestinal crônico, ou anemia ferropriva sem causa definida após investigação na APSPede endoscopia E colonoscopia — investigar só o trato alto deixa metade da pergunta sem resposta
Massa epigástricaSuspeita de neoplasia gástrica
Alteração suspeita em radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodenoAchado de imagem exige confirmação histológica
Dispepsia recente com história familiar de neoplasia gástrica ou esofágica em parente de primeiro grauRisco aumentado antecipa a endoscopia independentemente da idade
Idade ≥ 50 anos com dispepsia recente de causa inexplicada (sem alarme)Corte etário brasileiro; a diretriz ACG/CAG de dispepsia usa 60 anos — ver divergências
Dispepsia em quem vai iniciar antiagregante plaquetário ou anticoagulanteEstratificar risco de sangramento antes de expor o paciente
DRGE não controlada com tratamento otimizado por 2 meses (medidas comportamentais + IBP em dose plena)Falha terapêutica define a segunda etapa da investigação

Esôfago de Barrett: vigilância por achado histológico

AchadoConduta e intervaloFonte
Sem displasia, segmento menor que 3 cmEndoscopia de vigilância a cada 5 anosACG 2022 (forte, evidência moderada)
Sem displasia, segmento de 3 cm ou maisEndoscopia de vigilância a cada 3 anosACG 2022 (forte, evidência moderada)
Sem displasia (conduta operacional brasileira)Encaminhar a centro de referência para endoscopia a cada 3 a 5 anos; sem indicação de vigilância acima de 75 anos; considerar não vigiar se comorbidades limitantesProtocolo de regulação ambulatorial, Quadro 10 (2025)
Displasia de baixo grau (confirmada por 2º patologista com expertise em GI)Terapia endoscópica de erradicação sugerida; se optado por vigilância, endoscopia de 6 em 6 meses por 1 ano e depois anualACG 2022 (condicional, evidência moderada)
Displasia de alto grauTerapia endoscópica de erradicação, em centro de alto volume; ressecar endoscopicamente lesão visível antes de ablarACG 2022
Risco de progressão para adenocarcinomaSem displasia: 0,2% a 0,5% ao ano (0,07%/ano se menor que 3 cm; 0,25%/ano se 3 cm ou mais). Baixo grau: cerca de 0,7% ao anoACG 2022

Exames funcionais: quando indicar e quando não indicar

CenárioIndicado?Fonte
DRGE suspeitada e não provada, endoscopia sem evidência objetiva de doençaSim — monitorização de refluxo FORA do IBP, após 2 a 4 semanas sem o medicamentoACG 2022 (forte); Lyon 2.0 (2024) prefere estudo sem fio de 96 h
Paciente já com esofagite LA grau C ou D, ou Barrett de segmento longoNão — não fazer monitorização fora do IBP como teste diagnóstico; o diagnóstico já está provadoACG 2022 (forte)
DRGE provada, sintoma persistente apesar de tratamento otimizadoSim — pH-impedanciometria EM uso de IBP, para refluxo não ácido e associação sintoma-refluxoLyon 2.0 (2024)
Suspeita de eructação supragástrica, ruminação, ou sintoma pulmonar a esclarecerSim — pH-impedanciometria fora do IBPLyon 2.0 (2024)
Manometria de alta resolução como teste diagnóstico de DRGENãoACG 2022 (conceito-chave)
Manometria de alta resolução antes de cirurgia ou terapia endoscópica antirrefluxoSim, obrigatória — excluir acalasia e ausência de contratilidade; provocar com deglutições múltiplas rápidas se motilidade ineficazACG 2022
Esofagografia baritada isolada como teste diagnóstico de DRGENãoACG 2022 (condicional)
pHmetria orofaríngea/faríngea ou pepsina salivar no sintoma extraesofágicoNão recomendadasACG 2022

Los Angeles grau A não é evidência conclusiva de DRGE em nenhuma versão do Consenso de Lyon; grau B só passou a ser no Lyon 2.0, de 2024.

Endoscopia normal não exclui DRGE — define o fenótipo não erosivo, que é o mais comum.

Suspender o IBP por 2 a 4 semanas antes da endoscopia diagnóstica evita o exame falsamente normal.

Tratamento otimizado, no vocabulário brasileiro, é medidas comportamentais MAIS IBP em dose plena, por 2 meses. Faltando qualquer uma das duas partes, o tratamento não foi otimizado e a falha não está caracterizada.

Erradicação de H. pylori compõe o tratamento otimizado da DISPEPSIA, não o da DRGE.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Idade de corte para indicar endoscopia no paciente sem sinais de alarme

Protocolo brasileiro de regulação ambulatorial (2025): 50 anos

Pessoa com 50 anos ou mais e dispepsia recente de causa inexplicada tem indicação de endoscopia digestiva alta, mesmo sem sinal de alarme. O mesmo protocolo mantém na atenção primária o paciente com DRGE ou dispepsia que responde ao tratamento clínico, independentemente da idade.

TelessaúdeRS-UFRGS / SES-RS. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto, 3. ed., 2025 — Protocolos 7 e 9.

ACG e CAG, diretriz de dispepsia (2017): 60 anos

Pacientes com 60 anos ou mais e dispepsia devem ser investigados com endoscopia para excluir doença orgânica. Abaixo de 60 anos, a diretriz não indica endoscopia para investigar sinais de alarme de rotina, orientando avaliação caso a caso, e sugere primeiro teste não invasivo para H. pylori com tratamento se positivo, seguido de IBP nos negativos ou nos que não respondem. O próprio documento ressalva que quem passou a infância em país de alto risco para câncer gástrico, ou tem história familiar positiva, pode ser endoscopado mais cedo.

Moayyedi P. et al. ACG and CAG Clinical Guideline: Management of Dyspepsia. Am J Gastroenterol 2017;112(7):988–1013.

ACG, diretriz de DRGE (2022): sem corte etário na pirose clássica

Para pirose e regurgitação clássicas sem sintomas de alarme, a conduta inicial é teste empírico de IBP por 8 semanas, sem qualquer limiar de idade. A endoscopia é o primeiro exame diante de disfagia ou de outro sintoma de alarme (perda de peso, sangramento gastrointestinal) e em quem tem múltiplos fatores de risco para esôfago de Barrett — critério de risco, não de idade isolada.

Katz P.O. et al. ACG Clinical Guideline for the Diagnosis and Management of GERD. Am J Gastroenterol 2022;117(1):27–56, recomendações 1 e 6.

Na prova

A causa da diferença é epidemiológica, não metodológica: incidência de câncer gástrico na população. O INCA estima cerca de 22.530 casos novos de câncer de estômago por ano no triênio 2026-2028, quinto tumor mais frequente do país e segundo ou terceiro nas regiões de menor IDH — um patamar bem acima do norte-americano. Quanto maior a probabilidade pré-teste de neoplasia gástrica, mais cedo compensa endoscopar; a própria diretriz ACG/CAG autoriza antecipar em quem vem de país de alto risco. Como identificar o recorte: vinheta em UBS, Estratégia Saúde da Família, regulação do SUS, ou prova do MEC, ENAMED, Revalida e concursos de APS trabalham com o corte de 50 anos. Enunciado que cita nominalmente a ACG, que se passa em cenário norte-americano, ou cuja alternativa fala em 'test-and-treat' para H. pylori antes da endoscopia, está no mundo dos 60 anos. E há a régua que dispensa a discussão: se a vinheta traz disfagia, emagrecimento, vômitos persistentes, anemia ferropriva ou massa epigástrica, a idade deixa de decidir — endoscopia em qualquer documento e em qualquer faixa etária.

Consenso de Lyon 2.0 (2024): o que caiu e o que entrou nos critérios diagnósticos

Lyon 1.0 (2018)

Evidência conclusiva de DRGE: esofagite de refluxo graus C e D de Los Angeles, esôfago de Barrett confirmado por biópsia e estenose péptica. Tempo de exposição ácida acima de 6% em pHmetria era conclusivo; abaixo de 4%, normal; a faixa entre 4% e 6% era zona de incerteza diagnóstica. Los Angeles grau B não bastava para diagnóstico conclusivo.

Gyawali C.P. et al. Modern diagnosis of GERD: the Lyon Consensus. Gut 2018;67(7):1351–1362.

Lyon 2.0 (2024)

Los Angeles grau B ENTRA como evidência conclusiva de DRGE, ao lado de C, D, Barrett comprovado por biópsia e estenose péptica. A exposição ácida acima de 6% permanece conclusiva, agora especificada como estudo de 24 h ou pelo menos 2 dias em monitorização sem fio; abaixo de 4% em todos os dias, com associação sintoma-refluxo negativa, exclui DRGE. Entram como evidência adjuvante mais de 80 episódios de refluxo por dia (contra menos de 40) e impedância basal noturna média abaixo de 1500 ohms (contra acima de 2500), além de hérnia hiatal, junção esofagogástrica hipotensiva e motilidade esofágica ineficaz. Passa a haver definição própria de DRGE refratária em terapia otimizada — exposição ácida acima de 4% somada a mais de 80 episódios por dia — e de hipersensibilidade ao refluxo (exposição abaixo de 4% com associação sintoma-refluxo positiva). O estudo sem fio de 96 horas é apontado como o de maior rendimento.

Gyawali C.P., Yadlapati R., Fass R. et al. Updates to the modern diagnosis of GERD: Lyon consensus 2.0. Gut 2024;73(2):361–371.

Na prova

Prova brasileira com recorte de atenção primária raramente chega a esse nível — o vocabulário de Lyon denuncia questão de especialista ou de instituição com viés terciário. Sinais de que o enunciado está no mundo de Lyon: 'tempo de exposição ácida', 'AET', 'impedância basal noturna', 'evidência conclusiva de DRGE', 'monitorização prolongada sem fio'. Para datar o recorte, olhe o que o enunciado faz com o grau B: alternativa que trata Los Angeles B como achado inconclusivo, exigindo pHmetria para confirmar, está falando de Lyon 1.0 (2018); alternativa que considera o grau B suficiente para diagnóstico está em Lyon 2.0 (2024). Registre também o ano de cada documento, porque questão de atualização costuma pedir exatamente qual mudou e quando.

Erradicação de Helicobacter pylori na doença do refluxo gastroesofágico

Maastricht VI/Florence (2022): erradicar não piora o refluxo, e o IBP prolongado é argumento para erradicar

O uso amplo de terapias de erradicação não leva a aumento de outras patologias graves (acordo de 84%, grau B2). A discussão do consenso desmonta a alegação de que erradicar provoca dano esofágico clinicamente relevante: metanálises recentes mostram associação fraca entre a infecção e MENOS sintomas de refluxo e associação negativa fraca com esofagite leve, e estudo populacional sueco não encontrou aumento de risco de adenocarcinoma de esôfago após erradicação. Em paralelo, o tratamento prolongado com IBP espalha a gastrite do antro para o corpo e aumenta a atrofia de corpo gástrico em quem tem H. pylori (odds ratio de 11,5 para atrofia; acordo de 94%, grau A1) — o que sustenta pesquisar e tratar a infecção em quem vai permanecer anos sob supressão ácida.

Malfertheiner P. et al. Maastricht VI/Florence consensus report. Gut, 8 ago. 2022 — Statements 11 e 16.

Protocolo brasileiro de regulação (2025): H. pylori é do eixo da dispepsia, não do eixo da DRGE

No Protocolo 9 (dispepsia), tratamento clínico otimizado é definido como IBP por 8 semanas MAIS erradicação de H. pylori, se infecção comprovada. No Protocolo 10 (DRGE), tratamento otimizado é definido como medidas comportamentais MAIS IBP em dose plena por 2 meses — sem qualquer menção a H. pylori. A separação é explícita nos dois textos.

TelessaúdeRS-UFRGS / SES-RS. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto, 3. ed., 2025 — Protocolos 9 e 10.

ACG, diretriz de DRGE (2022): H. pylori não figura entre as condutas da DRGE

O documento cobre diagnóstico, estilo de vida, tratamento medicamentoso, manifestações extraesofágicas, DRGE refratária, cirurgia, endoscopia terapêutica e segurança do IBP a longo prazo. Nenhuma das recomendações ou conceitos-chave inclui testar ou erradicar H. pylori como parte do manejo da DRGE; a bactéria aparece apenas na discussão dos mecanismos propostos de efeito adverso do IBP crônico.

Katz P.O. et al. ACG Clinical Guideline for the Diagnosis and Management of GERD. Am J Gastroenterol 2022;117(1):27–56.

Na prova

A chave é qual eixo o enunciado descreve. Vinheta de pirose e regurgitação — DRGE pura — não pede pesquisa nem erradicação de H. pylori como tratamento do refluxo, e a alternativa que erradica 'para curar a azia' denuncia confusão entre os dois protocolos. Vinheta de epigastralgia, plenitude, saciedade precoce ou úlcera péptica é dispepsia, e aí a erradicação faz parte do tratamento otimizado no Brasil e da estratégia test-and-treat abaixo de 60 anos na ACG/CAG. Há um terceiro cenário que reúne os dois mundos e cai como questão difícil: paciente que ficará em IBP por tempo indefinido — Barrett, esofagite grau C ou D — em que o argumento do Maastricht VI (atrofia de corpo sob supressão ácida em H. pylori positivo) sustenta pesquisar e tratar a infecção, o que é diferente de tratar o refluxo. Repare no distrator clássico: alternativa que diz para não erradicar H. pylori por medo de desencadear refluxo repete uma preocupação de 1997 que o Maastricht VI descreve como não sustentada por achados consistentes.

Manutenção com IBP: uso sob demanda ou contínuo

FBG (2024): as duas formas se equivalem, e a escolha é do médico assistente

Não há diferença entre as duas formas de manutenção terapêutica — tratamento contínuo ou sob demanda — cabendo a avaliação caso a caso ao médico assistente. A diretriz contextualiza com as taxas de recidiva: dois terços dos pacientes voltam a apresentar sintomas depois de interromper o tratamento da DRGE não erosiva, e praticamente todos os pacientes com esofagite graus C e D recidivam em 6 meses.

FBG. Brazilian clinical guideline for the therapeutic management of GERD. Arq Gastroenterol 2024;61:e23154.

ACG (2022): a decisão é estratificada pelo fenótipo endoscópico

Em pacientes SEM esofagite erosiva e SEM esôfago de Barrett cujos sintomas resolveram, deve-se tentar suspender o IBP ou passar a uso sob demanda (condicional, evidência baixa); na doença não erosiva, sugere-se explicitamente terapia sob demanda ou intermitente (condicional). Quem necessita manutenção deve usar a menor dose eficaz. Mas para esofagite Los Angeles grau C ou D a recomendação é FORTE, com evidência moderada: IBP de manutenção indefinidamente ou cirurgia antirrefluxo.

Katz P.O. et al. ACG Clinical Guideline for GERD. Am J Gastroenterol 2022;117(1):27–56, recomendações 9, 10, 12 e 16.

Na prova

O que diferencia as duas posições não é o fármaco, é o quanto cada documento condiciona a decisão ao achado endoscópico — a FBG trata as duas modalidades como equivalentes e delega ao julgamento clínico; a ACG separa por fenótipo. Como identificar o recorte: procure na vinheta se existe endoscopia. Vinheta com endoscopia normal ou doença não erosiva permite sob demanda nos dois documentos. Vinheta que dá esofagite Los Angeles C ou D, ou esôfago de Barrett, coloca a alternativa 'manter sob demanda' ou 'suspender após melhora' em conflito direto com uma recomendação forte da ACG — e o par legítimo ali é IBP indefinido ou cirurgia. Vinheta sem endoscopia nenhuma, com paciente típico que respondeu ao teste terapêutico, admite tentativa de suspensão, que é o que os dois documentos orientam nesse cenário.

O teste terapêutico com IBP como estratégia diagnóstica

ACG (2022): teste empírico de 8 semanas como primeiro passo, recomendação forte

Para pacientes com sintomas clássicos de pirose e regurgitação sem sintomas de alarme, recomenda-se teste de 8 semanas de IBP empírico uma vez ao dia, antes da refeição (recomendação forte, evidência moderada). Respondendo, deve-se tentar suspender; não respondendo adequadamente, ou recidivando à suspensão, indica-se endoscopia após 2 a 4 semanas sem o medicamento.

Katz P.O. et al. ACG Clinical Guideline for GERD. Am J Gastroenterol 2022;117(1):27–56, recomendações 1 a 3.

FBG (2024): abordagem controversa, fora do uso de rotina

O uso empírico de IBP por 8 semanas é abordagem diagnóstica e terapêutica controversa, que não deve ser utilizada rotineiramente, apenas em casos selecionados (recomendação fraca, evidência moderada). O argumento é de desempenho: sensibilidade de 71% a 78% e especificidade de apenas 44% a 54% frente a endoscopia e pHmetria, com resposta ao IBP em 68% dos pacientes com esofagite, mas também em 49% dos com endoscopia normal e 35% dos com investigação normal.

FBG. Brazilian clinical guideline for the therapeutic management of GERD. Arq Gastroenterol 2024;61:e23154.

Na prova

Repare que a discordância é sobre o STATUS do teste, não sobre tratar: os dois documentos concordam que responder ao IBP não estabelece o diagnóstico. Se a alternativa afirma que a melhora com omeprazol CONFIRMA DRGE, ela é incompatível com os dois documentos ao mesmo tempo — os números de especificidade em torno de 50% são justamente o que impede essa leitura. A separação útil está no verbo do comando: enunciado que pergunta a CONDUTA INICIAL do paciente típico sem alarme está no terreno em que o tratamento empírico é a resposta consagrada; enunciado que pergunta como CONFIRMAR ou DOCUMENTAR o diagnóstico exige método objetivo — endoscopia ou monitorização de refluxo fora do IBP. Recorte de vinheta em UBS brasileira ainda descreve a etapa empírica pelo vocabulário do protocolo de regulação: medidas comportamentais mais IBP em dose plena por 2 meses.

06

Caso resolvido

Homem de 43 anos procura a UBS por queimação retroesternal que sobe até a garganta, três a quatro vezes por semana, há oito meses, pior à noite e depois do jantar. Refere também retorno de líquido ácido à boca ao se abaixar. Nega disfagia, odinofagia, vômitos, sangramento ou perda de peso — pelo contrário, ganhou 6 kg no último ano. IMC 29 kg/m². Tabagista de 10 cigarros ao dia. Comprou omeprazol 20 mg por conta própria e toma 'quando aperta', sempre ao deitar, com pouca melhora. Exame físico sem alterações; sem massa epigástrica. Hemograma normal.
achado
Os dois sintomas são típicos: pirose e regurgitação, mais de uma vez por semana — o critério que o protocolo brasileiro usa para caracterizar o quadro. Não há sintoma extraesofágico dominando o quadro, então não se aplica a regra de investigar causas alternativas antes de tratar.
achado
Não há nenhum sinal de alarme. Percorrendo a lista inteira: sem disfagia, sem odinofagia, sem emagrecimento (ganhou peso), sem vômitos persistentes, sem sangramento ou anemia ferropriva, sem massa epigástrica, sem história familiar de neoplasia gástrica ou esofágica relatada. Ele também não vai iniciar antiagregante nem anticoagulante.
achado
Tem 43 anos — abaixo do corte brasileiro de 50 anos e abaixo do corte de 60 anos da diretriz ACG/CAG de dispepsia. Sem alarme e abaixo do corte, a endoscopia não é o primeiro passo em nenhum dos documentos.
raciocínio
Ele não é um caso de falha terapêutica, e essa é a leitura que muda tudo. Ele nunca fez tratamento otimizado: usa o IBP sob demanda antes de ter feito o curso inicial, e usa no horário errado — ao deitar, quando as bombas de prótons estão em repouso e o pró-fármaco encontra pouca enzima ativa para inativar. Chamar isso de refratariedade e pedir endoscopia ou dobrar a dose seria escalonar em cima de um tratamento que ainda não foi feito.
raciocínio
Ele reúne três alvos comportamentais com evidência: sobrepeso (IMC 29), tabagismo e sintoma noturno pós-prandial. Perda de peso em sobrepeso e obesidade é a única medida de estilo de vida com recomendação forte na ACG; cessação do tabagismo e elevação da cabeceira têm evidência descrita como firme pela FBG; evitar refeições nas 2 a 3 horas antes de deitar é medida condicional que se aplica exatamente ao padrão dele.
conduta
Iniciar tratamento otimizado: omeprazol — o único IBP da RENAME 2024, disponível na farmácia da unidade — de 30 a 60 minutos ANTES do café da manhã, diariamente, por 8 semanas, associado às medidas comportamentais: perda de peso, cessação do tabagismo, última refeição pelo menos 2 a 3 horas antes de deitar, elevação da cabeceira da cama e retirada apenas dos alimentos que reproduzam o sintoma dele — não uma lista universal de proibições.
conduta
Reavaliar em 8 semanas com um plano já definido para cada desfecho. Respondendo, tentar suspender o IBP, já que não há esofagite erosiva nem Barrett conhecidos; se os sintomas retornarem, discutir uso sob demanda. Não respondendo, ou recidivando à suspensão, aí sim endoscopia digestiva alta — e idealmente após 2 a 4 semanas sem o IBP, para não receber um exame falsamente normal.
07

Agora feche você

Mulher de 57 anos, acompanhada na UBS por pirose há cerca de seis anos, com boa resposta inicial ao omeprazol. Há quatro meses relata que a comida 'entala' no meio do peito, primeiro com carne e pão, agora também com arroz; passou a cortar os alimentos em pedaços muito pequenos e a beber água a cada garfada. Perdeu 5 kg em três meses sem intenção. Mantém omeprazol 40 mg pela manhã há um ano, com adesão confirmada pela dispensação na unidade, e refere que a queimação até melhorou nos últimos meses. Exame físico: emagrecida, sem massa epigástrica palpável. Hemoglobina 10,4 g/dL, VCM 76 fL, ferritina baixa.
achado
Ela tem disfagia esofágica — dificuldade que começa segundos após a deglutição, com sensação de alimento parado na região torácica — e a disfagia é PROGRESSIVA, tendo saído de sólidos duros para alimentos mais macios. Isso é sinal de alarme isolado e suficiente.
achado
Somam-se outros dois sinais de alarme independentes: emagrecimento não explicado de 5 kg em três meses e anemia microcítica com ferritina baixa, ou seja, anemia por deficiência de ferro sem causa definida. Três sinais de alarme na mesma paciente.
achado
A melhora paradoxal da pirose ao longo dos últimos meses não é boa notícia e não deve tranquilizar: obstrução mecânica progressiva do esôfago distal — por estenose péptica ou por neoplasia — pode reduzir a queimação enquanto piora a passagem do alimento.
achado
Ela tem 57 anos, acima do corte brasileiro de 50 anos, mas isso é irrelevante aqui: com sinal de alarme, a idade deixa de decidir. Também é irrelevante o argumento de 'otimizar mais' — ela já está em IBP em dose plena, com adesão confirmada, há um ano.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever o IBP ao deitar, junto com a refeição, ou 'em jejum' sem comer depois É o erro mais frequente da prática e uma alternativa recorrente em prova. O IBP é pró-fármaco que só inativa a bomba H+/K+-ATPase que estiver ativa, e tem meia-vida plasmática curta; por isso precisa ser tomado de 30 a 60 minutos ANTES da refeição, para que o pico plasmático coincida com o recrutamento de bombas pela comida. A ACG grada essa recomendação como forte, com evidência moderada, e o protocolo brasileiro escreve 30 minutos antes do café em cada linha da tabela de doses. Tomar ao deitar desperdiça a dose; tomar em jejum e não comer também. Antes de dobrar a dose de qualquer paciente 'refratário', pergunte a que horas ele toma o comprimido.
  2. 2Concluir que a melhora com o IBP confirma o diagnóstico de DRGE O teste terapêutico tem sensibilidade de 71% a 78% e especificidade de apenas 44% a 54% frente a endoscopia e pHmetria. Respondem ao IBP 68% dos pacientes com esofagite de refluxo, mas também 49% dos com endoscopia normal e 35% dos com investigação inteiramente normal — pirose funcional e hipersensibilidade ao refluxo melhoram com IBP e com placebo. Tratar empiricamente o paciente típico sem alarme é conduta consagrada; diagnosticar pela resposta ao tratamento não é. Documentar o diagnóstico exige método objetivo: endoscopia com achado característico ou monitorização de refluxo fora do IBP.
  3. 3Tratar endoscopia normal como exclusão de DRGE A doença não erosiva é o fenótipo mais comum: o paciente tem sintoma típico e mucosa íntegra. Endoscopia normal define fenótipo, não afasta doença. Em quem tem sintoma típico persistente com endoscopia normal, o próximo passo não é dobrar o IBP indefinidamente nem declarar ausência de refluxo — é monitorização de refluxo FORA do IBP, que separa DRGE de pirose funcional e de hipersensibilidade ao refluxo. A recíproca também engana: esofagite Los Angeles grau A é achado frequente e pouco específico, e o Consenso de Lyon não a aceita como evidência conclusiva de DRGE em nenhuma de suas versões.
  4. 4Suspender o IBP de paciente com esofagite grau C ou D, ou com Barrett, por medo do uso prolongado A ACG é explícita: estudos de alta qualidade não encontraram aumento significativo do risco de nenhuma das condições atribuídas ao IBP crônico, exceto infecções intestinais — demência com odds ratio de 1,20 (0,81 a 1,78), fratura 0,96 (0,79 a 1,17), atrofia gástrica 0,73 (0,40 a 1,32). E a esofagite grave recidiva em praticamente todos os pacientes dentro de 6 meses após a suspensão. Para Los Angeles C ou D, a recomendação é forte: manutenção indefinida ou cirurgia antirrefluxo. A alternativa legítima à droga não é parar, é operar. Barrett também não é motivo para suspender.
  5. 5Erradicar Helicobacter pylori como tratamento do refluxo — ou deixar de erradicar por medo de causá-lo Os dois lados desse erro caem. A erradicação de H. pylori integra o tratamento otimizado da DISPEPSIA no protocolo brasileiro, e não o da DRGE, cujo tratamento otimizado é medidas comportamentais mais IBP em dose plena por 2 meses. Mas a inversão também é armadilha: recusar a erradicação em quem tem indicação, alegando que ela desencadeia refluxo, repete uma preocupação de 1997 que o Maastricht VI de 2022 descreve como não sustentada por achados consistentes — e o mesmo consenso registra que o IBP prolongado aumenta a atrofia de corpo gástrico em quem tem a infecção, com odds ratio de 11,5, o que é argumento a favor de pesquisar e tratar em quem ficará anos sob supressão ácida.
  6. 6Indicar cirurgia antirrefluxo pelo sintoma que não respondeu ao IBP Parece lógico e é o inverso do que os documentos dizem: os melhores resultados da fundoplicatura estão em quem tem sintoma típico que RESPONDE ao IBP. Refratariedade verdadeira exige investigar antes de operar, porque frequentemente não é refluxo ácido — é pirose funcional, hipersensibilidade, adesão insuficiente, horário errado, ou acalasia. Duas exigências absolutas: evidência objetiva de DRGE e manometria de alta resolução prévia para excluir acalasia e ausência de contratilidade. E a FBG não recomenda cirurgia antirrefluxo para sintomas extraesofágicos.
  7. 7Prescrever a lista universal de proibições alimentares como se fosse tratamento Café, chocolate, cítricos, tomate, refrigerante, hortelã e frituras aparecem em toda orientação de consultório, mas a evidência para a exclusão universal é descrita pelos dois documentos como limitada e variável, quase sempre de estudos pequenos e não controlados. A conduta é individualizar — retirar os alimentos que reproduzem o sintoma daquele paciente. A única medida de estilo de vida com recomendação FORTE na ACG é perda de peso em sobrepeso e obesidade. E nenhuma medida comportamental cicatriza esofagite erosiva: elas compõem o tratamento otimizado ao lado do IBP, nunca no lugar dele.
  8. 8Pedir pHmetria para 'confirmar' DRGE em quem já tem esofagite grau C ou D ou Barrett longo Existe recomendação forte da ACG contra fazer monitorização de refluxo fora do IBP como teste diagnóstico nesses pacientes: o diagnóstico já está estabelecido pela endoscopia, e repetir a pergunta submete o paciente a exame que não pode mudar a conduta. Nesses casos, se ainda houver sintoma apesar do tratamento otimizado, a pergunta é outra — e o exame é pH-impedanciometria EM uso de IBP, para caracterizar refluxo não ácido e associação sintoma-refluxo. Manometria, por sua vez, não é teste diagnóstico de DRGE em situação alguma; ela é obrigatória antes de procedimento antirrefluxo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Os inibidores da bomba de prótons (IBP) são a classe mais eficaz no controle sintomático e na cicatrização da esofagite por refluxo, sendo o tratamento de primeira linha. Antiácidos oferecem apenas alívio pontual, sem cicatrizar esofagite. Os antagonistas H2 são menos potentes que os IBP e sofrem taquifilaxia. Procinéticos são adjuvantes, não primeira linha isolada. O sucralfato tem papel limitado e não é a droga de escolha na DRGE.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar, a lista completa de sinais de alarme: disfagia esofágica, odinofagia, emagrecimento não explicado, vômitos persistentes, sangramento gastrointestinal crônico ou anemia ferropriva sem causa definida, massa epigástrica, alteração suspeita em radiografia contrastada e dispepsia recente com história familiar de neoplasia gástrica ou esofágica em parente de primeiro grau. Em seguida, os três números do IBP: 30 a 60 minutos ANTES da refeição, dose padrão por 8 semanas (2 meses em dose plena no protocolo brasileiro), e omeprazol como único IBP da RENAME 2024. Feche recitando os quatro graus de Los Angeles pela definição, não pela impressão: A é erosão de até 5 mm sem cruzar o topo de duas pregas; B é maior que 5 mm sem cruzar; C cruza o topo de duas ou mais pregas com menos de 75% da circunferência; D envolve 75% ou mais da circunferência.

em 30 dias

Percorra o fluxo inteiro em voz alta, do primeiro atendimento à cirurgia, dizendo os números em cada bifurcação. Sinal de alarme presente: endoscopia em qualquer idade. Sem alarme: 50 anos no Brasil, 60 anos na ACG/CAG de dispepsia, e sem corte etário na ACG de DRGE. Tratamento otimizado: medidas comportamentais mais IBP em dose plena por 2 meses. Falhou ou recidivou: endoscopia após 2 a 4 semanas sem IBP. Los Angeles C ou D: manutenção indefinida ou cirurgia, e encaminhamento. Barrett sem displasia: 5 anos se o segmento tem menos de 3 cm, 3 anos se tem 3 cm ou mais, sem vigilância acima de 75 anos; risco de progressão de 0,2% a 0,5% ao ano sem displasia e cerca de 0,7% ao ano na displasia de baixo grau, que já tem terapia endoscópica de erradicação sugerida. Monitorização de refluxo: fora do IBP quando a DRGE não está provada e a endoscopia é normal, nunca em quem já tem C/D ou Barrett longo; em uso de IBP quando a DRGE está provada e o sintoma persiste. Manometria: nunca como diagnóstico, sempre antes de operar. E o par que fecha o capítulo: perda de peso é a única medida de estilo de vida com recomendação forte; responder ao IBP não confirma o diagnóstico.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 46 anos chega à UBS reclamando de queimação no peito quase todo dia há quase um ano, que piora quando ele deita depois do jantar, e de um gosto ácido que sobe até a boca. Já tomou omeprazol comprado na farmácia várias vezes, sempre à noite antes de dormir, e diz que 'não resolve nada'. Está mais pesado do que no ano passado e continua fumando. Cabe a você decidir: este paciente precisa de endoscopia agora ou não? Se não precisa, qual é exatamente o esquema — qual droga, qual dose, a que horas e por quanto tempo — e quais medidas comportamentais têm evidência para entrar junto? Colha a anamnese procurando ativamente cada sinal de alarme, decida a conduta e explique ao paciente o que vai acontecer se ele melhorar e o que vai acontecer se não melhorar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença do refluxo gastroesofágico — Preparatório para provas | OsceLabs