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Clínica MédicaGeriatria

Polifarmácia e prescrição segura no idoso

A prova não pede a lista de Beers decorada: ela mostra um idoso com sintoma novo e testa se você procura a causa na própria receita — e se sabe que metade dos fármacos que as listas mandam evitar está de graça no Componente Básico da Rename.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 80 anos, com múltiplas comorbidades, faz uso crônico de 11 medicamentos. Na revisão, identifica-se um fármaco de alto risco anticolinérgico associado a maior chance de confusão, retenção urinária e quedas em idosos, listado como potencialmente inapropriado pelos critérios de Beers. Qual das medicações abaixo se enquadra nesse alerta e deve ser preferencialmente evitada nesse idoso?

02

Como esse tema cai

Ninguém decora as listas. Beers 2023 tem cinco tabelas, o STOPP/START versão 3 tem 190 critérios e o consenso brasileiro tem 118 — e nenhuma prova pede que você recite qualquer uma delas. O que a prova pede é outra coisa: uma vinheta com um idoso que caiu, que ficou sonolento, que confundiu-se ou que teve hipoglicemia, uma lista de medicamentos junto do enunciado, e a pergunta sobre o que fazer primeiro. Quem lê a lista de medicamentos como parte do exame físico acerta; quem lê como enfeite pede tomografia.

O segundo eixo é brasileiro e é o que separa o candidato que estudou o país do que estudou apenas a lista americana. Amitriptilina, clonazepam, diazepam, prometazina, dexclorfeniramina, biperideno, metildopa, glibenclamida, digoxina, clorpromazina e fenobarbital estão todos no Componente Básico da Rename 2024 — gratuitos, na farmácia da unidade básica, com receita renovável. São exatamente os fármacos que os três consensos mandam evitar em pessoas idosas. Prescrição segura no Brasil não é escolher entre a lista boa e a lista ruim: é saber o que fazer quando o que existe é o que a lista desaconselha.

E há o erro simétrico, que a prova cobra menos e o paciente paga igual: a omissão. O idoso com fibrilação atrial sem anticoagulante, o que teve fratura e não recebeu tratamento para osteoporose, o que tem insuficiência cardíaca e não recebeu a medicação que reduz internação. Reduzir a lista de medicamentos não é a meta. A meta é que cada linha da receita tenha indicação viva, dose certa para aquele rim e alguém responsável por revisá-la.

03

O que muda decisão

Cinco medicamentos: o número que abre a revisão, não o que condena

A definição mais usada é numérica e é essa que cai: polifarmácia é o uso de cinco ou mais medicamentos. A revisão sistemática de Masnoon e colaboradores rastreou 110 artigos e encontrou 138 definições diferentes do termo; o corte de cinco ou mais por dia apareceu em 46,4% delas, o que faz dele a convenção — não uma verdade fisiológica. Acima de dez medicamentos, a literatura usa hiperpolifarmácia ou polifarmácia excessiva. Onze estudos ainda acrescentam duração à conta, exigindo uso por 90 dias ou mais, o que é uma tentativa de separar o idoso que tomou antibiótico na semana passada do que carrega a mesma receita há anos.

No Brasil o número tem uso operacional, e é bom conhecê-lo: o Protocolo de Atenção à Saúde do Idoso da Secretaria de Saúde do Distrito Federal lista 'polifarmácia (5 ou mais medicamentos)' ao lado de 'polipatologia (5 ou mais diagnósticos)' entre os critérios que marcam a pessoa idosa que precisa de abordagem mais cuidadosa na unidade básica. O corte não é diagnóstico: é gatilho de revisão.

A dimensão do problema no país veio da PNAUM, o inquérito nacional do Ministério da Saúde. Entre os idosos, 93,0% usavam pelo menos um medicamento de uso contínuo e 18,0% usavam cinco ou mais. Esse 18% precisa de uma ressalva que a própria publicação faz: a contagem considerou os medicamentos de uso crônico vinculados às oito doenças crônicas investigadas pelo inquérito. Analgésico de balcão, colírio, laxante, fitoterápico e suplemento ficaram fora da conta — a polifarmácia real é maior que o número publicado, e é por isso que estudos municipais brasileiros chegam a proporções bem mais altas sem contradizer o inquérito nacional.

Existe polifarmácia apropriada, e não reconhecê-la é um erro tão grande quanto ignorar a inapropriada. Um idoso que infartou e usa antiagregante, estatina, inibidor da enzima conversora, betabloqueador e metformina tem cinco medicamentos e cinco indicações vivas. Na revisão de Masnoon, apenas sete dos 110 estudos separavam polifarmácia apropriada de inapropriada — a literatura conta comprimidos com muito mais facilidade do que julga indicações. Na prova, isso vira o distrator elegante: a alternativa que manda 'suspender medicamentos até restarem menos de cinco' está errada por princípio.

Por que o mesmo comprimido pesa mais aos 80

O envelhecimento muda o que o corpo faz com o fármaco e o que o fármaco faz com o corpo. Do lado da farmacocinética, quatro mudanças bastam para explicar quase toda a prova. A massa muscular cai, e com ela a produção de creatinina: a idosa magra e sarcopênica pode ter creatinina dentro da faixa de referência com filtração glomerular baixa, e receber dose plena de um fármaco de eliminação renal. A proporção de gordura corporal aumenta e a de água diminui, o que amplia o volume de distribuição dos lipossolúveis — o diazepam é o exemplo clássico, com meia-vida que se estende por dias e efeito que aparece na terceira noite, não na primeira. A albumina cai, elevando a fração livre dos fármacos muito ligados a proteína. E o metabolismo hepático de primeira passagem diminui, aumentando a biodisponibilidade de vários orais.

Do lado da farmacodinâmica, o sistema nervoso central fica mais sensível a sedativos e a anticolinérgicos, e o barorreflexo responde mais devagar — a mesma dose de anti-hipertensivo que não causa nada aos 45 anos produz hipotensão postural aos 80. Some-se a isso o que a própria polifarmácia faz: quanto mais fármacos com ação anticolinérgica somados, maior a carga total, e é a carga cumulativa, não cada item isolado, que se associa a queda, delirium e declínio cognitivo. A atualização de 2023 dos critérios de Beers ampliou justamente esse racional, orientando a considerar a carga anticolinérgica total na revisão periódica da receita e a não relaxar com o idoso 'jovem', na faixa dos 65 aos 75.

A regra prática que sai daí é 'comece baixo e suba devagar' — com uma segunda metade que quase sempre se esquece: até a dose efetiva. Prescrever meia dose para sempre não protege o idoso, apenas o expõe ao efeito adverso sem chance de benefício.

A cascata iatrogênica: quando o remédio novo trata o remédio velho

Cascata iatrogênica é a sequência em que um efeito adverso é lido como doença nova e ganha tratamento próprio. Ela é a espinha dorsal deste capítulo porque explica como listas de três medicamentos viram listas de onze sem que ninguém tenha errado sozinho: cada prescrição, isolada, parecia razoável.

A regra que desmonta a cascata cabe em uma frase: sintoma novo em pessoa idosa que toma muitos medicamentos é efeito adverso até prova em contrário. Antes de acrescentar um fármaco, procure na receita o que já está lá.

Os exemplos brasileiros usam fármacos do Componente Básico, o que os torna cenários realistas de unidade básica. Metoclopramida prescrita para 'má digestão' produz parkinsonismo medicamentoso, que é lido como doença de Parkinson e tratado com levodopa ou com biperideno — e o biperideno acrescenta confusão, boca seca e retenção urinária. Anti-inflamatório não esteroide para dor no joelho eleva a pressão e retém líquido, o que motiva mais um anti-hipertensivo. Anlodipino causa edema de tornozelo, que é lido como insuficiência cardíaca e tratado com furosemida, que produz incontinência e hipotensão. Prometazina ou dexclorfeniramina 'para alergia' produzem confusão noturna, que ganha um antipsicótico. Anticolinesterásico prescrito para demência aumenta a urgência urinária, que ganha um antimuscarínico — e os dois se anulam, sobrando os efeitos adversos dos dois.

O reconhecimento da cascata é o que a vinheta cobra. E a conduta é sempre a mesma: retirar o fármaco que iniciou a sequência, não acrescentar o que trata o sintoma dela.

Sequência horizontal de frascos de medicamento ligados por setas a sintomas, e cada sintoma levando a um novo frasco, com pessoa idosa sentada segurando uma receita.
A cascata iatrogênica: cada efeito adverso é lido como doença nova e ganha um medicamento próprio.

As três listas e o que cada uma resolve

Os critérios de Beers, mantidos pela Sociedade Americana de Geriatria, estão na atualização de 2023. Aplicam-se a adultos de 65 anos ou mais em ambiente ambulatorial, hospitalar e institucional, com exceção explícita de cuidados de fim de vida e hospice. Organizam-se em cinco tabelas: medicamentos potencialmente inapropriados de forma independente do diagnóstico; medicamentos inapropriados diante de certas doenças ou síndromes; medicamentos a usar com cautela; interações medicamentosas relevantes; e medicamentos cuja dose deve ser ajustada pela função renal. O próprio documento afirma que foi desenhado para os Estados Unidos e que outros países precisam adaptá-lo — a frase é do texto, não uma leitura nossa.

O que mudou de 2019 para 2023 vale a memória, porque é o tipo de atualização que a banca gosta. O ácido acetilsalicílico para prevenção primária saiu da tabela de 'usar com cautela' e passou para a de 'evitar', com a recomendação de não iniciar e de considerar desprescrever em quem já usa. A rivaroxabana passou de 'cautela' para 'evitar' no tratamento de longo prazo da fibrilação atrial não valvar e do tromboembolismo venoso, por risco maior de sangramento maior e digestivo que outros anticoagulantes orais diretos. A varfarina entrou como critério novo, com a orientação de não iniciá-la como terapia inicial nessas duas indicações. O critério das sulfonilureias, que antes atingia só as de ação longa, passou a valer para todas. E os opioides entraram no critério de delirium.

O STOPP/START, de origem europeia, está na versão 3, de 2023, e cresceu bastante: passou de 80 critérios STOPP e 34 START na versão 2 para 133 STOPP e 57 START, com seções novas de coagulação e de função renal. Sua contribuição exclusiva é o lado START — a lista de medicamentos que deveriam estar na receita e não estão. Nenhuma outra ferramenta explícita popular cobre a omissão.

O consenso brasileiro é da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, de 2016. Foi construído por técnica Delphi modificada em duas rodadas, com painel de dez especialistas, partindo dos critérios de Beers de 2012 e do STOPP de 2006 e adaptando-os ao que se prescreve no país. Chegou a 118 critérios: 43 independentes de condição clínica e 75 dependentes de condição ou doença. Cinco propostas não alcançaram consenso e ficaram de fora: o uso de ácido acetilsalicílico para prevenção primária de eventos cardiovasculares, a prescrição de insulina em escala móvel, o uso de alfabloqueadores, os estrógenos orais ou transdérmicos em idosas com incontinência urinária e os antidepressivos tricíclicos em quem tem retenção urinária.

As três são listas explícitas: rótulos aplicáveis sem examinar o paciente. Elas não sabem quanto aquele idoso sofre com a dor, o que ele já tentou, do que ele tem medo e o que ele quer. Nenhuma substitui a decisão compartilhada — Beers 2023 diz isso com todas as letras, ao pedir que os critérios sejam aplicados de modo a apoiar, e não a substituir, a decisão clínica compartilhada.

A farmácia brasileira entrega o que as listas mandam evitar

A Rename 2024, instituída pela Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024, é a lista do que o SUS oferece. No Componente Básico da Assistência Farmacêutica — o que chega à unidade básica — estão amitriptilina 25 e 75 mg, clonazepam solução oral, diazepam 5 e 10 mg e injetável, prometazina 25 mg comprimido e injetável, dexclorfeniramina 2 mg, biperideno 2 mg, 4 mg de liberação prolongada e injetável, metildopa 250 mg, glibenclamida 5 mg, digoxina 0,25 mg, clorpromazina, haloperidol, fenobarbital, metoclopramida e ibuprofeno. É a lista dos consensos, com o sinal trocado: o que se manda evitar é o que está disponível e é gratuito.

Isso não transforma a Rename em lista de erros. Cada um desses fármacos tem indicação legítima em alguém — o problema é o uso habitual, prolongado e sem revisão em pessoas idosas. Mas cria um dever prático que a prova brasileira cobra: saber a alternativa que também existe no SUS. Na sulfonilureia, a glibenclamida é o alvo do critério brasileiro pelo risco de hipoglicemia prolongada e grave, e a gliclazida de liberação prolongada está na mesma lista de financiamento — o protocolo nacional do diabetes tipo 2 já prefere a gliclazida no idoso. Na alergia, a loratadina consta do Componente Básico e não tem a carga anticolinérgica da prometazina e da dexclorfeniramina. No antidepressivo, a fluoxetina está no mesmo componente que a amitriptilina.

O detalhe de apresentação que vira questão é a digoxina. Os critérios de Beers e o consenso brasileiro convergem em não ultrapassar 0,125 mg por dia em pessoa idosa, pela queda da depuração renal e pelo risco de intoxicação. A Rename 2024 traz apenas o comprimido de 0,25 mg e o elixir de 0,05 mg/mL. A consequência prática é aritmética: meio comprimido por dia, ou o elixir, ou a dose de 0,25 mg em dias alternados — e a receita precisa dizer isso com clareza, porque 'digoxina 1 comprimido ao dia' entrega o dobro do teto recomendado.

Repare também que os critérios brasileiros pegam fármacos que a lista americana já não menciona. O biperideno e o triexifenidil abrem o Quadro 1 do consenso nacional, com o critério de não usá-los para tratar efeitos extrapiramidais de neurolépticos — exatamente o segundo degrau da cascata descrita acima.

Desprescrever é um procedimento, e tem técnica

Desprescrição não é 'cortar remédio'. É um procedimento com indicação, sequência, ritmo e seguimento — e a prova cobra o ritmo mais do que a indicação.

A primeira regra é a ordem: um fármaco de cada vez. Suspender três na mesma consulta impede saber o que melhorou e o que piorou, e transforma qualquer sintoma nos dias seguintes em enigma. A segunda regra é a prioridade: comece pelo que tem maior potencial de dano imediato e menor benefício demonstrável naquele paciente — sedativo, anticolinérgico e hipoglicemiante de ação longa costumam estar no topo. A terceira regra é o desmame: fármaco de uso prolongado com ação central raramente pode ser suspenso de uma vez.

Para os benzodiazepínicos, o TelessaúdeRS-UFRGS dá o esquema que serve de padrão brasileiro. Se o uso for inferior a seis meses, reduza cerca de 25% da dose a cada 14 dias, conforme tolerância. Se for superior a seis meses, reduza cerca de 10% da dose total a cada 14 dias. Em fármaco de meia-vida curta, troque antes por um de meia-vida mais longa e só então inicie a redução. O horizonte é de semanas, com sucesso maior quando a retirada se estende por até 12 semanas, sobretudo em doses altas; o calendário deve ser combinado com o paciente e pode ser flexibilizado. Não existe medicamento aprovado para tratar a dependência de benzodiazepínico: ansiedade e insônia que aparecem na retirada se avaliam e se tratam por conta própria, sem devolver a dose antiga por reflexo.

Para o inibidor da bomba de prótons, o consenso brasileiro é direto: descontinuar antes de oito semanas de uso, ou reduzir a dose, quando a indicação for tratamento, manutenção ou profilaxia de úlcera péptica, esofagite ou doença do refluxo. O racional citado é o risco de osteoporose e fratura, demência e comprometimento renal com o uso prolongado. Omeprazol que entrou 'para proteger o estômago' há quatro anos e nunca teve indicação registrada é o alvo mais fácil de qualquer revisão.

Fecha-se o procedimento com o que o torna seguro: registre no prontuário o que foi retirado e por quê, avise o paciente e a família do que pode aparecer na retirada, e marque retorno curto — duas semanas costumam bastar. E deixe claro o que não se desprescreve por causa do número: prevenção secundária com indicação viva não sai da receita para a lista ficar menor.

O outro erro: o que faltou na receita

Contar comprimidos leva a um viés previsível: o de achar que menos é sempre melhor. O lado START do STOPP/START existe justamente para corrigir isso — são 57 critérios de omissão na versão 3, ou seja, medicamentos que deveriam estar prescritos e não estão.

Os exemplos que a ferramenta usa são os que a prova também usa: anticoagulante na fibrilação atrial crônica e inibidor do cotransportador sódio-glicose 2 na insuficiência cardíaca sintomática, este último acrescentado na versão 3. A lógica é a mesma nos dois casos: existe tratamento com benefício demonstrado, o paciente tem a indicação, e a única razão pela qual ele não recebe é a idade ou o tamanho da receita.

Subtratamento e polifarmácia convivem no mesmo paciente com frequência desconfortável — o idoso com onze medicamentos que não usa o único com benefício de mortalidade para a doença que tem. A revisão de medicamentos, portanto, tem duas perguntas, não uma: o que sobra e o que falta.

A consulta que revisa a receita

A revisão começa por um dado que quase nunca está no prontuário: o que a pessoa realmente toma. Peça que traga tudo o que usa em uma sacola — caixas, cartelas, frascos, colírios, pomadas, chás, fitoterápicos, suplementos e o que compra sem receita. A diferença entre a lista do prontuário e o conteúdo da sacola é, com frequência, o diagnóstico do caso.

Para cada item, quatro perguntas resolvem quase tudo: quem prescreveu, para quê, desde quando, e ainda faz sentido hoje? Medicamentos que chegam de vários prescritores diferentes, sem que ninguém tenha a lista inteira, são a fonte clássica de duplicidade terapêutica — dois anti-inflamatórios, dois sedativos, dois anti-hipertensivos da mesma classe com nomes comerciais diferentes.

Pergunte também o que ele deixou de tomar por conta própria e por quê. A resposta costuma ser 'porque me deixava tonto' ou 'porque não tinha na farmácia' — as duas informações mudam a conduta, e nenhuma aparece se a pergunta não for feita. Adesão baixa em quem toma muitos comprimidos não é teimosia: é consequência previsível do número de horários, do custo do que não está na Rename e da falta de explicação sobre para que serve cada um.

04

A revisão de medicamentos em cinco passos

O roteiro abaixo é o que transforma uma lista de medicamentos em conduta. Ele serve tanto para a consulta de rotina na unidade básica quanto para a vinheta de prova, e a ordem importa: contar antes de julgar, e julgar antes de retirar.

  1. 11. Levante a lista real. Peça a sacola com tudo: receita, o que compra sozinho, colírio, pomada, fitoterápico e suplemento. Conte. Cinco ou mais é polifarmácia; dez ou mais, hiperpolifarmácia.
  2. 22. Ligue cada sintoma novo à receita antes de pensar em doença nova. Queda, sonolência, confusão, boca seca, constipação, retenção urinária, tontura ao levantar e hipoglicemia são a lista curta dos efeitos adversos que se disfarçam de envelhecimento.
  3. 33. Marque os potencialmente inapropriados. Anticolinérgicos somados, benzodiazepínicos, anti-histamínicos de primeira geração, antipsicóticos na demência, sulfonilureia de ação longa, AINE de uso crônico e digoxina acima de 0,125 mg/dia são os que mais aparecem em vinheta brasileira.
  4. 44. Cheque a função renal e as doses que dependem dela, e pergunte o que falta — anticoagulante na fibrilação atrial, tratamento da osteoporose depois da fratura, medicação da insuficiência cardíaca.
  5. 55. Retire um fármaco de cada vez, com desmame quando for de ação central, registre a decisão e marque retorno em duas semanas.

Até 4 medicamentos

Fora da definição numérica. Não dispensa a revisão: um único anticolinérgico pode explicar a queda.

5 a 9 — polifarmácia

O corte mais usado na literatura e o que a atenção básica brasileira adota como marcador de maior complexidade. Dispara a revisão completa da receita.

10 ou mais — hiperpolifarmácia

Faixa em que a carga anticolinérgica somada, a duplicidade terapêutica e a cascata iatrogênica são a regra, não a exceção.

Fármaco no Componente Básico da Rename 2024Por que é potencialmente inapropriadoAlternativa ou ajuste dentro do SUS
Amitriptilina 25 e 75 mgTricíclico com forte ação anticolinérgica: sedação, hipotensão postural, cardiotoxicidade e risco de deliriumFluoxetina, no mesmo componente, quando a indicação for depressão
Clonazepam solução oral; diazepam 5 e 10 mgBenzodiazepínicos aumentam risco de comprometimento cognitivo, delirium, quedas e fraturas; o diazepam é lipossolúvel e acumulaRetirar com desmame; medidas não farmacológicas para insônia
Prometazina 25 mg; dexclorfeniramina 2 mgAnti-histamínicos de primeira geração, entre os fármacos de maior carga anticolinérgicaLoratadina, no mesmo componente, quando houver indicação de anti-histamínico
Biperideno 2 mg, 4 mg de liberação prolongada e injetávelAntiparkinsoniano anticolinérgico; o critério brasileiro proíbe usá-lo para tratar efeito extrapiramidal de neurolépticoReduzir ou suspender o neuroléptico que causou o efeito, em vez de acrescentar o anticolinérgico
Glibenclamida 5 mgSulfonilureia com risco de hipoglicemia prolongada e grave no idosoGliclazida de liberação prolongada, também no Componente Básico e preferida no idoso pelo protocolo nacional do diabetes
Digoxina 0,25 mg comprimidoDepuração renal reduzida eleva o risco de intoxicação; o teto recomendado é 0,125 mg/diaMeio comprimido ao dia, elixir de 0,05 mg/mL, ou 0,25 mg em dias alternados — escrito por extenso na receita
Metildopa 250 mgAlfa-agonista de ação central: risco alto de efeitos no sistema nervoso central, bradicardia e hipotensão ortostáticaAnti-hipertensivo de primeira linha do próprio componente, conforme o perfil do paciente
Ibuprofeno 200 a 600 mgAINE de uso crônico eleva risco de sangramento digestivo, piora de função renal e retenção de líquidoAnalgésico simples, medidas não farmacológicas e uso pontual em vez de contínuo
Metoclopramida 10 mgBloqueio dopaminérgico central: parkinsonismo medicamentoso, primeiro degrau da cascata mais comumUso curto e por indicação definida; reavaliar antes de renovar a receita

As três listas explícitas: origem, tamanho e o que cada uma cobre

FerramentaOrigem e anoTamanhoO que tem de único
Critérios de BeersSociedade Americana de Geriatria, atualização de 2023Cinco tabelas (inapropriados; inapropriados por doença; usar com cautela; interações; ajuste renal)Estratifica por doença/síndrome e por interação; declara-se desenhada para os Estados Unidos e pede adaptação em outros países
STOPP/STARTEuropa, versão 3, de 2023133 critérios STOPP e 57 START (190 no total)Único que lista omissões — o que deveria estar prescrito e não está
Consenso brasileiro (CBMPI)Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 2016118 critérios: 43 independentes de condição e 75 dependentes de condição clínicaConstruído sobre Beers 2012 e STOPP 2006 com painel Delphi nacional, refletindo o que se prescreve no Brasil

Cascatas iatrogênicas com fármacos disponíveis na atenção básica

Fármaco inicialEfeito adverso lido como doença novaFármaco que costuma ser acrescentadoConduta correta
MetoclopramidaTremor, rigidez e marcha arrastada — 'Parkinson'Levodopa ou biperidenoSuspender a metoclopramida e reavaliar; não iniciar antiparkinsoniano
Anti-inflamatório não esteroidePressão arterial mais alta e edemaMais um anti-hipertensivo ou um diuréticoRetirar o AINE e reavaliar a pressão antes de mexer no anti-hipertensivo
AnlodipinoEdema de tornozelo — 'insuficiência cardíaca'FurosemidaReduzir a dose ou trocar o anti-hipertensivo; o edema do anlodipino não responde a diurético
Prometazina ou dexclorfeniraminaConfusão e agitação noturnasAntipsicóticoRetirar o anti-histamínico de primeira geração
Anticolinesterásico na demênciaUrgência urinária e incontinênciaAntimuscarínico (oxibutinina e afins)Rever a indicação de um dos dois; a associação anula efeitos e soma adversos

Doses que dependem da função renal — exemplos cobrados em prova

FármacoLimiarO que fazer
NitrofurantoínaDepuração de creatinina abaixo de 30 mL/minEvitar; evitar também em uso supressivo prolongado, por toxicidade pulmonar, hepática e neuropatia periférica
CiprofloxacinoDepuração abaixo de 30 mL/minReduzir a dose; risco maior de efeitos no sistema nervoso central e de ruptura de tendão
Sulfametoxazol-trimetoprimaDepuração de 15 a 29 mL/minReduzir a dose; evitar abaixo de 15 mL/min. Risco de hipercalemia, sobretudo com inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor de angiotensina
DigoxinaQualquer idoso; pior com doença renal crônica avançadaNão ultrapassar 0,125 mg/dia; considerar redução adicional nos estágios 4 e 5
EspironolactonaDepuração abaixo de 30 mL/min ou insuficiência cardíacaEvitar acima de 25 mg/dia pelo risco de hipercalemia, especialmente com AINE, inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor

As tabelas de ajuste de dose trabalham com depuração de creatinina em mL/min, que é a unidade das bulas e dos estudos de farmacocinética. O estadiamento da doença renal crônica usa outra medida — taxa de filtração glomerular estimada pela CKD-EPI, em mL/min/1,73 m². São ferramentas diferentes para perguntas diferentes; ver o capítulo de doença renal crônica.

Os critérios de Beers valem para 65 anos ou mais em qualquer cenário de cuidado, exceto hospice e fim de vida. O consenso brasileiro e a maior parte da legislação nacional usam 60 anos como marco da pessoa idosa: quando o enunciado apresenta alguém entre 60 e 64 anos, o corte da ferramenta citada muda a resposta.

Nenhuma dessas listas é lista de proibição. O termo é 'potencialmente inapropriado', e todas trazem exceções explícitas — benzodiazepínico segue apropriado em crise convulsiva, abstinência de álcool ou de benzodiazepínico e cuidados paliativos; anti-histamínico de primeira geração segue apropriado em reação alérgica grave.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que conta como polifarmácia

Definição numérica: cinco ou mais medicamentos de uso diário

É a definição mais frequente na literatura — apareceu em 46,4% dos 110 artigos revisados, contra 138 definições distintas encontradas ao todo. Acima de dez medicamentos, fala-se em hiperpolifarmácia ou polifarmácia excessiva. É a definição que a atenção básica brasileira operacionaliza: o protocolo do idoso da SES-DF usa 'cinco ou mais medicamentos' como critério de maior complexidade.

Masnoon N et al. BMC Geriatr. 2017;17:230; SES-DF, Protocolo de Atenção à Saúde do Idoso, 2018

Definição qualitativa: mais medicamentos do que as indicações justificam

Separa polifarmácia apropriada de inapropriada e olha para a indicação de cada item, não para o total. Só sete dos 110 estudos revisados faziam essa distinção, o que explica por que ela quase nunca aparece em estatística populacional — mas é a definição que sustenta a conduta, já que cinco fármacos todos indicados não pedem suspensão nenhuma.

Masnoon N et al. BMC Geriatr. 2017;17:230

Na prova

O enunciado denuncia qual definição está em jogo. Se ele entrega uma lista de medicamentos e pergunta como classificar o caso, ou se pede indicador epidemiológico, está no corte numérico. Se descreve a indicação de cada fármaco e pergunta a conduta, está no eixo qualitativo — e aí a alternativa que manda 'reduzir para menos de cinco medicamentos' é o distrator. Vinheta de unidade básica com estratificação de risco costuma usar o corte de cinco, que é o que o protocolo brasileiro operacionaliza.

Ácido acetilsalicílico em prevenção primária na pessoa idosa

Evitar iniciar e considerar desprescrever em quem já usa (Beers 2023)

O critério saiu da tabela de 'usar com cautela' e passou para a de 'evitar' na atualização de 2023, com qualidade de evidência alta e recomendação forte. O racional é que o risco de sangramento maior cresce acentuadamente com a idade e que os estudos sugerem ausência de benefício líquido e possibilidade de dano líquido quando o antiagregante é iniciado para prevenção primária no idoso. A recomendação segue a mesma direção da força-tarefa americana de serviços preventivos. Prevenção secundária, em quem já tem doença cardiovascular estabelecida, permanece indicada.

AGS Beers Criteria 2023, Tabela 2 e seção de mudanças desde 2019

Critério que não alcançou consenso no painel brasileiro (CBMPI 2016)

A proposta de classificar o uso de ácido acetilsalicílico para prevenção primária de eventos cardiovasculares como medicamento potencialmente inapropriado foi levada ao painel Delphi e não obteve consenso — está nominalmente entre os cinco critérios rejeitados. O documento brasileiro é de 2016 e partiu dos critérios de Beers de 2012 e do STOPP de 2006, antes da evidência que motivou a mudança americana. O consenso nacional mantém, isso sim, dois outros critérios sobre o fármaco: dose acima de 150 mg/dia e uso para tratar tonturas não atribuíveis a doença cerebrovascular.

Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, SBGG, 2016

Na prova

A causa da diferença é a data: sete anos separam os dois documentos e a evidência mudou no intervalo. O enunciado que cita nominalmente os critérios de Beers, ou que descreve idoso sem doença cardiovascular estabelecida em revisão de medicamentos com vocabulário de desprescrição, está no corpo americano de 2023. Enunciado que cita o consenso brasileiro ou que pergunta especificamente qual dose de ácido acetilsalicílico é inapropriada está no documento nacional de 2016. Repare que os dois concordam no essencial de sempre: prevenção secundária não entra nessa conversa.

Fármaco que sumiu da lista americana mas continua na farmácia brasileira

Retirado das tabelas por não existir no mercado americano ou por uso muito baixo (Beers 2023)

Pela primeira vez o painel considerou sistematicamente o padrão de uso nos Estados Unidos para decidir quais critérios manter. Metildopa e reserpina saíram por não estarem no mercado americano; dexclorfeniramina, clemastina e carbinoxamina saíram por uso muito baixo. O próprio documento afirma que essas retiradas não significam aprovar o uso desses fármacos, que seguem potencialmente inapropriados conforme a versão de 2019, e que países fora dos Estados Unidos podem precisar de atenção reforçada a eles, onde forem mais usados.

AGS Beers Criteria 2023, Tabela 8 e notas de rodapé

Mantidos como potencialmente inapropriados e disponíveis no SUS (CBMPI 2016 e Rename 2024)

O consenso brasileiro lista a metildopa entre os alfa-agonistas de ação central não recomendados para tratamento de rotina da hipertensão, pelo risco de efeitos no sistema nervoso central, bradicardia e hipotensão ortostática, e lista a dexclorfeniramina entre os anti-histamínicos de primeira geração a evitar. Os dois constam do Componente Básico da Rename 2024 — metildopa 250 mg em comprimido e dexclorfeniramina 2 mg em comprimido, solução oral e xarope.

Consenso brasileiro (SBGG, 2016) e Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024)

Na prova

A causa aqui não é evidência nem opinião: é mercado. O fármaco saiu da lista porque não se vende naquele país, não porque ficou seguro. Enunciado que descreve unidade básica, receita renovada há anos e fármaco gratuito está no mundo brasileiro, onde metildopa e anti-histamínico de primeira geração são realidade cotidiana; enunciado que pede 'segundo os critérios de Beers de 2023' e oferece esses fármacos entre as alternativas está testando se o candidato entendeu que a lista americana é geograficamente situada.

Qual medida de função renal ajusta a dose no idoso

Depuração de creatinina em mL/min, não indexada — a unidade das tabelas de ajuste de dose

A tabela de ajuste renal dos critérios de Beers 2023 é escrita inteiramente em depuração de creatinina: evitar nitrofurantoína abaixo de 30 mL/min, reduzir ciprofloxacino abaixo de 30, reduzir sulfametoxazol-trimetoprima entre 15 e 29 e evitar abaixo de 15. É a mesma unidade das bulas, porque os estudos de farmacocinética que definiram esses ajustes usaram depuração de creatinina como referência.

AGS Beers Criteria 2023, Tabela 6

Taxa de filtração glomerular estimada pela CKD-EPI, em mL/min/1,73 m² — a unidade do estadiamento

O protocolo nacional da doença renal crônica recomenda a CKD-EPI para estimar a filtração e desaconselha explicitamente a depuração de creatinina em urina de 24 horas e a fórmula de Cockcroft-Gault como método de estadiamento, por necessitar correção para superfície corpórea e por viés de correlação. Estadiar e ajustar dose são perguntas diferentes, e a mesma pessoa pode receber números diferentes em cada uma.

PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11/2024)

Na prova

A causa é o desenho e o cenário da ferramenta: uma responde 'em que estágio está este rim', a outra responde 'quanto deste fármaco este rim consegue eliminar'. Se o enunciado pede classificação, estágio ou encaminhamento à nefrologia, o eixo é o do estadiamento. Se pede se determinado antibiótico pode ser prescrito, ou qual a dose, o eixo é o do ajuste — e o valor aparecerá em mL/min, sem o 1,73 m². O detalhe que aproxima os dois na prática é o idoso magro e sarcopênico: creatinina dentro da faixa de referência com filtração baixa, situação em que ler a creatinina crua erra nas duas perguntas. Detalhes do estadiamento estão no capítulo de doença renal crônica.

06

Caso resolvido

Mulher de 79 anos é levada à unidade básica pela filha por duas quedas em três meses, a última há uma semana, sem fratura. A filha conta que a mãe 'dorme o dia inteiro' e reclama de boca seca e de intestino preso. Traz uma sacola com o que a mãe usa: enalapril 20 mg de 12 em 12 horas, hidroclorotiazida 25 mg pela manhã, glibenclamida 5 mg duas vezes ao dia, metformina 850 mg duas vezes ao dia, clonazepam em gotas à noite há oito anos, prometazina 25 mg à noite 'para alergia e para ajudar a dormir', omeprazol 20 mg pela manhã há quatro anos e ibuprofeno 600 mg comprado na farmácia quando o joelho dói, quase todos os dias. Pressão arterial deitada 138 x 80 mmHg e em pé, ao primeiro minuto, 108 x 64 mmHg. Glicemia capilar antes do almoço: 62 mg/dL. Creatinina 1,0 mg/dL.
achado
Oito medicamentos de uso contínuo: polifarmácia pelo corte numérico, e polifarmácia inapropriada pelo eixo qualitativo, porque pelo menos quatro itens não têm indicação viva. As quedas, a sonolência diurna, a boca seca e a constipação não são 'coisa da idade': são a soma de dois sedativos e de uma carga anticolinérgica relevante, com hipotensão postural documentada e hipoglicemia pré-prandial.
o que cada item explica
Clonazepam e prometazina somam sedação e risco de queda; a prometazina ainda responde pela boca seca e pela constipação, como anti-histamínico de primeira geração. A glibenclamida explica a glicemia de 62 mg/dL antes do almoço — sulfonilureia de ação longa é o item de maior risco de hipoglicemia prolongada no idoso. A queda de 30 mmHg na pressão sistólica ao levantar vem da combinação de dois anti-hipertensivos com diurético e com o efeito dos sedativos. O ibuprofeno quase diário eleva a pressão, retém líquido e ameaça a função renal e a mucosa gástrica. E a creatinina de 1,0 mg/dL numa idosa magra não autoriza tranquilidade: com pouca massa muscular, esse valor convive com filtração reduzida.
o que os critérios dizem
Benzodiazepínico para insônia é critério de evitar nos três consensos, com risco explícito de queda e fratura. Anti-histamínico de primeira geração está entre os fármacos de maior ação anticolinérgica das listas. A glibenclamida tem critério próprio no consenso brasileiro pela hipoglicemia prolongada e grave. O AINE de uso crônico tem critério nos três, agravado pela idade acima de 75 anos. O inibidor da bomba de prótons sem indicação registrada deveria ter sido descontinuado ou reduzido antes das oito semanas de uso.
conduta
Uma mudança de cada vez, começando pelo que dá mais dano e menos benefício. Primeiro: suspender a prometazina, que não tem indicação, e suspender o ibuprofeno de uso diário, oferecendo analgesia simples e medida não farmacológica para o joelho. Segundo: trocar a glibenclamida por gliclazida de liberação prolongada, disponível no mesmo componente da Rename e preferida no idoso, com meta glicêmica frouxa por causa das quedas. Terceiro: iniciar o desmame do clonazepam — uso de oito anos, portanto redução de cerca de 10% da dose a cada 14 dias, com horizonte de até 12 semanas e o esquema combinado com a paciente. Quarto: revisar a indicação do omeprazol e programar a suspensão. Reavaliar a pressão em pé depois de retirar os sedativos, antes de mexer no anti-hipertensivo.
seguimento
Retorno em duas semanas, com a família orientada sobre o que esperar na retirada — insônia de rebote e ansiedade nos primeiros dias do desmame do benzodiazepínico não indicam recaída nem justificam devolver a dose antiga. Registrar no prontuário o que saiu e por quê, para que outro prescritor não recoloque. E fazer a segunda pergunta da revisão: o que falta nessa receita?
07

Agora feche você

Homem de 76 anos vem à consulta acompanhado do filho. Há cerca de três meses usa metoclopramida 10 mg três vezes ao dia, prescrita em um pronto-atendimento por 'enjoo e má digestão', e a receita vem sendo renovada desde então. Nas últimas seis semanas a família notou tremor na mão direita quando ele está parado, lentidão para se levantar da cadeira e passos curtos e arrastados. O filho pergunta se é doença de Parkinson e conta que um conhecido sugeriu 'começar logo o remédio de Parkinson'. Não há rigidez em roda denteada relatada previamente, não houve alteração cognitiva aguda e o exame não mostra déficit focal. Usa ainda losartana 50 mg ao dia e sinvastatina 20 mg à noite.
achado
Parkinsonismo instalado semanas depois do início de um bloqueador dopaminérgico central, sem outro gatilho à vista. A metoclopramida é o primeiro degrau da cascata iatrogênica mais comum da atenção básica brasileira: o efeito adverso é lido como doença nova e a doença nova ganha tratamento próprio. O segundo degrau que se oferece aqui — levodopa ou biperideno — tem critério explícito contra: o consenso brasileiro abre o quadro dos medicamentos inapropriados independentes de condição clínica justamente com o uso de antiparkinsonianos anticolinérgicos para tratar efeito extrapiramidal de fármaco.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Ler os critérios de Beers como lista de proibição O nome do que está nas tabelas é 'medicamento potencialmente inapropriado', e o documento de 2023 pede expressamente que os critérios sejam aplicados de modo a apoiar, e não a substituir, a decisão clínica compartilhada. Cada critério traz exceções: benzodiazepínico segue apropriado em crise convulsiva, abstinência e cuidados paliativos; anti-histamínico de primeira geração segue apropriado em reação alérgica grave. A alternativa que diz 'está contraindicado em qualquer idoso' costuma ser a errada exatamente por esse excesso.
  2. 2Suspender três medicamentos na mesma consulta Parece eficiência e destrói a informação. Se o paciente melhora, você não sabe do quê; se piora, também não. Pior: retirada simultânea de fármacos de ação central mistura sintomas de abstinência e faz o paciente e a família concluírem que 'tirar remédio faz mal'. Um de cada vez, com retorno curto, é mais lento na consulta e mais rápido no resultado.
  3. 3Acrescentar um remédio para tratar o efeito de outro É a cascata inteira em uma frase. O que a torna sedutora é que cada passo isolado é defensável: o tremor existe, o edema existe, a confusão existe. O que denuncia a armadilha na vinheta é a cronologia — o sintoma novo apareceu depois do fármaco novo. Procure na receita antes de escrever na receita.
  4. 4Contar só o que está escrito no prontuário Anti-inflamatório comprado no balcão, colírio, laxante, chá, fitoterápico e suplemento não aparecem na lista do sistema e respondem por boa parte das interações. Pedir que o paciente traga tudo em uma sacola muda a conta e, com frequência, muda o diagnóstico. Vinheta que menciona en passant 'usa também um remédio para dor comprado na farmácia' está entregando o achado principal.
  5. 5Concluir que a função renal está boa porque a creatinina está normal A idosa sarcopênica produz pouca creatinina; o valor dentro da faixa de referência convive com filtração reduzida. É assim que se prescreve dose plena de antibiótico de eliminação renal a quem não consegue eliminá-lo. Estime a filtração antes de decidir dose — e lembre que a unidade das tabelas de ajuste é depuração de creatinina em mL/min, diferente da usada no estadiamento da doença renal crônica.
  6. 6Suspender o benzodiazepínico de uma vez Uso prolongado exige desmame: cerca de 25% da dose a cada 14 dias se o uso for inferior a seis meses, cerca de 10% a cada 14 dias se for superior, trocando antes a meia-vida curta por longa. A suspensão abrupta produz tremor, ansiedade, agitação, insônia, irritabilidade e, no limite, convulsão — quadro que o paciente e a família leem como prova de que 'ele precisa do remédio'.
  7. 7Deixar o inibidor da bomba de prótons para sempre porque 'não faz mal' O critério brasileiro é explícito: descontinuar antes de oito semanas, ou reduzir a dose, nas indicações de tratamento, manutenção ou profilaxia de úlcera péptica, esofagite e refluxo. O racional citado é o risco de osteoporose e fratura, demência e comprometimento renal com uso prolongado. É o item mais fácil de qualquer revisão, e o mais esquecido.
  8. 8Cortar prevenção secundária para 'diminuir a lista' Desprescrição não é meta numérica. Retirar antiagregante de quem já infartou, anticoagulante de quem tem fibrilação atrial ou o tratamento da insuficiência cardíaca para chegar a menos de cinco medicamentos troca um risco medicável por um risco maior. O outro lado da mesma armadilha é a omissão: o STOPP/START dedica 57 critérios ao que deveria estar prescrito e não está.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A amitriptilina é um antidepressivo tricíclico com forte efeito anticolinérgico, associado a confusão, retenção urinária, sedação e quedas, sendo potencialmente inapropriada em idosos pelos critérios de Beers (correta). Enalapril, metformina, levotiroxina e AAS não têm ação anticolinérgica relevante e não constam como inapropriados por esse mecanismo; podem exigir ajuste em situações específicas, mas não pelo risco anticolinérgico descrito.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os três números da contagem: cinco ou mais é polifarmácia, dez ou mais é hiperpolifarmácia, e no inquérito nacional 18,0% dos idosos brasileiros estavam no primeiro grupo, com 93,0% usando pelo menos um medicamento contínuo. Depois diga em voz alta o esquema de desmame do benzodiazepínico (25% a cada 14 dias abaixo de seis meses de uso, 10% a cada 14 dias acima de seis meses) e o teto da digoxina no idoso (0,125 mg/dia, com comprimido brasileiro de 0,25 mg). Por fim, liste cinco fármacos potencialmente inapropriados que estão no Componente Básico da Rename 2024.

em 30 dias

Pegue três vinhetas de idoso com sintoma novo e, antes de olhar as alternativas, escreva a lista de medicamentos do enunciado e marque nela o provável culpado. Depois classifique o recorte de cada questão: ela cobra a definição numérica, o reconhecimento da cascata, o ajuste por função renal ou a omissão? E treine a pergunta dupla da revisão — o que sobra e o que falta — em cada uma delas.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Idosa de 79 anos chega à unidade básica levada pela filha após duas quedas em três meses, com sonolência diurna, boca seca e constipação. Traz uma sacola com oito medicamentos de uso contínuo, entre eles um benzodiazepínico há oito anos, um anti-histamínico de primeira geração para dormir e uma sulfonilureia de ação longa. Você tem a consulta inteira para descobrir o que na receita explica os sintomas e decidir o que sai primeiro. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Polifarmácia e prescrição segura no idoso — Preparatório para provas | OsceLabs