PediatriaHematologia Pediátrica

Doença falciforme e traço falciforme na infância

Anemia falciforme e traço falciforme: crises e manejo

A prova cobra três coisas: ler as letras do teste do pezinho, separar traço de doença e reconhecer as emergências que matam antes dos cinco anos. Os números do protocolo brasileiro mudaram em 2024.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menina de 2 anos com anemia falciforme (HbSS) é levada ao pronto-socorro por seu responsável, que notou aumento súbito do volume abdominal e palidez intensa nas últimas horas. Exame: letárgica, palidez 4+/4+, FC 160 bpm, PA 78/40 mmHg, baço palpável a 6 cm do rebordo costal e doloroso. Hb atual 3,8 g/dL (basal 8,0 g/dL), reticulócitos elevados. Qual é a complicação e a conduta imediata?

02

Como esse tema cai

Doença falciforme é um dos poucos temas de pediatria em que o diagnóstico chega antes do paciente: o teste do pezinho entrega a criança ao serviço com semanas de vida e sem um sintoma. Por isso a prova quase nunca pede que se reconheça a doença — pede que se leia um resultado de triagem, que se separe quem tem a doença de quem só carrega o gene, e que se saiba o que fazer nos primeiros cinco anos, quando a infecção pneumocócica mata mais do que a anemia.

O segundo bloco de questões é de emergência: febre, sequestro esplênico, síndrome torácica aguda e acidente vascular cerebral. São quatro quadros com conduta protocolada, número fechado e um erro clássico embutido em cada um. O terceiro bloco, menor e mais recente, é o da hidroxiureia — e aqui a régua brasileira mudou: o protocolo de 2024 abriu o medicamento pelo genótipo e pela idade, sem exigir contagem de crises no ano anterior.

Traço falciforme merece parágrafo próprio porque é a armadilha mais barata do tema e a mais cobrada. Cerca de 4% da população brasileira tem HbAS, proporção que sobe para 6% a 10% no Norte e no Nordeste. Traço não é doença, não causa anemia, não vira doença com o tempo e não recebe penicilina profilática. Anemia em quem tem traço tem outra causa, e a mais provável continua sendo a ferropriva.

03

O que muda decisão

Uma mutação, dois problemas: a hemólise que nunca para e o baço que morre cedo

Como usar este capítulo: comece pelo genótipo e pelas duas consequências centrais — hemólise e vaso-oclusão —, depois organize prevenção e seguimento. Diante de febre, sequestro esplênico, síndrome torácica ou déficit neurológico, abandone a revisão cronológica e siga o algoritmo da emergência.

A hemoglobina S nasce de um defeito na estrutura da cadeia beta. Em baixa tensão de oxigênio, febre alta, acidose ou desidratação, a molécula polimeriza e a hemácia assume a forma de foice. A herança é autossômica recessiva: quem tem uma cópia é heterozigoto (traço), quem tem duas é HbSS (anemia falciforme). Existem ainda as heterozigoses compostas, em que a HbS se junta a outra variante ou a uma talassemia beta — HbSC, HbSD, HbS/beta-talassemia. O termo doença falciforme cobre todas essas formas; anemia falciforme designa apenas a HbSS.

Desse defeito único saem dois problemas que não se resolvem um pelo outro. O primeiro é hemólise crônica: a hemoglobina basal fica entre 6 e 9 g/dL nas formas HbSS e HbSbeta0, e costuma ser mais alta nas formas menos graves, HbSC e HbSbeta+. Os reticulócitos vivem altos, entre 4% e 10%, e o esfregaço mostra drepanócitos, codócitos, policromasia e corpos de Howell-Jolly. Esses corpos são a assinatura de que o baço parou de trabalhar.

O segundo problema é a vaso-oclusão. Ela dói no osso, isquemia a medula renal, obstrui o corpo cavernoso e, repetida ao longo dos primeiros anos, infarta o baço até apagá-lo — a autoesplenectomia. A criança com HbSS é, na prática, uma criança asplênica antes dos cinco anos, e é isso que explica o perfil de mortalidade: o pneumococo responde por cerca de 70% das infecções nessa população, o risco de meningite pneumocócica é estimado em 600 vezes o da população geral e o de bacteremia em 300 vezes, com 90% dos casos concentrados nos três primeiros anos de vida. O pico de morbimortalidade fica em torno dos 2 aos 3 anos, e as duas causas principais são septicemia e anemia profunda por sequestro esplênico.

Vale registrar o efeito renal porque ele fecha um círculo: a medula renal tem pH e pressão de oxigênio baixos, condições ideais para falcização. O resultado é hipostenúria — o rim não concentra a urina. A criança urina muito mesmo bebendo pouco, desidrata com facilidade, e a desidratação desencadeia a crise seguinte. Enurese noturna em criança falciforme raramente é comportamento; é fisiologia.

Corte de um vaso pequeno obstruído por hemácias em foice ao lado de um baço reduzido e cicatricial.
A mesma vaso-oclusão que dói no osso apaga o baço. Por isso a criança com anemia falciforme é tratada como criança asplênica desde o diagnóstico.

O teste do pezinho fala por letras, e a ordem das letras é o diagnóstico

O laudo da triagem lista as hemoglobinas em ordem decrescente de quantidade. No recém-nascido a hemoglobina fetal predomina, então quase todo resultado começa por F. A partir daí a leitura é mecânica: FA é o perfil esperado, com hemoglobina fetal e hemoglobina A normal. FAS, FAC ou FAD indicam heterozigoto — traço falciforme, traço C, traço D. FS indica ausência de hemoglobina A e, portanto, doença: HbSS ou HbSbeta0-talassemia, que também não produz cadeia beta normal. FSC é a dupla heterozigose HbSC.

Duas leituras erradas são cobradas com frequência. A primeira é o perfil AF em recém-nascido: hemoglobina A em proporção maior que a fetal antes do tempo sugere transfusão não informada, não doença — e AF não é abreviação de anemia falciforme. A segunda é confundir FS com HbSS: FS diz apenas que não há hemoglobina A; separar HbSS de HbSbeta0 exige a confirmação e, às vezes, o estudo familiar.

Se o recém-nascido recebeu sangue, a amostra analisada é uma mistura da hemoglobina dele com a do doador. A regra do Programa Nacional de Triagem Neonatal é fazer duas coletas: uma no período ideal, do terceiro ao quinto dia, para fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase; e outra 120 dias após a transfusão, exclusivamente para doença falciforme e outras hemoglobinopatias.

A confirmação é feita por eletroforese por focalização isoelétrica (IEF) ou por cromatografia líquida de alta resolução (HPLC). Quando o diagnóstico é feito por uma dessas duas técnicas, não é preciso repetir a eletroforese. O teste molecular entra apenas quando as técnicas tradicionais não fecham o genótipo. Depois dos seis meses de vida a hemoglobina fetal desaparece e a nomenclatura muda: AA, as, SS, SC.

O prazo importa e cai em prova: o tratamento deve começar antes dos quatro meses de vida. Não é uma meta administrativa — é o intervalo em que a profilaxia antimicrobiana ainda chega antes da primeira bacteremia.

Traço falciforme: a resposta é que não é doença, e ela vale ponto

No perfil HbAS a hemoglobina A ultrapassa 60% do total. O protocolo brasileiro descreve o traço em uma linha: geralmente assintomático e não caracteriza anemia. Isso tem consequências práticas que a questão testa uma a uma. O portador de traço não recebe penicilina profilática, não recebe hidroxiureia, não entra em programa de transfusão, não tem indicação de Doppler transcraniano e não precisa de seguimento em hematologia. Hemograma normal em quem tem traço é o esperado, não um alívio.

Traço também não se transforma em doença com o tempo, com infecção ou com esforço. O que muda de fato é o planejamento reprodutivo: se os dois genitores têm traço, cada gestação tem 25% de chance de gerar uma criança com doença falciforme. Por isso o achado de FAS na triagem gera encaminhamento da família para aconselhamento genético — não vigilância clínica da criança.

O manual de triagem neonatal acrescenta um cuidado que a prova de ética às vezes aproveita: a investigação do perfil hemoglobínico dos pais biológicos pode expor adoção não revelada ou exclusão de paternidade. Quando não há profissional habilitado para conduzir o aconselhamento, a orientação é analisar apenas o perfil da mãe; se ela não for a doadora do gene variante, sugere-se à família que a herança é paterna — sem transformar a consulta em confronto.

A consequência clínica mais útil é negativa: se uma criança com traço falciforme está anêmica, a anemia tem outra causa. Na faixa pediátrica brasileira a causa mais provável continua sendo a deficiência de ferro, e atribuir a anemia ao traço é o que faz a investigação parar cedo demais.

As quatro medidas que fazem a criança chegar aos cinco anos

A primeira é a penicilina. O protocolo recomenda profilaxia antimicrobiana desde o diagnóstico até os 5 anos de idade, contra bactérias encapsuladas. O medicamento de escolha é a penicilina V oral (fenoximetilpenicilina), 125 mg a cada 12 horas em crianças menores de 3 anos ou com até 15 kg, e 250 mg a cada 12 horas acima de 3 anos ou entre 15 e 25 kg. Administrada em jejum, atinge pico sérico em 30 minutos. Quando a via oral não é possível, entra a benzilpenicilina benzatina intramuscular a cada 4 semanas — 300.000 UI até 10 kg, 600.000 UI entre 10 e 20 kg, 1.200.000 UI acima de 20 kg — com retorno à via oral assim que possível. Em alergia à penicilina, estolato de eritromicina 20 mg/kg duas vezes ao dia.

A segunda é a vacinação. Além do calendário do Programa Nacional de Imunizações, a criança com doença falciforme recebe, pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, a vacina pneumocócica conjugada 13-valente e a polissacarídica 23-valente após os 2 anos de idade, com reforço 3 a 5 anos depois. A indicação vem da mesma linha que cobre asplenia anatômica ou funcional. Influenza é anual, em todas as idades, e a vacina contra covid-19 está indicada sem restrições.

A terceira é ensinar a família a palpar o baço. O protocolo descreve a técnica com abaixador de língua: usando o gradil costal como eixo e apontando o abaixador para a região umbilical, o médico marca no abaixador o tamanho inicial do baço e entrega a régua improvisada à mãe. É uma medida de baixíssimo custo para um evento que pode levar ao choque em horas.

A quarta é converter a família em detector de emergência. Febre, palidez súbita, prostração, baço que cresce, dor torácica e ereção prolongada precisam ser reconhecidos em casa, porque a janela de decisão é curta. Educação para o autocuidado não é item decorativo do protocolo: nas formas graves, a sepse pneumocócica pode levar a óbito em menos de 24 horas depois do início da febre.

Hidroxiureia: no protocolo vigente, quem abre a porta é o genótipo

A hidroxiureia inibe a ribonucleotídeo redutase, eleva a hemoglobina fetal, hidrata a hemácia e reduz a expressão de moléculas de adesão. O efeito clínico é grande: redução de cerca de 40% no risco de óbito e de aproximadamente 50% na necessidade transfusional e no número de episódios de síndrome torácica aguda.

O critério de entrada é o ponto que mudou. No protocolo vigente, o paciente com HbSS, HbSbeta0, HbSbeta+ grave ou HbSD Punjab entra a partir dos 9 meses de idade, pelo genótipo — sem exigência de número de crises no ano anterior, de internação prévia ou de gravidade documentada. Para HbSC, HbSD e HbSbeta-talassemia, a idade mínima é 2 anos. Abaixo dos 2 anos nessas formas, o medicamento pode ser prescrito a partir dos 9 meses desde que haja pelo menos um de três achados: dactilite no primeiro ano de vida, hemoglobina abaixo de 7 g/dL (média de três medidas fora de evento agudo) ou leucócitos acima de 20.000/mm³ (média de três medidas fora de evento agudo).

A dose inicial é 15 mg/kg/dia por via oral, em tomada única, com aumento de 5 mg/kg/dia a cada 4 semanas até a dose máxima de 35 mg/kg/dia ou até toxicidade. Abaixo de 25 kg usa-se o comprimido revestido de 100 mg, que pode ser partido ao meio e desintegrado em pouca água; acima de 25 kg, a cápsula de 500 mg pode ser dissolvida em 10 mL de água, o que dá 50 mg/mL e permite medir a dose por peso com seringa.

Há exclusões que valem para quem ainda não iniciou o tratamento: neutrófilos abaixo de 1.500/mm³ em maiores de um ano, ou abaixo de 1.000/mm³ em menores de um ano; hemoglobina abaixo de 4,5 g/dL; reticulócitos abaixo de 80.000/mm³ quando a hemoglobina está abaixo de 8 g/dL; plaquetas abaixo de 80.000/mm³; gestação ou atividade sexual sem contracepção; e doença hepática ativa sem possibilidade de monitoramento. A queda de reticulócitos em quem já usa o medicamento é resposta esperada, não critério de exclusão.

Na toxicidade hematológica, o medicamento é suspenso até a recuperação e reintroduzido com 5 mg/kg/dia a menos que a dose em uso, retomando o escalonamento a cada 4 semanas. Se a toxicidade se repetir duas vezes na mesma dose, aquela dose passa a ser a dose máxima tolerada daquele paciente e não volta a ser usada. Em disfunção renal, a dose cai para 50% com depuração de creatinina entre 10 e 50 mL/min e para 20% abaixo de 10 mL/min. Mulheres que planejam engravidar devem suspender a hidroxiureia cerca de três meses antes da concepção.

Febre: o número é 38,2 °C e o relógio começa a correr

Febre em criança com doença falciforme é urgência, não consulta. O protocolo brasileiro fixa um corte específico: temperatura corporal acima de 38,2 °C em criança abaixo de 3 anos de idade pode indicar bacteremia ou sepse. O número é menos redondo do que os 38,5 °C que circulam nos resumos, e é o que está escrito no documento nacional vigente.

A conduta na atenção primária é transportar para o serviço de urgência e notificar o Centro de Referência. Na admissão, colhe-se hemograma com reticulócitos, urina tipo I, proteína C reativa, hemocultura, urocultura e radiografia de tórax. A punção lombar é indicada em toxemia ou suspeita de infecção do sistema nervoso central.

O antibiótico não espera a cultura. Em quadro febril sem foco definido, a cobertura é para germes encapsulados, com penicilina ou amoxicilina-clavulanato. O esquema básico intravenoso é amoxicilina 50 a 100 mg/kg/dia de 8 em 8 horas para menores de 5 anos, e penicilina G cristalina 100.000 a 250.000 U/kg/dia de 6 em 6 horas acima dos 5 anos. Como alternativa, ceftriaxona 50 a 75 mg/kg/dia de 12 em 12 horas, com máximo de 4 g/dia. Em meningite, ceftriaxona 100 mg/kg/dia por no mínimo 10 dias. Em osteomielite, antibiótico intravenoso por 4 a 6 semanas cobrindo Staphylococcus aureus e Salmonella — a associação com Salmonella é peculiar da doença falciforme e cai em prova. Havendo síndrome torácica aguda ou suspeita de Mycoplasma, associa-se macrolídeo.

Três emergências que matam: sequestro esplênico, síndrome torácica aguda e AVC

O sequestro esplênico é o represamento súbito de sangue no baço. O quadro é palidez intensa, prostração, aumento rápido do baço, dor abdominal e hipovolemia que pode chegar ao choque. Ocorre em até 30% das crianças pequenas com doença falciforme e é a manifestação de apresentação em até 20% dos pacientes. Recorre em até metade dos que tiveram o primeiro episódio, e a esplenectomia é frequentemente indicada após o primeiro evento agudo para prevenir a recorrência, realizada depois dos 5 anos. Um detalhe anatômico organiza o raciocínio: é nas formas com baço preservado — HbSC, HbSbeta-talassemia e a criança pequena com HbSS antes da autoesplenectomia — que o sequestro acontece.

A conduta é de emergência: acesso venoso imediato, expansor plasmático 10 a 15 mL/kg como primeira escolha ou, na falta dele, soro fisiológico 40 a 100 mL/kg em 2 horas; oxigênio por máscara, repouso absoluto e elevação dos membros inferiores. A transfusão é de 10 mL/kg de concentrado de hemácias, com alvo de hemoglobina entre 6 e 7 g/dL — alvo deliberadamente baixo, porque quando o sequestro cede o baço devolve à circulação o sangue que reteve e o risco passa a ser hiperviscosidade por subida súbita da hemoglobina.

A síndrome torácica aguda é definida por infiltrado pulmonar recente e não atelectásico na radiografia de tórax, acompanhado de um ou mais de dor torácica intensa, tosse, febre, sintomas respiratórios e hipoxemia. Exige internação de urgência, e saturação abaixo de 93% indica encaminhamento à terapia intensiva. O oxigênio suplementar mira saturação igual ou acima de 93% ou dentro de 3% do basal do paciente. A volemia deve ser mantida normal: hidratação excessiva e bolus intravenoso de rotina são explicitamente desaconselhados pelo risco de edema pulmonar. A transfusão simples entra quando a hemoglobina cai 1,5 g/dL ou mais em relação ao basal, e pode ser dispensável com hemoglobina igual ou acima de 9 g/dL; em piora rápida, considera-se transfusão de troca ou simples de urgência. Depois do episódio, o paciente entra em programa de transfusão de troca por no mínimo 6 meses.

Ainda na síndrome torácica aguda, uma medida barata tem efeito desproporcional: espirometria de incentivo com 10 respirações máximas a cada duas horas enquanto o paciente estiver acordado, em criança internada por dor vaso-oclusiva, reduziu a ocorrência de síndrome torácica de 42% para 5%. É item de prescrição, não de fisioterapia opcional.

O acidente vascular cerebral é a emergência com melhor prevenção primária. O protocolo recomenda ultrassom Doppler transcraniano anual dos 2 aos 16 anos de idade; quando o exame mostra aumento de velocidade nas artérias cerebrais, indica-se regime crônico de transfusão com hemácias fenotipadas para reduzir a proporção de hemoglobina S. No evento agudo — AVC instalado ou ataque isquêmico transitório — a conduta é transfusão, e ela tem relógio: a diretriz cerebrovascular da ASH fixa a transfusão em até 2 horas do reconhecimento do déficit, em recomendação forte apoiada em certeza alta, o grau máximo do método GRADE, e a régua vale igualmente para crianças e adultos. A modalidade preferida é a troca; quando ela não estiver disponível dentro dessas 2 horas e a hemoglobina for igual ou menor que 8,5 g/dL, faz-se a simples para não atrasar, com a troca planejada em seguida. Acima desse valor a simples deixa de ser saída, porque empurraria a hemoglobina para a faixa de hiperviscosidade. Existe ainda o infarto cerebral silencioso, definido como lesão de pelo menos 3 mm em dois planos de ressonância ponderada em T2 sem achado no exame neurológico: silencioso na semiologia, mas associado a déficit cognitivo e comportamental.

Transfundir sem criar o próximo problema, e o calendário do seguimento

A aloimunização é o custo previsível da terapia transfusional nesta doença. Por isso todo paciente é fenotipado para ABO, Rh e Kell ao diagnóstico, e as hemácias transfundidas devem ser compatíveis para Rh e K; se surgirem anticorpos, a fenotipagem é estendida. A reação hemolítica transfusional tardia atinge entre 5% e 10% dos pacientes e cerca de metade dos casos passa sem diagnóstico. A forma mais grave é a hiper-hemólise, em que a hemoglobina cai abaixo do nível pré-transfusional; o tratamento inclui hidratação e imunossupressão imediata com corticoide (prednisona 1 a 4 mg/kg/dia) e/ou imunoglobulina intravenosa de 0,4 a 1 g/kg/dia por três a cinco dias.

Duas suplementações merecem cautela. Ferro não é rotina: a anemia da doença falciforme é hemolítica, não ferropriva, e a suplementação só entra guiada por ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina. Ácido fólico teve a indicação restringida no protocolo vigente a situações de dosagem sérica baixa e a condições específicas, como a gravidez — em que a dose é 5 mg/dia. Quando a dosagem sérica não está disponível, o esquema descrito é meio comprimido (2,5 mg) três vezes por semana para crianças até 1 ano ou até 10 kg, e um comprimido (5 mg) três vezes por semana acima disso, com a recomendação de manter o folato sérico abaixo de 17 ng/mL.

O seguimento programado é o que separa o acompanhamento de verdade da consulta de renovação de receita. Doppler transcraniano anual dos 2 aos 16 anos. Avaliação oftalmológica anual a partir dos 10 anos — vale lembrar que a retinopatia proliferativa é mais comum na HbSC do que nos outros genótipos, ao contrário do padrão de gravidade das demais complicações. Rastreio renal com creatinina sérica e pesquisa de proteinúria e albuminúria por volta dos 3 aos 5 anos. Dosagem de vitamina D anual ou semestral e densitometria óssea aos 12 anos, repetida a cada 3 anos. Avaliação periódica pela equipe de saúde bucal.

Por fim, o transplante de células-tronco hematopoéticas é o único tratamento curativo. O benefício é maior abaixo dos 16 anos e a sobrevida livre de eventos é melhor em pacientes com até 12 anos que tenham irmão HLA idêntico. O protocolo não fixa idade limite, mas recomenda que pacientes HbSS e HbSbeta0 façam o estudo de HLA dos irmãos a partir dos 5 anos, para que a elegibilidade já esteja mapeada quando a complicação grave aparecer.

04

As réguas numéricas do protocolo vigente: profilaxia, hidroxiureia e Doppler

Três conjuntos de números concentram quase todas as questões objetivas do tema: o esquema de profilaxia antimicrobiana até os 5 anos, a entrada e o freio da hidroxiureia, e a classificação de velocidade do Doppler transcraniano. O fluxo abaixo é o da criança que chega febril, porque é a situação em que o erro custa mais caro.

  1. 1Febre em criança com doença falciforme: tratar como urgência, sem observação domiciliar. Acima de 38,2 °C em menor de 3 anos, presumir bacteremia até prova em contrário.
  2. 2Transportar ao serviço de urgência e notificar o Centro de Referência.
  3. 3Colher na admissão: hemograma com reticulócitos, urina tipo I, proteína C reativa, hemocultura, urocultura e radiografia de tórax.
  4. 4Puncionar líquor se houver toxemia ou suspeita de infecção do sistema nervoso central.
  5. 5Iniciar antibiótico empírico contra encapsulados sem esperar cultura: amoxicilina 50 a 100 mg/kg/dia IV 8/8 h abaixo de 5 anos; penicilina G cristalina 100.000 a 250.000 U/kg/dia IV 6/6 h acima de 5 anos; ceftriaxona 50 a 75 mg/kg/dia IV 12/12 h como alternativa.
  6. 6Examinar o baço e comparar com o tamanho prévio anotado com a família — febre e sequestro esplênico coexistem com frequência.
  7. 7Repetir a radiografia a cada 24 horas se houver dor torácica ou crise grave, mesmo com o primeiro exame normal: a síndrome torácica aguda costuma aparecer depois da admissão.

Doppler normal — abaixo de 170 cm/s

Todas as medidas de velocidade média máxima tempo-média abaixo de 170 cm/s. Mantém-se o rastreio anual, sem indicação de transfusão crônica por este critério.

Doppler condicional — 170 a 199 cm/s

Pelo menos uma medida entre 170 e 199 cm/s. Faixa intermediária de risco: o intervalo entre os exames encurta e a criança passa a ser reavaliada com mais frequência que a anual.

Doppler alterado — 200 cm/s ou mais

Pelo menos uma medida igual ou acima de 200 cm/s. É o achado que sustenta a indicação de regime crônico de transfusão com hemácias fenotipadas para prevenção primária de AVC.

SituaçãoMedicamentoEsquema
Menor de 3 anos ou até 15 kgPenicilina V oral (fenoximetilpenicilina)125 mg (200.000 UI, 2,5 mL) a cada 12 h — 250 mg/dia
Acima de 3 anos ou 15 a 25 kgPenicilina V oral (fenoximetilpenicilina)250 mg (400.000 UI, 5 mL) a cada 12 h — 500 mg/dia
Impossibilidade de via oral, até 10 kgBenzilpenicilina benzatina IM300.000 UI a cada 4 semanas
Impossibilidade de via oral, 10 a 20 kgBenzilpenicilina benzatina IM600.000 UI a cada 4 semanas
Impossibilidade de via oral, acima de 20 kgBenzilpenicilina benzatina IM1.200.000 UI a cada 4 semanas
Alergia à penicilinaEstolato de eritromicina oral20 mg/kg duas vezes ao dia (40 mg/kg/dia)
DuraçãoQualquer esquema acimaDo diagnóstico até os 5 anos de idade

Hidroxiureia: entrada, dose e freio

ItemRégua do protocolo vigente
Quem entra a partir dos 9 mesesHbSS, HbSbeta0, HbSbeta+ grave e HbSD Punjab — pelo genótipo, sem exigir número de crises
Quem entra a partir dos 2 anosHbSC, HbSD e HbSbeta-talassemia
HbSC, HbSD ou HbSbeta-tal entre 9 e 24 mesesSomente com dactilite no 1º ano, ou Hb abaixo de 7 g/dL, ou leucócitos acima de 20.000/mm³ (médias de 3 medidas fora de evento agudo)
Dose inicial15 mg/kg/dia, via oral, tomada única
EscalonamentoAumento de 5 mg/kg/dia a cada 4 semanas
Dose máxima35 mg/kg/dia, ou a maior dose tolerada sem toxicidade
Apresentação por pesoComprimido de 100 mg até 25 kg; cápsula de 500 mg diluída em 10 mL (50 mg/mL) acima de 25 kg
Níveis tóxicosNeutrófilos abaixo de 1.500/mm³; plaquetas abaixo de 80.000/mm³; hemoglobina abaixo de 4,5 g/dL; reticulócitos abaixo de 80.000/mm³
Conduta na toxicidadeSuspender até recuperar e reiniciar com 5 mg/kg/dia a menos; duas toxicidades na mesma dose tornam aquela dose proibida
MonitoramentoHemograma com plaquetas, reticulócitos e VCM a cada 2 semanas até a manutenção, depois a cada 12 semanas; HbF a cada 8 a 12 semanas até a manutenção, depois semestral; creatinina e transaminases a cada 4 semanas até a manutenção, depois a cada 12
Ajuste renalDepuração de creatinina de 10 a 50 mL/min: 50% da dose. Abaixo de 10 mL/min: 20% da dose

Seguimento programado da criança com doença falciforme

O quêQuando começaCom que frequência
Doppler transcraniano2 anosAnual, até os 16 anos
Avaliação oftalmológica10 anosAnual, até a idade adulta
Creatinina, proteinúria e albuminúria3 a 5 anosPeriódica na infância; 4 a 6 vezes ao ano na vida adulta
Dosagem de vitamina DInfânciaAnual ou semestral
Densitometria óssea12 anosA cada 3 anos
Estudo de HLA dos irmãos (HbSS e HbSbeta0)5 anosUma vez, para mapear elegibilidade a transplante
Fenotipagem ABO, Rh e KellAo diagnósticoEstender se surgirem anticorpos

O corte de febre de 38,2 °C vale para menores de 3 anos e é o número do documento nacional vigente; acima dessa idade, febre continua sendo urgência, mas sem corte numérico definido no protocolo.

O alvo transfusional no sequestro esplênico é baixo de propósito: hemoglobina entre 6 e 7 g/dL com 10 mL/kg de concentrado de hemácias, porque o baço devolve o sangue retido quando o quadro cede.

Reticulócitos abaixo de 80.000/mm³ excluem quem ainda não começou a hidroxiureia. Em quem já usa, a queda de reticulócitos é resposta esperada e se maneja pelo ajuste de dose.

Os cortes de velocidade do Doppler não constam do protocolo brasileiro, que recomenda o exame anual dos 2 aos 16 anos e indica transfusão crônica diante de 'aumento de velocidade'. Os valores de 170 e 200 cm/s vêm da diretriz da Sociedade Americana de Hematologia de 2020 e são os que operacionalizam a decisão.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Ácido fólico para toda criança com doença falciforme, ou só com dosagem sérica baixa

Suplementação universal de 1 mg/dia

A hemólise crônica aumenta a demanda de folato pela eritropoiese acelerada, e a suplementação diária de 1 mg previne a carência antes que ela apareça. É a conduta descrita como recomendação internacional e a que está na maioria dos materiais de estudo brasileiros.

Recomendação internacional citada no próprio PCDT da Doença Falciforme (Ministério da Saúde, 2024), no item de esquemas de administração.

Suplementação guiada pela dosagem sérica

A indicação fica restrita a dosagem sérica baixa e a condições específicas, como a gravidez, em que a dose é 5 mg/dia. Sustenta a restrição a associação entre folato sérico acima de 17 ng/mL, aumento de citocinas inflamatórias e queda de linfócitos natural killer. Quando a dosagem não está disponível, o esquema é 2,5 mg três vezes por semana até 1 ano ou 10 kg, e 5 mg três vezes por semana acima disso.

PCDT da Doença Falciforme — Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS nº 16, de 1º de novembro de 2024, itens de suplementação com ácido fólico e de esquemas de administração.

Na prova

O enunciado costuma denunciar o recorte pela dose que aparece nas alternativas: 1 mg/dia é o vocabulário da literatura internacional, enquanto 2,5 mg ou 5 mg três vezes por semana só existe no documento brasileiro de 2024. Cenário de unidade básica, dispensação pelo SUS ou menção nominal ao protocolo do Ministério aponta para o corpo brasileiro; texto traduzido de diretriz estrangeira, ou alternativa que fala em suplementação contínua sem dosagem, aponta para o corpo internacional. Gestante é o único ponto em que os dois convergem, com 5 mg/dia.

Qual número define o Doppler transcraniano alterado e dispara a transfusão crônica

Régua brasileira: exame anual dos 2 aos 16 anos, sem corte numérico publicado

O protocolo nacional recomenda o ultrassom Doppler transcraniano anual dos 2 aos 16 anos e indica regime crônico de transfusão com hemácias fenotipadas quando o exame evidencia aumento da velocidade na circulação cerebral, sem publicar o valor que separa as categorias.

PCDT da Doença Falciforme — Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS nº 16, de 1º de novembro de 2024, item de suporte transfusional.

Régua americana: 170 e 200 cm/s como cortes operacionais

A classificação usa a velocidade média máxima tempo-média (TAMMV): normal abaixo de 170 cm/s, condicional entre 170 e 199 cm/s e alterado a partir de 200 cm/s, com rastreio anual dos 2 aos 16 anos em HbSS e HbSbeta0. É a régua que transforma 'aumento de velocidade' em decisão.

American Society of Hematology 2020 guidelines for sickle cell disease: cerebrovascular disease. Blood Advances 2020;4(8):1554-1588.

Na prova

A causa da diferença é de forma, não de mérito: o documento brasileiro delega o ponto de corte ao laudo do serviço, e o americano publica o número. Quando as alternativas trazem valores em cm/s, o enunciado está operando na régua americana, porque só ela tem esses números. Quando falam em periodicidade, faixa etária e indicação de transfusão crônica sem citar velocidade, o recorte é do documento nacional — e aí a faixa de 2 a 16 anos é o dado que distingue as alternativas.

06

Caso resolvido

Menino de 2 anos e 3 meses, HbSS diagnosticada na triagem neonatal, em uso irregular de penicilina V. A mãe o traz ao pronto-socorro por febre de 38,8 °C iniciada há 6 horas, com palidez que piorou desde a manhã e prostração. Ao exame: taquicárdico, tempo de enchimento capilar de 4 segundos, abdome distendido e baço palpável a 6 cm do rebordo costal — a mãe mostra o abaixador de língua marcado na última consulta, quando o baço estava a 2 cm. Hemoglobina 4,1 g/dL, reticulócitos elevados, plaquetas 96.000/mm³.
achado que fecha o quadro
Queda abrupta de hemoglobina com reticulocitose preservada e baço que dobrou de tamanho em relação à medida anterior: é sequestro esplênico agudo. A reticulocitose separa o sequestro da crise aplásica, em que os reticulócitos despencam.
achado que não pode ser esquecido
A febre de 38,8 °C em criança abaixo de 3 anos com doença falciforme é urgência independente do sequestro. Os dois eventos coexistem com frequência, e tratar só o mais dramático deixa a bacteremia correndo solta.
conduta imediata
Acesso venoso e expansão com expansor plasmático 10 a 15 mL/kg; na falta dele, soro fisiológico 40 a 100 mL/kg em 2 horas. Oxigênio por máscara, repouso absoluto e elevação dos membros inferiores.
transfusão com alvo baixo
Concentrado de hemácias 10 mL/kg, mirando hemoglobina entre 6 e 7 g/dL. Transfundir até um valor 'normal' é o erro que produz hiperviscosidade quando o baço devolve o sangue sequestrado.
cobertura antimicrobiana
Colher hemocultura, urocultura, hemograma com reticulócitos, urina tipo I, proteína C reativa e radiografia de tórax, e iniciar amoxicilina 50 a 100 mg/kg/dia intravenosa de 8 em 8 horas sem esperar resultado — abaixo de 5 anos este é o esquema básico contra encapsulados.
depois da estabilização
Notificar o Centro de Referência, revisar a adesão à penicilina profilática, discutir esplenectomia — indicada com frequência após o primeiro evento, realizada depois dos 5 anos — e verificar se a hidroxiureia já foi iniciada: com HbSS acima de 9 meses, o critério de entrada está preenchido só pelo genótipo e pela idade.
07

Agora feche você

Menina de 9 anos com HbSS, internada há 2 dias por crise vaso-oclusiva em membros inferiores, em analgesia com opioide e hidratação intravenosa a 1,5 vez a manutenção. No terceiro dia surge dor torácica intensa, tosse e febre de 38,5 °C. Saturação de 91% em ar ambiente, frequência respiratória de 34 irpm, estertores em base direita. Radiografia de tórax: infiltrado novo em lobo inferior direito, não presente na admissão. Hemoglobina 6,2 g/dL, sendo o basal dela de 8,0 g/dL.
achado
Infiltrado pulmonar recente e não atelectásico associado a dor torácica, febre, tosse e hipoxemia: é síndrome torácica aguda, a complicação que mais mata nesta doença depois da infecção na primeira infância.
gravidade
Saturação de 91% em ar ambiente está abaixo de 93% e sinaliza encaminhamento à terapia intensiva.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler 'AF' no teste do pezinho como anemia falciforme As letras são as hemoglobinas presentes, em ordem decrescente de quantidade. AF em recém-nascido significa hemoglobina A predominando sobre a fetal antes do tempo, o que sugere transfusão não informada — e o manual do programa nacional escreve, com todas as letras, que AF não é abreviação de anemia falciforme. A doença aparece como FS ou FSC.
  2. 2Tratar traço falciforme como doença leve HbAS tem hemoglobina A acima de 60%, é assintomático e não caracteriza anemia. Não recebe penicilina profilática, hidroxiureia, transfusão nem Doppler transcraniano. A confusão é atraente porque o resultado da triagem vem alterado e parece pedir alguma conduta clínica; a conduta é aconselhamento genético da família, não vigilância da criança.
  3. 3Prescrever ferro para a anemia da doença falciforme A anemia é hemolítica, com reticulócitos altos, e não decorre de falta de ferro. O reflexo de tratar 'anemia da criança' com sulfato ferroso vem da ferropriva, que é o diagnóstico mais comum na faixa. Ferro só entra guiado por ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina, e em quem transfunde com frequência o problema costuma ser o oposto: sobrecarga.
  4. 4Hidratar generosamente na síndrome torácica aguda Hidratação é a primeira medida ensinada para a crise vaso-oclusiva, e o reflexo se transfere para o quadro pulmonar. Na síndrome torácica aguda a orientação é manter a volemia normal e evitar hidratação excessiva e bolus intravenoso de rotina, porque o excesso induz edema pulmonar e piora exatamente a troca gasosa que está em risco.
  5. 5Esperar hemocultura ou radiografia para iniciar antibiótico na criança febril A sepse pneumocócica pode levar a óbito em menos de 24 horas depois do início da febre nessa população. Os exames são colhidos na admissão, mas o antibiótico empírico contra encapsulados começa junto, não depois. A demora parece prudência e é o oposto dela.
  6. 6Exigir três crises no ano para indicar hidroxiureia O critério clínico de gravidade era o caminho conhecido e continua nos resumos antigos. No protocolo brasileiro vigente, HbSS, HbSbeta0, HbSbeta+ grave e HbSD Punjab entram pelo genótipo a partir dos 9 meses de idade, sem contagem de crises. O número de crises volta a importar só nas formas HbSC, HbSD e HbSbeta-talassemia abaixo de 2 anos, e ainda assim na forma de dactilite, hemoglobina ou leucometria.
  7. 7Confundir sequestro esplênico com crise aplásica pela queda de hemoglobina As duas derrubam a hemoglobina de forma abrupta. O que separa é o reticulócito: alto no sequestro, porque a medula continua produzindo, e baixo na aplasia. O baço também fala — cresce rápido no sequestro. Trocar os dois muda a conduta de expansão volêmica urgente para observação e transfusão eletiva.
  8. 8Transfundir o sequestro esplênico até a hemoglobina 'normalizar' O alvo é hemoglobina entre 6 e 7 g/dL com 10 mL/kg de concentrado de hemácias. Quando o sequestro cede, o baço devolve à circulação todo o sangue que reteve; a soma do transfundido com o devolvido produz hiperviscosidade. O alvo baixo não é timidez, é o cálculo do que vai voltar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Queda abrupta da Hb com esplenomegalia dolorosa de rápida instalação, hipovolemia (taquicardia, hipotensão) e reticulocitose caracteriza sequestro esplênico agudo — emergência da anemia falciforme em crianças pequenas. A conduta é restaurar a volemia e transfundir hemácias com cautela (correta). Crise aplásica (parvovírus) cursa com reticulócitos BAIXOS e sem esplenomegalia aguda dolorosa. Colecistite não explica a queda súbita de Hb e o sequestro esplênico. Crise vaso-oclusiva pura não justifica a anemização aguda com esplenomegalia. Síndrome torácica aguda cursa com sintomas respiratórios e infiltrado pulmonar, ausentes.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: as letras do pezinho (FA, FAS, FS, FSC) e o que cada uma indica; o esquema de penicilina V por idade e peso e até quando ela vai; o corte de febre em menor de 3 anos; a dose inicial, o passo de escalonamento e a dose máxima da hidroxiureia; e a idade em que começa e em que termina o Doppler transcraniano. Depois confira. O que errar, escreva à mão três vezes — são números de decorar, não de deduzir.

em 30 dias

Resolva as oito questões deste capítulo de novo e, para cada erro, volte à seção que o gerou, não ao comentário da questão. Em seguida, monte um quadro de uma página com as três emergências (sequestro, síndrome torácica e AVC) em três colunas: como reconheço, o que faço nos primeiros 30 minutos e o erro clássico de cada uma. Feche com a frase que resolve metade das questões do tema: traço falciforme não é doença, não causa anemia e não recebe profilaxia.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 14 meses, HbSS diagnosticada no teste do pezinho, chega ao pronto-socorro com febre de 38,6 °C há 4 horas, irritado e com as mãos e os pés inchados e dolorosos há dois dias. A mãe conta que a penicilina acabou faz três semanas e ela não conseguiu retirar na unidade. Conduza o atendimento: decida o que colher, o que prescrever antes de qualquer resultado, o que examinar no abdome e o que a família precisa saber antes de ir embora. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Anemia falciforme e traço falciforme – Doença falciforme e traço falciforme na infância — Preparatório para provas | OsceLabs