Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Anemia ferropriva

A anemia mais comum do mundo e o diferencial que a prova cobra: separar ferropriva de traço talassêmico com três números do próprio hemograma. Do corte de hemoglobina à dose de ferro e ao momento de olhar o tubo digestivo.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 28 anos, com menorragia crônica, queixa-se de cansaço progressivo e queda de cabelo. Ao exame: PA 110/70 mmHg, FC 92 bpm, mucosas hipocoradas (++/4+), coiloníquia. Hemograma: Hb 8,4 g/dL, VCM 72 fL (VR 80–100), HCM 24 pg, RDW 17%. Qual o diagnóstico mais provável?

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Como esse tema cai

Este capítulo resolve uma pergunta e uma só: chegou um hemograma com VCM baixo — o que é, e o que você faz. Ferropriva é a resposta na maioria esmagadora das vezes, e por isso ela ocupa o centro; mas a questão de prova quase nunca é "isto é ferropriva?". É "isto é ferropriva ou traço talassêmico?", e a diferença entre acertar e errar mora em três números do próprio hemograma que quase ninguém olha: o RDW, a contagem de hemácias e a relação entre elas.

Os cortes usados aqui são os da OMS 2024 para hemoglobina e os da OMS 2020 para ferritina, que são exatamente os que a Sociedade Brasileira de Pediatria reproduziu na diretriz de março de 2026. Para conduta em adulto no SUS, a referência é o PCDT do Ministério da Saúde (Portaria SAS/MS nº 1.247/2014), que define quem entra no protocolo, com que dose e por quanto tempo. Para prevenção no lactente, o esquema é o do Programa Nacional de Suplementação de Ferro, que mudou em 2022 e foi incorporado pela SBP em 2026 — essa mudança ainda não chegou a boa parte do material de cursinho e é candidata forte a questão.

O que fica de fora: anemias macrocíticas, hemoglobinopatias sintomáticas (doença falciforme, talassemia maior), anemia da doença renal crônica com uso de eritropoetina e a indicação transfusional detalhada. Talassemia entra aqui apenas na medida em que o traço é o grande diferencial da microcitose — o manejo da doença talassêmica é outro capítulo.

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O que muda decisão

A ferropriva começa muito antes da anemia

A deficiência de ferro é um processo em três degraus, e a anemia é o último. Primeiro esvaziam-se os estoques: a ferritina cai e mais nada muda — hemoglobina normal, VCM normal, ferro sérico normal. Depois vem o comprometimento do ferro circulante: o ferro sérico cai, a transferrina sobe (e com ela a capacidade total de ligação do ferro, a TIBC), a saturação de transferrina despenca, mas a hemoglobina ainda resiste. Só no terceiro degrau a medula perde a briga e aparece a anemia microcítica e hipocrômica. Essa sequência é a razão de a ferritina ser o exame que diagnostica cedo, e de o hemograma ser o exame que diagnostica tarde.

Dentro do hemograma existe uma ordem parecida. O primeiro índice a se alterar não é o VCM: é o RDW. Enquanto a medula ainda produz algumas hemácias com ferro suficiente e já começa a produzir outras sem, a população fica heterogênea — hemácias de tamanhos diferentes convivendo. O RDW sobe. Só depois, quando a maioria das células novas nasce pequena, o VCM médio cai. É por isso que anemia com RDW alto e VCM ainda no limite inferior é uma ferropriva em construção, e é por isso que RDW normal em microcitose acentuada deveria acender uma luz vermelha: uma medula que produz células pequenas e uniformes não está faltando ferro, está seguindo uma instrução genética.

Clinicamente, a deficiência de ferro sem anemia já produz sintoma — e isso é cobrado. Fadiga desproporcional, queda de desempenho físico e cognitivo, irritabilidade e síndrome das pernas inquietas aparecem com ferritina baixa e hemoglobina normal. Há ainda sinais que praticamente só existem aqui: a pica (vontade de comer terra, barro, papel, amido) e, especialmente, a pagofagia — o desejo compulsivo de mastigar gelo — que é quase específica de ferropenia e desaparece em dias com a reposição, antes de qualquer mudança na hemoglobina. No exame físico procura-se palidez de mucosas e conjuntivas, glossite com atrofia das papilas linguais, queilite angular, coiloníquia (unha em colher) e queda de cabelo. Em idosos, a apresentação costuma ser indireta: piora de angina, dispneia ou confusão mental, sem que ninguém pense em anemia.

O regulador de tudo isso é a hepcidina, hormônio hepático que se liga à ferroportina — a única porta de saída do ferro do enterócito e do macrófago — e a degrada. Hepcidina alta significa ferro trancado dentro das células e menos ferro no plasma. A inflamação eleva a hepcidina; é esse o mecanismo da anemia da inflamação, e é também por isso que um paciente inflamado absorve mal o ferro oral. Guarde esse eixo: ele explica a anemia de doença crônica, explica por que a ferritina engana no paciente inflamado e explica por que doses muito altas ou muito frequentes de ferro oral rendem menos do que se espera.

Ilustração do metabolismo do ferro: absorção pelo enterócito, armazenamento em ferritina, exportação pela ferroportina bloqueada pela hepcidina de origem hepática e transporte pela transferrina até a medula óssea.
O eixo hepcidina–ferroportina. A hepcidina hepática fecha a única porta de saída do ferro. Quando a inflamação a eleva, o ferro fica retido no enterócito e no macrófago: ferro sérico baixo com estoques cheios — a assinatura da anemia da inflamação.

Corte de hemoglobina: os números da OMS 2024

Anemia é hemoglobina abaixo do corte para idade, sexo e estado gestacional. A OMS revisou esses cortes em 2024, a primeira revisão de fundo desde 1968, e a SBP incorporou a tabela na diretriz de 2026. Decore assim: crianças de 6 a 23 meses, Hb < 10,5 g/dL; de 24 a 59 meses, < 11,0; de 5 a 11 anos, < 11,5; de 12 a 14 anos, < 12,0. A partir dos 15 anos, mulheres não gestantes < 12,0 e homens < 13,0. Na gestação, < 11,0 no primeiro trimestre, < 10,5 no segundo e < 11,0 no terceiro.

Duas coisas mudaram e são justamente as que geram questão. A primeira: o corte dos 6 aos 23 meses caiu de 11,0 para 10,5 g/dL — a faixa de 24 a 59 meses permaneceu em 11,0. Quem estudou pela tabela antiga classifica como anêmico um lactente de 10,7 g/dL que hoje não é. A segunda: o segundo trimestre da gestação tem corte próprio de 10,5 g/dL, mais baixo que o do primeiro e o do terceiro, porque a expansão do volume plasmático dilui a hemoglobina fisiologicamente naquele período. Gestante de 10,8 g/dL no segundo trimestre não tem anemia; a mesma gestante com o mesmo valor no terceiro trimestre tem.

Dois ajustes precisam ser feitos antes de aplicar o corte. Altitude: acima de 1.000 metros a hemoglobina sobe fisiologicamente, e a OMS publica correções progressivas por faixa de 500 metros — abaixo de 500 metros o ajuste é zero, e ele cresce até 33 g/L nas maiores altitudes. Tabagismo: fumantes têm hemoglobina mais alta, e desconta-se 3 g/L para quem fuma menos de 10 cigarros por dia ou quantidade desconhecida, 5 g/L de 10 a 19, e 6 g/L acima de 20. Em ambos os casos o ajuste é subtrativo — você abaixa a hemoglobina medida antes de compará-la ao corte, para não deixar de diagnosticar anemia em quem mora alto ou fuma.

Um alerta que vale nota: o PCDT brasileiro de 2014 ainda trabalha com os cortes antigos da OMS (crianças de 6 a 59 meses com Hb < 11,0 g/dL, por exemplo) e acrescenta cortes próprios para idosos, com distinção por cor da pele — homens brancos < 13,2 e negros < 12,7; mulheres brancas < 12,2 e negras < 11,5 g/dL. Isso não é erro do protocolo, é defasagem: ele é de 2014 e a revisão da OMS é de 2024. Se o enunciado citar explicitamente o PCDT ou os critérios de dispensação do SUS, responda pelo PCDT; se falar em definição de anemia sem amarrar a fonte, responda pela OMS 2024.

Corte de VCM: microcitose não é o mesmo número em toda idade

No adulto, microcitose é VCM abaixo de 80 fL, e hipocromia é HCM abaixo de 27 pg. Esse par de números é convenção consolidada de laboratório e de livro-texto, não sai de diretriz, e serve bem dos 15 anos em diante.

Em criança, aplicar 80 fL é erro grosseiro — e é uma pegadinha frequente. O VCM fisiológico do lactente é baixo. A tabela de referência da diretriz SBP 2026 dá os limites inferiores (média menos dois desvios-padrão) por faixa: 70 fL dos 6 aos 24 meses, 75 fL dos 2 aos 6 anos, 77 fL dos 6 aos 12 anos e 78 fL dos 12 aos 18 anos. Ou seja, um VCM de 74 fL é claramente baixo num adulto, absolutamente normal num lactente de 10 meses e limítrofe numa criança de 4 anos.

A regra prática que resolve isso na hora da prova, quando a tabela não está disponível: o limite inferior de VCM em pediatria é aproximadamente 70 + a idade em anos, com teto em 80 fL. Ela reproduz bem os valores da tabela da SBP e evita o erro de rotular como microcítico um hemograma normal para a idade.

Vale registrar a mesma lógica para a hemoglobina do recém-nascido e do lactente jovem, porque o enunciado às vezes usa isso como distrator. O recém-nascido a termo tem Hb média de 18 g/dL com limite inferior de 15; aos 2 meses a média já caiu para 11,5 g/dL com limite inferior de 9,0 — é o nadir fisiológico, a chamada anemia fisiológica do lactente, que não se trata com ferro. Confundir o nadir fisiológico dos 2 aos 3 meses com ferropriva e prescrever ferro terapêutico é erro conceitual, não de dose.

Ferritina: o número que confirma, o número que exclui e o que a inflamação faz com os dois

Ferritina baixa é o achado mais específico que existe em toda a hematologia de rotina: não há situação clínica em que ferritina baixa signifique outra coisa que não deficiência de ferro. O problema nunca foi a especificidade — é a sensibilidade, e é a inflamação.

Os cortes da OMS (2020) são: ferritina < 12 mcg/L confirma deficiência de ferro em crianças menores de 5 anos, e < 15 mcg/L dos 5 anos em diante, incluindo adolescentes, adultos, idosos e gestantes no primeiro trimestre. Esses são cortes de altíssima especificidade — abaixo deles o diagnóstico está feito e não precisa de mais nada. O preço é a sensibilidade baixa: o próprio PCDT registra que ferritina abaixo de 10 a 15 ng/mL tem sensibilidade de apenas 59%, com especificidade de 99%, e conclui explicitamente que "um valor de corte mais alto é mais apropriado".

Por isso, na clínica e no SUS, o número operacional é outro. O PCDT define como critério de inclusão no protocolo a ferritina abaixo de 30 ng/mL, associada à hemoglobina abaixo do corte para idade e sexo. Adote 30 mcg/L como o corte de trabalho no paciente sem inflamação: abaixo disso, trate; acima disso, sem inflamação, ferropenia como causa da anemia é improvável e você deve procurar outro diagnóstico.

A inflamação vira o jogo porque a ferritina é proteína de fase aguda: ela sobe com infecção, doença inflamatória, neoplasia, hepatopatia e obesidade, independentemente do estoque de ferro. Um paciente pode ter ferritina de 60 mcg/L e estar de fato ferropênico. A consequência prática é uma regra que não admite exceção: toda ferritina deve vir acompanhada de um marcador inflamatório — proteína C reativa, e essa é a razão de o trio pedido pela SBP ser hemograma + ferritina + PCR, nunca ferritina isolada.

Com PCR elevada, a OMS eleva os cortes: ferritina < 30 mcg/L confirma deficiência de ferro em menores de 5 anos, e < 70 mcg/L dos 5 anos em diante. O PCDT brasileiro chega quase ao mesmo lugar por outro caminho: em doença inflamatória, infecciosa, maligna ou hepática, ele manda dividir a ferritina por 3 e considerar deficiência se o resultado for ≤ 20 ng/mL — o que equivale, na prática, a um corte de cerca de 60 ng/mL. Setenta e sessenta são o mesmo número para efeito de decisão clínica, e essa convergência entre a OMS e o Ministério da Saúde é a melhor justificativa para adotar o corte alto sem hesitação.

Quando a ferritina fica na zona cinzenta, quem decide é a saturação de transferrina, calculada como ferro sérico dividido pela TIBC, vezes 100. Abaixo de 20% ela apoia deficiência de ferro; é o corte que o PCDT usa explicitamente ao descrever o perfil laboratorial da doença. Dois cuidados: ferro sérico isolado não diagnostica nada, porque tem variação circadiana ampla e sobe artificialmente nas horas seguintes a uma dose de ferro oral — colha antes da primeira dose do dia ou não colha; e a TIBC é o parâmetro que separa ferropriva de anemia da inflamação, porque sobe numa e cai na outra, enquanto o ferro sérico cai nas duas.

Um marcador que a diretriz SBP 2026 destaca e que aparece cada vez mais em prova é o conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos (CHr): ele mede diretamente quanto ferro a medula recebeu nos últimos dias, cai precocemente na deficiência e não é afetado pela fase aguda. É o exame que resolve o caso do paciente inflamado com ferritina indefinida, quando disponível.

O diferencial que a prova quer: ferropriva contra traço talassêmico

Este é o eixo do capítulo. Duas anemias microcíticas, hipocrômicas, comuns, que se parecem no hemograma superficial e exigem condutas opostas: numa você repõe ferro, na outra repor ferro é iatrogenia. A boa notícia é que o próprio hemograma separa as duas na maioria dos casos, sem exame adicional.

O primeiro discriminador é a desproporção. No traço beta-talassêmico, o VCM é desproporcionalmente baixo para o grau de anemia: você encontra VCM de 60 a 68 fL com hemoglobina de 10,5 a 12 g/dL, ou até normal. Na ferropriva, VCM e hemoglobina caem juntos — VCM de 62 fL implica anemia franca. Microcitose acentuada com anemia leve é assinatura de talassemia.

O segundo é a contagem de hemácias, o parâmetro mais subutilizado do hemograma. Na ferropriva a medula não tem matéria-prima e produz menos hemácias: a contagem cai, tipicamente abaixo de 4,5 milhões/mm³ na mulher anêmica. No traço talassêmico a medula tem ferro de sobra e produz muitas hemácias, só que pequenas: a contagem fica normal ou alta, frequentemente acima de 5,0 e não raro acima de 5,5 milhões/mm³, com hemoglobina baixa. Hemácias abundantes e pequenas com hemoglobina reduzida é talassemia até prova em contrário.

O terceiro é o RDW, pelo motivo já explicado. Na ferropriva a população é heterogênea e o RDW sobe, quase sempre acima de 15%. No traço talassêmico todas as hemácias são igualmente pequenas, uniformes, e o RDW permanece normal ou apenas discretamente elevado.

Os três discriminadores se condensam no índice de Mentzer, que é simplesmente o VCM dividido pela contagem de hemácias em milhões por mm³. Resultado abaixo de 13 aponta traço beta-talassêmico; acima de 13 aponta ferropriva. A aritmética é intuitiva: numerador muito baixo dividido por denominador alto dá número pequeno (talassemia); numerador moderadamente baixo dividido por denominador baixo dá número grande (ferropriva). É um índice de triagem, não de confirmação — em séries clínicas, cerca de três em cada quatro pacientes com Mentzer < 13 e HbA2 elevada confirmam-se talassêmicos —, mas responde corretamente à imensa maioria das questões.

A confirmação laboratorial diverge conforme o gene. O traço beta-talassêmico se confirma na eletroforese de hemoglobina pela elevação da hemoglobina A2 acima de 3,5%; a SBP recomenda realizá-la preferencialmente após o sexto mês de vida, quando a troca de cadeias já se completou. O traço alfa-talassêmico não altera a eletroforese: HbA2 e HbF são normais. Ele pode ser flagrado pela hemoglobina Bart's na triagem neonatal e, fora dessa janela, só se confirma por biologia molecular, buscando as deleções α3.7 ou α4.2 — a diretriz SBP 2026 é explícita quanto a isso. Eletroforese normal, portanto, não exclui talassemia: exclui apenas o traço beta.

No esfregaço, a talassemia mostra hemácias em alvo (codócitos) e pontilhado basófilo; a ferropriva mostra anisocitose e poiquilocitose marcadas, com hipocromia e células em lápis. Ferritina normal ou alta com microcitose aponta talassemia; ferritina baixa aponta ferro.

Falta a armadilha mais cobrada de todas, e ela merece um parágrafo próprio: as duas condições coexistem com frequência, porque ambas são prevalentes. E a deficiência de ferro reduz a HbA2. Isso significa que uma eletroforese colhida num paciente ferropênico pode devolver HbA2 normal e mascarar um traço beta-talassêmico verdadeiro. A regra é dura e não tem exceção: não se fecha diagnóstico de traço talassêmico durante deficiência de ferro. Reponha o ferro, normalize a ferritina e só então repita a eletroforese. O inverso também é verdadeiro — o portador de traço talassêmico pode ficar ferropênico, e a queda da ferritina nele merece investigação de causa igual à de qualquer outro paciente.

Comparação de esfregaço de sangue periférico em dois painéis: à esquerda, hemácias hipocrômicas de tamanhos e formas variados, com células em lápis, típicas de anemia ferropriva; à direita, hemácias pequenas e uniformes, com hemácias em alvo e pontilhado basófilo, típicas de traço talassêmico.
A diferença que o RDW mede, vista ao microscópio. À esquerda, ferropriva: células pequenas e desiguais (anisopoiquilocitose, RDW alto). À direita, traço talassêmico: células pequenas e iguais (RDW normal), com codócitos e pontilhado basófilo.

As outras duas microcíticas: anemia da inflamação e sideroblástica

A anemia da inflamação — ainda chamada de anemia de doença crônica — é a segunda anemia mais prevalente do mundo e a que mais confunde com ferropriva, porque nas duas o ferro sérico está baixo. A fisiopatologia já foi dada: inflamação eleva hepcidina, hepcidina degrada ferroportina, o ferro fica sequestrado dentro dos macrófagos. O estoque está cheio; o que falta é acesso.

O parâmetro que separa as duas é a TIBC, e ele é a resposta de um número enorme de questões. Na ferropriva, o organismo carente fabrica mais transferrina para capturar o pouco ferro disponível: TIBC alta. Na inflamação, a transferrina é proteína de fase aguda negativa e cai: TIBC baixa. Some-se a isso a ferritina, que está baixa numa e normal ou alta na outra. Ferro sérico baixo + TIBC alta + ferritina baixa é ferropriva; ferro sérico baixo + TIBC baixa + ferritina normal ou alta é inflamação. Morfologicamente, a anemia da inflamação é normocítica e normocrômica na maioria dos casos — a microcitose, quando aparece, é tardia e discreta, o que por si só ajuda a afastá-la de uma microcitose acentuada.

As duas coexistem com frequência em doente inflamatório crônico, e é exatamente para essa situação que existem os cortes altos de ferritina descritos antes. Paciente com doença inflamatória intestinal, artrite reumatoide ou neoplasia, com ferritina de 45 mcg/L e PCR elevada, tem deficiência de ferro associada e deve ser reposto — e nele, pela hepcidina alta bloqueando a absorção intestinal, o ferro intravenoso é frequentemente a via que funciona. O PCDT reconhece isso expressamente para a doença inflamatória intestinal, em que o ferro IV já é considerado opção precoce, com ou sem intolerância à via oral.

A anemia sideroblástica é a menos prevalente das quatro e a mais fácil de reconhecer, porque inverte todo o perfil de ferro. O defeito é na incorporação do ferro à protoporfirina para formar o heme: o ferro chega à mitocôndria do eritroblasto e não é usado, acumulando-se em anel ao redor do núcleo — os sideroblastos em anel, vistos na medula com coloração de Perls, que fecham o diagnóstico. Como o ferro entra e não sai, ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina estão altos. Saturação de transferrina elevada em anemia microcítica é sideroblástica (ou sobrecarga de ferro) até prova em contrário — nunca é ferropriva.

As formas hereditárias são microcíticas e ligadas ao X, e respondem a piridoxina (vitamina B6). As adquiridas são as que você verá: alcoolismo, intoxicação por chumbo, deficiência de cobre — inclusive pós-cirurgia bariátrica e por excesso de zinco — e fármacos, sobretudo isoniazida, cloranfenicol e linezolida. A síndrome mielodisplásica com sideroblastos em anel é a causa clonal, típica do idoso, e nela a anemia costuma ser normo ou macrocítica. A conduta é retirar a causa; na hereditária, testar piridoxina.

Uma quinta condição fecha o quadro das microcíticas e cai em questão de saúde do trabalhador e pediatria ambiental: a intoxicação por chumbo (saturnismo). O chumbo inibe enzimas da síntese do heme e produz anemia microcítica com pontilhado basófilo grosseiro no esfregaço, acompanhada de dor abdominal, neuropatia periférica e alteração cognitiva em crianças. História ocupacional — baterias, tintas antigas, reciclagem de metais, cerâmica esmaltada — é o que levanta a hipótese.

Achar a causa: em quem você é obrigado a investigar o tubo digestivo

Tratar a ferropriva sem descobrir por que ela existe é meio tratamento, e é o erro que mata paciente. Ferropriva no adulto é sangramento crônico até prova em contrário — no adulto, praticamente nunca é dieta isolada.

A regra que resolve a maior parte das questões: homem de qualquer idade e mulher na pós-menopausa com anemia ferropriva confirmada têm indicação de endoscopia digestiva alta E colonoscopia, mesmo sem sintoma digestivo, mesmo sem sangue visível nas fezes. Essa é a investigação bidirecional de primeira linha, e a razão é direta: nesses dois grupos não existe perda menstrual para explicar o déficit, e a neoplasia colorretal é achado frequente. Ausência de sintoma não dispensa a investigação, e pesquisa de sangue oculto negativa também não — o sangramento é intermitente.

Na mulher em idade fértil com menorragia clara e resposta adequada ao ferro, a investigação endoscópica não é obrigatória de saída. Ela passa a ser indicada se houver qualquer um destes: idade a partir de 50 anos, sintomas digestivos, história familiar de câncer colorretal, anemia desproporcional ao fluxo menstrual relatado, perda de peso, ou falha de resposta ao ferro oral bem administrado.

Além da endoscopia, quatro exames compõem a investigação inicial e são esquecidos com frequência. Sorologia para doença celíaca — anticorpo antitransglutaminase IgA com dosagem de IgA total — em todo adulto com ferropriva, porque a celíaca se apresenta com anemia isolada e sem diarreia em boa parte dos casos. Exame de urina, procurando hematúria como fonte de perda. Exame parasitológico de fezes, que no Brasil não é detalhe: o PCDT lista explicitamente ancilostomíase, esquistossomose e malária entre as causas, e a ancilostomíase é causa clássica de ferropriva em áreas rurais. E a pesquisa de Helicobacter pylori, que o PCDT indica formalmente diante de anemia grave refratária ao tratamento após oito semanas — a erradicação melhora a resposta ao ferro.

Quando a endoscopia bidirecional é negativa e o paciente continua anêmico ou recidiva, o passo seguinte é investigar o intestino delgado, sendo a cápsula endoscópica o exame preferencial; enterografia por tomografia ou ressonância entra quando a cápsula é contraindicada. Não esqueça, nesse ponto, das causas de má absorção e de perda que a endoscopia não vê: cirurgia bariátrica prévia e gastrectomia, gastrite atrófica, e o uso crônico de inibidores de bomba de prótons, bloqueadores H2 e antiácidos, que reduzem a acidez gástrica necessária para converter o ferro férrico em ferroso. Anti-inflamatórios não esteroidais e anticoagulantes entram como causa de perda.

Em pediatria, o roteiro é outro. O que se procura é ingestão de leite de vaca antes de um ano ou em volume excessivo depois — que soma baixo teor de ferro, inibição da absorção e microssangramento intestinal —, alimentação complementar pobre em ferro heme, prematuridade e baixo peso, clampeamento precoce do cordão, falha na suplementação profilática, verminose e, na adolescente, menorragia. Sangramento digestivo em criança com ferropriva refratária levanta doença celíaca, doença inflamatória intestinal, pólipo e divertículo de Meckel.

Tratar: dose, tempo e o que fazer quando não responde

As doses do PCDT, que são as que valem na questão que cita o SUS: adulto, 120 mg/dia de ferro elementar. Criança, 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar. Gestante com anemia, 60 a 200 mg/dia de ferro elementar associados a 400 mcg/dia de ácido fólico — a associação é obrigatória na gestação, e um ensaio citado pelo próprio protocolo mostra resposta superior com a combinação (aumento de 1,42 contra 0,80 g/dL de hemoglobina). A diretriz SBP 2026 confirma para pediatria os mesmos 3 a 6 mg/kg/dia, em dose única ou fracionada, com a ressalva de iniciar por 3 mg/kg/dia na criança com desnutrição grave em fase de reabilitação.

Calcule sempre sobre o ferro elementar, nunca sobre o peso do sal — é erro clássico de prescrição e de prova. O sulfato ferroso tem cerca de 20% de ferro elementar; o fumarato, 33%; o gluconato, 12%; o bisglicinato, 20%; o ferro carbonila, 98%. No SUS, o sulfato ferroso é dispensado em comprimido com 40 mg de ferro elementar, solução oral com 25 mg/mL e xarope com 5 mg/mL. Os 120 mg/dia do adulto, portanto, são três comprimidos ao dia.

Como tomar importa tanto quanto quanto tomar. Longe das refeições, preferencialmente uma hora antes, porque fitatos, polifenóis do chá e do café, cálcio, fosfatos e proteínas do leite e da soja se ligam ao ferro e bloqueiam a absorção. Junto de fonte de vitamina C — suco de laranja, acerola, limão —, que reduz o ferro férrico a ferroso e aumenta a captação. Afastado de antiácidos, inibidores de bomba de prótons, quinolonas e tetraciclinas: o PCDT orienta administrar o ferro duas horas antes ou quatro horas depois do antiácido. Efeitos gastrointestinais ocorrem em 50 a 70% dos pacientes, são proporcionais à dose de ferro elementar e são a principal causa de abandono; quando a intolerância ameaça a adesão, reduzir a dose ou espaçar a administração é preferível a perder o paciente — o próprio PCDT reúne estudos mostrando que esquemas intermitentes (semanal, duas vezes por semana ou cíclico) alcançam eficácia semelhante à diária com menos efeitos adversos e melhor adesão.

A resposta esperada tem cronologia, e a prova pergunta por ela. Nos primeiros dias, melhora subjetiva e desaparecimento da pica e das pernas inquietas, antes de qualquer mudança hematológica. Entre 5 e 10 dias, reticulocitose. Em 3 semanas, a hemoglobina já subiu cerca de 2 g/dL. O critério de resposta que você deve saber de cor é o aumento de pelo menos 1,0 g/dL de hemoglobina em 4 semanas — a SBP recomenda repetir hemograma entre 30 e 45 dias esperando exatamente isso, e o PCDT usa a mesma régua em 4 semanas. A hemoglobina normaliza em 6 a 8 semanas se não houver perda continuada.

O tempo total é a pergunta em que quase todo mundo erra. Normalizar a hemoglobina não é o fim do tratamento: nesse ponto os estoques ainda estão vazios, e parar aí garante a recidiva. O PCDT é explícito: o tratamento deve durar 6 meses após a hemoglobina ter normalizado, que é o tempo necessário para repor as reservas. A monitorização se faz com hemoglobina a cada 8 semanas e ferritina a cada 3 meses; na gestante, hemograma a cada 4 semanas, com ferritina ao fim do sexto mês e ao fim da gestação. O alvo de alta é hemoglobina normal, índices hematimétricos normais e ferritina reposta.

Falha de resposta — hemoglobina que não sobe 1 g/dL em 4 semanas — pede um roteiro fixo, nesta ordem: adesão (é a causa mais comum, e as fezes escuras confirmam que o paciente está tomando); dose e forma de administração corretas, calculadas sobre o ferro elementar; sangramento persistente ainda não identificado; má absorção (doença celíaca, gastrite atrófica, cirurgia gástrica, uso de inibidor de bomba de prótons); inflamação concomitante bloqueando a absorção; Helicobacter pylori, que o PCDT manda investigar na anemia grave refratária após oito semanas; e, por fim, diagnóstico errado — reveja talassemia, sideroblástica e a possibilidade rara de IRIDA, a anemia ferropriva refratária ao ferro, de origem genética, que a SBP lista entre os diferenciais.

O ferro intravenoso tem indicações objetivas no PCDT: ausência de resposta ao ferro oral em 8 semanas, intolerância absoluta à via oral, perdas diárias que superam a capacidade de absorção intestinal — estimada em no máximo 25 mg de ferro elementar por dia —, doença inflamatória intestinal, pacientes em quimioterapia ou diálise, e pós-cirurgia de bypass gástrico. A dose total sai da fórmula do protocolo: ferro (mg) = (Hb desejada − Hb atual) × peso (kg) × 2,4 + 500 mg, com sacarato de hidróxido férrico, sem ultrapassar 300 mg por aplicação, em infusão lenta hospitalar. Na gestante, o ferro IV é raro e reservado a partir do segundo trimestre para anemia moderada a grave (Hb abaixo de 9 g/dL) com necessidade de correção rápida. Carboximaltose e derisomaltose férricas não são recomendadas em pediatria, conforme a SBP 2026. Transfusão fica reservada ao paciente hemodinamicamente instável — nunca se transfunde por número isolado de hemoglobina em ferropriva crônica compensada.

Prevenir: o esquema do PNSF que mudou e ainda não chegou a todo mundo

Aqui está a atualização mais provável de virar questão nos próximos ciclos. O esquema brasileiro de profilaxia no lactente mudou, e a mudança já está incorporada pela SBP.

Para o lactente nascido a termo, com peso adequado e saudável, a recomendação vigente é suplementação profilática em dose fixa de 10 a 12,5 mg de ferro elementar por dia, independentemente do peso corporal, dos 6 aos 24 meses de vida, administrada em dois ciclos de três meses de uso diário separados por uma pausa de três meses, iniciados preferencialmente aos 6 e aos 12 meses. Esse é o esquema que o Programa Nacional de Suplementação de Ferro adotou em 2022, alinhado à OMS, e que a diretriz SBP de março de 2026 incorporou expressamente. Ele substitui a recomendação anterior da própria SBP, de 1 mg/kg/dia contínuo dos 180 dias aos 24 meses.

Para prematuros e recém-nascidos de baixo peso, a dose continua calculada por quilo e o início é aos 30 dias de vida, mantida durante o primeiro ano: 2 mg/kg/dia para peso de nascimento entre 1.500 e 2.500 g; 3 mg/kg/dia entre 1.000 e 1.500 g; 4 mg/kg/dia abaixo de 1.000 g. Dos 12 aos 24 meses, esse grupo mantém 1 mg/kg/dia de forma contínua, sem os intervalos do esquema cíclico. Se a criança recebe fórmula infantil, o ferro da dieta entra no cálculo.

Na gestante, a profilaxia do PNSF é de 40 mg de ferro elementar associados a 400 mcg de ácido fólico por dia até o fim da gestação, estendendo-se ao puerpério e ao pós-aborto até o terceiro mês. Não confunda com a dose terapêutica da gestante já anêmica, que é de 60 a 200 mg/dia de ferro elementar pelo PCDT — profilaxia e tratamento têm números diferentes e a questão costuma trocar um pelo outro.

As medidas não medicamentosas pesam tanto quanto o comprimido e são cobradas. Clampeamento do cordão umbilical após o primeiro minuto de vida, que aumenta a transferência placentária de ferro. Aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e complementado até 2 anos ou mais. Introdução alimentar oportuna aos 6 meses, com oferta regular de ferro heme — carnes, aves, peixes, vísceras — combinado a fontes de vitamina C. Evitar leite de vaca no primeiro ano de vida. E, no plano populacional, a fortificação obrigatória das farinhas de trigo e milho com ferro e ácido fólico.

Por fim, uma mudança que inverte o que muitos aprenderam: a diretriz SBP 2026 não recomenda investigação laboratorial de rotina em lactente saudável, com crescimento e alimentação adequados. O rastreamento passa a ser dirigido a grupos de risco — prematuridade, baixo peso ao nascer, falha na suplementação profilática, alimentação pobre em ferro, crescimento inadequado —, nos quais se pede hemograma, ferritina e PCR preferencialmente entre 9 e 12 meses de vida. A recomendação anterior, do consenso de 2021, mandava investigar todo lactente aos 12 meses.

04

Da microcitose ao diagnóstico: roteiro e tabela comparativa

Diante de VCM baixo, a sequência abaixo fecha o diagnóstico com dois exames na maioria dos casos. A tabela é o coração do capítulo: guarde as colunas, não as frases. Se você só puder memorizar três linhas, memorize RDW, contagem de hemácias e TIBC — elas separam as quatro microcíticas entre si.

  1. 11. Confirme que há anemia, pelo corte de Hb da OMS 2024 para a idade, o sexo e o trimestre — ajustando por altitude e tabagismo antes de comparar.
  2. 22. Confirme que há microcitose pelo corte da idade: VCM < 80 fL no adulto; em criança, use o limite por faixa (70 fL aos 6–24 meses, 75 aos 2–6 anos, 77 aos 6–12, 78 aos 12–18) ou a regra de 70 + idade em anos.
  3. 33. Olhe o hemograma inteiro ANTES de pedir qualquer coisa: RDW, contagem de hemácias e a proporção entre queda do VCM e queda da Hb. Calcule o índice de Mentzer (VCM ÷ hemácias em milhões).
  4. 44. Peça ferritina SEMPRE acompanhada de PCR. Ferritina isolada não é interpretável.
  5. 55. Sem inflamação (PCR normal): ferritina < 30 mcg/L no adulto fecha ferropenia e você trata (< 15 mcg/L é confirmação de altíssima especificidade; < 12 mcg/L em menores de 5 anos).
  6. 66. Com inflamação (PCR elevada): use o corte alto — < 70 mcg/L dos 5 anos em diante, < 30 mcg/L em menores de 5 anos. Na zona indefinida, decida pela saturação de transferrina < 20% (ou pelo CHr, se disponível).
  7. 77. Ferritina normal ou alta com microcitose e RDW normal: pense talassemia. Peça eletroforese de hemoglobina — HbA2 > 3,5% confirma traço beta. Eletroforese normal NÃO exclui traço alfa, que exige biologia molecular.
  8. 88. Ferritina alta com saturação de transferrina ALTA: pense sideroblástica. Procure álcool, chumbo, isoniazida, cloranfenicol, linezolida, deficiência de cobre e mielodisplasia; sideroblastos em anel na medula confirmam.
  9. 99. Confirmada a ferropenia, ache a CAUSA antes de comemorar. Homem de qualquer idade e mulher na pós-menopausa: endoscopia digestiva alta + colonoscopia, mesmo assintomáticos. Todos: sorologia de doença celíaca, exame de urina e parasitológico de fezes.
  10. 1010. Trate e reavalie em 4 semanas esperando Hb ≥ 1 g/dL de aumento. Mantenha o ferro por 6 meses APÓS a normalização da hemoglobina.
ParâmetroFerroprivaTraço beta-talassêmicoAnemia da inflamaçãoSideroblástica
VCMBaixo, proporcional à gravidade da anemiaMuito baixo (60–68 fL) e DESPROPORCIONAL à anemia, que é leveNormal na maioria; microcitose tardia e discretaBaixo nas hereditárias; normo ou macrocítico nas adquiridas/SMD
RDWAlto (em geral > 15%) — sobe ANTES de o VCM cairNormal ou pouco elevado (células pequenas e uniformes)Normal ou pouco elevadoAlto, com população dimórfica no esfregaço
Contagem de hemáciasBaixa (falta matéria-prima)Normal ou alta (frequentemente > 5,0 milhões/mm³) apesar da Hb baixaBaixaBaixa
Índice de Mentzer (VCM ÷ hemácias)> 13< 13Não se aplica (não é o diferencial que ele resolve)Não se aplica
FerritinaBAIXA (< 30 mcg/L; < 70 se PCR elevada)Normal ou altaNormal ou ALTA (proteína de fase aguda)ALTA
Ferro séricoBaixoNormalBaixoALTO
TIBC / transferrinaALTA — o organismo carente fabrica mais transportadorNormalBAIXA — transferrina é reagente de fase aguda NEGATIVONormal ou baixa
Saturação de transferrinaBaixa (< 20%)NormalBaixa ou normalALTA
Eletroforese de hemoglobinaNormal — e a HbA2 pode estar FALSAMENTE baixa pela própria ferropeniaHbA2 > 3,5% confirma traço beta. Traço alfa NÃO altera a eletroforese: exige biologia molecular (α3.7/α4.2) ou Hb Bart's na triagem neonatalNormalNormal
Esfregaço periféricoAnisocitose e poiquilocitose acentuadas, hipocromia, células em lápisHemácias em alvo (codócitos) e pontilhado basófiloHemácias normais, sem alteração morfológica marcanteSideroblastos em anel na MEDULA (coloração de Perls); pontilhado basófilo grosseiro se intoxicação por chumbo
CondutaRepor ferro E investigar a causa da perda; manter 6 meses após a Hb normalizarNÃO repor ferro (risco de sobrecarga). Aconselhamento genético e rastreamento familiarTratar a doença de base; repor ferro só se houver ferropenia associada pelos cortes altos — ferro IV é frequentemente a via que funcionaRetirar a causa (álcool, chumbo, fármacos, deficiência de cobre); piridoxina nas formas hereditárias

Ferro sérico ISOLADO não diagnostica nada: tem variação circadiana ampla e sobe artificialmente nas horas seguintes a uma dose de ferro oral. Colha antes da primeira dose do dia, ou não colha.

Ferropriva e traço talassêmico COEXISTEM com frequência, porque ambos são prevalentes. A deficiência de ferro reduz a HbA2 e pode mascarar o traço beta: nunca feche diagnóstico de talassemia em paciente ferropênico — reponha o ferro, normalize a ferritina e repita a eletroforese.

A microcitose da anemia da inflamação é a exceção, não a regra: na maioria dos casos ela é normocítica. Microcitose acentuada em paciente inflamado sugere ferropenia associada, não inflamação isolada.

Intoxicação por chumbo é a quinta microcítica e não entra na tabela por ser definida pela história: pontilhado basófilo grosseiro, dor abdominal, neuropatia e exposição ocupacional ou ambiental.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corte de ferritina que confirma ferropenia na vigência de inflamação

OMS 2020 — ferritina < 70 mcg/L

Com infecção ou inflamação presente, a OMS eleva o corte para < 70 mcg/L dos 5 anos em diante (adultos e idosos incluídos) e < 30 mcg/L em menores de 5 anos. Sem inflamação, os cortes são < 15 e < 12 mcg/L respectivamente.

WHO guideline on use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations, 2020, Tabela 1.

PCDT/MS 2014 — ferritina ÷ 3 ≤ 20 ng/mL (equivale a ~60 ng/mL)

O protocolo brasileiro não muda o corte: manda dividir a ferritina por 3 em pacientes com doença inflamatória, infecciosa, maligna ou hepática e considerar deficiência se o resultado for ≤ 20 ng/mL — o que corresponde a uma ferritina de cerca de 60 ng/mL. O critério geral de inclusão, sem inflamação, é ferritina < 30 ng/mL.

Ministério da Saúde. PCDT Anemia por deficiência de ferro, Portaria SAS/MS nº 1.247/2014, item 5 — Critérios de inclusão.

Na prova

Os dois caminhos chegam praticamente ao mesmo lugar: os 70 mcg/L da OMS 2020 (dos 5 anos em diante, na vigência de infecção ou inflamação) e a regra do PCDT de 2014 — dividir a ferritina por 3 e considerar deficiência com resultado ≤ 20 ng/mL, o que equivale a cerca de 60 ng/mL — decidem igual na maioria dos pacientes. A diferença é de propósito do documento: a OMS escreve para avaliar estado de ferro de indivíduos e populações e fixa cortes diretos; o PCDT escreve critério de inclusão para dispensação de medicamento e conserva a aritmética que já estava no protocolo, sem revisão desde 2014. Citação nominal da OMS, contexto de inquérito ou vigilância nutricional, e uso dos cortes sem inflamação (< 15 mcg/L dos 5 anos em diante, < 12 mcg/L abaixo disso) apontam para o corte de 70; citação do PCDT, do SUS, da dispensação, ou a própria divisão por 3, apontam para a regra brasileira, cujo critério geral sem inflamação é < 30 ng/mL. A afirmação que não se sustenta em nenhuma das duas é a de que ferritina normal exclui ferropenia em paciente inflamado.

Profilaxia de ferro no lactente a termo e saudável: dose por quilo ou dose fixa em ciclos

SBP 2021 — 1 mg/kg/dia contínuo

O consenso anterior recomendava 1 mg de ferro elementar/kg/dia iniciando aos 180 dias de vida e mantido até o 24º mês, com antecipação para os 90 dias na presença de fatores de risco. É a recomendação que ainda aparece na maior parte do material didático em circulação.

SBP. Consenso sobre anemia ferropriva — Atualização: destaques 2021, Quadros 1 e 2.

PNSF/MS desde 2022 e SBP 2026 — 10 a 12,5 mg/dia fixos, em dois ciclos de três meses

Dose fixa diária de 10 a 12,5 mg de ferro elementar, independentemente do peso, dos 6 aos 24 meses, em dois ciclos de três meses de uso diário separados por pausa de três meses, iniciados preferencialmente aos 6 e aos 12 meses de vida. A SBP abandonou o cálculo por quilo para esse grupo e unificou a conduta com o Ministério da Saúde.

SBP. Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes — Atualização 2026 (Diretrizes nº 32, março de 2026), citando o PNSF/MS.

Na prova

A divergência é cronológica e programática, não de mérito: o consenso da SBP de 2021 calculava 1 mg de ferro elementar/kg/dia dos 180 dias aos 24 meses, antecipando para os 90 dias na presença de fatores de risco; a atualização de 2026 passou a dose fixa de 10 a 12,5 mg/dia, independentemente do peso, dos 6 aos 24 meses, em dois ciclos de três meses de uso diário separados por pausa de três meses, iniciados aos 6 e aos 12 meses — formato que unifica a conduta com o PNSF do Ministério da Saúde, vigente desde 2022, porque dose fixa em ciclos é o que se distribui, se orienta e se audita num programa de escala nacional. Data e vocabulário identificam o documento: “mg/kg/dia” e início aos 180 dias pertencem ao consenso de 2021; “ciclos”, “pausa de três meses” e citação do PNSF ou da atualização de 2026 pertencem ao esquema atual. O cálculo por quilo permanece em uso no prematuro e no baixo peso entre 12 e 24 meses, então uma alternativa com 1 mg/kg/dia não é estranha por si — ela depende do lactente descrito e da data que o enunciado assume.

Por quanto tempo manter o ferro depois que a hemoglobina normaliza

PCDT/MS — mais 6 meses após a normalização

O protocolo é literal: o tratamento deverá ser por 6 meses após a Hb ter normalizado, que é o tempo necessário para repor as reservas de ferro do organismo. A hemoglobina normaliza em 6 a 8 semanas; a reposição dos estoques leva os 6 meses seguintes.

Ministério da Saúde. PCDT Anemia por deficiência de ferro, item 8.5 — Tempo de tratamento / critérios de interrupção.

SBP 2026 — 3 a 6 meses de tratamento total, guiado pela ferritina

Para o lactente, a SBP recomenda manter o tratamento por três a seis meses, ou até a normalização da hemoglobina E a reposição adequada dos estoques, avaliada pela ferritina e pelos índices hematimétricos ao término. O critério de parada é laboratorial, não um prazo fixo contado a partir da Hb normal.

SBP. Recomendações... Atualização 2026, seção Tratamento da anemia ferropriva.

Na prova

Não é o mesmo relógio nas duas fontes. O PCDT conta mais 6 meses depois que a hemoglobina normaliza (e ela normaliza em 6 a 8 semanas), prazo fixo pensado para repor estoques no adulto e para uma rede que precisa autorizar dispensação por tempo definido; a SBP 2026 fala do lactente e encerra o tratamento por critério laboratorial — três a seis meses no total, com ferritina e índices hematimétricos ao término confirmando estoque reposto. O que identifica o recorte é quem é o paciente e se a questão oferece ferritina de controle: adulto, dispensação e citação do PCDT pedem o prazo contado a partir da hemoglobina normal; lactente, seguimento pediátrico e citação da SBP pedem a suspensão guiada pela ferritina. Alternativa que suspenda o ferro no momento em que a hemoglobina normaliza contraria as duas fontes, e é o distrator recorrente nesse tema.

Rastreamento laboratorial de ferropenia no lactente saudável

SBP 2021 — investigar todo lactente aos 12 meses

O consenso anterior recomendava realizar investigação laboratorial da deficiência de ferro, com ou sem anemia, aos 12 meses de vida, com hemograma, ferritina e proteína C reativa, antecipando diante de fatores de risco.

SBP. Consenso sobre anemia ferropriva — Atualização: destaques 2021, seção Recomendação – Diagnóstico.

SBP 2026 — não rastrear lactente saudável

Lactentes saudáveis, com crescimento adequado e alimentação apropriada à idade, não necessitam de investigação laboratorial rotineira. O rastreio fica restrito aos grupos de risco (prematuridade, baixo peso, falha na profilaxia, alimentação pobre em ferro, crescimento inadequado), entre 9 e 12 meses.

SBP. Recomendações... Atualização 2026, seção Diagnóstico clínico e laboratorial.

Na prova

É a mesma sociedade invertendo a própria posição em cinco anos: o consenso de 2021 investigava todo lactente aos 12 meses com hemograma, ferritina e proteína C reativa, antecipando diante de fatores de risco; a atualização de 2026 dispensa exame de rotina no lactente saudável, com crescimento adequado e alimentação apropriada à idade, e restringe o rastreio aos grupos de risco (prematuridade, baixo peso, falha na profilaxia, alimentação pobre em ferro, crescimento inadequado) entre 9 e 12 meses. A data do documento citado e o vocabulário separam os dois mundos: investigação universal aos 12 meses é 2021; rastreio dirigido ao risco entre 9 e 12 meses é 2026. Quando o enunciado descreve lactente com fator de risco, as duas convergem no mesmo trio — hemograma, ferritina e PCR — e a divergência deixa de pesar; ela só decide a questão quando o lactente descrito é saudável e uma das alternativas pede exame de rotina.

06

Caso resolvido

Mulher de 26 anos, assintomática, faz hemograma em exame admissional. Hb 11,2 g/dL, hematócrito 34%, VCM 63 fL, HCM 20 pg, RDW 13,1%, hemácias 5,6 milhões/mm³, leucócitos e plaquetas normais. Refere que 'sempre teve anemia' e já tomou sulfato ferroso três vezes na vida, sem que o hemograma mudasse. Menstruação de fluxo habitual, sem sangramentos. Ferritina 88 mcg/L, PCR normal.
achado que decide
VCM de 63 fL com hemoglobina de apenas 11,2 g/dL. Isso é desproporção: microcitose acentuada com anemia mínima. Na ferropriva, VCM e hemoglobina caem juntos — um VCM de 63 implicaria anemia muito mais grave.
segundo achado
Hemácias 5,6 milhões/mm³ com hemoglobina baixa. A medula está produzindo MUITAS hemácias, só que pequenas. Na ferropriva falta matéria-prima e a contagem cai, tipicamente abaixo de 4,5 milhões.
terceiro achado
RDW 13,1%, ou seja, normal. População uniformemente pequena. Na ferropriva o RDW sobe acima de 15% — e sobe antes mesmo de o VCM cair.
cálculo
Índice de Mentzer = VCM ÷ hemácias (em milhões) = 63 ÷ 5,6 = 11,25. Abaixo de 13, aponta traço beta-talassêmico.
confirmação laboratorial
Ferritina 88 mcg/L com PCR normal descarta ferropenia — está muito acima dos 30 mcg/L de corte, e não há inflamação para inflar o valor. Pedir eletroforese de hemoglobina: HbA2 de 5,1% (> 3,5%) confirma traço beta-talassêmico.
conduta
NÃO prescrever ferro. Explicar que se trata de condição genética benigna, não de anemia carencial, e que a microcitose é permanente e não deve ser 'corrigida'. Oferecer aconselhamento genético e rastreamento do parceiro antes de gestação — dois portadores de traço beta têm risco de 25% de filho com talassemia maior. Rastrear irmãos.
o erro que ela já sofreu três vezes
Os três cursos de sulfato ferroso anteriores foram ferro dado a quem tem estoque cheio. Repetidos por anos, expõem a sobrecarga de ferro. O gatilho que deveria ter interrompido o ciclo estava no primeiro hemograma: microcitose que não responde a ferro é talassemia até prova em contrário.
a ressalva que completa o raciocínio
Se a ferritina viesse baixa, a ordem se inverteria: repor o ferro primeiro e só depois pedir a eletroforese, porque a deficiência de ferro reduz a HbA2 e pode mascarar o traço beta. Eletroforese em paciente ferropênico é exame que pode mentir.
07

Agora feche você

Homem de 63 anos, aposentado, procura a unidade básica por cansaço progressivo há quatro meses e falta de ar ao subir ladeira. Nega sangramento visível, dor abdominal ou mudança do hábito intestinal. Faz uso de omeprazol por conta própria há dois anos. Exame físico: mucosas descoradas ++/4+, sem visceromegalias, toque retal sem massas e sem sangue na luva. Hemograma: Hb 9,1 g/dL, VCM 74 fL, HCM 24 pg, RDW 16,8%, hemácias 3,8 milhões/mm³, plaquetas 445.000/mm³. Ferritina 8 mcg/L, PCR normal, saturação de transferrina 9%.
achado
Anemia (Hb 9,1 g/dL, abaixo do corte de 13,0 g/dL para homem) microcítica (VCM 74 fL) e hipocrômica (HCM 24 pg), com RDW alto de 16,8% e contagem de hemácias baixa.
confirmação
Ferritina 8 mcg/L com PCR normal. Está abaixo até do corte de altíssima especificidade da OMS (< 15 mcg/L) e muito abaixo do critério de inclusão do PCDT (< 30 ng/mL). Saturação de transferrina de 9%, abaixo de 20%. Diagnóstico de anemia ferropriva fechado, sem necessidade de mais nenhum exame de status do ferro.
índice de Mentzer
74 ÷ 3,8 = 19,5. Acima de 13 — coerente com ferropriva, afasta traço talassêmico. A trombocitose reativa de 445.000 é achado comum na ferropriva por sangramento crônico e reforça a hipótese.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ferritina normal não exclui ferropenia — se houver inflamação A ferritina é proteína de fase aguda e sobe com infecção, doença inflamatória, neoplasia, hepatopatia e obesidade. Ferritina de 55 mcg/L num paciente com PCR alta é compatível com deficiência de ferro pelo corte da OMS (< 70) e pela regra do PCDT (ferritina ÷ 3 ≤ 20). É por isso que ferritina se pede SEMPRE com PCR — ferritina isolada não é interpretável.
  2. 2Eletroforese em paciente ferropênico pode mentir A deficiência de ferro REDUZ a HbA2 e pode mascarar um traço beta-talassêmico verdadeiro, devolvendo eletroforese normal. Nunca feche diagnóstico de talassemia durante ferropenia: reponha o ferro, normalize a ferritina e só então repita o exame. As duas condições coexistem com frequência.
  3. 3Eletroforese normal não exclui talassemia O traço ALFA-talassêmico não altera a eletroforese — HbA2 e HbF são normais. Ele se identifica pela hemoglobina Bart's na triagem neonatal ou, fora dessa janela, por biologia molecular procurando as deleções α3.7 ou α4.2. Eletroforese normal exclui apenas o traço beta.
  4. 4Ferro sérico baixo não é sinônimo de ferropriva — olhe a TIBC O ferro sérico está baixo tanto na ferropriva quanto na anemia da inflamação. O que separa é a TIBC: ALTA na ferropriva (o organismo carente fabrica mais transferrina) e BAIXA na inflamação (a transferrina é reagente de fase aguda negativo). Some a ferritina, que está baixa numa e normal ou alta na outra.
  5. 5Parar o ferro quando a hemoglobina normaliza garante a recidiva Hemoglobina normal significa que o compartimento circulante foi reposto; os estoques ainda estão vazios. O PCDT manda manter o tratamento por 6 meses APÓS a normalização da Hb. O alvo de alta é ferritina reposta, não hemograma normal.
  6. 6Ferropriva em homem ou em mulher pós-menopausa não é 'dieta' Nesses dois grupos não há perda menstrual para explicar o déficit, e a conduta é endoscopia digestiva alta E colonoscopia, mesmo sem sintoma digestivo e mesmo com sangue oculto negativo — o sangramento é intermitente. Tratar a anemia sem investigar a fonte é o erro que deixa passar câncer colorretal.
  7. 7VCM de 76 fL num lactente é normal, não microcitose O limite inferior de VCM é etário: 70 fL dos 6 aos 24 meses, 75 dos 2 aos 6 anos, 77 dos 6 aos 12 e 78 dos 12 aos 18. Use a regra de 70 + idade em anos. Aplicar o corte adulto de 80 fL em criança rotula como doente um hemograma normal — e o inverso, aceitar 72 fL numa adolescente, deixa passar doença.
  8. 8Saturação de transferrina ALTA em anemia microcítica nunca é ferropriva Saturação elevada com ferritina alta em anemia microcítica aponta sideroblástica ou sobrecarga de ferro. Procure álcool, chumbo, isoniazida, cloranfenicol, linezolida, deficiência de cobre e mielodisplasia. Prescrever ferro nesse cenário é agravar o quadro.
  9. 9Confundir a dose de profilaxia com a de tratamento na gestante Profilaxia do PNSF: 40 mg de ferro elementar + 400 mcg de ácido fólico por dia. Tratamento da gestante já anêmica pelo PCDT: 60 a 200 mg/dia de ferro elementar + 400 mcg de ácido fólico. São números diferentes para situações diferentes, e a questão costuma trocar um pelo outro.
  10. 10Calcular a dose pelo peso do sal em vez do ferro elementar Sulfato ferroso tem ~20% de ferro elementar, fumarato ~33%, gluconato ~12%, ferro carbonila ~98%. Um comprimido de 300 mg de sulfato ferroso não entrega 300 mg de ferro. No SUS, o comprimido dispensado traz 40 mg de ferro elementar — os 120 mg/dia do adulto são três comprimidos.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Anemia microcítica (VCM 72) e hipocrômica com RDW elevado (anisocitose) em mulher com perda menstrual crônica e coiloníquia é o quadro clássico de anemia ferropriva. Anemia de doença crônica costuma ser normocítica/normocrômica e não cursa com coiloníquia nem contexto de sangramento. Deficiência de B12 causa anemia MACROcítica (VCM alto). Talassemia minor é microcítica, mas cursa com RDW normal e microcitose desproporcional à anemia leve. Anemia sideroblástica é rara e não se associa a menorragia/coiloníquia.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Cortes de Hb da OMS 2024: 6–23 meses < 10,5; 24–59 meses < 11,0; 5–11 anos < 11,5; 12–14 anos < 12,0; mulher < 12,0; homem < 13,0; gestante < 11,0 no 1º e 3º trimestres e < 10,5 no 2º. Ferritina: < 30 mcg/L trata (sem inflamação); com PCR alta, o corte sobe para < 70. Saturação de transferrina < 20%. Refaça o cálculo do índice de Mentzer nos dois casos do capítulo (63 ÷ 5,6 e 74 ÷ 3,8) e diga em voz alta o que cada resultado significa.

em 30 dias

Reconstrua a tabela das quatro microcíticas de memória, em papel em branco, começando pelas três linhas que decidem: RDW, contagem de hemácias e TIBC. Depois responda sem consultar: (1) por que a TIBC sobe na ferropriva e cai na inflamação; (2) por que não se pede eletroforese em paciente ferropênico; (3) por quanto tempo se mantém o ferro depois que a Hb normaliza; (4) qual o esquema de profilaxia do lactente a termo saudável hoje (dose, idade, ciclos) e em que ele difere do consenso de 2021; (5) quem tem indicação obrigatória de endoscopia bidirecional.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 41 anos chega ao ambulatório queixando-se de cansaço há seis meses e de uma vontade estranha de mastigar gelo o dia inteiro. Trouxe um hemograma com Hb 9,4 g/dL, VCM 71 fL e RDW 17,5%. Conduza a consulta: colha a história menstrual e digestiva, investigue uso de medicamentos e cirurgias prévias, peça os exames que fecham o diagnóstico com a interpretação certa, decida se ela precisa de endoscopia e prescreva o ferro com dose, modo de tomar e prazo de reavaliação. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Anemia ferropriva — Preparatório para provas | OsceLabs