PediatriaHematologia Pediátrica

Doença hemorrágica do recém-nascido

A profilaxia é ensinada na sala de parto e a doença não é ensinada em lugar nenhum — e a vinheta cobra a doença: a forma, o coagulograma e o que se repõe primeiro.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido, sexo masculino, 3 dias de vida, nascido em parto domiciliar não assistido, em aleitamento materno exclusivo. A mãe procura o pronto-socorro por sangramento pelo coto umbilical e sangue nas fezes (melena) iniciados há algumas horas. Ao exame: ativo, corado, FC 148 bpm, FR 44 ipm, Tax 36,8 °C; equimoses no ponto de punção do calcanhar. Não há relato de administração de vitamina K ao nascimento. Exames: plaquetas 280.000/mm³ (VR 150.000–450.000), TP alargado (INR 3,8), TTPa alargado, fibrinogênio 280 mg/dL (VR 200–400). Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

A profilaxia não é assunto deste capítulo. Quem dá a vitamina K, quando, em que dose, por que via, e o que fazer quando os pais recusam a injeção — tudo isso é do capítulo de assistência ao parto normal, na apostila de Ginecologia e Obstetrícia, que ensina a régua da diretriz nacional e a divergência com o documento internacional sobre o momento da aplicação. O aluno que quer decorar o esquema profilático deve ir para lá.

Aqui começa exatamente onde aquele capítulo termina: no recém-nascido em que a profilaxia não foi feita, foi feita e não pegou, ou foi feita e não bastou. A doença tem nome próprio, três formas com janelas distintas, um coagulograma que a fecha em quatro linhas e um tratamento em que a vitamina não é o hemostático. É esse conjunto que a prova cobra, e é esse conjunto que não estava escrito em lugar nenhum.

Duas coisas migram para cá porque o capítulo de parto não as carrega. A primeira é a dose do prematuro: a sala de parto ensina 1 mg para o recém-nascido saudável e para no ponto em que o bebê pesa menos, e é justamente aí que quatro documentos brasileiros e norte-americanos discordam entre si. A segunda é a aritmética do esquema oral — não o esquema em si, que é da profilaxia, mas o motivo pelo qual ele falha mais, que só aparece quando se converte a vigilância de seis países para uma janela comum.

Uma nota de vocabulário, porque a prova usa as duas. Doença hemorrágica do recém-nascido é o nome clássico e é o que aparece na diretriz nacional e nos enunciados brasileiros. Sangramento por deficiência de vitamina K é o nome moderno, que a literatura em inglês prefere por ser mais preciso: nem todo sangramento do recém-nascido é por vitamina K, e a deficiência pode sangrar bem depois do período neonatal. São a mesma entidade.

03

O que muda decisão

Por que o recém-nascido tem pouca reserva de vitamina K

Como usar este capítulo: identifique o momento de início e os fatores de risco, confirme o padrão de coagulopatia e trate primeiro a hemorragia. Só depois compare esquemas profiláticos, doses por peso e divergências entre recomendações.

O recém-nascido chega ao mundo com pouca vitamina K por três motivos que se acumulam, e o enunciado costuma entregar os três de uma vez sem nomear nenhum. A passagem placentária da vitamina é pequena, de modo que a reserva hepática ao nascer é mínima. O leite humano tem concentração baixa da vitamina, sobretudo quando comparado ao leite de vaca e às fórmulas — que são suplementadas. E o intestino ainda não está colonizado pela flora que produz a forma bacteriana da vitamina.

O terceiro item é mais fino do que parece e explica por que o bebê amamentado está em pior situação. A capacidade de sintetizar a vitamina depende de quais bactérias colonizam o cólon: cepas de Bacteroides fragilis, Escherichia coli e Streptococcus faecalis produzem vitamina K adequadamente, enquanto lactobacilos e pseudômonas são incapazes de sintetizá-la. O intestino do lactente em aleitamento materno exclusivo é dominado justamente pelo grupo que não produz. Amamentar não é fator de risco por acaso nem por descuido: é fator de risco por microbiota.

O mecanismo bioquímico fecha o raciocínio e resolve uma alternativa clássica. A vitamina K é cofator da carboxilase que converte resíduos de ácido glutâmico em ácido carboxiglutâmico nos fatores II, VII, IX e X e nas proteínas C e S. Essa carboxilação cria os sítios de ligação do cálcio, sem os quais a proteína não se ancora na superfície fosfolipídica e não funciona. Sem a vitamina, o fígado continua produzindo as proteínas — elas apenas saem inertes. São as chamadas proteínas induzidas pela ausência de vitamina K, cuja dosagem é um marcador sensível e precoce da carência.

A consequência prática é a que a prova gosta: não há hepatopatia. O fígado está sintetizando normalmente, as transaminases estão normais, a albumina está normal, e ainda assim os tempos de coagulação alargam. O defeito é de ativação pós-tradução, não de síntese. Quem confunde os dois marca insuficiência hepática diante de um bebê corado e ativo. A necessidade diária estimada da vitamina é de 0,5 a 1,0 micrograma por quilo por dia — uma quantidade minúscula, que o organismo simplesmente não tem de onde tirar nas primeiras semanas.

Forma precoce, clássica e tardia: tempo e apresentação

A forma precoce ocorre nas primeiras 24 horas de vida. O fator de risco não é o bebê: é a mãe. Medicamentos maternos que induzem enzimas hepáticas no feto e aceleram a degradação da vitamina — anticonvulsivantes como fenobarbital, fenitoína e carbamazepina, varfarina, rifampicina e outros tuberculostáticos, e antibióticos de uso prolongado. O sangramento tende a ser grave, com hemorragias internas. Quando a vinheta abre com epilepsia materna tratada durante toda a gestação e sangramento em locais de punção antes do primeiro dia completo, o mecanismo já está entregue.

A forma clássica é a do bebê sem profilaxia, em aleitamento materno exclusivo, que sangra pelo coto umbilical, pelo trato digestivo, pela pele nos pontos de manuseio, pela boca ou pelo local da circuncisão. É a forma mais conhecida e a de melhor prognóstico, porque a hemorragia intracraniana é incomum nela.

A forma tardia é a temida. Ocorre quase exclusivamente em crianças amamentadas e sem profilaxia adequada, e a manifestação característica é a hemorragia intracraniana — que responde pela mortalidade alta e pelas sequelas neurológicas. Segundo a referência norte-americana, a hemorragia intracraniana ocorre em 30% a 60% dos casos da forma tardia, e mais da metade dos lactentes acometidos abre o quadro com ela. Irritabilidade, recusa alimentar, vômitos, fontanela abaulada e crise convulsiva num lactente de poucas semanas, em aleitamento exclusivo, sem registro de profilaxia, é a vinheta inteira.

As janelas, porém, não são as mesmas em todos os documentos, e vale conhecê-las antes de errar por precisão. A diretriz nacional define a forma clássica como a que ocorre dentro da primeira semana e a tardia como a que ocorre após a primeira semana, sem teto declarado. A referência norte-americana coloca a clássica de 2 dias a 1 semana e a tardia de 1 semana a 6 meses, com pico entre 2 e 8 semanas. A literatura nacional consagrou a forma tardia entre a 2ª e a 12ª semana, e a série brasileira de referência descreve a clássica entre o segundo e o quinto dia. A própria vigilância citada pela diretriz nacional, por sua vez, contabilizou a forma tardia como a ocorrida entre os dias 8 e 84 de vida.

O efeito prático é limitado. Um lactente de 5 ou 6 semanas é forma tardia em qualquer das quatro réguas, e é esse o recorte que os enunciados escolhem. A ambiguidade mora em dois pontos estreitos: entre o oitavo e o décimo quarto dia, onde a régua nacional já diz tardia e a régua das doze semanas ainda dá margem; e depois da décima segunda semana, onde só a régua norte-americana continua chamando de tardia. Enunciado com criança de 4 meses está escrito sobre a fonte de língua inglesa.

Coagulograma: por que o tempo de protrombina se altera primeiro

Quatro linhas do coagulograma bastam, e a ordem em que elas se alteram tem explicação. O tempo de protrombina alarga primeiro porque o fator VII, que ele mede, tem a meia-vida mais curta de todos os fatores dependentes de vitamina K: cai antes dos demais e derruba a via extrínseca antes que a intrínseca perceba. Depois vêm os fatores II, IX e X, e o tempo de tromboplastina parcial ativada acompanha. Por isso a vinheta pode entregar tempo de protrombina muito alargado com tempo de tromboplastina parcial apenas alargado, e essa assimetria não é erro de redação.

As outras três linhas são as que fecham o diagnóstico, e todas por normalidade: plaquetas normais, fibrinogênio normal, tempo de trombina normal. O corolário é a regra mais rentável do tema — em deficiência de vitamina K, o que sangra são os fatores; o número de plaquetas e a massa de fibrinogênio estão intactos. Quando a vinheta acrescenta dímero-D normal, está fechando a porta da coagulação intravascular disseminada por antecipação.

Contra o que se compara. Na coagulação intravascular disseminada haveria plaquetopenia, consumo de fibrinogênio e dímero-D elevado, num recém-nascido gravemente enfermo — e não no bebê corado, ativo, afebril e mamando bem que a vinheta descreve. A hemofilia A e a hemofilia B alargam isoladamente o tempo de tromboplastina parcial, com tempo de protrombina normal, e raramente sangram tão cedo. A trombocitopenia neonatal aloimune cursa com plaquetas baixas e coagulograma normal — o inverso exato. A deficiência congênita de fator XIII é a mais traiçoeira: sangra classicamente pelo coto umbilical, o que a coloca no mesmo cenário clínico, mas cursa com tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial normais, porque o fator XIII age depois do ponto que esses testes medem.

Uma precaução de leitura que a prova quase nunca explicita: o recém-nascido a termo tem, fisiologicamente, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial mais longos que o adulto, e o prematuro mais ainda. Chamar de alargado exige comparar com o valor de referência da idade, não com o do laboratório de adultos. Nas vinhetas isso se resolve com um índice normalizado francamente alto.

Há, por fim, um teste terapêutico que também é diagnóstico. A resposta à vitamina K é rápida: a queda do tempo de protrombina começa a aparecer em 2 a 4 horas. A série brasileira de casos tardios registrou atividade de protrombina entre 10% e 30% na admissão, com plaquetas normais em todos os quatro lactentes, e normalização clínica e laboratorial após a reposição em três deles — foi essa resposta que confirmou o diagnóstico.

Sangue materno deglutido: o diagnóstico diferencial neonatal

Existe um cenário em que o recém-nascido cospe ou evacua sangue, está perfeitamente bem, recebeu a profilaxia ao nascer e tem coagulograma normal. Nesse caso o sangue costuma não ser dele. A mãe com fissura mamilar sangrante, ou a deglutição de sangue materno durante o parto, produzem hematêmese e melena num bebê hemodinamicamente estável, corado, com abdome normal e sem outros focos.

O exame que resolve é o teste de Apt-Downey, baseado na resistência da hemoglobina fetal à desnaturação alcalina: a hemoglobina do recém-nascido resiste ao álcali e a hemoglobina materna adulta não, o que separa as duas origens à beira do leito. É passo inicial, barato e definitivo para essa dúvida, e é a resposta correta em enunciados que descrevem justamente esse conjunto.

O erro que a alternativa oferece é tratar. Aplicar nova dose de vitamina K e transfundir plasma fresco congelado num lactente com coagulação normal não corrige nada — trata a fissura da mãe pelo bebê. Indicar endoscopia digestiva alta de urgência é desproporcional a um sangramento mínimo em criança estável. Dosar fatores VIII e IX é desnecessário diante de coagulograma normal. E iniciar antibiótico por suspeita de enterocolite necrosante não cabe sem distensão, resíduo gástrico, instabilidade ou achado radiológico.

O diferencial completo do sangue nas fezes nessa faixa etária está escrito no guia nacional do recém-nascido, e vale memorizar a lista porque ela é a espinha de vários enunciados: a diarreia com sangue no menor de 2 meses pode ser consequência de doença hemorrágica secundária à deficiência de vitamina K, de outros problemas de coagulação como a coagulação intravascular disseminada, ou de enterocolite necrosante; e o sangue nas fezes pode ainda ser secundário a fissuras anais ou à alergia ao leite de vaca. Cinco causas, e o coagulograma separa duas das cinco em um exame.

Forma tardia: pensar em falha de profilaxia ou colestase

Quando o sangramento por deficiência de vitamina K aparece depois da primeira semana, a pergunta seguinte não é apenas se o bebê recebeu a injeção. É por que a vitamina não está sendo absorvida. A forma tardia associa-se com frequência a condições que impedem a absorção ou o metabolismo da vitamina: doenças hepatobiliares como a atresia de vias biliares e a hepatite neonatal, má absorção intestinal, diarreia crônica e antibioticoterapia prolongada. A vitamina K é lipossolúvel e depende de bile no intestino para ser absorvida — na colestase, a bile não chega, e a reposição oral não repõe.

A bula do produto de micelas mistas diz isso com todas as letras e transforma a observação em contraindicação de via: há evidências de que a profilaxia oral é insuficiente em pacientes com doença hepática colestática subjacente e má absorção, e por isso a administração oral de vitamina K não é recomendada para esses pacientes. Ou seja, o lactente com icterícia prolongada e fezes claras é exatamente aquele em que o esquema oral não serve — e é também aquele em que a apresentação da doença hemorrágica é a mais grave.

A série britânica citada pela diretriz nacional ilustra o ponto com números. Entre 182.000 crianças que receberam preparação oral ao nascimento, ocorreram quatro casos documentados de doença hemorrágica tardia; duas dessas crianças tinham deficiência de alfa-1-antitripsina subjacente e as mães das duas outras não receberam as instruções nem as cápsulas da profilaxia. Metade dos casos, portanto, não foi falha de adesão: foi doença de base que a profilaxia oral não alcançava.

Isso muda o que se pede diante do lactente de 5 ou 6 semanas que sangra. Além de corrigir a coagulopatia, é preciso procurar a hepatopatia colestática: colher bilirrubinas com fração direta, perguntar pela cor das fezes e da urina, examinar o fígado. A criança que abre um sangramento por deficiência de vitamina K na sexta semana e tem colúria e acolia não é um caso de profilaxia esquecida — é uma atresia de vias biliares que se apresentou pelo sangramento, e o relógio da portoenterostomia já está correndo.

A série brasileira de quatro casos, entre 12 e 21 dias de vida, mostra a variedade dos sítios: hemorragia digestiva em três, do trato urinário em um, do coto umbilical em um, do trato respiratório em um, e hemorragia intracraniana confirmada em um — a criança que morreu. Todas nasceram em parto hospitalar, a termo, com peso adequado, em aleitamento materno exclusivo. Numa delas não havia registro da profilaxia; nas outras, embora houvesse relato de administração, ficaram dúvidas quanto à veracidade das informações. Parto hospitalar não é sinônimo de profilaxia recebida, e o relato da mãe não é registro.

Hemorragia ativa: vitamina K e suporte hemostático

Diante de sangramento estabelecido, a vitamina K é obrigatória e insuficiente ao mesmo tempo, e entender por quê resolve toda a família de questões de conduta. A vitamina não faz hemostasia: ela devolve ao fígado a capacidade de carboxilar os fatores. Isso leva horas — a queda do tempo de protrombina começa em 2 a 4 horas. Num lactente com hemorragia intracraniana e desvio de linha média, 2 a 4 horas é tempo demais.

Por isso, no sangramento grave, a conduta é dupla e simultânea: vitamina K por via endovenosa mais reposição imediata dos fatores dependentes de vitamina K, com plasma fresco congelado na dose de 10 a 15 mL/kg ou, quando disponível, concentrado de complexo protrombínico. Escolher a vitamina isolada e aguardar a normalização do coagulograma é a alternativa errada mais frequente do tema, e é errada por farmacocinética, não por dose.

As outras alternativas erram por alvo. Concentrado de plaquetas não corrige nada quando as plaquetas já estão normais, e nesta doença elas estão. Crioprecipitado repõe basicamente fibrinogênio e fator VIII, que também estão normais. Antifibrinolítico isolado não repõe fator nenhum. E a via intramuscular, que é a via da profilaxia, deixa de ser adequada na vigência da coagulopatia: injetar no músculo quem não coagula produz hematoma, e a absorção é lenta demais para uma emergência.

A dose de tratamento é ponto de divergência entre fontes, e convém saber as duas. A bula da apresentação pediátrica manda, em crianças com menos de um ano, 1 mg por via intravenosa inicialmente, com continuação dependente do quadro clínico e do estado de coagulação, e observa que a terapia pode precisar ser acompanhada de medidas mais rápidas, como transfusão de sangue total ou de fatores, para compensar a perda sanguínea grave e a resposta retardada da vitamina. A literatura pediátrica nacional consagrou dose maior: vitamina K1 5 mg por via intramuscular ou, nos casos mais graves, intravenosa, pelo risco de hematoma no local da injeção muscular.

Duas advertências fecham o tema e mudam a leitura das alternativas. A primeira é que a via intravenosa carrega risco próprio: reações graves, incluindo mortes, foram descritas durante ou imediatamente após a administração parenteral, tipicamente por hipersensibilidade ou anafilaxia, e a maioria desses eventos foi relatada após administração endovenosa mesmo com diluição e infusão lenta — daí o teto de 1 mg por minuto. A segunda é que não há síndrome clínica conhecida atribuída à hipervitaminose de vitamina K1. O que se teme na via parenteral, portanto, não é o excesso da vitamina: é a reação ao veículo.

Profilaxia oral: esquemas e risco de falha

A diretriz nacional reproduz a vigilância da forma tardia em seis populações que adotaram esquemas orais, mais uma que manteve a via intramuscular. Lidos como estão, os números parecem desordenados. Convertidos para uma janela comum — o total de miligramas oferecido nas primeiras 12 semanas e quantas doses caem dentro do intervalo de risco, que a própria vigilância definiu como os dias 8 a 84 de vida —, eles se organizam de uma vez.

O esquema suíço entregou 2 mg de preparação micelar nos dias 1 e 4, ou seja, 4 mg no total, e teve 4,8 casos por 100.000 — a pior taxa da lista. O esquema alemão de 1 mg entregou 3 mg em três doses, a última entre os dias 28 e 42, e teve 2,7 por 100.000. O australiano entregou os mesmos 3 mg, com a última dose entre os dias 21 e 28, e teve 2,5 por 100.000. A Suíça, portanto, ofereceu um terço a mais de miligramas que os dois e falhou quase o dobro. O total de vitamina não explica nada; o que separa os três é que o esquema suíço terminou no quarto dia, e a janela que ele precisava cobrir só começa no oitavo.

A ponta oposta da lista confirma a leitura. A Holanda deu 1 mg ao nascimento e 25 microgramas por dia durante 13 semanas: 1 mg mais 2,275 mg diluídos ao longo de 91 dias, isto é, 3,275 mg no total, praticamente o mesmo que a Alemanha e a Austrália — mas com cerca de 77 doses dentro da janela de risco. Resultado: 1 caso por 100.000. A Dinamarca deu 1 mg ao nascimento e 1 mg por semana, algo em torno de 13 mg no total e cerca de 11 doses dentro da janela, e não teve nenhum caso. Convertidas à mesma unidade, a dose semanal holandesa é de 0,175 mg contra 1 mg da dinamarquesa — cerca de 5,7 vezes menos, e é a única diferença estrutural entre dois esquemas que cobrem o mesmo intervalo.

Entre os esquemas de três doses, o melhor foi o alemão de 2 mg: 6 mg no total, com 0,9 caso por 100.000. É exatamente o esquema oral que a diretriz brasileira adota — 2 mg ao nascimento, 2 mg entre o quarto e o sétimo dia e, no lactente em aleitamento materno exclusivo, 2 mg adicionais após 4 a 7 semanas. Vale reter o contraste: são 6 mg, seis vezes o miligrama único da via intramuscular, que teve zero caso em 325.000 recém-nascidos.

Falta o fator humano, e ele é o mais decisivo. Um hospital londrino acompanhou 207 mães sob política de três doses orais de 0,5 mg para crianças amamentadas: a adesão foi de 99% para a primeira dose, 88% para a segunda, dada na primeira semana de vida, e de 39% para as doses entre a terceira e a sexta semana. A dose que cai fora é justamente a que cobre a janela da forma tardia. Foi por isso que a Austrália, que em dezembro de 1992 substituiu a dose intramuscular por três doses orais de 1 mg, revogou a decisão em 1994 diante do aumento da incidência da doença. E foi por isso que o grupo elaborador brasileiro concluiu que, no país, a aderência ao tratamento oral seria mais prejudicada do que no Reino Unido, principalmente em relação às doses subsequentes.

Linha do tempo em dias de vida, de 0 a 91, com faixa marcando a janela de risco entre os dias 8 e 84. Cinco esquemas orais em trilhas, com as doses marcadas e, à direita, o total em miligramas e os casos por 100.000: Suíça, doses nos dias 1 e 4, 4 mg, 4,8 casos; Austrália, três doses, a última entre os dias 21 e 28, 3 mg, 2,5; Holanda, dose ao nascimento mais 25 microgramas diários por 13 semanas, 3,275 mg, 1 caso; Alemanha, 2 mg em três doses, 6 mg, 0,9; Dinamarca, 1 mg ao nascimento e 1 mg por semana, cerca de 13 mg, nenhum caso.
O total de miligramas não ordena as falhas: o esquema suíço ofereceu mais vitamina que o australiano e falhou quase o dobro, porque suas duas doses acabam no quarto dia e a janela de risco só abre no oitavo.

Prematuro: como interpretar as diferentes doses

Aqui o capítulo entrega o que a sala de parto não carrega. Para o recém-nascido saudável a termo o número é consensual — 1 mg. Abaixo disso, quatro documentos disponíveis no Brasil discordam sobre onde cortar e sobre o que dar, e a discordância não é acadêmica: muda o miligrama que entra no músculo.

A bula do produto de micelas mistas usa dois critérios combinados. Prematuro com menos de 36 semanas de gestação pesando 2,5 kg ou mais recebe 1 mg, assim como o recém-nascido pós-termo com fatores de risco especiais. Prematuro com menos de 36 semanas pesando menos de 2,5 kg recebe 0,4 mg/kg, equivalente a 0,04 mL/kg — e a bula acrescenta que essa dose parenteral não deve ser excedida. A tabela da própria bula traduz: 1 kg recebe 0,4 mg em 0,04 mL; 1,5 kg recebe 0,6 mg em 0,06 mL; 2 kg recebe 0,8 mg em 0,08 mL; 2,5 kg e acima recebem 1 mg em 0,1 mL.

A régua norte-americana usa só o peso, e outro peso: recém-nascido acima de 1.500 g recebe 1 mg por via intramuscular em até 6 horas de vida; prematuro com 1.500 g ou menos recebe 0,3 a 0,5 mg/kg. Dois protocolos de hospitais universitários brasileiros usam peso e dose fixa, e não concordam entre si: um manda 0,5 mg para peso igual ou inferior a 1.500 g e 1 mg acima disso, nas primeiras 6 horas; o outro manda 1 mg, ou 0,1 mL, acima de 1.000 g e 0,5 mg, ou 0,05 mL, abaixo de 1.000 g. O guia nacional do recém-nascido, por sua vez, não abre exceção: 1 mg para todos.

Faça a conta com um bebê concreto. Prematuro de 34 semanas e 2,0 kg: pela bula recebe 0,8 mg, e a bula diz que essa dose não deve ser excedida; pelas outras quatro réguas recebe 1 mg — 25% acima do teto do fabricante. Agora um de 1,2 kg: recebe 1 mg num dos hospitais e 0,5 mg no outro, o dobro conforme o serviço; a bula daria 0,48 mg e a régua norte-americana, de 0,36 a 0,60 mg. E note o vão de redação: o protocolo que corta em 1.000 g escreve as faixas como acima de 1.000 g e abaixo de 1.000 g, de modo que o recém-nascido de exatamente 1.000 g não está em nenhuma das duas.

O último passo é o volume, e é onde a régua encosta na seringa. A ampola é de 10 mg/mL e o material previsto é seringa de 1 mL, cujo menor traço é de 0,01 mL. Num prematuro de 800 g, 0,4 mg/kg dá 0,32 mg, isto é, 0,032 mL: arredondando para baixo entrega-se 0,03 mL, ou 0,3 mg — 6% a menos; arredondando para cima entrega-se 0,04 mL, ou 0,4 mg, que são 25% a mais e ultrapassam o teto que a bula manda não exceder. A própria bula antecede a tabela com o aviso de que é importante checar o cálculo e a medida da dose em relação ao peso do bebê, porque erros de dose de 10 vezes são frequentes. E trocar de ampola não resolve: a apresentação pediátrica de 2 mg em 0,2 mL tem a mesma concentração de 10 mg/mL, de modo que o volume a aspirar é idêntico — o que muda é o desperdício, não a aritmética.

Vitamina K e câncer: o que a evidência mostrou

A via intramuscular foi a via padrão até 1992, quando um estudo caso-controle britânico descreveu associação entre vitamina K intramuscular e câncer infantil, com razão de chances de 1,97 e intervalo de confiança de 1,3 a 3,0, significativa a p igual a 0,002, na comparação com administração oral ou nenhuma profilaxia. O efeito foi imediato: vários países europeus migraram para esquemas orais por causa desse único estudo, e a sociedade britânica de pediatria passou a recomendar suplementação oral em várias doses para crianças amamentadas.

Os números que vieram depois desfizeram o achado. Um relatório de 2002 fez análise combinada de 2.431 crianças com câncer infantil contra 6.338 controles e concluiu que tumores sólidos não eram mais comuns em quem recebeu vitamina K intramuscular ao nascimento; para leucemia, detectou um pequeno aumento de risco, com razão de chances de 1,25 e intervalo de 1,06 a 1,46, atribuído a possível problema de seleção da amostra. O estudo britânico de coorte de câncer infantil, com 7.017 crianças, das quais 1.174 com leucemia, não encontrou associação com nenhum tipo de câncer, com razão de chances de 0,98 e intervalo de 0,79 a 1,22 para leucemia diagnosticada entre 12 e 71 meses de idade. Os autores concluíram que apenas o acaso explicava os achados iniciais, e a diretriz nacional registra que, exceto pelo estudo original, há amplo consenso de que nenhuma ligação sólida tenha sido estabelecida.

O tema não é histórico. A referência norte-americana registra que a incidência do sangramento por deficiência de vitamina K vem aumentando nos Estados Unidos, em grande parte por causa da recusa parental crescente à profilaxia intramuscular. É por isso que a vinheta de prova moderna não descreve mais apenas o parto domiciliar sem assistência: descreve pais informados que recusaram a injeção.

E aqui a régua brasileira é explícita sobre a conduta. Se os pais recusarem a administração intramuscular, deve ser oferecida a administração oral da vitamina K, e eles devem ser advertidos de que esse método segue as recomendações do fabricante e exige múltiplas doses. A conduta correta diante da recusa não é insistir nem dispensar a profilaxia: é oferecer a via alternativa com a advertência, e garantir o seguimento das doses subsequentes — que, como a aritmética da seção anterior mostrou, são as que costumam faltar.

04

As formas, o coagulograma e as doses

Três decisões cobrem quase todos os enunciados do tema: em que forma o bebê está, se o padrão laboratorial é mesmo de deficiência de vitamina K, e o que se repõe primeiro. As tabelas abaixo servem para conferência; o fluxo é a ordem em que a vinheta deve ser lida.

  1. 11. Qual é a idade? Menos de 24 horas leva a procurar anticonvulsivante, varfarina, rifampicina ou antibiótico na história materna. Segundo ao sétimo dia é a forma clássica. Depois da primeira semana é a forma tardia.
  2. 22. O bebê está bem ou está grave? Bem, corado, afebril e mamando aponta para deficiência de vitamina K ou para sangue materno deglutido. Grave, séptico, com plaquetopenia, aponta para coagulação intravascular disseminada.
  3. 33. Como está o coagulograma? Tempos alargados com plaquetas, fibrinogênio e tempo de trombina normais fecha deficiência de vitamina K. Só o tempo de tromboplastina parcial alargado sugere hemofilia. Tudo normal com sangramento sugere fator XIII ou sangue materno deglutido.
  4. 44. Se é forma tardia, onde está a doença de base? Bilirrubina direta, cor das fezes e da urina, exame do fígado. Colestase muda a via da reposição e abre outro diagnóstico.
  5. 55. O sangramento ameaça a vida? Se sim, vitamina K por via endovenosa mais plasma fresco congelado ou complexo protrombínico, simultaneamente. Se não, vitamina K e reavaliação do coagulograma em 2 a 4 horas.
  6. 66. Antes de encerrar: a profilaxia foi registrada ou apenas relatada? Parto hospitalar não garante que tenha sido feita, e relato materno não é registro.

Comece pela idade, não pelo sangramento

A idade de apresentação escolhe a forma, e a forma escolhe o fator de risco que a vinheta escondeu. Antes de 24 horas, procure o medicamento materno. Entre o segundo e o sétimo dia, procure a ausência de profilaxia e o aleitamento exclusivo. Depois da primeira semana, procure também a doença de base que impede a absorção.

Plaquetas e fibrinogênio normais é o achado, não a ausência de achado

Os dois tempos alargados sozinhos não separam nada. O que fecha o diagnóstico é a combinação de tempos alargados com plaquetas, fibrinogênio e tempo de trombina normais. Se a vinheta entregou plaquetopenia ou fibrinogênio baixo, o caminho é coagulação intravascular disseminada, e o cenário clínico será de criança grave.

Coagulograma normal muda de capítulo

Bebê bem, com profilaxia feita e coagulograma normal, que vomita ou evacua sangue, com mãe de fissura mamilar: o exame é o teste de Apt-Downey, e a conduta não é repor vitamina K nem plasma.

No sangramento grave, dois agentes ao mesmo tempo

Vitamina K por via endovenosa mais plasma fresco congelado de 10 a 15 mL/kg, ou concentrado de complexo protrombínico. A vitamina restaura a síntese em 2 a 4 horas; o fator reposto age agora. Vitamina isolada com observação é a armadilha padrão.

As três formas e as quatro janelas publicadas

FormaJanela (diretriz nacional)Janela (referência norte-americana)Janela (literatura nacional)Fator de risco e sítio característico
PrecocePrimeiras 24 horasPrimeiras 24 horasEm geral no primeiro diaMedicamento materno: anticonvulsivante, varfarina, rifampicina, antibiótico. Sangramento grave, inclusive interno
ClássicaDentro da primeira semanaDe 2 dias a 1 semanaEntre o segundo e o quinto diaAusência de profilaxia e aleitamento exclusivo. Coto umbilical, trato digestivo, pele, boca, circuncisão
TardiaApós a primeira semana, sem teto declaradoDe 1 semana a 6 meses, pico de 2 a 8 semanasDa 2ª à 12ª semanaAleitamento exclusivo sem profilaxia e doença de base que impede a absorção. Hemorragia intracraniana em 30% a 60%

O coagulograma que separa as seis hipóteses

HipóteseTempo de protrombinaTempo de tromboplastina parcialPlaquetasFibrinogênio e dímero-DPista clínica
Deficiência de vitamina KAlargado, primeiro e maisAlargadoNormaisNormaisBebê bem, sem profilaxia, aleitamento exclusivo
Coagulação intravascular disseminadaAlargadoAlargadoBaixasFibrinogênio baixo e dímero-D altoCriança grave, séptica
Hemofilia A ou BNormalAlargado isoladamenteNormaisNormaisHerança ligada ao X; sangramento raramente tão precoce
Deficiência de fator XIIINormalNormalNormaisNormaisSangramento tardio de coto umbilical
Trombocitopenia neonatal aloimuneNormalNormalBaixasNormaisPetéquias e púrpura com coagulograma normal
Sangue materno deglutidoNormalNormalNormaisNormaisFissura mamilar materna; teste de Apt-Downey resolve

A dose da profilaxia abaixo do recém-nascido a termo saudável

DocumentoOnde cortaDose abaixo do corteDose acima do corteJanela declarada
Bula da apresentação de micelas mistasMenos de 36 semanas e menos de 2,5 kg0,4 mg/kg (0,04 mL/kg), que não deve ser excedida1 mgAo nascer ou pouco depois
Referência norte-americana1.500 g0,3 a 0,5 mg/kg1 mgAté 6 horas de vida
Protocolo do hospital universitário de Dourados1.500 g (igual ou menor entra na dose reduzida)0,5 mg1 mgPrimeiras 6 horas após o nascimento
Protocolo do hospital universitário de Santa Cruz, no Rio Grande do Norte1.000 g (o peso exato de 1.000 g não é contemplado)0,5 mg (0,05 mL)1 mg (0,1 mL)Na recepção do recém-nascido
Guia nacional do recém-nascidoNão corta1 mg para todos, por via intramuscular ou subcutâneaAo nascimento

Vigilância da forma tardia convertida para a janela de risco (dias 8 a 84)

EsquemaTotal em 12 semanasDoses dentro da janelaCasos por 100.000Denominador
1 mg por via intramuscular ao nascer1 mgNenhuma (depósito muscular)0325.000
Suíça: 2 mg por via oral nos dias 1 e 44 mgNenhuma4,883.000
Alemanha: 1 mg oral ao nascer e nos dias 4 a 10 e 28 a 423 mgUma2,71.200.000
Austrália: 1 mg oral ao nascer e nos dias 3 a 5 e 21 a 283 mgUma2,5325.000
Holanda: 1 mg oral ao nascer e 25 microgramas por dia por 13 semanas3,275 mgCerca de 771439.000
Alemanha: 2 mg oral ao nascer e nos dias 4 a 10 e 28 a 426 mgUma0,9800.000
Dinamarca: 1 mg oral ao nascer e 1 mg por semanaCerca de 13 mgCerca de 110396.000

O tempo de protrombina alarga antes do tempo de tromboplastina parcial porque o fator VII tem a meia-vida mais curta. Vinheta com índice normalizado muito alto e tempo de tromboplastina parcial apenas alargado é coerente, não contraditória.

A deficiência de fator XIII compartilha o sangramento umbilical com a doença hemorrágica, mas cursa com os dois tempos normais — o fator XIII age depois do ponto que esses testes medem.

O guia nacional do recém-nascido admite a via subcutânea para a profilaxia; a diretriz nacional de assistência ao parto normal recomenda a via intramuscular. Enunciado que pergunte a via segundo a diretriz de 2017 tem uma resposta só.

As duas apresentações comerciais têm a mesma concentração de 10 mg/mL: 2 mg em 0,2 mL e 10 mg em 1 mL. Trocar de ampola não altera o volume a aspirar para a mesma dose.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A via da profilaxia: intramuscular apenas, ou intramuscular ou subcutânea

Intramuscular ou subcutânea, e depois da antropometria

Prevenção do sangramento por deficiência de vitamina K: administrar 1 mg de vitamina K1 por via intramuscular ou subcutânea ao nascimento. A sequência descrita coloca a vitamina K depois da laqueadura do cordão, da prevenção da oftalmia gonocócica e da antropometria.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde, volume I, 2. ed. atual., 2014, item 2.8 (cuidados de rotina após a estabilização clínica na sala de parto)

Intramuscular, dose única, e a antropometria depois da primeira hora

Todos os recém-nascidos devem receber vitamina K para a profilaxia da doença hemorrágica, e a vitamina K deve ser administrada por via intramuscular, na dose única de 1 mg, pois este método apresenta a melhor relação de custo-efetividade. O mesmo documento manda evitar a separação de mãe e filho na primeira hora para procedimentos de rotina como pesar, medir e dar banho.

Brasil. Ministério da Saúde / CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017, recomendações da profilaxia da doença hemorrágica do recém-nascido

Na prova

Os dois documentos são do mesmo ministério e nenhum revogou o outro. O enunciado que nomeia a diretriz de assistência ao parto normal quer via intramuscular e dose única de 1 mg, com o argumento de custo-efetividade. O enunciado que nomeia o guia do recém-nascido, ou que não nomeia documento nenhum e apenas descreve a rotina de sala de parto, admite a via subcutânea como alternativa correta. Reconhecer qual documento o enunciado citou vale mais do que ter uma opinião sobre a via.

O peso que corta a dose do prematuro

Idade gestacional e peso combinados, com teto por quilo

Recém-nascidos prematuros com menos de 36 semanas de gestação, pesando menos que 2,5 kg, recebem 0,4 mg/kg, equivalente a 0,04 mL/kg, por via intramuscular ou intravenosa ao nascer ou logo após; essa dose parenteral não deve ser excedida. Prematuros com menos de 36 semanas pesando 2,5 kg ou mais recebem 1 mg.

Bula do profissional de Kanakion MM pediátrico (fitomenadiona), Produtos Roche, texto aprovado pela Anvisa, item de posologia e tabela de cálculo por peso

Corte de 1.500 g com dose por quilo

Recém-nascidos acima de 1.500 g recebem 1 mg de vitamina K1 por via intramuscular em até 6 horas de vida; prematuros com 1.500 g ou menos recebem 0,3 a 0,5 mg/kg por via intramuscular em dose única.

Eldin H, Sarma A. Vitamin K Deficiency in Neonates and Adults. StatPearls / NCBI Bookshelf, seção de profilaxia neonatal

Dose fixa, e dois cortes diferentes na mesma rede de hospitais

O protocolo potiguar prescreve 1 mg, equivalente a 0,1 mL, para recém-nascidos acima de 1.000 g e 0,5 mg, equivalente a 0,05 mL, para recém-nascidos abaixo de 1.000 g. O protocolo sul-mato-grossense recomenda 0,5 mg para peso igual ou inferior a 1.500 g e 1 mg acima de 1.500 g, nas primeiras 6 horas após o nascimento.

Hospital Universitário Ana Bezerra, UFRN / Ebserh, POP.UBCME.042, versão 03, 2024, e Hospital Universitário da UFGD / Ebserh, POP.UMUL.019, versão 1, 2022

Na prova

Não existe régua única, e o enunciado quase sempre entrega qual delas está usando. Se citar o fabricante ou der peso e idade gestacional juntos, o caminho é 0,4 mg/kg abaixo de 2,5 kg. Se citar academia norte-americana ou der só o peso com corte em 1.500 g, o caminho é a dose por quilo de 0,3 a 0,5 mg/kg. Se o enunciado não citar documento e o bebê for a termo e saudável, a resposta é 1 mg e a discussão não se abre.

A ampola de 10 mg por mililitro pode ir no músculo

A apresentação de uso adulto não vai no músculo

A apresentação é declarada como solução injetável de aplicação intravenosa, e o texto afirma que Kanakion MM de uso adulto e pediátrico não deve ser administrado por via intramuscular. Para profilaxia e tratamento de hemorragia em recém-nascidos, o documento manda utilizar a apresentação pediátrica de 2 mg em 0,2 mL.

Bula do profissional de Kanakion MM (fitomenadiona em micelas mistas, 10 mg/mL, uso adulto e pediátrico), Produtos Roche

A via muscular é a preferencial nesta formulação

O texto declara que o uso pode ser por via endovenosa, intramuscular e subcutânea e por via oral, e que preferencialmente a fitomenadiona deve ser aplicada por via subcutânea, intramuscular ou oral, restringindo a via intravenosa às situações em que nenhuma outra é praticável, com infusão que não exceda 1 mg por minuto.

Bula do profissional de fitomenadiona injetável 2 mg/0,2 mL e 10 mg/1 mL (solução aquosa coloidal), transcrita no guia farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês

O protocolo assistencial nomeia a concentração e injeta no músculo

O material previsto é ampola de vitamina K de 10 mg/mL, seringa de 1 mL e agulha 13 por 4,5, e o procedimento manda introduzir a agulha em ângulo reto no músculo vasto lateral da coxa esquerda, reservando a coxa direita para a vacina contra hepatite B.

Hospital Universitário Ana Bezerra, UFRN / Ebserh, POP.UBCME.042, versão 03, 2024, itens de material e de descrição do procedimento

Na prova

Este é o ponto em que a prova raramente entra e a enfermaria entra todo dia. Duas fitomenadionas comercializadas no país têm formulações diferentes e regras de via opostas para a apresentação de 10 mg em 1 mL. Enunciado que descreve a técnica de administração no vasto lateral está reproduzindo o protocolo institucional; enunciado que pergunta pela via autorizada de um produto nomeado está reproduzindo a bula dele.

Onde começa e onde termina a forma tardia

Tardia é tudo o que vem depois da primeira semana

A doença pode se apresentar de três maneiras: início precoce dentro das primeiras 24 horas após o nascimento; doença clássica, dentro da primeira semana após o nascimento, tipicamente manifestando-se por sangramento oral, umbilical, retal ou na circuncisão; e início tardio, após a primeira semana após o nascimento, quase que exclusivamente em crianças amamentadas. O próprio documento, ao reproduzir a vigilância europeia, contabiliza a forma tardia como a ocorrida entre os dias 8 e 84 de vida.

Brasil. Ministério da Saúde / CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017, item de introdução da profilaxia da doença hemorrágica

Tardia vai de 1 semana a 6 meses, com pico de 2 a 8 semanas

A forma clássica ocorre entre 2 dias e 1 semana de vida, e a forma tardia ocorre entre 1 semana e 6 meses de idade, com pico de incidência entre 2 e 8 semanas, associando-se com frequência a distúrbios hepatobiliares, má absorção intestinal, diarreia crônica e antibioticoterapia.

Eldin H, Sarma A. Vitamin K Deficiency in Neonates and Adults. StatPearls / NCBI Bookshelf

Tardia é da 2ª à 12ª semana, na literatura nacional

A forma clássica ocorre tipicamente entre o segundo e o quinto dia de vida, e a forma tardia ocorre entre a 2ª e a 12ª semana de vida, envolvendo crianças alimentadas exclusivamente ao seio e que não receberam vitamina K ao nascimento.

Figueiredo RCP, Norton RC, Lamounier JA, Leão E. Doença hemorrágica do recém-nascido na forma tardia. Jornal de Pediatria (Rio de Janeiro), v. 74, n. 1, 1998

Na prova

A divergência só decide questão nas bordas. Lactente de 5 ou 6 semanas é forma tardia em todas as réguas, e é o recorte que as bancas escolhem. Enunciado com criança entre o oitavo e o décimo quarto dia pode ser lido como clássica prolongada ou tardia inicial conforme a fonte, e enunciado com lactente de mais de 3 meses só é tardio pela régua de língua inglesa.

A dose de vitamina K no tratamento do sangramento estabelecido

1 mg por via intravenosa, e reavaliar

Inicialmente 1 mg por via intravenosa, com a continuação do tratamento dependendo do quadro clínico e do estado da coagulação. A terapia pode vir a ser acompanhada de outras medidas que atuem mais rapidamente, como a transfusão de sangue total ou de fatores de coagulação, a fim de compensar perda de sangue severa e a resposta retardada da vitamina K1.

Bula do profissional de Kanakion MM pediátrico (fitomenadiona), Produtos Roche, item de posologia, tratamento em crianças com menos de um ano

5 mg, com plasma fresco associado no caso grave

O tratamento da deficiência clínica, em qualquer das suas formas, é feito com vitamina K1 na dose de 5 mg por via intramuscular ou, nos casos mais graves, por via intravenosa, pelo risco de formação de hematomas no local da injeção intramuscular; nos casos graves recomenda-se o emprego concomitante de plasma fresco e vitamina K1.

Figueiredo RCP, Norton RC, Lamounier JA, Leão E. Doença hemorrágica do recém-nascido na forma tardia. Jornal de Pediatria (Rio de Janeiro), v. 74, n. 1, 1998, seção de discussão

Na prova

Nenhuma banca costuma cobrar o miligrama exato do tratamento — cobra a via e a associação. Quando o número aparece nas alternativas, a régua do fabricante é a mais defensável por ser texto vigente aprovado pela agência sanitária. O que não varia entre as fontes é o resto: no sangramento grave, a vitamina vai por via endovenosa e vem acompanhada de reposição de fatores.

Quando dar a terceira dose do esquema oral

Terceira dose após 4 a 7 semanas, condicionada ao aleitamento exclusivo

A dose oral é de 2 mg ao nascimento ou logo após, seguida por uma dose de 2 mg entre o quarto e o sétimo dia. Para recém-nascidos em aleitamento materno exclusivo, em adição às recomendações para todos os neonatos, uma dose de 2 mg por via oral deve ser administrada após 4 a 7 semanas, por causa dos níveis variáveis e baixos da vitamina K no leite materno e da inadequada produção endógena.

Brasil. Ministério da Saúde / CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017, recomendações do esquema oral

Terceira dose com 1 mês, e a omissão condicionada ao não aleitamento

2 mg por via oral ao nascimento ou logo após, seguidos de uma dose de 2 mg entre o quarto e o sétimo dia; uma dose oral adicional de 2 mg deve ser dada 1 mês após o nascimento, e em crianças alimentadas exclusivamente com suplementação oral a terceira dose pode ser omitida. Uma dose intramuscular única de 1 mg é recomendada quando não se assegure o recebimento das doses orais subsequentes.

Bula do profissional de Kanakion MM pediátrico (fitomenadiona), Produtos Roche, item de posologia, profilaxia

Na prova

As duas primeiras doses orais são idênticas nas duas fontes e é sobre elas que a maioria dos enunciados se apoia. A terceira dose diverge no momento e é descrita por condições invertidas, mas com o mesmo desfecho prático: o lactente em aleitamento materno exclusivo recebe a terceira dose. Enunciado que oferece uma alternativa com terceira dose no primeiro mês e outra com terceira dose entre a quarta e a sétima semana está cobrando qual documento o aluno leu.

06

Caso resolvido

Lactente do sexo masculino, 38 dias de vida, nascido a termo, com 3.200 g, de parto domiciliar assistido por parteira tradicional, sem registro de qualquer medicação após o nascimento. Está em aleitamento materno exclusivo. A mãe procura o pronto-socorro porque há dois dias a criança está irritada, mama pouco e vomitou três vezes; hoje pela manhã apresentou movimentos anormais dos membros, com desvio do olhar, durante cerca de dois minutos. Ao exame: hipoativo, hipocorado, fontanela anterior abaulada e tensa, frequência cardíaca 172 bpm, frequência respiratória 54 ipm, enchimento capilar 3 segundos, afebril, sem sinais de infecção. A mãe menciona, quando perguntada, que as fezes da criança estão claras há cerca de duas semanas e que a urina escureceu. Exames: hemoglobina 7,6 g/dL, plaquetas 310.000/mm³, tempo de protrombina muito alargado com índice normalizado acima de 6, tempo de tromboplastina parcial ativada alargado, fibrinogênio 290 mg/dL, tempo de trombina normal, dímero-D normal. Tomografia de crânio com hemorragia intraparenquimatosa e discreto efeito de massa.
passo 1
Situar a forma. Trinta e oito dias de vida, aleitamento materno exclusivo e ausência de registro de profilaxia colocam o caso na forma tardia em todas as quatro réguas publicadas — o intervalo de 5 a 6 semanas é o único ponto em que a diretriz nacional, a referência norte-americana e a literatura brasileira concordam sem ressalva. É a forma cuja manifestação temida é justamente a que está na tomografia.
passo 2
Ler o coagulograma pelas normalidades. Os dois tempos alargados só apontam para deficiência de vitamina K porque plaquetas, fibrinogênio, tempo de trombina e dímero-D estão normais. Esse conjunto afasta coagulação intravascular disseminada, que exigiria plaquetopenia e consumo de fibrinogênio numa criança séptica; afasta hemofilia, que alargaria isoladamente o tempo de tromboplastina parcial; e afasta deficiência de fator XIII, que cursaria com os dois tempos normais.
passo 3
Tratar os dois relógios ao mesmo tempo. Vitamina K1 por via endovenosa, que restaura a carboxilação hepática, mas cuja resposta só começa a aparecer em 2 a 4 horas; e, simultaneamente, reposição imediata dos fatores com plasma fresco congelado de 10 a 15 mL/kg ou concentrado de complexo protrombínico, que age agora. A via intramuscular está fora aqui: hematoma no músculo de quem não coagula, e absorção lenta demais. A infusão endovenosa deve ser lenta, com teto de 1 mg por minuto, pelo risco de reação anafilactoide descrito nas bulas.
passo 4
Estabilizar em paralelo. Via aérea protegida se houver rebaixamento, suporte hemodinâmico e transfusão de concentrado de hemácias conforme a repercussão da anemia, e acionamento da neurocirurgia diante do efeito de massa. Corrigir a coagulopatia é pré-requisito para qualquer abordagem cirúrgica.
passo 5
Não parar no diagnóstico hematológico. Fezes claras há duas semanas e urina escura num lactente com sangramento por deficiência de vitamina K exigem bilirrubina total e frações no mesmo pedido. A vitamina K é lipossolúvel e depende de bile no intestino: colestase é causa reconhecida da forma tardia, e a atresia de vias biliares é a hipótese que muda o prognóstico. Uma reposição oral, nesse cenário, não repõe — a bula do produto micelar registra que a profilaxia oral é insuficiente em doença hepática colestática e má absorção.
passo 6
Fechar o ciclo com a família. Orientar sobre a profilaxia nas próximas gestações e registrar o caso, lembrando que a conduta correta diante de recusa parental não é dispensar a profilaxia, e sim oferecer a via oral com a advertência de que o esquema exige múltiplas doses e seguimento — as doses que mais faltam são justamente as que cobrem a janela em que esta criança sangrou.
07

Agora feche você

Dois recém-nascidos são avaliados na mesma manhã. O primeiro é uma menina a termo, com 2 dias de vida, nascida em maternidade, cuja mãe é epiléptica e usou fenobarbital durante toda a gestação. Apresenta sangramento persistente após punção venosa e um episódio de hematêmese. Está corada, hidratada, afebril, sem hepatoesplenomegalia e sem sinais de sepse. Exames: hemoglobina 14,2 g/dL, plaquetas 245.000/mm³, tempo de protrombina alargado, tempo de tromboplastina parcial alargado, fibrinogênio 260 mg/dL, dímero-D normal. O segundo é um menino prematuro de 34 semanas, nascido há 40 minutos por cesariana, com 2.000 g, em boas condições, respirando em ar ambiente e sem sangramento. A equipe vai prescrever a profilaxia e discute qual dose usar, porque o serviço tem em estoque a ampola de 10 mg por mililitro e seringas de 1 mL graduadas de 0,01 em 0,01 mL.
passo 1
Para a primeira criança, nomeie a forma da doença e diga qual elemento da história a define — e explique por que a idade de 2 dias não contradiz esse rótulo.
passo 2
Justifique, item por item, por que o coagulograma dela afasta coagulação intravascular disseminada, hemofilia B e púrpura trombocitopênica neonatal aloimune.
passo 3
Diga qual seria a conduta se essa mesma menina, em vez do sangramento descrito, tivesse chegado com hemorragia intracraniana e instabilidade — e o que mudaria na via de administração.
passo 4
Para o segundo, calcule a dose que cada uma das cinco réguas prescreveria a um prematuro de 34 semanas e 2.000 g, e aponte qual delas ultrapassa o teto declarado pelo fabricante e em quanto por cento.
passo 5
Converta a dose do fabricante em volume com a ampola disponível e diga se a seringa do serviço consegue entregá-la sem arredondar.
passo 6
Finalmente, suponha que os pais da segunda criança recusassem a injeção. Escreva a conduta segundo a diretriz nacional, incluindo o esquema oral completo e a advertência obrigatória.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Escolher vitamina K isolada na hemorragia intracraniana É a alternativa errada mais frequente do tema e a mais bem construída, porque a vitamina K está de fato indicada. O erro é de tempo: a queda do tempo de protrombina começa em 2 a 4 horas, e o lactente com desvio de linha média não tem 2 a 4 horas. O que corrige agora é a reposição de fatores — plasma fresco congelado de 10 a 15 mL/kg ou concentrado de complexo protrombínico —, sempre junto da vitamina, nunca no lugar dela.
  2. 2Repor plaquetas ou crioprecipitado porque o bebê está sangrando As duas alternativas atacam alvos que a doença não tocou. Concentrado de plaquetas não faz nada quando as plaquetas estão normais, e nesta doença elas estão por definição. Crioprecipitado repõe basicamente fibrinogênio e fator VIII, ambos normais aqui. A leitura correta parte do coagulograma, não do sangramento visível.
  3. 3Aplicar vitamina K por via intramuscular no bebê que já está sangrando A via intramuscular é a via da profilaxia, no bebê que ainda coagula. Instalada a coagulopatia, injetar no músculo produz hematoma no local, e a absorção é lenta demais para uma emergência. A alternativa que oferece dose única intramuscular com observação clínica soma dois erros: a via errada e a conduta expectante.
  4. 4Tratar o sangramento que veio da mãe Recém-nascido bem, com profilaxia registrada e coagulograma normal, que cospe sangue enquanto a mãe tem fissura mamilar sangrante: repor vitamina K e plasma nesse bebê é tratar a mama da mãe. O passo é o teste de Apt-Downey. A pista que a vinheta esconde é o adjetivo — corado, ativo, mamando bem, abdome normal.
  5. 5Confundir o prematuro com enterocolite necrosante e o prematuro com coagulopatia O prematuro em unidade neonatal, sob antibiótico e nutrição parenteral, é população de risco para as duas coisas, e ambas sangram pelo trato digestivo. O que separa é o resto do quadro: distensão, resíduo gástrico bilioso, eritema de parede, letargia, plaquetopenia e pneumatose intestinal na radiografia definem a enterocolite. Deficiência de vitamina K sangra sem sinal inflamatório de parede e com plaquetas normais.
  6. 6Aceitar o relato de que a vitamina foi dada Na série brasileira de quatro casos tardios, três crianças tinham relato de administração da profilaxia — e os autores registram que ficaram dúvidas quanto à veracidade das informações. Parto hospitalar não prova profilaxia, e memória materna não é registro. O dado que vale é o que está escrito na caderneta ou no prontuário.
  7. 7Citar a recomendação da diretriz pelo número O documento nacional de assistência ao parto normal numera as recomendações da profilaxia de vitamina K de 210 a 214 na lista-resumo e de 212 a 216 no corpo do capítulo, com texto idêntico nas duas — a mesma recomendação carrega dois números no mesmo arquivo. Guarde o conteúdo da recomendação, não o número dela.
  8. 8Ler o peso do prematuro em uma régua só Um recém-nascido de 1,2 kg recebe 1 mg num protocolo brasileiro e 0,5 mg em outro; a bula do fabricante daria 0,48 mg e a régua norte-americana, de 0,36 a 0,60 mg. E o corte de 1.000 g de um dos protocolos está escrito como acima de 1.000 g e abaixo de 1.000 g, de modo que o bebê de exatamente 1.000 g não cai em nenhuma das faixas.
  9. 9Achar que a colestase é apenas uma comorbidade Na forma tardia, a hepatopatia colestática não acompanha o quadro: com frequência é a causa dele, e é o diagnóstico que a questão quer que apareça. Icterícia prolongada com fezes claras num lactente que sangra pede bilirrubina direta no mesmo pedido do coagulograma. A bula do produto micelar registra que a profilaxia oral é insuficiente em doença hepática colestática e má absorção.
  10. 10Chamar de alargado um tempo que é normal para a idade O recém-nascido a termo tem, fisiologicamente, tempos de coagulação mais longos que o adulto, e o prematuro mais ainda. A comparação tem de ser feita com o valor de referência da idade. As vinhetas contornam isso entregando o índice normalizado francamente alto ou o adjetivo muito alargado — quando entregam apenas alargado sem valor, o achado sozinho não fecha nada.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Recém-nascido sem profilaxia de vitamina K, aleitamento materno exclusivo e sangramento entre o 2º–7º dia (forma clássica), com TP e TTPa alargados e, de forma decisiva, plaquetas e fibrinogênio NORMAIS — padrão típico de deficiência dos fatores vitamina K-dependentes (II, VII, IX, X). Na CID haveria plaquetopenia, fibrinogênio baixo e D-dímero elevado, além de contexto de doença grave/sepse, ausente aqui. Trombocitopenia aloimune cursa com plaquetas baixas e coagulograma normal. Hemofilia A alarga isoladamente o TTPa, com TP normal, e raramente sangra tão precoce. Deficiência de fator XIII cursa com TP e TTPa NORMAIS (o XIII não altera essas provas), classicamente com sangramento tardio de coto umbilical.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as três formas com a janela de cada uma, e ao lado de cada janela anote qual documento a sustenta. Em seguida reconstrua as quatro linhas do coagulograma que fecham o diagnóstico, dizendo qual delas se altera primeiro e por quê, e liste as cinco hipóteses que o mesmo coagulograma afasta. Termine escrevendo a conduta do sangramento grave em uma frase que contenha dois agentes e a razão de serem dois.

em 30 dias

Refaça a aritmética das doses. Calcule, para um prematuro de 34 semanas e 2,0 kg, o que dá cada uma das cinco réguas de profilaxia, e diga em quanto por cento a régua brasileira ultrapassa o teto do fabricante. Depois converta o volume: com ampola de 10 mg por mililitro e seringa graduada de 0,01 em 0,01 mL, qual dose real é entregue a um prematuro de 800 g arredondando para baixo e para cima. Por fim, ordene os sete esquemas da vigilância pela taxa de casos e explique, sem olhar a tabela, por que o esquema suíço falhou mais do que dois esquemas com menos miligramas.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mãe chega à emergência com o filho de 33 dias, em aleitamento materno exclusivo, nascido em casa. Conta que o bebê está irritado, mamando mal, e que hoje ficou com o olhar parado por alguns instantes. Diz que ninguém aplicou nada na criança depois do parto e pergunta se isso tem alguma coisa a ver. Colha a história dirigida à profilaxia, ao padrão das fezes e da urina e aos fatores de risco maternos, examine a fontanela e a coloração, decida quais exames pedir na mesma coleta, e explique à mãe, sem jargão, por que a vitamina sozinha não vai bastar se houver sangramento no cérebro. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença hemorrágica do recém-nascido — Preparatório para provas | OsceLabs