Ginecologia e ObstetríciaHemorragias da gestação e do puerpério

Gravidez ectópica

A vinheta entrega beta-hCG positivo e ultrassonografia transvaginal sem saco gestacional dentro do útero, e pergunta o que fazer agora. Os três números que decidem — a zona discriminatória, o incremento em 48 horas e o teto do metotrexato — foram todos revisados nos últimos anos, e a versão que a maioria decorou já não é a dos documentos brasileiros vigentes.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 29 anos, com atraso menstrual de 6 semanas, procura o pronto-socorro com dor pélvica intensa à direita e sangramento vaginal discreto. Beta-hCG positivo. A ultrassonografia transvaginal não evidencia saco gestacional intrauterino, mas mostra imagem anexial à direita. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável? Assinale a alternativa correta.

02

Como esse tema cai

Mulher em idade fértil, atraso menstrual, dor pélvica, sangramento, teste de gravidez positivo. Duas perguntas resolvem a vinheta, nessa ordem. A primeira é hemodinâmica: ela está estável? Se não está — dor sincopal, palidez sem perda sanguínea visível, taquicardia, hipotensão, abaulamento e dor intensa ao toque do fundo de saco posterior —, o diagnóstico de rotura tubária é clínico, escrito com essas palavras no Manual de Gestação de Alto Risco, e o caminho é a sala cirúrgica. A ectópica rota é abdome agudo hemorrágico e a decisão de operar sem passar pela imagem está desenvolvida no capítulo de abdome agudo. Este capítulo trata do outro cenário, que é o que a prova cobra mais: a paciente estável.

Nela, o eixo é uma frase só: beta-hCG positivo e ultrassonografia transvaginal sem saco gestacional dentro do útero. Isso não é diagnóstico de ectópica — é um estado com nome próprio, gravidez de localização desconhecida, e nomear muda a conduta porque troca a pergunta. Deixa de ser 'é ectópica ou não é?' e passa a ser 'esta gestação está evoluindo?'. Sem esse nome, dois erros opostos ficam disponíveis: dar metotrexato numa gestação intrauterina viável que ainda não apareceu na tela, e mandar para casa sem seguimento uma tuba que vai romper.

Fechado o diagnóstico, vem a escada: conduta expectante, metotrexato, cirurgia — decidida por beta-hCG, tamanho da massa, presença de batimento embrionário e estabilidade. E aqui vale o aviso que organiza o capítulo inteiro: os números mudaram. A zona discriminatória brasileira saiu de 2.000 para 3.500 mUI/mL; o incremento das 48 horas saiu do 66% clássico e hoje depende do valor inicial. Quem decorou a versão antiga está decorando um protocolo de 2018 que a própria FEBRASGO revisou em 2021 e que o Ministério da Saúde não reproduziu em 2022.

03

O que muda decisão

O que é, onde se implanta e por que ainda mata

Gravidez ectópica é a implantação e o desenvolvimento do blastocisto fora da sede normal, isto é, fora da grande cavidade corporal do útero. A localização de longe mais frequente é a tubária, em 90% a 95% dos casos. O restante se distribui pela porção intersticial da tuba, pelo ovário, pela cérvice, pela cicatriz de cesárea e pela cavidade abdominal — o conjunto que os documentos brasileiros chamam de gravidez não tubária. O ACOG dá os percentuais dessas localizações atípicas: abdome 1%, cérvice 1%, ovário 1% a 3% e cicatriz de cesárea 1% a 3%. Elas importam porque quase sempre são diagnosticadas mais tarde e por isso adoecem mais.

A incidência é de 1% a 2% das gestações, ou de 10 a 20 por 1.000 nascidos vivos. Parece pouco até se olhar para o desfecho: a gravidez ectópica é a principal causa de mortalidade materna no primeiro trimestre da gravidez e responde por 6% a 13% das mortes relacionadas ao período gestacional. No Brasil, um estudo de rede de vigilância de morbidade materna grave com 9.555 casos encontrou 312 (3,3%) de complicações após gravidez ectópica — destas, 286 (91,7%) foram condições potencialmente ameaçadoras à vida, 25 (8,0%) foram near miss e uma (0,3%) foi morte materna. O número que essa série mostra não é a mortalidade; é o quanto de quase-morte a doença produz.

Depois do primeiro episódio, a recorrência é de cerca de 15%. Em mulheres com dois ou mais episódios prévios, ela sobe para pelo menos 25%. É um dado de aconselhamento, não só de prova: toda gestação futura dessa paciente merece ultrassonografia precoce para localizar o saco.

Um caso à parte é a gestação heterotópica, em que uma gestação intrauterina coexiste com uma ectópica. Na concepção natural, o risco vai de 1 em 4.000 a 1 em 30.000; após fertilização in vitro, chega a 1 em 100. A consequência prática é direta e costuma render questão: ver um saco gestacional tópico praticamente elimina a hipótese de ectópica na população geral, mas não elimina em quem engravidou por reprodução assistida.

Fatores de risco: o que pesa, o que só parece pesar e a metade que não tem nenhum

O primeiro fato sobre fatores de risco é o que eles não fazem. Metade das mulheres que recebem o diagnóstico de gravidez ectópica não tem nenhum fator de risco conhecido — está escrito no ACOG e o Green-top 21 diz o mesmo com outras palavras. Ausência de fator de risco não afasta o diagnóstico, e é exatamente essa a armadilha que a banca monta quando descreve uma primigesta jovem, sem cirurgias, sem DIU, sem histórico de infecção.

Na ordem de força, o que mais pesa é dano tubário. A meta-análise que virou referência do assunto (Ankum, 1996, com 6.718 casos de ectópica em 27 estudos caso-controle e 13.049 mulheres expostas em 9 coortes) separa os fatores em três degraus: risco alto para gravidez ectópica prévia, cirurgia tubária prévia, patologia tubária documentada e exposição intraútero ao dietilestilbestrol; aumento moderado para infecções genitais prévias — doença inflamatória pélvica, clamídia, gonorreia —, infertilidade e mais de um parceiro sexual ao longo da vida; aumento discreto para os demais. A leitura que fica é simples: o que empurra o risco para cima é a tuba já lesada, por cirurgia ou por infecção.

O único fator com número redondo nos documentos é a própria ectópica prévia. Uma ectópica anterior leva a chance de repetir a cerca de 10% (razão de chances 3,0; IC 95% 2,1 a 4,4). Duas ou mais levam o risco a mais de 25% (razão de chances 11,17; IC 95% 4,0 a 29,5). É o fator isolado mais forte da lista e o que a vinheta costuma plantar na primeira linha.

A lista brasileira, que é a que aparece com esse nome nas provas, é a mesma nos dois documentos nacionais: gravidez ectópica prévia, doença inflamatória pélvica, cirurgia tubária, infertilidade, endometriose, usuárias de dispositivo intrauterino, anticoncepção de emergência e tabagismo. O protocolo do Distrito Federal acrescenta cirurgia abdominal prévia e uso de progestágenos. Na reprodução assistida, o que aumenta o risco é o fator tubário de infertilidade e a transferência de múltiplos embriões, e mulheres com história de infertilidade têm risco aumentado independentemente de como engravidaram.

O dispositivo intrauterino merece um parágrafo próprio porque é onde os documentos parecem se contradizer e não se contradizem. A lista brasileira traz o DIU como fator de risco; o ACOG escreve que mulheres que usam DIU têm risco de ectópica menor do que mulheres que não usam nenhum método, precisamente porque o DIU é muito eficaz em impedir que a gravidez aconteça. As duas afirmações convivem porque falam de denominadores diferentes: o risco absoluto de ter uma ectópica é menor com DIU, mas, entre as gestações que ocorrem com o DIU no lugar, até 53% são ectópicas. O DIU não causa a ectópica — ele filtra as tópicas. Diante de teste positivo em usuária de DIU, a probabilidade condicional é altíssima e a investigação é obrigatória.

O quadro clínico: a íntegra que engana e a rota que não engana

As manifestações costumam aparecer seis a oito semanas após a última menstruação normal, e podem ser mais tardias quando a implantação não é tubária. A tríade clássica — dor abdominal, atraso menstrual e sangramento genital — é o que se decora, mas o protocolo da FEBRASGO faz questão de registrar que na gestação tubária íntegra a história é pouco esclarecedora e o exame clínico muitas vezes não é elucidativo. Esse é o ponto: a forma que dá para tratar sem cirurgia é justamente a que quase não se anuncia.

Na gestação ectópica íntegra encontram-se atraso menstrual, dor abdominal discreta, sangramento genital variável, estabilidade hemodinâmica, abdome inocente e toque com dor discreta na região anexial — e a massa anexial só é palpável em metade dos casos. Não há nada aí que uma ameaça de abortamento não pudesse produzir. O que faz o diagnóstico é a decisão de investigar, não o exame físico.

Na rota, o quadro é outro e é reconhecível. A dor é sincopal e lancinante na ruptura tubária e em cólica no aborto tubário; o hemoperitônio generaliza a dor a todo o abdome, com náuseas e vômitos, e em alguns casos há dor escapular por irritação diafragmática. No exame geral aparecem os sinais de hipovolemia: palidez cutâneo-mucosa sem perda sanguínea visível, taquicardia e hipotensão arterial — a combinação de estar branca sem estar sangrando por fora é a assinatura do sangramento interno. No exame do abdome, reação peritoneal, descompressão brusca dolorosa e diminuição dos ruídos hidroaéreos. Ao toque, abaulamento do fundo de saco posterior com dor intensa, o grito de Douglas, também chamado de sinal de Proust.

A frase que fecha esta seção está no Manual de Gestação de Alto Risco e na FEBRASGO com a mesma redação: no caso de ruptura tubária, o diagnóstico é clínico. Não se espera beta-hCG para decidir operar quem está chocando, e a ultrassonografia nessa paciente serve para confirmar líquido livre, não para autorizar a cirurgia.

Uma regra de triagem completa o quadro e vale para o pronto-socorro inteiro: toda mulher em idade reprodutiva que se apresente com dor abdominal e sangramento vaginal deve ser investigada para gestação, mesmo que use método contraceptivo ou se declare sexualmente inativa. É o tipo de item que a prova cobra em enunciado de conduta e é onde a ectópica mais se perde.

Beta-hCG e ultrassonografia transvaginal: dois exames que só decidem juntos

A ultrassonografia transvaginal é a ferramenta diagnóstica de escolha, com sensibilidade relatada de 87,0% a 99,0% e especificidade de 94,0% a 99,9%. A maioria das ectópicas é visualizada já no exame inicial; as que não são costumam ser pequenas e precoces demais para aparecer, e não necessariamente foram 'perdidas'. A laparoscopia deixou de ser o padrão-ouro diagnóstico — quando feita cedo demais, tem falso-negativo de 3,0% a 4,5%.

A leitura do exame tem ordem e a ordem importa. Primeiro a cavidade uterina, para descartar gestação tópica pela visibilização do saco gestacional ou de restos ovulares. Depois os ovários, procurando o corpo lúteo — que é a estrutura que mais confunde com a massa anexial da ectópica. Por fim, a presença de massa anexial extraovariana, caracterizada conforme o aspecto: hematossalpinge, anel tubário ou embrião vivo. O achado de líquido livre na cavidade peritoneal é frequente e entra na leitura no final. Como referência temporal, a via transvaginal consegue visualizar o saco gestacional intrauterino com cinco semanas de atraso menstrual.

O beta-hCG sozinho não diagnostica nada, e esta é uma recomendação formal de grau B do ACOG: valores de hCG isolados não devem ser usados para diagnosticar gravidez ectópica e devem ser correlacionados com a história, os sintomas e os achados ultrassonográficos. O mesmo documento vai além e diz qual é o melhor parâmetro para saber quando uma gestação normal deveria estar visível dentro do útero: o cálculo acurado da idade gestacional, não um valor absoluto de hCG. Um saco gestacional com vesícula vitelina deve ser visível entre cinco e seis semanas de gestação, com um ou com vários embriões.

Os exames que acompanham a investigação são hemograma completo, tipagem sanguínea e fator Rh, e reserva de sangue na internação. Se o caminho for o metotrexato, somam-se transaminases (TGO e TGP) e creatinina, e o tratamento só começa com esses exames normais.

A zona discriminatória: o valor acima do qual a ultrassonografia deveria ver — e por que ele não é único

A zona discriminatória é o conceito de que existe um valor de beta-hCG acima do qual os marcos de uma gestação intrauterina normal deveriam estar visíveis à ultrassonografia. Se o valor está acima e não há saco na cavidade, a gestação é anormal. O número brasileiro vigente é 3.500 mUI/mL, e ele está escrito assim tanto no Manual de Gestação de Alto Risco de 2022 quanto no protocolo da FEBRASGO de 2021: com valores superiores a esse, a gestação intrauterina deveria ser confirmada à ultrassonografia transvaginal.

O número mudou. O protocolo da FEBRASGO de 2018 trabalhava com 2.000 mUI/mL e já registrava a transição em nota — 'mediante o risco de se interromper uma gestação viável, alguns protocolos aumentam o valor discriminatório da beta-hCG para 3500'. Essa frase é a explicação inteira da revisão: o corte não foi elevado para melhorar a detecção da ectópica, foi elevado para não destruir gestações intrauterinas desejadas que simplesmente ainda não apareceram na tela. O protocolo do Distrito Federal usa 3.510 mUI/mL, valor que vem da reavaliação dos limiares publicada em 2013, com o objetivo declarado de aumentar a acurácia e diminuir o risco de um falso diagnóstico de ectópica.

O valor não é único porque as condições que ele resume não são únicas. Os documentos listam o que o desloca: variação dos resultados entre laboratórios conforme o padrão internacional de calibração, variação conforme a idade gestacional, experiência de quem faz o exame, qualidade do aparelho, presença de miomas, obesidade materna e gestação múltipla. A gestação múltipla é o deslocador mais importante de citar, e o ACOG o escreve com todas as letras: mulheres com gestação múltipla têm níveis de hCG mais altos do que as de feto único para qualquer idade gestacional e podem estar acima dos cortes discriminatórios tradicionais antes que a ultrassonografia reconheça os sacos. Duas gestações somam hormônio sem somar tamanho na mesma proporção.

Daí a recomendação de grau B que fecha o assunto: se o conceito de nível discriminatório for usado como auxílio diagnóstico em mulheres sob risco de ectópica, o valor deve ser conservadoramente alto — tão alto quanto 3.500 mUI/mL — para evitar o erro diagnóstico e a possível interrupção de uma gestação intrauterina que a mulher deseja continuar. Repare no que a recomendação faz: ela aceita o conceito e retira dele a função de gatilho. O corte não autoriza intervir; ele autoriza suspeitar. A série de casos que motivou a revisão mostrou justamente saco gestacional intrauterino confirmado no seguimento em mulheres cujo exame inicial estava vazio com hCG acima do nível discriminatório.

E há um limite quantitativo que precisa ser dito, porque é o que impede o raciocínio de virar automatismo: ausência de saco gestacional com hCG acima do nível discriminatório é compatível com gravidez ectópica em 50% a 70% dos casos. Ou seja, de 30% a 50% dessas pacientes têm perda gestacional precoce, não ectópica. O corte diz que a gestação não vai bem; não diz onde ela está.

A curva das 48 horas: o número que foi revisado para baixo e depois quebrado em três

Na gestação tópica viável, o beta-hCG sobe em curva ascendente até um platô em torno de 100.000 mUI/mL por volta da 10ª semana. A pergunta de prova é quanto ele precisa subir em 48 horas para que a gestação ainda possa ser normal. A resposta vigente nos documentos brasileiros não é um número: são três, e eles dependem do valor de partida. Aumento de 49% quando o beta-hCG inicial é inferior a 1.500 mUI/mL; de 40% quando está entre 1.500 e 3.000; e de 33% quando é superior a 3.000. Está assim no Manual de Gestação de Alto Risco de 2022, assim no protocolo da FEBRASGO de 2021 e assim no ACOG de 2018 — os três apontando para o mesmo trabalho de 2016.

A lógica desses três degraus é contraintuitiva e é o que a questão difícil explora: quanto mais alto o ponto de partida, mais lenta é a subida esperada. Uma paciente que chega com 4.000 mUI/mL e sobe 35% em dois dias está dentro do esperado; a mesma variação de 35% em quem começou com 900 mUI/mL já está abaixo do mínimo. Aplicar um valor único a todas as faixas erra nas duas pontas.

O número anterior era 35%, valor único, e é o que está no protocolo da FEBRASGO de 2018. Antes dele, a régua que todo mundo aprendeu era a duplicação em 48 horas, ou o incremento de 66%. O ACOG registra o movimento por escrito, e a frase vale ser guardada: as orientações sobre o incremento mínimo de hCG para uma gestação intrauterina potencialmente viável 'tornaram-se mais conservadoras (isto é, aumento mais lento)' e mostraram-se dependentes do valor inicial. A revisão veio de coortes de mulheres sintomáticas com gestação intrauterina viável comprovada, e o limiar escolhido é deliberadamente baixo: ele é o mínimo que 99% das gestações intrauterinas normais superam. Não é a média da subida — é o piso, calibrado para não rotular de anormal uma gestação que iria bem.

O que um incremento abaixo do mínimo significa: gestação anormal. E só isso. Não distingue ectópica de abortamento — quem distingue, na maioria dos casos, é a ultrassonografia transvaginal. Um erro caro é ler 'subiu pouco' como 'é ectópica' e tratar. O que ele não significa é ainda mais importante para não errar na direção oposta: mesmo padrões de hCG compatíveis com uma gestação em crescimento ou em resolução não eliminam a possibilidade de gravidez ectópica. Curva bonita não afasta ectópica.

Títulos em queda sugerem gestação em falência e servem para monitorar a resolução espontânea, mas também não são diagnósticos. Aproximadamente 95% das mulheres com perda gestacional precoce espontânea apresentam queda de 21% a 35% do hCG em dois dias, conforme o valor inicial. E o alerta que fecha o raciocínio: a mulher com hCG em queda e possível ectópica deve ser acompanhada até níveis não gravídicos, porque a rotura pode ocorrer enquanto os níveis caem ou estão muito baixos. Queda não é alta.

Operacionalmente: quando os achados clínicos sugerem gestação anormal, a segunda dosagem é feita dois dias depois da primeira; as seguintes ficam entre 2 e 7 dias de intervalo, conforme o padrão e a magnitude da variação.

Gravidez de localização desconhecida: por que nomear muda a conduta

Quando o beta-hCG é positivo e a ultrassonografia transvaginal não consegue identificar a localização da gestação — não se visibiliza saco gestacional na cavidade uterina nem massa anexial —, define-se gravidez de localização desconhecida. O ACOG usa a sigla PUL, de pregnancy of unknown location; nos documentos brasileiros o nome é esse, e também circula como gestação de localização indeterminada. São rótulos para a mesma coisa.

A definição vem acompanhada de uma advertência que é o coração da seção: gravidez de localização desconhecida não deve ser considerada um diagnóstico, e sim tratada como um estado transitório, com esforços para estabelecer um diagnóstico definitivo quando possível. Nomear muda a conduta porque troca a pergunta que se está tentando responder. A pergunta deixa de ser 'é ectópica?' — que empurra para tratar — e passa a ser 'esta gestação está evoluindo?' — que empurra para medir de novo.

A conduta que decorre disso é explícita: a mulher com gravidez de localização desconhecida que está clinicamente estável e deseja manter a gestação, caso ela seja intrauterina, deve repetir a ultrassonografia transvaginal, ou fazer dosagem seriada de hCG, ou as duas coisas, para confirmar o diagnóstico e guiar o manejo. Confirmar o diagnóstico de ectópica na paciente estável, especialmente no primeiro atendimento, é recomendado para eliminar erro diagnóstico e evitar a exposição desnecessária ao metotrexato — que pode interromper ou causar teratogenicidade numa gestação intrauterina em curso.

O medo de esperar é menor do que parece, e existe número para isso. Em uma série grande de mulheres com gravidez de localização desconhecida acompanhadas com hCG seriado, o risco de rotura de uma ectópica durante a vigilância feita para confirmar o diagnóstico foi de apenas 0,03% entre todas as mulheres em risco e de 1,7% entre todas as ectópicas diagnosticadas. Além disso, tratar presuntivamente com metotrexato não demonstrou economia de custo significativa nem redução de complicações.

Quando a possibilidade de uma gestação intrauterina em progressão já foi razoavelmente excluída, existe um passo que resolve a dúvida: a aspiração uterina, que distingue perda gestacional precoce de ectópica pela presença ou ausência de vilosidades coriônicas no material. Se há vilosidades, a gestação tópica falha está confirmada e a investigação acaba. Se não há, dosa-se o hCG 12 a 24 horas depois: platô ou aumento sugerem esvaziamento incompleto ou ectópica não visualizada, e o tratamento se justifica; queda de 50% ou mais permite acompanhamento seriado; queda entre 15% e 50% exige seguimento próximo e decisão individualizada, porque o risco de ectópica é apreciável. O protocolo da FEBRASGO admite a curetagem com a mesma finalidade, 'excepcionalmente', para verificar a reação de Arias-Stella ou descartar o diagnóstico pela presença de restos ovulares.

Os achados que fecham o diagnóstico e o sinal do anel tubário

Só um achado é definitivo: um saco gestacional extrauterino contendo vesícula vitelina e/ou embrião, com ou sem atividade cardíaca. Ele fecha o diagnóstico e dispensa qualquer outro raciocínio — mas está presente em apenas 15% a 20% dos casos, porque a maioria das ectópicas é tratada antes de chegar a esse estágio.

O achado mais comum é bem menos glamouroso: uma massa anexial inomogênea ou não cística, presente em 50% a 60% dos casos. A recomendação do Green-top 21 é identificar positivamente a ectópica visualizando uma massa que se move separada do ovário — é o movimento independente, obtido com a pressão do transdutor, que separa a ectópica do corpo lúteo. Mesmo assim, o valor preditivo positivo de uma massa separada do ovário é de 80%, porque o achado se confunde com cisto paratubário, corpo lúteo, hidrossalpinge, endometrioma e alça intestinal.

Entre os dois extremos está o anel tubário, também chamado de sinal do bagel: um saco gestacional extrauterino vazio, isto é, uma estrutura arredondada anecoica no centro circundada por um anel hiperecogênico espesso de trofoblasto, na topografia da tuba e separado do ovário. Aparece em 20% a 40% dos casos. É esse o achado que a FEBRASGO e o Manual do Ministério listam ao lado da hematossalpinge e do embrião vivo como os três aspectos com que a massa anexial extraovariana deve ser caracterizada. Reconhecê-lo é o que transforma um exame 'com imagem anexial inespecífica' em diagnóstico.

O pseudossaco é a armadilha simétrica. Em até 20% dos casos, vê-se uma coleção de líquido dentro da cavidade uterina que imita um saco gestacional inicial. A presença de um pseudossaco isoladamente não pode ser usada para diagnosticar ectópica, e o dado que desarma a confusão é este: uma mulher com teste de gravidez positivo, uma estrutura cística intrauterina anecoica de paredes lisas e sem massa anexial tem 0,02% de probabilidade de gravidez ectópica — e 99,98% de gravidez intrauterina. Uma pequena estrutura cística anecoica é muito mais provavelmente um saco inicial do que um pseudossaco. Os sinais intradecidual e duplo decidual ajudam a caracterizar a gestação intrauterina precoce.

O líquido livre entra por último e não decide sozinho. Pequena quantidade de líquido anecoico no fundo de saco de Douglas é encontrada tanto em gestações intrauterinas quanto em ectópicas. Já o líquido ecogênico foi relatado em 28% a 56% das ectópicas: pode significar rotura tubária, mas mais comumente é sangue escoando pela extremidade fimbriada da tuba. Não há aspecto ou espessura endometrial que sustente o diagnóstico de ectópica tubária.

Corte esquemático da pelve: útero com cavidade endometrial vazia; na tuba direita, estrutura arredondada de centro anecoico circundada por anel espesso e brilhante, separada por um intervalo visível do ovário direito, que contém o corpo lúteo; pequena lâmina de líquido livre no fundo de saco.
O anel tubário, ou sinal do bagel: saco gestacional extrauterino vazio, anecoico ao centro e circundado por anel hiperecogênico espesso de trofoblasto, na topografia da tuba e separado do ovário. Está presente em 20% a 40% das ectópicas tubárias. O achado mais frequente, porém, é menos característico — massa anexial inomogênea que se move separada do ovário, em 50% a 60% dos casos.

Conduta expectante: quem pode simplesmente ser acompanhada

Parte das gestações ectópicas se resolve sozinha, e a conduta expectante existe para não tratar quem já está resolvendo. Os critérios brasileiros são seis e vêm com recomendação de grau B: estabilidade hemodinâmica; declínio dos títulos de beta-hCG no intervalo de 24 a 48 horas sem qualquer tratamento; beta-hCG inferior ou igual a 2.000 mUI/mL; ultrassonografia transvaginal sem embrião vivo; massa tubária inferior a 5 cm; e desejo de gravidez futura. Repare que o critério mais forte não é o valor — é a direção da curva.

O protocolo do Distrito Federal, que é estadual e está marcado como tal, acrescenta o que a prática exige: pouca dor, pouco sangramento, ausência de sinais de irritação peritoneal, capacidade de manter o seguimento clínico e facilidade de acesso ao serviço de saúde. Ele também detalha o calendário: controle de beta-hCG quantitativo a cada 48 horas e, após três dosagens mostrando níveis decrescentes, dosagens semanais até atingir níveis pré-gravídicos.

Os dois preditores de sucesso são valores iniciais baixos de beta-hCG e declínio dos títulos em 48 horas — e eles valem juntos, não separados. Um valor baixo com curva subindo não é candidato a expectante; é candidato a metotrexato.

A evidência que sustenta a conduta é melhor do que a fama sugere. Num estudo randomizado que comparou conduta expectante com metotrexato sistêmico, 60% das mulheres evoluíram sem intercorrências apenas com acompanhamento. E um estudo duplo-cego brasileiro comparou placebo com metotrexato em dose única de 50 mg/m² intramuscular em pacientes com estabilidade hemodinâmica, beta-hCG inicial abaixo de 2.000 mUI/mL, títulos em declínio em 48 horas, massa anexial menor que 5,0 cm e desejo de gravidez futura, excluindo quem tinha embrião vivo: o sucesso foi de 92,3% no grupo placebo e de 90% no grupo metotrexato, sem diferença estatisticamente significativa no sucesso nem no tempo até a negativação. Na faixa certa, o metotrexato não acrescentou nada ao acompanhamento — e acrescentou efeitos adversos.

O seguimento é o que torna a conduta segura: retorno em 24 a 48 horas para repetir a dosagem; declínio superior a 15% sugere bom prognóstico e autoriza passar para dosagem semanal de beta-hCG até negativar. Se isso não ocorrer, o caso é reavaliado para decidir entre metotrexato e cirurgia. Os candidatos à expectante devem ser assintomáticos, ter evidência objetiva de resolução — platô ou queda do hCG — e ser aconselhados sobre os riscos que estão aceitando: rotura tubária, hemorragia e cirurgia de emergência.

Metotrexato: critérios com número, contraindicações e a leitura do 4º ao 7º dia

O metotrexato é antagonista do ácido fólico: inativa a di-hidrofolato redutase e a síntese de novo de purinas e pirimidinas, portanto do DNA celular, agindo sobre as células trofoblásticas de divisão rápida e impedindo sua multiplicação. É por isso que ele afeta também medula óssea, mucosa oral e intestinal e epitélio respiratório — a lista de contraindicações não é arbitrária, ela decorre do mecanismo.

Os critérios de indicação, com recomendação de grau A nos dois documentos brasileiros, são: estabilidade hemodinâmica; diâmetro da massa anexial inferior ou igual a 3,5 cm; beta-hCG inicial inferior ou igual a 5.000 mUI/mL; ausência de dor abdominal ou de suspeita de rotura tubária; ausência de embrião com batimento cardíaco; ascensão dos títulos de beta-hCG no intervalo de 24 a 48 horas antes do tratamento; desejo de gravidez futura; paciente que se compromete a comparecer aos retornos; e termo de consentimento assinado. O critério da ascensão costuma passar despercebido e é justamente o que separa esta paciente da candidata a expectante: títulos em queda antes do tratamento contraindicam o metotrexato, não por perigo, mas porque ele não acrescenta nada a quem já está resolvendo.

As contraindicações valem mais quando separadas em absolutas e relativas, como faz o ACOG. Absolutas: gestação intrauterina, imunodeficiência, anemia/leucopenia/trombocitopenia moderada a grave, sensibilidade ao metotrexato, doença pulmonar ativa, úlcera péptica ativa, disfunção hepática ou renal clinicamente importante, amamentação, ectópica rota, instabilidade hemodinâmica e incapacidade de participar do seguimento. Relativas: atividade cardíaca embrionária, concentração inicial alta de hCG, ectópica maior que 4 cm e recusa em aceitar transfusão — indicadores de eficácia potencialmente reduzida, não cortes. A lista brasileira é a mesma, com dois números que ela explicita — leucócitos abaixo de 2.000 células/mm³ e plaquetas abaixo de 100.000 — e acrescenta o declínio dos títulos nas 24 a 48 horas anteriores. E um detalhe que a banca gosta: asma não é exclusão ao uso do metotrexato.

Antes de iniciar, dosam-se hemograma completo, enzimas hepáticas (TGO e TGP), creatinina e tipagem sanguínea ABO-Rh — o metotrexato só deve ser iniciado quando esses exames estiverem normais. Os preditores de insucesso são: atividade cardíaca embrionária, massa maior que 4 cm, concentração inicial de beta-hCG maior que 5.000 mUI/mL, presença de sangue na cavidade peritoneal, aumento do beta-hCG acima de 50% nas 48 horas que antecedem o uso e aumento rápido e contínuo durante o uso. Com número: a taxa de falha é de 14,3% ou mais quando o hCG pré-tratamento está acima de 5.000 mUI/mL, contra 3,7% quando está abaixo disso.

São três os esquemas sistêmicos — dose única, duas doses e múltiplas doses —, e a tabela de protocolos traz dose, dias de aplicação, calendário de dosagem e critério de nova dose de cada um. O que a tabela não carrega é a lógica da escolha, que é guiada pelo beta-hCG inicial: a dose única é a mais simples e a com menos efeitos colaterais, e serve melhor a valores relativamente baixos ou em platô; o esquema de duas doses é a alternativa quando o valor inicial é alto, com sucesso de 88,9% contra 57,9% da dose única em pacientes com hCG entre 3.600 e 5.500 mUI/mL num ensaio; e o de múltiplas doses é o mais empregado nas localizações atípicas — intersticial, cervical e de cicatriz de cesárea —, que em geral cursam com títulos superiores a 5.000 mUI/mL. Existe ainda o metotrexato local, 1 mg/kg injetado dentro do saco gestacional guiado por ultrassonografia transvaginal com agulha 20G ou 22G acoplada ao transdutor, indicado principalmente na presença de embrião vivo e na localização atípica.

A pergunta que separa quem entendeu de quem decorou é por que a comparação é do 7º com o 4º dia, e não com o dia da aplicação. A razão está escrita: pela persistência da proliferação trofoblástica e pelo intervalo entre a aplicação e o início da ação da droga, geralmente ocorre aumento dos níveis de beta-hCG até o 4º dia após o metotrexato. Comparar o 7º dia com o dia zero faz uma paciente que está respondendo bem parecer falha de tratamento — e leva a uma segunda dose, ou a uma cirurgia, que não eram necessárias.

Dos efeitos, o que mais confunde é a dor. Em 40% dos casos ocorre dor abdominal entre o 3º e o 7º dia após a aplicação, presumivelmente pelo efeito citotóxico sobre o tecido trofoblástico. Quando a dor é intensa e persistente, a avaliação inclui exame clínico detalhado, hematócrito e ultrassonografia transvaginal para descartar rotura — não se opera pela dor isolada nem se ignora a dor. Os demais efeitos decorrem do alvo da droga: mucosite e estomatite, irritação gástrica, náusea, vômitos, neutropenia, alopecia reversível, elevação transitória de transaminases e pneumonite, com orientação de comunicar febre ou sintoma respiratório. O sucesso global do tratamento sistêmico, definido como resolução sem necessidade de cirurgia, vai de 70% a 95%. A ultrassonografia transvaginal seriada após o metotrexato é desnecessária, exceto quando existe suspeita de rotura tubária, porque os achados não predizem rotura nem tempo até a resolução.

As orientações durante o tratamento têm razão de ser e por isso são cobradas: evitar relações sexuais até os títulos negativarem, pelo risco teórico de induzir rotura; evitar exposição solar, para diminuir o risco de dermatite pelo metotrexato; evitar bebidas alcoólicas e aspirina; e evitar alimentos e vitaminas que contenham ácido fólico, que competem com a droga e reduzem sua eficácia. O protocolo estadual acrescenta os inibidores de bomba de prótons, que reduzem a depuração do metotrexato e elevam seus níveis plasmáticos.

Cirurgia: quando é obrigatória, por qual via e qual tuba sobra

A cirurgia é a conduta padrão no tratamento da gravidez ectópica, e é obrigatória em um conjunto curto de situações: instabilidade hemodinâmica, sintomas de massa ectópica rota em curso e sinais de sangramento intraperitoneal — as três em que o ACOG a torna requisito. A elas os documentos brasileiros somam a iminência de choque hemorrágico e os sinais de irritação peritoneal, e o protocolo estadual acrescenta os critérios que empurram a paciente estável para a sala: contraindicação ao metotrexato, beta-hCG acima de 5.000 mUI/mL, massa anexial igual ou maior que 40 mm, embrião com atividade cardíaca e paciente incapaz de manter seguimento. Falha do tratamento clínico entra na mesma lista.

A via segue uma regra só. A laparotomia deve ser realizada nos casos de ruptura tubária com instabilidade hemodinâmica; nas demais situações, a via preferencial é a laparoscópica, com grau A no Green-top 21. As vantagens da laparoscopia são menor tempo de operação, menor sangramento intraoperatório, menor tempo de internação, menor custo, menor necessidade de analgesia e menos aderências — sem diferença no desfecho de gestação bem-sucedida subsequente. A laparotomia também é escolhida quando há muito sangue na cavidade e a visualização por laparoscopia fica comprometida.

A escolha entre retirar a tuba e abrir a tuba é a pergunta clássica do tema. A salpingectomia é a operação clássica e está indicada, pelos documentos brasileiros, nas pacientes com prole constituída, nos casos de lesão tubária irreparável, nas tentativas de salpingostomia com sangramento persistente, quando ocorre recidiva de ectópica na mesma tuba e quando os títulos de beta-hCG são elevados. O protocolo estadual explica esse último critério, e a explicação é útil: valores superiores a 5.000 mUI/mL associam-se a invasão do trofoblasto da camada muscular até a serosa da tuba, o que compromete a preservação — há mais risco de rotura, de gravidez ectópica persistente e de nova ectópica na mesma trompa. A salpingostomia, cirurgia conservadora, é indicada para as pacientes com desejo de preservar a fertilidade.

Existe ensaio randomizado sobre isso — o ESEP, com 446 mulheres e tuba contralateral saudável — e o resultado está detalhado no bloco de divergências. O que ele muda no raciocínio cabe em uma frase: com a outra tuba saudável, a salpingotomia não melhorou significativamente as perspectivas de fertilidade e custou sete vezes mais trofoblasto persistente, além de 20% de conversão para salpingectomia no próprio ato por sangramento tubário. O desejo de engravidar, sozinho, deixou de ser argumento suficiente para abrir a tuba.

Onde a cirurgia conservadora ganha é em quem tem a outra tuba comprometida. Numa série de mulheres com fatores redutores de fertilidade — ectópica prévia, dano da tuba contralateral, cirurgia abdominal prévia, doença inflamatória pélvica prévia —, a taxa de gestação intrauterina subsequente foi de 75% com salpingotomia contra 40% com salpingectomia; em mulheres sem esses fatores, as duas técnicas passaram de 90%. É por isso que o critério que decide não é o desejo de engravidar isoladamente, mas o estado da tuba que vai ficar.

O preço da conservação é o trofoblasto persistente: 3% a 20% segundo os documentos brasileiros, 3,9% a 11,0% nas séries citadas pelo Green-top, 7% no ESEP. Ele é detectado pela falha do beta-hCG em cair como esperado, e é problema quase exclusivo da salpingostomia. Daí a regra de seguimento: após cirurgia conservadora, acompanhar a evolução dos títulos: em declínio, apenas acompanhamento; estáveis ou em ascensão, tratamento com dose única de metotrexato 50 mg/m² intramuscular. O NICE operacionaliza com calendário: uma dosagem 7 dias após a salpingotomia e depois semanal até negativar; após salpingectomia, basta um teste de gravidez de urina em 3 semanas. Há ainda a opção de metotrexato profilático no ato da salpingotomia, que num ensaio randomizado reduziu o trofoblasto persistente de 14,5% para 1,9%; o ACOG a menciona como consideração quando há preocupação com ressecção incompleta.

Anti-D, seguimento até negativar, próxima gestação e as localizações atípicas

Na paciente Rh negativo, a regra brasileira é ampla e está escrita nos dois documentos nacionais: o emprego da imunoglobulina anti-D em pacientes Rh negativo, independentemente do tipo de tratamento utilizado na gravidez ectópica, é a regra adotada por diversas diretrizes. O protocolo do Distrito Federal é ainda mais direto: é obrigatório realizar imunoglobulina anti-D nas pacientes Rh negativo. Os documentos britânicos restringem a indicação — e essa diferença está tratada no bloco de divergências.

O seguimento pós-tratamento é o mesmo em todas as condutas e não termina com a melhora clínica: dosagens semanais de beta-hCG até os títulos ficarem negativos. Em geral isso ocorre em 2 a 4 semanas, mas casos com títulos iniciais elevados podem precisar de até oito semanas. A resolução foi significativamente mais rápida com o esquema de duas doses do que com a dose única em um dos estudos comparativos (25,7 contra 31,9 dias, em média). Se a queda não acontece, o caso é reavaliado.

Sobre a próxima gestação, a orientação é dupla. Deve-se evitar nova concepção até o desaparecimento da gravidez ectópica à ultrassonografia transvaginal e por um período de três meses após a utilização do metotrexato, pelo risco de teratogenicidade — o que torna a contracepção parte do tratamento, e não um detalhe. O protocolo estadual acrescenta que a histerossalpingografia para avaliação da permeabilidade tubária pode ser realizada seis meses após a negativação do beta-hCG.

A conversa sobre fertilidade futura tem resposta razoavelmente tranquilizadora e vale ser dada: na ausência de história de subfertilidade ou de patologia tubária, não há diferença na taxa de fertilidade, no risco de nova ectópica tubária ou na permeabilidade tubária entre os diferentes métodos de tratamento. Em mulheres com história prévia de subfertilidade, o tratamento expectante ou medicamentoso associa-se a melhores desfechos reprodutivos do que a cirurgia radical. O que precisa ser dito junto é a recorrência: cerca de 15% após um episódio, pelo menos 25% após dois.

As localizações atípicas fecham o capítulo em um parágrafo porque a regra delas é sempre individualizar. Nas gestações intersticial, cervical e de cicatriz de cesárea, o tratamento sistêmico com metotrexato é feito nos casos em que o embrião não apresenta batimentos cardíacos, e o esquema depende do título inicial: abaixo de 5.000 mUI/mL, dose única de 50 mg/m² intramuscular; acima de 5.000, protocolo de múltiplas doses. Quando o embrião está vivo, faz-se o tratamento local guiado por ultrassonografia transvaginal com injeção de 1 mg/kg dentro do saco gestacional e, se os títulos forem superiores a 5.000 mUI/mL, complementa-se com o protocolo de múltiplas doses por via sistêmica a partir do dia seguinte à punção. Na gravidez ovariana e na abdominal, o tratamento é, na maioria das vezes, cirúrgico.

04

A escada da ectópica: expectante, metotrexato, cirurgia

A gradação é real e se lê sempre na mesma ordem. Primeiro a estabilidade — instável não entra na escada, vai para a sala. Depois o beta-hCG e a direção da curva. Depois o tamanho da massa e a presença de batimento cardíaco embrionário. E, por último, uma condição que não é clínica e reprova quem falha nela: capacidade de voltar para o seguimento. Cada degrau que se sobe adiciona um critério; nenhum degrau dispensa o anterior.

  1. 1Mulher em idade fértil com dor abdominal e/ou sangramento: teste de gravidez, mesmo em uso de contraceptivo e mesmo com relato de inatividade sexual.
  2. 2Avalie a hemodinâmica antes de qualquer imagem. Dor sincopal, palidez sem sangramento visível, taquicardia, hipotensão, descompressão dolorosa e grito de Douglas: o diagnóstico de rotura é clínico e a conduta é cirúrgica imediata, por laparotomia se houver instabilidade.
  3. 3Paciente estável: ultrassonografia transvaginal. Leia na ordem — cavidade uterina, ovários e corpo lúteo, massa anexial extraovariana (hematossalpinge, anel tubário, embrião vivo), líquido livre.
  4. 4Massa anexial que se move separada do ovário, ou anel tubário, ou saco extrauterino com vesícula/embrião: diagnóstico feito, siga para os critérios de tratamento.
  5. 5Útero vazio e sem massa anexial: é gravidez de localização desconhecida — um estado transitório, não um diagnóstico. Dose o beta-hCG quantitativo.
  6. 6Beta-hCG acima da zona discriminatória (3.500 mUI/mL nos documentos brasileiros vigentes) sem saco tópico: gestação anormal. Ainda não diz se é ectópica ou abortamento — 50% a 70% desses casos são ectópicos.
  7. 7Beta-hCG abaixo da zona discriminatória: repita em 48 horas e compare com o incremento mínimo da faixa (49% abaixo de 1.500; 40% entre 1.500 e 3.000; 33% acima de 3.000). Subida adequada pede nova ultrassonografia; subida abaixo do mínimo, platô ou queda indicam gestação anormal — sem ainda dizer onde.
  8. 8Diagnóstico fechado e paciente estável: aplique a tabela de elegibilidade. Títulos em queda e beta-hCG ≤2.000 com massa <5 cm apontam para expectante; títulos em ascensão com beta-hCG ≤5.000 e massa ≤3,5 cm sem batimento apontam para metotrexato; beta-hCG >5.000, massa grande, batimento cardíaco, contraindicação ao metotrexato ou impossibilidade de seguimento apontam para cirurgia.
  9. 9Escolhida a conduta: anti-D se Rh negativo, beta-hCG semanal até negativar, e contracepção até a resolução e por três meses após o metotrexato.

Conduta expectante — beta-hCG ≤2.000 e em queda, massa <5 cm

Estável, pouca dor, sem irritação peritoneal, sem embrião vivo, títulos declinando espontaneamente em 24 a 48 horas e seguimento garantido. É o único degrau em que a direção da curva importa mais que o valor. Ensaio duplo-cego nessa faixa: 92,3% de sucesso com placebo contra 90% com metotrexato, sem diferença.

Metotrexato — beta-hCG ≤5.000 e em ascensão, massa ≤3,5 cm, sem batimento

Estável, sem dor abdominal e sem suspeita de rotura, sem embrião com batimento cardíaco, hemograma, transaminases e creatinina normais, desejo de gravidez futura, consentimento assinado e compromisso com os retornos. Dose única de 50 mg/m² intramuscular; beta-hCG no 4º e no 7º dia.

Cirurgia programada — beta-hCG >5.000, massa grande ou batimento presente

Paciente ainda estável, mas fora dos critérios do metotrexato: título alto, massa anexial de 40 mm ou mais, embrião com atividade cardíaca, contraindicação à droga, falha do tratamento clínico ou impossibilidade de manter seguimento. Via laparoscópica. Salpingectomia ou salpingostomia conforme o estado da tuba que vai ficar.

Cirurgia de emergência — rota com instabilidade hemodinâmica

Dor sincopal e lancinante, dor escapular, palidez sem perda sanguínea visível, taquicardia, hipotensão, irritação peritoneal e grito de Douglas. O diagnóstico de rotura tubária é clínico e não depende de beta-hCG. Laparotomia é a via na instabilidade hemodinâmica. Este degrau está detalhado no capítulo de abdome agudo.

ParâmetroConduta expectanteMetotrexatoCirurgia
Estabilidade hemodinâmicaObrigatóriaObrigatóriaInstabilidade é indicação — e define a via (laparotomia)
Beta-hCG inicial≤2.000 mUI/mL≤5.000 mUI/mL>5.000 mUI/mL (critério do protocolo SES-DF, nível estadual)
Curva do beta-hCG antes do tratamentoEm declínio nas 24 a 48 h, sem tratamentoEm ascensão nas 24 a 48 h; queda prévia contraindicaAscensão rápida (>50% em 48 h) é preditor de falha do metotrexato
Massa anexial<5 cm≤3,5 cm≥40 mm, ou lesão tubária irreparável
Batimento cardíaco embrionárioAusenteAusente (presença é contraindicação relativa e preditor de falha)Presente
Dor e irritação peritonealPouca dor, sem irritação peritonealAusência de dor abdominal ou de suspeita de roturaDor significativa, irritação peritoneal ou sangramento intraperitoneal
Capacidade de manter o seguimentoIndispensávelIndispensável; consentimento assinadoImpossibilidade de seguimento é, por si só, indicação cirúrgica
Exames antes de iniciarHemograma, tipagem e RhHemograma, TGO/TGP, creatinina e tipagem ABO-Rh, todos normaisHemograma, tipagem e Rh, reserva de sangue

Protocolos de metotrexato: dose, calendário e critério de nova dose

EsquemaDose e dias de aplicaçãoDosagem de beta-hCGNova dose ou cirurgiaQuando é o preferido
Dose única50 mg/m² intramuscular no dia 14º e 7º dias após a aplicaçãoQueda >15% entre o 4º e o 7º dia: semanal até negativar. Queda <15%: nova dose de 50 mg/m². Sem queda após duas doses: cirurgiaTítulo inicial relativamente baixo ou em platô; é o esquema mais simples e com menos efeitos colaterais
Duas doses50 mg/m² intramuscular nos dias 1 e 44º e 7º dias, mesmo calendário da dose únicaQueda >15% entre o 4º e o 7º dia: semanal até negativar. Queda <15%: nova dose no 7º dia e beta-hCG no 11º; sem queda após quatro doses, cirurgiaTítulo inicial alto — melhores resultados na faixa de 3.600 a 5.000 mUI/mL
Múltiplas doses1 mg/kg intramuscular nos dias 1, 3, 5 e 7, alternando com ácido folínico 0,1 mg/kg nos dias 2, 4, 6 e 8Antes de cada aplicação de metotrexatoQueda >15% no intervalo dispensa a dose seguinte; máximo de quatro doses; sem declínio após quatro, cirurgiaLocalizações atípicas (intersticial, cervical, cicatriz de cesárea), que costumam cursar com beta-hCG >5.000 mUI/mL
Metotrexato local1 mg/kg dentro do saco gestacional, guiado por ultrassonografia transvaginal, agulha 20G ou 22GConforme o esquema sistêmico associadoSe beta-hCG >5.000 mUI/mL, complementar com múltiplas doses sistêmicas a partir do dia seguinte à punçãoEmbrião vivo e localização atípica

Incremento mínimo do beta-hCG em 48 h na gestação tópica viável

Beta-hCG inicialAumento esperado em 48 hOnde está escrito
Menor que 1.500 mUI/mL49%Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022); Protocolo FEBRASGO n. 15 (2021); ACOG PB 193 (2018)
Entre 1.500 e 3.000 mUI/mL40%Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022); Protocolo FEBRASGO n. 15 (2021); ACOG PB 193 (2018)
Maior que 3.000 mUI/mL33%Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022); Protocolo FEBRASGO n. 15 (2021); ACOG PB 193 (2018)
Qualquer valor (versão anterior)35%, valor únicoProtocolo FEBRASGO n. 22 (2018), edição substituída em 2021

Achados da ultrassonografia transvaginal na ectópica tubária

AchadoFrequênciaO que permite concluir
Saco gestacional extrauterino com vesícula vitelina e/ou embrião, com ou sem batimento15% a 20%Diagnóstico definitivo de gravidez ectópica
Massa anexial inomogênea ou não cística que se move separada do ovário50% a 60%Achado mais comum; valor preditivo positivo de 80% — confunde-se com corpo lúteo, cisto paratubário, hidrossalpinge, endometrioma e alça
Anel tubário (sinal do bagel): saco extrauterino vazio com anel hiperecogênico espesso20% a 40%Altamente sugestivo; é um dos três aspectos com que os documentos brasileiros mandam caracterizar a massa anexial extraovariana
Pseudossaco: coleção líquida na cavidade uterinaAté 20%Não diagnostica ectópica. Estrutura cística anecoica de paredes lisas sem massa anexial tem 0,02% de chance de ectópica
Líquido livre anecoico em pequena quantidade no fundo de sacoComumInespecífico — ocorre também em gestação intrauterina normal
Líquido livre ecogênico28% a 56% das ectópicasPode indicar rotura, mas mais comumente é sangue escoando pela fímbria

O critério que reprova em silêncio é o seguimento. Expectante e metotrexato pressupõem retorno em 48 horas e depois semanal até negativar; a impossibilidade de manter esse acompanhamento converte a paciente em candidata cirúrgica, mesmo com todos os números dentro da faixa.

A zona discriminatória de 3.500 mUI/mL não é gatilho de tratamento. Ausência de saco tópico acima dela indica gestação anormal, mas 30% a 50% desses casos são abortamento, não ectópica — e o corte sobe ainda mais na gestação múltipla, em que o hCG é mais alto para a mesma idade gestacional.

Compare sempre o 7º dia com o 4º dia após o metotrexato, nunca com o dia da aplicação: o beta-hCG habitualmente sobe até o 4º dia, pela persistência da proliferação trofoblástica e pelo intervalo até o início da ação da droga.

Dor abdominal entre o 3º e o 7º dia após o metotrexato ocorre em 40% das pacientes e costuma ser efeito da droga sobre o trofoblasto. Dor intensa e persistente pede exame clínico, hematócrito e ultrassonografia transvaginal para descartar rotura — não indica cirurgia por si só, e também não pode ser ignorada.

Após salpingostomia, o beta-hCG seriado é parte do tratamento: o trofoblasto persistente ocorre em 3% a 20% dos casos e é problema quase exclusivo da cirurgia conservadora. Títulos em declínio, acompanhar; estáveis ou em ascensão, dose única de metotrexato 50 mg/m² intramuscular.

Trilha rápida: instável ou rota = cirurgia; estável com diagnóstico e critérios = comparar expectante, metotrexato e laparoscopia; localização desconhecida = repetir hCG/USG sem intervir em gestação desejada antes do limiar seguro.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Incremento mínimo do beta-hCG em 48 horas na gestação tópica viável

Régua clássica da duplicação (aumento de 66% em 48 h) — abandonada pelos documentos atuais

É a regra que a maior parte dos estudantes memorizou: na gestação intrauterina viável, o beta-hCG dobra, ou sobe cerca de dois terços, a cada 48 horas. Nenhum dos documentos consultados a reproduz hoje. O que existe é o registro explícito do movimento contrário: as orientações sobre o incremento mínimo tornaram-se progressivamente mais conservadoras, isto é, admitem aumentos mais lentos. O motivo é o desenho do limiar — ele não descreve a subida média, e sim o piso que 99% das gestações intrauterinas normais superam, calibrado para não rotular de anormal uma gestação que iria bem.

ACOG Practice Bulletin No. 193 (2018), seção Trends of Serial Serum Human Chorionic Gonadotropin: 'Guidelines regarding the minimal increase in hCG for a potentially viable intrauterine pregnancy have become more conservative (ie, slower increase) and have been demonstrated to be dependent on the initial value'

FEBRASGO, Protocolo n. 22 (2018): 35% ou mais em dois dias, valor único

A edição anterior do protocolo brasileiro escreve um número só, válido para qualquer faixa: 'o ritmo de evolução é o aumento de 35% ou mais dos valores do beta-hCG em dois dias'. É a régua intermediária entre a duplicação clássica e a estratificação atual, e continua circulando em material de estudo porque o protocolo de 2018 permaneceu disponível.

Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia nº 22 (2018), seção 'Exames subsidiários', citando Barnhart et al., Obstet Gynecol 2016

MS (2022), FEBRASGO n. 15 (2021) e ACOG (2018): três valores, conforme o beta-hCG inicial

Os três documentos escrevem a mesma estratificação, e todos citam o mesmo trabalho de 2016: aumento de 49% quando o beta-hCG é inferior a 1.500 mUI/mL; de 40% quando está entre 1.500 e 3.000 mUI/mL; e de 33% quando é superior a 3.000 mUI/mL. Quanto mais alto o valor de partida, mais lenta é a subida esperada — o que faz um incremento de 35% ser normal numa paciente com 4.000 mUI/mL e insuficiente noutra com 900 mUI/mL.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, item 4.4.2; Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 15 (2021), seção 'Exames subsidiários'; ACOG Practice Bulletin No. 193 (2018) — todos referenciando Barnhart KT et al., Obstet Gynecol 2016;128(3):504-11

Na prova

As três réguas convivem em material de estudo, e o enunciado costuma denunciar qual está sendo usada. Alternativa que fale em 'duplicação' ou em '66%' está no vocabulário antigo, que nenhum dos documentos vigentes sustenta. Alternativa com um número único de 35% é o protocolo brasileiro de 2018. Alternativa que traga faixas de beta-hCG com incrementos diferentes — ou qualquer menção a que o incremento esperado depende do valor inicial — é o corpo atual, e é o que o Manual de Gestação de Alto Risco imprimiu em 2022. A causa da divergência é de data, não de conteúdo clínico: os três documentos que estratificam citam o mesmo estudo de 2016, e a FEBRASGO substituiu a própria edição em 2021. Vale ainda notar o que nenhuma das três réguas faz: incremento abaixo do mínimo indica gestação anormal e não separa ectópica de abortamento; e incremento normal não exclui ectópica, o que o ACOG diz por escrito. Régua útil quando o enunciado não dá pista: prova oficial do MEC tende a conduta SUS, e o documento do SUS aqui é o Manual de 2022.

Zona discriminatória do beta-hCG e o que ela autoriza fazer

FEBRASGO, Protocolo n. 22 (2018): 2.000 mUI/mL, já registrando a transição

A edição anterior fixa o valor discriminatório em 2.000 mUI/mL e o próprio texto anuncia a mudança em curso: a ausência de imagem de gestação tópica com beta-hCG acima da zona é indicativa de gestação anormal, 'exceto nos casos de gravidez múltipla; mediante o risco de se interromper uma gestação viável, alguns protocolos aumentam o valor discriminatório da beta-hCG para 3500'. O fluxograma do documento trabalha com o corte de 2.000.

Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia nº 22 (2018), seção 'Exames subsidiários' e Figura 1

MS (2022) e FEBRASGO n. 15 (2021): 3.500 mUI/mL

Os dois documentos brasileiros vigentes trazem o mesmo número, com a mesma redação: o valor discriminatório é 3.500 mUI/mL — com valores superiores a esse, a gestação intrauterina deveria ser confirmada à ultrassonografia transvaginal. O fluxograma da FEBRASGO de 2021 já parte de 3.500 mUI/mL para separar os caminhos.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, item 4.4.2; Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 15 (2021), seção 'Exames subsidiários' e Figura 1

SES-DF (protocolo estadual): 3.510 mUI/mL

O protocolo do Distrito Federal registra 2.000 mUI/mL como o valor 'comumente utilizado' e adota 3.510 mUI/mL, valor vindo da reavaliação dos limiares publicada em 2013. A justificativa está escrita: aumentar a acurácia do beta-hCG e diminuir o risco de um falso diagnóstico de gestação ectópica, considerando a variação entre laboratórios, a idade gestacional, a experiência do examinador, a qualidade do aparelho, a presença de miomas, a gestação múltipla e a obesidade. ⚠️ Documento de secretaria estadual — nível 2.

SES-DF, Protocolo de Atenção à Saúde: Gestação Ectópica, item 5 (referenciando Connolly A et al., Obstet Gynecol 2013;121:65-70)

ACOG (2018): se o conceito for usado, o corte deve ser conservadoramente alto — e não serve de gatilho

Duas recomendações de grau B, lidas juntas. A primeira: valores de hCG isolados não devem ser usados para diagnosticar gravidez ectópica e devem ser correlacionados com história, sintomas e ultrassonografia. A segunda: se o conceito de nível discriminatório for usado como auxílio diagnóstico, o valor deve ser conservadoramente alto — 'tão alto quanto 3.500 mUI/mL' — para evitar o erro diagnóstico e a possível interrupção de uma gestação intrauterina que a mulher deseja continuar. O documento acrescenta que o melhor determinante de quando a gestação deveria ser vista é o cálculo acurado da idade gestacional, não um valor absoluto de hCG, e que a gestação múltipla pode ultrapassar os cortes tradicionais antes que os sacos sejam reconhecidos.

ACOG Practice Bulletin No. 193 (2018), recomendações de nível B e seção Serum Human Chorionic Gonadotropin Measurement

Na prova

O número no enunciado datou o documento. Alternativa construída sobre 2.000 mUI/mL é a edição de 2018 da FEBRASGO; 3.500 mUI/mL é o corpo brasileiro vigente, impresso tanto no Manual do Ministério de 2022 quanto no protocolo da FEBRASGO de 2021; 3.510 mUI/mL denuncia protocolo de secretaria ou material que copiou dela. Há, porém, uma segunda camada que a questão mais difícil explora, e ela não é sobre o número: é sobre o que o corte permite. Um distrator que ofereça 'iniciar metotrexato porque o beta-hCG está acima da zona discriminatória e o útero está vazio' está fora dos quatro documentos ao mesmo tempo, porque de 30% a 50% dessas pacientes têm abortamento e não ectópica. Enunciado que descreva gestação múltipla, indução de ovulação ou fertilização in vitro está montando o cenário em que o corte não vale, e essa exceção aparece nominalmente em todas as versões brasileiras. A causa da revisão é declarada e vale citar: o corte subiu para não interromper gestações intrauterinas desejadas que ainda não haviam aparecido na tela.

Salpingectomia ou salpingostomia na cirurgia da ectópica tubária

MS (2022) e FEBRASGO n. 15 (2021): a escolha se orienta pelo desejo de preservar a fertilidade

A salpingectomia é apresentada como a operação clássica e indicada nas pacientes com prole constituída, nos casos de lesão tubária irreparável, nas tentativas de salpingostomia com sangramento persistente, quando há recidiva de ectópica na mesma tuba e quando os títulos de beta-hCG são elevados. A indicação da cirurgia conservadora, a salpingostomia, é 'para as pacientes com desejo de preservar a fertilidade'. O risco assumido vem junto: persistência de tecido trofoblástico em 3% a 20%, com seguimento obrigatório do beta-hCG no pós-operatório.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, item 4.4.3.1; Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 15 (2021), seção 'Tratamento cirúrgico'

RCOG/AEPU Green-top 21 (2016) e NICE NG126: a escolha se orienta pelo estado da tuba contralateral

Com tuba contralateral saudável, a salpingectomia deve ser realizada preferencialmente à salpingotomia (grau B). A salpingotomia deve ser considerada nas mulheres com fatores redutores de fertilidade — ectópica prévia, dano da tuba contralateral, cirurgia abdominal prévia, doença inflamatória pélvica prévia. O NICE escreve a mesma partição em duas recomendações: oferecer salpingectomia às mulheres submetidas a cirurgia, a menos que tenham outros fatores de risco para infertilidade; e considerar a salpingotomia como alternativa nessas, informando que até 1 em cada 5 pode precisar de tratamento adicional.

RCOG/AEPU, Green-top Guideline No. 21 (2016), item 5.1; NICE NG126, recomendações 1.6.15, 1.6.16 e 1.6.17

O ensaio randomizado (ESEP, 2014), que sustenta a posição britânica

446 mulheres com gravidez tubária confirmada por laparoscopia e tuba contralateral saudável. Gestação em curso cumulativa por concepção natural: 60,7% após salpingotomia contra 56,2% após salpingectomia, razão de fecundidade 1,06 (IC 95% 0,81 a 1,38), sem diferença significativa. Trofoblasto persistente: 14 (7%) contra 1 (menos de 1%), risco relativo 15,0 (IC 95% 2,0 a 113,4). Ectópica repetida: 18 (8%) contra 12 (5%). E 43 mulheres (20%) alocadas para salpingotomia foram convertidas para salpingectomia no próprio ato, por sangramento tubário persistente. Conclusão dos autores: com tuba contralateral saudável, a salpingotomia não melhora significativamente as perspectivas de fertilidade.

Mol F et al. Salpingotomy versus salpingectomy in women with tubal pregnancy (ESEP study). Lancet 2014;383:1483-9, citado integralmente pelo Green-top 21 (2016), item 5.1.1

ACOG (2018): decisão por três variáveis, com dados discordantes entre ensaios e coortes

A decisão deve ser guiada pelo estado clínico da paciente, pelo desejo de fertilidade futura e pela extensão do dano tubário. Os ensaios randomizados não mostraram diferença significativa na taxa de gestação intrauterina subsequente (RR 1,04; IC 95% 0,899 a 1,21) nem de ectópica repetida (RR 1,30; IC 95% 0,72 a 2,38). Já os estudos de coorte indicam que a salpingostomia se associa a mais gestações intrauterinas subsequentes (RR 1,24; IC 95% 1,08 a 1,42) e também a mais ectópicas repetidas (10% contra 4%; RR 2,27; IC 95% 1,12 a 4,58). A salpingectomia é o caminho preferido diante de dano tubário grave e de sangramento importante do sítio cirúrgico; a salpingostomia deve ser considerada em quem deseja fertilidade futura e tem dano da tuba contralateral, cuja remoção obrigaria à reprodução assistida.

ACOG Practice Bulletin No. 193 (2018), seção 'How do salpingostomy and salpingectomy compare in effectiveness and fertility outcomes'

Na prova

O que separa os mundos é qual variável a alternativa usa para decidir. Alternativa que decide pelo desejo de engravidar — 'paciente deseja gestação futura, portanto salpingostomia' — reproduz a redação dos documentos brasileiros. Alternativa que menciona o estado da tuba contralateral, ou fatores redutores de fertilidade, está no corpo britânico e é a que o ensaio randomizado sustenta. Um enunciado que descreva expressamente 'tuba contralateral de aspecto normal' está pedindo o raciocínio do ESEP; um que descreva ectópica prévia, aderências ou doença inflamatória pélvica prévia está montando a exceção em que a cirurgia conservadora ganha — numa série, 75% de gestação intrauterina subsequente com salpingotomia contra 40% com salpingectomia nessas mulheres, enquanto nas sem esses fatores as duas técnicas passaram de 90%. Duas informações são consensuais e podem ancorar a resposta em qualquer recorte: laparotomia é a via na instabilidade hemodinâmica e laparoscopia nas demais situações; e toda salpingostomia exige seguimento com beta-hCG pelo risco de trofoblasto persistente.

Imunoglobulina anti-D na paciente Rh negativo com gravidez ectópica

MS (2022), FEBRASGO n. 15 (2021) e SES-DF: em todas, independentemente do tratamento

Os dois documentos nacionais usam a mesma frase: o emprego da imunoglobulina anti-D em pacientes Rh negativo, independentemente do tipo de tratamento utilizado na gravidez ectópica, é a regra adotada por diversas diretrizes. O protocolo do Distrito Federal transforma isso em obrigação operacional — 'é obrigatório realizar imunoglobulina anti-D nas pacientes Rh negativo' — e coloca a tipagem ABO-Rh entre os exames de rotina antes do metotrexato, o que garante que a informação exista no momento da decisão.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, item 4.4.3.3; Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 15 (2021), seção 'Tratamento medicamentoso'; SES-DF, Protocolo de Atenção à Saúde: Gestação Ectópica, item 10

RCOG/AEPU Green-top 21 (2016): restrita à cirurgia e ao sangramento significativo

A recomendação é oferecer profilaxia anti-D, conforme o protocolo nacional, a todas as mulheres RhD negativo que tenham remoção cirúrgica da ectópica, ou nas quais o sangramento seja repetido, intenso ou associado a dor abdominal. O documento explicita as duas razões da restrição: não existem estudos avaliando o uso de anti-D em mulheres com gravidez ectópica, e há escassez de evidência sobre o risco de aloimunização associado ao tratamento medicamentoso e expectante — ao passo que 25% dos casos de ectópica tubária rota se associam a um número significativo de células fetais na circulação materna, e a cirurgia aumenta a mistura de sangue fetal e materno.

RCOG/AEPU, Green-top Guideline No. 21 (2016), item 6

NICE NG126: apenas quem passa por procedimento cirúrgico, com dose definida

A recomendação numerada é oferecer profilaxia com imunoglobulina anti-D na dose de 250 UI (50 microgramas) a todas as mulheres Rh negativo que sejam submetidas a um procedimento cirúrgico para manejo de gravidez ectópica ou de abortamento. O recorte é o mesmo do Green-top e acrescenta o que os documentos brasileiros não trazem: a dose.

NICE guideline NG126, recomendação 1.7.1 (versão integral consultada no NCBI Bookshelf, NBK544906)

Na prova

A diferença não é clínica, é de evidência disponível e de tolerância ao risco residual. O documento britânico é explícito ao dizer que não há estudos sobre anti-D na ectópica, e reserva a profilaxia às situações em que a hemorragia fetomaterna está demonstrada — cirurgia e sangramento significativo. O corpo brasileiro estende a todas, aceitando tratar a mais para não perder uma sensibilização. Enunciado de conduta em rede pública brasileira, ou que cite nominalmente o Ministério da Saúde ou a FEBRASGO, trabalha com a regra ampla: paciente Rh negativo recebe anti-D em qualquer conduta, inclusive metotrexato e expectante. Alternativa que traga a dose em unidades internacionais e microgramas (250 UI / 50 microgramas), ou que condicione a profilaxia ao tratamento cirúrgico, está falando a língua do NICE e do Green-top. Nenhum dos documentos dispensa a tipagem sanguínea: ela é exame de rotina em todas as versões.

Limiares de beta-hCG e tamanho da massa para escolher entre expectante, metotrexato e cirurgia

MS (2022) e FEBRASGO n. 15 (2021): expectante ≤2.000, metotrexato ≤5.000, massa ≤3,5 cm

A conduta expectante é indicada com estabilidade hemodinâmica, declínio dos títulos em 24 a 48 horas sem tratamento, beta-hCG inferior ou igual a 2.000 mUI/mL, ausência de embrião vivo, massa tubária inferior a 5 cm e desejo de gravidez futura (grau B). O metotrexato exige estabilidade, massa anexial inferior ou igual a 3,5 cm, beta-hCG inicial inferior ou igual a 5.000 mUI/mL, ausência de dor abdominal e de batimento cardíaco embrionário, ascensão dos títulos nas 24 a 48 horas prévias, desejo de gravidez futura e consentimento assinado (grau A).

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, itens 4.4.3.2 e 4.4.3.3; Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 15 (2021), recomendações finais 2 e 5

SES-DF (protocolo estadual): metotrexato com massa <40 mm; cirurgia com massa ≥40 mm ou beta-hCG >5.000

O quadro de critérios do protocolo estadual troca o limite de massa: conduta medicamentosa exige massa anexial menor que 40 mm e íntegra, beta-hCG igual ou inferior a 5.000 mUI/mL, embrião sem atividade cardíaca, estabilidade, ausência de contraindicação ao metotrexato e ausência de irritação peritoneal. A conduta cirúrgica é indicada com massa anexial igual ou maior que 40 mm, beta-hCG acima de 5.000 mUI/mL, embrião com atividade cardíaca, ectópica rota, irritação peritoneal, iminência de choque, contraindicação ao metotrexato e pacientes incapazes de manter seguimento. ⚠️ Documento de secretaria estadual — nível 2.

SES-DF, Protocolo de Atenção à Saúde: Gestação Ectópica, Quadro 1

RCOG/AEPU (2016) e NICE NG126: réguas mais baixas, e a massa medida em 35 mm

O NICE oferece conduta expectante às mulheres clinicamente estáveis e sem dor com ectópica tubária menor que 35 mm sem batimento e beta-hCG de 1.000 UI/L ou menos, e a considera entre 1.000 e 1.500 UI/L. Oferece metotrexato como primeira linha com beta-hCG abaixo de 1.500 UI/L, massa menor que 35 mm sem batimento, sem dor significativa, sem gestação intrauterina e com retorno garantido. Entre 1.500 e menos de 5.000 UI/L, oferece a escolha entre metotrexato e cirurgia. E indica cirurgia como primeira linha diante de dor significativa, massa de 35 mm ou mais, batimento cardíaco visível, beta-hCG de 5.000 UI/L ou mais, ou impossibilidade de retorno. O Green-top resume o bom candidato ao metotrexato como aquele com beta-hCG baixo, 'idealmente menor que 1.500 UI/L, mas podendo chegar a 5.000', e admite conduta expectante com títulos em queda inicialmente abaixo de 1.500 UI/L.

NICE guideline NG126, recomendações 1.6.3, 1.6.4, 1.6.8, 1.6.9 e 1.6.10; RCOG/AEPU, Green-top Guideline No. 21 (2016), itens 5.1 e 5.1.2

ACOG (2018): sem corte fixo — 5.000 mUI/mL e 4 cm entram como contraindicações relativas

O documento americano não define limiares de elegibilidade, e sim contraindicações relativas, que 'não funcionam como cortes absolutos, mas como indicadores de eficácia potencialmente reduzida'. São elas: atividade cardíaca embrionária, concentração inicial alta de hCG, ectópica maior que 4 cm à ultrassonografia transvaginal e recusa em aceitar transfusão. O número que sustenta a preocupação com o hCG alto: falha de 14,3% ou mais quando o valor pré-tratamento é superior a 5.000 mUI/mL, contra 3,7% quando é inferior. E registra que os estudos costumam excluir pacientes acima de 5.000 mUI/mL por opinião de especialista.

ACOG Practice Bulletin No. 193 (2018), Box 1 e seção 'Who are candidates for medical management of ectopic pregnancy?'

Na prova

Aqui a pista está nos próprios números das alternativas. Beta-hCG de 2.000 mUI/mL como teto da conduta expectante e 5.000 mUI/mL como teto do metotrexato, com massa de 3,5 cm, é a régua brasileira e é o que os dois documentos nacionais imprimem. Valores de 1.000 e 1.500 UI/L, massa expressa em 35 mm e a faixa intermediária em que se oferece escolha entre metotrexato e cirurgia são vocabulário do NICE. Massa de 40 mm aparece em protocolo estadual; massa de 4 cm como contraindicação relativa, e não como corte, é a redação americana. Repare que o mesmo tamanho de massa muda de nome conforme o documento — 3,5 cm, 35 mm e 40 mm são três limites diferentes para a mesma decisão, e a diferença entre eles é maior no papel do que na tuba. A causa da divergência é de tolerância a falha e de organização do serviço: réguas mais baixas reduzem o insucesso do tratamento clínico ao custo de operar mais gente, e pressupõem unidade de gravidez precoce com acesso rápido, modelo que estrutura o sistema britânico. Em enunciado de rede pública brasileira, ou que cite o Ministério da Saúde e a FEBRASGO, a régua de 2.000 e 5.000 é a que os documentos do SUS sustentam. E um critério vale em todos os mundos, sem número: quem não consegue voltar para o seguimento não é candidata a tratamento clínico.

06

Caso resolvido

Mulher de 28 anos, G2P1 (uma cesárea), procura o pronto-socorro com dor em baixo-ventre à direita, de moderada intensidade, há dois dias, e sangramento vaginal escuro em pequena quantidade. Última menstruação há 7 semanas. Nega febre. Usava preservativo de forma irregular. Pressão arterial 118 x 76 mmHg, frequência cardíaca 84 bpm, corada, abdome flácido, doloroso à palpação profunda em fossa ilíaca direita, sem descompressão brusca dolorosa. Ao toque, colo fechado, dor discreta em anexo direito, sem abaulamento de fundo de saco. Beta-hCG quantitativo 4.150 mUI/mL. Ultrassonografia transvaginal: cavidade uterina vazia, endométrio de 11 mm; imagem anexial direita de 2,4 cm, extraovariana, com centro anecoico circundado por anel hiperecogênico espesso, que se move separada do ovário direito; ovário direito com corpo lúteo; pequena lâmina de líquido anecoico no fundo de saco. Tipagem: A negativo.
achado
Massa anexial extraovariana de 2,4 cm com centro anecoico e anel hiperecogênico espesso, que se move separada do ovário: é o anel tubário, o sinal do bagel. Está presente em 20% a 40% das ectópicas tubárias e, aqui, fecha o diagnóstico junto com a cavidade uterina vazia e o beta-hCG positivo. O endométrio espessado e o corpo lúteo ipsilateral não mudam nada — não há aspecto ou espessura endometrial que sustente ou afaste o diagnóstico.
o que não é preciso fazer
Repetir o beta-hCG em 48 horas para 'confirmar'. A dosagem seriada serve à gravidez de localização desconhecida, isto é, quando a ultrassonografia não identifica onde a gestação está. Aqui ela identificou. Também não se compara este valor com a zona discriminatória: 3.500 mUI/mL serve para interpretar útero vazio sem massa anexial, e não para decidir tratamento quando a massa foi vista.
estabilidade primeiro
Pressão e frequência cardíaca normais, corada, sem descompressão brusca dolorosa, sem abaulamento de fundo de saco, sem dor escapular: não há rotura. A lâmina anecoica pequena no fundo de saco é achado inespecífico, encontrado também em gestação intrauterina normal — líquido ecogênico é que levantaria a suspeita de sangramento. Paciente estável entra na escada do tratamento.
qual degrau
Beta-hCG de 4.150 mUI/mL (≤5.000), massa de 2,4 cm (≤3,5 cm), sem embrião com batimento cardíaco, sem dor abdominal importante nem suspeita de rotura, estável: é candidata a metotrexato. Não é candidata a conduta expectante, que exigiria beta-hCG ≤2.000 mUI/mL e títulos em declínio espontâneo. Antes de aplicar: hemograma, TGO, TGP, creatinina e tipagem ABO-Rh, todos normais, e termo de consentimento assinado.
dose e calendário
Metotrexato 50 mg/m² por via intramuscular no dia 1, esquema de dose única. Dosar beta-hCG no 4º e no 7º dia. Queda superior a 15% entre o 4º e o 7º dia indica bom prognóstico e a paciente segue com dosagens semanais até níveis pré-gravídicos. Queda inferior a 15% indica nova dose de 50 mg/m². Como o título está próximo da faixa alta, o esquema de duas doses (dias 1 e 4) é a alternativa defensável — ele mostra melhores resultados entre 3.600 e 5.000 mUI/mL.
a leitura que não pode errar
A comparação é entre o 7º e o 4º dia, nunca entre o 7º dia e o valor da aplicação. É esperado que o beta-hCG suba até o 4º dia, pela persistência da proliferação trofoblástica e pelo intervalo até o início da ação da droga. Um valor de 4.900 mUI/mL no 4º dia não é falha.
Rh negativo
Tipagem A negativo: imunoglobulina anti-D. Pelos documentos brasileiros, a indicação independe do tipo de tratamento — vale para metotrexato, conduta expectante e cirurgia. O protocolo do Distrito Federal escreve que é obrigatório. Os documentos britânicos restringem à cirurgia e ao sangramento significativo, e é essa a divergência a reconhecer se o enunciado citar o NICE ou o Green-top.
orientações de alta
Retorno garantido nos dias 4 e 7 e sinais de alarme explicados: dor abdominal intensa e persistente, tontura, síncope. Dor abdominal entre o 3º e o 7º dia ocorre em 40% dos casos e costuma ser efeito da droga sobre o trofoblasto, mas se intensa exige exame, hematócrito e ultrassonografia para descartar rotura. Evitar relações sexuais até negativar, exposição solar, bebidas alcoólicas, aspirina, inibidores de bomba de prótons, e alimentos e vitaminas com ácido fólico. Contracepção até o desaparecimento da imagem e por três meses após o metotrexato.
07

Agora feche você

Mulher de 31 anos, nuligesta, em investigação de infertilidade há dois anos, chega ao pronto-socorro com dor pélvica em cólica de leve intensidade há um dia e discreto sangramento vaginal. Última menstruação há 5 semanas e 4 dias. Está eufórica: fez teste de farmácia positivo ontem e quer muito esta gestação. Pressão arterial 122 x 78 mmHg, frequência cardíaca 76 bpm, corada, abdome indolor, toque sem dor anexial e sem abaulamento de fundo de saco. Beta-hCG quantitativo 1.180 mUI/mL. Ultrassonografia transvaginal: cavidade uterina vazia, sem saco gestacional e sem coleção; anexos sem massas; ovário direito com corpo lúteo; ausência de líquido livre. Tipagem: O positivo.
achado
Beta-hCG positivo, cavidade uterina vazia e nenhuma massa anexial identificada, em paciente estável, sem dor importante e sem sinais de irritação peritoneal.
o nome do quadro
Gravidez de localização desconhecida — pregnancy of unknown location. Não é diagnóstico de gravidez ectópica e não é diagnóstico de nada: é um estado transitório, e o objetivo passa a ser estabelecer o diagnóstico definitivo.
o que o número de 1.180 mUI/mL diz
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Dar metotrexato na gravidez de localização desconhecida porque 'o útero está vazio e o beta-hCG é positivo' Atrai porque parece diligência e porque a alternativa costuma vir embrulhada em urgência ('tratar antes que rompa'). Mas a ausência de saco tópico só indica gestação anormal quando o beta-hCG está acima da zona discriminatória, e mesmo aí de 30% a 50% desses casos são abortamento, não ectópica. Metotrexato numa gestação intrauterina em curso significa interrupção ou teratogenicidade. O risco de esperar, com seguimento, é de 0,03% de rotura entre todas as mulheres em risco.
  2. 2Usar 2.000 mUI/mL como zona discriminatória e 66% como incremento de 48 horas São os dois números mais decorados do tema e os dois foram revisados. A zona discriminatória brasileira vigente é 3.500 mUI/mL, no Manual de Gestação de Alto Risco de 2022 e no protocolo da FEBRASGO de 2021 — o corte de 2.000 é da edição de 2018, que a própria FEBRASGO substituiu. E o incremento não é mais um número só: são 49%, 40% e 33%, conforme o beta-hCG inicial esteja abaixo de 1.500, entre 1.500 e 3.000, ou acima de 3.000 mUI/mL.
  3. 3Ler 'subiu pouco em 48 horas' como 'é ectópica' Incremento abaixo do mínimo significa gestação anormal, e o raciocínio para por aí. Não separa ectópica de abortamento — quem separa, na maioria dos casos, é a ultrassonografia transvaginal. O erro simétrico é igualmente comum e mais perigoso: achar que uma curva ascendente adequada afasta ectópica. O ACOG escreve o contrário com todas as letras — mesmo padrões de hCG compatíveis com gestação em crescimento ou em resolução não eliminam a possibilidade de ectópica.
  4. 4Comparar o beta-hCG do 7º dia com o do dia da aplicação do metotrexato É o erro que transforma tratamento bem-sucedido em falha no papel. O beta-hCG habitualmente sobe até o 4º dia após o metotrexato, pela persistência da proliferação trofoblástica e pelo intervalo até o início da ação da droga. A comparação que define bom prognóstico é a queda superior a 15% entre o 4º e o 7º dia. Quem compara com o dia zero indica uma segunda dose, ou uma cirurgia, que não eram necessárias.
  5. 5Levar à sala toda paciente que sente dor abdominal depois do metotrexato Dor abdominal ocorre em 40% dos casos, entre o 3º e o 7º dia, e costuma ser efeito citotóxico da droga sobre o trofoblasto. A conduta diante dela é avaliação clínica detalhada, hematócrito e ultrassonografia transvaginal para descartar rotura — não laparotomia reflexa. O erro oposto, porém, também mata: dor intensa e persistente com queda do hematócrito é rotura até prova em contrário, e a rotura pode ocorrer inclusive com beta-hCG em queda ou muito baixo.
  6. 6Achar que salpingostomia é sempre a escolha de quem quer engravidar depois É a leitura literal dos documentos brasileiros e ela ignora o dado que os documentos britânicos usam. No ensaio randomizado com tuba contralateral saudável, a gestação em curso foi de 60,7% após salpingotomia contra 56,2% após salpingectomia, sem diferença significativa — e a cirurgia conservadora custou 7% de trofoblasto persistente contra menos de 1%, além de 20% de conversão para salpingectomia no próprio ato. A variável que decide não é o desejo de engravidar; é o estado da tuba que vai ficar.
  7. 7Tratar o DIU como causa de gravidez ectópica A lista brasileira traz o dispositivo intrauterino entre os fatores de risco, e o ACOG registra que usuárias de DIU têm risco de ectópica menor do que quem não usa contracepção, justamente porque o método é muito eficaz em impedir a gravidez. As duas afirmações convivem porque falam de denominadores diferentes: entre as gestações que ocorrem com o DIU no lugar, até 53% são ectópicas. O DIU não causa — ele filtra. Na prática, teste positivo em usuária de DIU é investigação obrigatória.
  8. 8Descartar ectópica porque a paciente não tem fator de risco algum Metade das mulheres que recebem o diagnóstico não tem nenhum fator de risco conhecido. A vinheta que descreve uma primigesta jovem, sem cirurgias, sem DIU e sem antecedente de infecção está montando exatamente essa armadilha. O gatilho da investigação é o teste de gravidez positivo com dor ou sangramento — não a presença de fator de risco.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A presença de beta-hCG positivo, dor pélvica, sangramento e ausência de saco gestacional intrauterino com imagem anexial é o quadro clássico de gravidez ectópica (mais frequentemente tubária). Na gravidez tópica normal, o saco gestacional seria visto dentro do útero. O aborto completo cursa com útero vazio, mas geralmente com queda do beta-hCG e história de eliminação de material. A doença trofoblástica gestacional apresenta útero aumentado com padrão em 'flocos de neve' ou 'cachos de uva' e beta-hCG muito elevado. O cisto folicular não explica o quadro doloroso com beta-hCG positivo e ausência de gestação intrauterina.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os três números que mudaram e a versão atual de cada um: a zona discriminatória (3.500 mUI/mL), o incremento mínimo em 48 horas nas três faixas (49% abaixo de 1.500; 40% entre 1.500 e 3.000; 33% acima de 3.000) e os tetos de beta-hCG da escada (2.000 para expectante, 5.000 para metotrexato). Ao lado de cada um, escreva o que ele NÃO autoriza: o corte discriminatório não indica tratamento; incremento subnormal não diz onde a gestação está; incremento normal não afasta ectópica. Feche recitando o esquema de dose única — 50 mg/m² intramuscular, beta-hCG no 4º e no 7º dia, queda maior que 15% entre esses dois dias — e dizendo em voz alta por que a comparação não é com o dia da aplicação.

em 30 dias

Reconstrua a escada inteira sem consultar, com todos os critérios de cada degrau: expectante (estabilidade, títulos em declínio sem tratamento, beta-hCG ≤2.000, sem embrião vivo, massa <5 cm, desejo de gravidez futura), metotrexato (estabilidade, massa ≤3,5 cm, beta-hCG ≤5.000, sem dor, sem batimento, títulos em ascensão, consentimento, seguimento garantido) e cirurgia (rotura, instabilidade, irritação peritoneal, contraindicação ao metotrexato, falha, beta-hCG >5.000, massa ≥40 mm, batimento presente, impossibilidade de seguimento). Depois escreva os três protocolos de metotrexato com dose, dias e critério de nova dose. Em seguida liste os seis achados ultrassonográficos com suas frequências e diga qual é definitivo, qual é o mais comum e o que é o anel tubário. Termine revisitando as cinco divergências e, em cada uma, o que no enunciado denuncia o documento que a questão está usando.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 33 anos chega ao pronto-socorro com dor em baixo-ventre à esquerda há três dias, que piorou hoje, e sangramento vaginal escuro em pequena quantidade. Última menstruação há 6 semanas e 5 dias. Refere uma gravidez ectópica tratada com cirurgia há quatro anos e diz que quer muito engravidar de novo. Está corada, pressão arterial 116 x 74 mmHg, frequência cardíaca 88 bpm; abdome doloroso à palpação profunda em fossa ilíaca esquerda, sem descompressão brusca dolorosa; ao toque, dor discreta em anexo esquerdo, sem abaulamento de fundo de saco. Traz um beta-hCG quantitativo de 3.900 mUI/mL colhido há dois dias e nenhum exame de imagem. Conduza o atendimento: reconheça o quadro, decida o que precisa ser pedido e em que ordem, interprete o beta-hCG contra a zona discriminatória e contra a curva das 48 horas, e diga qual degrau do tratamento esta paciente ocupa e o que na história dela muda a decisão cirúrgica caso ela precise operar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Gravidez ectópica — Preparatório para provas | OsceLabs