Ginecologia e ObstetríciaGinecologia oncológica, mama e rastreamentos

Câncer de ovário e massa anexial

A vinheta não pergunta se a massa é maligna: pergunta se a mulher vai embora, volta em quatro meses ou vai para o oncologista. Este capítulo mostra qual documento manda em cada saída — e os quatro vãos entre eles: a idade sem linha, a faixa de marcador sem corte, o escore que passa do limiar com exame normal e o estádio que muda sem a doença mudar

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 28 anos, nuligesta, em uso de anticoncepcional oral combinado há 2 anos, procura a emergência por dor abdominal em fossa ilíaca direita há 8 horas, de início súbito, com náuseas. PA 118x76 mmHg, FC 96 bpm, afebril. Ao exame, dor intensa à palpação em anexo direito. Ultrassonografia transvaginal com Doppler mostra ovário direito aumentado, edemaciado, com redução do fluxo arterial e cisto de 6 cm. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

A vinheta de massa anexial quase nunca pergunta se a lesão é maligna. Ela pergunta o que fazer com a mulher que está na sala, e as saídas são só quatro: dar alta sem retorno, marcar reavaliação com prazo, operar no serviço geral, ou encaminhar à oncologia ginecológica antes de qualquer bisturi. Cada saída tem dono documental diferente, e o candidato que sabe câncer de ovário mas não sabe qual documento responde a qual pergunta erra a alternativa por escolher a régua errada.

O recorte deste capítulo é a avaliação de malignidade: da massa vista no ultrassom até o encaminhamento. O que vem depois — esquema de quimioterapia, linha de manutenção, inibidor de PARP — é assunto de oncologia clínica e sai daqui, com duas exceções que a prova cobra e ficam: a definição de citorredução ótima, porque ela é o desfecho que o encaminhamento persegue, e o estadiamento, porque ele é cirúrgico e portanto começa na decisão de quem opera.

Três documentos brasileiros e um americano governam o tema, e eles não concordam. As Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas de 2019 são a norma em vigor e estadiam por um sistema FIGO anterior a 2014. O protocolo que está em consulta pública desde agosto de 2026 adota o sistema de 2014, que redistribui pacientes inteiras entre estádios. O documento da Febrasgo governa a massa antes do diagnóstico. E a força-tarefa americana governa a única conduta que todos recusam junto, que é rastrear.

O capítulo trabalha os vãos: a idade que nenhuma linha do quadro de risco contempla, a faixa de CA-125 que fica entre os dois cortes publicados, o índice de risco que cruza o próprio limiar com um marcador dentro da faixa de referência, e as duas frases do mesmo documento que dão números diferentes para a mesma fração de pacientes. Nenhum desses vãos é curiosidade editorial — cada um deles é uma vinheta pronta, e a maioria já foi cobrada.

03

O que muda decisão

O documento em vigor e o que está em consulta não estadiam a mesma doença

O estadiamento do câncer de ovário é cirúrgico-patológico nos dois documentos: não existe método não invasivo que o substitua, e a inspeção precisa cobrir o peritônio, a cavidade abdominal, os espaços retroperitoneais e os linfonodos. Até aí eles são idênticos. A diferença começa nas caixas em que a paciente cai depois de a cirurgia terminar.

As Diretrizes de 2019 descrevem um estádio II com três letras — IIA, IIB e IIC —, sendo o IIC definido pela presença de células malignas na ascite ou no lavado peritoneal. Descrevem um IIIA como metástase peritoneal microscópica além da pelve, um IIIB com implantes de até 2 cm e um IIIC com implantes maiores que 2 cm ou metástase em linfonodos regionais. O estádio IV não tem subdivisão. O IC não tem subdivisão: é a soma de ruptura de cápsula, tumor na superfície ovariana e citologia positiva numa categoria só.

O protocolo em consulta pública reproduz o sistema que a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia revisou em 2014. Ali o IC vira IC1 (derramamento cirúrgico), IC2 (cápsula rota antes da cirurgia ou tumor na superfície) e IC3 (células malignas na ascite ou no lavado). O estádio II perde a terceira letra e fica com IIA e IIB apenas. O III ganha IIIA1, que é linfonodo retroperitoneal positivo isolado, ainda subdividido por tamanho da metástase em até 10 mm e mais de 10 mm, e um IIIA2 para o acometimento peritoneal microscópico. E o IV se parte em IVA, derrame pleural com citologia positiva, e IVB, metástase parenquimatosa ou extra-abdominal.

A consequência prática é uma paciente que muda de estádio sem mudar de doença. Uma mulher operada com doença restrita à pelve e um linfonodo para-aórtico positivo é IIIC pelo documento em vigor, porque ele coloca a metástase linfonodal regional na mesma caixa do implante maior que 2 cm; e é IIIA1 pelo sistema de 2014, que separou a doença linfonodal isolada justamente por ter prognóstico melhor. A distância entre as duas leituras é de duas subcategorias.

A mesma paciente com citologia peritoneal positiva e tumor restrito à pelve é IIC no documento de 2019 e IIA ou IIB no sistema de 2014 — porque lá a positividade citológica deixou de qualificar o estádio II. O candidato que responde IIC numa questão redigida sobre a revisão de 2014 marca uma categoria que aquele sistema não tem; e quem responde IIA numa questão que cita a portaria brasileira em vigor descreve um estádio que aquela portaria subdivide de outro jeito.

A justificativa da revisão de 2014, que o protocolo em consulta reproduz, é biológica: até 80% dos tumores antes classificados como carcinoma seroso de alto grau do ovário ou do peritônio originam-se na extremidade fimbrial da tuba. Por isso o sistema novo é único para ovário, tuba e peritônio, e o sítio primário passa a ser especificado sempre que possível — não é mais uma informação que o estádio carrega sozinho.

O CA-125 tem cinco números no acervo oficial, e cada um responde a outra pergunta

O CA-125 é o único biomarcador que os documentos brasileiros aceitam no câncer epitelial de ovário. Sobre ele circulam cinco frações diferentes, todas publicadas, e a prova troca uma pela outra porque o candidato memoriza o número sem a população.

As Diretrizes de 2019 dizem, na seção de diagnóstico laboratorial, que o marcador tem sensibilidade entre 50% e 60% e especificidade de 90% em mulheres em estágios precoces da doença — e, duas frases adiante, que sua expressão está aumentada em 90% das vezes nas pacientes com câncer epitelial de ovário. Na seção de acompanhamento, o mesmo documento afirma que aproximadamente 80% dos tumores epiteliais terão nível elevado no momento do diagnóstico.

Os três números não são intercambiáveis, e a diferença é de população. Cinquenta a sessenta por cento é desempenho de teste em doença inicial. Oitenta por cento é a proporção de pacientes com marcador elevado ao diagnóstico, somando todos os estádios — e como mais de setenta por cento chegam em estádio avançado, essa média é puxada pelos casos volumosos. Noventa por cento é a frase mais genérica das três e a que menos serve, porque não nomeia estádio nem momento.

O documento da Febrasgo dá o quarto e o quinto números com as mesmas duas populações: o marcador está elevado em 80% dos carcinomas ovarianos, principalmente nos avançados, e em menos da metade das mulheres com carcinoma ovariano inicial. E acrescenta as faixas do teste em série de massas anexiais: sensibilidade de 61% a 90%, especificidade de 71% a 93%, valor preditivo positivo de 35% a 91% e valor preditivo negativo de 67% a 90%.

O protocolo em consulta pública fecha a série pelo lado mais restritivo: apenas 50% dos cânceres epiteliais em estágio inicial apresentam níveis aumentados, e por isso a dosagem não tem sensibilidade nem especificidade nesses estágios. Ou seja, para a mesma pergunta — que fração dos cânceres iniciais tem CA-125 elevado? — há três respostas oficiais: de 50% a 60%, menos da metade, e exatamente 50%. As duas últimas discordam sobre o próprio valor 50: uma o exclui, a outra o adota.

Duas consequências clínicas sobrevivem a qualquer das três leituras, e são elas que a prova quer. A primeira: CA-125 normal não afasta câncer de ovário, porque em doença inicial o marcador falha em metade ou mais dos casos. A segunda: o marcador sobe em endometriose, doença inflamatória pélvica, gravidez, menstruação e cistos benignos — todas condições da menacme —, o que explica por que a especificidade e o valor preditivo positivo são maiores na pós-menopausa.

Dois cortes de CA-125 publicados, e o vão entre 35 e 200 na pré-menopausa

Nenhum dos documentos brasileiros publica um corte único de CA-125 para encaminhar. Cada um publica um corte para uma população, e as duas populações não cobrem o mesmo território.

O quadro de exames do protocolo em consulta pública define elevação como maior que 35 U/mL em mulheres na pós-menopausa. A frase nomeia o estado menopausal e não oferece equivalente para a pré-menopausa — o que é coerente com a explicação que o próprio documento dá logo abaixo, de que na fase reprodutiva endometriose, gravidez, cistos benignos e doença inflamatória pélvica elevam o marcador e derrubam a especificidade.

O documento da Febrasgo cobre a outra ponta. Ele diz que não é necessário dosar CA-125 em toda mulher na pré-menopausa com cisto ovariano simples, e que nos casos em que o marcador for superior a 200 unidades por mililitro recomenda-se avaliação conjunta com a oncologia ginecológica. É o único corte numérico que os documentos oferecem para a menacme, e ele é quase seis vezes o limite superior da faixa de referência.

O vão está entre os dois. Uma mulher de 34 anos com massa anexial e CA-125 de 90 U/mL tem marcador claramente acima da referência laboratorial, claramente abaixo do corte de encaminhamento da menacme, e não está coberta pelo corte de 35, que é escrito para a pós-menopausa. Nenhuma das duas frases decide o caso dela.

O que decide é o resto do quadro, e é isso que o enunciado costuma esconder na vinheta: características ultrassonográficas de malignidade, ascite, massa pélvica nodular ou fixa, evidência de metástase abdominal ou a distância, e risco aumentado por um dos índices formais. Qualquer um desses, isolado, já encaminha — o CA-125 não é o único gatilho da lista, e tratar o número como se fosse é o erro estrutural do tema.

O índice de risco cruza o próprio limiar com CA-125 dentro da referência

O índice de risco de malignidade é o único escore que os dois documentos brasileiros descrevem com fórmula. Ele multiplica três parcelas: um escore ultrassonográfico, o estado menopausal e o valor absoluto do CA-125 em unidades por mililitro.

Os pesos, como o documento da Febrasgo os publica: o escore ultrassonográfico vale 1 quando o exame mostra apenas um achado anormal e 3 quando mais de um achado é identificado; o estado menopausal vale 1 na pré-menopausa e 3 na pós-menopausa. O corte é 200, e com ele o índice tem sensibilidade de 85% e especificidade de 97%.

A aritmética que a prova não escreve é esta. Se o produto dos dois primeiros fatores é 9 — pós-menopausa com mais de um achado anormal —, o índice ultrapassa 200 assim que o CA-125 passa de 22,2 U/mL, porque 200 dividido por 9 dá 22,2. Isto é: o escore cruza o próprio limiar com um marcador que o laboratório reportaria como normal, abaixo dos 35 U/mL.

As outras três combinações fecham o quadro. Com produto 3 — pós-menopausa e um achado, ou pré-menopausa e mais de um —, o limiar de CA-125 é 66,7 U/mL. Com produto 1 — pré-menopausa e um único achado —, o limiar é exatamente 200, que é o mesmo número que a Febrasgo publica como corte de encaminhamento da menacme. Os dois duzentos coincidem, e coincidem por construção.

Três faixas horizontais sobre um eixo de CA-125 de 0 a 220 unidades por mililitro. Na faixa de produto 9, o índice de risco de malignidade ultrapassa 200 a partir de 22,2; na de produto 3, a partir de 66,7; na de produto 1, a partir de 200. Uma linha tracejada em 35 marca o limite superior da referência laboratorial e fica à direita do primeiro limiar.
Com escore ultrassonográfico 3 e pós-menopausa, o índice cruza 200 já em 22,2 U/mL — abaixo do limite laboratorial de 35: o escore aponta alto risco com um marcador que o laudo chama de normal.

Há um caso que o texto publicado não pontua: o da paciente sem nenhum achado ultrassonográfico anormal. O documento atribui valores ao escore apenas para um achado e para mais de um; não diz o que fazer quando não há nenhum. Como a estrutura do índice é multiplicativa, qualquer parcela nula anula o produto inteiro, e um CA-125 de 900 U/mL numa imagem sem nenhuma característica suspeita devolveria índice zero. É a fragilidade estrutural do escore, e a razão pela qual o próprio protocolo em consulta observa que a dependência do CA-125 derruba a sensibilidade do índice na doença inicial, sobretudo na pré-menopausa.

Os outros instrumentos aparecem nos documentos nomeados, não descritos. As regras simples do grupo internacional de análise de tumor ovariano e o modelo que usa corte de 10% de risco têm, segundo a Febrasgo, sensibilidade de 92% e 96,5% e especificidade de 96% e 71,3%, respectivamente. O algoritmo que combina CA-125, proteína 4 do epidídimo humano e estado menopausal usa duas regressões logísticas separadas, uma para peri e outra para pós-menopausa — e o protocolo em consulta registra que ele não superou o CA-125 isolado na diferenciação entre massas benignas e malignas.

Cinquenta anos exatos não têm linha no quadro de risco

O quadro de estratificação de risco da Febrasgo é a tabela mais cobrada do tema, porque converte anamnese, exame e imagem em duas colunas. Ele tem seis linhas: idade, história familiar, sintomas, achados do exame clínico, marcadores tumorais e achados ultrassonográficos.

Cinco das seis linhas são exaustivas. História familiar é presente ou ausente. Sintomas são persistentes e múltiplos, ou ausentes. Marcadores são elevados ou normais. O exame clínico separa massa grande, fixa e irregular com ascite ou metástase de tudo que não sugere alto risco. E a linha ultrassonográfica é escrita com desigualdades que se encaixam: alto risco a partir de 10 cm ou mais, baixo risco abaixo de 10 cm, além de septação espessa contra septação ausente ou fina de 1 a 2 mm, multilocular contra unilocular, componente sólido e excrescência papilar contra ausência dos dois.

A linha da idade é a exceção. Ela diz alto risco acima de 50 anos e baixo risco abaixo de 50 anos. A mulher que tem exatamente 50 anos não está acima nem abaixo: ela cai no vão entre as duas colunas, e o quadro, lido ao pé da letra, não a classifica.

A saída prática não é inventar uma regra: é notar que a idade é uma das seis linhas, não a única, e que o quadro classifica a paciente pelo conjunto. Uma mulher de 50 anos redondos com cisto unilocular de 4 cm, anecoico, paredes finas, sem papila, sem ascite, sem sintoma e com marcador normal tem cinco linhas apontando baixo risco e uma linha indefinida — e é conduzida como baixo risco.

A vinheta perigosa é a que troca a idade e mantém o resto. Se o enunciado descreve 51 anos em vez de 50, a linha da idade passa a apontar alto risco isoladamente, com todas as outras cinco em baixo risco. Aí o candidato que aprendeu a somar linhas em vez de ler o conjunto marca encaminhamento numa paciente cuja imagem é a de um cisto simples. Idade acima de 50 anos, sozinha, não é critério de encaminhamento em nenhuma das listas.

Cisto simples: as faixas da pré-menopausa não são as da pós

O cisto simples — unilocular, anecoico, de paredes finas e regulares, sem componente sólido, sem projeção papilar e sem fluxo — é a lesão mais comum do tema e a que mais produz cirurgia desnecessária. Os cortes de seguimento estão publicados, e são diferentes dos dois lados da menopausa.

Na pré-menopausa, o documento da Febrasgo é explícito: depois de uma ultrassonografia de boa qualidade, corpo lúteo clássico e cisto simples com menos de 5 cm no maior diâmetro não pedem acompanhamento. Os cistos de 50 a 70 mm fazem seguimento anual por ultrassonografia, e os maiores que isso são considerados para imagem mais acurada, com ressonância, ou para intervenção cirúrgica. As três faixas se encaixam sem sobra e sem sobreposição.

Na pós-menopausa há duas frases, e elas precisam ser lidas juntas. Uma manda usar 1 cm como limiar para cistos simples. A outra diz que cistos assintomáticos, simples, unilaterais e uniloculares com menos de 5 cm de diâmetro têm baixo risco de malignidade e, com CA-125 normal, podem ser conduzidos de forma conservadora, com nova avaliação em quatro a seis meses; após um ano, a mulher pode receber alta do acompanhamento se o cisto permanecer inalterado ou diminuir e o marcador continuar normal.

Lidas juntas, as duas frases produzem três faixas na pós-menopausa: abaixo de 1 cm, nada; de 1 cm a menos de 5 cm, conduta conservadora com reavaliação em quatro a seis meses e possibilidade de alta em um ano; de 5 cm em diante, avaliação cirúrgica. Nenhuma frase do documento enuncia essas três faixas — elas são o que sobra quando se junta o limiar de 1 cm com o teto de 5 cm.

E há a borda: exatamente 5,0 cm na pós-menopausa. A frase da conduta conservadora exige menos de 5 cm, e a alternativa cirúrgica é escrita para os maiores. Cinco centímetros redondos não é menos de 5 nem maior que 5. Quando o enunciado escolhe justamente esse número, ele não está testando o corte: está testando se o candidato decide pelo conjunto — cisto unilocular, anecoico, sem papila, sem ascite e com marcador normal é baixo risco, e baixo risco não vai para a mesa de cirurgia.

Rastrear é a única conduta que todos os documentos recusam junto

É o ponto de maior acordo do tema, e por isso é o mais cobrado. A força-tarefa americana recomenda contra o rastreamento em mulheres assintomáticas, com grau D, e a recomendação se aplica a assintomáticas que não sejam sabidamente portadoras de síndrome hereditária de alto risco. As Diretrizes de 2019 dizem que os resultados dos métodos multimodais são conflitantes e que não é prática indicada como rotina. O protocolo em consulta afirma que não há programa de saúde pública recomendado para rastreamento do câncer de ovário. E o documento da Febrasgo registra que a literatura não embasa o rastreamento de rotina na população geral.

Os números que sustentam o grau D vêm de três ensaios. O britânico randomizou 202.638 mulheres na pós-menopausa, de 50 a 74 anos, e com seguimento mediano de 11,1 anos encontrou mortalidade por câncer de ovário de 0,35% no controle, 0,32% no braço de ultrassonografia transvaginal e 0,32% no braço de CA-125 seriado — razões de risco de 0,91 e 0,89, ambas com intervalo de confiança cruzando a unidade.

O ensaio americano randomizou 68.557 mulheres de 55 a 74 anos, com seguimento mediano de 12,4 anos, e a mortalidade foi de 0,34% no braço rastreado contra 0,29% no cuidado usual, razão de risco de 1,18 com intervalo de 0,82 a 1,71. É o número que mais engana: lido sem o intervalo, sugere que rastrear piorou o desfecho; lido com o intervalo, diz que não houve diferença.

O piloto britânico, com 21.955 mulheres, engana no sentido oposto: mortalidade de 0,08% nas rastreadas contra 0,16% nas não rastreadas, risco relativo de 0,50 com intervalo de 0,22 a 1,11. Metade da mortalidade, e mesmo assim sem significância. Quem decora a proporção sem o intervalo conclui, do mesmo corpo de evidência, que o rastreamento reduz mortalidade pela metade e que a aumenta em 18%.

Do lado do dano, os falso-positivos: 11,9% na primeira rodada de ultrassonografia do ensaio britânico, 9,0% na primeira rodada do braço de CA-125, e 44,2% de forma acumulada nas rodadas 2 a 11 desse mesmo braço — quase metade das mulheres sem câncer teve, em algum momento, um resultado positivo. No ensaio americano foram 9,6% ao longo das seis rodadas.

A conta que amarra benefício e dano é direta. Cirurgia para investigar teste positivo em mulher que no fim não tinha câncer aconteceu em 3,25% das participantes do braço de ultrassonografia, e até 15% dessas mulheres tiveram complicação cirúrgica maior. Multiplicando, isso dá 0,49% das rastreadas, ou uma em cada 205, com complicação cirúrgica maior por um achado falso. A diferença nominal de mortalidade no mesmo braço foi de 0,03 ponto percentual, e não significativa. O teto do dano é dezesseis vezes maior que o benefício nominal — e o benefício nominal é o que o próprio ensaio diz que não existe.

A exceção é nominal e vale citar com precisão: a recomendação de grau D não alcança mulheres com síndrome hereditária de alto risco conhecida. Nessas, as Diretrizes de 2019 admitem métodos multimodais em casos individualizados, para quem não é elegível à salpingo-ooforectomia redutora de risco, e registram que mesmo aí o benefício é incerto. A intervenção com evidência de benefício nesse grupo é a cirurgia redutora de risco, não o exame periódico: uma metanálise de nove coortes com 7.927 mulheres encontrou redução de mortalidade total com razão de risco de 0,32, com a ressalva explícita de qualidade de evidência muito baixa.

A lista de encaminhamento tem duas linhas idênticas

O documento da Febrasgo reproduz os critérios de encaminhamento do colégio americano de obstetras e ginecologistas em três linhas, das quais basta uma para encaminhar. A primeira começa por pós-menopausa e lista elevação de CA-125, ultrassonografia com características de malignidade, ascite, massa pélvica nodular ou fixa, ou evidência de metástase abdominal ou a distância. A segunda começa por pré-menopausa — e traz exatamente a mesma lista, palavra por palavra.

Lidas como estão, as duas linhas não distinguem nada: a única diferença entre elas é o termo que nomeia o estado menopausal. E isso colide com a outra frase do mesmo documento, aquela que fixa em 200 unidades por mililitro o valor a partir do qual se recomenda avaliação conjunta com a oncologia na pré-menopausa. Contra uma referência de 35, é uma diferença de quase seis vezes entre as duas passagens.

A terceira linha é a que o candidato esquece e a que resolve casos. Ela vale para pré e pós-menopausa e aciona o encaminhamento por risco aumentado em teste formal — o índice de risco de malignidade, o algoritmo que usa proteína 4 do epidídimo humano, o teste multivariado ou um dos sistemas de pontuação ultrassonográfica do grupo internacional. Uma paciente pode ir para a oncologia ginecológica sem CA-125 elevado e sem ascite, apenas porque o escore de imagem a colocou em risco alto.

O que fazer quando a malignidade aparece depois, numa cirurgia que não era oncológica, também está escrito. O caso é reavaliado com os exames pré-operatórios, a descrição ou o registro de imagem da cirurgia e o resultado anatomopatológico; nos casos iniciais discute-se o estadiamento adequado ou a complementação cirúrgica. Pacientes em estádio II a IV com doença residual potencialmente ressecável vão a cirurgia para citorredução completa; com doença residual irressecável, avalia-se citorredução de intervalo antes do quarto ciclo de quimioterapia.

E o alvo cirúrgico que dá sentido a todo o encaminhamento: a citorredução ótima, definida nas Diretrizes de 2019 como ressecção completa de todas as lesões visíveis ou, no máximo, de 1 cm de doença residual. O tumor residual é, segundo o mesmo documento, o preditor mais importante de sobrevida global. Os preditores clínicos de citorredução sub-ótima que ele lista são idade acima de 60 anos, CA-125 acima de 500 U/mL, estado físico 3 ou 4 na classificação americana de anestesiologia, albumina abaixo de 3,5 g/dL, estádio IV e diagnóstico recente de tromboembolismo.

A congelação decide na sala, e o borderline é o resultado que não decide

A biópsia por congelação para diagnóstico intraoperatório de massa anexial suspeita é recomendada quando houver disponibilidade e preferência da paciente. A recomendação vem de uma metanálise de 38 estudos com 11.181 participantes, e os números dela explicam por que o exame decide condutas dentro da sala.

A sensibilidade geral foi de 90,0%, com intervalo de confiança de 95% entre 87,6% e 92,0%, e a especificidade média de 99,5%, entre 99,2% e 99,7%. Uma especificidade dessa ordem significa que quando a congelação diz câncer invasivo, é câncer: o diagnóstico final permaneceu o mesmo em média em 99% dos casos. Quando disse neoplasia benigna, o diagnóstico final se manteve em média em 94%.

O resultado que não decide é o intermediário. Quando a congelação laudou tumor borderline, em média 21% dos diagnósticos finais eram câncer invasivo. Um em cada cinco laudos borderline muda de categoria na parafina — e é por isso que borderline na congelação não autoriza a cirurgia radical definitiva por conta própria em quem quer preservar o ovário.

A cirurgia-padrão do caso confirmado, nas Diretrizes de 2019, é histerectomia abdominal total com salpingo-ooforectomia bilateral e omentectomia, com avaliação e biópsia do peritônio diafragmático, das goteiras parietocólicas e do peritônio pélvico, amostragem ou linfadenectomia pélvica e para-aórtica, e lavado peritoneal. Nos estádios IA e IB com grau 1 ou 2, o tratamento cirúrgico isolado basta; e em paciente em idade fértil com desejo gestacional e tumor bem diferenciado, a salpingo-ooforectomia unilateral pode ser considerada, pelo baixo índice de recidiva.

Duas ressalvas de tipo histológico. Na histologia mucinosa, indica-se apendicectomia e investigação do trato gastrointestinal com endoscopia e colonoscopia, para verificar se a lesão ovariana não é metástase de origem digestiva. E a linfadenectomia sistemática de linfonodos clinicamente negativos deve ser omitida na doença avançada com ressecção macroscópica completa, porque não melhora sobrevida global nem sobrevida livre de progressão e acrescenta morbimortalidade pós-operatória.

Duas taxas para a mesma doença, e a prova compara a errada

O câncer de ovário é o oitavo tumor mais incidente entre as mulheres brasileiras e o décimo nono no país todo, excluídos os de pele não melanoma. Para cada ano do triênio de 2026 a 2028 estimam-se 8.020 casos novos, e o instituto nacional publica esse número acompanhado de duas taxas: risco de 7,33 casos por 100 mil mulheres e taxa ajustada de 5,22 por 100 mil.

As duas taxas medem coisas diferentes. A primeira é bruta: divide os casos pela população feminina de fato existente. A segunda padroniza pela estrutura etária de uma população de referência, para permitir comparação entre lugares e épocas com pirâmides diferentes. A bruta é 40% maior que a ajustada, e essa diferença é a assinatura de uma doença da pós-menopausa numa população que envelheceu.

Dá para recuperar o denominador. Oito mil e vinte casos divididos por 7,33 por 100 mil devolvem cerca de 109 milhões de mulheres, que é a ordem de grandeza da população feminina brasileira — os números publicados são arredondados para múltiplos de dez, então a conta fecha em ordem de grandeza, não na casa decimal. Fazer a operação inversa com a taxa ajustada, porém, é erro: ela não conta pessoas nem casos, e multiplicá-la pela população real produz um número que não existe em lugar nenhum.

É esse par de taxas que estraga a comparação internacional. A força-tarefa americana publica incidência ajustada por idade de 11,4 casos por 100 mil mulheres por ano entre 2010 e 2014. Colocar esse 11,4 ao lado do 7,33 brasileiro é comparar uma taxa ajustada com uma bruta; ao lado do 5,22, a comparação já é entre taxas do mesmo tipo, ainda que padronizadas por populações de referência distintas. O enunciado que oferece a diferença entre 11,4 e 7,33 como prova de maior incidência nos Estados Unidos está pedindo exatamente esse erro.

A distribuição interna também engana. As taxas regionais brasileiras são de 8,05 no Sudeste, 7,55 no Sul, 7,43 no Nordeste, 6,10 no Centro-Oeste e 4,30 no Norte, por 100 mil mulheres. A taxa nacional, 7,33, é menor que a de três das cinco regiões. Não há contradição: a taxa do país é média ponderada pela população, e as duas regiões abaixo dela puxam o resultado para baixo o bastante para deixá-lo sob o Sudeste, o Sul e o Nordeste.

Na mortalidade, o Brasil registrou 4.444 óbitos por câncer de ovário em 2023, com risco estimado de 4,1 mortes por 100 mil mulheres. O relatório em consulta pública traz o dado de 2020: 3.920 óbitos e 3,62 por 100 mil. As Diretrizes de 2019, mais antigas, falavam em 3.283 a 3.526 mortes e estimavam 6.150 casos novos para aquele ano — a série mostra incidência e mortalidade subindo, o que é coerente com envelhecimento populacional e não com piora de tratamento.

As frações de hereditariedade fecham quando se olha o denominador

O tema traz um conjunto de percentuais de mutação que parecem se contradizer e não se contradizem: eles se encaixam quando se identifica o denominador de cada um.

As Diretrizes de 2019 dizem que as pacientes com câncer de ovário hereditário representam em torno de 18% das diagnosticadas, e que cerca de 80% a 85% das mulheres com mutação apresentam mutação germinativa em BRCA1 ou BRCA2. O protocolo em consulta diz que 18% dos casos estão associados a mutação germinativa e que mutações em BRCA1 e BRCA2 são observadas em até 15% das pacientes.

A aritmética fecha. Dezoito por cento multiplicados por 80% dão 14,4%; por 85%, dão 15,3%. O intervalo de 14,4% a 15,3% contém exatamente o até 15% do protocolo em consulta. Os dois documentos estão dizendo a mesma coisa com denominadores diferentes: 18% é sobre todas as pacientes com câncer de ovário e cobre qualquer gene germinativo; 15% é sobre todas as pacientes e cobre só os dois genes BRCA.

Já o risco vitalício das portadoras varia de verdade entre os documentos, e aqui a variação é grande. As Diretrizes de 2019 falam em riscos cumulativos vitais entre 8% e 62% para BRCA1 e BRCA2 tomados juntos. O protocolo em consulta separa: 40% a 45% em BRCA1 e 15% a 20% em BRCA2. O documento da Febrasgo separa também, com números próximos: 39% a 46% em BRCA1 e 11% a 27% em BRCA2. Quando o enunciado pede o risco de uma portadora de BRCA1, a resposta esperada é da ordem de 40%, não a faixa larga de 8% a 62%, que só existe porque junta os dois genes.

A conduta que decorre disso e cai como alternativa é a salpingectomia oportunística — retirar as tubas no momento da ligadura tubária ou de uma histerectomia por doença benigna —, apresentada pela Febrasgo como cirurgia de baixo risco e eficaz para profilaxia. A racional é a mesma que motivou a revisão do estadiamento: o carcinoma seroso de alto grau nasce no epitélio tubário, não no ovário.

04

Ler a massa anexial na ordem em que a decisão acontece

Quase toda questão do tema se resolve identificando primeiro qual das quatro saídas o enunciado está pedindo — alta, retorno com prazo, cirurgia no serviço geral ou encaminhamento à oncologia ginecológica — e, em seguida, qual documento responde por aquela saída.

  1. 11. A mulher está assintomática e sem massa? Então a pergunta é sobre rastreamento, e a resposta é não rastrear — grau D, com a exceção nominal das portadoras de síndrome hereditária de alto risco conhecida.
  2. 22. Há massa. Qual o estado menopausal? Defina antes de olhar qualquer número: ele escolhe a régua de tamanho, o corte do marcador e o peso do índice.
  3. 33. Classifique a lesão pelas seis linhas do quadro de risco — idade, história familiar, sintomas, exame clínico, marcadores e ultrassonografia — e não por uma linha só. Idade acima de 50 anos, isolada, não encaminha.
  4. 44. Cisto simples de baixo risco? Aplique a faixa do lado certo da menopausa: na menacme, menos de 5 cm dispensa seguimento; na pós-menopausa, de 1 cm a menos de 5 cm faz reavaliação em quatro a seis meses.
  5. 55. Massa complexa, suspeita ou persistente? Estime o risco por um instrumento formal e verifique os gatilhos de encaminhamento. Um gatilho basta.
  6. 66. Encaminhou? Quem opera é o ginecologista oncológico, e o estadiamento é cirúrgico. Confira qual sistema FIGO o enunciado está usando antes de nomear o estádio.
  7. 77. Malignidade descoberta depois, em cirurgia não oncológica? Reavaliar o caso, discutir complementação de estadiamento e encaminhar — não fechar a conduta com o que já foi feito.

A pergunta que abre o caso

Estado menopausal, porque ele muda o corte de CA-125, o limiar de tamanho do cisto simples, o peso no índice de risco e a probabilidade de malignidade. Pré e pós-menopausa não são duas versões da mesma régua: são duas réguas.

Os quatro gatilhos de encaminhamento

Elevação de CA-125, ultrassonografia com características de malignidade, ascite, massa pélvica nodular ou fixa ou evidência de metástase — e, em linha própria, risco aumentado por teste formal. Basta um.

O que o CA-125 não faz

Não rastreia, não diagnostica e não afasta. Está normal em metade ou mais dos cânceres iniciais e sobe em endometriose, doença inflamatória pélvica, gravidez, menstruação e cistos benignos.

O alvo do encaminhamento

Citorredução ótima: ressecção completa das lesões visíveis ou, no máximo, 1 cm de doença residual. O tumor residual é o preditor mais importante de sobrevida global nas Diretrizes de 2019.

A trava técnica que vira alternativa errada

Evitar extravasamento do conteúdo cístico e não puncionar cisto na pós-menopausa. A ruptura pode mudar o estadiamento de um caso inicial e levar à quimioterapia adjuvante só por esse motivo.

O mesmo achado cirúrgico em dois sistemas de estadiamento

Achado na cirurgiaDiretrizes de 2019 (norma em vigor)Revisão FIGO de 2014 (protocolo em consulta)
Tumor em um ovário, cápsula rota antes da cirurgiaICIC2
Tumor restrito ao ovário, células malignas no lavado peritonealICIC3
Extensão pélvica com citologia peritoneal positivaIICIIA ou IIB (a citologia não qualifica o II)
Linfonodo retroperitoneal positivo isolado, metástase de 8 mmIIICIIIA1(i)
Linfonodo retroperitoneal positivo isolado, metástase de 14 mmIIICIIIA1(ii)
Implante peritoneal extrapélvico microscópicoIIIAIIIA2
Implante peritoneal extrapélvico macroscópico de 1,5 cmIIIBIIIB
Derrame pleural com citologia positivaIVIVA
Metástase parenquimatosa hepáticaIVIVB

Índice de risco de malignidade: o CA-125 que faz o escore passar de 200

Estado menopausalAchados anormais na ultrassonografiaProduto dos dois fatoresCA-125 necessário para o índice passar de 200
Pré-menopausaUm achado1Acima de 200 U/mL
Pré-menopausaMais de um achado3Acima de 66,7 U/mL
Pós-menopausaUm achado3Acima de 66,7 U/mL
Pós-menopausaMais de um achado9Acima de 22,2 U/mL — dentro da faixa de referência
QualquerNenhum achado anormalNão pontuado no texto publicadoSem valor de corte: parcela nula anularia o produto

Cisto simples assintomático: as faixas de cada lado da menopausa

DiâmetroPré-menopausaPós-menopausa
Menor que 1 cmSem seguimentoAbaixo do limiar: sem seguimento
De 1 cm a menos de 5 cmSem seguimentoConduta conservadora, reavaliar em 4 a 6 meses; alta em 1 ano se estável e marcador normal
De 5 cm a 7 cmSeguimento anual por ultrassonografiaFora da faixa conservadora: avaliação cirúrgica
Maior que 7 cmRessonância ou intervenção cirúrgicaAvaliação cirúrgica

As fontes do tema e o que cada uma decide

DocumentoEstado normativoDecide
Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas, 2019Norma em vigor (Portaria Conjunta nº 01/2019)Estadiamento usado no SUS, cirurgia-padrão, citorredução ótima, seguimento
Protocolo em consulta pública nº 84, 2026Versão preliminar, ainda não é normaEstadiamento FIGO de 2014, corte de CA-125 na pós-menopausa, epidemiologia atualizada
Febrasgo, posicionamento de 2020Documento de sociedadeQuadro de risco, índice de risco de malignidade, faixas do cisto simples, encaminhamento, congelação
Força-tarefa americana, 2018Recomendação de rastreamentoGrau D contra rastrear assintomáticas sem síndrome hereditária conhecida
Estimativa 2026–2028Publicação oficial de incidênciaCasos novos, taxa bruta e taxa ajustada, mortalidade

O corte de 200 U/mL aparece duas vezes no mesmo documento com sentidos distintos: como valor de CA-125 que aciona avaliação conjunta com a oncologia na pré-menopausa, e como limiar do índice de risco de malignidade. Eles coincidem porque, na pré-menopausa com um único achado ultrassonográfico anormal, o índice é igual ao próprio valor do marcador.

Sensibilidade e especificidade do CA-125 são publicadas para populações diferentes em cada documento. Antes de aceitar um número, verifique se ele fala de doença inicial, de todos os estádios ou do desempenho em série de massas anexiais.

Painel germinativo — desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica — é para mulheres com menos de 40 anos e massa complexa. Em mulher na pós-menopausa, o marcador da linhagem epitelial é o CA-125.

A recomendação de grau D é sobre rastreamento. Investigar sintoma é diagnóstico precoce, não rastreamento, e não está proibido em idade nenhuma.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Que sistema de estadiamento vale para a paciente brasileira

Sistema anterior a 2014, com IIC e sem IIIA1

O estádio II tem IIA, IIB e IIC, este definido por células malignas na ascite ou no lavado. O IIIA é o implante peritoneal microscópico além da pelve; o IIIC reúne implantes maiores que 2 cm e metástase em linfonodos regionais. IC e IV não têm subdivisão.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas de Neoplasia Maligna Epitelial de Ovário, item 3.4, aprovadas pela Portaria Conjunta nº 01, de 7 de janeiro de 2019 — norma em vigor

Revisão FIGO de 2014, com IC1–IC3, IIIA1 e IVA/IVB

O IC se divide em derramamento cirúrgico, cápsula rota antes da cirurgia e citologia positiva. O II perde a letra C. O linfonodo retroperitoneal positivo isolado vira IIIA1, subdividido por metástase de até 10 mm e maior que 10 mm. O IV se parte em derrame pleural com citologia positiva e metástase parenquimatosa ou extra-abdominal.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Neoplasia Maligna Epitelial de Ovário, Quadro 3, versão preliminar em consulta pública nº 84 da Conitec, agosto de 2026

Na prova

A pista está nas alternativas, não no enunciado. Se alguma alternativa oferece IIC, ou trata linfonodo positivo isolado como IIIC, o avaliador está lendo a portaria brasileira em vigor. Se aparecem IC1, IC3, IIIA1(i) ou IVB, está lendo a revisão de 2014. Um mesmo achado cirúrgico tem duas respostas certas, uma em cada sistema, e a que vale é a do sistema que a prova colocou nas opções.

Que valor de CA-125 aciona a avaliação oncológica

Acima de 35 U/mL, dito para a pós-menopausa

O quadro de exames para avaliação diagnóstica define o achado do CA-125 como elevação acima de 35 U/mL em mulheres na pós-menopausa, com a ressalva de que na fase reprodutiva condições benignas elevam o marcador e reduzem a especificidade.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Neoplasia Maligna Epitelial de Ovário, Quadro 1, versão preliminar em consulta pública nº 84 da Conitec, agosto de 2026

Acima de 200 U/mL, dito para a pré-menopausa

Não é necessário dosar CA-125 em toda mulher na pré-menopausa com cisto ovariano simples; nos casos em que o marcador for superior a 200 unidades por mililitro, recomenda-se a avaliação conjunta com a oncologia ginecológica.

Febrasgo Position Statement nº 1 — Massa anexial: diagnóstico e manejo. Femina. 2020;48(7):391-7

Na prova

Os dois cortes não competem: eles atendem populações diferentes e deixam descoberta a mulher na pré-menopausa com marcador entre 35 e 200. Quando a vinheta coloca a paciente nesse vão, o avaliador está perguntando pelo resto do quadro — imagem, ascite, massa fixa, história familiar, escore formal —, e não pelo número. Reconhecer que nenhum corte decide o caso é o que separa quem leu os documentos de quem decorou um limiar.

Que fração dos cânceres iniciais tem CA-125 elevado

De 50% a 60%

O biomarcador tem sensibilidade entre 50% e 60% e especificidade de 90% em mulheres em estágios precoces da doença.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas de Neoplasia Maligna Epitelial de Ovário, item 3.3, Ministério da Saúde, 2019

Menos da metade

O CA-125 está elevado em menos da metade das mulheres com carcinoma ovariano inicial, e pode estar elevado em condições benignas da pré-menopausa.

Febrasgo Position Statement nº 1 — Massa anexial: diagnóstico e manejo. Femina. 2020;48(7):391-7

Apenas 50%

Como apenas 50% dos cânceres epiteliais de ovário em estágio inicial apresentam níveis aumentados de CA-125, essa dosagem não tem sensibilidade e especificidade nesses estágios.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Neoplasia Maligna Epitelial de Ovário, item 4.2, versão preliminar em consulta pública nº 84 da Conitec, agosto de 2026

Na prova

Nenhuma prova cobra a diferença entre 50% e 'menos da metade'. O que ela cobra é a consequência comum às três posições: marcador normal não afasta câncer de ovário inicial. Quando a alternativa disser que CA-125 dentro da referência exclui malignidade, ela contraria os três documentos ao mesmo tempo — e essa é a única leitura que precisa estar pronta.

Qual é o risco de câncer de ovário ao longo da vida na população geral

Um em setenta, ou cerca de 1,5%

O risco de câncer de ovário ao longo da vida é de um em setenta, e o risco populacional para desenvolvimento da doença é de aproximadamente 1,5%, contra os riscos muito maiores das portadoras de mutação germinativa.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas de Neoplasia Maligna Epitelial de Ovário, item 1, Ministério da Saúde, 2019

Cerca de 1,3%

O risco vitalício para o desenvolvimento de câncer epitelial de ovário é de cerca de 1,3%, aumentando para 40% a 45% em portadoras de mutação em BRCA1 e para 15% a 20% em portadoras de mutação em BRCA2.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Neoplasia Maligna Epitelial de Ovário, item 1, versão preliminar em consulta pública nº 84 da Conitec, agosto de 2026

Na prova

A diferença entre 1,3% e 1,5% nunca decide alternativa; o que decide é a ordem de grandeza contra a das portadoras. Quando o enunciado pede o risco de uma portadora de mutação em BRCA1, a resposta esperada é da ordem de 40%, e não a faixa larga de 8% a 62% que o documento de 2019 publica — aquela faixa junta os dois genes num intervalo só e não serve para responder sobre um deles.

06

Caso resolvido

Mulher de 57 anos, na pós-menopausa há 6 anos, chega ao ambulatório de ginecologia com achado incidental em ultrassonografia pedida por queixa urinária. Refere empachamento e desconforto abdominal vago há cerca de 2 meses, sem perda de peso. Nunca gestou. Mãe teve câncer de mama aos 58 anos; nega câncer de ovário na família. Ao exame: bom estado geral, índice de massa corporal 27 kg/m², abdome sem ascite detectável, sem massa palpável, toque vaginal com anexo direito espessado e móvel, sem nodulação em fundo de saco. Ultrassonografia transvaginal: massa anexial direita de 6,2 cm, multilocular, com septação espessa e um pequeno componente sólido vascularizado ao Doppler; ausência de líquido livre. CA-125 de 30 U/mL, com valor de referência até 35 U/mL. Hemograma e função renal normais.
achado
A lesão não é um cisto simples. Multilocularidade, septação espessa e componente sólido vascularizado são três das características que o quadro de risco lista na coluna de alto risco; o tamanho, 6,2 cm, está abaixo dos 10 cm e por essa linha isolada seria baixo risco. Idade acima de 50 anos aponta alto risco. Sintomas persistentes por 2 meses, também. História familiar de câncer de mama entra na anamnese como fator a valorizar, ainda que não seja câncer de ovário em parente de primeiro grau.
conta
O índice de risco de malignidade não se importa com o marcador estar normal. O escore ultrassonográfico vale 3, porque há mais de um achado anormal; o estado menopausal vale 3, porque ela está na pós-menopausa; o CA-125 entra com o valor absoluto, 30. O índice é 3 vezes 3 vezes 30, ou seja, 270 — acima do corte de 200. Era previsível: com produto 9, qualquer CA-125 acima de 22,2 U/mL já cruza o limiar, e 22,2 está dentro da faixa de referência do laboratório.
interpretação
O laudo de CA-125 normal é o que a vinheta usa para tentar tranquilizar o candidato, e ele não tranquiliza ninguém: metade ou mais dos cânceres iniciais tem marcador dentro da referência, e o índice de risco já está acima do corte. Além disso, um dos gatilhos de encaminhamento é justamente risco aumentado em teste formal — uma linha que existe exatamente para casos como este, sem ascite, sem massa fixa e sem marcador elevado.
conduta
Encaminhamento à oncologia ginecológica para avaliação cirúrgica com estadiamento, sem punção e sem tentativa de aspiração. Se a cirurgia for por via minimamente invasiva, o espécime sai em bolsa de recuperação, sem extravasamento — ruptura em caso inicial pode mudar o estádio e trazer quimioterapia adjuvante por essa razão isolada. A biópsia por congelação é recomendada quando disponível e desejada, com a ressalva de que laudo borderline não autoriza radicalidade imediata.
o que não fazer
Repetir marcador e imagem em 3 a 6 meses — a lesão é complexa e o índice está acima do corte. Pedir painel germinativo com desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica — esse painel é para mulheres com menos de 40 anos e massa complexa. Prescrever contraceptivo oral para supressão — conduta de cisto funcional na menacme. E operar no serviço geral sem envolver o oncologista, quando a diferença de desfecho de quem opera é justamente o argumento do encaminhamento.
07

Agora feche você

Duas mulheres são atendidas na mesma manhã com achado ultrassonográfico incidental, ambas assintomáticas, ambas sem história familiar de câncer de mama ou de ovário, ambas com exame físico e toque vaginal normais, sem ascite e sem massa palpável. A primeira tem 50 anos completos, ainda menstrua regularmente, e a ultrassonografia transvaginal mostra cisto anexial esquerdo de 4,0 cm, unilocular, anecoico, de paredes finas e regulares, sem septação, sem componente sólido, sem projeção papilar e sem fluxo ao Doppler. A segunda tem 63 anos, está na pós-menopausa há 12 anos, e a ultrassonografia mostra cisto anexial direito de exatamente 5,0 cm, também unilocular, anecoico, de paredes finas e regulares, sem septação, sem componente sólido, sem papila e sem fluxo. Nenhuma das duas trouxe dosagem de CA-125.
Classifique a primeira pelas seis linhas do quadro de risco
Diga o que cada linha aponta — idade, história familiar, sintomas, exame clínico, marcadores e ultrassonografia — e identifique qual delas o quadro não resolve para uma mulher de 50 anos completos. Explique por que isso não muda a conduta.
Decida o seguimento da primeira
Aplique a faixa de tamanho que vale para a menacme e diga se ela precisa de nova ultrassonografia, com que prazo, e se é necessário dosar CA-125 numa mulher na pré-menopausa com cisto simples.
Situe a segunda entre os dois limiares da pós-menopausa
Escreva os dois números que o documento publica para o cisto simples depois da menopausa, mostre as três faixas que resultam de lê-los juntos e diga em qual delas cai um cisto de exatamente 5,0 cm — e o que falta no caso para poder decidir.
Nomeie o que muda entre as duas
As imagens são quase idênticas. Diga qual variável separa as condutas e por que ela pesa em três lugares diferentes do tema: no limiar de tamanho, no corte do marcador e no índice de risco de malignidade.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir CA-125 e ultrassonografia como rastreamento em mulher assintomática É a alternativa errada mais frequente do tema, e ela é recusada pelos quatro documentos ao mesmo tempo. A recomendação americana é de grau D em assintomáticas sem síndrome hereditária conhecida; a portaria brasileira diz que a associação de marcador com ultrassonografia transvaginal não é prática indicada como rotina; o protocolo em consulta afirma que não há programa de saúde pública de rastreamento; e o posicionamento de sociedade registra que a literatura não embasa o rastreamento de rotina. Investigar sintoma persistente, porém, não é rastrear — é diagnóstico precoce, e não está proibido.
  2. 2Tratar CA-125 normal como exclusão de câncer Metade ou mais dos cânceres epiteliais em estágio inicial cursa com marcador dentro da referência, segundo as três fontes que publicam o número. Um CA-125 de 20 U/mL numa mulher na pós-menopausa com massa anexial de componente sólido, papila e ascite não muda nada: os gatilhos de encaminhamento são independentes, e um só já basta. E, pelo índice de risco de malignidade, essa mesma paciente com dois achados anormais já cruza o corte de 200 com CA-125 acima de 22,2 U/mL.
  3. 3Puncionar ou aspirar o cisto para citologia A punção aspirativa não é recomendada na abordagem de cistos ovarianos em mulheres na pós-menopausa, exceto para controle de sintomas em doença avançada sem candidatura cirúrgica. O extravasamento de conteúdo deve ser evitado sempre, porque a avaliação pré e intraoperatória não exclui malignidade em absoluto, e a ruptura pode alterar o estadiamento de um caso inicial — e levar à indicação de quimioterapia adjuvante apenas por esse motivo. A alternativa que oferece citologia por punção de massa suspeita erra por biologia, não por preferência de escola.
  4. 4Somar a idade como se ela sozinha encaminhasse O quadro de estratificação tem seis linhas, e a idade é uma delas. Idade acima de 50 anos não figura em nenhuma das três linhas de encaminhamento à oncologia ginecológica; o que figura é elevação de marcador, imagem com características de malignidade, ascite, massa nodular ou fixa, metástase, ou risco aumentado em teste formal. E a mulher com exatamente 50 anos não está nem acima nem abaixo do corte que o quadro escreveu, o que só reforça que a decisão vem do conjunto.
  5. 5Aplicar a faixa da menacme ao cisto da pós-menopausa Cisto simples de 3 cm recebe alta sem seguimento na mulher de 35 anos e reavaliação em quatro a seis meses na de 62. A imagem é a mesma; o limiar que muda é o de 1 cm da pós-menopausa contra os 5 cm da menacme. O erro inverso também cai: mandar para cirurgia um cisto simples de 4 cm na pós-menopausa, quando o documento o coloca em conduta conservadora com marcador normal.
  6. 6Fechar a cirurgia radical sobre um laudo de congelação borderline A congelação tem especificidade média de 99,5%, e um laudo de câncer invasivo se confirma em média em 99% dos casos. Mas o laudo de tumor borderline vira câncer invasivo na parafina em média em 21% das vezes — um em cada cinco. Diante desse resultado, a conduta publicada é retirar apenas a massa sem ruptura, aguardar a parafina e decidir depois, e não avançar para a radicalidade dentro da mesma sala.
  7. 7Reiniciar tratamento por elevação isolada de CA-125 no seguimento Um ensaio com 1.442 pacientes em remissão comparou tratar pela elevação do marcador com tratar ao surgir sintoma ou progressão radiológica: não houve diferença em sobrevida global, e quem tratou cedo teve pior qualidade de vida. A alternativa que manda reiniciar quimioterapia na paciente assintomática só porque o marcador subiu contraria a própria portaria brasileira, que também mantém a cirurgia de revisão programada como contraindicada de modo geral.
  8. 8Comparar a taxa bruta brasileira com a taxa ajustada estrangeira O 7,33 por 100 mil mulheres publicado para o Brasil é taxa bruta; a taxa ajustada do mesmo documento é 5,22. O 11,4 por 100 mil da fonte americana é ajustado por idade. Colocar 11,4 ao lado de 7,33 e concluir alguma coisa sobre diferença de incidência entre os dois países é comparar taxas de tipos diferentes. E aplicar a taxa ajustada à população real para estimar casos produz um número que não corresponde a paciente nenhuma.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor pélvica súbita e intensa com ovário aumentado/edemaciado, massa anexial e redução do fluxo ao Doppler configuram torção anexial, emergência cirúrgica (correta). Apendicite costuma ter febre, migração periumbilical e ovário normal ao ultrassom. DIP cursa com febre, corrimento e dor à mobilização do colo. Ectópica exige gestação (a paciente usa ACO e não há saco gestacional). Cisto hemorrágico não complicado não reduz fluxo ovariano nem edemacia o ovário dessa forma.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as seis linhas do quadro de estratificação de risco e diga qual delas deixa a mulher de 50 anos completos sem classe. Depois, monte a tabela das quatro combinações do índice de risco de malignidade e calcule, para cada uma, o CA-125 mínimo que faz o escore passar de 200 — e diga qual dessas combinações cruza o corte com marcador dentro da faixa de referência. Por fim, escreva as três faixas de tamanho do cisto simples na pré-menopausa e as três da pós-menopausa, e diga a conduta para um cisto simples de 3 cm em cada lado da menopausa.

em 30 dias

Reproduza a tabela de correspondência entre os dois sistemas de estadiamento para cinco achados cirúrgicos, incluindo o linfonodo retroperitoneal positivo isolado e a citologia peritoneal positiva com extensão pélvica. Liste os gatilhos de encaminhamento à oncologia ginecológica, incluindo a linha do teste formal que vale para os dois estados menopausais. Recite os números do rastreamento — mortalidade nos três braços do ensaio britânico, o resultado do ensaio americano com o intervalo de confiança, a proporção de cirurgia por falso-positivo e o teto de complicação maior — e refaça a conta que compara o dano com a diferença nominal de mortalidade. Feche com os números da congelação, incluindo a fração de laudos borderline que viram câncer invasivo na parafina.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 61 anos chega ao ambulatório com um laudo de ultrassonografia na mão, pedido por outro motivo, que descreve massa anexial. Está assintomática, preocupada, e diz que uma amiga faz "exame de sangue para câncer de ovário todo ano" e quer saber se deveria fazer também. Conduza a consulta: colha a história que muda o risco, examine, decida quais exames pedir e explique a ela, sem jargão, por que rastrear não é o mesmo que investigar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Câncer de ovário e massa anexial — Preparatório para provas | OsceLabs