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Avaliação geriátrica ampla e fragilidade
A prova mostra uma pessoa idosa com dados soltos — idade, um esquecimento contado pela filha, uma panturrilha fina, seis medicamentos — e cobra três coisas: qual instrumento se usa naquele cenário, em que faixa de risco a pessoa cai e o que decorre da faixa. Desde 2025 a primeira pergunta tem resposta nacional, e ela tem nome.
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Mulher de 80 anos, em acompanhamento na UBS, apresenta perda de peso não intencional, fraqueza, lentificação da marcha, exaustão referida e baixo nível de atividade física. A equipe de saúde da família suspeita de síndrome da fragilidade. Além da abordagem nutricional, qual intervenção tem maior evidência para reverter/atenuar a fragilidade no idoso?
Como esse tema cai
Avaliação geriátrica ampla quase nunca é pergunta conceitual. A questão mostra uma pessoa idosa numa unidade básica, espalha meia dúzia de dados aparentemente banais — a idade, um esquecimento que a filha comentou, uma queda no ano passado, seis comprimidos por dia, uma panturrilha de 29 cm — e cobra a decisão seguinte: qual instrumento se aplica ali, quanto ele soma, em que faixa isso cai e o que a faixa obriga. Desde 2025 a primeira pergunta tem resposta nacional: o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional-20, incorporado ao prontuário eletrônico do SUS e impresso na Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa.
Há duas réguas no tema e elas não se substituem. A Avaliação Geriátrica Ampla é o padrão de referência: processo diagnóstico multidimensional, conduzido por equipe geriátrico-gerontológica, com duração média de 60 a 90 minutos, que termina em diagnóstico multidimensional e plano de cuidados. O IVCF-20 é triagem: vinte perguntas, cinco a dez minutos, aplicável por qualquer profissional treinado, e existe para responder quem precisa da avaliação ampla. Trocar uma pela outra é o erro mais caro do assunto, e o enunciado sempre diz em qual cenário está — unidade básica com equipe de Saúde da Família aponta para a triagem; ambulatório de geriatria ou centro de referência aponta para a avaliação ampla.
Três vizinhos ficam fora, de propósito. A classificação de risco de queda, os testes de marcha e equilíbrio e a intervenção multidomínio estão no capítulo de quedas e imobilidade no idoso — aqui entra só o item de marcha que o índice embute. A revisão da receita, os critérios de Beers e a desprescrição estão no capítulo de polifarmácia e prescrição segura no idoso. Os pontos de corte do miniexame do estado mental por escolaridade e a régua do protocolo clínico estão no capítulo de demências e comprometimento cognitivo; a separação do quadro agudo está no de delirium. O que sobra aqui é a moldura — funcionalidade, instrumentos e as três definições de fragilidade que a prova troca uma pela outra.
O que muda decisão
Funcionalidade é o desfecho, e ela se perde em ordem
Toda a abordagem geriátrica parte da funcionalidade global, e funcionalidade global se lê em três camadas de atividades de vida diária. As avançadas são as de participação social: lazer, trabalho, dirigir, cuidar de outra pessoa, frequentar a igreja, ir à feira. As instrumentais são as que sustentam a vida independente dentro e fora de casa: telefone, compras, preparo de refeições, trabalho doméstico, transporte, medicação e dinheiro. As básicas são as de autopreservação: banhar-se, vestir-se, usar o banheiro, transferir-se, continência e alimentar-se.
A ordem importa mais que a lista. A perda começa pelas avançadas, avança para as instrumentais e só depois chega às básicas — e é por isso que a pessoa que ainda toma banho sozinha pode já estar em declínio há anos. Quem só pergunta pelas básicas descobre o problema tarde. Não há escala consagrada para as avançadas: a avaliação é individualizada, feita pela comparação com o que aquela pessoa fazia antes. Para as instrumentais usa-se a escala de Lawton-Brody; para as básicas, o índice de Katz.
Depois da funcionalidade global vêm os sistemas funcionais principais, que são quatro: cognição, humor, mobilidade e comunicação. A lógica é de causalidade, não de checklist. O comprometimento de uma atividade de vida diária é o reflexo de uma doença ou de um conjunto de doenças que atingiram, direta ou indiretamente, um desses quatro sistemas. Por isso declínio funcional nunca se atribui à velhice: ele é sinal precoce de doença não tratada, frequentemente sem sinal ou sintoma típico.
Dependência funcional tem definição operacional — incapacidade de funcionar satisfatoriamente sem ajuda — e valor de gatilho: encontrada, ela obriga investigação clínica ampla, não conformidade. Guardar essa frase resolve boa parte das questões de conduta do tema, porque o distrator preferido é aquele que orienta 'acompanhamento habitual' diante de uma perda funcional nova.

Os dez estratos: onde termina o robusto e onde começa o frágil
A avaliação ampla, na versão brasileira que sustenta o índice nacional, termina classificando a pessoa em um de dez estratos clínico-funcionais. Os estratos 1 a 3 formam o grupo do idoso robusto; os estratos 4 a 6, o do idoso em risco de fragilização; os estratos 7 a 10, o do idoso frágil. Vale reter os marcos: no estrato 1 há independência para as três camadas de atividades e nenhuma doença ou fator de risco além da própria idade; no estrato 3 há doença crônica bem estabelecida, ainda sem limitação funcional, e cabem aí quem tem um ou dois critérios do fenótipo de fragilidade.
O estrato 4 é a fronteira, e é ele que a prova cobra. Ainda há independência para todas as atividades de vida diária, mas já existem condições preditoras de desfecho adverso: marcadores de sarcopenia, comprometimento cognitivo leve ou comorbidades múltiplas — entendidas como polipatologia, polifarmácia ou internação recente. Também entram aqui os que têm três ou mais critérios do fenótipo. Ou seja: a pessoa independente pode já estar do lado errado da linha, e o que a coloca lá não é a dependência, é o preditor.
Do estrato 5 em diante a perda funcional aparece e desce a escada na ordem esperada. O 5 tem declínio nas avançadas, com instrumentais e básicas preservadas. O 6 tem declínio parcial nas instrumentais; o 7, declínio em todas as instrumentais, ainda com básicas preservadas. O 8 acrescenta semidependência nas básicas, no bloco influenciado pela cultura e pelo aprendizado — banhar-se, vestir-se, usar o banheiro. O 9 acrescenta comprometimento de uma função vegetativa simples, transferência ou continência, e traz uma ressalva que rende questão: incontinência urinária isolada não conta. O 10 é a dependência máxima, com necessidade de ajuda inclusive para alimentar-se.
Um detalhe de vocabulário evita confusão na leitura da fonte. O estudo de validação do índice usou como referência o corte de estrato 4 ou mais e chamou esse grupo de frágil; a conclusão do mesmo trabalho explicita que o instrumento identifica a pessoa idosa com fragilidade, o que reúne o em risco de fragilização e o frágil. Em prova, o que interessa é a linha operacional: estrato 4 ou mais é o grupo que a triagem quer achar.
IVCF-20: vinte perguntas, oito seções, quarenta pontos
O índice tem vinte questões distribuídas em oito seções — idade, autopercepção da saúde, incapacidades funcionais, cognição, humor, mobilidade, comunicação e comorbidades múltiplas — e cada seção tem teto próprio. Somados, os tetos fecham exatamente em 40 pontos. Quanto maior a soma, maior a vulnerabilidade clínico-funcional. O tempo de aplicação é de cinco a dez minutos.
A pontuação da idade é a primeira armadilha de memória, porque ela pula um número: de 60 a 74 anos vale 0, de 75 a 84 vale 1, e 85 ou mais vale 3. Não existe faixa de 2 pontos. A autopercepção da saúde vale no máximo 1 ponto: excelente, muito boa ou boa pontuam 0; regular ou ruim pontua 1.
As incapacidades funcionais valem 10 pontos no total, repartidos de forma desigual e deliberada. As três perguntas instrumentais — deixou de fazer compras, deixou de controlar o dinheiro e as contas, deixou de fazer pequenos trabalhos domésticos — valem 4 pontos cada, mas a seção tem teto de 4: responder sim às três continua valendo 4, e não 12. A pergunta básica é uma só, deixar de tomar banho sozinho, e vale 6 pontos — o maior peso de item isolado do instrumento inteiro. A assimetria é intencional: perder o banho é o marco de entrada na dependência básica.
Todas essas perguntas trazem a mesma cláusula, e ela é o que separa quem leu o instrumento de quem decorou a lista: a pergunta é se a pessoa deixou de fazer aquilo por causa da sua saúde ou condição física. A alternativa de resposta é explícita — não, ou não faz por outros motivos que não a saúde, vale 0. Quem nunca cuidou do dinheiro da casa não pontua por isso. O que se mede é mudança causada por saúde, não hábito de vida.
Cognição soma até 4 pontos em três perguntas: algum familiar ou amigo falou que a pessoa está ficando esquecida, 1 ponto; o esquecimento está piorando nos últimos meses, 1 ponto; o esquecimento impede alguma atividade do cotidiano, 2 pontos. Humor soma até 4 em duas perguntas de 2 pontos cada — desânimo, tristeza ou desesperança no último mês, e perda de interesse ou prazer em atividades antes prazerosas.
Mobilidade é a seção maior, com quatro blocos. Alcance, preensão e pinça valem até 2 pontos, em duas perguntas de 1 ponto: incapacidade de elevar os braços acima do ombro e incapacidade de manusear ou segurar pequenos objetos. Capacidade aeróbica e muscular é uma pergunta única de 2 pontos, com teto de 2 mesmo que todos os quatro gatilhos estejam presentes: perda de peso não intencional de 4,5 kg ou 5% do peso corporal no último ano, ou 6 kg nos últimos 6 meses, ou 3 kg no último mês; índice de massa corporal menor que 22 kg/m²; circunferência da panturrilha menor que 31 cm; e tempo maior que 5 segundos para percorrer 4 metros no teste de velocidade da marcha. Vale converter esse último: 4 metros em 5 segundos são exatamente 0,8 m/s, o mesmo corte de lentidão de marcha usado internacionalmente. Marcha vale até 4 pontos, em duas perguntas de 2: dificuldade para caminhar que impeça alguma atividade do cotidiano, e duas ou mais quedas no último ano. Continência esfincteriana vale 2 pontos numa pergunta sobre perda involuntária de urina ou fezes.
Comunicação fecha com 4 pontos, divididos em visão e audição, 2 pontos cada, e as duas perguntas valem com os óculos e o aparelho auditivo de uso habitual — o que se mede é o déficit que sobra depois da correção. E comorbidades múltiplas é a última pergunta, de 4 pontos com teto de 4, positiva por qualquer um de três gatilhos: cinco ou mais doenças crônicas, uso regular diário de cinco ou mais medicamentos diferentes, ou internação nos últimos seis meses.
Três faixas, três periodicidades — e uma regra que vale nas três
O resultado cai em três faixas de risco de vulnerabilidade clínico-funcional. De 0 a 6 pontos, baixo risco: em geral são pessoas capazes de gerir a própria vida de forma independente e autônoma, e o cuidado se concentra em promoção da saúde, prevenção de agravos, imunização, saúde bucal, rastreamentos apropriados à faixa etária e controle adequado das condições crônicas. De 7 a 14 pontos, risco moderado: há algum fator de risco ou condição geriátrica capaz de comprometer a funcionalidade de forma gradual, e a equipe passa a exercer vigilância ativa, com aprofundamento da avaliação multidimensional, abordagem multiprofissional, reabilitação e articulação com a atenção especializada. De 15 a 40 pontos, alto risco: entram, além disso, prevenção quaternária, plano de cuidados formal, coordenação do cuidado, fortalecimento de vínculos, prevenção de violências, apoio à pessoa cuidadora e cuidados de longo prazo.
A periodicidade acompanha a faixa. No baixo risco, reaplica-se no mínimo anualmente. Nas duas faixas acima, semestralmente. A orientação federal diz a mesma coisa por outro caminho, e é assim que ela costuma aparecer em prova: aplicar no mínimo uma vez por ano a todas as pessoas idosas acompanhadas pelas equipes de Saúde da Família, e reaplicar a cada seis meses em quem pontuou mais que 6.
Qualquer uma das três faixas encurta o intervalo diante de evento sentinela, e a lista de exemplos é curta e cobrável: quedas, internação, mudança na prescrição de medicamento, mudanças no comportamento, viuvez recente. Repare que três desses cinco não são doenças — a régua trata mudança de contexto como risco clínico.
E há uma regra que vale nas três faixas e desarma o distrator mais frequente do tema: para todos os níveis de risco, a equipe deve aprofundar a avaliação de cada item ou dimensão alterada, garantindo acesso oportuno e manejo adequado, levando em conta os aspectos sociais e a rede de apoio. Total baixo não anula dimensão alterada. Uma pessoa de 5 pontos cujos 4 pontos vieram inteiros do humor é de baixo risco pela soma e tem um rastreio de humor francamente positivo para investigar hoje.
Duas informações operacionais completam o quadro. Quem aplica: qualquer profissional de saúde, de nível superior ou médio, nos três níveis de atenção, além de profissionais das equipes do Sistema Único de Assistência Social, desde que conheçam o instrumento ou tenham recebido orientação apropriada. Quem responde: a própria pessoa idosa, ou quem convive com ela — familiar, cuidador ou acompanhante — quando a autonomia estiver reduzida. O registro é feito no campo Objetivo do prontuário eletrônico do cidadão, disponível nacionalmente a partir da versão 5.3.24, com cálculo automático do escore e uma aba de acompanhamento que mostra quais dimensões estão alteradas.
O que os números do índice sustentam — e o que não
A validação comparou o índice à avaliação geriátrica ampla como padrão de referência, em 397 pessoas atendidas num centro de referência e 52 avaliadas na comunidade. A área sob a curva ROC foi 0,903, com intervalo de confiança de 95% de 0,871 a 0,934. O ponto de corte de maior acurácia foi 6, de modo que valores maiores que 6 indicam fragilidade — o que casa exatamente com as faixas oficiais, já que 7 é onde começa o risco moderado.
Nesse corte, a acurácia foi de 84,4%, a sensibilidade de 90,5%, a especificidade de 71,0%, o valor preditivo positivo de 87,3% e o negativo de 77,2%. A confiabilidade entre avaliadores, medida na comunidade, foi alta: concordância ponderada quadrática de 99,5% e coeficiente kappa ponderado quadrático global de 0,94. A consistência interna, pelo alfa de Cronbach, ficou entre 0,74 e 0,86 nos dois grupos — acima de 0,70, o que indica que as perguntas medem o mesmo construto, e abaixo de 0,90, o que indica que não são redundantes.
Agora a parte que a leitura apressada perde. No centro de referência, 273 das 397 pessoas eram frágeis pelo padrão de referência — 68,8% da amostra. O escore médio ali foi 12,6, e na comunidade foi 1,98, com mediana 1. Valor preditivo positivo depende de prevalência, e 87,3% é um número de centro de referência. Aplicando a mesma sensibilidade e especificidade a uma população com 15% de fragilidade, o valor preditivo positivo cai para cerca de 36% e o negativo sobe para cerca de 98%.
Traduzindo para a razão de verossimilhança, que não depende de prevalência: um resultado acima de 6 multiplica a chance de fragilidade por cerca de 3,1, e um resultado de 6 ou menos a multiplica por cerca de 0,13. O instrumento foi calibrado para não deixar passar, não para confirmar. Um índice positivo na unidade básica abre uma avaliação; ele não fecha diagnóstico nenhum.
As limitações do estudo estão declaradas e são as de sempre em validação de triagem: amostra de conveniência, desenho transversal, um único serviço, e um braço comunitário de apenas 52 pessoas — que é justamente o cenário onde o instrumento vai ser mais usado. Isso não invalida a régua nacional; explica por que a régua nacional insiste que o resultado abre avaliação em vez de encerrá-la.
Três gramáticas de fragilidade, e a prova troca uma pela outra
A primeira gramática é o fenótipo. Fragilidade, aqui, é síndrome clínica definida pela presença de três ou mais de cinco critérios: perda de peso não intencional de 10 libras — cerca de 4,5 kg — no último ano, exaustão autorreferida, fraqueza medida pela força de preensão, lentidão da marcha e baixo nível de atividade física. Um ou dois critérios definem um estágio intermediário, o pré-frágil. Na coorte de 5.317 pessoas de 65 anos ou mais que sustentou a definição, a prevalência de fragilidade foi de 6,9% e a incidência em quatro anos, de 7,2%.
O mesmo trabalho estabeleceu duas coisas que caem em prova como enunciado de conceito. Primeira: o fenótipo prediz de forma independente quedas, piora de mobilidade ou de atividades básicas, internação e morte, com razões de risco de 1,82 a 4,46 sem ajuste e de 1,29 a 2,24 com ajuste. Segunda, e mais cobrada: fragilidade não é sinônimo de comorbidade nem de incapacidade — há sobreposição, não concordância. Comorbidade é fator de risco etiológico para a fragilidade; incapacidade é desfecho dela. Quem tem um ou dois critérios já corre risco aumentado de virar frágil em três a quatro anos, com razão de chances de 4,51 bruta e 2,63 ajustada.
A segunda gramática é o acúmulo de déficits, e sua expressão clínica é a Clinical Frailty Scale. Ela não é questionário: é julgamento clínico sobre o estado basal, construído a partir de como a pessoa se move, funciona, pensa e percebe a própria saúde nas últimas duas semanas. Na publicação original, de 2005, a escala tinha sete pontos, de 1 — saúde robusta — a 7 — dependência funcional completa. Aplicada a 2.305 participantes canadenses, cada categoria a mais aumentou o risco de morte em cerca de 21,2% (intervalo de confiança de 95% de 12,5% a 30,6%) e o de institucionalização em 23,9% (8,8% a 41,2%) em cerca de 70 meses, com correlação de 0,80 com o índice de fragilidade e áreas sob a curva de 0,77 para mortalidade em 18 meses e 0,70 em 70 meses.
Os próprios autores registraram, em 2005, que a categoria 7 misturava dois grupos distintos — o doente terminal, que pode estar independente, e a pessoa totalmente dependente — e sugeriram subdividi-la. Foi o que a versão 2.0 fez em 2020: a escala passou a ter nove níveis, com o 8 descrevendo a fragilidade muito grave de quem se acama nas semanas que antecedem a morte e o 9 reservado ao doente terminal, único nível em que o estado atual se sobrepõe ao estado basal. Nomes também mudaram: o nível 2 deixou de ser 'bem' e virou 'apto'; o 4 deixou de ser 'vulnerável' e virou 'vivendo com fragilidade muito leve'.
A terceira gramática é a brasileira, e é a que o SUS opera: vulnerabilidade clínico-funcional em faixas, com o índice de vinte perguntas na porta de entrada e os dez estratos na avaliação ampla. Ela não compete com as outras duas — incorpora as duas. O fenótipo aparece dentro dos estratos 3 e 4; os marcadores de sarcopenia aparecem no estrato 4 e dentro da pergunta de capacidade aeróbica e muscular; e a lógica de acúmulo aparece na própria soma de dimensões. O que muda é a finalidade: as duas primeiras foram desenhadas para pesquisa e prognóstico, e a terceira, para organizar fila e plano de cuidado numa rede pública.
Sarcopenia: onde a fita métrica encontra o dinamômetro
Na régua brasileira, o marcador de massa muscular é antropométrico e cabe numa fita: perímetro de panturrilha menor que 31 cm sugere redução de massa muscular. Ele está na própria ficha de avaliação clínica da caderneta federal, registrado consulta a consulta ao lado do escore do índice, do peso, da altura, do índice de massa corporal e da pressão arterial deitado, sentado e em pé. É medida de rastreio, barata e repetível, pensada para a unidade básica.
No consenso europeu de 2019 a lógica é outra e a ordem é o que importa. O parâmetro primário passou a ser a força, porque força prediz desfecho adverso melhor que massa. A definição operacional tem três degraus: sarcopenia provável quando há força muscular baixa; sarcopenia confirmada quando se acrescenta quantidade ou qualidade muscular baixa; sarcopenia grave quando se acrescenta desempenho físico baixo. O caminho recomendado é achar, avaliar, confirmar e graduar.
Os cortes são específicos por sexo onde a fisiologia manda. Força de preensão baixa é menos de 27 kg em homens e menos de 16 kg em mulheres; o teste de levantar da cadeira é positivo acima de 15 segundos para cinco repetições, sem distinção de sexo. Para quantidade muscular, a massa muscular apendicular é baixa abaixo de 20 kg em homens e 15 kg em mulheres, ou, corrigida pela altura ao quadrado, abaixo de 7,0 kg/m² em homens e 5,5 kg/m² em mulheres. Para desempenho, e portanto para gravidade: velocidade de marcha de 0,8 m/s ou menos, bateria curta de desempenho físico de 8 pontos ou menos, teste de levantar e caminhar de 20 segundos ou mais, e caminhada de 400 metros não completada ou completada em 6 minutos ou mais.
Um contraste que vale registrar antes que ele apareça como distrator: a tabela de pontos de corte do consenso europeu não traz circunferência de panturrilha. A panturrilha entra ali apenas por dentro de uma ferramenta de rastreio que combina idade, força de preensão e circunferência. Ou seja, os 31 cm são a operacionalização brasileira de um marcador de triagem, não o critério diagnóstico internacional — e as duas coisas convivem sem se contradizer, desde que cada uma fique no seu lugar.
O que a avaliação muda no desfecho
A pergunta final é a única que justifica o tempo gasto: avaliar assim muda alguma coisa? Para a avaliação geriátrica ampla feita em pessoa idosa internada, a resposta vem de 29 ensaios randomizados com 13.766 participantes. Comparada ao cuidado habitual, ela aumenta a chance de o paciente estar vivo e na própria casa entre 3 e 12 meses depois, com risco relativo de 1,06 e intervalo de confiança de 95% de 1,01 a 1,10, em evidência de certeza alta. E reduz a chance de institucionalização no mesmo período, com risco relativo de 0,80 e intervalo de 0,72 a 0,89, também com certeza alta.
O que ela não faz é igualmente importante, e a evidência é igualmente firme. Não há diferença relevante em mortalidade — risco relativo de 1,00, intervalo de 0,93 a 1,07 — nem em dependência — risco relativo de 0,97, intervalo de 0,89 a 1,04 —, ambas com certeza alta. O ganho não é sobreviver mais; é chegar vivo em casa em vez de numa instituição. Distrator clássico: alternativa que promete redução de mortalidade.
A versão anterior da mesma análise publica os números necessários para tratar, que são o que se guarda. Para o desfecho de estar vivo e em casa, foi preciso avaliar 33 pessoas para evitar um desfecho ruim em doze meses e 17 em seis meses. Vinte e cinco para evitar uma institucionalização; dezessete para evitar uma morte ou uma deterioração funcional.
E há um achado de organização de serviço que a prova gosta: o benefício se concentra na enfermaria dedicada, não na equipe móvel de parecer. Em enfermaria própria, o número necessário para tratar cai para 20 em doze meses e 13 em seis meses; as equipes móveis, avaliadas separadamente, não mostraram benefício. A avaliação ampla, quando reduzida a uma consulta de parecer sobre o cuidado alheio, perde o efeito — o que ela tem de terapêutico está no plano coordenado que só existe quando alguém é dono dele.
Feche o arco com o que abriu o capítulo. O desfecho que a geriatria persegue não é o exame na meta nem a sobrevida isolada: é a pessoa em casa, fazendo o que fazia. É por isso que a triagem pergunta o que a pessoa deixou de fazer, e não o que ela tem.
As réguas do capítulo: pontuação, faixas e as três definições
Três coisas se decoram aqui e as três caem literalmente: o peso de cada seção do índice nacional, o que cada faixa obriga, e qual definição de fragilidade responde a qual pergunta. A tabela principal é a que mais rende — repare nos tetos, porque é neles que a conta erra.
- 1Toda pessoa com 60 anos ou mais acompanhada pela equipe de Saúde da Família recebe o IVCF-20 pelo menos uma vez por ano — a idade legal de pessoa idosa no Brasil é 60 anos, não 65.
- 2Aplica o instrumento qualquer profissional de saúde treinado, de nível superior ou médio, nos três níveis de atenção; responde a própria pessoa idosa, ou quem convive com ela quando a autonomia estiver reduzida.
- 3Registra-se no campo Objetivo do prontuário eletrônico do cidadão, que soma automaticamente e devolve as dimensões alteradas na aba de acompanhamento; o instrumento tem de ser completado no mesmo atendimento.
- 4De 0 a 6 pontos: baixo risco — promoção de saúde, imunização, saúde bucal, controle das crônicas, rastreamentos por faixa etária, e reaplicação no mínimo anual.
- 5De 7 a 14 pontos: risco moderado — vigilância ativa, aprofundamento da avaliação multidimensional, abordagem multiprofissional, reabilitação, articulação com a atenção especializada, e reaplicação semestral.
- 6De 15 a 40 pontos: alto risco — tudo do moderado mais prevenção quaternária, plano de cuidados, coordenação do cuidado, prevenção de violências, apoio à pessoa cuidadora e cuidados de longo prazo, com reaplicação semestral.
- 7Em qualquer faixa, e é a regra que mais desarma distrator: aprofundar a avaliação de cada item ou dimensão alterada, e encurtar o intervalo diante de evento sentinela — quedas, internação, mudança de prescrição, mudança de comportamento, viuvez recente.
0 a 6 — baixo risco
Em geral a pessoa gere a própria vida de forma independente e autônoma. Promoção de saúde, imunização, saúde bucal, controle das condições crônicas e rastreamentos apropriados à idade. Reaplicar no mínimo anualmente. Total baixo não dispensa aprofundar a dimensão que veio alterada.
7 a 14 — risco moderado
Há fator de risco ou condição geriátrica capaz de comprometer a funcionalidade de forma gradual. Vigilância ativa, aprofundamento da avaliação multidimensional, abordagem multiprofissional, reabilitação e articulação com a atenção especializada. Reaplicar semestralmente.
15 a 40 — alto risco
Acrescenta-se prevenção quaternária, plano de cuidados formal, coordenação do cuidado, fortalecimento de vínculos, prevenção de violências, apoio à pessoa cuidadora e cuidados de longo prazo. Reaplicar semestralmente, ou antes, diante de evento sentinela.
| Seção do IVCF-20 | O que a pergunta procura | Pontos por item | Teto da seção |
|---|---|---|---|
| Idade | Faixa etária, conferida no cadastro | 60 a 74 anos: 0 · 75 a 84 anos: 1 · 85 anos ou mais: 3 | 3 |
| Autopercepção da saúde | Comparação com outras pessoas da mesma idade | Excelente, muito boa ou boa: 0 · Regular ou ruim: 1 | 1 |
| AVD instrumentais | Deixou de fazer compras; de controlar dinheiro e contas; de fazer pequenos trabalhos domésticos — por causa da saúde | 4 por pergunta, mas a seção não passa do teto | 4 |
| AVD básica | Deixou de tomar banho sozinho por causa da saúde | 6 | 6 |
| Cognição | Esquecimento relatado por familiar ou amigo; piora nos últimos meses; esquecimento que impede atividade do cotidiano | 1 + 1 + 2 | 4 |
| Humor | Desânimo, tristeza ou desesperança no último mês; perda de interesse ou prazer | 2 + 2 | 4 |
| Mobilidade — alcance, preensão e pinça | Incapacidade de elevar os braços acima do ombro; de manusear ou segurar pequenos objetos | 1 + 1 | 2 |
| Mobilidade — capacidade aeróbica e muscular | Perda de peso não intencional; IMC < 22 kg/m²; panturrilha < 31 cm; mais de 5 segundos para percorrer 4 metros | 2 na pergunta única, mesmo com os quatro gatilhos presentes | 2 |
| Mobilidade — marcha | Dificuldade para caminhar que impeça atividade do cotidiano; duas ou mais quedas no último ano | 2 + 2 | 4 |
| Mobilidade — continência esfincteriana | Perda involuntária de urina ou fezes | 2 | 2 |
| Comunicação — visão | Problema de visão que impeça atividade do cotidiano, já com os óculos de uso habitual | 2 | 2 |
| Comunicação — audição | Problema de audição que impeça atividade do cotidiano, já com o aparelho de uso habitual | 2 | 2 |
| Comorbidades múltiplas | Cinco ou mais doenças crônicas; uso diário de cinco ou mais medicamentos; internação nos últimos 6 meses | 4 na pergunta única, mesmo com os três gatilhos presentes | 4 |
| Total | Soma dos treze tetos | — | 40 |
As três camadas de atividades de vida diária
| Camada | Exemplos | Instrumento consagrado | Posição na sequência de perda |
|---|---|---|---|
| Avançadas | Lazer, trabalho, dirigir, participação social, cuidar de outra pessoa, atividades religiosas | Avaliação individualizada — não há escala consagrada; compara-se com o que a pessoa fazia antes | Perdem-se primeiro; é aqui que o declínio se anuncia como atividade abandonada |
| Instrumentais | Telefone, compras, preparo de refeições, trabalho doméstico, transporte, medicação, dinheiro | Escala de Lawton-Brody | Perdem-se em seguida; três delas são as perguntas instrumentais do IVCF-20 |
| Básicas | Banhar-se, vestir-se, usar o banheiro, transferir-se, continência, alimentar-se | Índice de Katz | Perdem-se por último, e nesta ordem: banho e vestir antes de transferência e continência, e alimentar-se por último |
Três definições de fragilidade e a pergunta que cada uma responde
| Definição | Como se opera | Corte | Documento que a fixa |
|---|---|---|---|
| Fenótipo de fragilidade | Cinco critérios: perda de peso não intencional (10 lb, cerca de 4,5 kg, no último ano), exaustão autorreferida, fraqueza de preensão, lentidão de marcha e baixa atividade física | Três ou mais critérios: frágil. Um ou dois: estágio intermediário (pré-frágil) | Fried LP et al., J Gerontol A, 2001 — coorte de 5.317 pessoas com 65 anos ou mais |
| Acúmulo de déficits (Clinical Frailty Scale) | Julgamento clínico sobre o estado basal, a partir de mobilidade, função, cognição e percepção de saúde nas últimas duas semanas | Escala ordinal: 7 níveis na publicação original de 2005; 9 níveis na versão 2.0, de 2020 | Rockwood K et al., CMAJ, 2005; revisão em Rockwood K, Theou O, Can Geriatr J, 2020 |
| Vulnerabilidade clínico-funcional (régua do SUS) | Vinte perguntas em oito seções, somando até 40 pontos, aplicadas na atenção primária; a avaliação ampla classifica em dez estratos | 0 a 6 baixo risco; 7 a 14 moderado; 15 a 40 alto. Na avaliação ampla, estrato 4 ou mais é o grupo com fragilidade | Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa (MS, 2026) e Nota Informativa nº 2/2025-COPID/SAPS/MS; validação em Moraes EN et al., Rev Saúde Pública, 2016 |
A soma dos treze tetos de seção fecha exatamente em 40 pontos: 3 + 1 + 4 + 6 + 4 + 4 + 2 + 2 + 4 + 2 + 2 + 2 + 4. Se a sua conta passou de 40, o erro está num teto ignorado — quase sempre o das atividades instrumentais.
A pergunta de capacidade aeróbica e muscular embute o corte internacional de lentidão de marcha sem dizer o nome: mais de 5 segundos para 4 metros são menos de 0,8 m/s, porque 4 dividido por 5 é 0,8.
Polifarmácia aparece com dois números diferentes conforme o desfecho, e os dois estão certos nos seus documentos. No IVCF-20 e na definição de comorbidades múltiplas, cinco ou mais medicamentos diários. No protocolo nacional de prevenção de quedas, quatro ou mais — mas ali o desfecho é queda, e o assunto é do capítulo de quedas e imobilidade no idoso.
Incontinência urinária isolada não basta para caracterizar o comprometimento de função vegetativa simples na classificação por estratos — a ressalva está escrita no próprio quadro do estrato 9.
O valor preditivo positivo de 87,3% do estudo de validação vem de uma amostra em que 68,8% das pessoas eram frágeis (273 de 397). Repetida a mesma sensibilidade e especificidade numa população com 15% de fragilidade, o valor preditivo positivo calculado cai para cerca de 36%.
Pessoa idosa, no Brasil, é quem tem 60 anos ou mais, por definição do Estatuto da Pessoa Idosa. Boa parte das diretrizes internacionais de fragilidade trabalha com 65 anos — inclusive a coorte que sustentou o fenótipo. O IVCF-20 acompanha a lei brasileira e começa a pontuar a partir dos 60.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
IVCF-20, com faixas de 0 a 6, 7 a 14 e 15 a 40 pontos
A régua brasileira usa um índice multidimensional de vinte perguntas, aplicável em cinco a dez minutos por qualquer profissional treinado, incorporado ao prontuário eletrônico do cidadão em nível nacional a partir da versão 5.3.24 e impresso na caderneta federal. Ele foi desenhado para triagem numa rede pública: alta sensibilidade, cálculo automático, faixas que já vêm com periodicidade de reaplicação e com o elenco de ações esperadas. A finalidade declarada é decidir quem precisa de avaliação multidimensional aprofundada e organizar o plano de cuidados, não fechar diagnóstico de síndrome.
Ministério da Saúde — Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa (2026) e Nota Informativa nº 2/2025-COPID/DGCI/SAPS/MS
Fenótipo de fragilidade, com três ou mais de cinco critérios
A definição internacional mais citada opera fragilidade como síndrome clínica, com cinco critérios objetivos — perda de peso não intencional, exaustão autorreferida, fraqueza de preensão, lentidão de marcha e baixa atividade física — e corte em três ou mais. Foi construída para pesquisa e prognóstico numa coorte de 5.317 pessoas com 65 anos ou mais, e o próprio trabalho demonstra que fragilidade não coincide com comorbidade nem com incapacidade. Exige dinamômetro e cronômetro, o que a torna pouco viável como rastreio populacional na unidade básica.
Fried LP et al. Frailty in older adults: evidence for a phenotype. J Gerontol A Biol Sci Med Sci. 2001;56(3):M146-56
Na prova
A causa da diferença é de finalidade e de viabilidade: triagem numa rede pública de um lado, definição de síndrome para pesquisa e prognóstico do outro. O recorte se identifica pelo vocabulário do enunciado. Equipe de Saúde da Família, agente comunitário, prontuário eletrônico do cidadão, caderneta, e-SUS, plano de cuidados e reaplicação semestral são vocabulário da régua nacional. Dinamômetro, força de preensão, exaustão autorreferida, pré-frágil e coorte são vocabulário do fenótipo. As alternativas também entregam: se uma delas fala em faixas de pontos com números de 0 a 40, a questão está na régua nacional; se uma delas conta critérios de zero a cinco, está no fenótipo. Prova oficial de acesso ao SUS tende à régua nacional; prova com enunciado de geriatria clínica tende ao fenótipo.
Sete níveis, de 1 (saúde robusta) a 7 (dependência funcional completa)
A publicação original define e valida uma escala de sete pontos, aplicada a 2.305 participantes da segunda etapa do estudo canadense de saúde e envelhecimento. Cada categoria a mais aumentou o risco de morte em cerca de 21,2% (intervalo de confiança de 95% de 12,5% a 30,6%) e o de institucionalização em 23,9% (8,8% a 41,2%). Os próprios autores registram, na discussão, que a categoria 7 mistura dois grupos clinicamente distintos — o doente terminal, que pode estar independente, e a pessoa totalmente dependente — e sugerem que usuários futuros a subdividam.
Rockwood K, Song X, MacKnight C, et al. A global clinical measure of fitness and frailty in elderly people. CMAJ. 2005;173(5):489-95
Nove níveis, com o 8 para fragilidade muito grave e o 9 para o doente terminal
A versão 2.0 fez a subdivisão que o artigo de 2005 antecipou e renomeou níveis: o 2 deixa de ser 'bem' e passa a 'apto'; o 4 deixa de ser 'vulnerável' e passa a 'vivendo com fragilidade muito leve'. O nível 9 é o único em que o estado atual se sobrepõe ao estado basal, porque a pessoa em fim de vida pode ter operado em qualquer nível antes. Os autores reforçam que a escala mede o estado basal, exige julgamento clínico e não foi validada em pessoas jovens nem em deficiência estável de sistema único.
Rockwood K, Theou O. Using the Clinical Frailty Scale in Allocating Scarce Health Care Resources. Can Geriatr J. 2020;23(3):210-215
Na prova
A causa é puramente cronológica: a versão de 2020 desdobrou o nível 7 da versão de 2005, exatamente como os autores originais haviam sugerido. O recorte se identifica pela citação e pelo cenário. Enunciado que reproduz o estudo canadense, cita 2.305 participantes ou fala em validação prognóstica está no texto de 2005 e trabalha com sete níveis. Enunciado de triagem à beira do leito, de alocação de recurso escasso, de decisão sobre terapia intensiva ou que use os nomes novos dos níveis está na versão atual e trabalha com nove. E a alternativa que menciona 'doente terminal' como nível próprio só existe na versão de nove.
Perímetro de panturrilha menor que 31 cm, medido com fita, na consulta de rotina
A ficha de avaliação clínica da caderneta federal registra o perímetro da panturrilha consulta a consulta, ao lado do escore do índice e dos dados antropométricos, com a nota de que medida menor que 31 cm sugere redução de massa muscular. O mesmo corte entra como um dos quatro gatilhos da pergunta de capacidade aeróbica e muscular do IVCF-20, ao lado de perda de peso não intencional, índice de massa corporal menor que 22 kg/m² e mais de 5 segundos para percorrer 4 metros. É medida de rastreio: barata, repetível e aplicável por qualquer membro da equipe.
Ministério da Saúde — Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa (2026), ficha de avaliação clínica e questionário do IVCF-20
Força primeiro; massa só para confirmar, e por absorciometria ou bioimpedância
O consenso europeu revisado inverteu a ordem em 2018: o parâmetro primário passou a ser a força muscular, porque prediz desfecho melhor que massa. Sarcopenia é provável quando há força baixa — preensão abaixo de 27 kg em homens e 16 kg em mulheres, ou mais de 15 segundos para cinco repetições de levantar da cadeira; é confirmada quando se documenta quantidade ou qualidade muscular baixa por absorciometria ou bioimpedância; e é grave quando se acrescenta desempenho físico baixo. A tabela de pontos de corte do consenso não traz circunferência de panturrilha — ela aparece apenas dentro de uma ferramenta de rastreio que combina idade, preensão e panturrilha.
Cruz-Jentoft AJ et al.; EWGSOP2. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age Ageing. 2019;48(1):16-31
Na prova
A causa é de nível de decisão, não de discordância científica: um documento organiza rastreio populacional com fita métrica, o outro organiza diagnóstico com equipamento. O recorte se identifica pelo cenário e pelo verbo do enunciado. Unidade básica, caderneta, agente comunitário, 'sugere redução de massa muscular' e triagem apontam para os 31 cm. Ambulatório de geriatria, diagnóstico, gravidade, dinamômetro, absorciometria e bioimpedância apontam para o consenso europeu. E as alternativas entregam: distrator com '27 kg' ou '16 kg' pertence ao mundo da força de preensão; distrator com '31 cm' pertence ao mundo do rastreio brasileiro. Quando o enunciado pedir a conduta seguinte a uma panturrilha fina, a resposta é aprofundar a avaliação — não carimbar o diagnóstico de sarcopenia.
Caso resolvido
- conta seção por seção
- Idade 82 anos, faixa de 75 a 84: 1 ponto. Autopercepção regular: 1 ponto. Instrumentais: sim para compras e sim para dinheiro e contas, mas o teto da seção é 4 — não 8. Básica: continua tomando banho sozinha, 0.
- onde a conta engana
- Cognição: familiar mencionou esquecimento (1) e há piora nos últimos meses (1), mas o esquecimento não impede atividade do cotidiano (0) — total 2, e não 4. Humor: desânimo no último mês (2) e sem perda de interesse (0) — total 2. Mobilidade, alcance e preensão: 0.
- a pergunta de um gatilho só
- Capacidade aeróbica e muscular: peso estável e índice de massa corporal 24 descartam dois gatilhos; 4 metros em 4 segundos são 1,0 m/s, acima do corte, e descartam o terceiro. Mas a panturrilha de 29 cm está abaixo de 31 cm — e um gatilho basta para a pergunta valer 2 pontos.
- marcha, continência e comunicação
- Marcha: dificuldade para caminhar que a impede de ir à igreja (2); uma queda apenas, e o item exige duas ou mais (0) — total 2. Continência: perda involuntária de urina (2). Visão e audição preservadas com a correção habitual: 0 e 0.
- comorbidades e total
- Seis medicamentos diários acionam o gatilho de cinco ou mais: 4 pontos. Somando: 1 + 1 + 4 + 0 + 2 + 2 + 0 + 2 + 2 + 2 + 0 + 0 + 4 = 20 pontos.
- classificação
- Vinte pontos caem na faixa de 15 a 40: alto risco de vulnerabilidade clínico-funcional. Não é risco moderado — a fronteira é 14, e ela ficou seis pontos acima. Reaplicar o índice em seis meses, ou antes, se houver evento sentinela.
- conduta
- Aprofundamento da avaliação multidimensional dirigido às dimensões alteradas: rastreio cognitivo estruturado com informante, rastreio de humor, avaliação da queda e da marcha, investigação da incontinência e revisão do conjunto de medicamentos. Abordagem multiprofissional, plano de cuidados escrito e coordenação do cuidado, com prevenção quaternária, apoio à pessoa cuidadora e avaliação da rede de suporte. Vale registrar que a perda das instrumentais com as básicas preservadas é o padrão de declínio precoce, e que a panturrilha de 29 cm é marcador de rastreio a ser aprofundado — não é diagnóstico fechado de sarcopenia.
- o que não fazer
- Somar 8 pontos nas instrumentais ignorando o teto (o total viraria 24), contar 2 pontos pela queda única, marcar os 4 pontos de cognição sem o item de impacto no cotidiano, ou devolver a paciente ao acompanhamento anual porque 'ela ainda é independente para as básicas'.
Agora feche você
- a conta
- Idade 71 anos, faixa de 60 a 74: 0. Autopercepção regular: 1. Instrumentais, básica, cognição, alcance e preensão, capacidade aeróbica e muscular, marcha, continência, visão, audição e comorbidades: 0 em todas. Humor: 2 pela primeira pergunta e 2 pela segunda, teto de 4 — total 4. Soma final: 5 pontos.
- o que a faixa diz
- Cinco pontos caem em 0 a 6: baixo risco de vulnerabilidade clínico-funcional, com reaplicação do índice em no mínimo um ano. Até aí o enfermeiro está certo sobre a periodicidade — e é exatamente por isso que a conclusão dele engana.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Somar 12 pontos nas atividades instrumentais As três perguntas instrumentais valem 4 pontos cada, e é aí que a conta estoura: quem responde sim às três parece somar 12, mas a seção tem teto de 4. A mesma lógica vale em outros dois lugares — capacidade aeróbica e muscular tem teto de 2 mesmo com os quatro gatilhos presentes, e comorbidades múltiplas tem teto de 4 mesmo com os três. Sempre que o total passar de 40, o erro é um teto ignorado.
- 2Procurar a faixa de 2 pontos na idade A pontuação da idade pula um número: 60 a 74 anos vale 0, 75 a 84 vale 1, e 85 ou mais vale 3. Não existe faixa de 2 pontos, e o salto de 1 para 3 é proposital — a partir dos 85 a vulnerabilidade cresce mais que linearmente. Alternativa que oferece '2 pontos para 75 a 84 anos' está errada pela régua, não pelo raciocínio.
- 3Perguntar 'a senhora consegue?' em vez de 'a senhora deixou de?' Cada pergunta funcional do instrumento traz a mesma cláusula: por causa de sua saúde ou condição física, você deixou de fazer isso? E a alternativa de resposta é explícita — não, ou não faz por outros motivos que não a saúde, vale zero. Quem nunca controlou o dinheiro da casa não pontua por isso, e quem parou de cozinhar porque a filha passou a cozinhar também não. O que se mede é mudança causada por saúde.
- 4Tratar 'baixo risco' como alta A régua federal é explícita: para TODOS os níveis de risco, a equipe deve aprofundar a avaliação de cada item ou dimensão alterada. Baixo risco significa reaplicar o índice em no mínimo um ano e manter promoção de saúde, imunização e controle das crônicas — não significa que não há nada a fazer hoje. Cinco pontos vindos inteiros do bloco de humor são baixo risco na soma e rastreio de humor positivo na dimensão.
- 5Ler o valor preditivo positivo de 87,3% como se valesse na unidade básica Esse número vem de uma amostra de centro de referência em que 273 das 397 pessoas eram frágeis — 68,8% de prevalência, escore médio de 12,6. No braço comunitário do mesmo estudo o escore médio foi 1,98, com mediana 1. Mantidas a sensibilidade de 90,5% e a especificidade de 71,0%, uma população com 15% de fragilidade devolve valor preditivo positivo de cerca de 36%. O índice foi calibrado para não deixar passar; positivo abre avaliação, não fecha diagnóstico.
- 6Chamar de frágil quem tem um ou dois critérios do fenótipo No fenótipo, frágil é quem tem três ou mais dos cinco critérios. Um ou dois definem o estágio intermediário — o pré-frágil —, que não é rótulo de conforto: é o grupo com risco aumentado de virar frágil em três a quatro anos, com razão de chances de 4,51 bruta e 2,63 ajustada. É também onde a intervenção ainda muda trajetória, e onde quase ninguém tem diagnóstico.
- 7Dizer o número de níveis da Clinical Frailty Scale sem olhar a data A publicação original, de 2005, descreve uma escala de sete pontos, de 1 (saúde robusta) a 7 (dependência funcional completa). A versão 2.0, de 2020, tem nove níveis — o antigo 7 foi desdobrado, com o 8 para fragilidade muito grave e o 9 para o doente terminal. Enunciado que cita o artigo do CMAJ de 2005 trabalha com sete; enunciado atual, de triagem clínica ou alocação de recurso, trabalha com nove.
- 8Prometer redução de mortalidade com a avaliação geriátrica ampla Em pessoa idosa internada, 29 ensaios com 13.766 participantes mostram, com certeza alta, aumento da chance de estar vivo e na própria casa (risco relativo 1,06; 1,01 a 1,10) e redução de institucionalização (0,80; 0,72 a 0,89) — e, com a mesma certeza alta, nenhuma diferença relevante em mortalidade (1,00; 0,93 a 1,07) nem em dependência (0,97; 0,89 a 1,04). O desfecho que muda é onde a pessoa está viva, não por quanto tempo.
O fenótipo de fragilidade de Fried (perda de peso, exaustão, fraqueza, lentidão da marcha, baixa atividade) tem no exercício físico — sobretudo treino resistido/de força associado a suporte nutricional (proteína) — a intervenção com maior evidência para reduzir a fragilidade e prevenir incapacidade. Repouso agrava sarcopenia e imobilismo. Testosterona não é recomendada de rotina e tem riscos. Antidepressivo só se houver depressão diagnosticada.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Durante uma visita domiciliar da equipe de Saúde da Família, a agente comunitária relata que uma senhora de 78 anos, viúva, que morava sozinha, teve duas quedas no último mês e passou a ter dificuldade para preparar as refeições e administrar os próprios medicamentos. A família mora em outra cidade. A médica avalia e não encontra causa aguda para as quedas. Qual a conduta mais apropriada segundo os princípios da APS?
A APS deve conduzir a avaliação multidimensional (funcional, cognitiva, ambiental, social) da pessoa idosa com quedas e declínio de autonomia, revisar polifarmácia (causa comum de quedas) e articular a rede intersetorial (assistência social, apoio domiciliar), preservando o cuidado longitudinal e no território. Internação não se justifica sem causa aguda e pode agravar o declínio funcional. Encaminhar e apenas aguardar fere a coordenação do cuidado — a APS pode e deve agir. Suplemento isolado ignora a abordagem ampla e os fatores de risco de queda.
Homem, 78 anos, hipertenso, comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. Mora sozinho e relata, ao longo dos últimos 6 meses, dois episódios de queda no domicílio, perda de peso não intencional de cerca de 4 kg e sensação de lentificação para as atividades habituais. Deambula sem auxílio, mas com marcha mais lenta. Na perspectiva da linha de cuidado da saúde da pessoa idosa do Ministério da Saúde, qual é a conduta mais adequada diante desse conjunto de achados? Qual o próximo passo mais apropriado?
Correta: Quedas de repetição, perda de peso não intencional e lentificação são marcadores do fenótipo de fragilidade; a linha de cuidado do idoso preconiza a Avaliação Geriátrica Ampla/multidimensional na APS para caracterizar a fragilidade, rastrear síndromes geriátricas e estruturar o plano de cuidado. Postergar para 12 meses e restringir a exames de rotina ignora sinais de alerta que exigem investigação ativa. Encaminhar sem avaliação inicial contraria o papel coordenador da APS — o geriatra é acionado após a avaliação, quando indicado. Tratar isoladamente a perda de peso sem investigar sua causa não é adequado. Bisfosfonato exige investigação de osteoporose/fratura e não trata a causa das quedas, sendo conduta empírica injustificada.
Homem de 78 anos comparece à Unidade Básica de Saúde acompanhado da esposa para consulta de rotina. Ela relata que, nos últimos seis meses, ele perdeu cerca de 5 kg sem fazer dieta, queixa-se de cansaço na maior parte dos dias, saía menos de casa e reduziu as caminhadas que fazia com os amigos. Ao exame, o paciente caminha lentamente pelo consultório e apresenta redução da força de preensão manual. Nega febre, tosse, alteração do hábito intestinal ou sangramentos. Pressão arterial, ausculta cardiopulmonar e exame abdominal sem alterações. O médico da família identifica que o paciente preenche pelo menos três dos cinco critérios do fenótipo de Fried. Qual é a interpretação e a conduta mais adequada?
Perda de peso não intencional, exaustão autorrelatada, lentidão de marcha, fraqueza (baixa força de preensão) e redução do nível de atividade são os cinco critérios de Fried; três ou mais definem fragilidade. A conduta baseada em evidências é a avaliação geriátrica ampla com intervenção multidimensional, tendo o exercício resistido e o suporte nutricional como pilares que revertem/estabilizam o quadro. Sarcopenia isolada não explica os múltiplos domínios e bifosfonato não trata fragilidade. Fragilidade não é envelhecimento fisiológico e demanda intervenção ativa. Não há critérios de depressão maior descritos; antidepressivo não é o passo inicial.
Um homem de 71 anos, hipertenso controlado, comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de acompanhamento. A médica da família decide aplicar a avaliação geriátrica ampla como parte do cuidado integral ao idoso, indo além do diagnóstico das doenças de base. Além da avaliação clínica biomédica habitual, quais domínios devem ser sistematicamente investigados nessa abordagem?
A avaliação geriátrica ampla é multidimensional e vai além do modelo biomédico, investigando de forma sistemática a capacidade funcional, a cognição, o humor, a mobilidade/risco de quedas, o estado nutricional e o suporte social — abordagem alinhada à Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa no SUS. Exames complementares isolados, o controle apenas de comorbidades específicas ou a avaliação restrita de visão e audição não contemplam a natureza multidimensional da avaliação geriátrica ampla.
Homem de 78 anos comparece à consulta de rotina na Unidade Básica de Saúde acompanhado da filha, que refere que ele "está caindo o ano todo". Ele relata cansaço na maior parte dos dias, dificuldade para iniciar atividades e que deixou de ir à igreja e à feira, saindo pouco de casa. A filha informa perda de peso de 5 kg no último ano, sem dieta. Antecedentes: hipertensão controlada com losartana, sem etilismo ou tabagismo. Ao exame: IMC 21 kg/m², sem sinais de descompensação cardiorrespiratória; força de preensão palmar reduzida para sexo e IMC; velocidade de marcha de 0,6 m/s em percurso de 4 metros. Hemograma, TSH, glicemia e função renal sem alterações.
O paciente preenche 4 dos 5 critérios do fenótipo de fragilidade de Fried — perda de peso não intencional (≥4,5 kg/ano), exaustão autorreferida, lentificação da marcha (<0,8 m/s) e fraqueza de preensão palmar —, além de baixo nível de atividade física; ≥3 critérios definem idoso frágil. A conduta preconizada pela Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa e pelas diretrizes brasileiras é a avaliação geriátrica ampla, com exercício multicomponente (especialmente resistido) e otimização nutricional, únicas intervenções com benefício consistente na reversão da fragilidade. Depressão maior é distrator plausível pela exaustão e retração social, mas não explica a lentidão de marcha e a fraqueza objetivas, e não há humor deprimido/anedonia documentados — iniciar antidepressivo sem rastreio dirigido é precipitado. Caquexia neoplásica é improvável com exames de triagem normais e ausência de sinais de alarme, e a investigação em cascata não substitui o manejo da fragilidade. Atribuir o quadro ao envelhecimento fisiológico é erro conceitual: fragilidade é síndrome clínica identificável e potencialmente reversível, não consequência inevitável da idade.
Mulher de 80 anos é atendida em consulta na Estratégia Saúde da Família para avaliação global de saúde. É hipertensa e diabética, com bom controle. A filha, sua cuidadora principal, relata que a mãe vem apresentando maior lentidão nas rotinas diárias e questiona se ela ainda consegue se cuidar sozinha. O médico deseja avaliar objetivamente o grau de independência da paciente nas atividades básicas de vida diária — banhar-se, vestir-se, uso do vaso sanitário, transferência, continência e alimentação —, conforme recomendado pela Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa do Ministério da Saúde no contexto da avaliação geriátrica ampla.
O Índice de Katz é o instrumento validado para avaliar as atividades básicas de vida diária (ABVD) e contempla exatamente os seis domínios citados no enunciado: banho, vestir-se, uso do vaso sanitário, transferência, continência e alimentação. É recomendado pela Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa como componente funcional da avaliação geriátrica ampla. A escala de Lawton-Brody avalia atividades instrumentais de vida diária (usar telefone, preparar refeições, controlar as finanças, usar transporte, tomar medicações), não as básicas. O MEEM é instrumento de rastreio cognitivo, e a GDS rastreia sintomas depressivos — ambos integram a avaliação geriátrica ampla, mas em outros domínios que não a capacidade funcional básica.
Mulher de 78 anos comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de acompanhamento. Mora sozinha, é independente para as atividades básicas de vida diária. Relata perda de 5 kg no último ano, sem dieta ou intenção, e sensação de cansaço na maior parte dos dias da semana. Deixou de fazer as caminhadas que costumava fazer e passou a demorar mais para atravessar a rua no sinal. Exame físico sem alterações relevantes; velocidade de marcha reduzida e força de preensão palmar diminuída. Qual é a conduta mais adequada?
A paciente preenche critérios do fenótipo de fragilidade de Fried (perda de peso não intencional ≥ 4,5 kg/ano, exaustão autorrelatada, baixo nível de atividade física, lentidão da marcha e fraqueza de preensão) — três ou mais critérios definem idoso frágil. A intervenção com maior evidência é o exercício físico multicomponente/resistido associado a suporte nutricional com aporte proteico adequado, plenamente executável na APS. As demais estão erradas: independência funcional não exclui fragilidade, pois o fenótipo antecede a incapacidade; suplemento hipercalórico isolado, sem exercício, não reverte a sarcopenia subjacente e não corrige a causa; e o encaminhamento ao centro de referência não deve postergar as medidas iniciais, que são de competência da equipe de atenção primária.
Mulher de 79 anos comparece à UBS acompanhada da filha para consulta de rotina. Refere que, no último ano, "a roupa foi ficando larga" — o prontuário registra queda de 62 kg para 57,5 kg, sem dieta ou intenção de emagrecer. Queixa-se de que "tudo cansa" e que precisa descansar antes de terminar as tarefas domésticas na maioria dos dias da semana. Deixou a hidroginástica há oito meses e passa a maior parte do dia sentada. Ao exame: lúcida, orientada, sem déficits focais. Força de preensão palmar 22 kg (percentil 60 para o IMC) e velocidade de marcha de 4 metros a 0,9 m/s. Considerando o fenótipo de fragilidade de Fried, assinale a classificação correta desta paciente.
O fenótipo de Fried é composto por cinco critérios: perda ponderal involuntária (≥4,5 kg ou ≥5% do peso no último ano), exaustão autorreferida, baixo nível de atividade física, lentidão da marcha e fraqueza de preensão palmar — 0 critério = robusto, 1 a 2 = pré-frágil, ≥3 = frágil. A paciente perdeu 4,5 kg (7,3% do peso) de forma não intencional, refere exaustão e abandonou a atividade física: três critérios, portanto FRÁGIL. Pré-frágil está errado porque três critérios já ultrapassam a faixa de 1 a 2, independentemente de quais sejam. Robusta é incorreto: força de preensão e velocidade de marcha normais apenas excluem esses dois critérios, não os outros três — e o fenótipo não exige que os critérios sejam "de desempenho". A alternativa que define fragilidade pela perda ponderal isolada ignora a regra do ponto de corte de ≥3 critérios (perda de peso sozinha caracteriza pré-fragilidade).
Homem de 76 anos, hipertenso e ex-tabagista, é avaliado em ambulatório de geriatria antes de colecistectomia eletiva. A esposa relata que ele "ficou fraco": tem dificuldade para levantar da poltrona e carregar a sacola de compras. Aplicado o SARC-F, obteve 5 pontos. Ao exame: IMC 24 kg/m², sem edema, marcha sem auxílio. Dinamometria de preensão palmar: 24 kg (melhor de três medidas). Velocidade de marcha de 4 metros: 1,1 m/s. Segundo o algoritmo do European Working Group on Sarcopenia in Older People 2 (EWGSOP2), qual é a conduta correta neste momento?
O algoritmo EWGSOP2 segue a sequência Find–Assess–Confirm–Severity: o SARC-F ≥4 (Find) leva à avaliação da força (Assess); força de preensão reduzida (<27 kg em homens) torna a sarcopenia PROVÁVEL; a CONFIRMAÇÃO exige demonstrar baixa quantidade/qualidade muscular por DXA, bioimpedância, TC ou RM — que é exatamente o passo pendente aqui. Sarcopenia GRAVE só se define quando, além de força e massa reduzidas, há queda de desempenho físico; a velocidade de marcha de 1,1 m/s (>0,8 m/s) é normal, então não há gravidade — a pegadinha é o candidato pular direto para "grave" pelo SARC-F alto. Afastar sarcopenia por marcha e IMC normais é erro clássico: desempenho físico mede gravidade, não exclui o diagnóstico, e o IMC não distingue massa magra de gordura. Iniciar tratamento é correto na prática (a sarcopenia provável já autoriza intervenção), mas a afirmativa erra ao declarar o diagnóstico completo e dispensar a confirmação de massa muscular, que o algoritmo exige.
Mulher de 82 anos, viúva, mora sozinha e é levada à UBS pelo filho, que mora em outra cidade e a visitou após seis meses. Ele estranhou contas de luz atrasadas, remédios trocados na caixinha semanal e a geladeira com alimentos vencidos. A paciente afirma que "está tudo bem". Ao exame: banha-se, veste-se, alimenta-se e desloca-se sozinha, com continência preservada (Katz 6/6). Na escala de Lawton-Brody, mostra-se dependente para manejar o próprio dinheiro, controlar a medicação, usar o telefone e preparar refeições. Sem déficits motores; audição e visão funcionais. Qual é o próximo passo mais adequado da avaliação geriátrica ampla?
Na avaliação geriátrica ampla, a hierarquia funcional é bem estabelecida: as atividades instrumentais (Lawton — finanças, medicação, telefone, preparo de refeições) dependem de funções executivas e se perdem ANTES das atividades básicas (Katz). O padrão descrito — Katz preservado com perda recente e múltipla de AIVDs de alta demanda cognitiva, sem déficit motor, visual ou auditivo que justifique — é a apresentação típica de declínio cognitivo e obriga o rastreio cognitivo formal (MEEM com corte ajustado por escolaridade, ou MoCA/Fluência verbal/Teste do relógio). Atribuir ao envelhecimento fisiológico é erro conceitual: perda de AIVD não é esperada do envelhecimento normal e reavaliar em um ano retarda diagnóstico potencialmente reversível. Ressonância de crânio é exame complementar da investigação etiológica, indicado depois da caracterização da síndrome demencial, não como próximo passo. A depressão é diferencial relevante e o GDS pode ser aplicado, mas a alternativa se invalida ao prescrever antidepressivo empiricamente, sem diagnóstico e sem antes afastar comprometimento cognitivo.
Homem de 79 anos, viúvo, mora sozinho e é acompanhado na unidade de saúde da família. Relata perda ponderal não intencional de 5,5 kg no último ano (peso atual 58 kg) e sensação de exaustão na maior parte dos dias da semana. A neta observa que ele abandonou as caminhadas diárias e passou a demorar muito para atravessar a rua. Ao exame: força de preensão palmar reduzida para o sexo e o IMC, velocidade de marcha de 0,6 m/s, cognição e humor preservados. Assinale a conduta mais adequada.
O paciente preenche os cinco critérios do fenótipo de fragilidade de Fried (perda de peso não intencional maior que 4,5 kg ou 5% ao ano, exaustão autorreferida, fraqueza pela preensão palmar, lentidão da marcha — menor que 0,8 m/s — e baixo nível de atividade física), configurando idoso frágil. A intervenção com maior evidência é o exercício multicomponente com treino resistido associado a suporte nutricional com aporte proteico adequado (cerca de 1,0–1,2 g/kg/dia), além da revisão de polifarmácia e do rastreio de causas secundárias de perda de peso. A reposição de testosterona não é recomendada como estratégia para fragilidade, com benefício funcional marginal e riscos cardiovasculares e prostáticos. O acetato de megestrol tem evidência fraca e associa-se a eventos tromboembólicos e maior mortalidade. A vitamina D é insuficiente isoladamente — é adjuvante, indicada sobretudo na deficiência documentada.
Mulher de 81 anos comparece à consulta acompanhada pela filha, que relata que a mãe deixou de administrar sozinha as próprias medicações, não consegue mais fazer compras, preparar as refeições nem controlar as contas da casa, e desistiu de usar o telefone. A paciente continua tomando banho, vestindo-se, alimentando-se, transferindo-se da cama para a cadeira e usando o banheiro sem qualquer auxílio. Durante a avaliação geriátrica ampla, assinale o instrumento adequado para graduar objetivamente o comprometimento funcional descrito.
As tarefas comprometidas — uso do telefone, compras, preparo de refeições, controle de finanças e manejo das medicações — são atividades instrumentais de vida diária (AIVD), graduadas pela escala de Lawton-Brody; seu declínio costuma preceder o das atividades básicas. Incorreta porque o Índice de Katz avalia as atividades básicas (banho, vestir-se, higiene, transferência, continência e alimentação), justamente as preservadas na paciente. O fenótipo de Fried mede fragilidade (perda de peso, exaustão, fraqueza, lentidão e baixa atividade), não funcionalidade instrumental. O MEEM rastreia cognição e, embora o declínio cognitivo possa ser a causa da perda de AIVD, não é o instrumento que gradua o comprometimento funcional descrito.
Durante a avaliação de uma paciente de 77 anos, a filha informa que a mãe deixou de administrar as próprias medicações e as contas da casa há cerca de um ano, mas continua tomando banho, vestindo-se e alimentando-se sem qualquer ajuda. Sobre esse padrão, é correto afirmar que:
Administrar medicações e cuidar do dinheiro e das contas são atividades instrumentais de vida diária, avaliadas pela escala de Lawton-Brody; banhar-se, vestir-se e alimentar-se são básicas, avaliadas pelo índice de Katz. Perder as instrumentais com as básicas preservadas é o padrão de declínio precoce, porque a perda desce da camada avançada para a instrumental e só depois para a básica. A segunda alternativa troca as camadas e o instrumento. A terceira também troca: as avançadas são lazer, trabalho e participação social, e não têm escala consagrada — a avaliação é individualizada, comparando com o que a pessoa fazia antes. A quarta enuncia o erro central da geriatria: declínio funcional nunca se atribui à velhice, e sim a doença ou conjunto de doenças frequentemente sem sintoma típico. A quinta inverte a lógica do rastreio, porque esperar as básicas é justamente perder a janela em que a intervenção ainda muda trajetória.
Uma equipe de Saúde da Família vai organizar o acompanhamento das pessoas idosas do território e precisa padronizar a avaliação multidimensional registrada no prontuário eletrônico do cidadão. Qual instrumento o Ministério da Saúde incorporou nacionalmente ao PEC e-SUS APS para essa finalidade, e qual é a pontuação máxima possível?
O IVCF-20 é o instrumento de avaliação multidimensional incorporado ao Prontuário Eletrônico do Cidadão em nível nacional a partir da versão 5.3.24 e impresso na Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa: são 20 perguntas em 8 seções, cujos tetos somam exatamente 40 pontos (3+1+4+6+4+4+2+2+4+2+2+2+4). O índice de Katz avalia apenas as seis atividades básicas de vida diária — é uma camada da avaliação, não a avaliação multidimensional. A escala de Lawton-Brody avalia apenas as atividades instrumentais, também uma camada isolada. A Clinical Frailty Scale é escala de julgamento clínico do estado basal, de origem canadense, não adotada como instrumento de registro na atenção primária brasileira. O miniexame do estado mental avalia apenas cognição e tem pontos de corte que dependem da escolaridade.
Mulher de 74 anos é avaliada em ambulatório de geriatria. Refere perda não intencional de 5 kg no último ano e cansaço quase diário, que ela descreve como 'ter de fazer força para tudo'. A força de preensão está abaixo do percentil de referência para sexo e índice de massa corporal, e a velocidade de marcha está reduzida. O nível de atividade física relatado é adequado. Segundo o fenótipo de fragilidade, como ela deve ser classificada?
Os cinco critérios do fenótipo são perda de peso não intencional (cerca de 4,5 kg ou mais no último ano), exaustão autorreferida, fraqueza medida pela força de preensão, lentidão de marcha e baixo nível de atividade física. A paciente preenche quatro deles — perda de 5 kg, exaustão, fraqueza e lentidão — e não preenche apenas o de atividade física. Como frágil é quem tem três ou mais, quatro critérios a classificam como frágil. Pré-frágil, ou estágio intermediário, é quem tem um ou dois critérios, e ela tem quatro. Ela não é robusta: manter atividade física adequada não neutraliza os outros quatro critérios. Não existe hierarquia de critérios maiores e menores no fenótipo — os cinco pesam igual e o que conta é a contagem. E o fenótipo não inclui avaliação cognitiva entre seus critérios; ele é deliberadamente físico, o que é uma das críticas que a abordagem por acúmulo de déficits lhe faz.
Homem de 69 anos tem IVCF-20 de 6 pontos, sendo 4 deles vindos integralmente da seção de humor (respostas afirmativas às duas perguntas) e 2 da seção de continência esfincteriana. Não há pontuação nas demais seções. Qual é a conduta correta da equipe?
Seis pontos caem na faixa de 0 a 6, que é baixo risco, com reaplicação mínima anual e manutenção das ações de promoção da saúde, imunização, saúde bucal e controle das crônicas. Mas a régua federal afirma que, para TODOS os níveis de risco, a equipe deve aprofundar a avaliação de cada item ou dimensão alterada, garantindo acesso oportuno e manejo adequado — o total classifica, a dimensão orienta. Aqui, duas dimensões vieram alteradas e uma delas está com pontuação máxima. A segunda alternativa inventa uma regra: a faixa é definida pela soma, não pelo número de dimensões alteradas. A terceira comete o erro que a questão testa, tratando baixo risco como alta. A quarta confunde o estudo de confiabilidade entre avaliadores com a prática: a régua manda completar o instrumento num único atendimento, não repeti-lo por outro profissional. A quinta cria um encaminhamento automático que a régua não prevê — o primeiro passo diante de rastreio de humor positivo é aprofundar a própria avaliação e buscar causas.
Homem de 68 anos, acompanhado na unidade básica, aplica-se o IVCF-20 e o escore final é 9 pontos. Não houve queda, internação ou mudança de prescrição desde a última consulta. De acordo com a orientação federal vigente, qual é a periodicidade de reaplicação do instrumento nesse paciente?
A régua federal tem duas formulações equivalentes: pela faixa, baixo risco (0 a 6) reaplica no mínimo anualmente e as faixas de risco moderado (7 a 14) e alto (15 a 40) reaplicam semestralmente; pela orientação operacional, aplica-se no mínimo anualmente a todas as pessoas idosas acompanhadas e reaplica-se a cada seis meses em quem pontuou mais que 6. Nove pontos é risco moderado, logo semestral. A alternativa dos doze meses confunde a fronteira: o intervalo anual vale até 6 pontos, não até 14. Três meses não é intervalo previsto em nenhuma faixa. Reaplicar só diante de evento sentinela inverte a regra — o evento sentinela ENCURTA o intervalo, não o substitui. Vinte e quatro meses não existe na régua: mesmo o baixo risco tem reaplicação mínima anual.
Mulher de 86 anos, avaliada na unidade básica. Considera a própria saúde ruim. Por causa da saúde, deixou de fazer compras, deixou de controlar o dinheiro e as contas e deixou de fazer pequenos trabalhos domésticos; continua tomando banho sozinha. Sem queixa de esquecimento pela paciente ou pela família. Nega desânimo e nega perda de interesse. Sem limitação de alcance ou preensão. Peso estável, índice de massa corporal 23 kg/m², panturrilha 33 cm, percorre 4 metros em 4 segundos. Nega dificuldade para caminhar e nega quedas. Sem perda involuntária de urina ou fezes. Visão e audição preservadas com correção. Usa dois medicamentos, sem internação no último ano e com três diagnósticos crônicos. Qual é a pontuação do IVCF-20 e a faixa correspondente?
A conta é: idade 86 anos, faixa de 85 ou mais, 3 pontos; autopercepção ruim, 1 ponto; atividades instrumentais, três respostas afirmativas, mas a seção tem TETO de 4 pontos, então 4 e não 12; todas as demais seções zeradas — banho preservado (0), cognição sem queixa (0), humor negativo (0), alcance e preensão normais (0), capacidade aeróbica e muscular sem nenhum dos quatro gatilhos, já que o peso está estável, o índice de massa corporal é 23, a panturrilha 33 cm e 4 metros em 4 segundos equivalem a 1,0 m/s (0), marcha sem dificuldade e sem duas quedas (0), continência preservada (0), visão e audição preservadas (0 e 0), e comorbidades múltiplas negativas porque são três doenças, dois medicamentos e nenhuma internação em seis meses (0). Total 8 pontos, faixa de 7 a 14: risco moderado. Dezesseis pontos é o resultado de somar 12 nas instrumentais ignorando o teto (3 + 1 + 12); vinte pontos acrescenta a esse erro os 4 pontos de comorbidades múltiplas, que não se aplicam, porque são três doenças crônicas, dois medicamentos e nenhuma internação em seis meses. Doze pontos sai de contar as instrumentais como 8. Cinco pontos sai de errar a faixa etária, atribuindo 1 ponto a quem tem 86 anos — a partir de 85 valem 3.
Em um exercício, considere uma validação do IVCF-20 contra a avaliação geriátrica ampla que obteve, no ponto de corte de 6, sensibilidade de 90,5%, especificidade de 71,0%, valor preditivo positivo de 87,3% e valor preditivo negativo de 77,2%, numa amostra de centro de referência em que 273 das 397 pessoas eram frágeis. Uma equipe pretende usar esses números para interpretar o resultado positivo numa população da comunidade, onde a fragilidade é bem menos frequente. Supondo, para isolar o efeito da prevalência, que sensibilidade e especificidade se mantenham na nova população, o que se espera?
Sob a hipótese explicitada, menor prevalência reduz o valor preditivo positivo e aumenta o negativo. Com prevalência de 15%, sensibilidade de 90,5% e especificidade de 71%, o VPP é aproximadamente 35,5% e o VPN, 97,7%. Em aplicação real, a sensibilidade e a especificidade podem diferir entre populações por mudanças no espectro dos casos ou na execução do teste; a constância aqui é uma premissa do exercício, não uma propriedade universal.
Sobre a avaliação geriátrica ampla realizada em pessoas idosas internadas, comparada ao cuidado hospitalar habitual, a revisão sistemática de 29 ensaios randomizados com 13.766 participantes mostrou, com evidência de certeza alta:
Os quatro desfechos com certeza alta são: estar vivo e na própria casa em 3 a 12 meses, com risco relativo de 1,06 (intervalo de confiança de 95% de 1,01 a 1,10); mortalidade, com risco relativo de 1,00 (0,93 a 1,07), ou seja, sem diferença relevante; institucionalização, com risco relativo de 0,80 (0,72 a 0,89); e dependência, com risco relativo de 0,97 (0,89 a 1,04), também sem diferença relevante. O ganho é de destino, não de sobrevida. A segunda e a terceira alternativas prometem redução de mortalidade, que é justamente o desfecho neutro com certeza alta — é o distrator clássico do tema. A quarta inventa um dano: as faixas de tempo médio de internação relatadas nos ensaios se sobrepõem quase inteiramente entre intervenção e comparação, e o que a revisão registra como incerto, com certeza baixa, é o custo — em média 234 libras a mais por participante, com intervalo de confiança de 95% de menos 144 a mais 605 —, não a permanência. A quinta ignora que os quatro desfechos principais foram classificados como de certeza alta; a certeza baixa aparece em cognição e nos desfechos econômicos.
Ao aplicar o índice de vulnerabilidade clínico-funcional a uma mulher de 80 anos, independente e sem queixas, a enfermeira colhe três respostas na seção de incapacidades funcionais: ela não faz mais compras porque o filho passou a trazer tudo do mercado por conveniência da família; nunca controlou o dinheiro e as contas, tarefa que sempre foi do marido; e deixou os trabalhos domésticos quando a filha se mudou para a casa e assumiu a limpeza. A paciente diz que faria as três tarefas se precisasse, e a filha confirma. Continua tomando banho sozinha. Quantos pontos essa seção soma?
Todas as perguntas funcionais do instrumento trazem a mesma cláusula, e é ela que separa quem leu o instrumento de quem decorou a lista: a pergunta é se a pessoa deixou de fazer aquilo por causa da sua saúde ou condição física, e a resposta prevista para quem não faz por outros motivos vale zero. Quem nunca cuidou do dinheiro da casa não pontua por isso, e quem parou de limpar porque a filha passou a limpar também não — o que se mede é mudança causada por saúde, não hábito de vida nem arranjo familiar. Como nenhuma das três mudanças tem causa de saúde, a seção fica zerada, e o teto de 4 pontos das instrumentais só entraria em cena se ao menos uma resposta contasse. Somar 12 ignora, além da cláusula, o próprio teto da seção. Atribuir 6 pontos confunde o item do banho, que é o maior peso isolado do instrumento, com as perguntas instrumentais — e o banho está preservado, valendo zero.
Homem de 76 anos, acompanhado na unidade básica, é independente para as três camadas de atividades de vida diária: dirige, vai à igreja, faz as compras, cuida do próprio dinheiro e das medicações, cozinha e toma banho sozinho. Não tem queixa cognitiva nem de humor, não caiu no último ano e a marcha é normal. Tem cinco diagnósticos crônicos, usa seis medicamentos por dia e esteve internado por pneumonia há quatro meses. Em qual estrato clínico-funcional ele se classifica?
O estrato 4 é a fronteira do modelo e o que a prática mais deixa passar: a pessoa continua independente para todas as atividades, mas já reúne condições preditoras de desfecho adverso — marcadores de sarcopenia, comprometimento cognitivo leve ou comorbidades múltiplas, entendidas como polipatologia, polifarmácia ou internação recente. Aqui os três gatilhos de comorbidade múltipla estão presentes, e é isso, e não a dependência, que o coloca no grupo em risco de fragilização, com reavaliação semestral e vigilância ativa. O primeiro estrato exige ausência de doença e de fator de risco além da idade, o que o caso não descreve. O terceiro reúne quem tem doença crônica bem estabelecida sem limitação funcional e sem esse conjunto de preditores, de modo que a independência sozinha não encerra a classificação. O quinto pressupõe declínio nas atividades avançadas, ausente em quem dirige e mantém a vida social. E o sétimo pressupõe declínio em todas as instrumentais, com as básicas ainda preservadas.
Um hospital discute oferecer avaliação geriátrica ampla por enfermaria dedicada ou por equipe móvel que atende outras enfermarias. Segundo a revisão Cochrane de 2017, o que se pode concluir sobre a comparação dos efeitos desses formatos?
Os autores consideraram incerta a diferença entre formatos porque a análise tinha poder insuficiente. Não se deve converter essa incerteza em equivalência nem em prova de inutilidade das equipes móveis. Referência: Ellis et al., Cochrane 2017, CD006211, conclusões dos autores.
Na avaliação pré-operatória do idoso, a identificação de fragilidade é relevante porque:
A fragilidade é uma síndrome de redução da reserva fisiológica que prediz complicações, declínio funcional e mortalidade de modo independente da idade e das comorbidades, e por isso acrescenta informação aos índices tradicionais. Igualá-la à idade cronológica é o erro conceitual central, pois há idosos robustos e adultos mais jovens frágeis. Reconhecer fragilidade não proíbe operar — orienta pré-habilitação, ajuste de expectativas e discussão de metas de cuidado.
Qual é o valor da avaliação geriátrica ampla no contexto do trauma no idoso?
A avaliação geriátrica ampla estrutura a análise de cognição, funcionalidade, mobilidade, humor, nutrição, medicações e suporte social, permitindo antecipar riscos, planejar reabilitação e alta e ajustar metas de cuidado conforme a reserva do paciente e suas preferências. Ela não substitui a avaliação primária do trauma, que segue prioridades próprias. Não define isoladamente indicação cirúrgica. Não gradua lesões, papel da imagem e da avaliação cirúrgica. E não determina a necessidade de tomografia, que segue critérios de trauma.
Qual conjunto de características define o fenótipo de fragilidade?
O fenótipo de fragilidade reúne perda de peso não intencional, exaustão relatada, redução da força de preensão, lentidão da marcha e baixo nível de atividade física, e sua presença prediz pior desfecho após trauma e cirurgia, orientando decisões e planejamento do cuidado. Idade isolada não define fragilidade, existindo idosos robustos e jovens frágeis. Comorbidades controladas caracterizam multimorbidade, conceito distinto. Uso de medicamento contínuo se relaciona a polifarmácia. E alterações sensoriais como catarata e presbiacusia são comuns e não compõem o fenótipo.
Cuidador principal de paciente com demência avançada apresenta insônia, irritabilidade, isolamento social e relata culpa constante. Qual a conduta da equipe?
O cuidador é parte da unidade de cuidado em paliação, e a sobrecarga tem consequências clínicas para ele e para o paciente, incluindo maior risco de negligência e de institucionalização precoce. A abordagem estrutura rede de apoio, alívio periódico e tratamento das próprias condições do cuidador. Prescrever ansiolítico isoladamente engana quem trata o sintoma e não a situação que o produz, e adia a intervenção que efetivamente reduz a sobrecarga.
Homem de 72 anos, obeso, com hipertensao resistente, relata ronco alto, pausas presenciadas, despertares com sufocamento e sonolencia diurna. Qual a investigacao e o tratamento provavel?
Ronco com pausas presenciadas, sufocamento noturno e sonolencia diurna em obeso com hipertensao resistente configura alta probabilidade de apneia obstrutiva, e a polissonografia (ou poligrafia domiciliar em casos selecionados) confirma; o tratamento padrao nas formas moderada a grave e a pressao positiva. Prescrever hipnotico engana porque o paciente 'nao dorme bem', mas sedar quem tem apneia prolonga os eventos obstrutivos e agrava a dessaturacao. Oximetria normal isolada nao exclui o diagnostico.
Homem de 74 anos apresenta, ha 2 anos, episodios noturnos de gritos, socos e chutes durante sonhos vividos, tendo ferido a esposa. Nao ha confusao ao despertar. Qual o diagnostico e a implicacao prognostica?
A perda da atonia muscular do sono REM faz o paciente 'atuar' o sonho, com movimentos violentos e recordacao do conteudo onirico ao acordar - e o transtorno comportamental do sono REM, que precede em anos a doenca de Parkinson, a demencia com corpos de Lewy e a atrofia de multiplos sistemas. O sonambulismo engana por tambem ser comportamento noturno, mas ocorre no sono de ondas lentas, na primeira metade da noite, com amnesia do episodio e sem correspondencia com o sonho. O manejo inclui seguranca do ambiente, melatonina ou clonazepam.
Idoso de 83 anos dorme as 19 horas e acorda as 3 da manha, sentindo-se descansado, mas incomodado com o horario. Nao ha sonolencia diurna nem prejuizo cognitivo. Qual o diagnostico e a conduta?
O envelhecimento adianta o relogio circadiano: a pessoa adormece e desperta cedo, mas com duracao e qualidade preservadas e sem sonolencia diurna - o tratamento e cronobiologico, com luz intensa no fim da tarde e atraso progressivo dos horarios. Tratar como insonia engana porque a queixa de 'acordar as 3 da manha' e a mesma, mas na insonia ha sono nao restaurador e repercussao diurna. Despertar precoce da depressao viria acompanhado de humor deprimido, anedonia e alteracao de apetite.
Na avaliacao geriatrica ampla de um idoso com queixa de sono ruim e duas quedas no ultimo ano, qual conjunto de avaliacoes e prioritario?
Queda no idoso e sindrome multifatorial, e a avaliacao estruturada cobre farmacos (com destaque para psicotropicos), marcha e equilibrio com testes como o de levantar e andar cronometrado, visao, pressao em ortostase, cognicao, humor e riscos do ambiente. Focar apenas na densitometria engana porque a osteoporose determina a CONSEQUENCIA da queda, e nao a sua causa. Exames de imagem e cardiologicos entram conforme suspeita especifica, como sincope, e nao como rastreio universal.
Mulher de 69 anos refere sensacao desagradavel nas pernas ao anoitecer, com necessidade irresistivel de move-las, alivio com a movimentacao e piora ao repouso, atrapalhando o inicio do sono. Qual a investigacao inicial e o manejo?
A sindrome das pernas inquietas se associa a deficiencia de ferro no sistema nervoso central, e a reposicao com ferritina baixa (habitualmente abaixo de 75 ng/mL) melhora os sintomas - por isso a investigacao comeca no ferro e na revisao de farmacos como antidepressivos, antipsicoticos e anti-histaminicos. O diagnostico e CLINICO, o que torna a eletroneuromiografia dispensavel. A levodopa em uso continuo engana por atuar na via dopaminergica, mas provoca aumento paradoxal dos sintomas com o tempo.
Sobre a avaliação funcional na demência, qual instrumento avalia as atividades básicas de vida diária?
A escala de Katz avalia as atividades básicas — banho, vestir-se, higiene, transferência, continência e alimentação — enquanto a de Lawton e Brody cobre as instrumentais, como uso do telefone, transporte, finanças e medicações. A distinção importa porque as instrumentais se perdem primeiro, marcando a transição do comprometimento cognitivo leve para a demência, e as básicas caem nas fases moderada e avançada.
Sobre a síndrome da fragilidade no idoso, qual conjunto de critérios a caracteriza no fenótipo clássico?
O fenótipo de fragilidade reúne cinco critérios — perda ponderal, exaustão, fraqueza, lentidão e baixa atividade física — sendo frágil quem apresenta três ou mais e pré-frágil quem apresenta um ou dois. Confundir fragilidade com multimorbidade ou com dependência engana quem trata os conceitos como sinônimos, mas eles se sobrepõem apenas parcialmente, e a fragilidade identifica vulnerabilidade a desfechos adversos mesmo em quem ainda é independente.
Sobre a avaliação geriátrica ampla, qual é seu principal objetivo?
A avaliação geriátrica ampla é multidimensional e multiprofissional, cobrindo funcionalidade, cognição, humor, nutrição, mobilidade, medicações, suporte social e ambiente, com o objetivo de gerar um plano de cuidados individualizado — associando-se a melhores desfechos funcionais e a menor institucionalização. Reduzi-la a um único domínio engana quem a confunde com uma bateria de testes, e perde justamente o que a torna eficaz.
Sobre a triagem nutricional em idosos, qual conduta é adequada diante de rastreio positivo?
O rastreio positivo dispara avaliação completa e busca das causas — dificuldade mastigatória, disfagia, medicações, depressão, isolamento, dificuldade financeira, doença de base — com intervenção dirigida e acompanhamento. Prescrever suplemento sem investigar engana quem quer corrigir o número sem entender a causa, e a albumina isolada é marcador de inflamação e prognóstico, não de estado nutricional.
Qual e o objetivo principal da avaliacao geriatrica ampla em pacientes idosos hospitalizados?
A avaliacao geriatrica ampla nao busca apenas o diagnostico da doenca aguda, e sim mapear dominios frequentemente invisiveis na consulta convencional, como cognicao, humor, funcionalidade, nutricao, mobilidade, sensorio, continencia, suporte social e medicamentos, gerando um plano de cuidados coordenado que demonstrou reduzir declinio funcional, institucionalizacao e reinternacoes. Limitar-se ao diagnostico da doenca aguda e justamente o modelo que a avaliacao ampla veio corrigir. Ela nao e ferramenta prognostica de mortalidade nem instrumento de contencao de exames, e nao substitui avaliacoes especializadas, mas as organiza e prioriza conforme metas do paciente.
Qual conjunto de criterios define o fenotipo de fragilidade?
O fenotipo de fragilidade combina cinco criterios, e a presenca de tres ou mais define fragilidade, enquanto um ou dois indicam pre-fragilidade, estado potencialmente reversivel com exercicio resistido, suporte nutricional com aporte proteico adequado e revisao de medicamentos. Idade isolada nao define fragilidade, e ha idosos muito longevos robustos. Multimorbidade e polifarmacia sao fatores associados, porem conceitos distintos. Dependencia funcional completa caracteriza incapacidade estabelecida, desfecho da fragilidade nao tratada. Reconhecer o idoso fragil muda decisoes sobre cirurgia, quimioterapia, metas terapeuticas e rastreamentos, evitando tanto o subtratamento quanto a obstinacao terapeutica.
Mulher de 77 anos e trazida pelo filho por esquecimentos progressivos ha dois anos, com dificuldade para administrar as proprias financas e usar o telefone, mas ainda independente para higiene e alimentacao. Qual e a interpretacao funcional desse quadro?
As atividades instrumentais, como manejar dinheiro, usar transporte, telefone e medicamentos, exigem funcoes executivas mais complexas e se perdem antes das atividades basicas, como banho, vestuario e alimentacao, de modo que esse padrao de perda escalonada e caracteristico da demencia inicial e justifica investigacao com rastreio cognitivo e exclusao de causas reversiveis. Dependencia completa indicaria fase avancada, incompativel com a preservacao descrita. Considerar funcionalidade preservada ignora a perda relatada. A perda isolada das basicas com instrumentais intactas seria um padrao atipico. Atribuir ao envelhecimento normal e o erro que atrasa diagnostico e planejamento de cuidados.
Qual e a orientacao sobre rastreamento de cancer em idoso com expectativa de vida limitada?
O rastreamento so beneficia quem vive tempo suficiente para colher o ganho, geralmente cerca de dez anos no caso do cancer colorretal e de mama, de modo que em pacientes com expectativa de vida menor os danos aparecem primeiro: exames desconfortaveis, achados incidentais, biopsias, ansiedade e tratamentos sem beneficio. A decisao deve ser compartilhada e individualizada, e nao guiada por idade cronologica isolada nem pela vontade exclusiva dos familiares. Manter tudo indefinidamente ignora o balanco entre dano e beneficio. Suspender a todos aos 65 anos e arbitrario, ja que muitos idosos nessa faixa tem longa expectativa. Aumentar a frequencia com a idade inverte a logica.
Homem de 80 anos apresenta perda de peso de 6 kg em seis meses, sem sintomas especificos. Qual a abordagem inicial?
Perda ponderal involuntaria no idoso e sinal de alarme e exige investigacao ampla, contemplando neoplasia, disfuncao tireoidiana, infeccoes cronicas, insuficiencia cardiaca, doenca inflamatoria intestinal, depressao, demencia, efeitos de medicamentos, problemas dentarios e proteticos, disfagia, isolamento social e insuficiencia de renda para comprar alimentos, causas frequentemente esquecidas. Atribuir ao envelhecimento e o erro mais comum. Imagem de corpo inteiro sem hipotese dirigida gera achados incidentais. Estimulante de apetite nao trata a causa e tem efeitos adversos relevantes. Gastrostomia nao melhora sobrevida na demencia avancada e nao e conduta de investigacao.
Quais dominios compoem a avaliacao geriatrica ampla?
A avaliacao geriatrica ampla e multidimensional por definicao: alem do exame clinico, investiga capacidade funcional com atividades basicas e instrumentais de vida diaria, cognicao, sintomas depressivos, estado nutricional, suporte social, mobilidade e equilibrio, sensorio, continencia e revisao completa de medicamentos, culminando em um plano de cuidados individualizado. Restringir a avaliacao a exames clinicos e laboratoriais e o erro que transforma o atendimento do idoso numa consulta de orgao isolado. Nenhum recorte parcial contempla a complexidade dessa populacao, e a evidencia mostra que a abordagem ampla reduz institucionalizacao e melhora desfechos funcionais.
Idosa de 85 anos com incontinência apresenta velocidade de marcha lenta, perda de peso não intencional, exaustão referida e baixo nível de atividade física. Como interpretar esse conjunto?
Perda de peso, exaustão, fraqueza, lentidão e baixa atividade compõem o fenótipo de fragilidade, condição de reserva homeostática reduzida que prediz queda, hospitalização, dependência e morte, e que orienta metas de cuidado, revisão de medicamentos, exercício e suporte nutricional. Tratar como envelhecimento normal é o erro que faz perder janela de intervenção. Depressão e hipotireoidismo devem ser pesquisados como contribuintes, mas não substituem a leitura sindrômica do conjunto.
Qual conjunto de achados define o fenótipo de fragilidade proposto por Fried?
O fenótipo de fragilidade reúne cinco critérios objetivos, e a presença de três ou mais caracteriza o idoso frágil, condição associada a maior risco de queda, hospitalização, institucionalização e morte. As chamadas grandes síndromes geriátricas, que incluem instabilidade, imobilidade, incontinência, insuficiência cognitiva e iatrogenia, formam outro conjunto conceitual e são o distrator que mais confunde. Identificar fragilidade permite intervenções como exercício resistido, ajuste nutricional e revisão de medicamentos.
Na avaliação geriátrica ampla, qual instrumento é utilizado para avaliar a capacidade de realizar atividades instrumentais de vida diária?
A escala de Lawton e Brody avalia atividades instrumentais como usar telefone, administrar as próprias finanças, tomar medicações, preparar refeições e usar transporte, funções que se perdem antes das atividades básicas medidas pelo índice de Katz. O índice de Charlson quantifica comorbidades e prognóstico, mas não funcionalidade, sendo o distrator que confunde as duas dimensões. Avaliar funcionalidade é central na geriatria porque a perda funcional prediz desfechos melhor do que a lista de diagnósticos.
Qual componente NÃO faz parte da avaliação geriátrica ampla?
A avaliação geriátrica ampla é um processo multidimensional que abrange cognição, humor, funcionalidade, mobilidade e quedas, nutrição, medicações, continência, visão, audição e suporte social, culminando num plano de cuidado. Estadiamento oncológico é procedimento diagnóstico de outra natureza e não integra o instrumento — é o distrator que confunde 'avaliação abrangente do idoso' com 'investigação de todas as doenças possíveis'.
Homem de 81 anos, com quedas recorrentes, tem escore de 3 no fenótipo de fragilidade de Fried. Como classificá-lo e qual a implicação?
No fenótipo de Fried, três ou mais dos cinco critérios — perda de peso não intencional, exaustão, baixa atividade física, lentidão de marcha e fraqueza de preensão — classificam o idoso como frágil, condição associada a piores desfechos e que orienta metas de cuidado, revisão de fármacos e reabilitação. Um ou dois critérios definem pré-fragilidade, que também merece intervenção — considerá-la inofensiva é o erro que perde a janela de reversibilidade.
Qual achado deve ser interpretado como sinal de alarme para investigação adicional em idoso com perda de peso não intencional maior que 5% em 6 meses?
Perda ponderal não intencional acima de 5% em 6 meses é critério de fragilidade e sinal de alarme por si só, exigindo avaliação sistemática que inclui neoplasia, doenças crônicas descompensadas, depressão, demência, fármacos, saúde bucal, disfagia e insegurança alimentar. Condicionar a investigação a marcadores laboratoriais é o erro que atrasa diagnósticos: albumina e hemoglobina normais não afastam causa relevante.
Qual conjunto de critérios define a síndrome de fragilidade pelo fenótipo de Fried?
O fenótipo de Fried avalia cinco componentes, e três ou mais caracterizam fragilidade, com um ou dois definindo pré-fragilidade. É importante não confundir fragilidade com multimorbidade nem com incapacidade: são conceitos sobrepostos, porém distintos, e o idoso frágil pode ser independente. Reconhecer a fragilidade muda decisões sobre cirurgia, quimioterapia e metas terapêuticas.
Qual escala avalia especificamente as atividades BÁSICAS de vida diária no idoso?
O índice de Katz avalia banho, vestir-se, higiene, transferência, continência e alimentação, ou seja, o autocuidado básico. A escala de Lawton mede as atividades instrumentais — telefone, compras, medicações, finanças, transporte — que se perdem antes das básicas e é o distrator mais escolhido. O miniexame avalia cognição, e a escala de Zarit mede a sobrecarga do cuidador.
Sobre a avaliação geriátrica ampla, qual é o seu propósito?
A avaliação geriátrica ampla é multidimensional e interdisciplinar, e seu produto é um plano de cuidado com metas, não um rótulo diagnóstico. Ela identifica síndromes geriátricas frequentemente silenciosas na consulta convencional, como quedas, incontinência, déficit cognitivo, iatrogenia, desnutrição e isolamento. Reduzi-la a instrumento de institucionalização é distorcer justamente o objetivo de preservar autonomia.
Homem de 79 anos comparece à consulta acompanhado da filha, que refere esquecimentos, duas quedas e uso de 8 medicamentos. Qual instrumento organiza a abordagem integral desse paciente?
A avaliação geriátrica ampla estrutura o cuidado do idoso complexo ao integrar cognição, humor, funcionalidade, mobilidade, nutrição, medicações, continência, sentidos e suporte social num plano único. Fragmentar em encaminhamentos paralelos é o caminho que multiplica prescrições e exames sem coordenação, produzindo justamente a polifarmácia e a cascata que se busca evitar.
Ao avaliar um idoso com declínio funcional, qual erro conceitual deve ser evitado?
Declínio funcional é sempre sinal de doença, e não consequência inevitável da idade; atribuí-lo ao envelhecimento encerra a investigação e deixa sem tratamento causas frequentes e reversíveis como depressão, hipotireoidismo, anemia, fármacos, dor, déficits sensoriais e desnutrição. As demais alternativas descrevem justamente os passos corretos da avaliação.
Qual instrumento é usado para rastrear risco nutricional em idosos hospitalizados ou institucionalizados?
A Miniavaliação Nutricional rastreia e avalia o estado nutricional do idoso, combinando antropometria, ingestão, mobilidade e percepção de saúde. A escala de Braden estima risco de lesão por pressão e a de Morse, risco de queda — instrumentos que frequentemente coexistem no mesmo prontuário e por isso são confundidos, embora respondam a perguntas diferentes.
Qual das alterações abaixo é considerada NORMAL do envelhecimento e NÃO exige investigação adicional?
A lentificação do processamento e a queda leve na memória de evocação livre, sem impacto na funcionalidade, integram o envelhecimento cognitivo normal. Perda ponderal, incontinência nova, delirium e síncope são sempre sinais de doença e nunca devem ser normalizados pela idade — tratá-los como esperados é o erro que mais atrasa diagnósticos na população idosa.
Homem de 82 anos apresenta perda de 5 kg no último ano sem intenção, relata cansaço para atividades habituais, caminha lentamente, tem força de preensão reduzida e baixo nível de atividade física. Como classificá-lo pelo fenótipo de Fried?
Os cinco critérios do fenótipo — perda ponderal não intencional, exaustão autorreferida, baixa atividade física, lentidão de marcha e fraqueza de preensão — estão todos presentes, classificando o idoso como frágil. A distinção importa porque a fragilidade prediz hospitalização, incapacidade e morte, e orienta metas de tratamento e intensidade de intervenções.
Idoso frágil de 84 anos será submetido a cirurgia eletiva de grande porte. Qual a implicação da fragilidade nesse contexto?
A fragilidade é preditor independente de complicações, delirium, institucionalização e mortalidade pós-operatória, superando a idade cronológica e os escores tradicionais; ela orienta pré-habilitação, ajuste de expectativas e decisão compartilhada sobre alternativas. Contraindicar toda cirurgia é o extremo oposto e igualmente incorreto, pois muitos idosos frágeis se beneficiam de procedimentos bem indicados.
Qual intervenção tem melhor evidência para reverter ou atenuar a fragilidade em idosos?
Programas multicomponentes de exercício com aporte proteico adequado e revisão da prescrição são a intervenção com melhor evidência, capaz de melhorar força, mobilidade e reduzir incapacidade. Reduzir atividades para 'poupar' o idoso frágil acelera exatamente o ciclo de sarcopenia, lentidão e dependência que define a síndrome.
Qual mecanismo fisiopatológico é central na síndrome de fragilidade?
A fragilidade resulta da soma de inflamação crônica de baixo grau, perda de massa e função muscular e alterações hormonais, produzindo redução da reserva fisiológica e vulnerabilidade a pequenos estressores — uma infecção leve pode precipitar delirium e dependência. Compreender o mecanismo explica por que exercício e nutrição atuam sobre a via central da síndrome.
Idoso frágil de 88 anos com fibrilação atrial, hipertensão e diabetes tem múltiplas prescrições. Qual princípio deve orientar as metas terapêuticas?
No idoso frágil, metas rígidas de pressão e glicemia aumentam hipotensão, quedas e hipoglicemia sem benefício proporcional, enquanto intervenções de alto valor imediato — como a anticoagulação na fibrilação atrial — costumam ser mantidas. A decisão é individualizada e compartilhada com o paciente sempre que ele tem capacidade, e não transferida integralmente à família.
Qual é a principal diferença conceitual entre o fenótipo de Fried e o índice de fragilidade por acúmulo de déficits?
O fenótipo trata a fragilidade como síndrome biológica definida por critérios objetivos, enquanto o índice de déficits acumulados a trata como estado de vulnerabilidade proporcional ao número de problemas presentes. Os dois modelos identificam populações parcialmente diferentes e ambos predizem desfechos, o que faz da escolha uma questão de contexto, e não de correção.
Qual desfecho está mais associado à fragilidade em idosos da comunidade?
A fragilidade prediz de forma independente quedas, hospitalizações, delirium, perda funcional, institucionalização e morte, o que fundamenta seu rastreamento sistemático a partir dos 65 anos ou em qualquer idoso com sinais de alarme. As demais alternativas invertem a direção da associação e servem para verificar se o conceito foi realmente compreendido.
Qual instrumento rápido é utilizado para rastrear fragilidade na atenção primária?
Escalas clínicas de fragilidade, velocidade de marcha e questionários curtos como o FRAIL permitem triagem em poucos minutos. O índice de Katz mede funcionalidade básica e é o distrator mais próximo, porém detecta a dependência quando ela já se instalou, enquanto o rastreio de fragilidade busca identificar a vulnerabilidade antes desse ponto.
Idosa de 80 anos, pré-frágil, com dois critérios de Fried, procura orientação preventiva. Qual a conduta?
A pré-fragilidade é o estágio com maior potencial de reversão, e intervir nele oferece melhor relação entre esforço e benefício do que atuar apenas depois que a síndrome se completa. Considerar que só a fragilidade estabelecida merece conduta é o erro que desperdiça a janela de oportunidade da prevenção secundária.
Segundo a revisão Cochrane de 2017 sobre avaliação geriátrica ampla de idosos internados, qual é o benefício demonstrado em comparação ao cuidado habitual?
A revisão encontrou maior probabilidade de estar vivo em casa aos 3–12 meses (RR 1,06; IC95% 1,01–1,10) e menor institucionalização (RR 0,80; IC95% 0,72–0,89). Para mortalidade isolada, o resultado foi RR 1,00 (IC95% 0,93–1,07); para dependência, houve pouca ou nenhuma diferença. O benefício no desfecho composto não autoriza afirmar redução de todos os seus componentes. Referência: Ellis et al., Cochrane 2017, CD006211.
Homem de 81 anos com doenca de Alzheimer leve, hipertensao e insonia, em uso de anti-hipertensivo, zolpidem e oxibutinina para bexiga hiperativa, sofreu duas quedas sem fratura nos ultimos tres meses. Marcha lentificada, forca preservada, velocidade de marcha reduzida e perda de peso nao intencional. Qual a intervencao com maior impacto na prevencao de novas quedas?
Na avaliacao geriatrica ampla do idoso fragil que cai, as duas medidas de maior efeito sao retirar os farmacos que derrubam - hipnotico Z e anticolinergico, que ainda piora cognicao - e prescrever exercicio multicomponente com forca e equilibrio. A vitamina D isolada engana porque virou sinonimo de prevencao de queda no imaginario, mas seu efeito depende de deficiencia previa e doses altas intermitentes chegaram a aumentar quedas. O andador sem treino nao corrige o desequilibrio nem a sedacao, o bifosfonato previne fratura mas nao previne a queda, e restringir a deambulacao acelera o descondicionamento e a sarcopenia, aumentando o risco.
Idoso de 88 anos, fragil, dependente parcial, com multiplas comorbidades, e trazido pela filha que pergunta sobre 'exames completos' e uso de mais medicamentos para 'melhorar tudo'. A conduta que melhor traduz o cuidado centrado na pessoa idosa e:
No idoso fragil, o objetivo do cuidado e preservar funcionalidade e qualidade de vida, o que implica priorizar o que importa para o paciente e recusar intervencoes cujo tempo ate o beneficio excede a expectativa de vida. Pedir bateria ampla de exames engana porque soa zeloso, mas produz achados incidentais, cascata diagnostica e ansiedade. Fragmentar em multiplos especialistas multiplica prescricoes e reduz a coordenacao — a atencao primaria e quem integra o cuidado.
Idosa de 77 anos, independente, com hipertensao e osteoartrose, comparece para consulta de rotina. Segundo a avaliacao multidimensional, alem do exame clinico, deve-se rastrear sistematicamente:
A avaliacao geriatrica ampla e multidimensional por definicao: cognicao, humor, funcionalidade, mobilidade, sentidos, continencia, nutricao, farmacos e suporte social — dominios que se influenciam e que a consulta centrada apenas nas doencas nao captura. Restringir ao controle das doencas cronicas engana porque parece objetividade clinica, mas deixa passar justamente os sindromes geriatricos que determinam autonomia e prognostico.
Idoso de 83 anos, com dificuldade para tomar banho e vestir-se sozinho, mas continente e capaz de se alimentar. O instrumento mais adequado para avaliar essa dimensao e:
Banhar-se, vestir-se, usar o banheiro, transferir-se, ter continencia e alimentar-se sao as atividades BASICAS de vida diaria, avaliadas pelo indice de Katz. A escala de Lawton engana porque tambem mede funcionalidade, mas das atividades INSTRUMENTAIS — usar telefone, transporte, medicamentos, dinheiro, compras —, que se perdem antes e sinalizam declinio mais precoce. As demais ferramentas medem cognicao, humor e mobilidade, dominios distintos da avaliacao geriatrica ampla.
Sobre a avaliacao nutricional do idoso na atencao primaria, o instrumento de triagem especifico e a conduta correta sao:
A triagem nutricional do idoso usa instrumento proprio, que combina perda de peso, ingestao, mobilidade, estresse agudo e antropometria — e o achado de risco obriga investigar causas como problemas dentarios, disfagia, farmacos, depressao e limitacao socioeconomica. Usar o indice de massa corporal com os cortes do adulto engana porque nessa faixa os pontos de corte sao diferentes, com limiar mais alto para desnutricao, alem de a perda de estatura pela osteoporose distorcer o calculo.
Idosa de 80 anos apresenta perda de peso nao intencional de 5 kg no ultimo ano, exaustao autorreferida, forca de preensao reduzida, lentificacao da marcha e baixo nivel de atividade fisica. Essa combinacao caracteriza:
Os cinco criterios do fenotipo de fragilidade sao perda de peso nao intencional, exaustao, fraqueza de preensao, lentidao da marcha e baixa atividade fisica — tres ou mais definem fragilidade, condicao de vulnerabilidade a desfechos adversos que exige intervencao com exercicio resistido, suporte nutricional e revisao de farmacos. Chamar de envelhecimento normal engana e naturaliza um estado que e potencialmente reversivel. Sarcopenia e componente da fragilidade, mas nao explica sozinha o conjunto.
A avaliação geriátrica ampla difere da consulta clínica tradicional por avaliar sistematicamente múltiplos domínios. Quais domínios compõem essa avaliação?
A avaliação geriátrica ampla é multidimensional e interdisciplinar, cobrindo funcionalidade nas atividades básicas e instrumentais, cognição, humor, nutrição, mobilidade e risco de quedas, suporte social, revisão de medicamentos e função sensorial, incluindo visão e audição. Restringi-la à cognição e ao humor é o recorte mais comum na prática e é insuficiente, porque perde justamente os domínios que predizem perda de autonomia, hospitalização e institucionalização.
Idosa de 82 anos realiza o teste de levantar e caminhar cronometrado, completando o percurso em 18 segundos. Qual a interpretação?
O teste de levantar e caminhar cronometrado avalia mobilidade, equilíbrio e força de membros inferiores, e tempos acima de aproximadamente 12 segundos indicam desempenho alterado, com risco de quedas crescente conforme o tempo aumenta. Um resultado de 18 segundos, portanto, exige investigação da marcha, revisão de medicamentos, avaliação de visão e audição e programa de exercícios. Considerar o tempo normal pela idade é o erro que naturaliza o declínio e desperdiça uma intervenção com benefício demonstrado.
Segundo o fenótipo de fragilidade descrito por Fried, quantos e quais critérios definem o idoso frágil?
O fenótipo de Fried reúne cinco critérios objetivos: perda de peso não intencional, exaustão autorreferida, fraqueza medida pela força de preensão palmar, lentidão da marcha e baixa atividade física; três ou mais definem fragilidade e um ou dois caracterizam o estado pré-frágil. Confundir fragilidade com multimorbidade ou com dependência funcional é o erro conceitual mais frequente, pois são construtos que se sobrepõem parcialmente, mas descrevem fenômenos distintos e têm implicações prognósticas próprias.
Qual é uma forma simples e validada de rastrear perda auditiva em idosos durante a consulta ambulatorial?
O teste do sussurro, com o examinador fora do campo visual para impedir leitura labial, tem desempenho razoável como rastreamento e é executável em qualquer consultório, complementado por perguntas sobre dificuldade percebida. A otoscopia é indispensável para afastar cerume e efusão, mas não avalia a função coclear, e considerá-la suficiente para excluir perda neurossensorial é o erro que a questão cobra. Timpanometria e imagem não são métodos de rastreamento populacional em idosos.
Ao aplicar o miniexame do estado mental em uma idosa com quatro anos de escolaridade, qual cuidado é fundamental na interpretação?
O desempenho no miniexame do estado mental depende fortemente da escolaridade, e por isso os pontos de corte são ajustados: aplicar um valor único rotula como cognitivamente prejudicados idosos com pouca instrução formal e, no sentido inverso, deixa passar declínio em pessoas de alta escolaridade. Ignorar déficits sensoriais é outro erro relevante, pois quem não ouve o comando ou não enxerga o estímulo erra o item por razão alheia à cognição, o que reforça a ligação entre presbiacusia e diagnóstico equivocado de demência.
Uma equipe de Saúde da Família tem 4.000 pessoas adscritas, das quais 600 são idosas. A equipe deseja priorizar visitas domiciliares para os idosos mais vulneráveis. Qual instrumento é mais adequado para estratificar risco e priorizar o acompanhamento desse grupo no território?
A estratificação da população idosa por vulnerabilidade clínico-funcional permite identificar quem tem maior risco de desfechos adversos e priorizar o cuidado, sendo instrumento próprio da linha de cuidado do idoso. A escala de coma avalia nível de consciência em situações agudas, sem função de estratificação populacional. O escore de Framingham estima risco cardiovascular, apenas uma dimensão do risco global do idoso. O índice de massa corporal isolado não captura funcionalidade, cognição nem suporte social.
Mulher de 72 anos, viúva, é acompanhada na Estratégia Saúde da Família por hipertensão e osteoartrite de joelhos. Nos últimos oito meses, deixou de frequentar a igreja, reduziu a saída de casa e passou a depender da vizinha para compras. Refere dor nos joelhos, cansaço e desânimo. Ao exame: marcha lenta com apoio, velocidade de marcha reduzida, força de preensão diminuída, perda involuntária de 4 kg no ano, relato de exaustão na maioria dos dias, PA 138x82 mmHg, sem déficit cognitivo no rastreio. A interpretação e a conduta corretas são:
Perda de peso não intencional, exaustão, fraqueza, lentificação da marcha e redução da atividade compõem o fenótipo de fragilidade, condição com desfechos adversos previsíveis, cuja abordagem inclui avaliação geriátrica ampla, exercício resistido, otimização nutricional, revisão de fármacos e fortalecimento do suporte social. Considerar tudo envelhecimento normal perde uma janela de intervenção com evidência de benefício. Depressão pode coexistir e deve ser avaliada, mas tratá-la isoladamente não corrige sarcopenia, mobilidade e isolamento. Artroplastia é decisão eletiva baseada em dor refratária e limitação funcional após tratamento conservador otimizado, não a prioridade neste momento.
Uma família procura a equipe de Saúde da Família para discutir a possibilidade de institucionalizar o pai de 87 anos, com demência moderada, que mora sozinho após a morte da esposa. Ele já deixou o fogão ligado duas vezes, perdeu-se ao voltar do mercado e não toma as medicações corretamente. Os filhos moram em outra cidade e não conseguem se revezar nos cuidados. O idoso está clinicamente estável, sem lesões, e verbaliza que gostaria de continuar em casa se houver ajuda. A conduta mais adequada da equipe é:
A decisão sobre institucionalização exige avaliação estruturada da segurança, do grau de dependência e da rede de suporte, com discussão de alternativas como cuidador, centro-dia, atenção domiciliar e apoio comunitário, sempre envolvendo o idoso na medida de sua capacidade de decidir. Encaminhar de imediato como decisão exclusiva da família desconsidera a autonomia remanescente e as alternativas. Recusar a discussão nega uma opção legítima em algumas situações. Manter a situação sem intervenção ignora riscos concretos já materializados, como o fogão ligado e a perda de trajeto.
Homem de 84 anos será submetido a cirurgia eletiva de hérnia inguinal. Ele apresenta perda de peso não intencional de 6 kg no último ano, exaustão referida, velocidade de marcha lenta, baixa força de preensão e redução importante da atividade física. Usa seis medicamentos e mora sozinho. Ao exame, encontra-se emagrecido, com hérnia inguinal redutível, sem sinais de encarceramento, pressão arterial de 132 x 78 mmHg, sem sinais de descompensação cardíaca ou respiratória. Exames laboratoriais sem alterações relevantes. A conduta mais adequada antes da cirurgia é:
O paciente preenche vários critérios do fenótipo de fragilidade, condição que prediz complicações pós-operatórias, delirium, institucionalização e mortalidade melhor que a idade isolada; a conduta é avaliar formalmente a fragilidade, otimizar nutrição, condicionamento e medicamentos e realizar decisão compartilhada sobre riscos e benefícios em cirurgia eletiva. Basear o risco apenas em exames laboratoriais e eletrocardiograma ignora o determinante funcional. Contraindicar apenas pela idade é discriminação etária sem base clínica. Cateterismo de rotina não é indicado como avaliação pré-operatória universal.
Uma equipe de Saúde da Família decide organizar o acompanhamento das pessoas idosas do território de forma mais estruturada. Muitos usuários têm múltiplas doenças, usam vários medicamentos e apresentam queixas variadas, e a equipe percebe que consultas centradas apenas em cada doença isolada não têm resolvido problemas como quedas, isolamento e dificuldades para atividades do dia a dia. O objetivo é identificar precocemente perdas funcionais e planejar intervenções. A abordagem mais adequada é:
A avaliação geriátrica ampla é multidimensional e avalia funcionalidade, cognição, humor, mobilidade e equilíbrio, nutrição, visão e audição, continência, medicamentos e suporte social, permitindo identificar problemas que escapam ao modelo centrado em doenças e planejar intervenções que preservam autonomia. Focar apenas em metas laboratoriais deixa de identificar quedas, fragilidade e isolamento. Encaminhar todos ao especialista sem avaliação prévia é inviável e desnecessário. Exames de imagem periódicos indiscriminados geram achados incidentais e não avaliam função.
Uma equipe de saúde da família acompanha um homem de 82 anos que mora sozinho, com dificuldade progressiva para realizar compras, cozinhar e administrar as próprias medicações, além de duas quedas no último semestre e perda ponderal não intencional. Ao exame apresenta marcha lentificada, força de preensão reduzida, PA 132x78 mmHg sem hipotensão ortostática e índice de massa corporal de 20 kg/m², sem déficit cognitivo grave e com humor preservado na avaliação inicial. A conduta mais adequada é:
Perda ponderal não intencional, redução da força de preensão, lentificação da marcha e quedas indicam fragilidade, exigindo avaliação multidimensional da pessoa idosa, com análise funcional, cognitiva, nutricional, social e de medicamentos, e construção de plano de cuidado com fortalecimento da rede de apoio. Exames amplos sem avaliação funcional não respondem ao problema. Institucionalização imediata é desproporcional e não é a primeira alternativa. Naturalizar as limitações como idade impede intervenções que reduzem incapacidade e mortalidade.
Homem de 81 anos é levado à Unidade Básica de Saúde pela esposa por perda de 7 kg em seis meses, correspondente a 11% do peso corporal, sem dieta ou intenção de emagrecer. Refere apetite reduzido e cansaço. Usa cinco medicamentos, incluindo um inibidor de recaptação de serotonina iniciado há um ano. Ao exame, está emagrecido, sem massas palpáveis, com dentição em mau estado e várias lesões orais dolorosas. O rastreio cognitivo é normal e o hemograma mostra anemia leve normocítica. Qual é a conduta inicial?
Perda ponderal involuntária significativa no idoso exige investigação estruturada, com revisão de medicamentos, avaliação da saúde bucal e da deglutição, rastreio de depressão e busca de neoplasia e doenças crônicas, pois muitas causas são tratáveis, como as lesões orais já identificadas. Prescrever suplemento sem investigar mascara a causa e adia o diagnóstico. Estimulantes do apetite têm eficácia limitada e efeitos adversos relevantes nessa faixa etária. Naturalizar a perda de peso como envelhecimento normal é erro que retarda diagnósticos graves.
Uma mulher de 68 anos, com hipertensão e osteoartrite, comparece para consulta de rotina. Usa cinco medicamentos e relata tontura ocasional. A equipe deseja avaliar sua capacidade funcional, o risco de quedas, a presença de sintomas depressivos, o estado cognitivo e as condições sociais e de suporte familiar, organizando um plano de cuidado ajustado às necessidades identificadas nessa avaliação global. Qual instrumento ou abordagem é indicado?
A avaliação geriátrica ampla é abordagem multidimensional e multiprofissional que investiga capacidade funcional, cognição, humor, mobilidade e risco de quedas, condições sociais e uso de medicamentos, permitindo construir plano de cuidado individualizado. Aferir apenas a pressão arterial ignora todas as demais dimensões relevantes. A tomografia de crânio como primeira medida não substitui a avaliação clínica global e frequentemente não altera a conduta. O encaminhamento exclusivo à neurologia fragmenta o cuidado sem investigar causas comuns, como polifarmácia e hipotensão postural. A escala de dor isolada avalia apenas um domínio, insuficiente para o planejamento proposto.
Homem, 82 anos, com perda de peso não intencional de 6 kg no último ano, exaustão relatada na maior parte dos dias, força de preensão reduzida, velocidade de marcha lenta e baixo nível de atividade física, será submetido a gastrectomia por neoplasia. Exame: IMC 19 kg/m², PA 128x76 mmHg, FC 78 bpm, cognição preservada, sem descompensação de comorbidades no momento da avaliação. Qual a implicação mais relevante desse conjunto de achados?
Perda ponderal não intencional, exaustão, fraqueza, lentidão de marcha e baixa atividade física compõem o fenótipo de fragilidade, preditor independente de complicações, delirium, institucionalização, perda funcional e mortalidade pós-operatória, o que indica pré-habilitação, otimização nutricional, avaliação geriátrica ampla e decisão compartilhada sobre metas de cuidado. Afirmar ausência de implicação ignora que a fragilidade prediz desfechos melhor do que a idade cronológica. Reduzir o quadro a desnutrição isolada desconsidera os demais domínios do fenótipo. A fragilidade não contraindica de forma absoluta a cirurgia, mas modifica o preparo, a técnica e as expectativas. Nada no caso sugere demência, pois a cognição está preservada.
Homem, 82 anos, com adenocarcinoma de sigmoide ressecável, apresenta fragilidade, dependência parcial para atividades básicas e perda ponderal. PA 128x78 mmHg, FC 78 bpm, IMC 19 kg/m²; força de preensão reduzida e marcha lentificada. Albumina 3,0 g/dL (VR 3,5–5,0); Hb 10,4 g/dL (VR 13–17); função renal e cardíaca compensadas, sem descompensações recentes. Qual a conduta mais adequada antes da cirurgia?
Idoso frágil com desnutrição e perda funcional se beneficia de avaliação geriátrica ampla e de pré-habilitação nutricional, funcional e cognitiva antes da cirurgia colorretal eletiva, o que reduz complicações e tempo de internação sem comprometer o resultado oncológico. Operar de imediato ignora a oportunidade de otimização. Contraindicar pela idade isolada é discriminatório e não considera a reserva funcional. A quimioterapia paliativa não se aplica a doença ressecável. A colostomia sem ressecção deixa o tumor sem tratamento com intenção curativa.
Mulher, 82 anos, é encaminhada ao ambulatório de geriatria por declínio funcional progressivo no último ano, com duas quedas, perda de 4 kg e dificuldade crescente para administrar as próprias medicações. Mora sozinha e usa sete medicamentos. PA 138x76 mmHg, FC 72 bpm, IMC 21 kg/m², T 36,4 °C. Exame: marcha lenta, sem déficits focais, humor levemente rebaixado. Sobre a avaliação geriátrica ampla nesse contexto, é correto afirmar que:
A avaliação geriátrica ampla é processo diagnóstico multidimensional que examina cognição, humor, capacidade funcional para atividades básicas e instrumentais, mobilidade e risco de quedas, estado nutricional, revisão de medicações, condições sensoriais e suporte social, orientando um plano de cuidados individualizado. Reduzi-la ao rastreio cognitivo desconsidera sua natureza multidimensional. É aplicável em contextos ambulatorial, hospitalar e domiciliar, com benefício demonstrado em funcionalidade e redução de institucionalização. Não substitui anamnese e exame físico, que a complementam. Seu impacto vai além do prognóstico, orientando intervenções concretas.
Homem, 79 anos, refere cansaço na maior parte dos dias, perda não intencional de 5,5 kg no último ano, redução importante das atividades físicas habituais e lentificação da marcha. PA 130x78 mmHg, FC 70 bpm, IMC 22 kg/m², T 36,4 °C. Exame: força de preensão palmar reduzida para sexo e índice de massa corporal, marcha com velocidade abaixo do ponto de corte, sem déficits neurológicos focais. Quantos critérios do fenótipo de fragilidade estão presentes e como se classifica?
O fenótipo de fragilidade de Fried compreende cinco critérios: perda de peso não intencional, exaustão autorreferida, baixo nível de atividade física, lentificação da marcha e redução da força de preensão palmar, e o paciente descrito preenche todos eles, classificando-se como frágil, condição definida a partir de três ou mais critérios. Contar apenas dois critérios subestima o quadro. A fragilidade é síndrome de vulnerabilidade fisiológica e não exige diagnóstico de doença crônica avançada. Três critérios já configuram fragilidade, e não robustez. Não é necessária a presença dos cinco componentes para o diagnóstico.
Homem, 81 anos, é avaliado em consulta de rotina, sem queixas específicas, e mantém independência para atividades básicas. PA 134x78 mmHg, FC 72 bpm, IMC 25 kg/m², T 36,4 °C. Durante a avaliação funcional, mede-se a velocidade de marcha habitual em percurso de 4 metros, obtendo-se 0,6 m/s, com o paciente utilizando calçado habitual e sem dispositivo de auxílio. Qual a interpretação desse achado?
A velocidade de marcha habitual é marcador funcional robusto, e valores abaixo de 0,8 m/s indicam desempenho físico reduzido, associando-se a maior risco de quedas, declínio funcional, hospitalização, institucionalização e mortalidade, o que faz do teste uma ferramenta simples e de alto valor prognóstico. Considerar 0,6 m/s normal para a idade é interpretação equivocada. O teste é reprodutível e validado, não refletindo apenas motivação. Não indica por si investigação neurológica invasiva, embora causas tratáveis devam ser buscadas. Longe de contraindicar exercício, o achado é justamente indicação de programa de treinamento de força e equilíbrio.
Mulher, 84 anos, mora com a filha. Ainda toma banho, veste-se, alimenta-se e usa o banheiro sozinha, mas há 8 meses deixou de administrar o próprio dinheiro, não consegue mais preparar refeições completas nem organizar suas medicações, e desistiu de usar transporte público. PA 130x76 mmHg, FC 74 bpm, IMC 23 kg/m², T 36,4 °C. Qual a interpretação funcional desse quadro?
As atividades instrumentais da vida diária, avaliadas pela escala de Lawton, incluem manejo de finanças, preparo de refeições, controle de medicações, uso de transporte e telefone, e costumam ser as primeiras a se perder, enquanto as atividades básicas, avaliadas pelo índice de Katz, como banho, vestir-se, alimentar-se, transferência, continência e uso do banheiro, se mantêm por mais tempo, exatamente o padrão descrito. A inversão desse padrão não corresponde à evolução habitual. Considerar independência completa ignora a perda instrumental documentada. A dependência instrumental isolada não indica institucionalização imediata. A avaliação funcional tem forte valor prognóstico e orienta o plano de cuidados.
Mulher, 83 anos, institucionalizada, apresenta perda de 6 kg em 6 meses, redução da ingestão alimentar e fraqueza progressiva. PA 112x68 mmHg, FC 84 bpm, IMC 18 kg/m², T 36,4 °C. Exame: perda de massa muscular temporal e em membros, pele fina, edema discreto em tornozelos. Exames: albumina 2,8 g/dL (VR 3,5–5,0); hemoglobina 10,6 g/dL (VR 12–16); linfócitos 1.100/mm³; proteína C reativa 6 mg/L. Qual a conduta mais adequada?
Diante de desnutrição no idoso, a conduta é investigar causas tratáveis, como depressão, disfagia, problemas dentários, dor, fármacos anorexígenos, doenças consumptivas e restrições dietéticas desnecessárias, e otimizar o aporte proteico-calórico com adequação de consistência, fracionamento, suplementação oral e assistência às refeições. A nutrição parenteral é reservada a falência intestinal, com riscos infecciosos e metabólicos importantes. Suplemento vitamínico isolado não corrige déficit proteico-calórico. A gastrostomia não demonstrou reduzir mortalidade em várias situações, sobretudo na demência avançada. Atribuir a perda de peso ao envelhecimento normal é erro que retarda o diagnóstico de condições tratáveis.
Mulher de 79 anos consegue alimentar-se, vestir-se, usar o banheiro e tomar banho sozinha. Nos últimos meses, a filha passou a organizar seus medicamentos, administrar as contas e fazer compras por erros frequentes da mãe. Qual domínio está comprometido?
Medicação, finanças e compras são atividades instrumentais, que exigem organização e interação com o ambiente; as atividades básicas descritas permanecem preservadas. Referência: WHO. Integrated care for older people: guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. https://www.who.int/publications/i/item/WHO-FWC-ALC-19.1
Para estimar reserva antes de cirurgia durante doença aguda, qual informação evita superestimar fragilidade basal?

A doença aguda altera desempenho; avaliação deve distinguir condição basal de deterioração transitória.
Qual atividade básica está preservada segundo a tabela?

Alimentação é uma atividade básica explicitamente preservada.
Qual plano é mais adequado diante dos achados, sem contraindicação ao exercício?

A abordagem deve combinar função, nutrição e causas tratáveis; imobilidade acelera perda funcional.
Qual perda de peso exige atenção nesse registro?

Perda involuntária relevante pede investigação nutricional e clínica.
Apesar da independência básica, qual interpretação integra os demais dados?

Fragilidade pode anteceder incapacidade básica e envolve redução de reserva em vários domínios.
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IVCF-20: 20 perguntas, 8 seções, 40 pontos, 5 a 10 minutos. Faixas: 0 a 6 baixo (reaplicar no mínimo anualmente), 7 a 14 moderado, 15 a 40 alto (reaplicar semestralmente). Tetos que a conta esquece: instrumentais 4, capacidade aeróbica e muscular 2, comorbidades 4. Maior peso de item isolado: deixar de tomar banho sozinho, 6 pontos. Idade: 0, 1 e 3 — não existe faixa de 2. Em qualquer faixa, aprofundar cada dimensão alterada. Camadas de AVD: avançadas (individualizada), instrumentais (Lawton-Brody), básicas (Katz), perdidas nessa ordem. Fenótipo de fragilidade: 3 ou mais de 5 critérios; 1 a 2 é pré-frágil.
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Estratos clínico-funcionais: 1 a 3 robusto, 4 a 6 em risco de fragilização, 7 a 10 frágil; estrato 4 ou mais é o grupo com fragilidade, e o 4 já ocorre em pessoa independente que tem marcador de sarcopenia, comprometimento cognitivo leve ou comorbidades múltiplas. Validação do índice: área sob a curva 0,903, corte maior que 6, sensibilidade 90,5%, especificidade 71,0%, e valor preditivo positivo de 87,3% numa amostra com 68,8% de fragilidade — número que despenca em população de baixa prevalência. Clinical Frailty Scale: 7 níveis em 2005, 9 na versão 2.0 de 2020. Sarcopenia pelo consenso europeu: força primeiro (preensão abaixo de 27 kg em homens e 16 kg em mulheres, ou mais de 15 segundos em cinco levantadas), massa para confirmar, desempenho para graduar; panturrilha menor que 31 cm é o marcador brasileiro de rastreio. Avaliação geriátrica ampla no internado: aumenta a chance de estar vivo e em casa (risco relativo 1,06) e reduz institucionalização (0,80), sem diferença em mortalidade nem em dependência; número necessário para tratar de 33 em doze meses, 17 em seis meses, e 20 e 13 quando a intervenção é enfermaria dedicada. Evento sentinela: queda, internação, mudança de prescrição, mudança de comportamento, viuvez recente.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Mulher de 79 anos vem à unidade básica para consulta de rotina, trazida pela filha, que pediu para acompanhar 'porque a mãe não conta as coisas'. A paciente diz que está bem e que só quer renovar as receitas. Conduza a avaliação multidimensional: percorra as três camadas de atividades de vida diária perguntando o que ela deixou de fazer por causa da saúde, aplique as perguntas de cognição, humor, mobilidade, continência e comunicação, cheque os gatilhos de comorbidades múltiplas, meça o perímetro da panturrilha e a velocidade da marcha, calcule o escore, diga em que faixa ela caiu e qual é a conduta e a periodicidade que decorrem dela. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
