Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Anemias megaloblásticas (B12 e folato)

Anemias macrocíticas e megaloblásticas (B12/folato)

Reconhecer a anemia megaloblástica no hemograma e no esfregaço, separar deficiência de B12 da de folato e não cair na armadilha clássica: repor folato às cegas enquanto a medula espinhal degenera.

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 26 anos, vegetariana estrita há 6 anos, queixa-se de cansaço progressivo, parestesias em mãos e pés e dificuldade de equilíbrio. Exame: palidez, língua lisa e avermelhada, alteração da sensibilidade vibratória em membros inferiores. Hemograma: Hb 9,2 g/dL, VCM 112 fL, com neutrófilos hipersegmentados no esfregaço. Qual é a deficiência nutricional mais provável?

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Como esse tema cai

A anemia megaloblástica é uma das vinhetas mais reconhecíveis da prova: anemia macrocítica com VCM alto, neutrófilos hipersegmentados, LDH nas alturas, reticulócito baixo — e, na deficiência de B12, um paciente que também formiga. A banca cobra quatro decisões: reconhecer o padrão no hemograma e no esfregaço, separar deficiência de B12 da de folato, interpretar a dosagem que caiu na zona cinzenta e tratar sem cometer o erro clássico de dar ácido fólico às cegas. As armadilhas são recorrentes e previsíveis — este capítulo é construído em cima delas.

As anemias megaloblásticas não têm PCDT do Ministério da Saúde — diferente da anemia ferropriva, que tem protocolo próprio desde 2014. A âncora nacional do tema é regulatória e de acesso: a fortificação compulsória das farinhas de trigo e de milho com ácido fólico e ferro (RDC 604/2022 da ANVISA), que tornou a carência isolada de folato bem menos comum no Brasil, e a oferta de cianocobalamina injetável 1.000 µg e ácido fólico 5 mg no componente básico do SUS (RENAME). A régua diagnóstica e terapêutica vem da literatura hematológica; o contraste internacional atual é a diretriz NICE de 2024, a primeira grande revisão do tema em uma década.

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O que muda decisão

Duas vitaminas, um mesmo bloqueio: a síntese de DNA

B12 (cobalamina) e folato convergem na mesma via: a produção de timidilato para a síntese de DNA. O folato, na forma de metiltetraidrofolato, precisa ser 'destravado' pela metionina sintase — enzima dependente de B12 que converte homocisteína em metionina. Sem B12, o folato fica sequestrado na forma metilada e inútil para o DNA (a 'armadilha do folato'): por isso as duas carências produzem a mesma anemia, e por isso dar folato em dose alta consegue contornar parcialmente o bloqueio de quem tem deficiência de B12 — corrigindo a anemia sem corrigir o resto.

A B12 tem uma segunda função que o folato não substitui: é cofator da metilmalonil-CoA mutase, na via de degradação de ácidos graxos de cadeia ímpar. Sem B12, acumula ácido metilmalônico (MMA) e a síntese de mielina sofre — daí a doença neurológica ser exclusiva da deficiência de B12. Essa bioquímica explica os dois marcadores: a homocisteína sobe nas duas carências (via da metionina sintase é comum), o MMA sobe só na de B12. É a pegadinha laboratorial favorita da banca.

Com o DNA travado e o citoplasma funcionando, o eritroblasto cresce sem conseguir dividir o núcleo — a assincronia núcleo-citoplasmática que define o megaloblasto. Grande parte dessas células morre dentro da própria medula (eritropoese ineficaz): o resultado é uma 'hemólise intramedular' com LDH muito alta, bilirrubina indireta elevada e haptoglobina baixa, mas com reticulócito baixo — porque a medula não entrega célula na periferia. Esse trio é o que diferencia a megaloblástica de uma anemia hemolítica verdadeira.

A cinética dos estoques decide quem adoece e quando: o fígado guarda B12 para 3 a 5 anos, mas folato para apenas 3 a 4 meses. Uma dieta pobre em folato (ou um alcoolismo ativo) produz carência em poucos meses; a deficiência de B12 leva anos para se instalar depois de uma gastrectomia ou do início de uma dieta vegana estrita — e por isso aparece 'do nada', anos depois do evento causal que o enunciado esconde no meio da história.

De onde vem a carência: B12 de um lado, folato do outro

Deficiência de B12 é, na imensa maioria, problema de absorção — não de dieta. A causa clássica de deficiência grave é a anemia perniciosa (gastrite atrófica autoimune): destruição das células parietais, com perda do fator intrínseco necessário para absorver B12 no íleo terminal. Vem com outras autoimunidades (vitiligo, Hashimoto), gastrina elevada e risco aumentado de adenocarcinoma gástrico e tumor neuroendócrino tipo 1. As demais causas seguem a anatomia: gastrectomia e cirurgia bariátrica (bypass), ressecção ileal e doença de Crohn, supercrescimento bacteriano. No idoso, a hipocloridria impede liberar a B12 do alimento mesmo com fator intrínseco preservado — a 'má absorção da cobalamina alimentar'.

Duas causas farmacológicas caem cada vez mais: metformina em uso crônico (interfere na absorção ileal dependente de cálcio; vale monitorar B12 periodicamente em usuários de longa data) e inibidores de bomba de prótons por anos seguidos. A causa dietética pura existe, mas exige dieta vegana estrita e prolongada sem suplementação. E há a causa 'moderna' que a NICE 2024 destacou: óxido nitroso recreativo ('balão'), que oxida o cobalto da B12 e a inativa funcionalmente — o nível sérico pode vir normal com o paciente neurologicamente doente.

Folato é o espelho: a carência é dietética e rápida. Alcoolismo é a causa dominante (dieta pobre + bloqueio direto do metabolismo do folato pelo etanol), seguido de desnutrição, má absorção (doença celíaca) e consumo aumentado — gestação, lactação e hemólise crônica (o paciente falciforme usa ácido fólico contínuo exatamente por isso). Entre os fármacos: metotrexato e trimetoprima (antagonistas da di-hidrofolato redutase), fenitoína e sulfassalazina. Desde a fortificação compulsória das farinhas (RDC 604/2022: 140–220 µg de ácido fólico por 100 g), a carência isolada de folato ficou menos comum no Brasil — quando a prova mostra megaloblástica hoje, a estatística pende para B12.

Clínica: a anemia, a língua e a medula espinhal

A anemia é insidiosa — o paciente chega com hemoglobina impressionantemente baixa (6–8 g/dL) e queixas vagas, porque houve tempo de adaptação. Dois achados de exame físico valem ouro na vinheta: a glossite atrófica (língua lisa, despapilada, ardida) e a leve icterícia que, somada à palidez, dá a cor clássica 'amarelo-limão' da eritropoese ineficaz. Pode haver leve esplenomegalia. Nas formas graves, a pancitopenia entra no quadro e o caso simula leucemia ou aplasia.

O sistema nervoso é o divisor de águas: só a deficiência de B12 o acomete. O alvo é a mielina dos cordões posteriores e dos tratos corticoespinhais laterais — a degeneração combinada subaguda da medula. A sequência típica: parestesias simétricas distais, depois perda de sensibilidade vibratória e proprioceptiva (as primeiras a cair no exame), ataxia sensitiva com Romberg positivo, e por fim paraparesia espástica com Babinski. Podem coexistir neuropatia periférica (aquileu abolido junto de Babinski — combinação que deveria soar contraditória e é dica diagnóstica), declínio cognitivo, sintomas psiquiátricos e neuropatia óptica.

O ponto que mais derruba candidato: a doença neurológica pode vir sem anemia e com VCM normal — até um terço dos casos neurológicos se apresenta assim. Anemia ausente não exclui deficiência de B12; num quadro medular ou cognitivo compatível, a dosagem entra na investigação de qualquer forma. A deficiência de folato não produz a síndrome medular do adulto; sua tragédia neurológica é fetal — defeitos de fechamento do tubo neural, a razão da fortificação das farinhas e da suplementação periconcepcional.

Corte transversal da medula espinhal com os cordões posteriores e os tratos corticoespinhais laterais destacados em vermelho, indicando desmielinização.
Degeneração combinada subaguda: a deficiência de B12 desmieliniza os cordões posteriores (sensibilidade vibratória e proprioceptiva) e os tratos corticoespinhais laterais (paraparesia espástica, Babinski). O folato não produz essa síndrome.

Laboratório: do hemograma à zona cinzenta

O hemograma mostra anemia com VCM alto — na megaloblástica plena, tipicamente acima de 110 fL, com RDW aumentado. O esfregaço é o exame que fecha o padrão: macro-ovalócitos (macrócitos ovais, não os redondos do etilismo) e neutrófilos hipersegmentados (um com 6 lobos, ou mais de 5% com 5 lobos) — este último é achado precoce e bastante específico do estado megaloblástico. Reticulócito baixo, LDH e bilirrubina indireta altas, haptoglobina consumida. Nas formas graves: leucopenia e plaquetopenia. A medula óssea (hipercelular, com megaloblastos) não é necessária para o diagnóstico — ela entra quando a dosagem vitamínica vem normal e sobra a suspeita de síndrome mielodisplásica.

Dosagens: B12 sérica abaixo de 200 pg/mL (148 pmol/L) firma deficiência num quadro compatível — é o corte consagrado na literatura laboratorial brasileira e na diretriz britânica de 2014. Entre 200 e 400 pg/mL está a zona indeterminada: nem confirma, nem exclui. Aí entram os metabólitos: ácido metilmalônico elevado (acima de 0,4 µmol/L) aponta deficiência de B12; homocisteína elevada com MMA normal aponta folato. Duas ressalvas de prova: o MMA sobe também na insuficiência renal, e o nível sérico de B12 pode vir falsamente normal no usuário de óxido nitroso (vitamina presente, porém inativada) e falsamente baixo na gestação e no uso de anticoncepcional. Folato sérico abaixo de 3 ng/mL (7 nmol/L) define a carência; a coleta deve preceder qualquer transfusão ou reposição, porque poucos dias de dieta hospitalar ou de vitamina já normalizam o número.

Definida a deficiência de B12, procura-se a causa. Anti-fator intrínseco é o anticorpo de escolha: especificidade alta — positivo praticamente sela anemia perniciosa —, mas sensibilidade em torno de 50%, ou seja, negativo não exclui. Na suspeita persistente, o caminho é anti-célula parietal (sensível, pouco específico), gastrina sérica (elevada na gastrite atrófica) e endoscopia com biópsia de corpo gástrico. O teste de Schilling é história: aparece em prova apenas como alternativa errada. Sem causa evidente, vale rastrear doença celíaca. Na perniciosa confirmada, o raciocínio não termina no B12: há risco aumentado de neoplasia gástrica, e sintomas dispépticos novos pedem endoscopia sem demora.

Tratamento e resposta: reposição, potássio e o que nunca fazer

Reposição de B12 no Brasil se faz com cianocobalamina 1.000 µg intramuscular — a apresentação do componente básico do SUS. Esquema de ataque: 1.000 µg IM ao dia (ou em dias alternados) por 1 a 2 semanas; depois, semanal até a recuperação hematológica (em geral 4 a 8 semanas); manutenção mensal. Se há comprometimento neurológico, mantém-se a fase de dias alternados até a melhora estacionar. Causa irreversível — anemia perniciosa, gastrectomia total, ressecção ileal — significa reposição pela vida toda; suspender é recidiva certa. A via oral em dose alta (1.000 a 2.000 µg/dia) é alternativa validada mesmo na perniciosa, porque cerca de 1% da dose é absorvido por difusão passiva, independente de fator intrínseco — útil na manutenção de quem adere bem.

A resposta é rápida e tem cronologia de prova: o paciente melhora subjetivamente em 48–72 horas, o pico reticulocitário vem entre o 5º e o 8º dia, e hemoglobina e VCM normalizam em cerca de 8 semanas. Na anemia grave, a hematopoese reativada consome potássio — vigiar e repor hipocalemia nos primeiros dias, que é a resposta certa de muita questão de 'o que monitorar'. Transfusão fica reservada a instabilidade: anemia crônica bem adaptada tolera valores baixos, e a resposta à vitamina é veloz. A dosagem de B12 não serve para acompanhar quem já recebe reposição parenteral — vem alta por definição; o seguimento é clínico e hematológico. Lesão neurológica melhora ao longo de 6 a 12 meses e pode deixar sequela definitiva se o tratamento demorou: é o argumento para tratar cedo, inclusive antes do resultado confirmatório no quadro neurológico grave, desde que o sangue para as dosagens já tenha sido colhido.

Folato: ácido fólico 5 mg por via oral ao dia — o comprimido da rede —, por 1 a 4 meses ou até a recuperação hematológica completa, tratando a causa de base. A regra inegociável, que a banca adora: antes de repor folato, excluir (ou tratar junto) a deficiência de B12. O folato isolado corrige a anemia do deficiente de B12 e deixa a degeneração medular progredir em silêncio — a anemia 'mascarada' é a armadilha número um do tema. Na prevenção, o par é conhecido: fortificação compulsória das farinhas e suplementação periconcepcional de 400 µg/dia para prevenir defeitos do tubo neural (na prática do SUS, usa-se o comprimido de 5 mg disponível; com antecedente de feto acometido, a dose alta é formalmente indicada), mantida ao longo do primeiro trimestre. Gestante, paciente em hemólise crônica e em uso de metotrexato completam a lista de quem suplementa.

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Leitura da B12 sérica e algoritmo da macrocitose

A macrocitose se resolve em três movimentos: reticulócito e esfregaço para separar os grandes grupos, dosagem vitamínica para confirmar a carência, e metabólitos (MMA e homocisteína) para decidir a zona cinzenta. As faixas abaixo usam o corte consagrado de 200 pg/mL; a leitura NICE 2024 (180/350 ng/L) está no bloco de divergências.

  1. 1VCM > 100 fL: confirmar macrocitose real e pedir reticulócitos + esfregaço de sangue periférico.
  2. 2Reticulócito ALTO → não é megaloblástica: pensar em hemólise ou sangramento recente (a reticulocitose infla o VCM).
  3. 3Reticulócito baixo + macro-ovalócitos e neutrófilos hipersegmentados → padrão megaloblástico: dosar B12 e folato séricos (antes de transfundir ou repor).
  4. 4B12 < 200 pg/mL → deficiência de B12: tratar e investigar a causa (anti-fator intrínseco; se negativo e suspeita persiste, anti-célula parietal, gastrina, endoscopia).
  5. 5B12 entre 200 e 400 pg/mL com clínica compatível → dosar MMA (± homocisteína): MMA alto confirma B12; MMA normal com homocisteína alta aponta folato.
  6. 6Folato < 3 ng/mL → deficiência de folato: repor SOMENTE após excluir ou tratar simultaneamente a deficiência de B12.
  7. 7Dosagens normais + citopenias persistentes ou displasia no esfregaço → mielograma: a síndrome mielodisplásica é o diagnóstico de exclusão do idoso macrocítico que não responde a vitamina.

B12 < 200 pg/mL — deficiência confirmada

Com quadro compatível, trata e investiga a causa. Abaixo de 100 pg/mL, praticamente patognomônico de carência verdadeira.

B12 200–400 pg/mL — zona indeterminada

Nem confirma, nem exclui. Com sintomas ou fator de risco, o desempate é o ácido metilmalônico (>0,4 µmol/L indica deficiência).

B12 > 400 pg/mL — deficiência improvável

Exceção que a prova cobra: usuário de óxido nitroso pode ter nível normal com vitamina inativada — aí o exame inicial já é MMA ou homocisteína.

Deficiência de B12Deficiência de folato
Estoque corporal3 a 5 anos (fígado)3 a 4 meses
Causa típicaMá absorção: perniciosa, gastrectomia/bariátrica, íleo (Crohn), metformina, IBP, vegano estrito, óxido nitrosoDieta: alcoolismo, desnutrição; demanda aumentada (gestação, hemólise); metotrexato, trimetoprima, fenitoína
Doença neurológicaSIM — degeneração combinada subaguda; pode vir sem anemiaNÃO no adulto; no feto, defeito do tubo neural
HomocisteínaElevadaElevada
Ácido metilmalônicoELEVADO (>0,4 µmol/L)Normal
ReposiçãoCianocobalamina 1.000 µg IM (ataque → semanal → mensal); vitalícia se causa irreversível; oral 1.000–2.000 µg/dia é alternativa validadaÁcido fólico 5 mg VO/dia por 1–4 meses — sempre após excluir ou tratar B12

Macrocitose: megaloblástica × não megaloblástica

PistaMegaloblástica (B12/folato)Não megaloblástica
CausasDeficiência de B12 ou folato; drogas que travam o DNA (metotrexato, hidroxiureia, zidovudina)Álcool, hepatopatia, hipotireoidismo, reticulocitose, síndrome mielodisplásica
VCM habitualFrequentemente > 110 fLEm geral 100–110 fL
EsfregaçoMACRO-OVALÓCITOS + neutrófilos hipersegmentadosMacrócitos redondos; sem hipersegmentação; na SMD, displasia (pseudo-Pelger, hipogranulação)
Marcadores de eritropoese ineficazLDH e BI altas, haptoglobina baixa, reticulócito baixoAusentes (exceto hemólise, que cursa com reticulócito ALTO)
Conduta-chaveDosar B12 e folato; zona cinzenta → MMATratar a causa; sem resposta e com citopenias → mielograma (SMD)

Unidades: pg/mL e ng/L são numericamente iguais para B12 (200 pg/mL = 200 ng/L ≈ 148 pmol/L).

MMA elevado também ocorre na insuficiência renal — interpretar com a função renal ao lado.

Colher B12 e folato ANTES de transfusão ou reposição: dias de dieta hospitalar já normalizam o folato sérico.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual corte de B12 sérica define deficiência?

Corte clássico: 200 pg/mL com zona cinzenta até 400 (literatura laboratorial brasileira; BSH 2014)

Abaixo de 200 pg/mL (148 pmol/L) com quadro compatível, deficiência estabelecida; entre 200 e 400, metabólitos decidem. É a régua da revisão brasileira de referência (Paniz, 2005) e da diretriz britânica de 2014, e a que os laboratórios nacionais imprimem no laudo.

Paniz et al., J Bras Patol Med Lab 2005; BSH/Devalia, Br J Haematol 2014

Faixas NICE 2024: 180/350 ng/L, com B12 ativa e MMA na indeterminação

A NICE redesenhou as faixas: abaixo de 180 ng/L deficiência confirmada, 180–350 indeterminada (MMA se sintomático), acima de 350 improvável. Aceita a B12 ativa (holotranscobalamina) como teste inicial — bandas 25/70 pmol/L — e a prefere na gestação. No usuário de óxido nitroso, o exame inicial já é MMA ou homocisteína.

NICE NG239, março/2024

Na prova

O valor do enunciado costuma decidir sozinho: francamente baixo (<180–200) fecha deficiência nas duas réguas; limítrofe com sintomas pede metabólito (MMA) nas duas. Vocabulário denuncia o recorte: 'B12 ativa' e 'holotranscobalamina' só existem no mundo NICE; laudo com referência 200–900 pg/mL é o mundo do laboratório brasileiro.

Reposição na anemia perniciosa: parenteral ou oral em dose alta?

Parenteral como padrão (prática brasileira; apresentação do SUS)

Cianocobalamina 1.000 µg IM é a apresentação padronizada no componente básico do SUS e a via tradicional de ataque e manutenção (mensal, vitalícia na causa irreversível) — garante absorção independente de adesão e de fator intrínseco, e é o esquema descrito nos textos nacionais.

RENAME 2022 / Componente Básico da Assistência Farmacêutica

Oral em dose alta como equivalente (evidência de ensaios; NICE para causa alimentar)

1.000–2.000 µg/dia por via oral atinge resposta hematológica e neurológica comparável à IM mesmo sem fator intrínseco, pela absorção passiva de ~1%. A NICE 2024 formaliza a via oral para deficiência de causa alimentar e mantém a intramuscular para causas irreversíveis, como a gastrite autoimune.

NICE NG239, 2024; ensaios de equivalência oral × IM (base da recomendação)

Na prova

Cenário de UBS com ampola disponível e pergunta sobre 'esquema' aponta o mundo IM do SUS; enunciado que discute adesão, custo ou cita dose de 1.000–2.000 µg VO aponta a literatura de equivalência. Alternativa que afirme que a via oral 'não funciona na perniciosa' descreve uma fisiologia superada — a absorção passiva independe de fator intrínseco.

Gastrite autoimune: vigilância endoscópica programada ou não?

Vigilância com intervalos definidos (consenso endoscópico europeu MAPS II, 2019)

Na gastrite atrófica avançada, endoscopia de vigilância com biópsias a cada ~3 anos, pelo risco de adenocarcinoma e de tumor neuroendócrino tipo 1.

MAPS II — Endoscopy, 2019

Sem programa sistemático (NICE 2024)

A NICE não instituiu vigilância endoscópica de rotina na gastrite autoimune: endoscopia orientada por sintomas e achados. Comentadores europeus criticaram exatamente esse ponto, citando a baixa taxa de endoscopia ao diagnóstico no Reino Unido.

NICE NG239, 2024; crítica em Eur J Clin Nutr, 2025

Na prova

Questão de clínica geral costuma parar no reconhecimento do risco aumentado de neoplasia gástrica na perniciosa. Intervalo numérico de vigilância aparece em prova de gastroenterologia/endoscopia e denuncia o consenso europeu; 'endoscopia se sintomas' reflete a leitura NICE.

06

Caso resolvido

Mulher, 62 anos, vitiligo, procura a UBS por cansaço progressivo há 4 meses, ardência na língua e formigamento simétrico nos pés que já sobe pelas pernas. Exame: palidez com leve tinte ictérico, língua despapilada, sensibilidade vibratória abolida nos maléolos, Romberg positivo. Hb 7,8 g/dL, VCM 118 fL, leucócitos 3.600, plaquetas 126.000, reticulócitos 0,5%, LDH 1.800 U/L, BI 2,0 mg/dL, B12 92 pg/mL, folato normal. Esfregaço: macro-ovalócitos, neutrófilos com 6 lobos.
padrão
Pancitopenia com macrocitose intensa (VCM 118), macro-ovalócitos e hipersegmentação = estado megaloblástico. LDH e BI altas com reticulócito BAIXO = eritropoese ineficaz, não hemólise periférica.
etiologia
B12 de 92 pg/mL fecha a carência. Mulher de 60+ com outra autoimunidade (vitiligo) e sem cirurgia prévia: anemia perniciosa é a principal hipótese — pedir anti-fator intrínseco (positivo sela; negativo não exclui — seguir com gastrina, anti-célula parietal e endoscopia com biópsia de corpo).
neurologia
Parestesias + vibratória abolida + Romberg = degeneração combinada subaguda em curso. Isso muda a pressa e o esquema: comprometimento neurológico pede reposição intensiva desde já.
conduta
Cianocobalamina 1.000 µg IM em dias alternados até a melhora neurológica estacionar; depois semanal até normalizar o hemograma e mensal por toda a vida (causa irreversível). Vigiar potássio nos primeiros dias. Não transfundir: está estável, e a resposta à vitamina é rápida (reticulócitos sobem do 5º ao 8º dia).
seguimento
Melhora hematológica completa em ~8 semanas; a neurológica leva 6–12 meses e pode ser parcial. Não repetir dosagem de B12 sob reposição IM — o seguimento é clínico. Dispepsia nova ou sinal de alarme → endoscopia (risco de neoplasia gástrica na perniciosa).
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Agora feche você

Homem, 48 anos, etilista pesado, interna por anemia: Hb 7,2 g/dL, VCM 112 fL, reticulócitos baixos. Sem dosagens vitamínicas colhidas, a equipe inicia ácido fólico 5 mg/dia. Em 3 semanas, Hb sobe para 10,5 e o VCM cai — mas o paciente retorna com formigamento nas mãos e nos pés, marcha instável no escuro e sensibilidade vibratória abolida.
o que a melhora do hemograma escondeu
A anemia respondeu ao folato, o que parece confirmar carência de folato — mas a resposta hematológica ao folato em dose alta também ocorre na deficiência de B12 (a via do DNA é contornada).
o que o quadro novo significa
Parestesias + ataxia sensitiva + vibratória abolida = degeneração combinada subaguda progredindo APESAR do hemograma em melhora: a via da metilmalonil-CoA mutase, exclusiva da B12, seguiu bloqueada.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Repor ácido fólico sem dosar B12 Atrai porque a anemia melhora de verdade — hemograma em recuperação parece tratamento certo. Mas o folato só contorna a via do DNA; a desmielinização da B12 continua e pode virar sequela definitiva. Regra: folato só depois de excluir (ou tratando junto) a deficiência de B12.
  2. 2Ler LDH alta + bilirrubina indireta alta como hemólise periférica O par existe nas duas situações; o desempate é o reticulócito. Hemólise verdadeira vem com reticulocitose; na megaloblástica ele está BAIXO — a destruição é intramedular (eritropoese ineficaz). Marcar 'anemia hemolítica autoimune' e pedir Coombs é o erro desenhado da questão.
  3. 3Excluir deficiência de B12 porque não há anemia nem VCM alto Até um terço dos casos neurológicos cursa sem anemia e com VCM normal. Quadro medular posterior + piramidal, declínio cognitivo inexplicado ou parestesias simétricas pedem dosagem mesmo com hemograma limpo — e, no usuário de óxido nitroso, o nível sérico normal não descarta (o desempate é MMA/homocisteína).
  4. 4Descartar anemia perniciosa porque o anti-fator intrínseco veio negativo O anticorpo é muito específico, mas a sensibilidade fica em torno de 50%: metade dos doentes é soronegativa. Suspeita persistente segue com gastrina, anti-célula parietal e endoscopia com biópsia de corpo gástrico. O inverso também cai: positivo praticamente fecha o diagnóstico.
  5. 5Tratar toda macrocitose como carência vitamínica Álcool, hepatopatia, hipotireoidismo, reticulocitose e fármacos (hidroxiureia, zidovudina) explicam VCM alto sem megaloblastose — macrócitos redondos, sem hipersegmentação. No idoso com citopenias que 'não responde a vitamina', a pergunta seguinte é síndrome mielodisplásica: mielograma, não mais uma ampola.
  6. 6Esquecer o potássio na resposta ao tratamento A hematopoese reativada consome potássio e a hipocalemia dos primeiros dias pode ser grave na anemia profunda. A questão de 'evolução após iniciar B12' costuma cobrar exatamente isso — junto do pico reticulocitário do 5º ao 8º dia, que confirma que o tratamento funcionou.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Anemia macrocítica (VCM 112), neutrófilos hipersegmentados e sintomas neurológicos (parestesias, alteração de sensibilidade vibratória) em vegetariana estrita apontam deficiência de vitamina B12. Deficiência de ferro causa anemia microcítica. Vitamina C causa escorbuto (petéquias, gengivorragia), não macrocitose. B6 associa-se a anemia sideroblástica (microcítica). Cobre pode causar mielopatia, mas é raro e não é a causa nutricional típica nesse contexto.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de cabeça o algoritmo da macrocitose (reticulócito → esfregaço → dosagens → MMA na zona 200–400) e o par de metabólitos: homocisteína sobe nas duas carências, MMA só na de B12. Repasse os achados do esfregaço que fecham megaloblastose.

em 30 dias

Reveja os esquemas de reposição (ataque IM, manutenção mensal vitalícia na causa irreversível, oral 1.000–2.000 µg como alternativa; folato 5 mg 1–4 meses) e as três armadilhas: folato às cegas, pseudo-hemólise com reticulócito baixo e doença neurológica sem anemia.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 62 anos chega à UBS com cansaço, língua ardendo e formigamento nos pés que não passa. O hemograma mostra anemia com VCM 118 fL. Conduza a consulta: da suspeita à reposição. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Anemias macrocíticas e megaloblásticas – Anemias megaloblásticas (B12 e folato) — Preparatório para provas | OsceLabs