Clínica MédicaGastroenterologia

Doença ulcerosa péptica e H. pylori

Doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori

Quem endoscopar na dispepsia, como diagnosticar e erradicar o H. pylori — e o seguimento que só a úlcera gástrica exige.

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 40 anos procura atendimento por dor epigástrica em queimação, com melhora ao alimentar-se e despertar noturno. Endoscopia digestiva alta revela úlcera duodenal de 8 mm, sem sinais de sangramento. A pesquisa de Helicobacter pylori pelo teste da urease foi positiva. Qual é a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

Duas causas respondem por quase todas as úlceras pépticas: o Helicobacter pylori e os anti-inflamatórios. Em prova, o tema aparece como uma sequência de quatro decisões — quem endoscopar na dispepsia, como procurar a bactéria (e em que condições o teste vale), qual esquema erradica e como provar a cura — mais um apêndice que derruba muita gente: o seguimento diferente que a úlcera gástrica exige, porque ali a pergunta de fundo é sempre câncer.

O terreno acabou de mudar. De 2018 até 2025 a régua nacional foi o IV Consenso Brasileiro, que mantinha a tripla com claritromicina por 14 dias como primeira linha. O V Consenso, apresentado na SBAD de novembro de 2025 e publicado em 2026, promoveu a quádrupla com bismuto ao posto de primeira escolha e incorporou a vonoprazana — resposta ao avanço da resistência à claritromicina, que alinhou o Brasil a Maastricht VI e ao ACG. As provas dos próximos anos vão conviver com os dois mundos, e este capítulo ensina a régua vigente e como reconhecer qual recorte a questão está usando.

A hemorragia digestiva alta tem capítulo próprio (reposição, escores, momento da endoscopia e classificação de Forrest); aqui entram apenas as decisões que pertencem à úlcera — quando pesquisar a bactéria no sangramento, por que o teste negativo da urgência não encerra o caso e o que a erradicação muda no risco de ressangrar.

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O que muda decisão

A doença e seus dois culpados

Úlcera péptica é a perda de substância da parede gástrica ou duodenal que ultrapassa a muscular da mucosa — é isso que a distingue da erosão, superficial. A localização mais comum é o bulbo duodenal, seguido do estômago (tipicamente pequena curvatura e incisura angular). A distinção não é acadêmica: a úlcera duodenal praticamente nunca é maligna; a gástrica exige excluir neoplasia até prova em contrário.

O H. pylori é um bacilo gram-negativo espiralado, produtor de urease, adquirido na infância — no Brasil, a transmissão acompanha as condições sanitárias e de moradia, e em áreas de baixa renda metade das crianças de 2 a 5 anos já está infectada. A infecção persiste por décadas e causa gastrite crônica em todos os portadores, mas só uma minoria (na ordem de 10% a 15% ao longo da vida) desenvolve úlcera.

O padrão topográfico da gastrite decide qual doença aparece. Colonização predominante no antro poupa o corpo, aumenta a gastrina e a secreção ácida — o excesso de ácido chega ao duodeno e produz a úlcera duodenal. Já a pangastrite com envolvimento do corpo caminha para hipocloridria, atrofia e metaplasia intestinal: é o terreno da úlcera gástrica, do adenocarcinoma e do linfoma MALT.

Os anti-inflamatórios (incluindo AAS em dose baixa) são a segunda grande causa: inibem a Cox-1 e retiram a proteção das prostaglandinas sobre a mucosa. H. pylori e AINE são fatores independentes que se potencializam quando coexistem — por isso a bactéria deve ser procurada e erradicada antes de tratamento prolongado com AINE ou AAS. Os fatores que mais elevam o risco de úlcera e sangramento no usuário de AINE são idade avançada (65 anos ou mais), úlcera ou hemorragia prévia, associação de dois AINEs, uso concomitante de antiagregante ou anticoagulante e tabagismo — é esse grupo que justifica IBP profilático enquanto durar o AINE.

Sobram poucas úlceras fora dessas duas causas. Diante de úlceras múltiplas, refratárias ou além do bulbo, pense em uso não relatado de AINE e, na sequência, em síndrome de Zollinger-Ellison (gastrinoma) — a dosagem de gastrina é o primeiro passo.

Corte do estômago e do duodeno mostrando uma úlcera no bulbo duodenal, outra na incisura da pequena curvatura e bactérias espiraladas concentradas sobre o antro.
A topografia da gastrite decide a doença: colonização antral poupa o corpo, aumenta ácido e produz úlcera duodenal; a pangastrite de corpo leva a hipocloridria e atrofia — terreno da úlcera gástrica e do câncer.

Dispepsia: quem vai direto à endoscopia

Dispepsia é dor ou desconforto persistente ou recorrente no andar superior do abdome — queixa que atinge 10% a 30% da população mundial e, num estudo de base populacional em Pelotas citado pelo consenso brasileiro, 44% dos entrevistados. A minoria tem doença orgânica; o trabalho do generalista é separar quem precisa do endoscópio de quem pode ser resolvido sem ele.

Sinais de alarme mandam para a endoscopia em qualquer idade: emagrecimento não intencional, disfagia ou odinofagia, vômitos persistentes, sangramento digestivo ou anemia ferropriva sem causa, massa palpável, icterícia e história de câncer gástrico em parente de primeiro grau. O clássico padrão da dor ajuda a suspeitar da úlcera — a duodenal dói longe das refeições e de madrugada e alivia com alimento; a gástrica dói ao comer e pode emagrecer o paciente —, mas nenhum padrão dispensa ou substitui a investigação.

Sem alarme, a idade decide. O corte do consenso brasileiro é 40 anos: acima disso, dispepsia não investigada é indicação de endoscopia com pesquisa de H. pylori, porque o câncer gástrico no Brasil é frequente e aparece mais cedo do que na América do Norte. Abaixo de 40 anos, a estratégia recomendada é teste-e-trate: teste respiratório com ureia marcada (13C), erradicação se positivo, sem endoscopia inicial.

Na rede pública real, o teste respiratório nem sempre existe — e o protocolo de regulação que organiza a fila de endoscopia (TelessaúdeRS/RegulaSUS) opera com outra lógica: dispepsia de início recente inexplicada a partir dos 50 anos, dispepsia em quem vai iniciar antiagregante ou anticoagulante, e dispepsia não controlada após tratamento otimizado — IBP por 8 semanas mais erradicação comprovada do H. pylori — são os critérios que abrem a porta do exame. Os dois documentos brasileiros convivem, e a seção de divergências mostra como reconhecer qual deles a questão está usando.

Depois da endoscopia, a dispepsia investigada tem três destinos: orgânica (a endoscopia explica o sintoma — úlcera, neoplasia); associada ao H. pylori (endoscopia normal, bactéria presente, e o sintoma melhora de forma sustentada 6 a 12 meses após a erradicação); e funcional (sintoma persiste apesar de endoscopia normal e erradicação confirmada). Erradicar vale a pena mesmo na dispepsia sem úlcera: uma parcela dos pacientes fica definitivamente melhor.

A caça à bactéria: o teste certo, nas condições certas

Com endoscopia, três testes. O teste rápido da urease é barato e imediato: no paciente virgem de tratamento, sensibilidade acima de 90%; depois do tratamento ela despenca para cerca de 60% — por isso urease isolada nunca serve para controle de cura. A histologia é o padrão prático: mantém acurácia mesmo após o tratamento e ainda enxerga o que importa para o futuro do paciente — atrofia, metaplasia, displasia. A cultura fica para casos selecionados, quando se quer perfil de sensibilidade após falhas repetidas.

Sem endoscopia, dois testes que valem tanto para diagnóstico quanto para controle: o teste respiratório com ureia-13C, o melhor não invasivo, e o antígeno fecal (preferir kits monoclonais). A sorologia é o patinho feio: detecta anticorpos, que permanecem positivos anos depois da cura — diz que houve contato, não que há infecção ativa. Não serve para controle de cura nem para guiar retratamento.

Todo teste direto (urease, histologia, respiratório, fecal) é falseado pela supressão ácida e pelo antibiótico. A regra vigente: 14 dias sem IBP ou vonoprazana e 4 semanas sem antibiótico ou bismuto antes de testar. O dado que sustenta a regra: com apenas 3 dias de pausa do IBP, o teste respiratório dá falso-negativo em um a cada três pacientes; a sensibilidade só volta ao máximo com duas semanas. Antiácidos simples não interferem.

Na hemorragia digestiva, tudo perde sensibilidade — o sangue no estômago atrapalha urease e histologia. Teste negativo colhido na internação por sangramento não afasta a infecção: a pesquisa deve ser repetida pelo menos 1 mês depois do episódio; em uma série de úlceras sangrantes com urease e histologia negativas na urgência, 79% dos pacientes positivaram na retestagem. Assumir úlcera H. pylori-negativa com base no teste da urgência é condenar o paciente à recidiva.

Quem tratar: as indicações de pesquisa e erradicação

A premissa moderna, comum aos consensos brasileiro e europeu: gastrite por H. pylori é doença infecciosa — todo paciente com infecção comprovada deve receber tratamento, independentemente de sintomas. A pergunta prática é em quem procurar ativamente a bactéria.

As indicações consagradas: úlcera péptica ativa ou cicatrizada (duodenal ou gástrica, incluindo a que sangrou); dispepsia — investigada ou pela estratégia teste-e-trate; linfoma MALT gástrico; pós-ressecção de câncer gástrico precoce; parente de primeiro grau com câncer gástrico; gastrite atrófica ou metaplasia intestinal; e início planejado de AINE ou AAS por tempo prolongado.

Três indicações extra-digestivas derrubam candidato desatento, e as três têm relação causal reconhecida: anemia ferropriva sem causa identificada após investigação, púrpura trombocitopênica imune (a erradicação aumenta a contagem de plaquetas em parte dos adultos) e deficiência de vitamina B12 — a pangastrite atrófica compromete a absorção de cobalamina. Síndrome do intestino irritável, urticária crônica e halitose isolada não são indicações estabelecidas.

No parente de primeiro grau de câncer gástrico, o V Consenso organizou o rastreamento: dos 20 aos 29 anos, pesquisa por método não invasivo; a partir dos 30, endoscopia com biópsias — e, se houver atrofia ou metaplasia extensas (estágios OLGA/OLGIM III-IV), vigilância endoscópica a cada 3 anos mesmo depois de erradicar.

Como erradicar: o esquema vigente e por que ele mudou

A resistência explica tudo neste bloco. Os estudos nacionais de 2010 a 2016 já mostravam resistência primária à claritromicina de 2,5% a 16,9% — encostando no limiar de 15% acima do qual o antibiótico não deve ser usado empiricamente. Foi com esses números no limite que o IV Consenso (2018) ainda manteve a tripla clássica; a curva seguiu subindo, e o V Consenso (2025/2026) respondeu com três pilares: bismuto (supera resistência a claritromicina, levofloxacino e metronidazol), supressão ácida mais potente (vonoprazana ou IBP em dose e frequência maiores) e amoxicilina em dose alta.

Primeira linha atual: quádrupla com bismuto por 10 a 14 dias — IBP em dose plena (ou vonoprazana 20 mg) de 12 em 12 horas, subcitrato de bismuto 240 mg de 12 em 12 horas, tetraciclina 500 mg de 6 em 6 horas e metronidazol 400 a 500 mg de 6 em 6 horas. O preço é posológico: são cerca de 168 comprimidos em 14 dias, e adesão incompleta é a maior causa evitável de falha — o paciente precisa sair da consulta entendendo o cronograma. No Brasil, o bismuto tem disponibilidade limitada e costuma vir de farmácia de manipulação; a tetraciclina também falta, e o próprio consenso admite substituí-la por amoxicilina com resultados semelhantes.

Alternativas de primeira linha, ambas por 14 dias: a tripla otimizada — amoxicilina 1 g e claritromicina 500 mg de 12 em 12 horas, potencializadas por vonoprazana 20 mg (ou IBP) e, idealmente, bismuto associado — e a dupla de amoxicilina em dose alta: 3 a 4 g por dia divididos em 3 ou 4 tomadas, com vonoprazana 20 mg de 12 em 12 horas ou IBP em dose alta 3 a 4 vezes ao dia. No alérgico à penicilina, a quádrupla com bismuto é a escolha natural — é o único esquema de primeira linha sem amoxicilina.

Falhou? A regra de ouro é não repetir o esquema que falhou — repetir a tripla com claritromicina depois de uma falha cura menos da metade dos casos. As opções de resgate: quádrupla com bismuto (se ainda não usada), tripla com levofloxacino — IBP, amoxicilina 1 g de 12 em 12 horas e levofloxacino 500 mg ao dia, com ou sem bismuto, por 10 a 14 dias — ou a dupla potencializada. Após a segunda falha, usa-se o esquema de resgate que restou; a cultura com antibiograma entra nas falhas repetidas.

Depois da erradicação, o IBP não é automático. Na úlcera duodenal não complicada, erradicar basta: a cicatrização com o esquema isolado é da ordem de 91%, igual à obtida prolongando o IBP — manter supressão ácida ali é hábito, não evidência. Na úlcera gástrica e em qualquer úlcera complicada, mantém-se IBP por 4 a 8 semanas após o esquema. E o AINE: suspender sempre que possível; se for imprescindível, menor dose pelo menor tempo, com IBP enquanto durar.

Cura confirmada — e a úlcera gástrica é caso à parte

Controle de cura é para todos os tratados, sem exceção — a falha é frequente demais para ser assumida como sucesso. O teste: respiratório com ureia-13C de preferência, antígeno fecal como alternativa, histologia quando uma nova endoscopia já estiver indicada por outro motivo. O prazo: pelo menos 4 semanas após o fim dos antibióticos (o ideal é 4 a 6 — antecipar para 7 dias gera falso-negativo), com 14 dias sem IBP ou vonoprazana. Nunca sorologia, nunca urease isolada.

A úlcera gástrica acrescenta duas obrigações que a duodenal não tem. Primeira: biópsias múltiplas das margens da lesão já na endoscopia do diagnóstico — carcinoma ulcerado imita úlcera benigna e cicatriza parcialmente com IBP. Segunda: endoscopia de controle 8 a 12 semanas após o tratamento, repetida até a cicatrização completa — e esse exame já aproveita para confirmar a erradicação por histologia. Úlcera gástrica que persiste no controle apesar de tratamento otimizado (incluindo erradicação, se havia infecção) é neoplasia até prova em contrário: re-biopsiar e encaminhar.

A úlcera duodenal não complicada dispensa endoscopia de controle de rotina — o controle de cura é feito por teste não invasivo e ponto. Já o impacto da erradicação no longo prazo é o argumento que fecha o tema: numa coorte de mil pacientes com hemorragia por úlcera seguidos após a cura da infecção, não houve novas complicações — erradicar praticamente elimina a recidiva. Reinfecção em adulto é rara; quando a úlcera volta, procure AINE não relatado ou uma erradicação que nunca foi confirmada.

Complicações: as decisões que pertencem a este tema

Hemorragia é a complicação mais comum, e seu manejo global — reposição com alvo restritivo, escores, endoscopia em até 24 horas, Forrest ditando a terapia endoscópica — é assunto do capítulo de hemorragia digestiva alta. O que pertence à úlcera: pesquisar o H. pylori ainda na internação (histologia é o teste recomendado nesse cenário), lembrar que o negativo da urgência não vale (repetir em 1 mês), erradicar assim que o paciente estabilizar e manter IBP até completar as 4 a 8 semanas da úlcera complicada. É a erradicação — não o IBP eterno — que impede o ressangramento tardio.

Perfuração é a segunda cena clássica: úlcera da parede anterior (duodenal, na maioria), dor epigástrica súbita em facada, abdome em tábua e pneumoperitônio na radiografia de cúpulas ou na tomografia. A conduta é cirúrgica — rafia com reforço de retalho de omento (patch de Graham), habitualmente por videolaparoscopia — com jejum, sonda gástrica, antibiótico e IBP venoso no perioperatório. A pesquisa e a erradicação da bactéria ficam para depois, mas não podem ser esquecidas: sem isso a úlcera volta.

A estenose pilórica ficou rara na era do IBP: vômitos pós-prandiais de estase, plenitude, distensão e alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica nos casos arrastados. O tratamento começa clínico — descompressão, correção hidroeletrolítica, IBP venoso e erradicação, porque parte da obstrução é edema inflamatório que regride —, seguido de dilatação endoscópica com balão quando a estenose fibrótica persiste; a cirurgia fica para os refratários.

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Da dispepsia à cura confirmada: a régua em sete passos

O tema inteiro cabe numa sequência de decisões binárias. Quem domina os sete passos — com os cortes de idade, os prazos de suspensão e os dois seguimentos diferentes — resolve a imensa maioria das questões.

  1. 1Dispepsia: procurar sinais de alarme (emagrecimento, disfagia, vômitos persistentes, sangramento ou anemia, massa, icterícia, câncer gástrico em parente de 1º grau). Alarme presente → endoscopia em qualquer idade.
  2. 2Sem alarme: mais de 40 anos → endoscopia com pesquisa de H. pylori; até 40 anos → teste-e-trate com teste respiratório 13C (erradicar se positivo).
  3. 3Antes de qualquer teste direto: 14 dias sem IBP ou vonoprazana e 4 semanas sem antibiótico ou bismuto. Sorologia não sofre interferência — mas não diagnostica infecção ativa.
  4. 4Infecção confirmada → erradicar: quádrupla com bismuto por 10-14 dias (primeira linha) ou alternativa otimizada de 14 dias; explicar a posologia — adesão é a maior causa evitável de falha.
  5. 5IBP depois do esquema: úlcera duodenal não complicada dispensa; úlcera gástrica ou complicada → IBP por 4-8 semanas.
  6. 6Controle de cura em todos: teste respiratório (ou antígeno fecal) pelo menos 4 semanas após o fim do antibiótico, com 14 dias sem IBP. Falhou → esquema de resgate diferente do que falhou.
  7. 7Úlcera gástrica: biópsias das margens na endoscopia inicial + endoscopia de controle em 8-12 semanas até cicatrizar; se persistir apesar do tratamento otimizado → re-biopsiar e investigar neoplasia.
LinhaEsquemaPosologiaDuração
1ª linha — preferencialQuádrupla com bismutoIBP dose plena (ou vonoprazana 20 mg) 12/12 h + subcitrato de bismuto 240 mg 12/12 h + tetraciclina 500 mg 6/6 h + metronidazol 400-500 mg 6/6 h10-14 dias
1ª linha — alternativaTripla otimizadaVonoprazana 20 mg (ou IBP) 12/12 h + amoxicilina 1 g 12/12 h + claritromicina 500 mg 12/12 h, idealmente com bismuto associado14 dias
1ª linha — alternativaDupla de amoxicilina em dose altaAmoxicilina 3-4 g/dia em 3-4 tomadas + vonoprazana 20 mg 12/12 h (ou IBP em dose alta 3-4x/dia)14 dias
2ª linha (resgate)Tripla com levofloxacinoIBP 12/12 h + amoxicilina 1 g 12/12 h + levofloxacino 500 mg 1x/dia, com ou sem bismuto10-14 dias
2ª linha (resgate)Quádrupla com bismutoMesma posologia da primeira linha — é o resgate natural quando não foi usada antes10-14 dias

Testes para H. pylori — o que cada um responde

TesteExige endoscopia?Diagnóstico inicialControle de curaPegadinha
Urease rápidaSimSim (sensibilidade >90% no virgem de tratamento)Não isoladamente — sensibilidade cai para ~60%Falso-negativo com IBP e no sangramento ativo
HistologiaSimSimSimAcurácia depende do número e do local das biópsias
CulturaSimCasos selecionadosNão usualPouco disponível; reservar para falhas repetidas (antibiograma)
Respiratório ureia-13CNãoSim — melhor não invasivoSim — teste de escolhaExige 14 dias sem IBP e 4 semanas sem antibiótico/bismuto
Antígeno fecalNãoSimSimPreferir kit monoclonal; conservação correta da amostra
SorologiaNãoNão define infecção ativaNuncaPermanece positiva por anos após a cura

Antiácidos simples não interferem nos testes — só IBP/vonoprazana (14 dias) e antibióticos/bismuto (4 semanas).

Na hemorragia digestiva, teste negativo colhido na internação não encerra a investigação: repetir a pesquisa pelo menos 1 mês após o episódio.

Alergia à penicilina: a quádrupla com bismuto é o único esquema de primeira linha sem amoxicilina.

Tetraciclina em falta: o consenso brasileiro admite substituí-la por amoxicilina na quádrupla, com resultados semelhantes.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Dispepsia sem alarme: a idade que dispara a endoscopia

Consenso Brasileiro de H. pylori (IV, 2018) — 40 anos

Endoscopia com pesquisa da bactéria para dispepsia não investigada acima de 40 anos; abaixo disso, teste-e-trate com teste respiratório. O corte baixo reflete a epidemiologia local: câncer gástrico frequente e diagnosticado mais cedo no Brasil.

Coelho LGV et al., Arq Gastroenterol 2018

Regulação assistencial do SUS (TelessaúdeRS/RegulaSUS, 3ª ed., 2025) — 50 anos

Na fila de regulação, os critérios que abrem a endoscopia são dispepsia recente inexplicada a partir dos 50 anos, necessidade de iniciar antiagregante ou anticoagulante, e dispepsia não controlada após IBP por 8 semanas mais erradicação comprovada. É um instrumento de priorização de acesso, não uma diretriz de doença — a diferença para o consenso é de função, não de ciência.

TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de encaminhamento — Gastroenterologia adulto, 2025

ACG-CAG (2017) — 60 anos

Endoscopia apenas a partir dos 60 anos; abaixo disso, teste não invasivo e tratamento, mesmo diante de alarme (avaliado caso a caso). Reflete a baixa prevalência de câncer gástrico na América do Norte e o baixo valor preditivo dos sinais de alarme naquela população.

Moayyedi P et al., Am J Gastroenterol 2017

Na prova

O cenário entrega o recorte: consulta em UBS com fluxo de encaminhamento e vocabulário de regulação aponta para o protocolo assistencial (50 anos); enunciado que nomeia o consenso brasileiro ou tematiza o risco de câncer gástrico usa o corte de 40; questão construída sobre diretriz norte-americana trabalha com 60. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS, e as alternativas denunciam — a faixa etária que aparece entre as opções coerentes revela o documento de origem.

Primeira linha de erradicação: a tripla de 2018 ou a quádrupla de 2025

IV Consenso Brasileiro (2018) — tripla com claritromicina por 14 dias

IBP + amoxicilina 1 g + claritromicina 500 mg, todos de 12 em 12 horas, por 14 dias. Foi mantida porque a resistência à claritromicina nos estudos nacionais (2,5% a 16,9%) ainda rondava o limiar de 15% — e porque bismuto e furazolidona estavam indisponíveis no país à época.

Coelho LGV et al., Arq Gastroenterol 2018

V Consenso Brasileiro (2025/2026) — quádrupla com bismuto ou esquemas potencializados

Quádrupla com bismuto por 10-14 dias como primeira escolha, com vonoprazana como alternativa preferencial ao IBP e dupla de amoxicilina em dose alta entre as opções. A mudança responde à resistência crescente à claritromicina e à volta do acesso ao bismuto (via manipulação), e alinha o Brasil a Maastricht VI (2022) e ao ACG (2024), que restringem a tripla clássica a cenários com suscetibilidade comprovada.

V Consenso Brasileiro sobre H. pylori, SBAD 2025 / Arq Gastroenterol 2026

Na prova

A data do documento invocado e a composição das alternativas revelam o mundo da questão: lista de opções em que a quádrupla com bismuto nem aparece foi escrita sob o IV Consenso — ali a tripla de 14 dias é a conduta do documento; presença de bismuto ou vonoprazana entre as alternativas sinaliza o recorte novo. Menção nominal ao consenso e ao ano resolve a ambiguidade; em qualquer dos mundos, tripla por apenas 7 dias e repetição do esquema que falhou estão erradas.

Sinal de alarme em paciente jovem: endoscopia obrigatória?

Documentos brasileiros (Consenso 2018; protocolos de regulação 2025)

Sinal de alarme indica endoscopia em qualquer idade — a lista (emagrecimento, disfagia, vômitos persistentes, sangramento, massa, história familiar) funciona como passaporte direto para o exame.

Coelho LGV et al., 2018; TelessaúdeRS-UFRGS, 2025

ACG-CAG (2017)

Em menores de 60 anos, alarme isolado não dispara endoscopia automática — a decisão é individualizada, porque naquela população os sinais de alarme têm baixo valor preditivo para neoplasia.

Moayyedi P et al., Am J Gastroenterol 2017

Na prova

Cenário brasileiro de APS ou urgência trata alarme como indicação direta de endoscopia. O vocabulário denuncia o outro recorte: enunciado que discute valor preditivo dos sinais de alarme ou individualização em jovem está trabalhando com a diretriz norte-americana.

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Caso resolvido

Homem, 46 anos, procura a UBS por queimação epigástrica há 3 meses, que o acorda de madrugada e melhora quando come. Nega emagrecimento, disfagia, vômitos ou sangue nas fezes. Sem história familiar de câncer gástrico. Usa omeprazol 20 mg por conta própria há 3 semanas, com alívio parcial. Exame físico normal.
achado
Dispepsia não investigada em maior de 40 anos, sem alarme, com padrão sugestivo de úlcera duodenal (dor em jejum e noturna que alivia com alimento).
decisão
Idade acima do corte do consenso brasileiro → endoscopia com pesquisa de H. pylori. Programar o exame com 14 dias sem omeprazol, para não falsear a urease e a histologia (antiácido simples pode cobrir o intervalo).
resultado
Endoscopia: úlcera de 8 mm no bulbo duodenal, base limpa, sem estigmas de sangramento. Urease positiva. Estômago endoscopicamente normal.
conduta
Erradicação por 10-14 dias com o esquema de primeira linha (quádrupla com bismuto; tripla otimizada é alternativa aceitável). Úlcera duodenal não complicada: não é preciso prolongar IBP após o esquema, nem biopsiar o bulbo, nem repetir endoscopia.
controle
Teste respiratório com ureia-13C pelo menos 4 semanas após o fim dos antibióticos, com 14 dias sem IBP. Positivo → resgate com esquema diferente do usado; negativo → alta com orientações, sem exames seriados.
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Agora feche você

Mulher, 63 anos, em uso de naproxeno diário há 4 meses por osteoartrite, internada por melena. Após estabilização, a endoscopia mostra úlcera gástrica de 12 mm na incisura angular, com vaso visível, tratada endoscopicamente. Urease colhida na internação: negativa. Recebeu IBP venoso e está estável.
achado
Úlcera gástrica complicada (hemorragia) em usuária crônica de AINE, com pesquisa de H. pylori negativa colhida durante o sangramento.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Sorologia para confirmar a cura Atrai porque é o exame mais fácil de pedir e não exige suspender nada. Mas o anticorpo permanece positivo por anos após a erradicação — sorologia não distingue infecção ativa de contato antigo e nunca entra no controle de cura.
  2. 2Testar sem suspender o IBP O paciente dispéptico chega sempre tomando IBP, e o teste feito assim dá falso-negativo em até um terço dos casos. A regra: 14 dias sem IBP ou vonoprazana e 4 semanas sem antibiótico ou bismuto antes de urease, histologia, teste respiratório ou antígeno fecal.
  3. 3Urease negativa na hemorragia encerra o caso Sangue no estômago derruba a sensibilidade de urease e histologia. Em série de úlceras sangrantes com testes negativos na urgência, 79% positivaram na retestagem — repetir a pesquisa 1 mês depois é obrigatório antes de rotular úlcera H. pylori-negativa.
  4. 4Úlcera gástrica sem biópsia e sem controle endoscópico Carcinoma ulcerado imita úlcera benigna e melhora parcialmente com IBP — a resposta sintomática não afasta nada. Biópsias das margens no exame inicial e endoscopia de controle em 8-12 semanas, até cicatrizar, são inegociáveis; a duodenal dispensa ambos.
  5. 5Repetir claritromicina depois da falha A falha quase sempre é resistência — repetir o esquema cura menos de 50%. O resgate usa esquema diferente: quádrupla com bismuto ou tripla com levofloxacino. Trocar claritromicina por azitromicina não resolve: a resistência é de classe.
  6. 6IBP prolongado para toda úlcera Na duodenal não complicada, erradicar basta — cicatrização em torno de 91% sem IBP adicional, igual à de quem prolonga. O IBP de 4-8 semanas pós-esquema pertence à úlcera gástrica e às complicadas. O reflexo de manter IBP em todos é hábito herdado, não conduta.
  7. 7Tripla de 7 dias Duração histórica que segue aparecendo em alternativa de prova. Desde o IV Consenso o mínimo é 14 dias para a tripla (e 10-14 para a quádrupla com bismuto) — 7 dias erradica menos e seleciona resistência.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Úlcera duodenal H. pylori positiva tem indicação absoluta de erradicação da bactéria — esquema com IBP + dois antibióticos (classicamente claritromicina + amoxicilina, ajustado às taxas locais de resistência), que cura a úlcera e previne recidiva. IBP isolado cicatriza mas mantém alta taxa de recorrência sem erradicar o agente causal. A cirurgia está reservada a complicações/refratariedade, não à úlcera não complicada. Antagonista H2 crônico não trata a causa. Orientação dietética isolada é insuficiente.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória o fluxo da dispepsia (alarmes, corte de 40 anos, teste-e-trate) e escreva os quatro componentes da quádrupla com bismuto, com doses e duração. Confira na tabela de esquemas o que errou.

em 30 dias

Monte dois pacientes — um com úlcera duodenal não complicada, outro com úlcera gástrica que sangrou — e liste lado a lado: IBP após o esquema (sim/não e por quanto tempo), teste e prazo do controle de cura, e se há endoscopia de controle. Depois responda: o que muda se a urease da internação veio negativa?

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 46 anos chega à UBS com queimação epigástrica que o acorda de madrugada e melhora quando come. Decida se ele precisa de endoscopia, como procurar o H. pylori sem falsear o teste, qual esquema prescrever e como provar que a bactéria foi embora. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.