Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Púrpura trombocitopênica trombótica: a plaquetopenia que não espera o exame

Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT)

Separar, no primeiro hemograma, a púrpura que vai para troca plasmática hoje daquela que espera o ambulatório

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 34 anos apresenta petéquias em membros inferiores e sangramento gengival há 1 semana, após quadro viral. Nega uso de medicamentos. Ao exame: sem hepatoesplenomegalia, sem adenomegalias. Hemograma: Hb 13,2 g/dL, leucócitos 6.800/mm³ (diferencial normal), plaquetas 12.000/mm³. Esfregaço: plaquetas escassas, sem esquizócitos, séries branca e vermelha normais. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

O recorte é a plaquetopenia do adulto que chega ao pronto-socorro com anemia junto: reconhecer a microangiopatia, calcular a probabilidade de deficiência grave da enzima que corta o fator de von Willebrand, decidir troca plasmática antes do resultado, e separar esse quadro das outras quatro plaquetopenias que competem na mesma vinheta — a púrpura imune, a síndrome hemolítico-urêmica, a coagulação intravascular disseminada e a plaquetopenia da gestação.

Entram também a régua brasileira: o que o protocolo clínico do país cobre, o que ele deixou de fora e com que nome cada ato oficial chama a doença. Ficam fora o manejo obstétrico da síndrome de hemólise com enzimas hepáticas elevadas, a púrpura imune da criança e o detalhamento da forma congênita da doença trombótica, que têm capítulos próprios.

03

O que muda decisão

Duas púrpuras, um hemograma parecido

As duas doenças que a prova mistura têm nomes quase iguais e mecanismos opostos. Na púrpura trombocitopênica imune, autoanticorpos destroem plaquetas e o paciente sangra: petéquias, gengivorragia, epistaxe. A série vermelha é normal, o esfregaço não tem fragmento, e o resto do hemograma não colabora com nenhuma outra explicação. Na púrpura trombocitopênica trombótica, multímeros gigantes do fator de von Willebrand grudam plaquetas dentro da microcirculação: o paciente consome plaqueta formando trombo e, ao mesmo tempo, tritura hemácia contra esses trombos. Por isso a anemia vem junto, com esquizócitos no esfregaço.

A consequência prática é que a microangiopatia trombótica tem dois achados na mesma lâmina — plaqueta baixa e hemácia partida — e a primeira tem apenas um. Sempre que a vinheta oferece anemia com fragmentação ao lado da plaquetopenia, a pergunta deixou de ser "por que ele sangra" e passou a ser "onde estão os trombos".

A pêntade clássica — febre, alteração neurológica, insuficiência renal, anemia hemolítica e plaquetopenia — descreve a doença tarde demais. Exigi-la é esperar que o dano de órgão já tenha acontecido. O registro brasileiro da doença, com 85 pacientes acompanhados entre 2018 e 2024, mostra que a manifestação neurológica esteve presente em 75,3% dos casos, o sangramento em 58,8% e a dor abdominal em 32,9%: nem a alteração neurológica, que é a mais comum, aparece em todos. A mediana de idade foi de 37 anos, com intervalo interquartil de 27 a 45, e 76% eram mulheres.

Guarde esse perfil, porque ele contradiz o reflexo de procurar doença grave em idoso. A microangiopatia trombótica imune do adulto é doença de mulher jovem, e a mesma coorte brasileira mostra que a idade avançada não é o que faz a doença aparecer: é o que faz ela matar.

A enzima que define, e o calendário que ela não respeita

O diagnóstico de certeza é bioquímico. A protease ADAMTS13 existe para cortar os multímeros ultragrandes do fator de von Willebrand assim que eles são liberados pelo endotélio. Quando autoanticorpos a neutralizam, os multímeros permanecem inteiros, capturam plaquetas em regime de alto fluxo e produzem a trombose microvascular. Medir a atividade dessa protease é medir a própria doença.

O problema é operacional. A diretriz da sociedade internacional de trombose e hemostasia de 2020 é explícita ao colocar a dosagem da enzima como peça central do diagnóstico e, no mesmo movimento, ao recomendar que a probabilidade pré-teste seja estimada clinicamente — porque o resultado demora. No Brasil o gargalo é anterior ao prazo: no registro nacional, a atividade da enzima foi dosada em apenas 62,4% dos 85 pacientes. Em todos os que foram testados, o valor estava abaixo de 10%.

Leia esse número duas vezes. Ele não diz que o exame confirmou o diagnóstico em 62,4% dos casos do registro brasileiro; diz que um em cada três pacientes tratados nunca teve o exame feito. O tratamento aconteceu de qualquer modo, e a coorte foi publicada como coorte da doença. Isso só é defensável porque a decisão de tratar legitimamente não depende do exame.

Régua da atividade enzimática de zero a cem por cento, com o ponto de dez por cento coberto por duas faixas de classificação opostas.
O valor exato de 10% de atividade é o único ponto da régua que pertence às duas classes ao mesmo tempo: o estudo de derivação do escore define deficiência grave como atividade de 10% ou menos; a validação canadense e a coorte brasileira escrevem o mesmo conceito como atividade abaixo de 10%.

A fronteira merece atenção porque ela não é a mesma em todos os documentos. O estudo que derivou o escore construiu o modelo para prever atividade de 10% ou menos. A validação canadense e a coorte brasileira escrevem atividade abaixo de 10%. Um paciente com resultado de exatamente 10,0% é deficiência grave num texto e não é no outro. A diferença nunca aparece na prova como pergunta, mas explica por que dois artigos sobre a mesma doença podem discordar em poucos pacientes de fronteira — e por que a decisão nunca deveria ficar pendurada num decimal.

Sete perguntas que cabem no primeiro hemograma

Como o exame demora, o campo construiu um substituto. O escore PLASMIC nasceu em Boston, de uma coorte de 214 adultos com microangiopatia trombótica atendidos entre 2004 e 2015, e foi publicado com derivação e validação externa em 2017. São sete itens, cada um valendo um ponto, e todos disponíveis no primeiro conjunto de exames: plaquetas abaixo de 30.000 por milímetro cúbico; sinal de hemólise; ausência de câncer ativo; ausência de transplante de órgão sólido ou de células-tronco; volume corpuscular médio abaixo de 90 femtolitros; razão normalizada internacional abaixo de 1,5; e creatinina abaixo de 2,0 miligramas por decilitro.

A lógica dos sete itens é elegante e vale entender, porque ela é o próprio diagnóstico diferencial disfarçado de conta. Quatro dos sete itens não descrevem a doença: descrevem a ausência das concorrentes. Câncer ativo e transplante recente apontam para outras microangiopatias; creatinina alta empurra para a síndrome hemolítico-urêmica, onde o rim domina; razão de coagulação alargada empurra para a coagulação intravascular disseminada, onde a via da coagulação foi consumida. Sobram três itens que descrevem o quadro: plaqueta muito baixa, hemólise presente e hemácia pequena.

Os três itens positivos do escore derivado em 2017 merecem um comentário à parte. Plaqueta abaixo de 30.000 parece contraintuitiva como marcador de trombose, e é justamente o ponto: o consumo aqui é tão intenso que a contagem cai mais do que cairia na destruição imune típica de emergência. E o volume corpuscular baixo entra porque a hemólise da microangiopatia é aguda, sem tempo para a resposta reticulocitária engordar o volume médio — enquanto anemias com fragmentação de outras causas costumam vir com o volume mais alto.

Duas réguas de zero a sete pontos empilhadas, com uma linha tracejada caindo sobre o ponto cinco em classes diferentes em cada régua.
O mesmo valor 5 cai em classes diferentes conforme a regra aplicada: pela faixa de risco descrita na literatura ele é intermediário; pelo corte operacional que a meta-análise avaliou, ele já é positivo. As duas regras convivem nos mesmos artigos.

A leitura do resultado tem uma armadilha de fronteira. A literatura descreve três faixas de risco — de zero a quatro é probabilidade baixa, cinco é intermediária, e seis ou sete é alta — e ao mesmo tempo avalia dois cortes operacionais, o de cinco ou mais e o de seis ou mais. O valor 5, portanto, é intermediário pela faixa e positivo pelo corte mais baixo, tudo no mesmo corpo de evidência. Quem lê a faixa e conclui "intermediário, então espero" está aplicando uma régua descritiva a uma decisão que a outra régua já tomou.

No registro brasileiro, a mediana do escore foi 6, com intervalo interquartil de 6,0 a 7,0. Ou seja: a metade inferior dos pacientes brasileiros diagnosticados já entrava com pontuação de alta probabilidade. Isso é bom para a confiança no escore e péssimo como retrato do sistema — significa que o paciente com pontuação intermediária, aquele que o escore existe para resgatar cedo, provavelmente não estava chegando.

O mesmo corte, dois desempenhos opostos

A meta-análise de 2020 reuniu 13 estudos e 970 pacientes, com prevalência mediana da doença de 35% entre os avaliados. No corte de cinco ou mais, a sensibilidade foi de 0,99, com intervalo de confiança de 95% de 0,91 a 1,00, e a especificidade de 0,57, com intervalo de 0,41 a 0,72. No corte de seis ou mais, a sensibilidade caiu para 0,85, com intervalo de 0,67 a 0,94, e a especificidade subiu para 0,89, com intervalo de 0,81 a 0,94. O valor preditivo negativo, naquela prevalência, foi de 0,99 no corte mais baixo e de 0,92 no mais alto.

Esse par de linhas da meta-análise é a tese do escore inteira. O corte de cinco não serve para dizer quem tem a doença — com especificidade de 0,57, quase metade de quem não tem também pontua. Ele serve para dizer quem não tem: com sensibilidade de 0,99, pontuação abaixo de cinco praticamente exclui a deficiência grave. O corte de seis é o inverso: erra um em cada sete doentes, mas quase não acusa quem está livre. Um escore, duas ferramentas, e a escolha entre elas é a escolha entre tratar demais e tratar tarde.

Figura dividida ao meio comparando sensibilidade e especificidade do escore em dois grupos etários, com a barra de especificidade longa à esquerda e curta à direita.
O mesmo corte de cinco pontos, na mesma publicação: especificidade de 100% nos pacientes abaixo de 60 anos e de 27,3% acima dessa idade. A sensibilidade quase não se mexe; o que inverte o desempenho é quem está no grupo de comparação.

A validação canadense, com 163 pacientes suspeitos e resultado de enzima disponível em 117 deles, encontrou prevalência de deficiência grave de 53% e, no corte de seis ou mais, sensibilidade de 81,7% e especificidade de 71,4%, com estatística de concordância de 0,80. Compare com a meta-análise: o mesmo corte, num grupo com quase o dobro da prevalência, perdeu quase 18 pontos de especificidade. O escore não mudou. Mudou quem estava do outro lado da comparação.

O caso extremo veio de um estudo turco de 2023 que aplicou o escore em 30 pacientes acima de 60 anos e comparou com 28 abaixo dessa idade. No corte de cinco ou mais, a sensibilidade foi de 100% nos idosos contra 95% nos mais jovens — praticamente igual. A especificidade foi de 27,3% nos idosos contra 100% nos mais jovens. O escore de sete pontos, no paciente acima de 60 anos, deixou de discriminar quase por completo. O escore francês, testado no mesmo trabalho com corte de um ou mais, também caiu: sensibilidade de 78,9% contra 100%, e especificidade de 18,2% contra 57,1%.

Vale nomear o mecanismo, porque ele se repete em toda ferramenta de triagem. Quatro dos sete itens pontuam pela ausência de câncer, de transplante, de creatinina alta e de coagulação alargada. Idoso acumula justamente essas coisas por motivos que nada têm a ver com microangiopatia. O escore não ficou pior; a população de comparação ficou mais parecida com a doença. É o mesmo fenômeno que faz um exame reduzir a probabilidade contra um comparador e aumentá-la contra outro: quem inverte o sinal é o grupo de comparação, não o teste.

O que se faz antes do resultado

A conduta na suspeita firme é troca plasmática diária, corticoide e — quando disponível — rituximabe. A diretriz internacional de tratamento de 2020 fechou 11 recomendações e classificou a adição de corticoide à troca plasmática como recomendação forte, tanto no primeiro episódio quanto nas recaídas; o caplacizumabe, anticorpo contra o fator de von Willebrand, entrou como recomendação condicional. A certeza da evidência que sustenta o conjunto varia de muito baixa a moderada, o que é honesto para uma doença que mata rápido demais para grandes ensaios.

A troca plasmática faz duas coisas ao mesmo tempo: retira o autoanticorpo que neutraliza a protease e repõe a protease em falta pelo plasma do doador. É por isso que ela é insubstituível e é por isso que ela não pode esperar. Antes de existir, a mortalidade materna da doença na gestação passava de 90%, segundo série de casos publicada em 2026; nos anos 1990, já com corticoide e troca plasmática em uso, a letalidade permanecia acima de 20%, conforme revisão histórica publicada em 2024 no centenário da primeira descrição.

No registro brasileiro, 74 dos 85 pacientes — 87,1% — receberam troca plasmática, iniciada em mediana no primeiro dia de internação, com intervalo interquartil de 1 a 2 dias. Corticoide foi administrado em 95,3% e rituximabe em 56,5%. Vinte e três pacientes, 27,1%, precisaram de suporte avançado de vida, e 13 pacientes, 15,3%, morreram durante a internação. A mortalidade hospitalar associou-se a idade mais avançada e a instabilidade hemodinâmica já na admissão. Entre os que sobreviveram, 26% tiveram exacerbação ou recaída e 22,4% desenvolveram sequela crônica, em geral neurológica ou psiquiátrica; o uso de rituximabe foi protetor contra recaída.

A camada mais nova do tratamento tem números grandes e desenho frágil. O estudo internacional que reuniu 1.015 pacientes tratados com caplacizumabe somado à troca plasmática e à imunossupressão comparou-os a 510 controles históricos tratados sem o anticorpo. A sobrevida em três meses foi de 98,5% no grupo tratado contra 94% nos controles, e a mortalidade em três meses foi 4,2 vezes maior nos controles, com intervalo de confiança de 95% de 2,22 a 7,7. O início precoce, dentro de três dias, ocorreu em 76% dos casos e associou-se a resposta mais rápida. Eventos adversos ligados à droga apareceram em 21%, com sangramento maior em 2,4% — mais frequente justamente nos idosos.

Duas ressalvas, ambas escritas pelos próprios autores. O grupo de comparação é histórico, não randomizado, e a idade avançada permaneceu o fator mais associado à morte nos dois braços. Traduzindo para a beira do leito: o anticorpo encurta o tempo até a resposta e reduz recidiva e refratariedade, mas quem morre continua sendo o paciente idoso que chegou tarde.

Onde o tempo se perde de verdade

O desfecho que o aluno mais teme é a morte, e ele não se lê da tabela que existiria para descrevê-lo: não há coorte brasileira de caplacizumabe, porque o medicamento não integra a lista do Sistema Único de Saúde para essa doença. A pergunta "o Brasil morre mais por falta do anticorpo?" não tem tabela.

O que ainda dá para dizer com a mesma régua dos dois lados é isto: a mortalidade hospitalar do registro brasileiro foi de 15,3%, enquanto a mortalidade em três meses do braço de controles históricos do estudo internacional — pacientes que também não receberam o anticorpo — foi de 6%. Os dois números são observacionais, ambos contam mortes, e o brasileiro é pior do que o grupo que serve de referência ruim no estudo estrangeiro. A distância, portanto, não pode ser atribuída inteira ao medicamento que falta, porque o comparador também não o tinha.

O número que explica a distância está em outra linha do mesmo registro brasileiro. A mediana de tempo entre o início dos sintomas e a admissão hospitalar foi de 8 dias; a troca plasmática começou em mediana no primeiro dia depois da admissão. Ou seja: o hospital brasileiro reage rápido, e o caminho até ele é lento. Os próprios autores concluem que o diagnóstico e o tratamento no país chegam atrasados e desatualizados, e apontam garantia de diagnóstico rápido e disponibilidade de troca plasmática e rituximabe como a estratégia custo-efetiva.

Isso reposiciona o capítulo inteiro. A pergunta de prova costuma ser sobre qual conduta iniciar; a pergunta de sistema é sobre quantos dias o paciente passou sendo tratado como virose, anemia ou plaquetopenia benigna antes de alguém pedir um esfregaço. O escore de sete pontos existe exatamente para encurtar esses oito dias, e ele só funciona se for calculado por quem vê o paciente primeiro.

A outra púrpura, e o nome que o país trocou

A púrpura imune tem, no Brasil, protocolo clínico próprio; a trombótica não tem. Isso muda o que se cobra de cada uma. A edição vigente do protocolo da púrpura imune foi aprovada pela Portaria Conjunta nº 41, de 25 de fevereiro de 2026, e trocou o título da doença para Trombocitopenia Imune Primária. A edição anterior, de julho de 2019, chamava-se Púrpura Trombocitopênica Idiopática. O relatório que sustentou a mudança registra o motivo em uma linha: o processo de atualização considerou a necessidade de alterar o título para descrever melhor a doença.

A troca de nome não desceu por igual em todos os atos oficiais, e isso importa para quem lê enunciado. Dentro do protocolo de 2026, a seção de classificação estatística de doenças continua trazendo o código D69.3 com o rótulo antigo, púrpura trombocitopênica idiopática, porque o código internacional não mudou. E as portarias que efetivamente pagam os medicamentos — a de 2024 para adultos e a de 2025 para crianças e adolescentes — também usam o nome antigo. A mesma doença tem três nomes vigentes ao mesmo tempo, e o rótulo que autoriza a dispensação é o que a diretriz acabou de aposentar.

A troca também não foi apenas de capa. Comparando as duas edições frase a frase, das cerca de 490 sentenças longas do protocolo de 2019 apenas 16 reaparecem palavra por palavra em 2026 — e essas 16 são bula: listas de efeitos adversos, regras de ajuste de dose e a cláusula que manda começar com 25 miligramas em pacientes de ascendência asiática. Nenhuma frase conceitual sobre a doença sobreviveu intacta. É reescrita, não atualização de fachada.

O que nasceu no texto do protocolo confirma a leitura. Rituximabe aparece 44 vezes na edição de 2026 e nenhuma na de 2019; romiplostim salta de 4 para 34 menções; a expressão trombocitopenia imune primária, ausente antes, aparece 11 vezes. Do outro lado, imunoglobulina encolhe de 83 para 20 menções e esplenectomia de 24 para 8. A leitura clínica é direta: a segunda linha do tratamento migrou de retirar o baço e infundir imunoglobulina para modular o sistema imune e estimular a produção de plaqueta.

Uma tecnologia foi avaliada e recusada nas duas populações: a dapsona. Ela aparece nas perguntas de pesquisa do protocolo, na mesma frase que rituximabe e romiplostim, e o texto registra que a comissão nacional deliberou por não incorporá-la, tanto em adultos quanto em crianças e adolescentes. No relatório pediátrico o motivo está escrito: ausência de evidência comparativa nessa população e instabilidade no fornecimento no território nacional. Ver o nome de um medicamento no protocolo não significa que ele esteja disponível.

O comparador decide o sinal

Vale terminar com um exemplo de que a inversão pelo comparador não é peculiaridade de escore diagnóstico. O relatório de recomendação pediátrico de 2025 traz, no mesmo documento e com o mesmo horizonte de cinco anos, duas análises de impacto orçamentário do mesmo medicamento. Na faixa de 1 a 5 anos, o romiplostim acrescenta R$ 1.598.802,71 ao orçamento. Na faixa de 6 a 17 anos, o mesmo romiplostim reduz R$ 270.803,08.

O sinal se inverte porque o comparador muda: na faixa mais nova a alternativa é o melhor cuidado de suporte, e na faixa mais velha a alternativa é outro medicamento já disponível, o eltrombopague. Nenhum dado econômico mudou entre as duas contas; o que mudou foi uma suposição clínica sobre o que estaria disponível para aquela idade. O resultado não vive na tecnologia avaliada — vive na escolha de contra quem ela foi medida.

Uma diferença aparente no mesmo relatório não é contradição, e reconhecê-la é parte da leitura. A análise de custo-utilidade calcula um acréscimo de R$ 178 por paciente com ganho de 0,012 anos de vida ajustados por qualidade, enquanto a análise de impacto orçamentário mostra redução de custo nos três cenários alternativos. São duas réguas com finalidades diferentes: uma mede o custo por paciente contra a sequência atual do protocolo, a outra mede o gasto agregado do sistema contra a dispensação real. Números de sinais opostos, perguntas diferentes.

Feche o raciocínio voltando à clínica. Especificidade de 100% ou de 27,3% para o mesmo corte no estudo turco, orçamento positivo ou negativo para o mesmo medicamento no relatório pediátrico: nos dois casos, a pergunta que o leitor precisa fazer primeiro não é "quanto deu", e sim "comparado com quem". Enunciado que informa o resultado sem informar o comparador está pedindo uma resposta que ele mesmo não sustenta.

04

Do hemograma à troca plasmática: a régua de sete pontos

A decisão que este capítulo treina é única: diante de plaquetopenia com anemia, iniciar ou não troca plasmática antes do resultado da enzima. O fluxo abaixo é a sequência que a diretriz internacional desenha ao pedir probabilidade pré-teste antes do exame. As tabelas trazem os sete itens do escore, o desempenho medido de cada corte e o quadro que separa as cinco plaquetopenias que competem na mesma vinheta.

  1. 1Plaquetopenia no hemograma: confirmar que não é agregação por anticoagulante do tubo, repetindo a coleta em tubo com anticoagulante diferente do usual quando o serviço dispuser.
  2. 2Há anemia junto? Sem anemia e sem fragmentação, a rota é a da púrpura imune: história, medicamentos, sorologias e pesquisa de infecção crônica.
  3. 3Com anemia, pedir esfregaço de sangue periférico, reticulócitos, bilirrubina indireta, haptoglobina, desidrogenase láctica, coagulograma e creatinina — todos no mesmo momento.
  4. 4Fragmentação presente com sinal de hemólise: está caracterizada a microangiopatia trombótica. A partir daqui a pergunta é qual delas.
  5. 5Calcular o escore de sete pontos com os exames já colhidos e as três perguntas de história (câncer ativo, transplante prévio, uso de anticoagulante).
  6. 6Pontuação de seis ou sete: probabilidade alta. Acionar hematologia e serviço de aférese e iniciar troca plasmática com corticoide, sem esperar a dosagem da enzima.
  7. 7Pontuação de cinco: faixa intermediária pela descrição e já positiva pelo corte mais sensível. Tratar como alta probabilidade enquanto a dosagem não volta, e reavaliar com o resultado.
  8. 8Pontuação de quatro ou menos: probabilidade baixa. Investigar as concorrentes, começando pela que a própria pontuação denunciou — creatinina alta puxa para a síndrome hemolítico-urêmica, coagulograma alargado para a coagulação intravascular disseminada, câncer ou transplante para microangiopatia secundária.
  9. 9Colher a dosagem da enzima antes da primeira troca plasmática sempre que possível, porque a reposição de plasma altera o resultado.

Os sete itens do escore, cada um valendo um ponto

ItemVale o ponto quandoO que ele está descartando
Contagem de plaquetasAbaixo de 30.000 por milímetro cúbicoConsumo modesto, típico de outras causas de plaquetopenia
HemóliseReticulocitose, haptoglobina indetectável ou bilirrubina indireta elevadaPlaquetopenia isolada, sem destruição de hemácia
Câncer ativoAusenteMicroangiopatia paraneoplásica ou por quimioterapia
TransplanteSem transplante de órgão sólido ou de células-troncoMicroangiopatia associada ao transplante e a imunossupressores
Volume corpuscular médioAbaixo de 90 femtolitrosHemólise arrastada, com resposta reticulocitária já instalada
Razão normalizada internacionalAbaixo de 1,5Coagulação intravascular disseminada e hepatopatia
CreatininaAbaixo de 2,0 miligramas por decilitroSíndrome hemolítico-urêmica, em que o rim domina

O mesmo escore, quatro medidas de desempenho

FonteCorteSensibilidadeEspecificidade
Meta-análise de 13 estudos, 970 pacientes, prevalência mediana de 35%Cinco ou mais0,99 (0,91 a 1,00)0,57 (0,41 a 0,72)
Meta-análise de 13 estudos, 970 pacientes, prevalência mediana de 35%Seis ou mais0,85 (0,67 a 0,94)0,89 (0,81 a 0,94)
Validação canadense, 117 pacientes com enzima dosada, prevalência de 53%Seis ou mais81,7%71,4%
Estudo turco, 30 pacientes acima de 60 anosCinco ou mais100%27,3%
Estudo turco, 28 pacientes abaixo de 60 anosCinco ou mais95%100%

As cinco plaquetopenias que competem na vinheta

QuadroO que abreO que decidePara onde vai
Púrpura trombocitopênica imuneSangramento cutâneo-mucoso, hemograma com plaqueta baixa isoladaAusência de anemia, de fragmentação e de qualquer outra explicaçãoCorticoide e acompanhamento; protocolo clínico próprio no país
Púrpura trombocitopênica trombóticaNeurológico flutuante, febre, palidez, petéquiasFragmentação com hemólise, creatinina e coagulograma preservados, escore altoTroca plasmática e corticoide no mesmo dia
Síndrome hemolítico-urêmicaDiarreia com sangue precedendo, ou puerpério que não melhoraLesão renal domina e progride; a creatinina alta derruba o escoreSuporte renal e terapia dirigida ao complemento
Coagulação intravascular disseminadaDoença de base evidente: sepse, trauma, neoplasia, obstetríciaCoagulograma alargado, fibrinogênio caindo, dímero elevadoTratar o gatilho; hemocomponentes conforme sangramento
Plaquetopenia da gestação e síndrome de hemólise com enzimas hepáticas elevadasTerceiro trimestre, hipertensão, dor em hipocôndrio direitoContexto obstétrico e transaminases elevadasManejo obstétrico; o parto resolve a segunda, não a trombótica

Colher a dosagem da enzima antes de repor plasma. Depois da primeira troca plasmática, o resultado deixa de refletir o estado do paciente e passa a refletir o plasma do doador.

O escore foi derivado e validado em adultos. Aplicá-lo à criança extrapola: dois dos itens, o volume corpuscular médio e a creatinina, têm faixas de normalidade que variam com a idade.

A ausência de febre não afasta nada. A febre é o item menos frequente da pêntade clássica e não entra em nenhum dos sete itens do escore.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual corte do escore deve autorizar o início da troca plasmática

Cinco ou mais, priorizando não perder doente

A meta-análise de 13 estudos e 970 pacientes encontrou sensibilidade de 0,99 e valor preditivo negativo de 0,99 nesse corte, e conclui que o limiar de cinco ou mais é o adequado para excluir a doença. A contrapartida assumida é especificidade de 0,57.

Paydary K et al. Diagnostic accuracy of the PLASMIC score. Transfusion. 2020;60(9):2047-2057

Seis ou mais, priorizando não tratar quem não tem

A validação canadense trabalha o corte de seis ou mais como o operacional, com sensibilidade de 81,7% e especificidade de 71,4% numa população com prevalência de 53%. A troca plasmática exige cateter central e tem complicações próprias, o que sustenta um limiar mais específico.

Wynick C et al. Validation of the PLASMIC score, Alberta, Canada. Thromb Res. 2020;196:335-339

Na prova

O enunciado quase sempre entrega uma vinheta de pontuação alta, seis ou sete, para tornar a divergência irrelevante. Quando ele constrói um caso de exatamente cinco pontos, o avaliador está testando se você trata mesmo assim: identifique isso pelo fato de a vinheta oferecer creatinina levemente alterada ou coagulograma no limite, os dois itens que costumam derrubar a pontuação de sete para cinco.

Se o escore mantém desempenho no paciente idoso

Mantém, e o corte é o mesmo

A derivação e a validação externa foram feitas em coortes de adultos sem estratificação por idade, e a meta-análise agregou os estudos sem ajuste etário, tratando o escore como ferramenta única para adultos com microangiopatia.

Bendapudi PK et al. Lancet Haematol. 2017;4(4):e157-e164; Paydary K et al. Transfusion. 2020;60(9):2047-2057

Não mantém: acima de 60 anos o escore quase não discrimina

Estudo com 30 pacientes acima de 60 anos e 28 abaixo mediu, no corte de cinco ou mais, especificidade de 27,3% nos idosos contra 100% nos mais jovens, com sensibilidade praticamente igual. O escore francês teve queda semelhante na mesma amostra.

Baysal M et al. Immune thrombotic thrombocytopenic purpura in elderly patients. Turk J Haematol. 2023;40(4):251-257

Na prova

Prova de residência raramente monta vinheta de microangiopatia em idoso, porque a doença é de mulher jovem — quando monta, o alvo costuma ser outra microangiopatia. Se o enunciado insiste num paciente acima de 60 anos com pontuação alta, procure na vinheta o câncer, o transplante ou o medicamento que explicaria o quadro por outra via.

Como se chama, oficialmente, a púrpura imune no Brasil

Trombocitopenia imune primária

É o título da diretriz vigente, aprovada em fevereiro de 2026. O relatório de recomendação registra que o grupo elaborador discutiu a mudança já nas reuniões de escopo, realizadas entre julho e agosto de 2023, para descrever melhor a doença.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41/2026; Conitec, Relatório de Recomendação nº 1049, seção de apresentação

Púrpura trombocitopênica idiopática

É o rótulo do código D69.3 reproduzido dentro do próprio protocolo de 2026, e é também o nome usado nas portarias de incorporação de rituximabe e romiplostim, que são os atos que autorizam a dispensação.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41/2026, seção de classificação estatística; Portarias SECTICS/MS nº 63/2024 e nº 21/2025

Na prova

Os três nomes valem a mesma doença, e o enunciado pode usar qualquer um. Identifique o recorte pelo que vem depois do nome: se a vinheta fala em refratariedade e segunda linha, o avaliador quer a sequência terapêutica; se fala em plaqueta baixa isolada em paciente novo, quer o diagnóstico de exclusão.

06

Caso resolvido

Mulher de 34 anos, previamente hígida, chega ao pronto-socorro com confusão mental flutuante há dois dias, notada pelo companheiro, e petéquias em membros inferiores. Nega uso de medicamentos, quimioterapia ou transplante. Temperatura de 37,8 graus, pressão de 118 por 74, frequência cardíaca de 104. Hemograma: hemoglobina 7,9 gramas por decilitro, volume corpuscular médio de 84 femtolitros, plaquetas 18.000 por milímetro cúbico. Esfregaço com hemácias fragmentadas. Bilirrubina indireta elevada, haptoglobina indetectável, desidrogenase láctica alta. Creatinina 1,1 miligrama por decilitro. Razão normalizada internacional de 1,1.
Nomear o achado antes da doença
Anemia com fragmentação no esfregaço somada a plaquetopenia, com marcadores de hemólise positivos, caracteriza microangiopatia trombótica. Esse é o rótulo que a vinheta autoriza neste ponto. Ainda não é diagnóstico de doença específica, mas já é o suficiente para acionar a rota de urgência.
Calcular os sete pontos
Plaquetas 18.000, abaixo de 30.000: um ponto. Hemólise documentada por bilirrubina indireta e haptoglobina: um ponto. Sem câncer ativo: um ponto. Sem transplante: um ponto. Volume corpuscular de 84, abaixo de 90: um ponto. Razão de 1,1, abaixo de 1,5: um ponto. Creatinina 1,1, abaixo de 2,0: um ponto. Total de sete pontos.
Ler a pontuação contra o desempenho medido
Sete pontos é faixa de alta probabilidade. Nessa faixa, o corte de seis ou mais tem especificidade de 0,89 na meta-análise de 970 pacientes — a chance de estar tratando quem não tem a doença é baixa. Não há razão para aguardar a dosagem da enzima antes de agir, e a febre de 37,8 não muda nada: ela não é item do escore.
Colher antes de repor
A dosagem de atividade da protease deve ser colhida agora, antes da primeira troca plasmática. Depois da reposição de plasma, o resultado mede o doador. Perder essa amostra não impede o tratamento, mas apaga a informação que orienta duração, uso de rituximabe e vigilância de recaída.
Acionar a conduta e recusar a errada
Troca plasmática diária somada a corticoide, com acionamento de hematologia e do serviço de aférese no mesmo turno, e rituximabe conforme disponibilidade e avaliação do especialista. A conduta a recusar explicitamente é a transfusão de concentrado de plaquetas pela contagem de 18.000: não há sangramento com risco de vida, e a plaqueta transfundida alimenta os mesmos trombos.
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Agora feche você

Homem de 58 anos em quimioterapia para adenocarcinoma gástrico há quatro meses procura o pronto-socorro por fraqueza e urina escura há três dias. Exame: descorado, sem déficit neurológico, pressão de 126 por 80. Hemograma: hemoglobina 8,2 gramas por decilitro, volume corpuscular médio de 96 femtolitros, plaquetas 41.000 por milímetro cúbico. Esfregaço com algumas hemácias fragmentadas. Desidrogenase láctica elevada, haptoglobina indetectável. Creatinina 2,4 miligramas por decilitro, subindo em relação a exame de duas semanas atrás. Razão normalizada internacional de 1,3.
Passo 1
Percorra os sete itens do escore com os dados que a vinheta entrega e some a pontuação, item a item, dizendo quais itens este paciente perde e por quê.
Passo 2
Classifique a pontuação obtida na faixa correspondente e diga, com a especificidade medida naquele corte, o que ela permite concluir.
Passo 3
Explique por que os itens perdidos, além de baixarem o total, apontam para diagnósticos concorrentes específicos — e nomeie quais.
Passo 4
Defina a conduta imediata e diga o que ainda precisa ser colhido antes de qualquer reposição de plasma, caso a suspeita seja mantida.
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar a dosagem da enzima para começar a tratar A dosagem confirma, não autoriza. A diretriz internacional de diagnóstico pede explicitamente que a probabilidade pré-teste seja estimada por avaliação clínica e escore antes do resultado. No Brasil o exame nem sempre é feito: no registro nacional, apenas 62,4% dos 85 pacientes tiveram a atividade dosada, e todos os testados estavam abaixo de 10%. Quem espera o resultado troca uma confirmação por dias de trombose microvascular.
  2. 2Exigir a pêntade completa Febre, alteração neurológica, insuficiência renal, anemia hemolítica e plaquetopenia juntas descrevem a doença já instalada. No registro brasileiro, o achado mais frequente foi o neurológico, presente em 75,3% — ou seja, um em cada quatro pacientes nem isso tinha na apresentação. Anemia com fragmentação somada a plaquetopenia, sem outra causa, já basta para acionar a rota.
  3. 3Transfundir plaqueta pela contagem baixa A plaqueta aqui não está faltando por falta de produção: está sendo consumida dentro de trombos que já ocluem a microcirculação. Repor concentrado sem sangramento com risco de vida oferece substrato ao mesmo processo. A contagem baixa é consequência, não indicação — e é exatamente o tipo de conduta que o enunciado coloca entre as alternativas para separar quem entendeu o mecanismo.
  4. 4Ler pontuação cinco como resultado negativo A literatura descreve cinco como faixa intermediária e, ao mesmo tempo, avalia o corte de cinco ou mais como positivo, com sensibilidade de 0,99. O aluno que aplica a faixa descritiva a uma decisão terapêutica conclui que pode esperar. Pode não: a faixa serve para comunicar risco, o corte serve para agir, e diante de pontuação cinco o intervalo até a dosagem se trata como probabilidade alta.
  5. 5Confiar no valor de p e ignorar o intervalo O relatório pediátrico da comissão nacional descreve um ensaio de rituximabe contra vincristina com resposta plaquetária de 69,2% contra 37,5%, risco relativo de 1,85 e intervalo de confiança de 95% de 1,04 a 3,29 — um intervalo que mal exclui a unidade. O p impresso ao lado não é compatível com um intervalo tão largo. Quando os dois discordam, o intervalo é que carrega a informação: aqui, efeito real, mas frágil.
  6. 6Chamar de púrpura trombótica o quadro em que o rim domina Creatinina alta é um dos sete itens do escore justamente porque puxa o diagnóstico para a síndrome hemolítico-urêmica. O quadro de diagnóstico diferencial do protocolo brasileiro de 2026 agrupa as duas sob consumo periférico de plaquetas, mas o tratamento diverge: uma vai para troca plasmática, a outra para suporte renal e terapia dirigida ao complemento.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trombocitopenia isolada (demais séries normais), sem esquizócitos, sem organomegalia, pós-viral, é o quadro típico de PTI. A PTT cursa com anemia hemolítica microangiopática (esquizócitos presentes) e alterações neurológicas/renais. CIVD tem consumo de fatores com alteração de coagulograma e esquizócitos. Leucemia aguda costuma acometer outras séries (anemia, alteração leucocitária/blastos) e organomegalia. Anemia aplásica cursa com pancitopenia (aqui Hb e leucócitos normais).

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Plaquetopenia com anemia e hemácia fragmentada no esfregaço é microangiopatia trombótica até prova em contrário, e a pêntade clássica não é requisito. O escore de sete pontos usa três itens que descrevem o quadro — plaqueta abaixo de 30.000, hemólise, volume corpuscular abaixo de 90 — e quatro que descartam concorrentes: sem câncer ativo, sem transplante, razão de coagulação abaixo de 1,5 e creatinina abaixo de 2,0. Pontuação de cinco ou mais autoriza tratar; de seis ou sete, trata sem discussão. A dosagem da enzima que corta o fator de von Willebrand confirma, mas demora e deve ser colhida antes da primeira troca plasmática. A conduta é troca plasmática diária somada a corticoide, com rituximabe quando disponível. Nunca transfundir plaqueta pela contagem.

em 30 dias

O corte de cinco ou mais tem sensibilidade de 0,99 e especificidade de 0,57; o de seis ou mais inverte para 0,85 e 0,89. O desempenho depende de quem está no grupo de comparação: em pacientes acima de 60 anos, a especificidade do corte de cinco caiu para 27,3% contra 100% nos mais jovens. No registro brasileiro de 85 pacientes, a mediana do escore foi 6, a enzima foi dosada em 62,4%, a troca plasmática ocorreu em 87,1% começando no primeiro dia de internação, e 15,3% morreram no hospital — com mediana de 8 dias entre o início dos sintomas e a admissão. A púrpura imune, doença diferente, tem protocolo próprio, rebatizado em 2026 para trombocitopenia imune primária, embora o código D69.3 e as portarias de incorporação mantenham o nome antigo; rituximabe e romiplostim foram incorporados, a dapsona foi recusada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 34 anos chega ao pronto-socorro com confusão mental flutuante há dois dias e petéquias nas pernas. Colha a história dirigida aos itens que mudam a probabilidade, peça os exames que fecham a caracterização da microangiopatia, calcule a pontuação em voz alta e defenda a conduta imediata — inclusive dizendo qual conduta oferecida você recusa e por quê. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Distúrbios plaquetários e púrpuras – Púrpura trombocitopênica trombótica: a plaquetopenia que não espera o exame — Preparatório para provas | OsceLabs