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Clínica MédicaGeriatria

Delirium no idoso

A prova raramente pergunta o que é delirium: ela mostra um idoso que mudou em horas e testa se você reconhece a desatenção flutuante, caça o gatilho e resiste a sedar antes de tratar a causa.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 82 anos, internada há 3 dias por pneumonia, desenvolve à noite início agudo de confusão, desatenção flutuante, desorganização do pensamento e alteração do nível de consciência. Antes disso estava lúcida e orientada. Ao exame: PA 128x78 mmHg, FC 92 bpm, T 37,4 °C; sem déficit focal. Qual é o diagnóstico sindrômico mais provável?

02

Como esse tema cai

Delirium é diagnóstico de beira de leito: não existe exame que o confirme nem que o afaste. A vinheta quase nunca pergunta “o que é delirium” — ela mostra um idoso que mudou em horas ou dias e cobra três decisões em sequência: reconhecer a síndrome (início agudo, curso flutuante, desatenção), encontrar o gatilho e resistir à tentação de sedar antes de tratar a causa. Quem inverte essa ordem erra a questão e, na vida real, prolonga o quadro.

A régua nacional é peculiar. Delirium não tem PCDT próprio, e o documento federal que o descreve com fatores de risco, quadro de causas, subtipos motores e tabela de medicamentos é o Caderno de Atenção Domiciliar — Volume 2 (Ministério da Saúde, 2013), no item 7.4.1.8. A única norma federal específica sobre o idoso agitado trata da contenção mecânica e mudou recentemente: a Resolução COFEN nº 746/2024 revogou a nº 427/2012. O restante da régua brasileira vem de instrumentos validados em português — o CAM, validado por Fabbri em 2001, e o CAM-ICU e o ICDSC, validados por Gusmao-Flores em 2011.

O que o avaliador testa com mais frequência: diferenciar delirium de demência e de depressão pelo curso temporal; lembrar que o perfil hipoativo é o mais comum entre os frágeis e o que mais escapa; começar pela busca de causa — fármaco, infecção, dor, retenção urinária, fecaloma, hipóxia, distúrbio metabólico — e não pela prescrição de antipsicótico; e saber que benzodiazepínico só é tratamento quando a causa é abstinência de álcool ou do próprio benzodiazepínico.

03

O que muda decisão

Delirium é desatenção aguda e flutuante

O Caderno de Atenção Domiciliar define delirium como estado confusional agudo resultante de disfunção cerebral orgânica difusa, com flutuação do nível de consciência, alteração do ciclo sono–vigília e distúrbio de atenção, percepção, pensamento, memória e comportamento. Antes se chamava “estado confusional agudo”, e é assim que ele ainda aparece em muitos prontuários brasileiros.

O sintoma cardinal é a desatenção. O paciente perde o fio da conversa, precisa que a pergunta seja repetida, não sustenta uma sequência simples (dias da semana de trás para frente, meses do ano ao contrário). Junto com a desatenção vem a alteração do nível de alerta — para mais ou para menos — e é a combinação dos dois que separa delirium de qualquer outro quadro cognitivo.

Os critérios do DSM-5-TR organizam isso em cinco pontos: perturbação da atenção e da consciência (A); instalação em horas a dias, com mudança em relação ao basal e flutuação ao longo do dia (B); perturbação adicional da cognição, como desorientação, alteração de linguagem ou de percepção (C); quadro não explicado por outro transtorno neurocognitivo e não ocorrendo em rebaixamento grave do nível de alerta, como coma (D); e evidência de que é consequência fisiológica direta de condição médica, intoxicação, abstinência, toxina ou de causas múltiplas (E).

Dois detalhes que a vinheta usa. O primeiro é a flutuação: o paciente que “estava conversando à tarde” e à noite não reconhece ninguém não tem dois problemas — tem um só, flutuante. O segundo são os sinais neurológicos que o documento do Ministério lista junto do quadro clínico: asterixe, tremor, mioclonia, incoordenação, incontinência nova. Asterixe num idoso confuso empurra a investigação para encefalopatia metabólica — hepática, urêmica, hipercápnica.

Quem faz delirium: vulnerabilidade multiplicada por gatilho

Delirium não é doença: é a forma como o cérebro vulnerável responde a uma agressão. A conta tem dois fatores. De um lado, os predisponentes, que o Caderno de Atenção Domiciliar lista: idade acima de 65 anos, sexo masculino, delirium prévio, prejuízo cognitivo prévio, doença do sistema nervoso central, polifarmácia e psicotrópicos, dependência de álcool e drogas, déficit visual ou auditivo, insuficiência de órgãos, múltiplas doenças crônicas, desnutrição, dependência funcional, imobilidade, neoplasia avançada e aids. O SIGN 157 acrescenta fragilidade e história de depressão.

Do outro lado estão os precipitantes. A regra prática é aritmética: quanto mais predisponentes, menor o gatilho necessário. Um idoso robusto precisa de sepse ou de uma grande cirurgia para entrar em delirium; um idoso com demência, déficit auditivo e sete medicamentos entra com uma infecção urinária, um fecaloma ou uma noite mal dormida na enfermaria. É por isso que a mesma vinheta pode trazer um gatilho aparentemente banal — e ele ser a resposta.

A frequência justifica a obsessão das bancas. O SIGN 157 registra prevalência de 20% em pacientes adultos internados em clínica médica aguda num estudo britânico, chegando a até 50% nos casos de fratura de quadril e até 75% em terapia intensiva. Delirium é, nas palavras do próprio guia, uma das emergências médicas mais comuns — e uma das mais subdiagnosticadas.

Os três perfis motores — e por que o silencioso é o perigoso

O Caderno de Atenção Domiciliar separa três formas. O hiperativo cursa com confusão e agitação, com ou sem alucinação, ilusão ou mioclonia, e é confundido com ansiedade ou crise epiléptica. O hipoativo cursa com confusão e sonolência, com ou sem prostração, é confundido com depressão e — este é o ponto que o documento faz questão de escrever — é o tipo mais comum entre pacientes fragilizados, como os de doença oncológica avançada, doença neurodegenerativa avançada e os muito idosos, além de ser o menos reconhecido inicialmente pelas equipes clínicas. O misto alterna os dois.

A consequência prática é desconfortável: o delirium que incomoda a equipe é o que recebe atenção, e o que não incomoda é o que passa como “paciente tranquilo, dormiu bem”. Numa prova, “idoso quieto, sonolento, come pouco, não interage” depois de uma cirurgia ou de uma internação não é depressão até prova em contrário — é delirium hipoativo até prova em contrário, porque o curso é de dias e a atenção está comprometida.

Um teste rápido resolve a maior parte dos casos à beira do leito: peça a sequência dos meses do ano de dezembro para janeiro, ou os dias da semana de trás para frente. Quem erra ou abandona a tarefa está desatento. Depressão não costuma quebrar a atenção sustentada dessa forma, e demência estabelecida sem delirium mantém desempenho estável de um dia para o outro.

Enfermaria à noite com dois leitos: à esquerda, idoso quieto virado para a parede e a equipe passando direto; à direita, idosa agitada puxando o acesso venoso, cercada por profissionais.
Os dois delirium da mesma enfermaria. O hiperativo chama a equipe; o hipoativo — o mais comum entre os idosos frágeis, segundo o Caderno de Atenção Domiciliar — passa como “paciente tranquilo”.

Delirium, demência e depressão: o que separa os três

A distinção é feita por três eixos: tempo de instalação, curso ao longo do dia e estado da atenção. Delirium instala em horas a dias, flutua e destrói a atenção. Demência instala em meses a anos, é estável no dia a dia e preserva a atenção até fases avançadas. Depressão instala em semanas, tem humor persistentemente rebaixado e queixa cognitiva subjetiva desproporcional ao desempenho — o paciente diz “não consigo”, mas acerta quando estimulado.

O informante vale mais que o exame. Sem alguém que conheça o basal, não há como afirmar que houve mudança aguda — e é exatamente por isso que a vinheta sempre coloca um filho, um cuidador ou a enfermagem dizendo “ele não era assim ontem”. Essa frase é o dado diagnóstico, não enfeite narrativo.

Demência e delirium não competem: convivem. A demência é o maior fator de risco isolado para delirium, e o delirium sobreposto à demência é o cenário mais frequente na enfermaria geriátrica. Quando o enunciado traz um paciente com demência conhecida que “piorou muito nos últimos dois dias”, a piora aguda é delirium — a demência não muda de patamar em 48 horas.

Rastrear: CAM na enfermaria, CAM-ICU ou ICDSC na UTI

O instrumento citado pelo documento do Ministério da Saúde é o Confusion Assessment Method (CAM), na versão em português validada por Fabbri e colaboradores em 2001, com sensibilidade de 94,1% e especificidade de 96,4% em 100 idosos atendidos no serviço de urgência da Santa Casa de São Paulo, e concordância entre avaliadores de kappa 0,70. O algoritmo é fechado: são necessárias as características 1 (início agudo e curso flutuante) e 2 (desatenção), mais a 3 (pensamento desorganizado) ou a 4 (alteração do nível de consciência).

O próprio Caderno de Atenção Domiciliar coloca a ressalva que a prova adora: o CAM perde sensibilidade em pacientes com funcionalidade já reduzida e que se comunicam mal, e por isso conhecer o basal do paciente é parte do método. O SIGN 157 diz o mesmo por outro caminho — a sensibilidade relatada do CAM e suas variantes varia de 46% a 94% conforme o treinamento de quem aplica.

Na terapia intensiva o instrumento muda, porque o paciente pode estar sedado ou em ventilação mecânica. As versões brasileiras foram validadas em quatro UTIs por Gusmao-Flores e colaboradores em 2011: o CAM-ICU teve sensibilidade de 72,5% e especificidade de 96,2%; o ICDSC, sensibilidade de 96,0% e especificidade de 72,4%. Os dois números contam a mesma história por lados opostos — o CAM-ICU quase não acusa quem não tem delirium, mas deixa passar cerca de um em cada quatro que tem; o ICDSC não deixa passar, mas rotula gente demais. CAM-ICU negativo em paciente de UTI com mudança aguda de comportamento não encerra a discussão.

Fora do Brasil, o SIGN 157 recomenda o 4AT (4 As Test: alerta, atenção, teste mental abreviado de quatro itens e mudança aguda) para identificar delirium provável em emergência e enfermaria, com a vantagem de dispensar treinamento formal e levar menos de dois minutos. Ele não entrou na documentação brasileira, mas aparece em enunciado de origem britânica e em serviços que importaram protocolos escoceses.

Achar a causa: o exame que decide o caso

O SIGN 157 impõe uma ordem: primeiro afastar as causas agudas que matam — hipóxia, hipotensão, hipoglicemia e intoxicação ou abstinência de drogas. Isso é oxímetro, pressão, glicemia capilar e revisão do que o paciente tomou ou deixou de tomar, tudo à beira do leito e antes de qualquer pedido de exame de imagem.

Depois vem a revisão medicamentosa, que o Caderno de Atenção Domiciliar coloca como item obrigatório. A lista de fármacos que ele nomeia como causa é a mesma que aparece nas prescrições hospitalares: anticolinérgicos, quimioterápicos, benzodiazepínicos, opioides, sedativos e hipnóticos, corticoide, betabloqueadores, digitálicos, anti-histamínicos e antibióticos. Prometazina e dimenidrinato para náusea, escopolamina para cólica e um indutor do sono prescrito “só para essa noite” explicam uma parcela desproporcional dos delirium de enfermaria.

As demais categorias do mesmo quadro: distúrbios metabólicos (hidroeletrolíticos, hipo e hiperglicemia, tireoide, paratireoide, adrenal, hipovitaminoses B1, B6, B12 e folato, hipóxia, febre); doenças sistêmicas (insuficiência renal, hepática, cardíaca, DPOC, abstinência); doenças estruturais do sistema nervoso central (metástase, lesão cerebral, traumatismo craniano após queda); infecções do sistema nervoso central ou sistêmicas (sepse, meningite, encefalite, pneumonia, pielonefrite, celulite); e o grupo que as bancas escondem melhor — retenção urinária, fecaloma, dor, restrição física, sondas e cateteres, evento iatrogênico, isolamento social, ambiente novo e estresse cirúrgico.

Traduzindo para o exame físico: palpar a região suprapúbica atrás de bexigoma, fazer o toque retal atrás de fecaloma, procurar a dor que o paciente com demência não verbaliza (careta à mobilização, taquicardia sem febre), revisar cada dispositivo invasivo instalado. O rendimento diagnóstico disso supera com folga o da tomografia.

Imagem de crânio tem rendimento baixo na investigação de delirium, como registra o SIGN 157, e não muda a conduta quando já existe causa identificada, como desidratação ou infecção, em paciente com prejuízo cognitivo prévio. Ela se justifica quando há trauma craniano, sinal neurológico focal novo, anticoagulação, rebaixamento persistente ou ausência de qualquer causa após a investigação inicial. Punção lombar entra na suspeita de meningite ou encefalite, e eletroencefalograma quando a hipótese é estado de mal não convulsivo.

Prevenir e tratar: o que funciona não vem em ampola

O pacote de redução de risco recomendado pelo SIGN 157 para pacientes sob risco é uma lista pouco glamourosa e muito eficaz: orientação e garantia de que o paciente esteja com seus óculos e aparelhos auditivos; higiene do sono; mobilização precoce; controle da dor; prevenção, identificação precoce e tratamento de complicações pós-operatórias; hidratação e nutrição adequadas; regulação da função vesical e intestinal; e oxigênio suplementar quando indicado. A mesma diretriz recomenda que todo paciente sob risco tenha a prescrição revisada por profissional experiente.

O tratamento do quadro instalado segue a mesma lógica, somada ao tratamento da causa. O Caderno de Atenção Domiciliar resume as medidas gerais em ambiente silencioso, boa luminosidade e relógio ou calendário visíveis; o SIGN acrescenta comunicar o diagnóstico ao paciente e à família, envolver o acompanhante, prevenir as complicações do delirium (imobilidade, queda, lesão por pressão, desidratação, desnutrição, isolamento) e monitorar a recuperação, encaminhando ao especialista quem não melhora.

Duas medidas fazem mais mal do que bem e aparecem como distratores: sondagem vesical de conveniência, que adiciona um precipitante, e contenção mecânica como primeira resposta à agitação — a restrição física está listada entre as causas de delirium no próprio quadro do Ministério da Saúde.

Quando a medicação entra — e por quanto tempo

Não existe fármaco que trate delirium. O SIGN 157 revisou os estudos e concluiu que os antipsicóticos não reduzem a gravidade, não resolvem os sintomas nem alteram a mortalidade no cuidado agudo; numa revisão Cochrane citada pelo guia, um ensaio grande em cuidado paliativo oncológico encontrou escores de sintomas de delirium piores com risperidona ou haloperidol do que com placebo. Nenhum antipsicótico se mostrou superior a outro. Na UTI, a atualização focada de 2025 das diretrizes PADIS declara textualmente não conseguir emitir recomendação a favor ou contra o uso de antipsicóticos para tratar delirium.

Sobra uma indicação estreita, que o próprio SIGN 157 reconhece como opinião de especialista: sofrimento intratável ou risco à segurança do paciente e de terceiros, depois de esgotadas as medidas não farmacológicas. Nesse recorte valem as doses do Quadro 8 do Caderno de Atenção Domiciliar — haloperidol 0,5–5 mg, risperidona 0,5–3 mg, olanzapina 2,5–20 mg —, sempre começando pela menor dose no idoso, com a regra de ouro que o SIGN escreve: revisão diária e suspensão assim que a situação clínica permitir, tipicamente em um a dois dias. Antipsicótico iniciado na internação e carimbado na receita de alta é iatrogenia, não tratamento.

Três travas de segurança. Haloperidol não deve ser combinado a qualquer fármaco associado a prolongamento do intervalo QTc. Em doença de Parkinson e em demência com corpos de Lewy, o bloqueio dopaminérgico piora o parkinsonismo e pode desencadear reação grave de sensibilidade a neurolépticos — quando é inevitável medicar, o antipsicótico de escolha é a quetiapina. E o benzodiazepínico, que o Caderno lista como lorazepam 0,5–2 mg, é regra apenas quando a causa é abstinência de álcool ou do próprio benzodiazepínico: fora daí ele piora a confusão, e o único ensaio de lorazepam identificado pelo SIGN foi interrompido precocemente por efeitos adversos intoleráveis.

Na UTI a decisão farmacológica se desloca da agitação para a sedação. A atualização PADIS de 2025 sugere dexmedetomidina em vez de propofol em adultos sob ventilação mecânica quando sedação leve e redução de delirium são as prioridades, com certeza moderada de evidência — e o SIGN já registrava metanálise com redução de incidência de delirium com dexmedetomidina (RR 0,68; IC 95% 0,49–0,96).

A contenção mecânica, quando não há alternativa, tem norma própria no Brasil. A Resolução COFEN nº 746/2024 estabelece que ela seja realizada quando for o único meio disponível para prevenir dano imediato ou iminente ao paciente ou aos demais, sob supervisão direta do enfermeiro, com monitoramento pela equipe de enfermagem e com razões, duração, avaliações e eventos adversos registrados em prontuário. Contenção química de rotina para “facilitar o plantão” não tem amparo em nenhuma das duas redações da norma.

O delirium não termina na alta

O Caderno de Atenção Domiciliar registra que pacientes com delirium têm maior risco de institucionalização e de redução de funcionalidade após a alta hospitalar. Delirium é, ao mesmo tempo, marcador de vulnerabilidade e causa de perda: quem fez um episódio sai do hospital com pior desempenho funcional, maior chance de novo episódio e maior risco de declínio cognitivo subsequente.

Daí duas condutas que valem ponto em prova prática e em questão de conduta. A primeira é documentar: o SIGN 157 pede que o diagnóstico de delirium seja explicitamente registrado e codificado para acompanhar as transferências de cuidado — sumário de alta, encaminhamento, passagem de plantão. Sem esse registro, o próximo serviço recebe “idoso confuso” e recomeça do zero. A segunda é reavaliar depois: parte dos episódios se arrasta por semanas, e a persistência de desatenção após a resolução da causa exige nova busca de gatilho e, em muitos casos, avaliação cognitiva formal alguns meses depois — nunca durante o episódio, que sempre superestima o déficit.

Explicar à família fecha o ciclo. Cuidador que entende que o avô “não enlouqueceu” e que aquilo tem causa e prazo aceita melhor as medidas simples — trazer os óculos, o aparelho auditivo, ficar ao lado, manter a luz do dia, deixar o relógio à vista — que são exatamente o tratamento.

04

Do reconhecimento à causa: o roteiro das primeiras horas

Delirium não tem escore de gravidade que mude a conduta: o que muda a conduta é a sequência. Reconhecer com um instrumento, afastar o que mata em minutos, revisar a prescrição, examinar bexiga e reto, e só então pensar em fármaco. Os quadros abaixo reúnem o algoritmo do CAM, a comparação com demência e depressão, os instrumentos por cenário, os gatilhos por categoria e as doses do documento do Ministério da Saúde.

  1. 1Confirme que houve mudança aguda em relação ao basal — a informação vem do acompanhante ou da equipe, não do paciente.
  2. 2Teste a atenção à beira do leito: meses do ano de trás para frente, dias da semana em ordem inversa, repetição de sequências curtas.
  3. 3Aplique o instrumento do cenário: CAM em enfermaria e pronto-socorro, CAM-ICU ou ICDSC em terapia intensiva.
  4. 4Afaste primeiro o que mata em minutos: hipóxia, hipotensão, hipoglicemia, intoxicação ou abstinência.
  5. 5Revise medicamento por medicamento, incluindo o que foi prescrito nas últimas 48 horas e o que foi suspenso abruptamente.
  6. 6Examine bexiga, reto, dor não verbalizada e cada dispositivo invasivo; peça exames básicos guiados pela suspeita.
  7. 7Trate a causa e instale as medidas ambientais; reserve o antipsicótico para sofrimento intratável ou risco à segurança, na menor dose, com revisão diária.
  8. 8Registre o diagnóstico na evolução e no sumário de alta, e combine a reavaliação cognitiva para depois da resolução.

CAM 1 — início agudo e curso flutuante

Houve mudança aguda do estado mental em relação ao basal? O comportamento oscila ao longo do dia, aparecendo e desaparecendo ou variando de intensidade? Característica obrigatória.

CAM 2 — desatenção

O paciente tem dificuldade de focar, distrai-se com facilidade, perde o fio da conversa ou falha em sequências simples? Característica obrigatória — sem desatenção não se fecha o CAM.

CAM 3 — pensamento desorganizado

Fala incoerente ou irrelevante, fluxo de ideias ilógico, mudança imprevisível de assunto. Basta esta OU a característica 4 para completar o diagnóstico.

CAM 4 — alteração do nível de consciência

Qualquer coisa diferente de alerta: vigilante, letárgico, torporoso ou comatoso. Basta esta OU a característica 3 — e é ela que costuma flagrar o delirium hipoativo.

EixoDeliriumDemênciaDepressão
InstalaçãoHoras a diasMeses a anosSemanas
Curso no diaFlutuante, pior à noiteEstávelEstável, humor pior pela manhã
AtençãoComprometida — sintoma cardinalPreservada até fases avançadasPreservada, com queixa subjetiva
Nível de consciênciaAlterado (para mais ou para menos)NormalNormal
OrientaçãoFlutua no mesmo diaPerde-se progressivamentePreservada
PercepçãoAlucinação e ilusão frequentesAlucinação em fases tardiasIncomum, salvo depressão psicótica
Resposta ao estímuloNão sustenta a tarefaErra, mas tentaDiz “não sei” e acerta quando insiste
ReversibilidadeHabitual, tratando a causaNãoSim, com tratamento

Instrumentos de rastreio: onde usar e o que esperar de cada um

InstrumentoCenárioSensibilidadeEspecificidadeOrigem do número
CAM (versão em português)Pronto-socorro e enfermaria94,1%96,4%Fabbri et al., Arq Neuropsiquiatr 2001 — 100 idosos, Santa Casa de São Paulo
CAM e variantes (faixa internacional)Múltiplos46–94%63–100%SIGN 157, 2019 — Tabela 1; varia com o treinamento do aplicador
4ATEmergência e enfermaria; dispensa treinamento86–100%65–82%SIGN 157, 2019 — Tabela 1
CAM-ICU (versão brasileira)Terapia intensiva72,5%96,2%Gusmao-Flores et al., Clinics 2011 — 119 pacientes, 4 UTIs
ICDSC (versão brasileira)Terapia intensiva96,0%72,4%Gusmao-Flores et al., Clinics 2011 — mesma casuística

Gatilhos por categoria (Quadro 7 do Caderno de Atenção Domiciliar, MS 2013)

CategoriaO que procurar
MedicamentosAnticolinérgicos, quimioterápicos, benzodiazepínicos, opioides, sedativos e hipnóticos, corticoide, betabloqueadores, digitálicos, anti-histamínicos, antibióticos
Distúrbios metabólicosHidroeletrolíticos, hipo e hiperglicemia, tireoide, paratireoide, adrenal, hipófise, hipovitaminoses (B1, B6, folato, B12), hipóxia, febre
Doenças sistêmicasInsuficiência renal, hepática ou cardíaca, hipoxemia da DPOC, doenças neurológicas, alcoolismo e abstinência
Doenças estruturais do SNCMetástase, lesão cerebral, traumatismo craniano após queda, cerebrite actínica
InfecçõesSepse, meningite, encefalite, pneumonia, pielonefrite, celulite
As que a prova escondeRetenção urinária, fecaloma, dor, restrição física, sondas e cateteres, iatrogenia, isolamento social, ambiente novo, estresse cirúrgico

Fármacos para agitação intratável — doses do Quadro 8 (MS 2013) e o que vigiar

FármacoDose (mg)ViaO que vigiar
Haloperidol0,5–5VO, IM, EV, SCEfeito extrapiramidal; não combinar com fármacos que prolongam o QTc; evitar em Parkinson e em demência com corpos de Lewy
Risperidona0,5–3VOExtrapiramidal em doses altas, hipotensão, ganho de peso
Olanzapina2,5–20VO, SLSonolência, aumento do apetite, ganho de peso, boca seca, cefaleia, constipação
Lorazepam0,5–2VO, IM, EV, SLReação paradoxal; reservado à abstinência de álcool ou de benzodiazepínico

O CAM exige as características 1 e 2 mais a 3 ou a 4. Faltando a desatenção, não se fecha o diagnóstico por esse algoritmo, por mais desorganizado que esteja o discurso.

As doses do Quadro 8 são faixas para adulto; no idoso frágil a prescrição começa no piso da faixa, com reavaliação diária e suspensão em um a dois dias.

CAM-ICU negativo não afasta delirium em paciente de UTI com mudança aguda de comportamento: a sensibilidade da versão brasileira foi de 72,5%.

Ordem que o SIGN 157 impõe antes de qualquer exame de imagem: hipóxia, hipotensão, hipoglicemia, intoxicação ou abstinência.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Antipsicótico para tratar o delirium instalado

Caderno de Atenção Domiciliar do Ministério da Saúde (2013)

Traz, no item sobre delirium, um quadro de medicamentos “utilizados para controle de sintoma” com haloperidol 0,5–5 mg, risperidona 0,5–3 mg, olanzapina 2,5–20 mg e lorazepam 0,5–2 mg, com vias e efeitos adversos, sem restringir a prescrição ao sofrimento intratável nem estabelecer teto de duração. É o texto federal que descreve o manejo medicamentoso do delirium no Brasil.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderno de Atenção Domiciliar — Volume 2, 2013, item 7.4.1.8, Quadro 8.

SIGN 157 (2019)

Conclui que os antipsicóticos não reduzem gravidade, não resolvem sintomas nem alteram a mortalidade no cuidado agudo, e cita revisão Cochrane com ensaio em cuidado paliativo oncológico em que risperidona e haloperidol produziram escores de sintomas piores que placebo. Reserva a medicação a sofrimento intratável ou risco à segurança, com revisão diária e suspensão tipicamente em um a dois dias.

SIGN 157 — Risk reduction and management of delirium, 2019, seções 7.1 e 7.5.

Atualização focada PADIS/SCCM (2025)

Declara textualmente não ser possível emitir recomendação a favor ou contra o uso de antipsicóticos em comparação ao cuidado habitual para tratar delirium em adultos internados em UTI, com certeza de evidência baixa. No mesmo documento, sugere dexmedetomidina em vez de propofol quando sedação leve e redução de delirium são prioridades.

Crit Care Med 2025;53(3):e711–e727 — recomendações publicadas em aberto pela SCCM.

Na prova

A causa da diferença é a data e o cenário: o texto brasileiro é de 2013 e foi escrito para atenção domiciliar, antes dos ensaios e revisões que testaram desfecho clínico; os documentos internacionais são posteriores a essa evidência. Para farejar o recorte: vinheta de domicílio ou de atenção básica, ou citação nominal ao caderno do Ministério, puxa a tabela de fármacos; vinheta de UTI, com ventilação mecânica, sedação, CAM-ICU ou menção ao PADIS, puxa a régua da terapia intensiva. As alternativas também entregam — quando uma delas oferece “tratar a causa e medidas não farmacológicas” ao lado de doses de haloperidol, o enunciado está testando a hierarquia, não a posologia.

Qual instrumento usar para rastrear delirium

CAM em português, referenciado pelo Ministério da Saúde

O caderno federal indica o Confusion Assessment Method pela boa sensibilidade e especificidade e pela facilidade de aplicação, apoiado na validação brasileira de 2001 (sensibilidade 94,1%, especificidade 96,4% em idosos de pronto-socorro). Ressalva que o instrumento perde sensibilidade em quem já tem funcionalidade reduzida e se comunica mal.

Caderno de Atenção Domiciliar — Volume 2 (MS, 2013), citando Fabbri et al., Arq Neuropsiquiatr 2001.

4AT, do SIGN 157 (2019)

Recomenda o 4AT para identificar delirium provável em emergência e hospital de agudos, por dispensar treinamento específico, levar menos de dois minutos e servir também a quem tem demência. Na tabela do próprio guia, a sensibilidade relatada é de 86% a 100% e a especificidade de 65% a 82%, contra 46% a 94% e 63% a 100% do CAM e variantes, cuja variação o guia atribui à necessidade de treinamento.

SIGN 157, 2019, seção 3.1 e Tabela 1.

CAM-ICU ou ICDSC na terapia intensiva

As versões brasileiras validadas em quatro UTIs têm perfis opostos: CAM-ICU com sensibilidade 72,5% e especificidade 96,2%; ICDSC com sensibilidade 96,0% e especificidade 72,4%. O SIGN também restringe esses dois instrumentos ao ambiente de terapia intensiva.

Gusmao-Flores et al., Clinics 2011;66(11):1917–1922; SIGN 157, 2019, seção 3.1.

Na prova

A causa da diferença não é qualidade do instrumento, e sim quem aplica e onde: o CAM depende de treinamento, e o 4AT foi desenhado para dispensá-lo — mas o 4AT não entrou em documento brasileiro. Pistas de recorte: paciente sedado ou em ventilação mecânica coloca a questão no terreno do CAM-ICU e do ICDSC; enunciado brasileiro de pronto-socorro ou enfermaria costuma girar em torno do CAM e do seu algoritmo de quatro características; menção a “4 As Test”, a serviço britânico ou a protocolo escocês entrega a origem internacional do enunciado.

Contenção mecânica do idoso agitado: qual redação está valendo

Resolução COFEN nº 746/2024, vigente desde 20 de março de 2024

Estabelece que a contenção mecânica seja realizada quando for o único meio disponível para prevenir dano imediato ou iminente ao paciente ou aos demais; que a aplicação se dê sob supervisão direta do enfermeiro; que todo paciente contido seja monitorado pela equipe de enfermagem; e que razões, duração, avaliações e eventos adversos constem do prontuário. Acrescenta a exceção do atendimento pré-hospitalar móvel, em que o procedimento é feito com no mínimo cinco pessoas. Não repete intervalo numérico de checagem nem a lista de vedações da norma anterior.

Resolução COFEN nº 746, de 20/03/2024, arts. 1º a 4º.

Resolução COFEN nº 427/2012, revogada em 2024

Trazia a mesma regra do “único meio disponível”, mais três exigências que a norma nova não reproduz: monitoramento clínico de nível de consciência, dados vitais e condições de pele e circulação nos membros contidos, com regularidade nunca superior a uma hora, e rigor maior em idosos, crianças e pacientes sedados; vedação expressa da contenção com propósito de disciplina, punição, coerção ou por conveniência da instituição ou da equipe; e proibição de prolongá-la além do período estritamente necessário.

Resolução COFEN nº 427, de 7/05/2012, arts. 2º a 5º (revogada expressamente pela nº 746/2024).

Na prova

As duas redações convivem na prática: protocolos institucionais, provas antigas e material de cursinho ainda reproduzem o texto de 2012, e o intervalo de uma hora continua sendo o parâmetro operacional que a maioria dos serviços mantém. Pistas de recorte: enunciado que pede um número — de quanto em quanto tempo checar o paciente contido — só pode estar cobrando a redação de 2012; enunciado sobre quem supervisiona, quando a contenção é admitida e o que registrar em prontuário coincide nas duas; e enunciado que cite a resolução pelo número ou pelo ano entrega sozinho qual texto está sendo cobrado.

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Caso resolvido

Homem de 79 anos, com DPOC e hipertensão, internado há três dias por pneumonia adquirida na comunidade. A evolução da enfermagem registra “paciente calmo, dormindo bastante, aceitou pouco da dieta”. A filha procura a equipe: pela manhã ele não a reconheceu e não sabia que estava no hospital; à tarde conversou normalmente sobre o time de futebol. Ao exame: sonolento mas despertável, não consegue dizer os meses do ano de dezembro para janeiro, abandona a tarefa na terceira tentativa. Sem febre. Saturação de 88% em ar ambiente. Na prescrição das últimas 48 horas foram acrescentados dimenidrinato para náusea e zolpidem à noite; o oxigênio suplementar foi suspenso ontem.
achado
Mudança aguda em relação ao basal, relatada por informante confiável, com flutuação evidente no mesmo dia — manhã desorientado, tarde lúcido. Característica 1 do CAM presente.
achado
Desatenção objetivada à beira do leito: falha na sequência invertida dos meses. Característica 2 presente. Somada ao nível de consciência alterado (sonolento), fecha o CAM sem necessidade de pensamento desorganizado.
leitura
Perfil hipoativo — o mais comum entre idosos frágeis e o menos reconhecido pelas equipes, exatamente como descrito no caderno do Ministério da Saúde. A evolução da enfermagem descreveu o delirium como “paciente calmo”.
causa
Três gatilhos somados e todos corrigíveis: hipóxia (saturação de 88% após suspensão do oxigênio), anti-histamínico com ação anticolinérgica (dimenidrinato) e hipnótico (zolpidem). A pneumonia em si é o quarto. Não há indicação de tomografia de crânio neste momento — há causa suficiente identificada e nenhum sinal focal ou trauma.
conduta
Reinstalar oxigênio com alvo de saturação adequado à DPOC, suspender dimenidrinato e zolpidem, tratar náusea e insônia por outra via, manter o antibiótico, garantir hidratação, checar bexiga e padrão intestinal, trazer óculos e aparelho auditivo, abrir a janela durante o dia, permitir a permanência da filha. Nenhum antipsicótico: não há agitação, sofrimento intratável nem risco à segurança.
desfecho
Em 48 horas o paciente volta a sustentar atenção e reconhece a família. O diagnóstico de delirium é registrado na evolução e no sumário de alta, com orientação de reavaliação cognitiva ambulatorial alguns meses depois — nunca durante o episódio, que superestima o déficit.
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Agora feche você

Mulher de 82 anos, com diabetes tipo 2 e demência leve, internada há um dia por pielonefrite, em antibiótico endovenoso. Na primeira noite fica agitada, tenta sair do leito, retira o acesso venoso e grita com a equipe; pela manhã está sonolenta e desorientada, e à tarde conversa razoavelmente com a filha. Está com sonda vesical instalada na admissão “para controle de diurese”, recebeu escopolamina para dor abdominal e não está com os óculos nem com o aparelho auditivo, que ficaram em casa. Sem febre no momento, glicemia capilar 148 mg/dL, saturação 96%, pressão arterial 128/76 mmHg. A enfermagem solicita prescrição de haloperidol para a próxima noite.
achado
Início agudo com curso flutuante e desatenção, em paciente com demência prévia: delirium sobreposto à demência. A demência é o principal fator de risco, e não explica sozinha uma piora instalada em 24 horas.
achado
Gatilhos somados e removíveis: infecção em tratamento, sonda vesical de conveniência, escopolamina (anticolinérgico), privação sensorial por ausência de óculos e aparelho auditivo, ambiente novo e noite hospitalar. Hipóxia, hipoglicemia e hipotensão já foram afastadas à beira do leito.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Rotular de demência o quadro que começou ontem A vinheta dá a pista no tempo verbal — “há dois dias”, “desde a cirurgia”, “ontem à noite” — e o distrator oferece demência porque o paciente é idoso e já tinha esquecimentos. Demência não muda de patamar em 48 horas; a piora aguda sobre demência é delirium.
  2. 2Tratar a agitação e não o gatilho Prescrever antipsicótico faz o sintoma sumir e o problema continuar. Atrai porque resolve o incômodo da equipe e porque a tabela de doses existe em documento oficial — mas nenhum antipsicótico encurta o delirium, e a evidência mostra desfechos iguais ou piores que placebo.
  3. 3Só reconhecer o delirium que grita O hipoativo é o mais comum entre os frágeis e o menos reconhecido. Ele chega descrito como “paciente calmo, dormiu bem, come pouco” e é lido como depressão ou como “o idoso está cansado”. Sonolência nova com desatenção é delirium até prova em contrário.
  4. 4Benzodiazepínico para acalmar Parece intuitivo e piora a confusão, com risco de reação paradoxal e de queda. O benzodiazepínico é tratamento apenas quando a causa do delirium é abstinência de álcool ou do próprio benzodiazepínico — aí ele trata a causa, não o sintoma.
  5. 5Haloperidol no paciente com parkinsonismo Em doença de Parkinson e em demência com corpos de Lewy, o bloqueio dopaminérgico piora a rigidez e pode desencadear reação grave de sensibilidade a neurolépticos. Quando medicar é inevitável nesses pacientes, a escolha é a quetiapina.
  6. 6Pedir tomografia antes de examinar bexiga, reto e prescrição Imagem de crânio tem rendimento baixo no delirium e não muda a conduta quando já há causa identificada. Ela entra com trauma craniano, sinal focal novo, anticoagulação, rebaixamento persistente ou investigação inicial negativa — não como primeiro passo.
  7. 7Conter primeiro e pensar depois A restrição física está listada como causa de delirium no quadro do Ministério da Saúde, e a norma do Cofen a admite só como único meio disponível para prevenir dano imediato ou iminente, sob supervisão direta do enfermeiro e com registro em prontuário. Sonda vesical de conveniência tem o mesmo problema: adiciona um precipitante.
  8. 8Dar alta com o antipsicótico na receita e sem o diagnóstico no papel Antipsicótico iniciado na crise deve ser revisto diariamente e suspenso tipicamente em um a dois dias. E o diagnóstico de delirium precisa constar da evolução e do sumário de alta: sem esse registro, o próximo serviço recebe “idoso confuso” e reinicia toda a investigação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Início agudo, curso flutuante, desatenção e alteração do nível de consciência em idosa hospitalizada com infecção caracterizam delirium (correta), tipicamente desencadeado por fator orgânico (pneumonia). Alzheimer tem curso insidioso e progressivo, sem flutuação aguda da consciência. Depressão não cursa com desatenção flutuante e rebaixamento de consciência agudos. AVC daria déficit focal. Ansiedade não altera o nível de consciência nem a atenção desse modo agudo e orgânico.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite o CAM sem olhar: 1 (início agudo e curso flutuante) e 2 (desatenção) são obrigatórias, mais 3 (pensamento desorganizado) ou 4 (alteração do nível de consciência). Depois liste os cinco gatilhos que a prova mais esconde numa vinheta: fármaco recém-prescrito, retenção urinária, fecaloma, dor não verbalizada e hipóxia.

em 30 dias

Reconstrua a tabela delirium × demência × depressão pelos quatro eixos (instalação, curso no dia, atenção, nível de consciência) e explique em voz alta por que CAM-ICU negativo não afasta delirium na UTI — o número brasileiro é sensibilidade de 72,5%. Feche revisando a indicação estreita do antipsicótico: sofrimento intratável ou risco à segurança, menor dose, revisão diária, suspensão em um a dois dias.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Idosa de 84 anos, no segundo dia de pós-operatório de fratura de fêmur, é chamada pela enfermagem porque “está confusa e quer arrancar tudo”. A filha diz que a mãe mora sozinha, cuida da própria medicação e nunca foi assim. Reconheça a síndrome, encontre os gatilhos na prescrição e no exame físico e decida a conduta da noite. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.