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Clínica MédicaGeriatria

Quedas e imobilidade no idoso

Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade

A prova mostra um idoso que caiu e testa três coisas: se você classifica o risco pela história e pela marcha em vez do escore, se lembra que queda repetida e inexplicada se investiga como síncope, e se conhece a régua do protocolo do Ministério da Saúde quando a queda acontece dentro do hospital.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Idoso de 78 anos é levado pela família por episódios de queda no último mês. Você decide aplicar um instrumento de rastreio simples do risco de quedas à beira do leito. Qual dos testes abaixo avalia diretamente mobilidade, marcha e equilíbrio, sendo amplamente usado para esse rastreio?

02

Como esse tema cai

Queda em idoso quase nunca é pergunta de diagnóstico. A questão mostra alguém que já caiu e cobra a decisão seguinte: em que faixa de risco essa pessoa está, o que precisa ser medido antes de intervir, e qual intervenção tem prova de que reduz queda. Há dois cenários com réguas diferentes — a pessoa idosa da comunidade, acompanhada na unidade básica, e o paciente internado, onde vale o protocolo do Programa Nacional de Segurança do Paciente. Confundir as duas réguas é o erro mais caro do tema.

A segunda metade do capítulo é a imobilidade, que a matriz junta à queda por um motivo clínico: as duas se alimentam. A queda produz medo de cair, o medo produz restrição de atividade, a restrição produz perda de força e de equilíbrio, e a perda de força produz a próxima queda — ou o acamamento. O protocolo brasileiro deixa esse laço explícito ao classificar o paciente totalmente acamado como de baixo risco de queda: ele parou de cair porque parou de levantar.

Três assuntos vizinhos ficam fora, e é de propósito. A revisão da receita e os critérios de Beers estão no capítulo de polifarmácia e prescrição segura no idoso. A densitometria, o cálcio e a dose de vitamina D para osso estão no capítulo de osteoporose. A investigação da perda transitória de consciência está no capítulo de síncope — aqui entra só o gatilho que manda abri-la.

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O que muda decisão

A definição decide o que entra na conta

O protocolo do Ministério da Saúde define queda como o deslocamento não intencional do corpo para um nível inferior à posição inicial, provocado por circunstâncias multifatoriais, resultando ou não em dano. A frase parece burocrática e não é: cada pedaço dela muda o que a equipe registra.

Conta como queda quando o paciente é encontrado no chão. E conta também quando, durante o deslocamento, ele precisa de amparo — ainda que não chegue ao chão. A queda amparada, aquela em que o acompanhante segura a pessoa a tempo, é queda. Conta a queda da própria altura, da cama, da maca e de assentos: cadeira de rodas, poltrona, cadeira higiênica, banheira, trocador de fraldas, bebê conforto, berço e o vaso sanitário.

O 'resultando ou não em dano' também tem consequência. O protocolo pede dois números separados — número de quedas com dano e número de quedas sem dano —, além da proporção de pacientes com avaliação de risco feita na admissão e do índice de quedas, que é o número de eventos dividido pelo número de pacientes-dia, multiplicado por mil. Serviço que só registra queda com fratura enxerga uma fração do problema e melhora o indicador sem melhorar o cuidado.

Na pessoa idosa da comunidade, o efeito prático da definição é outro: ela obriga a perguntar por episódios que o paciente não chama de queda. 'Escorregou e se segurou na pia' é queda. 'Sentou no chão devagar porque a perna falhou' é queda. Quem só pergunta 'a senhora caiu?' colhe menos da metade dos eventos.

Instabilidade postural é a síndrome; a queda é o desfecho

O protocolo do Distrito Federal nomeia as grandes síndromes geriátricas em bloco: insuficiência cognitiva, instabilidade postural, imobilidade, incontinências e iatrogenia — mais a insuficiência familiar, que ele manda investigar junto. Ler a lista inteira ajuda a entender por que a queda raramente vem sozinha: ela é o desfecho visível de uma delas, e costuma ter outra por trás.

A frequência sobe com a idade e com a fragilidade. Entre pessoas com 65 anos ou mais, a prevalência de queda descrita no guia de Belo Horizonte é de 28% a 35%; passa a 42% acima dos 70 anos e pode chegar a 51% acima dos 85. Em instituição de longa permanência, a ocorrência atinge 30% a 50% dos residentes, e em 40% dos idosos as quedas se repetem.

O que vem depois da queda é o que fecha o ciclo. A síndrome pós-queda é a perda de autonomia e de independência que se instala mesmo sem fratura. O medo de cair afeta 73% dos idosos que caíram nos últimos doze meses e 46% dos que não caíram recentemente — ou seja, quase metade restringe a vida sem nunca ter caído. A restrição traz descondicionamento, o descondicionamento traz instabilidade, e a instabilidade traz a queda seguinte, agora com menos reserva para absorvê-la.

Por isso a queda funciona como evento sentinela de funcionalidade, e não como acidente doméstico. A pergunta útil na consulta não é 'o que havia no chão', é 'o que essa pessoa deixou de fazer desde então'.

Corte de uma casa mostrando os pontos de risco de queda: tapete solto, iluminação fraca, escada sem corrimão, banheiro sem barra de apoio, poltrona baixa e fio atravessando a passagem.
Os pontos que a avaliação ambiental procura. A recomendação internacional é que a checagem da casa seja feita por profissional treinado e que considere não só o obstáculo, mas a capacidade e o hábito de quem mora ali — retirar o tapete de quem se apoia nele para virar não resolve nada.

O rastreio é uma pergunta, e ela tem de ser feita todo ano

A recomendação internacional mais forte do tema é banal de executar: perguntar sobre quedas em toda interação com pessoa idosa, porque ela não relata espontaneamente. Toda pessoa idosa em contato com o serviço de saúde, por qualquer motivo, deve ser perguntada pelo menos uma vez por ano se caiu nos últimos doze meses e, em caso afirmativo, sobre frequência, características, contexto e gravidade.

A pergunta única 'a senhora caiu no último ano?' é muito específica e pouco sensível: a sensibilidade sobe de 43% entre 65 e 74 anos para 67% acima dos 85. Traduzindo: em idoso mais jovem, a pergunta isolada deixa passar a maioria dos que vão cair. Por isso a recomendação acrescenta as três perguntas-chave — caiu no último ano; sente-se inseguro quando fica em pé ou anda; tem preocupação de cair. Resposta positiva a qualquer uma delas manda avaliar marcha e equilíbrio objetivamente.

A terceira pergunta costuma ser descartada como 'subjetiva' e é a que mais rende. Preocupação de cair não é sintoma de ansiedade a ser tranquilizado: é preditor, e é alvo de tratamento. A avaliação da preocupação de cair deve usar instrumento padronizado — a Falls Efficacy Scale International (FES-I) ou a versão curta —, e o que reduz essa preocupação é exercício, terapia cognitivo-comportamental e terapia ocupacional, não conselho.

No SUS, o rastreio positivo tem para onde ir. As diretrizes da rede de atenção à pessoa idosa do município de São Paulo listam como critérios de encaminhamento à Unidade de Referência à Saúde do Idoso a pontuação de 11 ou mais na AMPI-AB, a instabilidade e alteração de marcha e equilíbrio, e duas ou mais quedas nos últimos doze meses. O protocolo do Distrito Federal usa critério equivalente para o ambulatório de geriatria: instabilidade postural com quedas de repetição ou fratura por baixo impacto.

Medir marcha e equilíbrio: o que se cronometra e onde está o corte

Respondida a pergunta, o passo seguinte é objetivo. A recomendação internacional de maior força é medir a velocidade da marcha, com corte de menos de 0,8 m/s (grade 1A). Faz-se cronometrando um percurso de 4 metros na velocidade habitual, descartando 2 metros iniciais e 2 metros finais para tirar aceleração e desaceleração; a primeira tentativa é de familiarização e não conta. É esse mesmo teste de 4 metros que o IVCF-20, instrumento desenvolvido e validado no Brasil, embute no domínio de mobilidade.

O Timed Up and Go entra como alternativa, e vale saber que ele foi rebaixado: a recomendação o classifica como grade 1B, registrando que a evidência para predizer queda é inconsistente e que ele prediz melhor em idoso de menor funcionalidade. O corte adotado é maior que 15 segundos para levantar da cadeira, andar 3 metros, voltar e sentar.

A atenção primária brasileira, na prática, usa outra coisa. O guia de prevenção de quedas de Belo Horizonte adota a bateria QuickScreen, proposta por Tiedemann, Lord e Sherrington em 2010 e validada para idosos brasileiros, que não inclui o Timed Up and Go. Ela soma oito fatores respondidos como sim ou não: queda nos últimos doze meses, uso de quatro ou mais medicamentos excluindo vitaminas, uso de qualquer psicotrópico, acuidade visual de baixo contraste, sensibilidade tátil, semi-tandem, passo alternado e sentar e levantar da cadeira.

Os cortes da bateria são específicos e caem em prova exatamente porque são fáceis de trocar entre si. Semi-tandem: um pé à frente do outro com afastamento de 2,5 cm, olhos fechados, 10 segundos — não conseguir manter os 10 segundos é positivo. Passo alternado: subir e descer um degrau de 18 cm alternando os pés, oito vezes ao todo, quatro com cada pé — mais de 10 segundos é positivo. Sentar e levantar: cadeira de 43 cm encostada na parede, braços cruzados no peito, cinco repetições completas — mais de 12 segundos é positivo. Acuidade visual: quadro de Snellen a 3 metros — não ler todos os símbolos até a quinta linha é positivo. Sensibilidade tátil: monofilamento de 10 gramas.

A soma dos fatores devolve um risco de cair nos próximos doze meses: de zero a um fator, 7%; de dois a três, 13%; de quatro a cinco, 27%; seis ou mais, 49%. Note o que a bateria diz de importante mesmo sem calculadora — sete em cada dez idosos com seis ou mais fatores ainda assim não cairão no ano, e um em cada catorze sem nenhum fator cairá. O escore orienta a intensidade da intervenção; ele não profetiza o evento.

Queda inexplicada que se repete é síncope até prova em contrário

Este é o parágrafo que mais separa quem estudou o tema de quem decorou 'avaliação multifatorial'. A recomendação internacional é explícita: quedas recorrentes inexplicadas estão, na maioria das vezes, associadas a causa cardiovascular, e a investigação adicional nesses casos deve ser a mesma da síncope (grade 1A).

O motivo é fisiológico e não estatístico. O idoso com perda transitória de consciência frequentemente não a percebe nem a relata — há amnésia do episódio —, então ele descreve a queda como tropeço. 'Não sei o que aconteceu, quando vi estava no chão' é descrição de síncope, não de queda mecânica.

Por isso a avaliação multifatorial já traz, de saída, um bloco cardiovascular mínimo: história cardíaca, ausculta, pressão arterial deitado e em pé e eletrocardiograma de 12 derivações (grade 1B). Se essa avaliação inicial é normal e não há suspeita de síncope, não é preciso ir adiante no eixo cardiovascular (grade 1C). Se há síncope descrita ou presenciada, pré-síncope, ou queda inexplicada de repetição, a investigação passa a ser a da síncope — e essa está no capítulo próprio.

A hipotensão ortostática é a primeira causa cardiovascular na ordem de frequência, e é a única que se trata na própria consulta. Seu manejo deve fazer parte da intervenção multidomínio (grade 1A). O protocolo hospitalar brasileiro traz a orientação prática correspondente: elevar a cabeceira a 30°, sentar no leito com os pés apoiados no chão por cinco minutos e só então sair da cama, com ajuda de profissional.

O que previne queda de verdade — e o que só parece prevenir

Exercício é a intervenção isolada com melhor evidência, mas com uma descrição estreita. O programa tem de incluir exercícios que desafiem o equilíbrio e exercícios funcionais — levantar e sentar, dar passos —, ser oferecido em sessões três ou mais vezes por semana, ser individualizado, progredir em intensidade, durar pelo menos 12 semanas e continuar além disso para maior efeito (grade 1A). Tai chi e treino resistido progressivo individualizado entram quando for viável (grade 1B). Essa recomendação vale para toda pessoa idosa, independentemente do risco avaliado e da idade.

O que não está aí é tão importante quanto o que está: caminhada isolada não é programa de prevenção de queda. Ela é excelente para outros desfechos e não desafia equilíbrio. Prescrever 'caminhe meia hora por dia' para quem tem alteração de marcha é trocar a intervenção eficaz por uma que não foi testada para esse fim — e, em quem já tem alto risco, caminhar rápido sem treino de equilíbrio expõe mais.

Para quem foi classificado como de alto risco, o formato muda: avaliação multifatorial multiprofissional primeiro, intervenção multidomínio desenhada em cima do que essa avaliação achou (grade 1B). Multidomínio significa duas ou mais frentes escolhidas individualmente — não um pacote igual para todos.

As frentes com recomendação própria são a revisão de medicamentos com desprescrição dos fármacos que aumentam risco de queda (grade 1B), o manejo da hipotensão ortostática (1A), a modificação de riscos ambientais da casa feita por profissional treinado (1B) e o tratamento da preocupação de cair (1B). A revisão da receita em si — quais classes, quais critérios, como desprescrever — é o capítulo de polifarmácia e prescrição segura no idoso.

Duas coisas que a prova gosta de oferecer como resposta e não são. Vitamina D para prevenir queda deve ficar reservada a quem tem risco de deficiência de vitamina D — não é medida populacional para idoso da comunidade; em residentes de instituição de longa permanência, ela entra dentro de um pacote de otimização nutricional, com alimentos ricos em cálcio e proteína (grade 1B), e a dose para osso está no capítulo de osteoporose. E dispositivos vestíveis: a evidência atual não sustenta o uso de wearables para prevenir queda; o que há é sinal de que eles aumentam a adesão quando usados dentro de um programa de exercício (grade 2C).

Dentro do hospital, quem manda é o protocolo de segurança do paciente

O protocolo de prevenção de quedas do Ministério da Saúde, da Anvisa e da Fiocruz integra o Programa Nacional de Segurança do Paciente e se aplica a hospitais, a todos os pacientes e a todo o período de permanência. Ele muda a lógica: aqui não se pergunta 'esse paciente cai muito?', pergunta-se 'esse serviço avalia, sinaliza, previne, notifica e mede?'.

A avaliação do risco é feita na admissão, com escala adequada ao perfil de pacientes da instituição, e repetida diariamente até a alta. Reavalia-se também a cada transferência de setor, mudança do quadro clínico, episódio de queda durante a internação e sempre que surgir novo fator de risco — o exemplo que o próprio protocolo dá é o paciente que começa a receber sedativo.

Na admissão avalia-se ainda o risco de dano caso a queda ocorra, que é outra coisa: osteoporose, fratura anterior, uso de anticoagulante e discrasias sanguíneas. Dois pacientes com o mesmo risco de cair podem ter risco de desfecho grave completamente diferente.

A classificação do protocolo é funcional, não numérica. É de alto risco: o paciente independente, que se locomove e realiza suas atividades sem ajuda, mas que tem pelo menos um fator de risco; o paciente dependente de terceiros, que anda com auxílio de pessoa ou dispositivo ou se locomove em cadeira de rodas; e o paciente acomodado em maca, esperando exame ou transferência, com ou sem fatores de risco. É de baixo risco: o paciente acamado, restrito ao leito, completamente dependente; e o indivíduo independente e sem nenhum fator de risco.

Guarde a lista de fatores de risco do protocolo, porque ela tem particularidades: a faixa demográfica inclui crianças menores de 5 anos e idosos acima de 65; entram hipotensão postural, tontura, síncope, convulsão, dor intensa, baixo índice de massa corpórea, anemia, insônia, incontinência ou urgência miccional e para evacuação, artrite, osteoporose e alterações metabólicas como hipoglicemia; entram déficit sensorial de visão, audição ou tato; e entra, no item medicamentos, a polifarmácia definida como uso de quatro ou mais medicamentos.

Ocorrida a queda, a sequência é fixa: notificar, avaliar e atender o paciente imediatamente para atenuar o dano, e analisar o caso no setor onde aconteceu para identificar os fatores contribuintes. O protocolo é claro sobre um ponto que costuma virar distrator: ele não adota nenhuma escala em particular. Cita Morse e stratify como as mais usadas no Brasil e no exterior, registra que a Morse foi traduzida e adaptada para o português em 2013 e avisa que nem a Morse nem as demais são de acesso livre — usar exige autorização dos autores.

Imobilidade: quando o repouso deixa de ser conduta e vira diagnóstico

Repare no que a classificação hospitalar acabou de dizer: o paciente acamado, restrito ao leito e completamente dependente é de baixo risco de queda. Não é erro do protocolo — é a descrição honesta do que aconteceu. Ele parou de cair porque parou de levantar, e o risco migrou inteiro para o outro lado da mesma síndrome.

A imobilidade é uma das grandes síndromes geriátricas, e o caminho até ela costuma passar pela queda. Dor, queda ou medo de cair levam à restrição de atividade; a restrição leva à perda de massa e de força; a perda de força leva a mais instabilidade e a mais dependência; e a dependência leva ao leito. Cada volta do ciclo é mais curta que a anterior, e a partir de certo ponto ela não se desfaz mais.

O custo se distribui por aparelho, e é útil saber de cor porque a prova pede a complicação ou a medida que a previne. No musculoesquelético: perda de força e de massa, encurtamentos e contraturas, com perda óssea acelerada e, na imobilização grave, hipercalcemia da imobilização. No cardiovascular: descondicionamento, queda do volume plasmático e hipotensão ortostática — que devolve o paciente ao risco de queda assim que ele tenta levantar — além do risco de tromboembolismo venoso, cuja profilaxia é assunto do capítulo próprio. No respiratório: menor expansibilidade, retenção de secreção, atelectasia e pneumonia. Na pele: lesão por pressão. No geniturinário: retenção urinária, infecção e incontinência. No digestivo: constipação e impactação fecal. No neuropsíquico: privação sensorial, delirium e depressão.

A prevenção é banal de escrever e difícil de sustentar: reposicionamento programado no leito, sentar fora do leito, mobilização precoce, treino de marcha e equilíbrio assim que possível, e retirada precoce de tudo que amarra o paciente à cama — sonda vesical, acesso, monitor. O intervalo de reposicionamento e a escala de risco de lesão por pressão pertencem ao protocolo de prevenção de lesão por pressão, outro anexo do mesmo Programa Nacional de Segurança do Paciente, e ao capítulo de incontinência urinária e úlceras por pressão no idoso.

Uma medida precisa ser dita pelo nome errado que ela costuma ter: contenção física não previne queda. A recomendação internacional é não usar restrição física como medida de prevenção de queda em instituição de longa permanência (grade 1B). Grade de leito elevada em paciente agitado transforma a queda da altura da cama em queda por cima da grade. A régua de enfermagem para contenção mecânica e a conduta no idoso agitado estão no capítulo de delirium.

A frase que resume o capítulo inteiro cabe numa linha: cama não é tratamento, é prescrição — e prescrição tem indicação, tem dose e tem data para ser revista.

04

Do rastreio à intervenção: onde cada pessoa idosa entra

O algoritmo internacional tem duas portas de entrada: a busca ativa na consulta de rotina e a chegada ao serviço por causa de uma queda. As duas desembocam na mesma classificação em três faixas, e é a faixa — não o escore — que define o que se oferece.

  1. 1Pergunte a toda pessoa idosa, pelo menos uma vez por ano: caiu nos últimos 12 meses? sente-se insegura em pé ou andando? tem preocupação de cair?
  2. 2Qualquer resposta positiva manda avaliar marcha e equilíbrio de forma objetiva — velocidade da marcha em 4 metros e, na indisponibilidade, o Timed Up and Go.
  3. 3Sem queda no último ano, ou uma queda não grave sem alteração de marcha ou equilíbrio: risco baixo — educação, exercício e reavaliação em 12 meses.
  4. 4Uma queda não grave, mas com alteração de marcha ou de equilíbrio: risco intermediário — exercício dirigido a equilíbrio e força, ou encaminhamento à fisioterapia.
  5. 5Queda com lesão que exigiu tratamento, duas ou mais quedas em 12 meses, fragilidade conhecida, incapacidade de levantar sozinho por pelo menos uma hora ou suspeita de perda transitória de consciência: risco alto — avaliação multifatorial multiprofissional.
  6. 6Do resultado da avaliação multifatorial sai a intervenção multidomínio: exercício, revisão de medicamentos, hipotensão ortostática, ambiente da casa e preocupação de cair.
  7. 7Em qualquer faixa, queda inexplicada e repetida abre a investigação de síncope, com o mesmo roteiro do capítulo de síncope.

Risco baixo

Nenhuma queda nos últimos 12 meses, ou uma única queda não grave sem alteração de marcha ou de equilíbrio. Baixo risco não é risco nenhum: oferece-se educação sobre prevenção e exercício, e reavalia-se anualmente.

Risco intermediário

Uma queda não grave, mas com alteração de marcha ou de equilíbrio na avaliação objetiva. Recebe tudo do risco baixo mais exercício dirigido a equilíbrio e força, ou encaminhamento à fisioterapia.

Risco alto

Queda com lesão que exigiu tratamento, duas ou mais quedas em 12 meses, fragilidade conhecida, incapacidade de levantar sozinho por pelo menos uma hora, ou suspeita de perda transitória de consciência. Avaliação multifatorial multiprofissional e intervenção multidomínio.

TesteComo se fazCorte que marca riscoDocumento que fixa o corte
Velocidade da marchaPercurso de 4 metros na velocidade habitual, descartando 2 metros de aceleração e 2 de desaceleração; a primeira tentativa é de familiarizaçãoMenos de 0,8 m/sWorld Guidelines 2022 — GRADE 1A (teste preferido)
Timed Up and GoLevantar da cadeira, andar 3 metros, virar, voltar e sentarMais de 15 segundosWorld Guidelines 2022 — GRADE 1B (alternativa, evidência inconsistente)
Sentar e levantar da cadeiraCadeira de 43 cm encostada na parede, braços cruzados no peito, cinco repetições completas o mais rápido possível com segurançaMais de 12 segundosGuia PBH 2022 (bateria QuickScreen)
Semi-tandemUm pé à frente do outro com afastamento de 2,5 cm, olhos fechados, por 10 segundosNão conseguir manter os 10 segundosGuia PBH 2022 (bateria QuickScreen)
Passo alternadoSubir e descer um degrau de 18 cm alternando os pés, oito apoios ao todo (quatro com cada pé)Mais de 10 segundosGuia PBH 2022 (bateria QuickScreen)
Acuidade visualQuadro de Snellen a 3 metros, com os óculos de uso habitualNão ler todos os símbolos até a quinta linhaGuia PBH 2022 (bateria QuickScreen)
Sensibilidade tátilMonofilamento de 10 gramasAusência de percepçãoGuia PBH 2022 (bateria QuickScreen)

No hospital: quem o protocolo do Ministério da Saúde chama de alto e de baixo risco

Situação do pacienteClassificaçãoO que decorre disso
Independente, locomove-se e faz suas atividades sem ajuda, mas tem pelo menos um fator de riscoAlto riscoMedidas específicas individualizadas prescritas e implementadas, sinalização visual e comunicação na passagem de plantão
Dependente de terceiros: anda com auxílio de pessoa ou de dispositivo, ou se locomove em cadeira de rodasAlto riscoAlocação próxima ao posto de enfermagem quando possível; só sair do leito acompanhado por profissional, mesmo com acompanhante presente
Acomodado em maca, aguardando exame ou transferência, com ou sem fatores de riscoAlto riscoMedidas de transporte seguro; a maca por si já classifica
Acamado, restrito ao leito, completamente dependente, com ou sem fatores de riscoBaixo riscoBaixo risco de queda e alto risco de imobilidade: o cuidado migra para reposicionamento, pele, respiratório e mobilização precoce
Independente e sem nenhum fator de riscoBaixo riscoMedidas gerais do ambiente seguro, educação e reavaliação diária como todos os demais

Imobilidade: a complicação por aparelho e a medida que a previne

AparelhoO que a imobilidade produzMedida preventiva
MusculoesqueléticoPerda de força e de massa muscular, encurtamentos e contraturas, perda óssea acelerada e hipercalcemia da imobilizaçãoMobilização precoce, amplitude articular passiva e ativa, treino de força e de marcha assim que possível
CardiovascularDescondicionamento, redução do volume plasmático, hipotensão ortostática e risco de tromboembolismo venosoSentar fora do leito, levantar em etapas (cabeceira a 30°, pés no chão por 5 minutos) e profilaxia de tromboembolismo conforme o capítulo próprio
RespiratórioRedução da expansibilidade, retenção de secreção, atelectasia e pneumoniaCabeceira elevada, mudança de decúbito programada, estímulo à tosse e à inspiração profunda
PeleLesão por pressão nas proeminências ósseasReposicionamento programado, superfície de suporte e inspeção diária da pele; a escala de risco está no protocolo próprio
GeniturinárioRetenção urinária, infecção e incontinênciaRetirada precoce de sonda vesical, micção programada e acesso facilitado ao banheiro ou ao dispositivo
DigestivoConstipação e impactação fecalHidratação, fibras, mobilização e rotina de evacuação
NeuropsíquicoPrivação sensorial, delirium e depressãoÓculos e aparelho auditivo em uso, orientação temporal, luz de dia, sono à noite e retirada de dispositivos que prendem ao leito

O protocolo do Ministério da Saúde não adota nenhuma escala em particular. Cita a Morse e a STRATIFY como as mais usadas no Brasil e no exterior, registra que a Morse foi traduzida e adaptada para o português em 2013 e avisa que nenhuma delas é de acesso livre — o uso depende de autorização dos autores.

Na admissão avalia-se também o risco de dano caso a queda ocorra, que é distinto do risco de cair: osteoporose, fratura anterior, uso de anticoagulante e discrasias sanguíneas.

Os quatro indicadores do protocolo: proporção de pacientes com avaliação de risco de queda realizada na admissão; número de quedas com dano; número de quedas sem dano; e índice de quedas, que é (nº de eventos ÷ nº de pacientes-dia) × 1.000.

A bateria QuickScreen devolve o risco de cair em 12 meses por número de fatores: de zero a um, 7%; de dois a três, 13%; de quatro a cinco, 27%; seis ou mais, 49%.

O IVCF-20 classifica vulnerabilidade clínico-funcional, não risco de queda: de 0 a 6 pontos, baixo risco; de 7 a 14, moderado; 15 ou mais, alto. Ele entra aqui só porque embute o teste de marcha de 4 metros — a leitura do índice pertence ao capítulo de avaliação geriátrica ampla e fragilidade.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Usar escala pontuada de risco de queda no paciente internado

Avaliar com escala adequada ao perfil da instituição, na admissão e diariamente até a alta

O protocolo brasileiro determina avaliação do risco na admissão com o emprego de uma escala adequada ao perfil de pacientes da instituição, repetida diariamente e a cada transferência, mudança de quadro ou nova queda. Não prescreve qual escala; cita Morse e STRATIFY como as mais usadas. O instrumento aqui cumpre função de governança: gera registro auditável, dispara a sinalização à beira do leito e alimenta os quatro indicadores do programa de segurança do paciente.

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Protocolo Prevenção de Quedas, Programa Nacional de Segurança do Paciente (2013)

Não usar ferramentas pontuadas de rastreio no hospital; tratar todo internado com mais de 65 anos como de alto risco

A recomendação internacional é fazer avaliação multifatorial de risco de queda em todo idoso internado acima de 65 anos e recomenda contra o uso de ferramentas pontuadas de rastreio de risco de queda no hospital para esse fim (GRADE 2B). O argumento é de acurácia: em população em que quase todos são de alto risco, o escore separa pouco e consome o tempo que deveria ir para a avaliação e para a intervenção. Vale o mesmo para instituição de longa permanência, onde a recomendação é não rastrear e considerar todos os residentes de alto risco (GRADE 1A).

World guidelines for falls prevention and management for older adults, Age and Ageing 2022;51(9):afac205

Na prova

A causa da diferença é dupla: data — 2013 contra 2022 — e finalidade do instrumento, governança auditável de um lado, acurácia preditiva do outro. O recorte se identifica pelo vocabulário do enunciado. Núcleo de Segurança do Paciente, notificação, indicador, sinalização à beira do leito, RDC e pacientes-dia são vocabulário do corpo brasileiro. Estratificação de risco, GRADE, sensibilidade e valor preditivo são vocabulário do corpo internacional. As alternativas também entregam: se uma delas nomeia Morse ou STRATIFY, a questão está dentro do protocolo nacional; se uma delas diz 'considerar todos os internados como alto risco', está no corpo internacional. Prova oficial do MEC tende à conduta do SUS.

Qual teste funcional estratifica risco de queda na atenção primária

Velocidade da marcha abaixo de 0,8 m/s como teste preferido, com o Timed Up and Go acima de 15 segundos como alternativa

A recomendação internacional coloca a velocidade da marcha em GRADE 1A pela capacidade preditiva e pela simplicidade, e rebaixa o Timed Up and Go a GRADE 1B, registrando que a evidência para predição de queda é inconsistente e que ele prediz melhor em idosos de menor funcionalidade. O corte do Timed Up and Go adotado é maior que 15 segundos.

World guidelines for falls prevention and management for older adults, Age and Ageing 2022

Bateria de oito fatores do QuickScreen, sem Timed Up and Go, com cortes próprios por teste

O guia municipal de prevenção de quedas adota o QuickScreen Clinical Falls Risk Assessment, validado para idosos brasileiros, que soma queda no último ano, quatro ou mais medicamentos, uso de psicotrópico, acuidade visual, sensibilidade tátil, semi-tandem, passo alternado e sentar e levantar — e converte o número de fatores em probabilidade de cair em 12 meses. O Timed Up and Go não faz parte da bateria; a velocidade da marcha entra pelo IVCF-20, com percurso de 4 metros.

Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte — Guia Prevenção de Quedas em Idosos (2022)

Na prova

A causa é de exequibilidade e de validação local: a bateria brasileira foi montada para ser aplicada por equipe multiprofissional de atenção primária com material de consultório e foi validada em idosos brasileiros, enquanto o corte internacional foi escolhido por desempenho preditivo em revisão sistemática. Cenário de UBS, NASF, Academia da Cidade, grupo de prevenção ou agente comunitário aponta para a bateria brasileira. Enunciado que fala em estratificação de risco, GRADE ou compara instrumentos aponta para o corpo internacional. E as alternativas denunciam: um distrator com semi-tandem, passo alternado ou monofilamento só existe no mundo do QuickScreen.

Quantos medicamentos caracterizam polifarmácia quando o desfecho é queda

Quatro ou mais medicamentos

O protocolo nacional de prevenção de quedas lista, entre os fatores de risco de uso de medicamentos, a polifarmácia definida como uso de quatro ou mais medicamentos. O guia municipal repete o mesmo número, citando a Organização Mundial da Saúde, e o incorpora como um dos oito itens da bateria — 'quatro ou mais medicamentos, excluindo vitaminas'.

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz (2013) e Guia Prevenção de Quedas em Idosos, PBH (2022)

Cinco ou mais medicamentos

O protocolo estadual de atenção à saúde do idoso usa cinco ou mais medicamentos como critério de polifarmácia — ao lado de polipatologia com cinco ou mais diagnósticos — para indicar encaminhamento ao ambulatório de geriatria. É também o corte da definição numérica corrente de polifarmácia usada na revisão de prescrição.

Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal — Protocolo de Atenção à Saúde do Idoso (Portaria SES-DF nº 41/2014)

Na prova

A causa é de construto: os dois números respondem a perguntas diferentes. Quatro ou mais é um limiar de sinalização de risco de queda, calibrado para ser sensível dentro de uma bateria em que ele é apenas um item entre oito. Cinco ou mais é a definição de polifarmácia como problema de prescrição, usada para acionar revisão da receita e encaminhamento. Enunciado que fala em risco de queda, bateria de rastreio ou protocolo de segurança do paciente trabalha com quatro; enunciado que fala em revisão de medicamentos, desprescrição, critérios de Beers ou encaminhamento à geriatria trabalha com cinco. O capítulo de polifarmácia e prescrição segura no idoso trata do segundo.

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Caso resolvido

Homem de 84 anos vem à unidade básica acompanhado do neto, para consulta de rotina. Refere que caiu duas vezes no último ano; na última, há dois meses, escorregou ao sair do banheiro à noite, não se machucou, mas ficou cerca de quarenta minutos no chão até que o neto chegasse, porque não conseguiu levantar sozinho. Diz que 'não foi nada'. Usa apenas losartana e sinvastatina. Anda sem bengala, mas o neto conta que ele deixou de ir à feira e passou a evitar sair de casa depois do episódio. Pressão arterial 132 x 78 mmHg deitado e 118 x 70 mmHg em pé, sem sintomas; ausculta cardíaca normal; eletrocardiograma com ritmo sinusal e sem alterações. Percorre 4 metros em 6,0 segundos.
achado
Duas quedas nos últimos doze meses e incapacidade de levantar sozinho por período prolongado — o critério internacional usa pelo menos uma hora, e quarenta minutos no chão sem conseguir levantar descreve exatamente o mesmo fenômeno de perda de força de membros inferiores. Ausência de fratura não muda a classificação.
medida objetiva
4 metros em 6,0 segundos são 0,67 m/s, abaixo do corte de 0,8 m/s. Marcha lenta confirmada objetivamente, com o instrumento de maior força de recomendação e sem equipamento nenhum além de um cronômetro e uma fita no chão.
o que o 'não foi nada' esconde
Deixou a feira e evitou sair: restrição de atividade por preocupação de cair, que é preditor e é alvo de tratamento. A avaliação da preocupação de cair deve usar instrumento padronizado, como a FES-I ou a FES-I curta.
descartar o que não é queda mecânica
O relato é de escorregão com mecanismo claro, sem amnésia do episódio; a pressão deitado e em pé não mostra queda relevante e o eletrocardiograma é normal. Avaliação cardiovascular inicial normal e sem suspeita de síncope: não é preciso ir adiante nesse eixo.
classificação
Risco alto — duas ou mais quedas em doze meses e incapacidade de levantar sozinho já bastam, cada um isoladamente. Não é risco intermediário, porque o intermediário pressupõe uma única queda não grave.
conduta
Avaliação multifatorial multiprofissional e, a partir dela, intervenção multidomínio: exercício com desafio de equilíbrio e exercícios funcionais, três ou mais vezes por semana, progressivo, por pelo menos 12 semanas; avaliação do ambiente da casa por profissional treinado; revisão da receita; e abordagem da preocupação de cair. Preenche critério de encaminhamento à referência em saúde da pessoa idosa por duas ou mais quedas em doze meses e alteração de marcha.
o que não fazer
Prescrever caminhada como programa de prevenção, prescrever vitamina D sem risco de deficiência, ou orientar 'evite sair de casa' — esta última acelera o ciclo que trouxe o paciente até aqui.
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Agora feche você

Mulher de 88 anos, internada há três dias em enfermaria de clínica médica para tratamento de erisipela em perna direita, em antibiótico endovenoso. Deambula com auxílio de andador desde antes da internação. Na madrugada do quarto dia, a técnica de enfermagem a encontra sentada no chão ao lado da cama, lúcida, dizendo que tentou ir ao banheiro sozinha e 'as pernas fraquejaram'. Sem dor, sem deformidade, sem ferimento visível. A avaliação de risco de queda havia sido registrada apenas na admissão. A enfermeira do plantão sugere manter a paciente restrita ao leito com as grades elevadas até a alta, 'para não cair de novo'.
achado
Paciente encontrada no chão: é queda pela definição do protocolo, com ou sem dano. Antes do episódio ela já era de alto risco pela própria classificação do protocolo — dependente de auxílio de dispositivo para se locomover.
falha de processo
A avaliação de risco foi feita só na admissão. O protocolo exige reavaliação diária até a alta, e também a cada transferência de setor, mudança do quadro clínico, episódio de queda ou surgimento de novo fator de risco.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Só contar como queda o que chegou ao chão A definição do protocolo inclui o episódio em que o paciente precisou de amparo durante o deslocamento, ainda que não tenha chegado ao chão. A queda amparada é queda, e é justamente a que some do registro — o acompanhante segurou, ninguém notificou, e o indicador do serviço fica bonito enquanto o risco continua ali. Na consulta ambulatorial o efeito é o mesmo: quem pergunta só 'caiu?' perde o escorregão em que a pessoa se segurou na pia.
  2. 2Trocar os 12 segundos do sentar e levantar pelo cronômetro do Timed Up and Go São dois testes diferentes, com cadeira e cronômetro nos dois, e números que se confundem. Sentar e levantar da cadeira: cinco repetições completas, positivo acima de 12 segundos, item da bateria QuickScreen usada na atenção primária brasileira. Timed Up and Go: uma única ida e volta de 3 metros, corte acima de 15 segundos, e classificado como alternativa de força menor à velocidade da marcha. Trocar um pelo outro erra o teste, o número e a fonte ao mesmo tempo.
  3. 3Concluir que o paciente acamado é o de maior risco de queda Parece contraintuitivo e é o oposto: pelo protocolo do Ministério da Saúde, o paciente acamado, restrito ao leito e completamente dependente é de baixo risco de queda. Quem está em alto risco é o independente com um fator de risco, o dependente que anda com auxílio ou cadeira de rodas e o paciente acomodado em maca. O acamado saiu do risco de cair e entrou inteiro no risco de imobilidade — o cuidado não diminui, muda de eixo.
  4. 4Prescrever caminhada como prevenção de queda O programa com evidência é outro: exercícios que desafiam o equilíbrio mais exercícios funcionais como levantar e sentar e dar passos, três ou mais vezes por semana, individualizados, progressivos em intensidade, por pelo menos 12 semanas. Caminhada não desafia equilíbrio, e em quem já tem alto risco caminhar rápido sem treino de equilíbrio expõe mais do que protege. Tai chi e treino resistido progressivo entram como acréscimo, não como substituto.
  5. 5Chamar de queda mecânica a queda que se repete sem explicação Quedas recorrentes inexplicadas em idoso estão associadas, na maioria das vezes, a causa cardiovascular, e a investigação adicional é a mesma da síncope. A armadilha nasce da amnésia do episódio: o paciente não percebe a perda de consciência e descreve um tropeço. 'Quando vi, estava no chão' não é relato de tropeço. Antes de fechar o caso como distúrbio de marcha, meça a pressão deitado e em pé e faça o eletrocardiograma de 12 derivações.
  6. 6Suplementar vitamina D para prevenir queda em todo idoso A recomendação internacional restringe a suplementação de vitamina D com finalidade de prevenir queda a quem tem risco de deficiência. Em residentes de instituição de longa permanência ela entra, mas dentro de um pacote de otimização nutricional com alimentos ricos em cálcio e proteína. Suplementar todo mundo não é a intervenção do tema — o que reduz queda é exercício com desafio de equilíbrio. A dose de vitamina D para osso é assunto do capítulo de osteoporose.
  7. 7Elevar as grades e conter no leito para 'evitar nova queda' Contenção física não é medida de prevenção de queda, e a recomendação internacional é explícita contra esse uso em instituição de longa permanência. Grade elevada em quem está determinado a levantar transforma a queda da altura da cama em queda por cima da grade, com energia maior. Além disso, contenção produz agitação, delirium e imobilidade. A régua de enfermagem para contenção mecânica e o manejo do idoso agitado estão no capítulo de delirium.
  8. 8Parar de perguntar quando a resposta é 'não me machuquei' Duas informações mudam a classificação mesmo sem lesão nenhuma: quantas quedas houve nos últimos doze meses e quanto tempo a pessoa ficou no chão sem conseguir levantar. Duas ou mais quedas em doze meses, ou incapacidade de levantar sozinho por pelo menos uma hora, colocam o paciente em alto risco por si só — e o tempo prolongado no chão ainda traz rabdomiólise, desidratação, hipotermia e lesão por pressão como problemas próprios.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O Timed Up and Go avalia levantar da cadeira, marcha e equilíbrio, sendo instrumento clássico de rastreio de risco de quedas (correta). O MEEM avalia cognição. A escala de Yesavage rastreia depressão. O índice de Katz mede independência nas atividades básicas de vida diária, não a marcha diretamente. O CAGE rastreia uso abusivo de álcool.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Três perguntas de rastreio uma vez por ano; positivo manda medir marcha e equilíbrio. Velocidade da marcha em 4 metros, corte abaixo de 0,8 m/s (1A); Timed Up and Go acima de 15 segundos (1B). Alto risco: queda com lesão tratada, duas ou mais quedas em 12 meses, fragilidade, uma hora no chão sem levantar ou suspeita de perda de consciência. Alto risco vai para avaliação multifatorial. Exercício com desafio de equilíbrio, três ou mais vezes por semana, progressivo, mínimo 12 semanas. Queda inexplicada repetida investiga-se como síncope.

em 30 dias

Queda pelo protocolo do Ministério da Saúde inclui a queda amparada e a de assentos, com ou sem dano; avaliação na admissão e reavaliação diária até a alta. Alto risco hospitalar: independente com um fator, dependente que anda com auxílio ou cadeira de rodas, e paciente em maca. Baixo risco: acamado totalmente dependente e independente sem fator nenhum. Depois da queda: notificar, atender imediatamente, analisar no setor. Polifarmácia é quatro ou mais medicamentos quando o desfecho é queda e cinco ou mais quando se fala em revisão de prescrição. Contenção física não previne queda. Imobilidade: perda de força, hipotensão ortostática, tromboembolismo, atelectasia e pneumonia, lesão por pressão, retenção e infecção urinária, constipação, delirium e depressão.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 79 anos chega à unidade básica trazido pela filha, que insistiu na consulta depois de encontrá-lo sentado no chão da cozinha pela segunda vez em quatro meses. Ele minimiza, diz que tropeçou nas duas vezes e que está bem. A filha conta que ele passou a dormir na poltrona da sala para não subir a escada e que quase não sai mais de casa. Colha a história das quedas, avalie marcha, equilíbrio e pressão arterial deitado e em pé, classifique o risco e proponha a conduta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndromes geriátricas – Quedas e imobilidade no idoso — Preparatório para provas | OsceLabs