Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Mieloma, mielodisplasia e mieloproliferativas

Neoplasias hematológicas crônicas (mieloma múltiplo, mielodisplasia, mieloproliferativas)

Quando o número do exame vira doença — e qual documento manda no corte

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 68 anos com dor lombar progressiva há 3 meses, fadiga e infecções respiratórias de repetição. Exames: Hb 9,0 g/dL, cálcio 11,8 mg/dL (VR 8,5–10,5), creatinina 2,4 mg/dL. Eletroforese de proteínas séricas com pico monoclonal em região gama. Radiografia de crânio com lesões líticas em saca-bocado. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este é o capítulo de três doenças que quase nunca chegam com queixa própria. Chegam como um número fora da faixa num exame pedido por outro motivo: uma hemoglobina alta demais num tabagista, uma pancitopenia num idoso, um pico monoclonal numa eletroforese solicitada por dor lombar. A pergunta que a prova faz é sempre a mesma, e é a razão de as três morarem juntas aqui: a partir de que valor aquele número deixa de ser achado e vira doença — e qual documento tem autoridade para dizer isso.

O recorte é diagnóstico e de encaminhamento, não terapêutico. Esquema de indução, transplante, uso de bortezomibe e manejo de recidiva não são cobrados neste nível. A leucemia mieloide crônica, que é uma neoplasia mieloproliferativa como as outras três, fica de fora por ter protocolo nacional próprio e capítulo próprio: quem quiser o desvio escalonado, a basofilia e o imatinibe encontra tudo no capítulo de leucemias do adulto. O que sobra aqui é o lado Filadélfia-negativo da família — policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose —, mais o mieloma múltiplo e a síndrome mielodisplásica.

A prova cobra o tema em quatro formatos. O primeiro entrega a tétrade clássica — dor óssea, anemia, insuficiência renal, cálcio alto — e pede o rótulo, testando se o candidato sabe que a lesão lítica em saca-bocado não é o único caminho. O segundo entrega um paciente assintomático com um número anormal e pergunta o que se faz: é aqui que mora a maior parte dos erros, porque a resposta certa costuma ser observar ou repetir, e a alternativa atraente é tratar. O terceiro entrega uma macrocitose com citopenias e pede o próximo exame, testando se o candidato sabe quando parar de perseguir carência vitamínica. O quarto entrega um escore e pergunta em que faixa o paciente cai — e a faixa brasileira nem sempre é a faixa do escore original.

A régua nacional deste tema é feita de quatro documentos que não cobrem o mesmo terreno, e a diferença entre eles é matéria de prova. O mieloma tem Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas atualizadas em dezembro de 2023. A mielodisplasia tem Protocolo Clínico, mas só para o baixo risco — o alto risco é definido no mesmo documento e depois deixado para fora dele. As mieloproliferativas Filadélfia-negativas não têm protocolo clínico nacional: o que existe sobre elas na régua oficial são dois relatórios de recomendação da Conitec sobre um único medicamento, ambos desfavoráveis. Saber onde a régua acaba é parte de saber usá-la.

Este capítulo devolve ao capítulo de leucemias tudo o que é da leucemia mieloide crônica, e devolve ao capítulo de emergências oncológicas o manejo da hipercalcemia, da compressão medular e da doença óssea do mieloma, inclusive as doses de bisfosfonato. Em troca, entrega àquele capítulo o número que faltava do outro lado da fronteira: o corte de 20% de blastos que separa leucemia aguda de mielodisplasia só é uma fronteira se o lado de baixo também tiver critério — e ele tem três.

03

O que muda decisão

Três doenças, um mesmo gesto de leitura

As três entidades deste capítulo compartilham uma arquitetura. Em todas, uma célula da medula adquire vantagem clonal e continua produzindo — não para de amadurecer como na leucemia aguda, e por isso o paciente passa meses ou anos sem sintoma que o leve ao médico. O que denuncia é o excesso: excesso de proteína no mieloma, excesso de célula madura defeituosa na mielodisplasia, excesso de série celular nas mieloproliferativas. E como o excesso é gradual, o diagnóstico depende de alguém decidir que um número atravessou uma linha.

O mieloma múltiplo é a doença do plasmócito. Segundo as Diretrizes nacionais, apenas 15% dos diagnósticos ocorrem abaixo dos 55 anos e mais de 60% acima dos 65; a incidência é 1,5 vez maior em homens e cerca de duas vezes maior em pessoas negras. No Brasil, o documento aponta mediana de 63 anos, com variação de 18 a 100. Ao diagnóstico, 73% têm anemia, 58% têm dor óssea e 28% relatam perda de peso.

A síndrome mielodisplásica é a doença da hematopoese ineficaz: a medula é celular, mas o que entrega ao sangue é pouco e malfeito. É doença de idoso — mediana de 75,7 anos ao diagnóstico, predomínio masculino de 2:1 — e pode evoluir para leucemia mieloide aguda. A incidência citada, do Reino Unido, é de 3,72 por 100.000 por ano. No Brasil, a produção do Datasus entre 2019 e 2021 registrou 7.648 internações e 42.994 procedimentos ambulatoriais por essa causa; as médias anuais publicadas, 2.549 e 14.331, dividem os totais em exatamente três anos, o que confirma a janela e autoriza o uso dos números.

As mieloproliferativas Filadélfia-negativas são a doença da linhagem em excesso: hemácia na policitemia vera, plaqueta na trombocitemia essencial, fibrose e hematopoese fora do lugar na mielofibrose. São raras — incidência de mielofibrose de 0,3 por 100.000 na União Europeia e nos Estados Unidos e, na falta de estudo populacional brasileiro, prevalência de 0,69 por 100.000 calculada de casuística do Hospital de Base do Distrito Federal entre 2014 e 2018.

Esquema com um laudo laboratorial no topo do qual partem três setas para três portas: à esquerda, medula com plasmócitos e curva de eletroforese com pico estreito; ao centro, medula com neutrófilo bilobado, hemácia com granulações em anel ao redor do núcleo e megacariócito pequeno, sobre um vaso quase vazio; à direita, três vasos, um cheio de hemácias, outro cheio de plaquetas e o terceiro atravessado por fibras, ao lado de um baço aumentado. Abaixo, uma régua com três marcas de alturas diferentes.
Um mesmo exame de rotina abre três portas: o excesso de proteína, o excesso de célula defeituosa e o excesso de linhagem. Cada porta tem um corte próprio, e é o corte que transforma achado em doença.

O gesto de leitura que unifica as três é o que a prova cobra: diante de um número anormal e persistente, primeiro se exclui o que é reativo e carencial, depois se procura a prova de clonalidade, e só então se aplica o corte que define a doença. Inverter essa ordem é o erro que produz a maioria dos distratores atraentes do tema.

O que a Atenção Primária tem de fazer, escrito com as mesmas palavras nos dois documentos

As Diretrizes do mieloma e o Protocolo da mielodisplasia trazem uma frase praticamente idêntica: a identificação de fatores de risco e da doença em seu estágio inicial e o encaminhamento ágil e adequado para o atendimento especializado dão à Atenção Primária um caráter essencial para um melhor resultado terapêutico e prognóstico dos casos. Não é coincidência de redação. Os dois documentos foram elaborados sob coordenação do mesmo departamento do Ministério da Saúde, e nenhum dos dois nomeia os integrantes do painel. Quando duas fontes repetem a mesma frase por virem do mesmo lugar, elas não são duas confirmações — são uma só, dita duas vezes.

Para o mieloma, a triagem está escrita com nome de exame: a avaliação inicial na unidade básica, dita ali com o propósito de dar sensibilidade e celeridade ao referenciamento, inclui hemograma e eletroforese de proteínas, para documentar anemia e pico monoclonal. Não se espera mielograma da atenção primária. Espera-se que ela peça dois exames baratos diante da tríade certa — dor óssea persistente no idoso, anemia inexplicada e creatinina que subiu — e encaminhe.

Para a mielodisplasia, a triagem é de exclusão, e a lista está escrita. Antes de suspeitar de clone, o documento manda descartar deficiências nutricionais, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, hepatites B e C, citomegalovírus, doenças autoimunes, doença hepática, doença renal, hipotireoidismo, neoplasias e uso de medicamentos. Essa lista é o distrator de metade das questões do assunto: a vinheta traz o idoso com macrocitose e alguém marca reposição de vitamina B12 quando o ácido metilmalônico já veio normal.

Vale medir o que essa triagem entrega em cada lugar, porque o mesmo exame não vale a mesma coisa nos dois cenários. Tome um teste com sensibilidade de 90% e especificidade de 95% — números ilustrativos, escolhidos para isolar o efeito. Num ambulatório de hematologia onde um em cada cinco encaminhados tem a doença, o valor preditivo positivo é de 81,8%. Na atenção primária não selecionada, com prevalência de 0,5%, o mesmo teste, com a mesma sensibilidade e a mesma especificidade, cai para 8,3% — e o valor preditivo negativo sobe de 97,4% para 99,9%. O teste não mudou; mudou quem entrou na sala. Um pico monoclonal achado na unidade básica é, quase sempre, gamopatia de significado indeterminado, e é por isso que o passo seguinte é estratificar, não tratar.

O corte do mieloma: CRAB, e os três biomarcadores que entraram em 2014

Até 2014, mieloma era doença de órgão lesado: só se tratava quem já tinha dano. A atualização do International Myeloma Working Group, adotada integralmente pelas Diretrizes brasileiras, acrescentou às lesões de órgão-alvo três biomarcadores de malignidade, com a justificativa explícita de permitir o início oportuno do tratamento antes que lesões potencialmente graves se estabeleçam. O diagnóstico passa a ser confirmado pela presença de lesão de órgão-alvo conforme os critérios CRAB ou por pelo menos um evento definidor.

Os quatro parâmetros do CRAB têm corte numérico, e vale decorá-los como estão escritos. Hipercalcemia: cálcio sérico 1 mg/dL ou mais acima do limite superior da normalidade, ou acima de 11 mg/dL. Insuficiência renal: depuração de creatinina menor que 40 mL/min ou creatinina sérica maior que 2 mg/dL. Anemia: hemoglobina 2 g/dL ou mais abaixo do limite da normalidade, ou hemoglobina menor que 10 g/dL. Doença óssea: uma ou mais lesões osteolíticas à radiografia, tomografia ou tomografia por emissão de pósitrons.

Duas das quatro linhas são definidas por um par — um valor absoluto e um desvio relativo ao limite do laboratório —, e a prova gosta disso. Cálcio de 10,9 mg/dL num laboratório cujo limite é 9,8 preenche pelo desvio, sem atingir os 11; hemoglobina de 10,5 g/dL num homem cujo limite é 13,0 preenche pelo desvio de 2,5, sem estar abaixo de 10.

A linha renal carrega um erro de unidade que vale como exercício, porque a habilidade de converter é o que a prova de fato cobra. O texto imprime 'creatinina sérica maior que 177 mmol/L (2 mg/dL)'. A creatinina tem massa molar de 113,12 g/mol; 2 mg/dL são 20 mg/L, e 20 dividido por 113,12 dá 1,77 x 10⁻⁴ mol/L, isto é, 177 micromol por litro. A unidade impressa erra por mil vezes. O que garante que o defeito é da linha e não do documento inteiro é a linha vizinha: 1 mg/dL de cálcio dá 0,2495 mmol/L e 11 mg/dL dão 2,7446 mmol/L, exatamente os 0,25 e os 2,75 impressos. A conversão do cálcio fecha; a da creatinina, não.

Os três biomarcadores acrescentados são o que a prova moderna cobra, e os três têm corte fechado. Aspirado de medula com 60% ou mais de células clonais. Razão entre cadeias leves livres séricas envolvidas e não envolvidas igual ou maior que 100, desde que a cadeia envolvida esteja em pelo menos 100 mg/L. E mais de uma lesão focal à ressonância magnética, de pelo menos 5 mm cada. Qualquer um dos três, sozinho, define mieloma ativo em paciente sem nenhum sintoma — e essa é a inversão que mais derruba candidato treinado na régua antiga.

Falta um número no Quadro 1 do documento, e a ausência é instrutiva. O quadro lista os eventos definidores, mas nunca enuncia o piso de 10% de plasmócitos clonais na medula (ou plasmocitoma comprovado por biópsia) que precisa acompanhá-los. Esse piso aparece apenas na nota de rodapé, e por negação: 'na presença de menos de 10% de células plasmáticas clonais em medula óssea, são necessárias duas lesões'. Quem lê só a tabela sai com metade da regra.

Gamopatia, latente, ativo: a mesma proteína em três estágios

O que separa as três entidades da linha plasmocitária não é a proteína — é a quantidade dela, a fração de plasmócitos na medula e a presença de evento definidor. A gamopatia monoclonal de significado indeterminado não-IgM exige todos os quatro critérios: proteína monoclonal sérica menor que 3 g/dL, plasmócitos clonais menores que 10%, ausência de outra doença proliferativa de células B e ausência de lesão de órgão-alvo. O mieloma latente exige dois: proteína sérica igual ou maior que 3 g/dL, ou urinária igual ou maior que 500 mg em 24 horas, ou 10 a 60% de plasmócitos monoclonais — e ausência de evento definidor. O mieloma ativo preenche o piso de plasmócitos e traz pelo menos um evento.

Repare na estrutura lógica, que é o gabarito de metade das questões: a gamopatia é uma conjunção — todos os critérios, todos negativos — e o mieloma latente é uma disjunção, basta um dos três braços. Um paciente com proteína monoclonal de 2,2 g/dL e 30% de plasmócitos medulares não é gamopatia, porque falha no critério dos 10%, e é latente pelo terceiro braço, mesmo com proteína abaixo dos 3 g/dL.

O documento deixa duas fronteiras mal fechadas, e as duas rendem questão. A primeira é a dos 60%: o Quadro 1 diz que 60% ou mais de células clonais é evento definidor de mieloma ativo, e o Quadro 3 diz que o mieloma latente vai de 10 a 60% de plasmócitos monoclonais. O valor 60% exato aparece dos dois lados da fronteira — tem dois destinos, e o documento não escolhe. Na prática e na prova, prevalece o critério mais específico: o evento definidor de doença ativa vence, porque é ele que dispara tratamento.

A segunda fronteira é a da gamopatia de cadeias leves, e ali o problema é o oposto: um valor sem destino nenhum. O primeiro critério define razão anormal como menor que 0,25 ou maior que 1,65. O segundo critério, que só diz qual cadeia está envolvida, fala em cadeia kappa aumentada quando a razão é maior que 1,65 e cadeia lambda aumentada quando a razão é menor que 0,26. A faixa entre 0,25 e 0,26 satisfaz o segundo critério e não satisfaz o primeiro; e a razão de exatamente 0,25 fica de fora dos dois cortes que a mencionam. É um vão de dois centésimos, e existe porque um dos dois números foi digitado errado — não porque haja doutrina.

Há ainda uma inversão de sentido que convém reconhecer para não decorar errado. As duas linhas de plasmocitoma do Quadro 3 exigem 'lesão óssea ou de tecido mole única documentada em biópsia sem evidência de plasmócitos clonais'. Um plasmocitoma sem plasmócitos clonais não é um plasmocitoma: a fonte internacional citada pelo próprio documento pede o contrário, e a expressão 'com evidência de' não ocorre uma única vez nas cem páginas. O que de fato separa o plasmocitoma solitário do plasmocitoma com acometimento medular mínimo é a medula — normal e sem clone no primeiro, com menos de 10% de plasmócitos clonais no segundo.

Os números de progressão que o documento traz e que se sustentam entre si valem a memória. Gamopatia monoclonal com proteína M acima de 1,5 g/dL e razão de cadeias leves alterada carrega risco de 20% a 30% em vinte anos. O plasmocitoma ósseo evolui para mieloma em 35% em dois anos, contra 7% do extramedular. É a diferença entre vigilância de décadas e vigilância de meses.

A mielodisplasia tem três portas de entrada, e só uma delas fala em blasto

O capítulo de leucemias fixa o corte de 20% de blastos como a fronteira entre leucemia mieloide aguda e mielodisplasia. Esse corte só funciona como fronteira se o lado de baixo tiver critério próprio — e tem. Segundo o Protocolo nacional, diante de citopenia persistente e inexplicável, e depois de excluídas as outras causas, o diagnóstico exige a presença de pelo menos um dos três critérios: displasia morfológica envolvendo 10% ou mais das células da medula em uma ou mais linhagens; aumento de mieloblastos, iguais ou maiores que 5% e menores que 20%; ou evidência de clonalidade por anormalidade citogenética característica.

A expressão que decide é 'pelo menos um'. O corte de 5% de blastos é suficiente, não necessário: uma medula com 3% de blastos e displasia em 18% dos eritroblastos é mielodisplasia por outra porta. E a recíproca é falsa — o próprio documento avisa que a displasia morfológica ocorre após exposição a agente tóxico, em condições reativas, em anemias de outras causas e até em pessoas saudáveis, e por isso admite que um período de observação com reavaliações pode preceder o diagnóstico.

A terceira porta é a mais contraintuitiva e aparece na classificação da Organização Mundial da Saúde reproduzida no protocolo: existe um subtipo de mielodisplasia definido por alteração citogenética específica com zero linhagens displásicas. Cariótipo convencional em banda G detecta clonalidade em aproximadamente 50% dos pacientes; algumas anormalidades recorrentes — monossomia do 5, deleção 5q, monossomia do 7, deleção 7q, isocromossomo 17q — são consideradas definidoras de mielodisplasia em paciente com citopenia. Displasia não é obrigatória; clonalidade demonstrada basta.

As citopenias que servem de porta de entrada estão definidas com número, e é aqui que o documento nacional tropeça de novo em unidade. O texto define citopenia como plaquetas abaixo de 100 x 10⁹/L e neutrófilos abaixo de 1,8 x 10⁹/L — respectivamente 100.000/mm³ e 1.800/mm³, ambos corretos — e hemoglobina abaixo de 10 g/L. Dez gramas por litro seriam 1,0 g/dL, valor incompatível com a vida; o corte é 10 g/dL, isto é, 100 g/L. O erro aparece duas vezes no mesmo documento, no corpo e na nota do quadro de subtipos, e o desempate está na própria série oficial: o relatório da Conitec sobre mielofibrose escreve o mesmo corte como 'hemoglobina < 10 g/dL'. Duas unidades certas e uma errada na mesma frase são erro de digitação; a mesma unidade escrita certa noutro documento oficial confirma qual das duas vale.

Um diferencial que a prova adora: mielodisplasia com medula hipocelular representa 10% a 20% dos casos, e nesses pacientes o documento manda fazer citometria de fluxo para hemoglobinúria paroxística noturna. Aplasia medular é o outro lado dessa fronteira, e a distinção raramente cabe na morfologia sozinha.

Sideroblasto em anel: um número, dois cortes, e um gene decide qual vale

A classificação da Organização Mundial da Saúde de 2016, reproduzida no protocolo nacional, traz um dos raros lugares da medicina em que o mesmo achado morfológico tem dois limiares, e a escolha entre eles não depende da morfologia. Os subtipos com sideroblastos em anel exigem 15% ou mais de sideroblastos em anel na medula — ou 5% ou mais, se houver mutação em SF3B1. O patologista conta a mesma coisa; o corte que ele aplica vem do laboratório de biologia molecular.

Há uma consequência de definição escondida na nota de rodapé, e ela funciona num sentido só. Casos com 15% ou mais de sideroblastos em anel, diz o documento, têm por definição displasia eritroide significante, e são classificados como mielodisplasia com sideroblastos em anel e displasia de única linhagem. Ou seja: contar 15% de sideroblastos substitui a demonstração de displasia eritroide. A recíproca não vale — displasia eritroide significante não implica sideroblasto em anel nenhum —, e o documento não diz isso em lugar algum. Quem inverte a implicação passa a exigir sideroblasto onde ele não é exigido.

O resto do quadro organiza-se por três colunas: linhagens displásicas, citopenias e percentual de blastos. O excesso de blastos abre dois degraus — 5 a 9% na medula ou 2 a 4% no sangue no primeiro, 10 a 19% na medula ou 5 a 19% no sangue no segundo —, e a presença de bastões de Auer já classifica no segundo degrau, desde que a contagem fique abaixo de 20%.

A deleção 5q isolada tem linha própria e é a única entidade da tabela definida por citogenética com permissão explícita de acompanhamento: aceita-se del(5q) isolada ou com uma anormalidade adicional, com uma exclusão nominal — perda do cromossomo 7 ou del(7q). É a mesma lógica que reaparece no tratamento: o protocolo indica lenalidomida para mielodisplasia de baixo risco com del(5q) e registra a ausência de benefício em quem tem mais de 5% de blastos, monossomia do 7 ou del(7q) associada, ou duas anormalidades adicionais. A citogenética que define o subtipo é a mesma que define quem não responde.

O escore que o Brasil corta em 3,5 — e a conjunção que muda quem entra

O prognóstico da mielodisplasia vem do Sistema Internacional de Escore Prognóstico Revisado, que soma cinco critérios e distribui os pacientes em cinco faixas. O protocolo nacional reproduz as faixas com as sobrevidas medianas: muito baixo, até 1,5 ponto, 8,8 anos; baixo, acima de 1,5 até 3, 5,3 anos; intermediário, acima de 3 até 4,5, 3,0 anos; alto, acima de 4,5 até 6, 1,6 ano; muito alto, acima de 6, 0,8 ano. Entre a primeira e a última faixa há um fator de onze na sobrevida.

Régua horizontal dividida em cinco segmentos de larguras diferentes, com marcas numeradas nas fronteiras e barras decrescentes acima representando a queda da sobrevida. Uma linha tracejada vertical cruza o meio do terceiro segmento, fora de qualquer fronteira, separando à esquerda a faixa aceita pelo protocolo nacional e à direita a faixa excluída. Um pequeno quadro lateral com duas setas opostas indica a divergência de uma palavra.
As cinco faixas do escore internacional e o corte brasileiro. O tracejado não cai em nenhuma fronteira do escore: ele atravessa a faixa intermediária ao meio, e é dele que depende quem entra no protocolo nacional.

O recorte brasileiro não usa as fronteiras do escore. O protocolo define mielodisplasia de baixo risco como as faixas muito baixo e baixo mais a faixa intermediária até 3,5 pontos, e define alto risco como a faixa intermediária acima de 3,5 pontos mais alto e muito alto. O corte de 3,5 não é uma fronteira do escore original — ele parte a faixa intermediária ao meio. Um paciente com 3,4 pontos e outro com 3,6 pertencem à mesma categoria prognóstica internacional e a categorias regulatórias opostas no Brasil, com consequência prática: só o primeiro está dentro do único protocolo clínico nacional que existe para a doença.

O documento também não fecha uma conjunção, e a diferença decide inclusão. Na introdução, a mielodisplasia de baixo risco 'inclui pacientes classificados por meio do escore internacional baixo e intermediário-1 e do escore revisado como muito baixo, baixo e intermediário até 3,5 pontos'. Logo abaixo da tabela das faixas, o mesmo recorte é escrito com 'baixo ou intermediário-1 ou escore revisado muito baixo, baixo e intermediário até 3,5 pontos'. Lida com a primeira conjunção, a regra exige que as duas réguas concordem; lida com a segunda, basta uma. E as duas réguas não classificam o mesmo paciente do mesmo jeito: o escore antigo usa três variáveis, o revisado usa cinco com granularidade maior. Quem é intermediário-2 pelo escore antigo e 3,5 pelo revisado é, ao mesmo tempo, alto risco e baixo risco — ou nenhum dos dois, conforme a conjunção que se leia.

Os critérios de inclusão que dependem dessa classificação são concretos. Filgrastim entra para o paciente de baixo risco com neutrófilos abaixo de 0,5 x 10⁹/L e infecções resistentes ou de repetição, e sai quando os neutrófilos passam de 10 x 10⁹/L. Talidomida entra para quem não respondeu à alfaepoetina e é vedada na neuropatia periférica de grau II ou maior. O objetivo declarado no baixo risco não é curar: é melhorar as citopenias, reduzir transfusão e prevenir sangramento e infecção. A única terapia curativa registrada é o transplante alogênico, reservado a menores de 75 anos e ao risco intermediário e alto.

As Filadélfia-negativas: JAK2, CALR, MPL — e um país sem protocolo

As três mieloproliferativas que sobram depois de retirada a leucemia mieloide crônica são agrupadas pela Organização Mundial da Saúde, e o relatório da Conitec registra o apelido operacional que elas carregam na literatura: neoplasias mieloproliferativas JAK2. A mielofibrose pode nascer assim ou surgir depois de uma policitemia vera ou de uma trombocitemia essencial já conhecida — o documento registra que a fibrose está presente em 15% dos pacientes com essas duas doenças. O que as une geneticamente é um trio de mutações que ativa a via de sinalização JAK-STAT.

Os critérios da Organização Mundial da Saúde de 2016 para mielofibrose primária, reproduzidos no relatório, pedem três critérios principais e um menor. Os principais: proliferação e atipia megacariocítica com fibrose reticulínica ou colagênica de graus 2 ou 3 na forma fibrótica, ou sem fibrose acima do grau 1 na pré-fibrótica; mutação em JAK2, CALR ou MPL — e, na ausência das três, outro marcador clonal; e não preencher critérios de outras neoplasias mieloides. Os menores são cinco: anemia não atribuível a comorbidade, leucócitos iguais ou maiores que 11.000/mm³, esplenomegalia palpável, desidrogenase láctica acima do limite da instituição e leucoeritroblastose.

A mutação em JAK2 é a ferramenta que este capítulo entrega, e o mais instrutivo é que ela aparece com papéis opostos em dois documentos oficiais. No relatório da mielofibrose, ela é critério principal: confirma a natureza clonal e ajuda a fechar o diagnóstico. No protocolo da mielodisplasia, ela aparece uma única vez, na lista de exames complementares para diagnóstico diferencial, indicada para pacientes com características mieloproliferativas ou trombocitose — ali ela serve para afastar ou reclassificar, não para confirmar. Mesmo exame, funções invertidas, e a diferença é a doença que se está investigando.

O prognóstico da mielofibrose primária segue o escore internacional com cinco preditores independentes, todos memorizáveis: idade acima de 65 anos, hemoglobina abaixo de 10 g/dL — escrita aqui com a unidade correta —, leucócitos acima de 25.000/mm³, blastos no sangue periférico iguais ou maiores que 1% e presença de sintomas constitucionais. As sobrevidas medianas caem de forma brutal com o número de fatores: 135 meses sem nenhum, 95 meses com um, 48 meses com dois e 27 meses no grupo de alto risco.

O relatório imprime esse grupo de alto risco como '>3' fatores, o que, lido ao pé da letra, deixaria o paciente com exatamente três fatores sem grupo nenhum — os degraus de baixo são 0, 1 e 2. A aritmética resolve: as proporções de pacientes nos quatro grupos, 22%, 29%, 28% e 21%, somam exatamente 100%. Se o escore 3 não pertencesse a nenhum grupo, a soma não fecharia. O corte publicado na fonte original é 'três ou mais', e o sinal impresso é erro de digitação — quem prova isso é a soma das proporções, não a autoridade de quem escreve.

Sobre policitemia vera e trombocitemia essencial, a régua nacional é silenciosa: não há protocolo clínico do Ministério da Saúde para nenhuma das duas, e o que existe de oficial sobre a família Filadélfia-negativa são relatórios de recomendação sobre um único medicamento. Isso muda o que a prova pode cobrar: sem documento nacional, as questões ficam presas ao consensual e verificável. Eritrocitose com esplenomegalia, prurido aquagênico e as outras séries elevadas apontam clone e pedem pesquisa de mutação; eritrocitose isolada num tabagista pesado, com saturação e séries branca e plaquetária normais, aponta estímulo hipóxico e pede cessação e reavaliação.

O que o SUS decidiu, por quanto, e o que a consulta pública não moveu

A Conitec avaliou o inibidor de JAK para mielofibrose duas vezes, e o par de relatórios é uma aula sobre como uma decisão se constrói. Em 2020, o pedido cobria risco intermediário-2 ou alto com plaquetas acima de 50.000/mm³, e o plenário deliberou por unanimidade pela não incorporação. Em 2022, o mesmo demandante voltou com a indicação estreitada — plaquetas acima de 100.000/mm³ e apenas inelegíveis ao transplante —, e o plenário deliberou por maioria simples, com o mesmo resultado. Estreitar a população moveu o voto e não moveu a decisão.

O texto da recomendação final diz por quê, e a franqueza é útil: os membros declararam-se cientes de tratar-se de doença rara e satisfeitos com os dados científicos acrescentados na consulta pública, e registraram que a decisão considerou a avaliação econômica e o impacto orçamentário. A recusa não foi de eficácia; foi de preço. É a distinção entre 'não funciona' e 'não cabe', e vinheta que confunde as duas está errada por definição.

A consulta pública número 18, de 2022, correu entre 4 e 25 de abril. Das contribuições técnico-científicas, 117 de 118 discordaram da recomendação preliminar desfavorável. Entre as pessoas jurídicas, todas as cinco discordaram, incluindo a empresa detentora do registro do medicamento e uma sociedade médica. A recomendação final manteve-se desfavorável. Uma consulta em que 99% das contribuições técnicas apontam para o outro lado e o resultado não muda é dado sobre o processo, não sobre a doença: participação e influência não são a mesma coisa no desenho da comissão.

O impacto orçamentário de 2022 é reprodutível a partir dos próprios numeradores, e reproduzi-lo ensina mais do que decorá-lo. A prevalência impressa, 0,001%, aplicada à população brasileira de 2022 daria 2.148 pacientes; a tabela imprime 1.478. A taxa que reproduz 1.478 é 0,000688%, ou 0,69 por 100.000 — exatamente o número do estudo brasileiro citado três páginas antes. O arredondamento infla a prevalência em 45% e só não estraga a conta porque a conta usou o valor real. Do total, 49% têm risco intermediário-2 ou alto, e desses 80% têm plaquetas acima de 100.000/mm³ — percentual que a tabela usa e não imprime, e que sai da divisão de 579 por 724.

O passo seguinte é o que decide tudo. O demandante assumiu que 75% dos pacientes são inelegíveis ao transplante; a Secretaria-Executiva reancorou esse parâmetro na idade de 70 anos ou mais e chegou a 21%. A população elegível caiu de 434 para 122 pacientes, e o impacto incremental de cinco anos caiu de R$ 288,9 milhões para R$ 80.889.705. A razão entre os dois impactos é 3,571 e a razão entre as duas populações é 3,557: as duas batem com diferença de 0,4%, o que prova que o modelo é linear na população elegível — um único parâmetro demográfico, mudado uma vez, moveu o resultado quase quatro vezes.

Vale ainda checar o modelo por duas rotas, porque a rota errada engana. Somando ano a ano os incrementais, chega-se a R$ 80.889.705, exatamente o total publicado, e as cinco subtrações de cada ano fecham ao real. Projetando por progressão geométrica a partir da razão do primeiro para o segundo ano — 1,2585 —, chega-se a R$ 93,3 milhões, um erro de +15,4%: as razões ano a ano não são constantes (1,2585, 1,2078, 1,0900, 1,0833) porque a taxa de difusão é uma escada declarada de 40%, 50%, 60%, 65% e 70%. Reconstruindo pelo modelo linear — população vezes difusão vezes custo anual do medicamento, mais o restante ao custo do procedimento comparador —, os cinco anos fecham com erro abaixo de 0,001%. E o custo diário publicado, R$ 652,82, revela a convenção do modelo: R$ 235.014,44 divididos por 360 dão exatamente esse valor, enquanto por 365 dariam R$ 643,88. O ano do modelo tem doze meses de trinta dias.

04

O corte de cada entidade e o documento que manda nele

A tabela abaixo reúne, numa só vista, os limiares que transformam achado em doença nas três famílias deste capítulo, com a origem de cada um. Os cortes de mieloma e mielodisplasia vêm de documentos nacionais vigentes; os das mieloproliferativas Filadélfia-negativas chegam pela via dos relatórios de recomendação, que reproduzem a classificação internacional sem estabelecer protocolo clínico. A coluna da origem existe porque a prova costuma dar a pista no enunciado: quando a questão cita portaria, protocolo ou o Sistema Único de Saúde, ela está pedindo a régua brasileira.

  1. 1Número anormal e persistente num exame de rotina, com ou sem sintoma.
  2. 2Antes de qualquer corte: excluir causa reativa, carencial, infecciosa, endócrina, hepática, renal e medicamentosa — a lista está escrita no protocolo da mielodisplasia e vale para as três famílias.
  3. 3Se o excesso é de proteína: eletroforese e imunofixação de proteínas séricas e urinárias, dosagem de imunoglobulinas, cadeias leves livres, cálcio, creatinina, hemograma e desidrogenase láctica.
  4. 4Se o excesso é de célula defeituosa com citopenia: aspirado de medula com morfologia, contagem de sideroblastos em anel e cariótipo, mais biópsia de medula.
  5. 5Se o excesso é de série celular: procurar clonalidade por pesquisa de mutação em JAK2, CALR ou MPL antes de assumir causa secundária como definitiva — e vice-versa, procurar a causa secundária antes de assumir clone.
  6. 6Aplicar o corte da entidade suspeita e não o corte da entidade vizinha: 20% de blastos é leucemia aguda; 5 a 19% com citopenia é mielodisplasia; 60% de plasmócitos é mieloma ativo.
  7. 7Estratificar o risco pelo escore que o documento nacional adota, conferindo se o recorte brasileiro coincide com a faixa do escore original.
  8. 8Encaminhar a serviço habilitado com os exames já feitos: o valor do encaminhamento está no que ele carrega, não na sua urgência declarada.

Da gamopatia ao mieloma ativo: o que muda de uma linha para a outra

EntidadeProteína monoclonalPlasmócitos clonais na medulaEvento definidorConsequência prática
Gamopatia monoclonal de significado indeterminado (não-IgM)Sérica menor que 3 g/dLMenores que 10%Ausente (todos os critérios negativos)Vigilância; risco de 20% a 30% em 20 anos se proteína M acima de 1,5 g/dL e razão de cadeias leves alterada
Mieloma múltiplo latenteSérica igual ou maior que 3 g/dL, ou urinária igual ou maior que 500 mg/24 hDe 10 a 60% (basta um dos três braços)AusenteNão trata; acompanha e reavalia
Mieloma múltiplo ativoPresente (sérica ou urinária)10% ou mais, ou plasmocitoma em biópsiaPelo menos um: CRAB, 60% de clone, razão de cadeias leves igual ou maior que 100 com envolvida acima de 100 mg/L, ou mais de uma lesão focal de 5 mm à ressonânciaDispara tratamento em serviço habilitado
Plasmocitoma solitárioAusente ou mínimaMedula normal, sem cloneLesão única em biópsia; esqueleto normal fora delaEvolui para mieloma em 35% em 2 anos se ósseo, 7% se extramedular
Plasmocitoma solitário com acometimento medular mínimoAusente ou mínimaMenores que 10%Lesão única; duas lesões focais são exigidas para o diferencial quando o clone medular é menor que 10%Mesma vigilância, risco maior de progressão
Leucemia de células plasmáticasComplementa, mas não é necessáriaCirculantes acima de 2.000/µL (2 x 10⁹/L) ou 20% dos leucócitosO próprio achado de plasmócitos circulantesUrgência hematológica

Mielodisplasia: as três portas de entrada e o que cada faixa de risco significa

ElementoCorte publicadoOrigemArmadilha de leitura
Citopenia (pré-requisito)Hemoglobina abaixo de 10 g/dL; plaquetas abaixo de 100 x 10⁹/L; neutrófilos abaixo de 1,8 x 10⁹/LProtocolo nacional, citando a Organização Mundial da SaúdeO documento imprime a hemoglobina como 10 g/L, mil décimos abaixo do valor real; as outras duas unidades estão corretas
Porta 1 — displasia morfológica10% ou mais das células em uma ou mais linhagensProtocolo nacionalDisplasia não é exclusiva da doença: ocorre em condição reativa, exposição tóxica e até em pessoas sadias
Porta 2 — mieloblastosIguais ou maiores que 5% e menores que 20%Protocolo nacionalÉ condição suficiente, não necessária; 3% de blastos com displasia fecha o diagnóstico pela porta 1
Porta 3 — citogenéticaAnormalidade característica, com ou sem displasiaProtocolo nacionalExiste subtipo com zero linhagens displásicas; o cariótipo detecta clone em cerca de 50% dos casos
Sideroblastos em anel15% ou mais; ou 5% ou mais se houver mutação em SF3B1Classificação da Organização Mundial da Saúde de 2016Contar 15% substitui a demonstração de displasia eritroide, mas a recíproca é falsa
Baixo risco (recorte nacional)Escore revisado muito baixo, baixo e intermediário até 3,5 pontosProtocolo nacionalO corte de 3,5 parte a faixa intermediária ao meio e não é fronteira do escore original
Alto risco (recorte nacional)Escore revisado intermediário acima de 3,5 pontos, alto e muito altoProtocolo nacionalNão há protocolo clínico nacional para esta faixa; o documento a define e a deixa de fora

Mielofibrose primária: os cinco preditores e o que cada grupo custa em sobrevida

Grupo de riscoNúmero de fatoresProporção de pacientesSobrevida mediana
Baixo022%135 meses
Intermediário-1129%95 meses
Intermediário-2228%48 meses
Alto3 ou mais (impresso no relatório como 'maior que 3')21%27 meses
Os cinco fatoresIdade acima de 65 anos; hemoglobina abaixo de 10 g/dL; leucócitos acima de 25.000/mm³; blastos periféricos iguais ou maiores que 1%; sintomas constitucionaisSomam 100% entre os quatro gruposA soma fechar em 100% é o que prova que o escore 3 pertence ao grupo alto

O corte de cálcio e o de hemoglobina do mieloma são pares: um valor absoluto e um desvio em relação ao limite do laboratório. Preencher qualquer um dos dois basta, e é por isso que um cálcio de 10,9 mg/dL pode ser hipercalcemia definidora.

O piso de 10% de plasmócitos clonais não está no quadro de critérios do documento nacional; ele aparece na nota de rodapé, por negação, e no quadro de diagnóstico diferencial. Quem lê só a tabela sai com metade da regra.

O valor de 60% de plasmócitos aparece dos dois lados da fronteira entre mieloma latente e mieloma ativo. Prevalece o evento definidor, porque é ele que dispara tratamento.

O corte de 5% de blastos na mielodisplasia é suficiente, não necessário. Uma medula com 3% de blastos e displasia em 18% de uma linhagem já preenche critério.

O recorte nacional de baixo risco na mielodisplasia aparece com 'e' na introdução do protocolo e com 'ou' logo abaixo da tabela das faixas. A primeira leitura exige que as duas réguas concordem; a segunda aceita qualquer uma.

A pesquisa de mutação em JAK2 confirma a neoplasia mieloproliferativa e, no roteiro da mielodisplasia, serve ao diagnóstico diferencial. O mesmo exame, papéis opostos, conforme a doença que se investiga.

A leucemia mieloide crônica é mieloproliferativa e tem protocolo nacional próprio; está no capítulo de leucemias do adulto e não se repete aqui.

A hipercalcemia da malignidade, a compressão medular e as doses de bisfosfonato para a doença óssea do mieloma estão no capítulo de emergências oncológicas, com o corte de gravidade e a ordem de tratamento.

A recusa da Conitec ao inibidor de JAK para mielofibrose foi econômica e está escrita como tal: o plenário registrou-se satisfeito com os dados científicos e decidiu pela avaliação econômica e pelo impacto orçamentário.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Para ser mielodisplasia de baixo risco, as duas réguas precisam concordar, ou basta uma?

As duas réguas precisam concordar (conjunção 'e')

A introdução do documento escreve que a doença de baixo risco 'inclui pacientes classificados por meio do Sistema Internacional de Escore Prognóstico baixo e intermediário-1 e do Sistema Internacional de Escore Prognóstico Revisado como muito baixo, baixo e intermediário até 3,5 pontos'. Lida ao pé da letra, a frase exige as duas classificações.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 3 de novembro de 2022 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Mielodisplásica de Baixo Risco, item 1 (Introdução)

Basta uma das réguas (conjunção 'ou')

Logo abaixo da tabela das faixas do escore revisado, o mesmo documento escreve que a doença de baixo risco 'inclui pacientes classificados como escore baixo ou intermediário-1 ou escore revisado muito baixo, baixo e intermediário até 3,5 pontos', e define o alto risco como 'intermediário-2 e alto ou escore revisado intermediário acima de 3,5 pontos, alto e muito alto'. Aqui qualquer uma das classificações basta.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 3 de novembro de 2022 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Mielodisplásica de Baixo Risco, item 3 (Classificação e estratificação de risco), texto que segue a Tabela 2

Na prova

Questão que cite o protocolo nacional, o componente especializado, a alfaepoetina ou a talidomida está pedindo o recorte brasileiro, e aí o que decide é o corte de 3,5 pontos na faixa intermediária. Questão que fale apenas em prognóstico, sobrevida ou tempo até evolução para leucemia está na régua internacional, em que a faixa intermediária vai de acima de 3 até 4,5 e não é partida. Quando a alternativa gira em torno de um paciente que cai em faixas diferentes nos dois escores, a questão está explorando a conjunção mal fechada, e o candidato deve responder pelo escore que o enunciado nomear — nunca supondo que os dois digam a mesma coisa. Se o enunciado não nomeia nenhum e traz um escore revisado acima de 3,5, o paciente está fora do protocolo de baixo risco.

O quadro de critérios do mieloma exige plasmócitos clonais em 10% ou mais?

O quadro de critérios não enuncia o piso

O Quadro 1 do documento nacional lista apenas as quatro linhas do acrônimo CRAB e os três biomarcadores, e afirma que o diagnóstico 'será confirmado com a presença de lesão de órgão-alvo conforme critérios CRAB ou pela presença de, pelo menos, um evento definidor de doença'. Em nenhum ponto da tabela aparece a exigência de fração mínima de plasmócitos clonais.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27, de 11 de dezembro de 2023 — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, item 3.3 e Quadro 1

O piso existe e aparece por negação e por contraste

A nota do mesmo quadro escreve que 'na presença de menos de 10% de células plasmáticas clonais em medula óssea, são necessárias duas lesões para o diagnóstico diferencial com plasmocitoma solitário com acometimento medular mínimo'; e o Quadro 3 fixa a fração medular como o eixo que separa gamopatia (menores que 10%), mieloma latente (10 a 60%) e plasmocitoma com acometimento mínimo (menores que 10%). O piso está no documento, fora da tabela que deveria contê-lo.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27, de 11 de dezembro de 2023 — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, nota do Quadro 1 e Quadro 3

Na prova

Questão que peça 'qual achado medular é critério definidor' quer o piso de 10% de plasmócitos clonais ou o plasmocitoma comprovado em biópsia — é a resposta que o consenso internacional sustenta e que o quadro de diagnóstico diferencial do próprio documento nacional pressupõe. Questão que peça 'qual evento define doença ativa' quer o CRAB ou um dos três biomarcadores. Se a alternativa oferecida for 'blastos iguais ou maiores que 20%', a vinheta mudou de doença e está testando a fronteira com a leucemia aguda, não o mieloma.

O escore 3 do sistema prognóstico da mielofibrose pertence a qual grupo de risco?

Literalmente, 'maior que 3' (o relatório como está impresso)

A Tabela 1 do relatório de recomendação lista os grupos como baixo com 0 fatores, intermediário-1 com 1, intermediário-2 com 2 e alto com 'maior que 3'. Lida ao pé da letra, a tabela não atribui grupo a quem tem exatamente três fatores.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Relatório de Recomendação nº 735, julho de 2022, item 4.2 e Tabela 1

Três ou mais (o corte da fonte que a tabela declara)

A mesma tabela informa que os quatro grupos reúnem 22%, 29%, 28% e 21% dos pacientes, o que soma exatamente 100% — grupos exaustivos não deixam escore órfão. A fonte declarada da tabela é o estudo que originou o escore, cujo corte de alto risco é de três ou mais fatores.

Cervantes F et al. New prognostic scoring system for primary myelofibrosis. Blood, 2009 — declarada como fonte da Tabela 1 no Relatório de Recomendação nº 735 da Conitec

Na prova

Nenhuma questão bem escrita vai cobrar o sinal de desigualdade isolado; o que ela cobra é o raciocínio de conferência. Quando o enunciado entrega um paciente com três dos cinco fatores e pede o grupo, a resposta é alto risco, com sobrevida mediana de 27 meses. Se uma alternativa afirmar que o paciente não se enquadra em nenhum grupo, ela está reproduzindo o erro de digitação do relatório, e o argumento que a derruba é que os quatro grupos somam 100% dos pacientes.

O inibidor de JAK deve estar disponível no Sistema Único de Saúde para a mielofibrose?

Não incorporar (posição da comissão nacional, duas vezes)

Em junho de 2020 o plenário deliberou por unanimidade pela não incorporação para pacientes com plaquetas acima de 50.000/mm³, e em junho de 2022 deliberou por maioria simples pela não incorporação na indicação estreitada, com plaquetas acima de 100.000/mm³ e inelegibilidade ao transplante, considerando os resultados da avaliação econômica e do impacto orçamentário. As duas decisões vieram da mesma comissão sobre o dossiê do mesmo demandante: são a mesma posição, dita duas vezes, e não duas confirmações independentes.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Relatórios de Recomendação nº 531 (junho de 2020) e nº 735 (julho de 2022), seções de Recomendação Final; Portarias SCTIE nº 20/2020 e SCTIE/MS nº 54/2022

Incorporar (posição do demandante e da consulta pública)

O demandante é a sociedade brasileira de hematologia, que apresentou o dossiê clínico e econômico; na consulta pública de 2022, 117 das 118 contribuições técnico-científicas discordaram da recomendação preliminar desfavorável, e todas as cinco contribuições de pessoas jurídicas — incluindo a de uma sociedade médica e a da empresa detentora do registro do medicamento — foram contrárias à recusa, com o argumento de que é o único medicamento com impacto demonstrado em sintomas e sobrevida. Convém pesar que a empresa fabricante figura entre os que se manifestaram a favor do próprio produto.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Relatório de Recomendação nº 735, julho de 2022, item 14 (Contribuições da Consulta Pública nº 18/2022)

Na prova

Questão que cite o Sistema Único de Saúde, a Conitec, a incorporação ou o componente especializado quer a régua regulatória, e a resposta é que o medicamento não foi incorporado, em 2020 e de novo em 2022, por avaliação econômica e impacto orçamentário — não por falta de eficácia. Questão que descreva o manejo clínico sem citar financiamento está fora dessa disputa. E a alternativa que atribuir a recusa a 'ausência de benefício clínico' está errada pelo texto da própria recomendação, que registra o plenário satisfeito com os dados científicos.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, aposentado, chega ao ambulatório de clínica médica encaminhado pela unidade básica por dor lombar progressiva há três meses, sem trauma, que não melhorou com analgesia simples e agora o acorda à noite. Refere fadiga há meses e três episódios de infecção respiratória no último semestre. Nega perda ponderal expressiva. Ao exame, está descorado, com dor à percussão de processos espinhosos lombares, sem déficit neurológico e sem visceromegalias. Traz exames pedidos na unidade: hemoglobina 9,0 g/dL, leucócitos e plaquetas normais, cálcio total 11,8 mg/dL com limite superior de 10,5 no laboratório, creatinina 2,4 mg/dL, proteínas totais elevadas com relação albumina/globulina invertida. A eletroforese de proteínas séricas mostra pico monoclonal em região gama. A radiografia de crânio, pedida pelo ortopedista que o viu antes, tem lesões líticas de bordas nítidas.
Reconhecer o padrão
Idoso com dor óssea persistente, anemia, insuficiência renal e hipercalcemia forma a tétrade que o documento nacional resume no acrônimo. O pico monoclonal em região gama converte a suspeita sindrômica em doença de células plasmáticas. Note que a triagem que produziu tudo isso é exatamente a que as Diretrizes atribuem à Atenção Primária: hemograma e eletroforese de proteínas.
Conferir cada corte, um a um
Cálcio de 11,8 mg/dL preenche por dois caminhos: está acima de 11 e está 1,3 mg/dL acima do limite do laboratório. Creatinina de 2,4 mg/dL preenche por estar acima de 2. Hemoglobina de 9,0 g/dL preenche por estar abaixo de 10. Lesão osteolítica preenche o quarto parâmetro. Quatro de quatro — mas basta um para configurar evento definidor.
Não confundir o piso com o gatilho
Falta ainda a fração medular. O diagnóstico exige plasmócitos clonais em 10% ou mais na medula, ou plasmocitoma comprovado por biópsia, além do evento definidor. Sem essa confirmação o paciente tem uma gamopatia monoclonal com quatro achados compatíveis, não um diagnóstico fechado — e é por isso que o mielograma com biópsia entra na propedêutica, não como opcional.
Completar a avaliação que o documento manda
A triagem completa inclui hemograma com esfregaço, ureia e creatinina, cálcio, eletroforese e imunofixação de proteínas séricas e urinárias, dosagem de imunoglobulinas, cadeias leves livres séricas, albumina e desidrogenase láctica. A avaliação esquelética é obrigatória ao diagnóstico, com tomografia de baixa dose de corpo inteiro; se ela vier negativa, a ressonância de corpo inteiro passa a ser obrigatória. Citogenética por hibridização in situ por fluorescência entra para o estadiamento.
Estadiar e estratificar
O estadiamento internacional revisado usa beta-2-microglobulina, albumina, desidrogenase láctica e três alterações citogenéticas de alto risco — t(4;14), t(14;16) e deleção 17p13. A diferença entre risco alto e risco padrão não é acadêmica: sobrevida global de 24,5 contra 50,5 meses, e a informação citogenética entra na decisão sobre o momento do transplante e o esquema.
Separar o que é deste capítulo do que é do vizinho
A hipercalcemia deste paciente precisa de correção pelo protocolo de distúrbios do cálcio, e a dor lombar exige exame neurológico dirigido à compressão medular — as duas coisas estão no capítulo de emergências oncológicas, com os cortes de gravidade e as doses do bisfosfonato para a doença óssea. O que é deste capítulo é o raciocínio que transformou quatro números num diagnóstico com nome.
Fechar o encaminhamento
O paciente vai para serviço habilitado em oncologia com hematologia, levando os exames já feitos. O valor do encaminhamento está no que ele carrega: eletroforese, imunofixação, cálcio, creatinina, hemograma e a avaliação esquelética. Encaminhamento sem exame apenas transfere a fila.
07

Agora feche você

Mulher de 74 anos, hipertensa, comparece ao ambulatório por fadiga há seis meses e dois episódios de sangramento gengival. Nega etilismo, cirurgia bariátrica, dieta restritiva e uso de metformina, metotrexato ou anticonvulsivantes. Ao exame: descorada, petéquias em membros inferiores, sem visceromegalias, sem alteração neurológica e sem glossite. Exames: hemoglobina 9,5 g/dL, volume corpuscular médio 106 fL, leucócitos 1.900/mm³ com 900 neutrófilos, plaquetas 78.000/mm³, reticulócitos 0,5%. Vitamina B12 620 pg/mL, ácido metilmalônico normal, folato sérico e eritrocitário normais, hormônio tireoestimulante 1,8, função hepática normal, sorologias para o vírus da imunodeficiência humana e para hepatites negativas. O esfregaço descreve raras células com núcleo bilobado em pincenê.
Passo 1
Classifique a citopenia antes de nomear a doença. Diga quantas linhagens estão abaixo dos cortes que o protocolo nacional usa para definir citopenia — hemoglobina abaixo de 10 g/dL, neutrófilos abaixo de 1.800/mm³ e plaquetas abaixo de 100.000/mm³ — e o que a reticulocitopenia acrescenta a essa leitura.
Passo 2
Percorra a lista de exclusão que o protocolo obriga a considerar antes de suspeitar de clone e marque, item a item, o que a vinheta já afastou e o que ainda ficou em aberto. Diga por que o ácido metilmalônico normal encerra a discussão sobre cobalamina mesmo com dosagem sérica dentro da faixa.
Passo 3
Nomeie o achado morfológico do esfregaço e explique a qual das três portas de entrada do diagnóstico ele pertence. Em seguida, diga por que a ausência de informação sobre percentual de blastos não impede que a suspeita esteja bem fundamentada.
Passo 4
Escreva o próximo exame com todos os seus componentes, e justifique cada um deles apontando qual critério diagnóstico ou qual variável prognóstica ele resolve.
Passo 5
Suponha que o resultado devolva 4,0 pontos no escore prognóstico revisado. Diga em que faixa internacional isso cai, o que muda no recorte do protocolo brasileiro e qual é a consequência prática dessa diferença para o acesso ao tratamento.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar o valor de 10% de plasmócitos como se fosse o gatilho do tratamento Atrai porque o número aparece em quase todas as linhas do quadro de diagnóstico diferencial e vira âncora. Mas 10% de plasmócitos clonais é o piso do diagnóstico, não a indicação de tratar: separa gamopatia de tudo o que está acima, e nada mais. O que dispara tratamento é o evento definidor — um dos quatro parâmetros do acrônimo ou um dos três biomarcadores. Paciente com 30% de plasmócitos, sem hipercalcemia, sem insuficiência renal, sem anemia e sem lesão óssea é mieloma latente, e a conduta é acompanhar.
  2. 2Exigir lesão lítica em saca-bocado para fechar mieloma Atrai porque a imagem do crânio é icônica e aparece em todo enunciado clássico. O critério ósseo, porém, pede 'uma ou mais lesões osteolíticas à radiografia, tomografia ou tomografia por emissão de pósitrons' — sem exigir padrão radiológico particular, sem exigir crânio e sem exigir múltiplas lesões. E, desde 2014, nem sequer é necessário haver lesão óssea: 60% de plasmócitos clonais, razão de cadeias leves igual ou maior que 100 com a envolvida acima de 100 mg/L, ou mais de uma lesão focal de 5 mm à ressonância fecham o diagnóstico com esqueleto radiologicamente normal.
  3. 3Perseguir carência vitamínica na macrocitose com pancitopenia depois de exames normais Atrai porque macrocitose com anemia é, na maioria das vezes, carência mesmo — e porque a prova terapêutica é barata. Duas coisas quebram o rótulo. Reticulócitos baixos com pancitopenia apontam falência de produção, não consumo; e ácido metilmalônico normal praticamente exclui deficiência tecidual de cobalamina, mesmo com dosagem sérica limítrofe. Somem-se displasia morfológica no esfregaço e ausência de etilismo, hepatopatia, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana e fármaco implicado, e o passo seguinte é medula com cariótipo, não ampola de vitamina.
  4. 4Exigir 5% de blastos para diagnosticar mielodisplasia Atrai porque o número é o que se decora e porque ele delimita a fronteira de cima com a leucemia aguda. Mas o protocolo nacional pede 'pelo menos um' de três critérios, e o blasto é apenas um deles. Displasia morfológica em 10% ou mais das células de uma linhagem fecha o diagnóstico com 2% de blastos, e uma anormalidade citogenética característica fecha com nenhuma linhagem displásica. Ler a condição suficiente como se fosse necessária é o erro que faz o candidato marcar 'não é possível concluir'.
  5. 5Chamar de policitemia vera toda eritrocitose de tabagista Atrai porque hemoglobina alta e clone soam sinônimos depois que se estuda o tema. O que separa é o resto do hemograma e o contexto. Elevação isolada da hemoglobina em fumante pesado, com leucócitos e plaquetas normais, sem esplenomegalia e sem prurido, é poliglobulia secundária ao estímulo hipóxico e ao monóxido de carbono, e a primeira medida é cessação e reavaliação. Quando as três séries sobem juntas, aparece baço palpável e há prurido após banho quente, a hipótese muda e o exame que confirma é a pesquisa de mutação, não a dosagem isolada de eritropoetina.
  6. 6Achar que o corte de risco brasileiro coincide com a faixa do escore internacional Atrai porque o protocolo nacional reproduz a tabela do escore revisado inteira, com as cinco faixas e as sobrevidas, e parece adotá-la sem alteração. Não adota: o recorte de baixo risco vai até 3,5 pontos, valor que corta a faixa intermediária ao meio e não é fronteira do escore original. Um paciente com 3,8 pontos continua sendo intermediário para efeito de prognóstico e passa a ser alto risco para efeito de protocolo — e o alto risco é justamente a faixa que o documento define e deixa fora do seu próprio escopo.
  7. 7Atribuir a não incorporação do inibidor de JAK à falta de eficácia Atrai porque recusa e ineficácia parecem a mesma coisa e porque a alternativa é confortável de marcar. O texto da recomendação final diz o contrário com todas as letras: o plenário declarou-se ciente de tratar-se de doença rara e satisfeito com os dados científicos acrescentados na consulta pública, e registrou que a decisão considerou os resultados da avaliação econômica e do impacto orçamentário. Recusa por preço e recusa por ausência de benefício são coisas distintas, e a diferença aparece em vinheta de gestão.
  8. 8Ler o percentual de sideroblastos em anel sem perguntar pelo gene Atrai porque 15% é o número clássico e está em todo lugar. A classificação vigente reproduzida no protocolo, porém, baixa o corte para 5% quando há mutação em SF3B1 — o mesmo achado morfológico, dois limiares, e quem decide qual vale é o laboratório molecular. Vale também a implicação de mão única escondida na nota: contar 15% ou mais equivale, por definição, a demonstrar displasia eritroide significante, mas displasia eritroide não implica sideroblasto em anel nenhum.
  9. 9Confiar no valor convertido impresso ao lado do valor em miligramas Atrai porque o parêntese com a unidade internacional parece conferência, e não mais um número a conferir. No critério renal do documento do mieloma, a creatinina de 2 mg/dL vem acompanhada de '177 mmol/L', quando o correto é 177 micromol por litro; na mesma tabela, as duas conversões de cálcio estão certas. No protocolo da mielodisplasia, a hemoglobina de corte aparece como 10 g/L quando deveria ser 10 g/dL, e as plaquetas e os neutrófilos da mesma frase estão certos. A régua que resolve é sempre a mesma: refazer a conta a partir do valor em unidade de massa, que é o que a prática usa.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tétrade CRAB (hiperCalcemia, insuficiência Renal, Anemia, lesões ósseas líticas — Bone) com pico monoclonal na eletroforese é diagnóstica de mieloma múltiplo. Metástases prostáticas costumam ser BLÁSTICAS (não líticas em saca-bocado) e não geram pico monoclonal. Linfoma de Hodgkin cursa com adenomegalias e sintomas B, sem componente monoclonal nem CRAB. Doença de Paget causa alteração óssea, mas não anemia, insuficiência renal nem gamopatia monoclonal. Hiperparatireoidismo dá hipercalcemia, mas não lesões líticas em saca-bocado nem pico monoclonal.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere sem consultar: (1) os quatro parâmetros do acrônimo com seus cortes — cálcio 1 mg/dL acima do limite ou acima de 11; depuração abaixo de 40 mL/min ou creatinina acima de 2 mg/dL; hemoglobina 2 g/dL abaixo do limite ou abaixo de 10 g/dL; uma ou mais lesões osteolíticas; (2) os três biomarcadores de 2014 — 60% de plasmócitos clonais, razão de cadeias leves igual ou maior que 100 com a envolvida acima de 100 mg/L, mais de uma lesão focal de 5 mm à ressonância; (3) o piso de 10% de plasmócitos clonais, que o quadro de critérios não enuncia; (4) as três portas de entrada da mielodisplasia — displasia em 10% ou mais de uma linhagem, blastos de 5 a menos de 20%, ou citogenética característica —, lembrando que basta uma; (5) o duplo corte do sideroblasto em anel, 15% em geral e 5% com mutação em SF3B1; (6) o trio de mutações das mieloproliferativas, JAK2, CALR e MPL. Se algum item falhar, o que costuma faltar é a estrutura lógica, não o número: releia quais critérios são conjunção e quais são disjunção.

em 30 dias

Trinta dias depois, o teste é de aplicação, não de recuperação. Escreva de memória a diferença entre gamopatia monoclonal de significado indeterminado, mieloma latente e mieloma ativo usando apenas três eixos — proteína, fração medular e evento definidor — e depois construa um paciente que mude de categoria alterando um único eixo. Faça o mesmo com a mielodisplasia: um paciente que entre pela porta da displasia, outro pela porta do blasto e um terceiro pela porta da citogenética, este último sem nenhuma linhagem displásica. Em seguida, situe um escore revisado de 3,4 e outro de 3,6 e diga o que muda para cada um no protocolo nacional e o que não muda no prognóstico. Por fim, reconstrua o argumento que prova que o escore 3 da mielofibrose pertence ao grupo de alto risco — a soma das proporções dos quatro grupos — e explique por que esse argumento é mais forte do que a autoridade do documento que imprimiu o sinal errado.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos comparece à consulta de rotina assintomático, trazendo um hemograma pedido no exame periódico do trabalho: hemoglobina 19,2 g/dL, hematócrito 58%, leucócitos 11.500/mm³ com diferencial normal, plaquetas 520.000/mm³. Fuma vinte cigarros por dia há trinta anos. Ao ser questionado, menciona que sente coceira nos braços depois do banho quente, o que atribui ao sabonete. A saturação de oxigênio em ar ambiente é de 97% e o baço é palpável a três centímetros do rebordo costal. Ele quer saber se pode continuar tomando o anti-inflamatório que usa para dor no joelho e por que o médico do trabalho disse que o sangue está 'grosso'. Conduza a consulta: colha o que falta na história, examine o que decide entre clone e estímulo secundário, escolha o exame que confirma e explique a ele, sem jargão, por que a resposta muda o que vem depois. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Neoplasias hematológicas crônicas – Mieloma, mielodisplasia e mieloproliferativas — Preparatório para provas | OsceLabs