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Clínica MédicaGeriatria

Avaliação geriátrica ampla e fragilidade

A prova mostra uma pessoa idosa com dados soltos — idade, um esquecimento contado pela filha, uma panturrilha fina, seis medicamentos — e cobra três coisas: qual instrumento se usa naquele cenário, em que faixa de risco a pessoa cai e o que decorre da faixa. Desde 2025 a primeira pergunta tem resposta nacional, e ela tem nome.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 80 anos, em acompanhamento na UBS, apresenta perda de peso não intencional, fraqueza, lentificação da marcha, exaustão referida e baixo nível de atividade física. A equipe de saúde da família suspeita de síndrome da fragilidade. Além da abordagem nutricional, qual intervenção tem maior evidência para reverter/atenuar a fragilidade no idoso?

02

Como esse tema cai

Avaliação geriátrica ampla quase nunca é pergunta conceitual. A questão mostra uma pessoa idosa numa unidade básica, espalha meia dúzia de dados aparentemente banais — a idade, um esquecimento que a filha comentou, uma queda no ano passado, seis comprimidos por dia, uma panturrilha de 29 cm — e cobra a decisão seguinte: qual instrumento se aplica ali, quanto ele soma, em que faixa isso cai e o que a faixa obriga. Desde 2025 a primeira pergunta tem resposta nacional: o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional-20, incorporado ao prontuário eletrônico do SUS e impresso na Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa.

Há duas réguas no tema e elas não se substituem. A Avaliação Geriátrica Ampla é o padrão de referência: processo diagnóstico multidimensional, conduzido por equipe geriátrico-gerontológica, com duração média de 60 a 90 minutos, que termina em diagnóstico multidimensional e plano de cuidados. O IVCF-20 é triagem: vinte perguntas, cinco a dez minutos, aplicável por qualquer profissional treinado, e existe para responder quem precisa da avaliação ampla. Trocar uma pela outra é o erro mais caro do assunto, e o enunciado sempre diz em qual cenário está — unidade básica com equipe de Saúde da Família aponta para a triagem; ambulatório de geriatria ou centro de referência aponta para a avaliação ampla.

Três vizinhos ficam fora, de propósito. A classificação de risco de queda, os testes de marcha e equilíbrio e a intervenção multidomínio estão no capítulo de quedas e imobilidade no idoso — aqui entra só o item de marcha que o índice embute. A revisão da receita, os critérios de Beers e a desprescrição estão no capítulo de polifarmácia e prescrição segura no idoso. Os pontos de corte do miniexame do estado mental por escolaridade e a régua do protocolo clínico estão no capítulo de demências e comprometimento cognitivo; a separação do quadro agudo está no de delirium. O que sobra aqui é a moldura — funcionalidade, instrumentos e as três definições de fragilidade que a prova troca uma pela outra.

03

O que muda decisão

Funcionalidade é o desfecho, e ela se perde em ordem

Toda a abordagem geriátrica parte da funcionalidade global, e funcionalidade global se lê em três camadas de atividades de vida diária. As avançadas são as de participação social: lazer, trabalho, dirigir, cuidar de outra pessoa, frequentar a igreja, ir à feira. As instrumentais são as que sustentam a vida independente dentro e fora de casa: telefone, compras, preparo de refeições, trabalho doméstico, transporte, medicação e dinheiro. As básicas são as de autopreservação: banhar-se, vestir-se, usar o banheiro, transferir-se, continência e alimentar-se.

A ordem importa mais que a lista. A perda começa pelas avançadas, avança para as instrumentais e só depois chega às básicas — e é por isso que a pessoa que ainda toma banho sozinha pode já estar em declínio há anos. Quem só pergunta pelas básicas descobre o problema tarde. Não há escala consagrada para as avançadas: a avaliação é individualizada, feita pela comparação com o que aquela pessoa fazia antes. Para as instrumentais usa-se a escala de Lawton-Brody; para as básicas, o índice de Katz.

Depois da funcionalidade global vêm os sistemas funcionais principais, que são quatro: cognição, humor, mobilidade e comunicação. A lógica é de causalidade, não de checklist. O comprometimento de uma atividade de vida diária é o reflexo de uma doença ou de um conjunto de doenças que atingiram, direta ou indiretamente, um desses quatro sistemas. Por isso declínio funcional nunca se atribui à velhice: ele é sinal precoce de doença não tratada, frequentemente sem sinal ou sintoma típico.

Dependência funcional tem definição operacional — incapacidade de funcionar satisfatoriamente sem ajuda — e valor de gatilho: encontrada, ela obriga investigação clínica ampla, não conformidade. Guardar essa frase resolve boa parte das questões de conduta do tema, porque o distrator preferido é aquele que orienta 'acompanhamento habitual' diante de uma perda funcional nova.

Três camadas de atividades de vida diária empilhadas como degraus: no topo as avançadas, com ícones de igreja, feira, direção e leitura; no meio as instrumentais, com telefone, compras, panela, caixa de remédios e carteira; embaixo as básicas, com chuveiro, camisa, vaso sanitário, transferência e colher. Uma seta desce pela lateral esquerda indicando a ordem em que as camadas se perdem.
A perda desce pela escada, sempre na mesma direção. Quem começa a avaliação pelas atividades básicas está olhando o degrau que se perde por último.

Os dez estratos: onde termina o robusto e onde começa o frágil

A avaliação ampla, na versão brasileira que sustenta o índice nacional, termina classificando a pessoa em um de dez estratos clínico-funcionais. Os estratos 1 a 3 formam o grupo do idoso robusto; os estratos 4 a 6, o do idoso em risco de fragilização; os estratos 7 a 10, o do idoso frágil. Vale reter os marcos: no estrato 1 há independência para as três camadas de atividades e nenhuma doença ou fator de risco além da própria idade; no estrato 3 há doença crônica bem estabelecida, ainda sem limitação funcional, e cabem aí quem tem um ou dois critérios do fenótipo de fragilidade.

O estrato 4 é a fronteira, e é ele que a prova cobra. Ainda há independência para todas as atividades de vida diária, mas já existem condições preditoras de desfecho adverso: marcadores de sarcopenia, comprometimento cognitivo leve ou comorbidades múltiplas — entendidas como polipatologia, polifarmácia ou internação recente. Também entram aqui os que têm três ou mais critérios do fenótipo. Ou seja: a pessoa independente pode já estar do lado errado da linha, e o que a coloca lá não é a dependência, é o preditor.

Do estrato 5 em diante a perda funcional aparece e desce a escada na ordem esperada. O 5 tem declínio nas avançadas, com instrumentais e básicas preservadas. O 6 tem declínio parcial nas instrumentais; o 7, declínio em todas as instrumentais, ainda com básicas preservadas. O 8 acrescenta semidependência nas básicas, no bloco influenciado pela cultura e pelo aprendizado — banhar-se, vestir-se, usar o banheiro. O 9 acrescenta comprometimento de uma função vegetativa simples, transferência ou continência, e traz uma ressalva que rende questão: incontinência urinária isolada não conta. O 10 é a dependência máxima, com necessidade de ajuda inclusive para alimentar-se.

Um detalhe de vocabulário evita confusão na leitura da fonte. O estudo de validação do índice usou como referência o corte de estrato 4 ou mais e chamou esse grupo de frágil; a conclusão do mesmo trabalho explicita que o instrumento identifica a pessoa idosa com fragilidade, o que reúne o em risco de fragilização e o frágil. Em prova, o que interessa é a linha operacional: estrato 4 ou mais é o grupo que a triagem quer achar.

IVCF-20: vinte perguntas, oito seções, quarenta pontos

O índice tem vinte questões distribuídas em oito seções — idade, autopercepção da saúde, incapacidades funcionais, cognição, humor, mobilidade, comunicação e comorbidades múltiplas — e cada seção tem teto próprio. Somados, os tetos fecham exatamente em 40 pontos. Quanto maior a soma, maior a vulnerabilidade clínico-funcional. O tempo de aplicação é de cinco a dez minutos.

A pontuação da idade é a primeira armadilha de memória, porque ela pula um número: de 60 a 74 anos vale 0, de 75 a 84 vale 1, e 85 ou mais vale 3. Não existe faixa de 2 pontos. A autopercepção da saúde vale no máximo 1 ponto: excelente, muito boa ou boa pontuam 0; regular ou ruim pontua 1.

As incapacidades funcionais valem 10 pontos no total, repartidos de forma desigual e deliberada. As três perguntas instrumentais — deixou de fazer compras, deixou de controlar o dinheiro e as contas, deixou de fazer pequenos trabalhos domésticos — valem 4 pontos cada, mas a seção tem teto de 4: responder sim às três continua valendo 4, e não 12. A pergunta básica é uma só, deixar de tomar banho sozinho, e vale 6 pontos — o maior peso de item isolado do instrumento inteiro. A assimetria é intencional: perder o banho é o marco de entrada na dependência básica.

Todas essas perguntas trazem a mesma cláusula, e ela é o que separa quem leu o instrumento de quem decorou a lista: a pergunta é se a pessoa deixou de fazer aquilo por causa da sua saúde ou condição física. A alternativa de resposta é explícita — não, ou não faz por outros motivos que não a saúde, vale 0. Quem nunca cuidou do dinheiro da casa não pontua por isso. O que se mede é mudança causada por saúde, não hábito de vida.

Cognição soma até 4 pontos em três perguntas: algum familiar ou amigo falou que a pessoa está ficando esquecida, 1 ponto; o esquecimento está piorando nos últimos meses, 1 ponto; o esquecimento impede alguma atividade do cotidiano, 2 pontos. Humor soma até 4 em duas perguntas de 2 pontos cada — desânimo, tristeza ou desesperança no último mês, e perda de interesse ou prazer em atividades antes prazerosas.

Mobilidade é a seção maior, com quatro blocos. Alcance, preensão e pinça valem até 2 pontos, em duas perguntas de 1 ponto: incapacidade de elevar os braços acima do ombro e incapacidade de manusear ou segurar pequenos objetos. Capacidade aeróbica e muscular é uma pergunta única de 2 pontos, com teto de 2 mesmo que todos os quatro gatilhos estejam presentes: perda de peso não intencional de 4,5 kg ou 5% do peso corporal no último ano, ou 6 kg nos últimos 6 meses, ou 3 kg no último mês; índice de massa corporal menor que 22 kg/m²; circunferência da panturrilha menor que 31 cm; e tempo maior que 5 segundos para percorrer 4 metros no teste de velocidade da marcha. Vale converter esse último: 4 metros em 5 segundos são exatamente 0,8 m/s, o mesmo corte de lentidão de marcha usado internacionalmente. Marcha vale até 4 pontos, em duas perguntas de 2: dificuldade para caminhar que impeça alguma atividade do cotidiano, e duas ou mais quedas no último ano. Continência esfincteriana vale 2 pontos numa pergunta sobre perda involuntária de urina ou fezes.

Comunicação fecha com 4 pontos, divididos em visão e audição, 2 pontos cada, e as duas perguntas valem com os óculos e o aparelho auditivo de uso habitual — o que se mede é o déficit que sobra depois da correção. E comorbidades múltiplas é a última pergunta, de 4 pontos com teto de 4, positiva por qualquer um de três gatilhos: cinco ou mais doenças crônicas, uso regular diário de cinco ou mais medicamentos diferentes, ou internação nos últimos seis meses.

Três faixas, três periodicidades — e uma regra que vale nas três

O resultado cai em três faixas de risco de vulnerabilidade clínico-funcional. De 0 a 6 pontos, baixo risco: em geral são pessoas capazes de gerir a própria vida de forma independente e autônoma, e o cuidado se concentra em promoção da saúde, prevenção de agravos, imunização, saúde bucal, rastreamentos apropriados à faixa etária e controle adequado das condições crônicas. De 7 a 14 pontos, risco moderado: há algum fator de risco ou condição geriátrica capaz de comprometer a funcionalidade de forma gradual, e a equipe passa a exercer vigilância ativa, com aprofundamento da avaliação multidimensional, abordagem multiprofissional, reabilitação e articulação com a atenção especializada. De 15 a 40 pontos, alto risco: entram, além disso, prevenção quaternária, plano de cuidados formal, coordenação do cuidado, fortalecimento de vínculos, prevenção de violências, apoio à pessoa cuidadora e cuidados de longo prazo.

A periodicidade acompanha a faixa. No baixo risco, reaplica-se no mínimo anualmente. Nas duas faixas acima, semestralmente. A orientação federal diz a mesma coisa por outro caminho, e é assim que ela costuma aparecer em prova: aplicar no mínimo uma vez por ano a todas as pessoas idosas acompanhadas pelas equipes de Saúde da Família, e reaplicar a cada seis meses em quem pontuou mais que 6.

Qualquer uma das três faixas encurta o intervalo diante de evento sentinela, e a lista de exemplos é curta e cobrável: quedas, internação, mudança na prescrição de medicamento, mudanças no comportamento, viuvez recente. Repare que três desses cinco não são doenças — a régua trata mudança de contexto como risco clínico.

E há uma regra que vale nas três faixas e desarma o distrator mais frequente do tema: para todos os níveis de risco, a equipe deve aprofundar a avaliação de cada item ou dimensão alterada, garantindo acesso oportuno e manejo adequado, levando em conta os aspectos sociais e a rede de apoio. Total baixo não anula dimensão alterada. Uma pessoa de 5 pontos cujos 4 pontos vieram inteiros do humor é de baixo risco pela soma e tem um rastreio de humor francamente positivo para investigar hoje.

Duas informações operacionais completam o quadro. Quem aplica: qualquer profissional de saúde, de nível superior ou médio, nos três níveis de atenção, além de profissionais das equipes do Sistema Único de Assistência Social, desde que conheçam o instrumento ou tenham recebido orientação apropriada. Quem responde: a própria pessoa idosa, ou quem convive com ela — familiar, cuidador ou acompanhante — quando a autonomia estiver reduzida. O registro é feito no campo Objetivo do prontuário eletrônico do cidadão, disponível nacionalmente a partir da versão 5.3.24, com cálculo automático do escore e uma aba de acompanhamento que mostra quais dimensões estão alteradas.

O que os números do índice sustentam — e o que não

A validação comparou o índice à avaliação geriátrica ampla como padrão de referência, em 397 pessoas atendidas num centro de referência e 52 avaliadas na comunidade. A área sob a curva ROC foi 0,903, com intervalo de confiança de 95% de 0,871 a 0,934. O ponto de corte de maior acurácia foi 6, de modo que valores maiores que 6 indicam fragilidade — o que casa exatamente com as faixas oficiais, já que 7 é onde começa o risco moderado.

Nesse corte, a acurácia foi de 84,4%, a sensibilidade de 90,5%, a especificidade de 71,0%, o valor preditivo positivo de 87,3% e o negativo de 77,2%. A confiabilidade entre avaliadores, medida na comunidade, foi alta: concordância ponderada quadrática de 99,5% e coeficiente kappa ponderado quadrático global de 0,94. A consistência interna, pelo alfa de Cronbach, ficou entre 0,74 e 0,86 nos dois grupos — acima de 0,70, o que indica que as perguntas medem o mesmo construto, e abaixo de 0,90, o que indica que não são redundantes.

Agora a parte que a leitura apressada perde. No centro de referência, 273 das 397 pessoas eram frágeis pelo padrão de referência — 68,8% da amostra. O escore médio ali foi 12,6, e na comunidade foi 1,98, com mediana 1. Valor preditivo positivo depende de prevalência, e 87,3% é um número de centro de referência. Aplicando a mesma sensibilidade e especificidade a uma população com 15% de fragilidade, o valor preditivo positivo cai para cerca de 36% e o negativo sobe para cerca de 98%.

Traduzindo para a razão de verossimilhança, que não depende de prevalência: um resultado acima de 6 multiplica a chance de fragilidade por cerca de 3,1, e um resultado de 6 ou menos a multiplica por cerca de 0,13. O instrumento foi calibrado para não deixar passar, não para confirmar. Um índice positivo na unidade básica abre uma avaliação; ele não fecha diagnóstico nenhum.

As limitações do estudo estão declaradas e são as de sempre em validação de triagem: amostra de conveniência, desenho transversal, um único serviço, e um braço comunitário de apenas 52 pessoas — que é justamente o cenário onde o instrumento vai ser mais usado. Isso não invalida a régua nacional; explica por que a régua nacional insiste que o resultado abre avaliação em vez de encerrá-la.

Três gramáticas de fragilidade, e a prova troca uma pela outra

A primeira gramática é o fenótipo. Fragilidade, aqui, é síndrome clínica definida pela presença de três ou mais de cinco critérios: perda de peso não intencional de 10 libras — cerca de 4,5 kg — no último ano, exaustão autorreferida, fraqueza medida pela força de preensão, lentidão da marcha e baixo nível de atividade física. Um ou dois critérios definem um estágio intermediário, o pré-frágil. Na coorte de 5.317 pessoas de 65 anos ou mais que sustentou a definição, a prevalência de fragilidade foi de 6,9% e a incidência em quatro anos, de 7,2%.

O mesmo trabalho estabeleceu duas coisas que caem em prova como enunciado de conceito. Primeira: o fenótipo prediz de forma independente quedas, piora de mobilidade ou de atividades básicas, internação e morte, com razões de risco de 1,82 a 4,46 sem ajuste e de 1,29 a 2,24 com ajuste. Segunda, e mais cobrada: fragilidade não é sinônimo de comorbidade nem de incapacidade — há sobreposição, não concordância. Comorbidade é fator de risco etiológico para a fragilidade; incapacidade é desfecho dela. Quem tem um ou dois critérios já corre risco aumentado de virar frágil em três a quatro anos, com razão de chances de 4,51 bruta e 2,63 ajustada.

A segunda gramática é o acúmulo de déficits, e sua expressão clínica é a Clinical Frailty Scale. Ela não é questionário: é julgamento clínico sobre o estado basal, construído a partir de como a pessoa se move, funciona, pensa e percebe a própria saúde nas últimas duas semanas. Na publicação original, de 2005, a escala tinha sete pontos, de 1 — saúde robusta — a 7 — dependência funcional completa. Aplicada a 2.305 participantes canadenses, cada categoria a mais aumentou o risco de morte em cerca de 21,2% (intervalo de confiança de 95% de 12,5% a 30,6%) e o de institucionalização em 23,9% (8,8% a 41,2%) em cerca de 70 meses, com correlação de 0,80 com o índice de fragilidade e áreas sob a curva de 0,77 para mortalidade em 18 meses e 0,70 em 70 meses.

Os próprios autores registraram, em 2005, que a categoria 7 misturava dois grupos distintos — o doente terminal, que pode estar independente, e a pessoa totalmente dependente — e sugeriram subdividi-la. Foi o que a versão 2.0 fez em 2020: a escala passou a ter nove níveis, com o 8 descrevendo a fragilidade muito grave de quem se acama nas semanas que antecedem a morte e o 9 reservado ao doente terminal, único nível em que o estado atual se sobrepõe ao estado basal. Nomes também mudaram: o nível 2 deixou de ser 'bem' e virou 'apto'; o 4 deixou de ser 'vulnerável' e virou 'vivendo com fragilidade muito leve'.

A terceira gramática é a brasileira, e é a que o SUS opera: vulnerabilidade clínico-funcional em faixas, com o índice de vinte perguntas na porta de entrada e os dez estratos na avaliação ampla. Ela não compete com as outras duas — incorpora as duas. O fenótipo aparece dentro dos estratos 3 e 4; os marcadores de sarcopenia aparecem no estrato 4 e dentro da pergunta de capacidade aeróbica e muscular; e a lógica de acúmulo aparece na própria soma de dimensões. O que muda é a finalidade: as duas primeiras foram desenhadas para pesquisa e prognóstico, e a terceira, para organizar fila e plano de cuidado numa rede pública.

Sarcopenia: onde a fita métrica encontra o dinamômetro

Na régua brasileira, o marcador de massa muscular é antropométrico e cabe numa fita: perímetro de panturrilha menor que 31 cm sugere redução de massa muscular. Ele está na própria ficha de avaliação clínica da caderneta federal, registrado consulta a consulta ao lado do escore do índice, do peso, da altura, do índice de massa corporal e da pressão arterial deitado, sentado e em pé. É medida de rastreio, barata e repetível, pensada para a unidade básica.

No consenso europeu de 2019 a lógica é outra e a ordem é o que importa. O parâmetro primário passou a ser a força, porque força prediz desfecho adverso melhor que massa. A definição operacional tem três degraus: sarcopenia provável quando há força muscular baixa; sarcopenia confirmada quando se acrescenta quantidade ou qualidade muscular baixa; sarcopenia grave quando se acrescenta desempenho físico baixo. O caminho recomendado é achar, avaliar, confirmar e graduar.

Os cortes são específicos por sexo onde a fisiologia manda. Força de preensão baixa é menos de 27 kg em homens e menos de 16 kg em mulheres; o teste de levantar da cadeira é positivo acima de 15 segundos para cinco repetições, sem distinção de sexo. Para quantidade muscular, a massa muscular apendicular é baixa abaixo de 20 kg em homens e 15 kg em mulheres, ou, corrigida pela altura ao quadrado, abaixo de 7,0 kg/m² em homens e 5,5 kg/m² em mulheres. Para desempenho, e portanto para gravidade: velocidade de marcha de 0,8 m/s ou menos, bateria curta de desempenho físico de 8 pontos ou menos, teste de levantar e caminhar de 20 segundos ou mais, e caminhada de 400 metros não completada ou completada em 6 minutos ou mais.

Um contraste que vale registrar antes que ele apareça como distrator: a tabela de pontos de corte do consenso europeu não traz circunferência de panturrilha. A panturrilha entra ali apenas por dentro de uma ferramenta de rastreio que combina idade, força de preensão e circunferência. Ou seja, os 31 cm são a operacionalização brasileira de um marcador de triagem, não o critério diagnóstico internacional — e as duas coisas convivem sem se contradizer, desde que cada uma fique no seu lugar.

O que a avaliação muda no desfecho

A pergunta final é a única que justifica o tempo gasto: avaliar assim muda alguma coisa? Para a avaliação geriátrica ampla feita em pessoa idosa internada, a resposta vem de 29 ensaios randomizados com 13.766 participantes. Comparada ao cuidado habitual, ela aumenta a chance de o paciente estar vivo e na própria casa entre 3 e 12 meses depois, com risco relativo de 1,06 e intervalo de confiança de 95% de 1,01 a 1,10, em evidência de certeza alta. E reduz a chance de institucionalização no mesmo período, com risco relativo de 0,80 e intervalo de 0,72 a 0,89, também com certeza alta.

O que ela não faz é igualmente importante, e a evidência é igualmente firme. Não há diferença relevante em mortalidade — risco relativo de 1,00, intervalo de 0,93 a 1,07 — nem em dependência — risco relativo de 0,97, intervalo de 0,89 a 1,04 —, ambas com certeza alta. O ganho não é sobreviver mais; é chegar vivo em casa em vez de numa instituição. Distrator clássico: alternativa que promete redução de mortalidade.

A versão anterior da mesma análise publica os números necessários para tratar, que são o que se guarda. Para o desfecho de estar vivo e em casa, foi preciso avaliar 33 pessoas para evitar um desfecho ruim em doze meses e 17 em seis meses. Vinte e cinco para evitar uma institucionalização; dezessete para evitar uma morte ou uma deterioração funcional.

E há um achado de organização de serviço que a prova gosta: o benefício se concentra na enfermaria dedicada, não na equipe móvel de parecer. Em enfermaria própria, o número necessário para tratar cai para 20 em doze meses e 13 em seis meses; as equipes móveis, avaliadas separadamente, não mostraram benefício. A avaliação ampla, quando reduzida a uma consulta de parecer sobre o cuidado alheio, perde o efeito — o que ela tem de terapêutico está no plano coordenado que só existe quando alguém é dono dele.

Feche o arco com o que abriu o capítulo. O desfecho que a geriatria persegue não é o exame na meta nem a sobrevida isolada: é a pessoa em casa, fazendo o que fazia. É por isso que a triagem pergunta o que a pessoa deixou de fazer, e não o que ela tem.

04

As réguas do capítulo: pontuação, faixas e as três definições

Três coisas se decoram aqui e as três caem literalmente: o peso de cada seção do índice nacional, o que cada faixa obriga, e qual definição de fragilidade responde a qual pergunta. A tabela principal é a que mais rende — repare nos tetos, porque é neles que a conta erra.

  1. 1Toda pessoa com 60 anos ou mais acompanhada pela equipe de Saúde da Família recebe o IVCF-20 pelo menos uma vez por ano — a idade legal de pessoa idosa no Brasil é 60 anos, não 65.
  2. 2Aplica o instrumento qualquer profissional de saúde treinado, de nível superior ou médio, nos três níveis de atenção; responde a própria pessoa idosa, ou quem convive com ela quando a autonomia estiver reduzida.
  3. 3Registra-se no campo Objetivo do prontuário eletrônico do cidadão, que soma automaticamente e devolve as dimensões alteradas na aba de acompanhamento; o instrumento tem de ser completado no mesmo atendimento.
  4. 4De 0 a 6 pontos: baixo risco — promoção de saúde, imunização, saúde bucal, controle das crônicas, rastreamentos por faixa etária, e reaplicação no mínimo anual.
  5. 5De 7 a 14 pontos: risco moderado — vigilância ativa, aprofundamento da avaliação multidimensional, abordagem multiprofissional, reabilitação, articulação com a atenção especializada, e reaplicação semestral.
  6. 6De 15 a 40 pontos: alto risco — tudo do moderado mais prevenção quaternária, plano de cuidados, coordenação do cuidado, prevenção de violências, apoio à pessoa cuidadora e cuidados de longo prazo, com reaplicação semestral.
  7. 7Em qualquer faixa, e é a regra que mais desarma distrator: aprofundar a avaliação de cada item ou dimensão alterada, e encurtar o intervalo diante de evento sentinela — quedas, internação, mudança de prescrição, mudança de comportamento, viuvez recente.

0 a 6 — baixo risco

Em geral a pessoa gere a própria vida de forma independente e autônoma. Promoção de saúde, imunização, saúde bucal, controle das condições crônicas e rastreamentos apropriados à idade. Reaplicar no mínimo anualmente. Total baixo não dispensa aprofundar a dimensão que veio alterada.

7 a 14 — risco moderado

Há fator de risco ou condição geriátrica capaz de comprometer a funcionalidade de forma gradual. Vigilância ativa, aprofundamento da avaliação multidimensional, abordagem multiprofissional, reabilitação e articulação com a atenção especializada. Reaplicar semestralmente.

15 a 40 — alto risco

Acrescenta-se prevenção quaternária, plano de cuidados formal, coordenação do cuidado, fortalecimento de vínculos, prevenção de violências, apoio à pessoa cuidadora e cuidados de longo prazo. Reaplicar semestralmente, ou antes, diante de evento sentinela.

Seção do IVCF-20O que a pergunta procuraPontos por itemTeto da seção
IdadeFaixa etária, conferida no cadastro60 a 74 anos: 0 · 75 a 84 anos: 1 · 85 anos ou mais: 33
Autopercepção da saúdeComparação com outras pessoas da mesma idadeExcelente, muito boa ou boa: 0 · Regular ou ruim: 11
AVD instrumentaisDeixou de fazer compras; de controlar dinheiro e contas; de fazer pequenos trabalhos domésticos — por causa da saúde4 por pergunta, mas a seção não passa do teto4
AVD básicaDeixou de tomar banho sozinho por causa da saúde66
CogniçãoEsquecimento relatado por familiar ou amigo; piora nos últimos meses; esquecimento que impede atividade do cotidiano1 + 1 + 24
HumorDesânimo, tristeza ou desesperança no último mês; perda de interesse ou prazer2 + 24
Mobilidade — alcance, preensão e pinçaIncapacidade de elevar os braços acima do ombro; de manusear ou segurar pequenos objetos1 + 12
Mobilidade — capacidade aeróbica e muscularPerda de peso não intencional; IMC < 22 kg/m²; panturrilha < 31 cm; mais de 5 segundos para percorrer 4 metros2 na pergunta única, mesmo com os quatro gatilhos presentes2
Mobilidade — marchaDificuldade para caminhar que impeça atividade do cotidiano; duas ou mais quedas no último ano2 + 24
Mobilidade — continência esfincterianaPerda involuntária de urina ou fezes22
Comunicação — visãoProblema de visão que impeça atividade do cotidiano, já com os óculos de uso habitual22
Comunicação — audiçãoProblema de audição que impeça atividade do cotidiano, já com o aparelho de uso habitual22
Comorbidades múltiplasCinco ou mais doenças crônicas; uso diário de cinco ou mais medicamentos; internação nos últimos 6 meses4 na pergunta única, mesmo com os três gatilhos presentes4
TotalSoma dos treze tetos40

As três camadas de atividades de vida diária

CamadaExemplosInstrumento consagradoPosição na sequência de perda
AvançadasLazer, trabalho, dirigir, participação social, cuidar de outra pessoa, atividades religiosasAvaliação individualizada — não há escala consagrada; compara-se com o que a pessoa fazia antesPerdem-se primeiro; é aqui que o declínio se anuncia como atividade abandonada
InstrumentaisTelefone, compras, preparo de refeições, trabalho doméstico, transporte, medicação, dinheiroEscala de Lawton-BrodyPerdem-se em seguida; três delas são as perguntas instrumentais do IVCF-20
BásicasBanhar-se, vestir-se, usar o banheiro, transferir-se, continência, alimentar-seÍndice de KatzPerdem-se por último, e nesta ordem: banho e vestir antes de transferência e continência, e alimentar-se por último

Três definições de fragilidade e a pergunta que cada uma responde

DefiniçãoComo se operaCorteDocumento que a fixa
Fenótipo de fragilidadeCinco critérios: perda de peso não intencional (10 lb, cerca de 4,5 kg, no último ano), exaustão autorreferida, fraqueza de preensão, lentidão de marcha e baixa atividade físicaTrês ou mais critérios: frágil. Um ou dois: estágio intermediário (pré-frágil)Fried LP et al., J Gerontol A, 2001 — coorte de 5.317 pessoas com 65 anos ou mais
Acúmulo de déficits (Clinical Frailty Scale)Julgamento clínico sobre o estado basal, a partir de mobilidade, função, cognição e percepção de saúde nas últimas duas semanasEscala ordinal: 7 níveis na publicação original de 2005; 9 níveis na versão 2.0, de 2020Rockwood K et al., CMAJ, 2005; revisão em Rockwood K, Theou O, Can Geriatr J, 2020
Vulnerabilidade clínico-funcional (régua do SUS)Vinte perguntas em oito seções, somando até 40 pontos, aplicadas na atenção primária; a avaliação ampla classifica em dez estratos0 a 6 baixo risco; 7 a 14 moderado; 15 a 40 alto. Na avaliação ampla, estrato 4 ou mais é o grupo com fragilidadeCaderneta Brasileira da Pessoa Idosa (MS, 2026) e Nota Informativa nº 2/2025-COPID/SAPS/MS; validação em Moraes EN et al., Rev Saúde Pública, 2016

A soma dos treze tetos de seção fecha exatamente em 40 pontos: 3 + 1 + 4 + 6 + 4 + 4 + 2 + 2 + 4 + 2 + 2 + 2 + 4. Se a sua conta passou de 40, o erro está num teto ignorado — quase sempre o das atividades instrumentais.

A pergunta de capacidade aeróbica e muscular embute o corte internacional de lentidão de marcha sem dizer o nome: mais de 5 segundos para 4 metros são menos de 0,8 m/s, porque 4 dividido por 5 é 0,8.

Polifarmácia aparece com dois números diferentes conforme o desfecho, e os dois estão certos nos seus documentos. No IVCF-20 e na definição de comorbidades múltiplas, cinco ou mais medicamentos diários. No protocolo nacional de prevenção de quedas, quatro ou mais — mas ali o desfecho é queda, e o assunto é do capítulo de quedas e imobilidade no idoso.

Incontinência urinária isolada não basta para caracterizar o comprometimento de função vegetativa simples na classificação por estratos — a ressalva está escrita no próprio quadro do estrato 9.

O valor preditivo positivo de 87,3% do estudo de validação vem de uma amostra em que 68,8% das pessoas eram frágeis (273 de 397). Repetida a mesma sensibilidade e especificidade numa população com 15% de fragilidade, o valor preditivo positivo calculado cai para cerca de 36%.

Pessoa idosa, no Brasil, é quem tem 60 anos ou mais, por definição do Estatuto da Pessoa Idosa. Boa parte das diretrizes internacionais de fragilidade trabalha com 65 anos — inclusive a coorte que sustentou o fenótipo. O IVCF-20 acompanha a lei brasileira e começa a pontuar a partir dos 60.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual instrumento identifica a pessoa idosa frágil na atenção primária

IVCF-20, com faixas de 0 a 6, 7 a 14 e 15 a 40 pontos

A régua brasileira usa um índice multidimensional de vinte perguntas, aplicável em cinco a dez minutos por qualquer profissional treinado, incorporado ao prontuário eletrônico do cidadão em nível nacional a partir da versão 5.3.24 e impresso na caderneta federal. Ele foi desenhado para triagem numa rede pública: alta sensibilidade, cálculo automático, faixas que já vêm com periodicidade de reaplicação e com o elenco de ações esperadas. A finalidade declarada é decidir quem precisa de avaliação multidimensional aprofundada e organizar o plano de cuidados, não fechar diagnóstico de síndrome.

Ministério da Saúde — Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa (2026) e Nota Informativa nº 2/2025-COPID/DGCI/SAPS/MS

Fenótipo de fragilidade, com três ou mais de cinco critérios

A definição internacional mais citada opera fragilidade como síndrome clínica, com cinco critérios objetivos — perda de peso não intencional, exaustão autorreferida, fraqueza de preensão, lentidão de marcha e baixa atividade física — e corte em três ou mais. Foi construída para pesquisa e prognóstico numa coorte de 5.317 pessoas com 65 anos ou mais, e o próprio trabalho demonstra que fragilidade não coincide com comorbidade nem com incapacidade. Exige dinamômetro e cronômetro, o que a torna pouco viável como rastreio populacional na unidade básica.

Fried LP et al. Frailty in older adults: evidence for a phenotype. J Gerontol A Biol Sci Med Sci. 2001;56(3):M146-56

Na prova

A causa da diferença é de finalidade e de viabilidade: triagem numa rede pública de um lado, definição de síndrome para pesquisa e prognóstico do outro. O recorte se identifica pelo vocabulário do enunciado. Equipe de Saúde da Família, agente comunitário, prontuário eletrônico do cidadão, caderneta, e-SUS, plano de cuidados e reaplicação semestral são vocabulário da régua nacional. Dinamômetro, força de preensão, exaustão autorreferida, pré-frágil e coorte são vocabulário do fenótipo. As alternativas também entregam: se uma delas fala em faixas de pontos com números de 0 a 40, a questão está na régua nacional; se uma delas conta critérios de zero a cinco, está no fenótipo. Prova oficial de acesso ao SUS tende à régua nacional; prova com enunciado de geriatria clínica tende ao fenótipo.

Quantos níveis tem a Clinical Frailty Scale

Sete níveis, de 1 (saúde robusta) a 7 (dependência funcional completa)

A publicação original define e valida uma escala de sete pontos, aplicada a 2.305 participantes da segunda etapa do estudo canadense de saúde e envelhecimento. Cada categoria a mais aumentou o risco de morte em cerca de 21,2% (intervalo de confiança de 95% de 12,5% a 30,6%) e o de institucionalização em 23,9% (8,8% a 41,2%). Os próprios autores registram, na discussão, que a categoria 7 mistura dois grupos clinicamente distintos — o doente terminal, que pode estar independente, e a pessoa totalmente dependente — e sugerem que usuários futuros a subdividam.

Rockwood K, Song X, MacKnight C, et al. A global clinical measure of fitness and frailty in elderly people. CMAJ. 2005;173(5):489-95

Nove níveis, com o 8 para fragilidade muito grave e o 9 para o doente terminal

A versão 2.0 fez a subdivisão que o artigo de 2005 antecipou e renomeou níveis: o 2 deixa de ser 'bem' e passa a 'apto'; o 4 deixa de ser 'vulnerável' e passa a 'vivendo com fragilidade muito leve'. O nível 9 é o único em que o estado atual se sobrepõe ao estado basal, porque a pessoa em fim de vida pode ter operado em qualquer nível antes. Os autores reforçam que a escala mede o estado basal, exige julgamento clínico e não foi validada em pessoas jovens nem em deficiência estável de sistema único.

Rockwood K, Theou O. Using the Clinical Frailty Scale in Allocating Scarce Health Care Resources. Can Geriatr J. 2020;23(3):210-215

Na prova

A causa é puramente cronológica: a versão de 2020 desdobrou o nível 7 da versão de 2005, exatamente como os autores originais haviam sugerido. O recorte se identifica pela citação e pelo cenário. Enunciado que reproduz o estudo canadense, cita 2.305 participantes ou fala em validação prognóstica está no texto de 2005 e trabalha com sete níveis. Enunciado de triagem à beira do leito, de alocação de recurso escasso, de decisão sobre terapia intensiva ou que use os nomes novos dos níveis está na versão atual e trabalha com nove. E a alternativa que menciona 'doente terminal' como nível próprio só existe na versão de nove.

O que serve como marcador de baixa massa muscular na prática

Perímetro de panturrilha menor que 31 cm, medido com fita, na consulta de rotina

A ficha de avaliação clínica da caderneta federal registra o perímetro da panturrilha consulta a consulta, ao lado do escore do índice e dos dados antropométricos, com a nota de que medida menor que 31 cm sugere redução de massa muscular. O mesmo corte entra como um dos quatro gatilhos da pergunta de capacidade aeróbica e muscular do IVCF-20, ao lado de perda de peso não intencional, índice de massa corporal menor que 22 kg/m² e mais de 5 segundos para percorrer 4 metros. É medida de rastreio: barata, repetível e aplicável por qualquer membro da equipe.

Ministério da Saúde — Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa (2026), ficha de avaliação clínica e questionário do IVCF-20

Força primeiro; massa só para confirmar, e por absorciometria ou bioimpedância

O consenso europeu revisado inverteu a ordem em 2018: o parâmetro primário passou a ser a força muscular, porque prediz desfecho melhor que massa. Sarcopenia é provável quando há força baixa — preensão abaixo de 27 kg em homens e 16 kg em mulheres, ou mais de 15 segundos para cinco repetições de levantar da cadeira; é confirmada quando se documenta quantidade ou qualidade muscular baixa por absorciometria ou bioimpedância; e é grave quando se acrescenta desempenho físico baixo. A tabela de pontos de corte do consenso não traz circunferência de panturrilha — ela aparece apenas dentro de uma ferramenta de rastreio que combina idade, preensão e panturrilha.

Cruz-Jentoft AJ et al.; EWGSOP2. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age Ageing. 2019;48(1):16-31

Na prova

A causa é de nível de decisão, não de discordância científica: um documento organiza rastreio populacional com fita métrica, o outro organiza diagnóstico com equipamento. O recorte se identifica pelo cenário e pelo verbo do enunciado. Unidade básica, caderneta, agente comunitário, 'sugere redução de massa muscular' e triagem apontam para os 31 cm. Ambulatório de geriatria, diagnóstico, gravidade, dinamômetro, absorciometria e bioimpedância apontam para o consenso europeu. E as alternativas entregam: distrator com '27 kg' ou '16 kg' pertence ao mundo da força de preensão; distrator com '31 cm' pertence ao mundo do rastreio brasileiro. Quando o enunciado pedir a conduta seguinte a uma panturrilha fina, a resposta é aprofundar a avaliação — não carimbar o diagnóstico de sarcopenia.

06

Caso resolvido

Mulher de 82 anos comparece à unidade básica para consulta de rotina, acompanhada da filha. Diz que sua saúde, comparada à de outras pessoas da idade, é regular. Conta que deixou de fazer as compras e de pagar as contas de casa no último ano porque se cansa e fica insegura na rua; continua tomando banho sozinha e cozinhando o próprio almoço. A filha comenta que a mãe anda esquecida e que piorou nos últimos meses, mas nega que o esquecimento a impeça de fazer alguma coisa. A paciente refere desânimo no último mês; nega ter perdido o interesse pelas coisas de que gosta. Nega dificuldade para levantar os braços ou para segurar objetos pequenos. Refere que a caminhada ficou difícil a ponto de ela desistir de ir à igreja; caiu uma vez no último ano. Perde urina de vez em quando. Enxerga e escuta bem com os óculos e sem aparelho. Usa seis medicamentos por dia. Ao exame: peso estável, índice de massa corporal 24 kg/m², perímetro de panturrilha 29 cm, percorre 4 metros em 4 segundos.
conta seção por seção
Idade 82 anos, faixa de 75 a 84: 1 ponto. Autopercepção regular: 1 ponto. Instrumentais: sim para compras e sim para dinheiro e contas, mas o teto da seção é 4 — não 8. Básica: continua tomando banho sozinha, 0.
onde a conta engana
Cognição: familiar mencionou esquecimento (1) e há piora nos últimos meses (1), mas o esquecimento não impede atividade do cotidiano (0) — total 2, e não 4. Humor: desânimo no último mês (2) e sem perda de interesse (0) — total 2. Mobilidade, alcance e preensão: 0.
a pergunta de um gatilho só
Capacidade aeróbica e muscular: peso estável e índice de massa corporal 24 descartam dois gatilhos; 4 metros em 4 segundos são 1,0 m/s, acima do corte, e descartam o terceiro. Mas a panturrilha de 29 cm está abaixo de 31 cm — e um gatilho basta para a pergunta valer 2 pontos.
marcha, continência e comunicação
Marcha: dificuldade para caminhar que a impede de ir à igreja (2); uma queda apenas, e o item exige duas ou mais (0) — total 2. Continência: perda involuntária de urina (2). Visão e audição preservadas com a correção habitual: 0 e 0.
comorbidades e total
Seis medicamentos diários acionam o gatilho de cinco ou mais: 4 pontos. Somando: 1 + 1 + 4 + 0 + 2 + 2 + 0 + 2 + 2 + 2 + 0 + 0 + 4 = 20 pontos.
classificação
Vinte pontos caem na faixa de 15 a 40: alto risco de vulnerabilidade clínico-funcional. Não é risco moderado — a fronteira é 14, e ela ficou seis pontos acima. Reaplicar o índice em seis meses, ou antes, se houver evento sentinela.
conduta
Aprofundamento da avaliação multidimensional dirigido às dimensões alteradas: rastreio cognitivo estruturado com informante, rastreio de humor, avaliação da queda e da marcha, investigação da incontinência e revisão do conjunto de medicamentos. Abordagem multiprofissional, plano de cuidados escrito e coordenação do cuidado, com prevenção quaternária, apoio à pessoa cuidadora e avaliação da rede de suporte. Vale registrar que a perda das instrumentais com as básicas preservadas é o padrão de declínio precoce, e que a panturrilha de 29 cm é marcador de rastreio a ser aprofundado — não é diagnóstico fechado de sarcopenia.
o que não fazer
Somar 8 pontos nas instrumentais ignorando o teto (o total viraria 24), contar 2 pontos pela queda única, marcar os 4 pontos de cognição sem o item de impacto no cotidiano, ou devolver a paciente ao acompanhamento anual porque 'ela ainda é independente para as básicas'.
07

Agora feche você

Homem de 71 anos, hipertenso, comparece à unidade básica para renovar receita. Mora com a esposa, dirige, faz as compras da casa, cuida do próprio dinheiro, toma banho e se veste sozinho, e não teve quedas no último ano. Nega esquecimento, e a esposa concorda. Nega dificuldade para caminhar, para levantar os braços ou para segurar objetos; nega perda involuntária de urina ou fezes; enxerga e escuta bem. Usa apenas losartana. Peso estável, índice de massa corporal 26 kg/m², perímetro de panturrilha 34 cm, percorre 4 metros em 3,5 segundos. Ao ser perguntado como considera a própria saúde comparada à de outras pessoas da idade, responde 'regular'. Às duas perguntas de humor, responde que sim para desânimo, tristeza ou desesperança no último mês, e sim para perda de interesse ou prazer em atividades de que gostava. O enfermeiro registra o IVCF-20 no prontuário eletrônico e comenta que, com o resultado obtido, o paciente pode ser reavaliado só no ano que vem.
a conta
Idade 71 anos, faixa de 60 a 74: 0. Autopercepção regular: 1. Instrumentais, básica, cognição, alcance e preensão, capacidade aeróbica e muscular, marcha, continência, visão, audição e comorbidades: 0 em todas. Humor: 2 pela primeira pergunta e 2 pela segunda, teto de 4 — total 4. Soma final: 5 pontos.
o que a faixa diz
Cinco pontos caem em 0 a 6: baixo risco de vulnerabilidade clínico-funcional, com reaplicação do índice em no mínimo um ano. Até aí o enfermeiro está certo sobre a periodicidade — e é exatamente por isso que a conclusão dele engana.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Somar 12 pontos nas atividades instrumentais As três perguntas instrumentais valem 4 pontos cada, e é aí que a conta estoura: quem responde sim às três parece somar 12, mas a seção tem teto de 4. A mesma lógica vale em outros dois lugares — capacidade aeróbica e muscular tem teto de 2 mesmo com os quatro gatilhos presentes, e comorbidades múltiplas tem teto de 4 mesmo com os três. Sempre que o total passar de 40, o erro é um teto ignorado.
  2. 2Procurar a faixa de 2 pontos na idade A pontuação da idade pula um número: 60 a 74 anos vale 0, 75 a 84 vale 1, e 85 ou mais vale 3. Não existe faixa de 2 pontos, e o salto de 1 para 3 é proposital — a partir dos 85 a vulnerabilidade cresce mais que linearmente. Alternativa que oferece '2 pontos para 75 a 84 anos' está errada pela régua, não pelo raciocínio.
  3. 3Perguntar 'a senhora consegue?' em vez de 'a senhora deixou de?' Cada pergunta funcional do instrumento traz a mesma cláusula: por causa de sua saúde ou condição física, você deixou de fazer isso? E a alternativa de resposta é explícita — não, ou não faz por outros motivos que não a saúde, vale zero. Quem nunca controlou o dinheiro da casa não pontua por isso, e quem parou de cozinhar porque a filha passou a cozinhar também não. O que se mede é mudança causada por saúde.
  4. 4Tratar 'baixo risco' como alta A régua federal é explícita: para TODOS os níveis de risco, a equipe deve aprofundar a avaliação de cada item ou dimensão alterada. Baixo risco significa reaplicar o índice em no mínimo um ano e manter promoção de saúde, imunização e controle das crônicas — não significa que não há nada a fazer hoje. Cinco pontos vindos inteiros do bloco de humor são baixo risco na soma e rastreio de humor positivo na dimensão.
  5. 5Ler o valor preditivo positivo de 87,3% como se valesse na unidade básica Esse número vem de uma amostra de centro de referência em que 273 das 397 pessoas eram frágeis — 68,8% de prevalência, escore médio de 12,6. No braço comunitário do mesmo estudo o escore médio foi 1,98, com mediana 1. Mantidas a sensibilidade de 90,5% e a especificidade de 71,0%, uma população com 15% de fragilidade devolve valor preditivo positivo de cerca de 36%. O índice foi calibrado para não deixar passar; positivo abre avaliação, não fecha diagnóstico.
  6. 6Chamar de frágil quem tem um ou dois critérios do fenótipo No fenótipo, frágil é quem tem três ou mais dos cinco critérios. Um ou dois definem o estágio intermediário — o pré-frágil —, que não é rótulo de conforto: é o grupo com risco aumentado de virar frágil em três a quatro anos, com razão de chances de 4,51 bruta e 2,63 ajustada. É também onde a intervenção ainda muda trajetória, e onde quase ninguém tem diagnóstico.
  7. 7Dizer o número de níveis da Clinical Frailty Scale sem olhar a data A publicação original, de 2005, descreve uma escala de sete pontos, de 1 (saúde robusta) a 7 (dependência funcional completa). A versão 2.0, de 2020, tem nove níveis — o antigo 7 foi desdobrado, com o 8 para fragilidade muito grave e o 9 para o doente terminal. Enunciado que cita o artigo do CMAJ de 2005 trabalha com sete; enunciado atual, de triagem clínica ou alocação de recurso, trabalha com nove.
  8. 8Prometer redução de mortalidade com a avaliação geriátrica ampla Em pessoa idosa internada, 29 ensaios com 13.766 participantes mostram, com certeza alta, aumento da chance de estar vivo e na própria casa (risco relativo 1,06; 1,01 a 1,10) e redução de institucionalização (0,80; 0,72 a 0,89) — e, com a mesma certeza alta, nenhuma diferença relevante em mortalidade (1,00; 0,93 a 1,07) nem em dependência (0,97; 0,89 a 1,04). O desfecho que muda é onde a pessoa está viva, não por quanto tempo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O fenótipo de fragilidade de Fried (perda de peso, exaustão, fraqueza, lentidão da marcha, baixa atividade) tem no exercício físico — sobretudo treino resistido/de força associado a suporte nutricional (proteína) — a intervenção com maior evidência para reduzir a fragilidade e prevenir incapacidade. Repouso agrava sarcopenia e imobilismo. Testosterona não é recomendada de rotina e tem riscos. Antidepressivo só se houver depressão diagnosticada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

IVCF-20: 20 perguntas, 8 seções, 40 pontos, 5 a 10 minutos. Faixas: 0 a 6 baixo (reaplicar no mínimo anualmente), 7 a 14 moderado, 15 a 40 alto (reaplicar semestralmente). Tetos que a conta esquece: instrumentais 4, capacidade aeróbica e muscular 2, comorbidades 4. Maior peso de item isolado: deixar de tomar banho sozinho, 6 pontos. Idade: 0, 1 e 3 — não existe faixa de 2. Em qualquer faixa, aprofundar cada dimensão alterada. Camadas de AVD: avançadas (individualizada), instrumentais (Lawton-Brody), básicas (Katz), perdidas nessa ordem. Fenótipo de fragilidade: 3 ou mais de 5 critérios; 1 a 2 é pré-frágil.

em 30 dias

Estratos clínico-funcionais: 1 a 3 robusto, 4 a 6 em risco de fragilização, 7 a 10 frágil; estrato 4 ou mais é o grupo com fragilidade, e o 4 já ocorre em pessoa independente que tem marcador de sarcopenia, comprometimento cognitivo leve ou comorbidades múltiplas. Validação do índice: área sob a curva 0,903, corte maior que 6, sensibilidade 90,5%, especificidade 71,0%, e valor preditivo positivo de 87,3% numa amostra com 68,8% de fragilidade — número que despenca em população de baixa prevalência. Clinical Frailty Scale: 7 níveis em 2005, 9 na versão 2.0 de 2020. Sarcopenia pelo consenso europeu: força primeiro (preensão abaixo de 27 kg em homens e 16 kg em mulheres, ou mais de 15 segundos em cinco levantadas), massa para confirmar, desempenho para graduar; panturrilha menor que 31 cm é o marcador brasileiro de rastreio. Avaliação geriátrica ampla no internado: aumenta a chance de estar vivo e em casa (risco relativo 1,06) e reduz institucionalização (0,80), sem diferença em mortalidade nem em dependência; número necessário para tratar de 33 em doze meses, 17 em seis meses, e 20 e 13 quando a intervenção é enfermaria dedicada. Evento sentinela: queda, internação, mudança de prescrição, mudança de comportamento, viuvez recente.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 79 anos vem à unidade básica para consulta de rotina, trazida pela filha, que pediu para acompanhar 'porque a mãe não conta as coisas'. A paciente diz que está bem e que só quer renovar as receitas. Conduza a avaliação multidimensional: percorra as três camadas de atividades de vida diária perguntando o que ela deixou de fazer por causa da saúde, aplique as perguntas de cognição, humor, mobilidade, continência e comunicação, cheque os gatilhos de comorbidades múltiplas, meça o perímetro da panturrilha e a velocidade da marcha, calcule o escore, diga em que faixa ela caiu e qual é a conduta e a periodicidade que decorrem dela. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Avaliação geriátrica ampla e fragilidade — Preparatório para provas | OsceLabs