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Torção anexial: o aspecto do ovário não decide a ressecção

O protocolo nacional chama a torção de emergência cirúrgica e nomeia só o tratamento que retira o anexo. A opção conservadora fica sem nome.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos é levada ao centro cirúrgico por dor pélvica aguda. Uma tomografia de abdome havia sido solicitada por suspeita de apendicite. Quais achados tomográficos descritos no protocolo brasileiro de abdome agudo em ginecologia sustentam a hipótese de torção anexial?

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Como esse tema cai

Uma mulher em idade reprodutiva chega ao pronto-socorro com dor pélvica de instalação súbita, unilateral e intensa, náusea, vômito e uma imagem de anexo aumentado. A pergunta que a leva à sala não é se aquela massa é maligna: é se o pedículo está torcido. E, aberta a cavidade, vem a segunda decisão, que tem duas saídas de consequência oposta — desfazer o nó e deixar o ovário onde está, ou retirar o anexo. Este capítulo trata desse par de decisões, e do intervalo curto em que elas ainda mudam alguma coisa.

A fronteira com os vizinhos é estreita e vale dizê-la de uma vez. A massa anexial que não dói, a avaliação de risco de malignidade, o marcador sérico, o índice de risco e a decisão de encaminhar ao oncologista pertencem ao capítulo de câncer de ovário e massa anexial. Dor pélvica com febre, corrimento e dor à mobilização do colo é doença inflamatória pélvica. Atraso menstrual com teste positivo e imagem anexial é gravidez ectópica. Dor cíclica com cisto de conteúdo homogêneo em vidro fosco é endometrioma, e mora no capítulo de endometriose. O que sobra, e é o assunto daqui, é o anexo que torceu.

O motivo de o assunto existir está escrito no protocolo brasileiro de abdome agudo em ginecologia, com números modestos e um verbo forte: a prevalência anual da torção anexial é de aproximadamente dois a seis por cento, estima-se que até três em cada cem mulheres com dor abdominal aguda atendidas em emergência tenham torção, e o documento a classifica como emergência cirúrgica. Raro o bastante para não estar na cabeça de quem atende, frequente o bastante para aparecer no plantão, e urgente o bastante para que a demora custe uma gônada.

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O que muda decisão

A torção é do pedículo — e é por isso que o ovário sadio também torce

O protocolo de sociedade abre a definição pela anatomia, e a escolha não é decorativa: a torção anexial ocorre quando o ovário e a tuba uterina se torcem no eixo criado entre o ligamento infundíbulo-pélvico e o ligamento útero-ovariano. O que gira, portanto, não é o ovário sobre si mesmo: é o pedículo que o suspende entre dois pontos fixos. Dentro dele correm os vasos ováricos, e é o estrangulamento deles, e não a doença do ovário, que produz o quadro.

A consequência prática é imediata e costuma ser esquecida à beira do leito. Se o que torce é o eixo, qualquer coisa que aumente o peso e o volume da extremidade aumenta o risco — um cisto funcional, um teratoma, um ovário estimulado por indução de ovulação — mas nada disso é condição necessária. Ovário de aspecto normal também torce, e a série adulta de referência mostra isso ao registrar cistos simples entre os achados histológicos mais comuns das peças. Esperar por uma massa grande para pensar em torção é o modo mais previsível de perder o diagnóstico na adolescente com ovário apenas discretamente aumentado.

O eixo tem um lado preferido. Na série de quase uma centena de torções confirmadas cirurgicamente, o acometimento foi direito em cerca de três de cada cinco casos, e o próprio artigo registra que esse predomínio é achado repetido na literatura. A explicação corrente é mecânica: à esquerda, o sigmoide ocupa espaço e limita a mobilidade do anexo. O ganho clínico dessa assimetria é modesto, mas real — dor em fossa ilíaca direita numa mulher jovem tem, no diferencial, uma causa ginecológica que compete com a apendicite.

Por fim, o eixo explica a apresentação intermitente. A torção parcial se desfaz sozinha e produz episódios de dor forte que passam e voltam ao longo de dias ou semanas. A mulher que já esteve duas vezes no pronto-socorro com dor que cedeu antes da avaliação não é uma mulher sem doença: é uma mulher cujo pedículo torce e destorce, e que pode chegar da terceira vez com o nó apertado. Diante desse relato, a avaliação por imagem e a discussão cirúrgica não esperam o próximo episódio.

Desenho esquemático do útero com o ovário e a tuba de um lado, suspensos entre o ligamento infundíbulo-pélvico e o ligamento útero-ovariano, com os vasos ováricos correndo dentro do pedículo e uma seta curva indicando a rotação desse eixo.
O eixo de suspensão do anexo: o ovário e a tuba ficam pendurados entre dois pontos fixos, e é esse pedículo, com os vasos ováricos dentro, que gira. Como o que torce é o eixo, e não o ovário sobre si mesmo, um ovário de aspecto normal também pode torcer — a massa aumenta o peso da extremidade, mas não é condição necessária.

O relógio corre por dentro: primeiro a veia, depois a artéria

A sequência do dano explica quase tudo o que se vê e quase tudo o que se decide. O pedículo torcido comprime primeiro as estruturas de parede fina e pressão baixa — as veias e os linfáticos. O sangue continua entrando pela artéria, de parede espessa e pressão alta, e deixa de sair. O ovário incha, fica túrgido e roxo, e o próprio edema aperta ainda mais o pedículo. Só depois disso, e nem sempre, o fluxo arterial cessa.

Duas consequências saem daí, e as duas caem na prática. A primeira é que o ovário torcido pode ter fluxo arterial presente, o que arruína a leitura ingênua do exame de imagem. A segunda é que o aspecto macroscópico, na hora da cirurgia, é sobretudo o retrato da congestão venosa, e congestão venosa é, por definição, um estado reversível quando o obstáculo sai. A cor escura do ovário é o efeito do nó, não a prova da morte do tecido.

A anatomia vascular ajuda a explicar por que a janela é mais generosa do que a do testículo, com quem o quadro é sempre comparado. O ovário recebe sangue por duas fontes: a artéria ovárica, que desce do abdome pelo ligamento infundíbulo-pélvico, e o ramo ovárico da artéria uterina, que sobe pelo ligamento útero-ovariano. Uma torção do eixo pode comprometer uma via e poupar parcialmente a outra, o que sustenta a viabilidade por mais tempo do que a intuição sugere. Isso não autoriza demora — autoriza otimismo cirúrgico depois dela.

O relógio, porém, é real. Congestão prolongada leva a infarto hemorrágico, que é justamente o achado histológico mais frequente nas peças da série adulta. Quando a peça volta assim, a leitura correta não é apenas que o ovário estava morto: é que aquele ovário chegou tarde à sala. O intervalo entre a dor e a operação é a única variável do quadro que a equipe controla, e é sobre ela que a decisão de operar sem certeza diagnóstica se justifica.

Onde mora o diagnóstico: dois documentos brasileiros, dois endereços

O protocolo de sociedade é explícito quanto ao endereço: o diagnóstico de torção anexial é basicamente clínico, e pode ser auxiliado por achados laboratoriais e de imagem, já que os sinais e sintomas são comuns a vários outros diagnósticos. A palavra que carrega a frase é auxiliado. O gatilho, no mesmo documento, é uma tríade de história: dor unilateral intensa de instalação aguda, massa dolorosa em topografia de anexo, náuseas e vômitos.

O ensaio brasileiro de imagem coloca o diagnóstico noutro lugar. Ele afirma que, em geral, o quadro é bem definido pela ultrassonografia associada ao Doppler, e reserva a tomografia e a ressonância a três situações nomeadas: quadro clínico sugestivo de outras causas de dor abdominal, impossibilidade de realizar a ultrassonografia — o exemplo dado é a via endovaginal em pacientes virgens — ou resultado inconclusivo. Nesse arranjo, a imagem não auxilia: ela decide.

A diferença não é retórica, porque as duas leituras terminam em condutas opostas diante do mesmo exame. Se o diagnóstico é clínico e a imagem auxilia, uma ultrassonografia com fluxo presente numa mulher com a tríade completa não afasta nada, e a paciente vai para a sala. Se o diagnóstico se fecha pela ultrassonografia com Doppler, o mesmo exame autoriza observar. O documento que resolve o impasse é a série cirúrgica: nela está escrito que, havendo suspeita clínica forte, a avaliação cirúrgica do anexo é recomendada mesmo que os achados do Doppler não a sustentem.

A síntese que serve ao plantão é assimétrica, e vale escrevê-la assim: a imagem confirma bem e exclui mal. Achado sugestivo empurra para a sala; achado normal não segura a paciente em observação. Quem trabalha com a régua contrária — esperar o exame trazer a certeza — está pedindo à ultrassonografia uma resposta que só a inspeção do pedículo dá, e paga essa espera em tempo de isquemia.

O que a imagem mostra, e a frase que impede a alta

Vale saber o que o exame descreve, porque o laudo raramente escreve a palavra torção. O protocolo lista, na ultrassonografia pélvica associada ou não ao Doppler, quatro achados comuns: massa ovariana, aumento unilateral do ovário, líquido livre em fundo de saco posterior e estruturas císticas periféricas uniformes. Esse último merece tradução, porque é o mais característico e o mais mal lido: são os folículos empurrados para a periferia pelo edema do estroma, o ovário com coroa de pequenos cistos.

Para a tomografia e a ressonância, o mesmo documento lista outros quatro: espessamento das tubas uterinas, espessamento da parede do cisto ovariano, ascite e desvio uterino em direção ao anexo torcido. Os dois primeiros são o edema da própria estrutura torcida; a ascite é o transudato da congestão; e o desvio uterino descreve o útero puxado pelo pedículo encurtado pela rotação. Reconhecer esses quatro num laudo pedido por suspeita de apendicite é o que faz o caso mudar de especialidade.

O que nenhuma dessas listas contém é um critério de exclusão. Nenhum dos achados é obrigatório, e a ausência de todos não afasta o quadro numa mulher com a tríade clínica. É por isso que a frase da série cirúrgica funciona como trava: suspeita clínica forte manda avaliar o anexo cirurgicamente ainda que o Doppler não apoie. Numa jovem com dor súbita, unilateral e vômitos, o exame normal não é alta — é indicação de reavaliar em curto intervalo, com a laparoscopia como método de diagnóstico, e não apenas de tratamento.

Há um efeito colateral útil nessa ordem de raciocínio. Como a imagem entra para confirmar e não para excluir, ela deixa de ser motivo de espera. A paciente com suspeita alta não fica aguardando vaga de ressonância; é avaliada com o exame disponível e, se a dúvida persiste, vai para a inspeção. Trocar horas de fila de imagem por uma laparoscopia diagnóstica é, aqui, a decisão que preserva função ovariana.

A palavra que o protocolo não escreve

A frase de tratamento do protocolo brasileiro é curta e merece ser lida devagar: a torção anexial é uma emergência cirúrgica e existem opções conservadoras e definitivas para o tratamento; a idade, o desejo de fertilidade futura, a menopausa e a evidência de doença ovariana são fatores a considerar na escolha; o tratamento definitivo inclui a salpingectomia e/ou ooforectomia, e o método mais comumente utilizado é a laparoscopia. O documento anuncia duas famílias de conduta e nomeia apenas uma.

A opção conservadora fica sem nome, e a redação atravessa duas edições do mesmo protocolo praticamente inalterada. Quem estuda por ele sai com a impressão correta de que existe algo a conservar, e sem nenhuma régua para fazê-lo. O nome que falta é destorção: desfazer o nó do pedículo e deixar ovário e tuba no lugar. É esse o ato que a mulher jovem com torção precisa que o cirurgião conheça, e é ele que muda o desfecho reprodutivo do episódio.

Do outro lado da mesma federação, o documento de posição sobre massa anexial escreve a regra geral que o protocolo de urgência não aplica: a remoção sistemática de ovários em doenças ovarianas benignas deu lugar para cirurgias com conservação das gônadas, e a cirurgia minimamente invasiva deve ser a via de escolha em massas anexiais benignas. Esse documento, porém, não trata da urgência. A régua da conservação e a régua da emergência foram escritas em papéis diferentes e nunca se encontraram.

Ler as duas frases como contradição seria apressado, e é bom dizer por quê: foram escritas por comissões diferentes, para populações diferentes — a massa benigna de cirurgia programada de um lado, a dor aguda do plantão de outro. Não se contradizem; deixam um vão. E o vão se preenche pela lógica que governa qualquer tecido isquêmico por obstáculo mecânico: retira-se o obstáculo primeiro, e só depois se julga o que sobrou. Na prática, entra-se por laparoscopia, destorce-se o pedículo e reserva-se a ressecção para o que a inspeção posterior não recuperar.

Destorcer: o ato, e o que se olha depois de desfeito o nó

A operação começa pela via. O próprio protocolo registra que o método mais comumente utilizado é a laparoscopia, e o documento de massa anexial põe a via minimamente invasiva como escolha na doença benigna. Ela serve aqui a três funções ao mesmo tempo: confirma o diagnóstico que nenhum exame confirmou, permite o gesto terapêutico e evita a incisão que a mulher jovem carregaria por causa de um episódio de horas.

O gesto é simples de descrever e exige disciplina para ser executado: desenrolar o pedículo no sentido inverso, sem tracionar, até que ovário e tuba voltem à posição anatômica. Feito isso, espera-se. O anexo recém-destorcido está congesto, escuro e edemaciado, e o que se observa nos minutos seguintes é a mudança de coloração e o retorno do turgor. Nenhuma dessas mudanças é imediata, e ressecar no primeiro minuto após a destorção é decidir antes de o tecido ter tido chance de responder.

A série pediátrica descreve o que o cirurgião faz nesse tempo: a destorção pode ser isolada, ou vir acompanhada de gestos adjuvantes sobre a lesão que causou o peso — cistectomia, fenestração, ressecção em cunha, exérese de cisto paraovariano —, e pode ainda ser combinada à fixação do ovário. As três combinações mais frequentes concentram quase metade dos casos, e a mais comum é destorção com cistectomia. Nenhuma dessas condutas implica retirar o ovário.

Há um cuidado técnico que muda o resultado e quase nunca é lembrado: o anexo destorcido não deve ser manipulado além do necessário. O tecido está friável, a cápsula se rompe com facilidade e a hemostasia num ovário congesto custa parênquima. Quem desenrola, inspeciona, decide o mínimo e sai preserva mais do que quem tenta resolver tudo com um ovário ainda encharcado.

O aspecto do ovário não prediz a função que volta

Este é o ponto que organiza o assunto inteiro, e está escrito com todas as letras no estudo de padrões de manejo: os ovários resgatados, em sua maioria, recuperam viabilidade e função depois da destorção, qualquer que seja o aspecto intraoperatório. A frase é a tradução cirúrgica da fisiopatologia da seção anterior — o roxo é congestão venosa, e congestão venosa se resolve quando o pedículo é desfeito.

A consequência é desconfortável para quem opera, porque exige agir contra a evidência dos olhos. O cirurgião que encontra um anexo arroxeado, quase negro, sem brilho, tem diante de si a imagem clássica do tecido perdido — e ela é enganosa neste território. A régua não é o aspecto: é o mecanismo. O que se pergunta não é como o ovário está, e sim se o obstáculo que o deixou assim já foi removido. Removido o nó, o ovário fica, e o julgamento definitivo se faz depois.

Os números mostram que essa disciplina se distribui de modo desigual. No estudo de crianças e adolescentes, procedimentos que poupam o ovário responderam por mais de três quartos dos casos, contra menos de um quarto de ooforectomias. Na série de mulheres adultas de um centro terciário a proporção se inverte: a destorção isolada ficou na casa de um sexto dos procedimentos, e a soma de salpingo-ooforectomia e anexectomia respondeu pela grande maioria. Mesma doença, mesmo pedículo, condutas opostas.

Antes de acusar a série adulta, é preciso fechar a comparação com honestidade. São populações e desenhos diferentes: um centro terciário recebe massas maiores e casos encaminhados depois de horas de evolução, e a própria série registra ovários de tamanho médio bem acima do normal. Ainda assim, a mesma publicação escreve que o objetivo do tratamento, sobretudo em adolescentes e mulheres jovens, é restaurar a função do anexo pela destorção e preservar a reserva ovariana. Diante da adolescente com o pedículo desfeito na tela, portanto, o que o cirurgião faz é o que as duas publicações recomendam e apenas uma delas praticou: deixa o ovário e marca a reavaliação.

O cisto que veio junto: tirar agora, esvaziar ou marcar para depois

Quase sempre existe uma lesão que explica o peso da extremidade, e ela cria um segundo problema no mesmo tempo cirúrgico. Fazer a cistectomia num ovário recém-destorcido significa dissecar um plano entre cápsula e parênquima que o edema apagou, com sangramento difuso e risco de retirar córtex sadio junto. Adiá-la significa deixar no lugar a causa mecânica da torção, com risco de recidiva. Nenhuma das duas saídas é gratuita.

As opções documentadas na prática são três. A primeira é a cistectomia no mesmo tempo, que o estudo de padrões de manejo mostra ser a combinação mais frequente com a destorção. A segunda é a fenestração — abrir e esvaziar o cisto sem descolar toda a cápsula —, também registrada como gesto adjuvante que poupa o ovário e resolve o volume sem exigir plano de dissecção. A terceira é sair sem tocar na lesão e programar a abordagem eletiva, com o ovário desinchado.

Aqui entra a regra do outro documento da federação, que precisa ser lida com a variável certa na mão: o extravasamento do conteúdo do cisto deve ser evitado no pré e no intraoperatório, porque a avaliação pré e intraoperatória não exclui a malignidade em absoluto; e, em caso de dúvida, para preservar o ovário, recomenda-se remover apenas a massa sem ruptura ou extravasamento na cavidade. Essa regra foi escrita para a massa suspeita de cirurgia programada, não para o anexo torcido de uma adolescente — e é a suspeita de malignidade, não o simples fato de haver um cisto, que a aciona.

O que se faz, então, é decidir pela combinação de duas perguntas: qual o risco de malignidade da lesão e qual a condição do ovário depois de desfeito o nó. Lesão de aspecto benigno em mulher jovem, ovário muito edemaciado: destorce, esvazia ou deixa, e reavalia por imagem em algumas semanas. Lesão com achados de suspeita: não se rompe, não se esvazia, retira-se inteira. A pergunta da malignidade não desaparece na urgência — só deixa de ser a primeira.

Quando conservar deixa de ser a resposta

A conservação é a regra, e regra sem exceção nomeada vira dogma. A primeira exceção é anatômica: o ovário que se desfaz ao ser manipulado, sem parênquima reconhecível, não é conservável. A série adulta registra o infarto hemorrágico como achado histológico mais comum das peças retiradas, o que descreve exatamente esse extremo — o anexo que chegou tarde demais para responder à destorção.

A segunda exceção é a suspeita de malignidade, e ela tem endereço etário. A mesma publicação escreve que, nas situações em que a malignidade é suspeitada, como na mulher na pós-menopausa, a ooforectomia deve ser realizada. A lógica é a que governa a avaliação da massa anexial: ali o ovário conservado rende pouco em função hormonal e reprodutiva, e a probabilidade de doença maligna sobe. Conservar, nesse caso, é assumir risco sem contrapartida.

A terceira exceção é a própria lista de fatores do protocolo brasileiro: idade, desejo de fertilidade futura, menopausa e evidência de doença ovariana. Traduzidos para a decisão de sala, esses quatro dizem que a força do argumento conservador é máxima na criança, na adolescente e na mulher jovem com desejo reprodutivo, e diminui à medida que a idade sobe, o desejo de gestar desaparece e a lesão ganha características de doença estabelecida.

Um cuidado fecha a lista, e é obrigatório sempre que o anexo sai: a peça vai para exame histopatológico. A série adulta é explícita ao registrar que esse exame é essencial para excluir de forma definitiva a possibilidade de malignidade — e é ela também que mostra como a suspeita raramente se confirma, com uma única lesão de baixo potencial maligno entre quase cem torções operadas. Retirar por suspeita e não examinar a peça é ficar com o pior arranjo: a mulher perdeu o ovário e continua sem resposta.

Depois da destorção: a recidiva, a fixação e a conversa que sobra

O episódio não termina no centro cirúrgico, e a primeira pergunta do pós-operatório é se aquilo volta a acontecer. A torção recidiva quando o fator mecânico permanece: ovário grande, ligamento útero-ovariano longo, lesão cística deixada no lugar. Quando a destorção foi isolada e nada mais se fez, a mulher sai da sala com o mesmo pedículo que torceu na véspera.

É desse raciocínio que nasce a ooforopexia — a fixação do ovário, que o estudo de padrões de manejo registra como uma das opções cirúrgicas ao lado da destorção isolada, da cistectomia e da ooforectomia. Fixar ancora o eixo que permite a volta. A conduta não é automática: entra na conversa quando há recidiva documentada, quando a torção ocorreu em ovário sem lesão aparente e quando a paciente é criança ou adolescente, faixa em que a perda gonadal tem o custo mais longo.

A segunda pergunta do pós-operatório é sobre a lesão deixada para trás. Se o cisto ficou, a paciente sai com uma data — reavaliação por imagem depois de algumas semanas, com o ovário já desinchado, para decidir com calma sobre uma lesão que agora pode ser medida e caracterizada sem o edema por cima. Marcar essa reavaliação faz parte da operação; a alta sem ela transforma conservação em abandono.

A terceira é a conversa. A mulher que acaba de perder um ovário quer saber se ainda pode engravidar, e a resposta honesta é que a fertilidade com um ovário remanescente e uma tuba pérvia se mantém, embora a reserva total caia. A que saiu com o ovário conservado quer saber se ele funciona, e a resposta apoiada nos documentos é que a maioria dos ovários resgatados recupera função, com controle por imagem. Nos dois casos, a frase que não se diz é a que promete certeza: quem opera anexo torcido informa probabilidade e marca retorno.

A mesma torção em dois mundos, e o que o plantão faz com isso

Vale reunir os dois retratos, porque juntos explicam a distância entre o que se recomenda e o que se faz. No mundo pediátrico, procedimentos que poupam o ovário respondem por mais de três quartos dos casos; a via laparoscópica predomina; e a estratégia declarada é destorcer e preservar qualquer que seja o aspecto do ovário. No mundo adulto de um serviço terciário, a via aberta ainda responde por mais de um terço das operações, e a maioria das mulheres sai sem o anexo.

As duas fotografias não medem a mesma coisa, e é preciso dizê-lo antes de concluir. As populações diferem em idade, tamanho da lesão e tempo até a cirurgia; os desenhos diferem, um de base administrativa e outro de prontuário de um único centro; e o sistema de saúde difere. Nada disso apaga o achado que sobrevive aos dois: quem opera com a régua da conservação conserva, e quem opera com a régua do tratamento definitivo retira. A régua mora na cabeça de quem indica a cirurgia.

O protocolo brasileiro contribui para essa assimetria de um modo específico: define o que é tratamento definitivo, não define o que é tratamento conservador, e oferece os quatro fatores de decisão sem dizer para onde cada um empurra. Um documento que nomeia só uma das saídas educa para ela. Corrigir isso não exige documento novo — exige que quem indica a laparoscopia por suspeita de torção entre na sala com o gesto conservador na cabeça e com o material para executá-lo.

O que o plantão faz com tudo isso cabe em quatro movimentos. Reconhecer a tríade e não pedir à imagem o que ela não dá. Levar à laparoscopia por suspeita, e não por certeza. Destorcer, esperar e decidir depois, com o mecanismo desfeito e não com a cor do tecido. E reservar a ressecção para o ovário desfeito, para a suspeita de malignidade e para a mulher em quem conservar já não rende — sempre com a peça enviada para exame.

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Esquemas e tabelas

As saídas do anexo torcido, o gatilho de cada uma, o que a imagem entrega e o que decide sobre o cisto que veio junto.

As três saídas da cirurgia, e o gatilho de cada uma

Destorção isolada: anexo torcido em criança, adolescente ou mulher jovem, sem lesão de aspecto suspeito, com ovário que responde à retirada do obstáculo. Destorção associada a gesto sobre a lesão (cistectomia, fenestração, ressecção em cunha, exérese de cisto paraovariano) ou à fixação do ovário: mesma população, com lesão que explica o peso ou com recidiva. Ressecção (salpingectomia e/ou ooforectomia, ou anexectomia): ovário sem parênquima reconhecível que se desfaz à manipulação; suspeita de malignidade, tipicamente na pós-menopausa; ausência de desejo reprodutivo somada a doença ovariana estabelecida. Toda peça retirada vai para exame histopatológico.

O que a imagem entrega, por método

Ultrassonografia pélvica, com ou sem Doppler (achados listados no protocolo): massa ovariana; aumento unilateral do ovário; líquido livre em fundo de saco posterior; estruturas císticas periféricas uniformes, que são os folículos empurrados para a periferia pelo edema. Tomografia e ressonância: espessamento das tubas uterinas; espessamento da parede do cisto ovariano; ascite; desvio uterino em direção ao anexo torcido. Nenhum desses achados é obrigatório, e nenhum conjunto normal exclui o diagnóstico: com suspeita clínica forte, a avaliação cirúrgica do anexo é recomendada ainda que o Doppler não a sustente.

Duas populações, duas práticas medidas

Crianças e adolescentes, base administrativa alemã: procedimentos que poupam o ovário em 77% dos casos e ooforectomia em 23%; laparoscopia predominante; combinações mais frequentes concentradas em destorção com cistectomia (28%) e destorção com ressecção em cunha (12%). Mulheres adultas, centro terciário turco, 96 torções confirmadas: laparoscopia em 63,5% e laparotomia em 36,5%; destorção isolada em torno de 16%; salpingo-ooforectomia isolada em 40,6%; anexectomia em 41,7%. Idade mediana de 27 anos, acometimento à direita em 60,4%, e uma única lesão de baixo potencial de malignidade na histologia.

O cisto que veio junto: qual pergunta decide

Duas perguntas em sequência, nesta ordem. Primeira: a lesão tem achados de suspeita de malignidade? Se sim, vale a regra do documento de massa anexial — não romper, não esvaziar, retirar a massa íntegra ou encaminhar com a peça sem extravasamento, porque a avaliação pré e intraoperatória não exclui malignidade em absoluto. Segunda, se a lesão é de aspecto benigno: como está o ovário depois de desfeito o nó? Ovário pouco edemaciado admite cistectomia no mesmo tempo; ovário muito congesto admite fenestração ou nenhuma abordagem da lesão, com reavaliação por imagem em algumas semanas, já sem o edema por cima.

As duas séries citadas no terceiro card medem populações e sistemas diferentes, com desenhos diferentes, e não são comparáveis número a número. Servem para mostrar a direção: onde a régua é a conservação, o ovário fica.

Os fatores que o protocolo brasileiro manda considerar na escolha do tratamento são quatro: idade, desejo de fertilidade futura, menopausa e evidência de doença ovariana.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde o diagnóstico de torção anexial se fecha: na clínica ou na ultrassonografia com Doppler — dois documentos brasileiros, dois endereços

"O diagnóstico de torção anexial é basicamente clínico, mas pode ser auxiliado por achados laboratoriais e de imagem, já que os sinais e sintomas são comuns a vários outros diagnósticos." O mesmo parágrafo situa a ultrassonografia como "o estudo de imagem mais utilizado para auxiliar no diagnóstico", e o gatilho clínico é a tríade: "A instalação aguda de dor unilateral intensa, associada a uma massa dolorosa em topografia de anexo em paciente com náuseas e vômitos, deve alertar o médico para a possibilidade de torção de anexo."

FEBRASGO, Comissão Nacional Especializada em Endoscopia Ginecológica. Abdome agudo em ginecologia. Protocolo FEBRASGO — Ginecologia nº 28. Femina. 2019;47(12):902-8, seção Torção anexial

"Em geral, o diagnóstico é bem definido pela ultrassonografia (US) associada ao Doppler, restando aos métodos seccionais a indicação quando o quadro clínico for sugestivo de outras causas de dor abdominal, como apendicite e diverticulite (o que não é infrequente), ou quando a US não puder ser realizada (por exemplo, US endovaginal em pacientes virgens), ou quando seu resultado for inconclusivo."

Torção ovariana: ensaio iconográfico com enfoque em achados de ressonância magnética e tomografia computadorizada. Radiologia Brasileira. 2012;45(4):225-9, seção Aspectos de imagem

"If there is a strong clinical suspicion of adnexal torsion, surgical evaluation of the adnexa is recommended, even if Doppler ultrasonography findings do not support it." A mesma série registra o infarto hemorrágico como achado histológico mais frequente das peças, o que descreve o custo da espera pela confirmação por imagem.

Management of adnexal torsion: a 5-year experience from a tertiary center. Northern Clinics of Istanbul. 2025;12(5):647-52

Na prova

As duas posições brasileiras não discordam sobre o exame — discordam sobre o que ele encerra. Para o protocolo de sociedade a imagem auxilia; para o ensaio de imagem ela define. Leia o enunciado procurando de que lado a régua está: quando a descrição investe na história (dor súbita, unilateral, forte, com náuseas e vômitos, massa dolorosa ao toque) e menciona a imagem de passagem, a resposta esperada é levar à laparoscopia; quando a descrição gira em torno do laudo e do fluxo ao Doppler, o recorte é de leitura de exame. O sinal mais confiável de que se está diante da primeira régua é a menção explícita a fluxo preservado ou a Doppler normal numa mulher com quadro típico: essa combinação existe para testar se o candidato sabe que fluxo presente não afasta torção. Vale também o inverso — enunciado sem tríade clínica, com achado isolado de imagem, costuma cobrar diagnóstico diferencial, não indicação cirúrgica.

O que a operação retira: o protocolo de urgência nomeia só o tratamento definitivo, e o documento de massa anexial da mesma federação escreve a regra da conservação

"A torção anexial é uma emergência cirúrgica e existem opções conservadoras e definitivas para o tratamento. A idade, o desejo de fertilidade futura, a menopausa e a evidência de doença ovariana são fatores a serem considerados na decisão de qual tratamento escolher. O tratamento definitivo inclui a salpingectomia e/ou ooforectomia, e o método mais comumente utilizado é a laparoscopia." A opção conservadora é anunciada e não é nomeada em nenhuma das duas edições.

FEBRASGO. Abdome agudo em ginecologia. Protocolo FEBRASGO — Ginecologia nº 28. Femina. 2019;47(12):902-8 (redação repetida na edição em caderno de 2018)

"A remoção sistemática de ovários em doenças ovarianas benignas deu lugar para cirurgias com conservação das gônadas." E, sobre a via: "A cirurgia minimamente invasiva deve ser a via de escolha em massas anexiais benignas." O documento trata da massa anexial fora da urgência e não aborda a torção.

FEBRASGO, Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica. Massa anexial: diagnóstico e manejo. Febrasgo Position Statement nº 1. Femina. 2020;48(7):391-7

"Ovary-sparing procedures accounted for 77% of all cases, whereas 23% underwent oophorectomy." E, sobre o julgamento intraoperatório: "most salvaged ovaries regain viability and function following detorsion, regardless of their intraoperative appearance."

Preservation vs. resection? Pediatric and non-pediatric management patterns in ovarian torsion. Pediatric Reports. 2026;18(2):32

Na prova

Não é contradição entre documentos: são comissões diferentes escrevendo para populações diferentes, uma para a cirurgia programada da massa benigna e outra para o plantão. O que existe entre elas é um vão, e o enunciado costuma se plantar exatamente nele. Procure no texto do caso os quatro fatores que o protocolo manda considerar — idade, desejo de fertilidade futura, estado menopausal e evidência de doença ovariana. Quando o enunciado descreve criança, adolescente ou mulher jovem com desejo reprodutivo e lesão de aspecto benigno, a resposta esperada é a laparoscopia com destorção e conservação, e o adjetivo que descreve a cor do ovário está lá para induzir a ressecção. Quando descreve mulher na pós-menopausa, ou massa com achados de suspeita, ou ovário sem parênquima reconhecível, a ressecção volta a ser a resposta — sempre com a peça enviada para exame.

O cisto no anexo torcido: a regra que proíbe extravasar conteúdo foi escrita para outra paciente, e a variável que a aciona é a suspeita de malignidade

"O extravasamento do conteúdo do cisto deve ser evitado no pré e intraoperatório." E, no corpo: "O extravasamento do conteúdo do cisto deve ser evitado sempre, já que a avaliação pré e intraoperatória não exclui a malignidade em absoluto"; "Em caso de dúvida e para preservação do ovário, é recomendável remover apenas a massa anexial sem ruptura ou extravasamento de conteúdo na cavidade peritoneal."

FEBRASGO. Massa anexial: diagnóstico e manejo. Febrasgo Position Statement nº 1. Femina. 2020;48(7):391-7, recomendações e seção de abordagem cirúrgica

Os procedimentos que poupam o ovário são descritos como "detorsion only and detorsion with adjunctive procedures such as cystectomy, fenestration, wedge excision or parovarian cyst excision", e as combinações mais frequentes são "detorsion with cystectomy (28%), detorsion with wedge excision (12%)". Fenestração e ressecção em cunha abrem ou removem parte da lesão no mesmo tempo cirúrgico.

Preservation vs. resection? Pediatric and non-pediatric management patterns in ovarian torsion. Pediatric Reports. 2026;18(2):32, categorização dos procedimentos

Na prova

As duas regras se invertem por variável, e a variável é a suspeita de malignidade — não a presença de um cisto. Diante de massa com achados suspeitos, vale a regra do documento de massa anexial: peça íntegra, sem ruptura. Diante de anexo torcido em paciente jovem com lesão de aspecto benigno, esvaziar ou abrir a lesão é gesto que poupa gônada. Nos enunciados, o marcador que aciona a régua da peça íntegra é a descrição do cisto — componente sólido, septos espessos, vegetação, vascularização central, ou paciente na pós-menopausa. Sem nenhum desses, com cisto simples ou teratoma típico em jovem, vale a régua da conservação, que autoriza abrir ou esvaziar a lesão. Cuidado com a leitura que transforma a proibição de extravasar em proibição de conservar: o documento que a escreve manda, na mesma frase, preservar o ovário.

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Caso resolvido

Mulher de 22 anos, nuligesta, sem comorbidades, chega ao pronto-socorro com dor em fossa ilíaca direita de início súbito há 6 horas, contínua e intensa, acompanhada de náuseas e três episódios de vômito. Nega febre, corrimento vaginal, disúria ou atraso menstrual; última menstruação há 12 dias, ciclos regulares. Refere dois episódios semelhantes de dor forte nos últimos dois meses, ambos com resolução espontânea em poucas horas. Ao exame: PA 118x74 mmHg, FC 104 bpm, T 36,8 °C, abdome doloroso à palpação em quadrante inferior direito com defesa localizada, sem descompressão dolorosa difusa. Ao toque, dor intensa em fórnice direito com massa palpável. Beta-hCG urinário negativo. Leucócitos 12.400/mm³, PCR discretamente elevada. Ultrassonografia transvaginal: ovário direito aumentado, medindo 6,2 cm, com pequenas formações císticas dispostas na periferia e pequena quantidade de líquido livre em fundo de saco; ao Doppler, descreve-se fluxo arterial presente no ovário direito. O plantonista de cirurgia geral sugere observação por suspeita de apendicite atípica.
Passo 1 — a história já entrega o gatilho, e ele é o do protocolo
Dor unilateral intensa de instalação aguda, massa dolorosa em topografia de anexo, náuseas e vômitos: é exatamente a tríade que o protocolo brasileiro descreve como alerta para torção de anexo. Os dois episódios prévios autolimitados reforçam, e não enfraquecem, a hipótese — descrevem torção parcial intermitente. O beta-hCG negativo afasta a gravidez ectópica, e a ausência de febre, corrimento e dor à mobilização do colo torna a doença inflamatória pélvica pouco provável.
Passo 2 — a ultrassonografia confirma, e o Doppler não desmente
O aumento unilateral do ovário, as formações císticas periféricas uniformes (os folículos empurrados pelo edema do estroma) e o líquido livre em fundo de saco compõem três dos quatro achados que o protocolo lista para a ultrassonografia na torção. O fluxo arterial presente não afasta o diagnóstico: a compressão do pedículo atinge primeiro veias e linfáticos, e a perfusão arterial pode persistir. A série cirúrgica de referência recomenda avaliar o anexo cirurgicamente diante de suspeita clínica forte ainda que os achados do Doppler não a sustentem.
Passo 3 — a indicação é de laparoscopia, e ela é diagnóstica antes de ser terapêutica
Não há exame que feche o diagnóstico antes da inspeção, e o protocolo classifica a torção como emergência cirúrgica, com a laparoscopia como método mais comumente utilizado. Observar aguardando tomografia troca tempo de isquemia por uma informação que não muda a conduta. A laparoscopia responde às duas perguntas ao mesmo tempo — se o pedículo está torcido e o que fazer com ele — e evita a incisão que a alternativa aberta imporia a uma mulher de 22 anos.
Passo 4 — na sala: desenrolar, esperar, e não decidir pela cor
Encontra-se o anexo direito torcido sobre o eixo entre o ligamento infundíbulo-pélvico e o ligamento útero-ovariano, com ovário arroxeado, quase negro, e um cisto de aspecto simples de cerca de 5 cm. Desenrola-se o pedículo no sentido inverso, sem tração, e aguarda-se a mudança de coloração. A decisão de ressecar tomada diante do ovário escuro seria decisão tomada antes de o tecido responder: a maioria dos ovários resgatados recupera viabilidade e função depois da destorção, qualquer que seja o aspecto intraoperatório.
Passo 5 — o cisto, a fixação e o retorno
A lesão é de aspecto benigno em mulher jovem, de modo que a regra que proíbe extravasamento — escrita para a massa com suspeita de malignidade — não se aplica aqui. Com o ovário muito edemaciado, cabe a fenestração, ou deixar a lesão e programar reavaliação por imagem em algumas semanas, com o plano de clivagem restabelecido. Como houve episódios prévios, a fixação do ovário entra na discussão. A paciente sai com retorno marcado, com a informação de que o ovário conservado tende a recuperar função e com a orientação de procurar atendimento se a dor recorrer.
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Agora feche você

Mulher de 63 anos, na pós-menopausa há 12 anos, hipertensa, G3P3, comparece ao pronto-socorro com dor em hipogástrio e fossa ilíaca esquerda de início súbito há 10 horas, contínua, associada a náuseas e um episódio de vômito. Nega febre, sangramento vaginal, alteração do hábito intestinal ou perda ponderal. Não faz acompanhamento ginecológico há cerca de 8 anos. Ao exame: PA 148x86 mmHg, FC 96 bpm, T 37,1 °C, abdome distendido, doloroso à palpação em quadrante inferior esquerdo, com massa palpável de limites imprecisos; sem sinais de irritação peritoneal difusa. Ultrassonografia transvaginal: massa anexial esquerda de 9,4 cm, com componente sólido, septos espessos e projeções papilíferas, ao lado de moderada quantidade de líquido livre na pelve; ovário direito não caracterizado. Ao Doppler, ausência de fluxo detectável no anexo esquerdo. A equipe discute se leva à sala agora e, se levar, o que exatamente deve fazer com o anexo e com a peça.
Passo 1 — nomeie o quadro e diga por que ele não espera
Escreva a hipótese principal e as duas hipóteses concorrentes, e justifique cada uma com dados da história e do exame. Em seguida, explique com a fisiopatologia do pedículo por que a ausência de fluxo ao Doppler, neste caso, tem significado diferente da presença de fluxo no caso anterior — e diga se a ausência de fluxo, sozinha, autorizaria adiar a operação caso a clínica fosse duvidosa.
Passo 2 — aplique os quatro fatores do protocolo, um a um
Liste os quatro fatores que o protocolo brasileiro manda considerar na escolha entre conduta conservadora e definitiva e, para cada um, diga para que lado ele empurra nesta paciente. Escreva ao final, em uma frase, qual das duas famílias de conduta o conjunto indica, e por que a régua da conservação, que vale para a adolescente, deixa de valer aqui.
Passo 3 — decida o que fazer com a massa dentro da cavidade
A descrição da imagem traz três achados que mudam a manipulação da lesão. Nomeie os três e diga o que o documento de posição sobre massa anexial determina quanto ao extravasamento do conteúdo do cisto, citando a razão que ele próprio dá para essa regra. Explique, em seguida, por que fenestrar ou esvaziar a lesão — gesto aceitável no caso anterior — seria um erro aqui.
Passo 4 — escreva o destino da peça e o da paciente
Diga o que se faz com o material retirado e por quê, com a justificativa que a série cirúrgica dá para esse exame. Depois, descreva as duas trajetórias possíveis conforme o resultado da histologia: o que muda no seguimento se a lesão for benigna e o que muda se for maligna, incluindo para onde a paciente é encaminhada e com que finalidade.
Passo 5 — feche com a conversa antes da incisão
Escreva, em linguagem que a paciente entenda, o que você diria a ela antes de levá-la à sala: qual é a suspeita, por que a operação não pode esperar o resultado de novos exames, o que provavelmente será retirado, o que ainda depende do que se encontrar dentro do abdome, e por que o material será enviado para análise. Termine dizendo o que ela deve saber sobre o intervalo entre a cirurgia e o resultado.
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Onde a banca derruba

  1. 1Aceitar fluxo ao Doppler como prova de que não há torção É o erro mais caro do assunto, e ele nasce da fisiopatologia mal lida. O pedículo torcido comprime primeiro veias e linfáticos, que são de parede fina e pressão baixa; a artéria, espessa e de pressão alta, pode continuar perfundindo por horas. Doppler com fluxo, portanto, é compatível com torção estabelecida. A série cirúrgica é explícita ao recomendar avaliação cirúrgica do anexo diante de suspeita clínica forte ainda que os achados do Doppler não a sustentem. Quem manda a paciente para casa com laudo de fluxo preservado está usando um exame de confirmação como exame de exclusão.
  2. 2Ressecar o ovário porque ele está roxo ou quase negro A cor é o retrato da congestão venosa produzida pelo nó, não o atestado de morte do tecido. O estudo de padrões de manejo registra que a maioria dos ovários resgatados recupera viabilidade e função depois da destorção, qualquer que seja o aspecto intraoperatório. A régua correta é o mecanismo: o obstáculo foi removido? Se foi, desenrola-se, aguarda-se, e a decisão sobre ressecar se toma depois — de preferência num segundo momento, com a paciente acordada. O que sai não volta, e o ovário que sai de uma adolescente por causa da cor sai para sempre.
  3. 3Exigir uma massa grande para pensar em torção Um cisto ou tumor aumenta o peso da extremidade do pedículo e favorece a torção, mas não é condição necessária. Ovário de aspecto normal também torce, e a série adulta registra cistos simples entre os achados histológicos mais frequentes das peças. Na adolescente com dor pélvica súbita e ovário apenas discretamente aumentado, exigir massa volumosa para considerar o diagnóstico é a maneira habitual de perdê-lo. O gatilho do protocolo é clínico e não menciona tamanho: dor unilateral intensa de instalação aguda, massa dolorosa em topografia de anexo, náuseas e vômitos.
  4. 4Tratar a dor que já passou como caso encerrado A torção pode ser parcial e intermitente, com episódios que cedem espontaneamente quando o pedículo se desenrola. A mulher que chega relatando dores fortes e autolimitadas repetidas ao longo de semanas descreve um pedículo que torce e destorce, e não uma paciente sem doença. Dar alta com analgésico e sem investigação nem retorno programado é aceitar que o episódio seguinte seja o que aperta o nó. A conduta é investigar por imagem, reavaliar em curto intervalo e discutir a indicação cirúrgica antes que a próxima crise resolva a questão pela via mais cara.
  5. 5Fazer a cistectomia difícil no mesmo tempo, a qualquer custo Ovário recém-destorcido está edemaciado e friável, e o plano entre cápsula e parênquima desaparece. Insistir na dissecção completa nessa condição custa córtex sadio e hemostasia agressiva em tecido congesto. Existem duas saídas mais baratas e ambas estão registradas na prática: abrir e esvaziar a lesão, ou deixá-la e programar a abordagem eletiva com reavaliação por imagem depois de algumas semanas, já sem o edema. A exceção que reverte a lógica é a suspeita de malignidade — nesse caso não se rompe nem se esvazia, e a massa sai íntegra.
  6. 6Retirar o anexo e não enviar a peça para exame histopatológico Quando a ressecção é feita por suspeita de doença maligna, o exame da peça é o que fecha a pergunta que motivou a ressecção. A série adulta registra esse exame como essencial para excluir de forma definitiva a possibilidade de malignidade, e mostra que a suspeita raramente se confirma — houve uma única lesão de baixo potencial de malignidade em quase cem torções operadas. Retirar sem examinar deixa a mulher com o pior arranjo possível: perdeu o ovário e continua sem diagnóstico, o que impede inclusive planejar o seguimento.
  7. 7Confundir a régua da massa anexial com a régua do anexo torcido O documento de posição sobre massa anexial governa a paciente que chega ao ambulatório com uma imagem e sem dor aguda: estratificação de risco, marcador, seguimento por imagem, cuidado com extravasamento. Aplicar esse roteiro à mulher com dor súbita e pedículo possivelmente torcido significa gastar em estratificação o tempo que a gônada não tem. Na urgência, a primeira pergunta é mecânica, não oncológica; a pergunta oncológica não desaparece, apenas deixa de ser a primeira, e volta assim que o nó é desfeito e a lesão pode ser inspecionada.
  8. 8Sair da destorção isolada sem discutir recidiva nem marcar retorno Destorcer sem tocar na causa mecânica devolve à paciente o mesmo pedículo que torceu. Quando a torção ocorreu em ovário sem lesão aparente, quando já houve episódio prévio ou quando se trata de criança ou adolescente, a fixação do ovário entra na conversa como uma das opções cirúrgicas registradas ao lado da destorção isolada, da cistectomia e da ooforectomia. E, se a lesão ficou no lugar, o retorno com exame de imagem marcado faz parte da operação: sem ele, a conservação vira abandono.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O protocolo lista, para tomografia e ressonância, quatro achados comuns na torção anexial: espessamento das tubas uterinas, espessamento da parede do cisto ovariano, ascite e desvio uterino em direção ao anexo torcido. Os dois primeiros traduzem o edema da estrutura torcida, a ascite é o transudato da congestão e o desvio uterino descreve o útero puxado pelo pedículo encurtado pela rotação. Ar livre com alterações de cólon aponta para perfuração de víscera oca. Apendicolito com apêndice de diâmetro aumentado descreve apendicite, que é justamente o diferencial da história. Dilatação pielocalicial com cálculo ureteral descreve litíase urinária. E coleções em espaços peritoneais com alteração esplênica sugerem sangramento de outra origem. Nenhum desses achados, porém, é obrigatório: exame normal não exclui torção diante de quadro clínico típico.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, em três colunas, as três saídas cirúrgicas do anexo torcido — destorção isolada; destorção associada a gesto sobre a lesão ou à fixação do ovário; ressecção — e anote ao lado de cada uma o gatilho que a dispara. Em seguida, escreva os quatro fatores que o protocolo brasileiro manda considerar na escolha do tratamento e diga, para cada um, para que lado ele empurra. Por fim, monte duas listas de achados de imagem, uma para ultrassonografia e outra para tomografia e ressonância, e escreva embaixo de ambas, com suas palavras, a frase que impede a alta quando o Doppler está normal.

em 30 dias

Refaça os dois casos decidindo em voz alta e, desta vez, escreva o que você diria à paciente e à família antes da laparoscopia em cada um deles, incluindo a possibilidade de o anexo não ser conservável. Depois, pegue um caso real de plantão com dor pélvica aguda unilateral em mulher jovem e responda por escrito, antes de qualquer exame voltar: se o pedículo estiver torcido, minha operação termina com o ovário dentro ou fora, e por quê? Confira, por fim, se algum resultado de imagem mudou a sua decisão — e se mudou no sentido certo, acelerando quando sugestivo e não adiando quando normal.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é o plantonista da emergência ginecológica. Recebe uma mulher jovem com dor pélvica unilateral de início súbito, náuseas e vômitos, que já teve dois episódios semelhantes autolimitados nos últimos meses e traz uma ultrassonografia com ovário aumentado e fluxo presente ao Doppler. Colha a história da dor e dos episódios prévios, investigue o diferencial de gravidez ectópica e doença inflamatória pélvica, examine o abdome e a pelve, explique em linguagem simples por que um exame com fluxo normal não descarta o problema, obtenha o consentimento para a laparoscopia descrevendo os dois desfechos possíveis da inspeção, e diga à equipe o que você quer disponível na sala caso encontre o pedículo torcido. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Torção anexial: o aspecto do ovário não decide a ressecção — Preparatório para provas | OsceLabs