Ginecologia e ObstetríciaHemorragias da gestação e do puerpério

Descolamento prematuro de placenta

A prova monta a vinheta de sangramento na segunda metade e pede que você separe DPP, placenta prévia, rotura uterina e vasa prévia antes de qualquer exame. No DPP, o diagnóstico é clínico e a demora mata mãe e feto.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante de 27 anos, 39 semanas, em trabalho de parto, evolui com sangramento vaginal vivo súbito e intenso, dor abdominal, hipertonia uterina e queda dos batimentos cardíacos fetais. PA = 90/60 mmHg, FC = 118 bpm. Antecedente de hipertensão. Qual é o diagnóstico mais provável e a conduta prioritária?

02

Como esse tema cai

Sangramento na segunda metade da gestação é uma vinheta, não um diagnóstico. A prova monta o cenário — gestação acima de 20 semanas, sangue, dor presente ou ausente — e cobra que você separe quatro causas: descolamento prematuro de placenta, placenta prévia, rotura uterina e rotura de vasa prévia. O que separa as quatro está no exame físico e na história. O ultrassom entra depois, e para outra coisa que não afastar o DPP.

Dentro desse quarteto, o DPP é o que mata mais rápido, e é o único cuja conduta o documento oficial brasileiro escreve em unidades de tempo. O Manual de Gestação de Alto Risco define: mãe estável com feto viável em sofrimento, parto em até 20 minutos; mãe estável com feto inviável ou morto, parto em até 4 a 6 horas; mãe instável, cesárea de urgência agora. Um capítulo sobre DPP é, no fundo, um capítulo sobre relógio — e sobre a única emergência obstétrica em que pedir exame para confirmar é errar.

E há a armadilha que sustenta metade das questões do tema: o sangue que não aparece. Um em cada cinco casos não exterioriza uma gota — o hematoma fica retido atrás da placenta, e a paciente chega com dor, útero lenhoso e choque sem mancha na roupa. Graduar a gravidade pelo volume visível é o erro que transforma um grau III em 'sangramento discreto'. Se você sair deste capítulo com uma frase, que seja esta: no DPP, o que se vê não mede o que saiu.

03

O que muda decisão

O que é, a partir de quando se chama assim, e quanto pesa

Descolamento prematuro de placenta é a separação, parcial ou completa, de uma placenta normalmente inserida, antes do nascimento do feto. A palavra que carrega o diferencial é normalmente inserida: se a placenta está no segmento inferior, o assunto é placenta prévia, e o capítulo é outro. O Manual de Gestação de Alto Risco usa a sigla DPP-NI justamente para marcar isso.

O corte de idade gestacional é a 20ª semana. FEBRASGO e Ministério da Saúde convergem: o diagnóstico é reservado a gestações com 20 ou mais semanas, e a ocorrência é praticamente restrita à segunda metade da gravidez. Antes disso o quadro se confunde com abortamento e com hematoma subcoriônico, e o nome muda. Guarde o número: 20 semanas para o DPP, contra as 24+0 semanas que o RCOG usa para definir hemorragia anteparto no Reino Unido — a diferença é o limite de viabilidade de cada sistema, não uma discordância clínica.

A frequência é o clássico 1%: o DPP complica aproximadamente 1% das gestações. O que a maioria dos alunos não decora é o peso desse 1%. Dois terços dos casos são classificados como graves. O DPP responde por cerca de 10% dos partos prematuros. A mortalidade perinatal é aproximadamente 20 vezes maior do que em gestações sem descolamento — 12% contra 0,6% — e até 77% dessas mortes ocorrem ainda intraútero, ou seja, antes que qualquer sala de parto tenha chance de agir. Entre os que nascem vivos, a prematuridade é a principal causa de morte pós-natal.

A causa imediata é a rotura de vasos maternos na decídua basal. O sangue acumula, atinge a zona de clivagem entre decídua e placenta e inicia a separação. A porção descolada perde a capacidade de trocar gases e nutrientes; quando o que sobra de placenta não compensa, o feto se compromete. Há dois padrões que explicam apresentações opostas: a hemorragia arterial de alta pressão na área central da placenta produz o quadro catastrófico em minutos — sangramento grave, coagulação intravascular disseminada, alteração da frequência cardíaca fetal; a hemorragia venosa de baixa pressão na periferia, o descolamento marginal, produz manifestações que se arrastam — sangramento intermitente leve, oligoâmnio, restrição de crescimento fetal. É a mesma doença com dois relógios diferentes.

Fatores de risco: o mais frequente não é o mais forte

Aqui mora uma pegadinha de enunciado que se repete: o fator de risco mais importante e a condição mais frequentemente associada são coisas diferentes, e as duas caem.

O fator de risco mais importante é o DPP em gestação anterior. A FEBRASGO é explícita: o DPP prévio é o fator de risco mais importante para o descolamento, com risco de recorrência de 10 a 15 vezes maior e chegando a 93 vezes (IC 95% 62-139). Em números absolutos de recorrência: 3% a 15% das mulheres repetem o quadro, contra uma incidência de base de 0,4% a 1,3% na população geral; um estudo longitudinal de base populacional encontrou risco de aproximadamente 6% na gestação seguinte, contra 0,06% em quem nunca teve. Depois de dois descolamentos consecutivos, o risco de um terceiro sobe para 20% a 25%. E quando o quadro prévio foi grave a ponto de matar o feto, a incidência de novo DPP com morte fetal na gestação futura é de 7%.

A condição clínica mais frequentemente associada é outra: as síndromes hipertensivas. Elas respondem por até 50% dos casos de DPP não traumáticos. Mulheres hipertensas têm risco cinco vezes maior de DPP grave em comparação com normotensas — e o dado que incomoda: a terapia anti-hipertensiva não parece reduzir o risco de descolamento entre gestantes com hipertensão crônica. Tratar a pressão protege o cérebro materno; não protege a placenta.

O resto da lista, em ordem de força: trauma materno grave multiplica o risco por seis, e é a causa que o pronto-socorro vê depois de acidente automobilístico, onde a aceleração e desaceleração rápidas alongam o útero sem alongar a placenta. Tabagismo é o principal fator modificável — risco 2,5 vezes maior de descolamento grave o bastante para matar o feto, com acréscimo de 40% para cada maço/dia, e efeito sinérgico quando somado à hipertensão. Cerca de 10% das mulheres que usam cocaína no terceiro trimestre desenvolverão DPP. Cesárea anterior tem odds ratio de 2,3 (IC 95% 1,5-3,6). Completam o quadro: idade materna igual ou acima de 35 anos e abaixo de 20, paridade igual ou maior que 3, trombofilias, rotura prematura de membranas, corioamnionite, oligoâmnio e polidrâmnio, gestação múltipla, diabetes pré-gestacional, hipotireoidismo, anemia, malformação uterina, amniocentese e cordocentese, e — em uma associação que confunde muita gente — a própria placenta prévia.

O contraponto que fecha a seção vem do RCOG: cerca de 70% dos casos de descolamento ocorrem em gestações de baixo risco. Fator de risco serve para aumentar a suspeita; a ausência deles não afasta nada. A vinheta de prova que descreve primigesta jovem, normotensa e sem antecedentes ainda pode ser DPP.

O quadro: a tríade e o achado que decide o diferencial

Os sinais e sintomas mais comumente relacionados ao DPP, na redação do Ministério da Saúde, são: dor abdominal de início súbito, sangramento vaginal caracteristicamente escurecido, hipersensibilidade à palpação uterina, hipertonia uterina e alterações na vitalidade fetal. A tríade que a prova cobra é dor + sangramento escuro + hipertonia, com sofrimento fetal como quarto elemento quase sempre presente.

O achado que separa DPP de placenta prévia é o tônus uterino, e ele se apura com a mão. O RCOG usa a expressão exata: um útero tenso ou com consistência lenhosa à palpação abdominal indica descolamento significativo; um útero mole e indolor sugere causa do trato genital inferior, placenta prévia ou vasa prévia. Do outro lado, o Manual de Gestação de Alto Risco descreve a prévia como útero de consistência normal e indolor, com tônus normal e batimentos cardíacos fetais preservados. Duas mãos no abdome resolvem o diferencial que nenhum exame de imagem resolve com essa velocidade.

A dor do DPP é contínua, e essa qualidade também distingue. O RCOG orienta considerar descolamento quando a dor é contínua e trabalho de parto quando ela é intermitente. Trabalho de parto começa devagar, com contrações leves e irregulares que vão ficando regulares e dolorosas ao longo de horas, acompanhadas de dilatação e apagamento; o DPP começa de uma vez.

Outros achados que a rotina da UFRJ acrescenta e que aparecem em enunciado: bolsa das águas tensa ao toque, líquido amniótico ocasionalmente hemorrágico — o hemoâmnio —, bradicardia fetal importante ou batimentos inaudíveis. Cerca de 80% dos casos ocorrem antes do início do trabalho de parto, o que significa que a maioria das pacientes chega sem contração organizada nenhuma.

Na cardiotocografia, o padrão é o de comprometimento fetal: no RCOG, 69% das mulheres com descolamento apresentaram traçado anormal. A FEBRASGO organiza a conduta pela categoria da cardiotocografia, e vale registrar que a monitorização fetal contínua está indicada em toda mulher em trabalho de parto com sangramento vaginal ativo.

Corte coronal de útero gravídico: placenta inserida no fundo, grande coleção de sangue retida entre a placenta e a parede uterina, sangue infiltrando a musculatura, feto no interior da cavidade e apenas um filete escapando pelo colo.
O hematoma retroplacentário cresce onde ninguém vê. O filete que sai pelo colo é pequeno e não guarda relação com o volume retido: um em cada cinco casos não exterioriza nada. É por isso que o tamanho da mancha na roupa não gradua a gravidade — e por isso que o choque pode preceder o sangramento visível.

Sangramento oculto: a armadilha central do tema

O Ministério da Saúde escreve a frase que resolve uma família inteira de questões: não há correlação entre o volume de sangue externado e o acometimento fetal, uma vez que um em cada cinco casos pode simplesmente não manifestar sangramento vaginal. A rotina da UFRJ dá a mesma faixa por outro caminho: sangramento vaginal em 80% dos casos, e sangramento oculto — o hematoma retroplacentário sem exteriorização — em 10% a 20%.

A explicação é anatômica. O sangue que se acumula entre a placenta e a decídua só sai se dissecar até a borda placentária e encontrar caminho pelo colo. Quando a separação é central, ou quando a borda ainda está aderida, o sangue fica retido e o útero é o recipiente. A paciente perde volume dentro do próprio abdome, e o único sinal externo é o que a hemodinâmica denuncia: taquicardia, hipotensão postural, palidez, oligúria.

O RCOG registra o mesmo raciocínio ao definir gravidade da hemorragia anteparto: o volume perdido costuma ser subestimado, e o sangue que sai pelo introito pode não representar o total perdido — o exemplo que a diretriz dá é justamente o descolamento oculto. Por isso a estimativa de perda tem que incorporar sinais de choque clínico. E a diretriz acrescenta um marcador que o aluno raramente usa: a presença de comprometimento ou de morte fetal é indicador importante de depleção de volume. Feto sofrendo, em vinheta de sangramento, é sinal de que já saiu muito sangue — venha ele de onde vier.

Consequência prática, e resposta de prova: ausência de sangramento externo não afasta DPP. Vítima de trauma abdominal com dor e útero hipertônico, sem sangue nenhum na vagina, é DPP até prova em contrário. Gestante com pré-eclâmpsia e dor abdominal contínua com útero lenhoso, sem sangramento, é DPP até prova em contrário.

Diagnóstico é clínico — e por que a ultrassonografia não afasta

O Manual de Gestação de Alto Risco não deixa margem: o diagnóstico segue sendo fundamentalmente clínico, e na presença de achados clínicos compatíveis a solicitação de exames complementares não deve retardar a abordagem terapêutica. A FEBRASGO usa a mesma expressão — eminentemente clínico. O RCOG fecha: o descolamento é diagnóstico clínico e não há teste diagnóstico sensível ou confiável disponível.

Os números explicam por quê. A sensibilidade da ultrassonografia para DPP fica entre 25% e 60%, tanto no manual do Ministério quanto no protocolo da FEBRASGO. O estudo que o RCOG cita, de Glantz, é ainda mais duro: sensibilidade de 24%, especificidade de 96%, valor preditivo positivo de 88% e valor preditivo negativo de 53% — e a diretriz traduz o achado em uma frase que vale decorar: a ultrassonografia deixará de detectar três quartos dos casos de descolamento.

Leia esses números na direção certa. O valor preditivo positivo alto — 88% no RCOG e na FEBRASGO, acima de 80% no manual do Ministério — significa que ver o hematoma retroplacentário praticamente confirma o diagnóstico. O valor preditivo negativo de 53% significa que não ver não informa quase nada: é cara ou coroa. A ausência de hematoma não exclui descolamento grave, entre outras razões porque o coágulo pode ainda não ter se organizado o suficiente para gerar imagem. Ultrassom entra para confirmar, nunca para excluir.

Então para que serve o exame na sala? Para três coisas concretas, todas úteis: dizer se a placenta é prévia — o que muda a permissão para tocar a paciente e a via de parto; confirmar se há vida fetal, decisão que muda todo o fluxograma; e afastar outros diagnósticos que causam dor e sangramento. Nada disso é 'confirmar o DPP'.

O mesmo vale para o exame da placenta depois do parto: em estudo multicêntrico, a avaliação macroscópica e histopatológica só conseguiu confirmar o diagnóstico clínico em 30% dos casos (49 de 162). Nem a peça na mão fecha o diagnóstico de forma confiável — o que reforça que o diagnóstico nasce e morre na clínica. E o teste de Kleihauer, que às vezes aparece como distrator, tem seu papel na profilaxia Rh: o RCOG registra explicitamente que ele não é teste sensível para diagnosticar descolamento.

Classificação em graus: o que cada um muda na conduta

A classificação brasileira em uso divide o DPP em três graus, levando em conta achados clínicos e laboratoriais, com o grau III subdividido conforme a coagulopatia. É a classificação de Sher, reproduzida pela FEBRASGO e pela rotina da UFRJ.

Grau I: assintomático ou com sangramento genital discreto, sem hipertonia uterina significativa, com vitalidade fetal preservada, sem repercussão hemodinâmica e sem coagulopatia materna. O diagnóstico é retrospectivo — feito depois do nascimento, pela presença do coágulo retroplacentário no exame da placenta. Ou seja: grau I não é uma decisão de conduta, é um achado. Ninguém trata grau I no plantão, porque ninguém o diagnostica no plantão.

Grau II: sangramento genital moderado com hipertonia uterina. Há repercussão hemodinâmica materna — aumento da frequência cardíaca, alterações posturais da pressão arterial e queda do nível de fibrinogênio. O feto está vivo, mas com a vitalidade alterada. É o grau da urgência com feto salvável, e é onde o cronômetro dos 20 minutos entra.

Grau III: óbito fetal, com alterações mais acentuadas de hipotensão arterial materna e hipertonia uterina. Divide-se em IIIA, sem coagulopatia instalada, e IIIB, com coagulopatia instalada. A letra muda o que se transfunde e a agressividade da monitorização, não muda o fato de que a gestação tem que ser esvaziada.

O que a escala orienta, na prática, é o casamento entre duas variáveis que a rotina da UFRJ coloca lado a lado: hipertonia e vitalidade do concepto. Sem hipertonia e com feto vivo, o diagnóstico é retrospectivo. Com hipertonia e feto vivo, corre-se para o parto pela via mais rápida. Com hipertonia e feto morto, escolhe-se a via mais segura para a mãe. E a coagulopatia, quando presente, adiciona a correção hematológica — simultânea ao parto, nunca antes dele.

Conduta: as duas perguntas que decidem tudo

Estabelecido o diagnóstico ou a forte suspeita, o Ministério da Saúde reduz a decisão a duas perguntas: a mãe está hemodinamicamente estável? há feto vivo? Todo o resto decorre dessas duas respostas.

Antes delas, as medidas gerais, que não dependem de nada: dois acessos venosos periféricos calibrosos; exames laboratoriais incluindo hemograma completo, provas de coagulação, tipagem sanguínea, função renal, função hepática e eletrólitos; reserva de quatro unidades de hemoconcentrado nos quadros mais exuberantes; sondagem vesical com débito urinário mantido acima de 30 mL/hora; oxigênio; monitorização contínua. A qualquer sinal de instabilidade, 1.000 mL de cristaloide — 500 mL nos primeiros dez minutos e o restante ao longo de duas horas, o que a FEBRASGO escreve como manutenção de 250 mL/h. O quadro materno é reavaliado a cada hora com pressão arterial, pulso, diurese, hemograma e coagulograma; havendo alteração, o fluxograma é reavaliado do começo.

A amniotomia é mandatória — a palavra é do Ministério da Saúde. Não é manobra para acelerar o trabalho de parto, embora acelere: ela reduz a hemorragia materna e o risco de coagulação intravascular disseminada e de embolia amniótica. A FEBRASGO explicita o mecanismo: reduzir a passagem de tromboplastina para a corrente sanguínea materna. Romper a bolsa descomprime o útero e interrompe a bomba que empurra fator tecidual placentário para dentro da circulação da mãe. Por isso a amniotomia é feita em todos os cenários, inclusive quando a via será cesárea e a paciente ainda espera a sala.

Cenário 1 — mãe estável, feto viável em sofrimento. Gestantes com idade gestacional igual ou maior que 24 a 26 semanas e evidências de sofrimento fetal demandam parto imediato, desde que o serviço tenha suporte perinatal ou consiga transferir. A regra numérica: se a expectativa de tempo até o parto superar 20 minutos, o parto cesáreo deve ser preferido. Se o nascimento por via vaginal é previsível dentro desses 20 minutos — paciente em período expulsivo, por exemplo —, segue-se por baixo, considerando abreviar o expulsivo com parto instrumentalizado. A FEBRASGO diz o mesmo por outra formulação: de modo geral, no feto viável, quando o parto vaginal não for iminente, a via preferida é a cesárea de emergência.

Cenário 2 — mãe estável, feto morto ou de viabilidade incerta (abaixo de 24 semanas). A via vaginal é preferível, contanto que não ponha em risco o bem-estar materno e tenha previsão de nascimento entre quatro e seis horas. Faz-se amniotomia, usa-se ocitocina se houver necessidade de induzir, e reavalia-se o quadro materno a cada hora. Se o parto não couber nessa janela, ou se a mãe deteriorar dentro dela, o desfecho é cesárea de urgência. O raciocínio é aritmético: com o feto já perdido, o que resta a proteger é a mãe, e uma laparotomia em paciente que está consumindo fatores de coagulação acrescenta uma superfície cruenta que pode não parar de sangrar.

Cenário 3 — mãe instável. Cesárea de urgência, direto, sem passar pelas perguntas anteriores e independentemente da vitalidade fetal. Não há janela de tempo negociável aqui: o esvaziamento uterino é parte da ressuscitação, não uma etapa que a sucede.

Uma ausência que também é conduta: no fluxo brasileiro do DPP agudo não existe ramo de conduta expectante. Diagnosticado o descolamento, a gestação se resolve — a discussão é sobre via e prazo, não sobre esperar. E a tocólise é contraindicada no descolamento placentário: o RCOG remete à sua própria diretriz de tocólise para dizê-lo, e a lista de contraindicações do Ministério da Saúde inclui morte fetal intrauterina, vitalidade fetal alterada e hemorragia materna com instabilidade hemodinâmica — três situações que o DPP costuma reunir na mesma paciente.

Coagulopatia: o teste de beira de leito e o que transfundir

O DPP é a causa obstétrica clássica de coagulação intravascular disseminada, e o mecanismo já foi apresentado: tromboplastina tecidual da decídua entrando na circulação materna e gerando trombina em cascata. O grau de hemorragia materna se correlaciona com o grau de anormalidade hematológica.

O exame que mais informa é o fibrinogênio. Os níveis de fibrinogênio apresentam a melhor correlação com a gravidade do sangramento, com a CIVD e com a necessidade de transfusão de múltiplos hemocomponentes: valores iniciais iguais ou inferiores a 200 mg/dL têm valor preditivo positivo de 100% para hemorragia pós-parto grave, e valores iguais ou superiores a 400 mg/dL têm valor preditivo negativo de 79%. O protocolo municipal de São Paulo usa outro corte, mais baixo e mais tardio: fibrinogênio abaixo de 100 mg% indica coagulopatia de consumo instalada; plaquetas abaixo de 100.000 com TTPA alargado são sinais de CIVD.

Mas o exame que decide na primeira hora não precisa de laboratório. É o teste do coágulo, também chamado teste de Weiner: colhem-se 10 mL de sangue periférico materno em tubo de ensaio seco, mantido em temperatura ambiente. Deve haver formação de um coágulo firme — em sete minutos pelo Ministério da Saúde, em sete a dez minutos pela FEBRASGO. Se o coágulo não se formar, ou se formar e depois se dissolver, a coagulopatia está instalada. É simples, custa nada e responde antes do coagulograma; use quando o laboratório não devolver as provas de coagulação em tempo útil.

O que transfundir: reserva de quatro unidades de concentrado de hemácias já na porta, nos quadros exuberantes. Diante de sangramento que não cessa e enquanto se esperam os resultados da coagulação, o RCOG autoriza empiricamente até 4 unidades de plasma fresco congelado — o equivalente a um litro — e 10 unidades de crioprecipitado, que são dois pools, com apoio do hematologista. A anestesia também muda: instabilidade cardiovascular materna e coagulopatia são contraindicações específicas ao bloqueio regional, o que empurra a paciente coagulopata para anestesia geral.

A ordem importa e é fonte de erro em prova: não se espera a correção da coagulopatia para esvaziar o útero. Os cuidados vitais maternos são rápidos e concomitantes à interrupção da gestação. Corrigir a coagulação com a placenta ainda liberando tromboplastina é encher um balde furado.

Depois do parto: Couvelaire, rim e Rh

Útero de Couvelaire, ou apoplexia uteroplacentária, é a infiltração hemorrágica do miométrio pelo hematoma retroplacentário: o útero aparece na laparotomia com aspecto tigroide, arroxeado, com fibras dissociadas por sangue. Assusta, e é aí que a pegadinha nasce.

A conduta é funcional, não anatômica. A rotina da UFRJ é a mais explícita das fontes brasileiras abertas: só realizar histerectomia — e subtotal — se não houver resposta contrátil do útero após a sua sutura e a administração de ocitócicos. Ou seja: o aspecto do útero não indica histerectomia; a atonia que não responde indica. Se o útero contrai depois da histerorrafia e do uterotônico, ele fica, e a paciente vai para monitorização rigorosa — a FEBRASGO destaca justamente que a vigilância materna pós-parto se impõe principalmente quando se identifica Couvelaire no intraoperatório. O outro lado da mesma regra também está escrito, e é o erro oposto: frente a Couvelaire sem resposta contrátil, não adiar a decisão de histerectomia subtotal, mesmo em paciente jovem. Conservar útero que não contrai não é conservar fertilidade, é adiar o controle da hemorragia.

Hemorragia pós-parto deve ser antecipada em toda paciente que teve sangramento anteparto. O RCOG recomenda fortemente o manejo ativo do terceiro período em hemorragia anteparto por descolamento ou por prévia, e sugere considerar a associação ergometrina-ocitocina — com uma ressalva que morde exatamente nesta população: na ausência de hipertensão. Como as síndromes hipertensivas respondem por até metade dos DPPs não traumáticos, a ergometrina fica fora do jogo em boa parte dos casos.

O rim é o outro órgão que cobra a conta. O Ministério da Saúde lista, entre as alterações gerais do DPP, a necrose tubular aguda e a necrose cortical aguda; o RCOG inclui necrose tubular renal entre as complicações maternas da hemorragia anteparto. Não há exame precoce melhor que a diurese horária — é por isso que sondar e manter débito acima de 30 mL/hora não é burocracia de enfermagem, é monitorização de órgão-alvo. A hipófise entra na mesma lista de sequelas isquêmicas, sob o nome de síndrome de Sheehan.

E a imunoglobulina anti-D, que é o item mais esquecido do tema. O DPP em gestante Rh negativo não sensibilizada obriga a profilaxia: o Ministério da Saúde lista sangramento vaginal materno, óbito fetal e trauma abdominal entre as condições que aumentam o risco de sensibilização, e o DPP costuma reunir as três. A dose brasileira é de 300 µg de imunoglobulina anti-D, administrada até 72 horas do evento, independentemente de já ter havido a profilaxia de rotina da 28ª semana; no Brasil existem apresentações de 250 µg e 300 µg, e o próprio manual registra que a cobertura profilática no pós-parto não foi substancialmente diferente entre doses de 100, 200 e 300 µg, com falha de 1,5% e recomendação grau B. O RCOG dimensiona de outro jeito: pelo menos 500 UI após 20+0 semanas, seguidas de teste para identificar hemorragia fetomaterna maior que 4 mL de hemácias, com dose adicional conforme necessário — e, em sangramento recorrente após 20+0 semanas, anti-D a intervalos mínimos de seis semanas. A diferença entre os dois esquemas não é de indicação, é de método: o brasileiro fixa uma dose maior; o britânico dá uma dose menor e titula pelo Kleihauer.

Descolamento crônico: o mesmo nome, outro capítulo

A FEBRASGO reserva uma seção ao descolamento crônico, e vale conhecê-la porque é ela que explica as vinhetas em que o DPP não é uma emergência.

Nesse quadro a gestante apresenta hemorragia leve, crônica e intermitente, com manifestações de doença placentária isquêmica que se desenvolvem ao longo do tempo: oligoâmnio, restrição de crescimento fetal e pré-eclâmpsia. Há risco aumentado de rotura prematura de membranas. E o dado laboratorial que fecha o reconhecimento: os estudos de coagulação são comumente normais. A ultrassonografia pode identificar hematoma placentário — retromembranoso, marginal ou central — e o exame seriado revela a restrição de crescimento e o oligoâmnio.

O prognóstico depende de quando aparece: no segundo trimestre acompanhado de oligoâmnio, o DPP tem prognóstico sombrio, com altas taxas de morte fetal, parto prematuro e morbidade neonatal grave.

A utilidade prática disso é diagnóstica: quando a vinheta descreve sangramento leve e intermitente, coagulograma normal e cardiotocografia tranquilizadora em gestação pré-termo, ela não está descrevendo o DPP agudo do fluxograma. Está descrevendo esse outro fenótipo — e é sobre ele, e só sobre ele, que a literatura internacional discute conduta expectante, como registrado no bloco de divergências.

04

Sangramento na segunda metade: separar antes de examinar

A ordem importa. Primeiro estabiliza-se a mãe, depois se palpa o útero, e só então se decide se algum exame vai mudar alguma coisa. O toque vaginal fica por último e condicionado.

  1. 1Mãe primeiro. Diante de hemorragia importante ou de paciente incapaz de dar história, avalia-se a condição materna e inicia-se a ressuscitação antes de estabelecer a condição fetal. Dois acessos calibrosos, cristaloide, tipagem e reserva de sangue.
  2. 2Mão no abdome — é aqui que o diagnóstico se define. Útero tenso, lenhoso e doloroso à palpação indica descolamento significativo. Útero mole, de tônus normal e indolor aponta para placenta prévia, vasa prévia ou causa do trato genital inferior.
  3. 3Caracterize a dor. Contínua fala a favor de descolamento; intermitente e progressiva ao longo de horas fala a favor de trabalho de parto.
  4. 4Nada de toque vaginal enquanto a placenta prévia não estiver excluída — ou por ultrassom, ou por exame prévio conhecido. O exame especular é permitido e útil: mostra a origem do sangue e a dilatação do colo sem invadir.
  5. 5Ausculte o feto e faça cardiotocografia assim que a mãe estiver estável. Se não houver batimentos audíveis, o ultrassom entra para confirmar ou afastar o óbito fetal — decisão que muda todo o resto.
  6. 6Use o ultrassom para o que ele resolve: dizer se a placenta é prévia e se o feto está vivo. Ele não afasta descolamento, e esperar por ele nunca justifica adiar a conduta.
  7. 7Classifique o grau pelo par hipertonia + vitalidade fetal, colha o teste do coágulo em tubo seco e siga o fluxo de conduta: 20 minutos, 4 a 6 horas, ou cesárea agora.

Grau I

Assintomático ou sangramento discreto, sem hipertonia significativa, feto vivo com vitalidade preservada, sem repercussão hemodinâmica nem coagulopatia. Diagnóstico retrospectivo, pelo coágulo retroplacentário no exame da placenta.

Grau II

Sangramento moderado com hipertonia uterina. Repercussão hemodinâmica materna: taquicardia, alteração postural da pressão e queda do fibrinogênio. Feto vivo, com vitalidade alterada. É o grau do cronômetro de 20 minutos.

Grau III A

Óbito fetal, hipotensão materna acentuada e hipertonia. Sem coagulopatia instalada: o coágulo firme se forma no tubo seco. Mãe estável, a via vaginal é preferível com nascimento previsto em 4 a 6 horas.

Grau III B

O mesmo quadro, com coagulopatia instalada: sem coágulo firme no tubo seco, fibrinogênio em queda, petéquias e equimoses. Transfusão de hemocomponentes junto com o esvaziamento uterino — nunca antes dele.

CausaDor e tônus uterinoSangramentoFeto e o sinal que entrega
DPPDor de início súbito e contínua; útero hipertônico, lenhoso, doloroso à palpação; bolsa das águas tensaEscurecido; pode ser pequeno ou ausente — um em cada cinco casos não exterioriza nada; o volume visível não gradua a gravidadeSofrimento fetal precoce, cardiotocografia anormal em 69%; choque materno desproporcional ao sangue visível; hipertensão ou trauma na história
Placenta préviaIndolor; útero de consistência e tônus normais, não doloroso; ausência de contrações na maioriaVermelho vivo, de início e cessar súbitos, imotivado, reincidente e progressivo a cada episódioFeto bem, salvo hemorragia grave com choque; apresentações anômalas frequentes; nada de toque vaginal antes da ultrassonografia
Rotura uterinaDor súbita e intensa, tipicamente no fundo uterino, seguida de cessação das contraçõesVaginal em cerca de 80% dos casos, mas a hemorragia principal é interna e não apareceHisterotomia prévia na história; hipotensão e taquicardia maternas; parada da movimentação fetal — e a rotura em geral leva a DPP
Rotura de vasa préviaSem dor e sem alteração de tônus uterinoComeça exatamente na rotura das membranas; volume pequeno — e o sangue perdido é FETAL, não maternoDesaceleração grave e sustentada da frequência cardíaca fetal logo após romper a bolsa; volemia fetal de 80 a 100 mL/kg faz a morte vir em minutos; mortalidade perinatal acima de 50% quando o diagnóstico se faz nesse momento

O tônus separa as duas causas mais cobradas: útero lenhoso e doloroso com sangue escuro é DPP; útero mole e indolor com sangue vermelho vivo é placenta prévia. A ressalva existe e cai: em 10% a 20% das prévias há contrações, sangramento e dor, e o descolamento pode não doer muito — quando o quadro é ambíguo, a ultrassonografia serve para dizer se é prévia, não para dizer que não é DPP.

Nos quatro desenhos, o filete que escapa pelo colo é do mesmo tamanho de propósito. O que cresce de um grau para o outro é o hematoma que ninguém vê. Essa é a escala real do DPP — e a razão pela qual o volume exteriorizado nunca entrou na classificação.

Duas causas dessa tabela sangram por conta do feto e não da mãe: a vasa prévia, sempre, e a rotura uterina, em parte. Isso muda a urgência do berço, não a da mãe — na vasa prévia, o obstetra deve clampear o cordão o mais rápido possível após o parto, deixando a porção mais longa com o recém-nascido para facilitar cateterismo umbilical, e o neonatologista precisa estar na sala com sangue reservado.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Via de parto quando o feto já morreu e a mãe está estável

Documentos brasileiros vigentes e RCOG: vaginal, com teto de tempo de 4 a 6 horas

Com óbito fetal ou feto de viabilidade incerta e estabilidade clínico-laboratorial materna, a via vaginal é preferível, contanto que não ponha em risco o bem-estar da mãe e tenha previsão de nascimento entre quatro e seis horas. Faz-se amniotomia, usa-se ocitocina se preciso induzir, e o quadro materno é reavaliado a cada hora por pressão, pulso, diurese, hemograma e coagulograma; qualquer alteração reabre a decisão. O argumento é evitar uma laparotomia em paciente que pode estar consumindo fatores de coagulação, somando superfície cruenta a um distúrbio hemostático. O RCOG chega ao mesmo destino por outro caminho: diagnosticada a morte fetal, o parto vaginal é a via recomendada para a maioria das mulheres, desde que a condição materna seja satisfatória, sendo a cesárea necessária em alguns casos.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 2022 (Fluxograma 1) e FEBRASGO, Protocolo n. 37, 2021; RCOG Green-top Guideline No. 63, 2011

Protocolo municipal de São Paulo (2012): cesárea com feto vivo ou morto, e teto de 2 horas para a via vaginal

Este protocolo institucional escreve como conduta obstétrica no DPP a cesariana com feto vivo ou morto e em qualquer idade gestacional, admitindo o parto vaginal apenas em gestante em condições estáveis e em fase adiantada do trabalho de parto, com amniotomia e indução por período máximo de duas horas. O raciocínio por trás é o mesmo relógio, ajustado para baixo: quanto mais tempo a placenta descolada permanece no útero, mais tromboplastina entra na circulação materna, e um trabalho de parto de seis horas em paciente que já sangra pode terminar em coagulopatia que a cesárea depois não resolve. O documento é de 2012 e reflete uma prática mais cirúrgica.

Kahhale S, Souza E. Protocolos de obstetrícia. Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, 2012

Na prova

As duas posições concordam em mais do que discordam: ambas exigem mãe estável, ambas exigem amniotomia e ambas impõem um teto de tempo. O que muda é o tamanho do teto — 4 a 6 horas contra 2 horas — e o que se faz quando o teto estoura, que em ambas é cesárea. Para identificar o recorte: enunciado que cite nominalmente o Ministério da Saúde, a FEBRASGO ou o cenário SUS está no corpo brasileiro vigente, com a janela de 4 a 6 horas; prova oficial do MEC tende a conduta SUS. Documento institucional de serviço, ou alternativas que ofereçam 'no máximo 2 horas' como número, denunciam o outro corpo. E preste atenção ao que a vinheta faz com a estabilidade materna: se ela descreve hipotensão, oligúria, teste do coágulo alterado ou piora entre reavaliações, o caso saiu do ramo do feto morto e entrou no ramo da mãe instável, onde as duas posições dizem a mesma coisa — cesárea de urgência.

Corticoide antenatal no DPP pré-termo

RCOG (2011): ciclo único entre 24+0 e 34+6 semanas, recomendação grau A

A diretriz orienta oferecer ciclo único de corticoide antenatal a toda mulher entre 24+0 e 34+6 semanas de gestação sob risco de parto pré-termo, e explicita que, quando o sangramento anteparto vem acompanhado de dor sugestiva de atividade uterina ou de descolamento, o risco de parto prematuro está aumentado e o corticoide pode beneficiar. A recomendação cobre o parto pré-termo iatrogênico — aquele que a própria equipe vai indicar — e não só o espontâneo. O corticoide reduz de forma significativa morte neonatal, síndrome do desconforto respiratório e hemorragia intraventricular.

RCOG Green-top Guideline No. 63, 2011 (recomendação grau A, remetendo à Green-top Guideline No. 7)

Documentos brasileiros: o fluxo do DPP não contempla corticoide, e a farmacologia explica

Nem o capítulo de DPP do Manual de Gestação de Alto Risco nem o protocolo da FEBRASGO incluem corticoide na conduta do descolamento — a árvore de decisão corre em minutos e horas. O mesmo manual, no capítulo de prematuridade, informa por que: a eficácia máxima da corticoterapia ocorre quando o parto acontece de dois a sete dias após a primeira dose; depois de 24 horas já existe algum efeito, e abaixo de 24 horas a eficácia é incompleta. Como a tocólise é contraindicada no descolamento e o parto tem prazo de 20 minutos a 6 horas, não existe janela farmacológica a ser aproveitada nos casos que o fluxograma governa.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 2022 (capítulos 5 e 6) e FEBRASGO, Protocolo n. 37, 2021

Na prova

A pergunta que separa os dois mundos não é 'corticoide sim ou não', é 'o parto é agora?'. Nenhuma das fontes admite adiar o nascimento para completar ciclo de corticoide no DPP — alternativa que proponha aguardar 24 ou 48 horas para maturação pulmonar em descolamento com sofrimento fetal está fora dos dois corpos. A leitura do enunciado: vinheta com sofrimento fetal, hipertonia franca ou instabilidade materna cai no ramo do parto imediato, e o corticoide, se administrado, entra sem atrasar nada. Vinheta que descreve gestação pré-termo com sangramento que cessou, mãe estável e cardiotocografia tranquilizadora está no terreno em que a diretriz britânica se aplica e o ciclo de 24+0 a 34+6 semanas faz sentido. Note também que os dois documentos são de anos diferentes — 2011 o britânico, 2021 e 2022 os brasileiros — e que a divergência é de escopo do documento, já que os manuais brasileiros recomendam corticoide entre 24 e 34 semanas em outros contextos de risco de prematuridade, inclusive na placenta prévia abaixo de 34 semanas.

Conduta expectante no descolamento pré-termo

RCOG (2011): conservadora parece segura no pré-termo com cardiotocografia normal

A diretriz registra que a conduta conservadora, ou expectante, parece ser segura em gestações pré-termo com descolamento placentário e cardiotocografia normal, enquanto traçado anormal se associa a mau resultado fetal e obriga a antecipar o parto — evidência de nível baixo, explicitamente classificada como 2-. Para a hemorragia anteparto no pré-termo extremo, abaixo de 26+0 semanas, a diretriz vai além: a conduta conservadora costuma ser apropriada quando a condição materna é estável, e o parto só se considera quando o sangramento ameaça a vida da mulher ou há comprometimento cardiovascular que não responde à ressuscitação. Regra que atravessa tudo: qualquer que seja a idade gestacional, a vida da mãe tem prioridade.

RCOG Green-top Guideline No. 63, 2011 (seções 8.2 e 18)

Documentos brasileiros: o fluxo do DPP agudo não tem ramo expectante

No Fluxograma 1 do Ministério da Saúde só existem três saídas, e as três terminam em nascimento: parto vaginal em até 20 minutos, parto vaginal em até 6 horas, ou cesárea de urgência. Feto de viabilidade incerta, abaixo de 24 semanas, não entra em observação: entra no ramo do feto inviável com mãe estável, cuja saída é parto vaginal em até seis horas. A conduta é individualizada pela extensão do descolamento, pelo comprometimento materno e fetal e pela idade gestacional, mas a individualização escolhe via e prazo, não escolhe esperar.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 2022 (Fluxograma 1) e FEBRASGO, Protocolo n. 37, 2021

Na prova

Antes de aplicar qualquer das duas posições, verifique de que doença a vinheta está falando. O descolamento crônico é uma entidade descrita pela própria FEBRASGO — hemorragia leve, crônica e intermitente, com oligoâmnio, restrição de crescimento e pré-eclâmpsia, e com estudos de coagulação comumente normais. Vinheta com essas palavras não é o DPP agudo do fluxograma, e é sobre esse fenótipo que a discussão de expectante se dá. Sinais de que o enunciado quer o corpo brasileiro: cenário de emergência, hipertonia, sofrimento fetal, sangramento ativo, SUS, pronto-socorro. Sinais de que quer o corpo internacional: pré-termo extremo abaixo de 26 semanas, mãe estável, cardiotocografia normal, sangramento que cessou, vocabulário de 'hemorragia anteparto' em vez de 'DPP'. E há um ponto em que ninguém diverge: cardiotocografia alterada encerra a discussão e antecipa o parto.

A subdivisão do grau III: qual letra é a coagulopatia

FEBRASGO n. 37 (2021) e rotina da UFRJ: III A sem coagulopatia, III B com coagulopatia

A edição revista e atualizada do protocolo escreve, sob o grau III: IIIA, sem coagulopatia instalada; IIIB, com coagulopatia instalada. A tabela clínica da Maternidade-Escola da UFRJ diz o mesmo com outras palavras — na coluna coagulopatia, o grau III A aparece como 'não' e o III B como 'sim'. É a leitura que a maior parte da literatura brasileira reproduz, e a que faz a letra crescer junto com a gravidade.

FEBRASGO, Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 37, 2021 (edição revista e atualizada); Rotinas Assistenciais da Maternidade-Escola da UFRJ

FEBRASGO n. 27 (2018), edição anterior do mesmo protocolo: III A com coagulopatia, III B sem

O mesmo documento, na edição de 2018, imprime a subdivisão na ordem inversa: IIIA, com coagulopatia instalada; IIIB, sem coagulopatia instalada. Não há justificativa clínica no texto para a inversão, e todo o restante do capítulo é praticamente idêntico entre as duas edições — o que aponta para correção editorial na revisão. O PDF de 2018 continua em circulação em repositórios acadêmicos e em material de estudo, e é dele que sai a versão trocada.

Feitosa FE et al. Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 27, 2018

Na prova

Registre os dois anos: 2018 e 2021, mesmo protocolo, mesma comissão, subdivisão invertida — a edição revista e atualizada é a de 2021. A boa notícia é que a maioria das questões não pede a letra: pede o que fazer diante de coagulopatia instalada, e aí o que importa é reconhecer o teste do coágulo alterado e transfundir junto com o esvaziamento uterino. Quando a letra aparece nas alternativas, o desempate está no que a vinheta descreve — ausência de coágulo firme no tubo seco, fibrinogênio baixo, petéquias e equimoses caracterizam a coagulopatia, independentemente de como a banca a rotulou. E se o enunciado citar nominalmente o ano ou o número do protocolo, ele mesmo entregou de qual das duas edições está falando.

06

Caso resolvido

Gestante de 33 anos, terceira gestação, 32 semanas, em acompanhamento por hipertensão arterial crônica, chega ao pronto-socorro obstétrico com dor abdominal de início súbito há 40 minutos, contínua, sem alívio com mudança de posição. Refere pequena perda vaginal de sangue escuro. Ao exame: pressão arterial 150 x 100 mmHg, frequência cardíaca 118 bpm, palidez cutânea, útero com tônus aumentado e doloroso à palpação, altura uterina compatível, batimentos cardíacos fetais de 96 bpm. O acompanhante informa que ela teve um descolamento na gestação anterior.
achado
Dor contínua de início súbito, sangramento vaginal escurecido e escasso, útero hipertônico e doloroso, taquicardia materna e bradicardia fetal. A tríade está completa e o tônus já resolveu o diferencial com placenta prévia — na prévia o útero é mole, indolor e o sangue é vermelho vivo.
leitura do risco
Dois fatores de risco na mesma paciente, e são os dois mais importantes do tema: DPP em gestação anterior, que é o fator de maior magnitude (10 a 15 vezes, chegando a 93 vezes), e síndrome hipertensiva, que é a condição mais frequentemente associada e responde por até metade dos casos não traumáticos. O sangramento escasso não tranquiliza: um em cada cinco casos não exterioriza nada, e o volume visível não guarda relação com a gravidade.
o que não fazer
Não solicitar ultrassonografia para confirmar o diagnóstico antes de agir. A sensibilidade do método fica entre 25% e 60% e um exame sem hematoma retroplacentário não afasta nada. Não fazer tocólise: está contraindicada no descolamento. Não aguardar coagulograma para indicar o parto.
estabilização
Dois acessos venosos calibrosos; 1.000 mL de cristaloide com 500 mL nos primeiros dez minutos e o restante ao longo de duas horas; sondagem vesical com meta de diurese acima de 30 mL/hora; hemograma, provas de coagulação, tipagem sanguínea, função renal e hepática; reserva de quatro unidades de concentrado de hemácias; e o teste do coágulo em tubo de ensaio seco à beira do leito enquanto o laboratório não responde.
conduta obstétrica
Feto vivo e viável com sofrimento, mãe hemodinamicamente estável: parto imediato. Amniotomia — que é mandatória e reduz a hemorragia materna, a CIVD e o risco de embolia amniótica. Como a paciente não está em período expulsivo e o nascimento por via vaginal não é previsível em até 20 minutos, a via é cesárea.
depois do parto
Antecipar hemorragia pós-parto com manejo ativo do terceiro período. Se o útero se apresentar com aspecto tigroide na laparotomia — útero de Couvelaire —, isso por si só não indica histerectomia: só se não houver resposta contrátil após a histerorrafia e os ocitócicos. Como a paciente é hipertensa, a associação ergometrina-ocitocina fica fora. Verificar tipagem: se Rh negativo não sensibilizada, imunoglobulina anti-D 300 µg em até 72 horas.
07

Agora feche você

Gestante de 27 anos, 30 semanas, chega em ambulância após colisão automobilística. Refere dor abdominal intensa e contínua desde o acidente, há duas horas. Não há sangramento vaginal. Pressão arterial 100 x 60 mmHg, frequência cardíaca 112 bpm, útero lenhoso e muito doloroso à palpação. A ultrassonografia realizada na sala mostra ausência de batimentos cardíacos fetais e não identifica hematoma retroplacentário. Colhido sangue em tubo de ensaio seco: após dez minutos não houve formação de coágulo firme. Colo com 3 cm de dilatação, bolsa íntegra.
achado
Trauma abdominal, dor contínua, útero lenhoso e doloroso, óbito fetal confirmado e teste do coágulo alterado — sem sangramento vaginal nenhum.
por que o ultrassom não muda nada
A ausência de hematoma retroplacentário na imagem não afasta o descolamento: a sensibilidade do método é de 25% a 60% e o exame deixa de detectar cerca de três quartos dos casos. O que o ultrassom entregou de útil aqui foi outra coisa — a confirmação do óbito fetal, que é uma das duas perguntas que governam o fluxograma.
classificação
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir ultrassonografia para afastar o DPP É o erro mais caro do tema, e atrai porque a conduta parece prudente. O exame tem sensibilidade de 25% a 60% e valor preditivo negativo de 53% — não ver hematoma retroplacentário é literalmente cara ou coroa. O que o exame faz bem é o oposto: quando mostra o hematoma, confirma (VPP de 88%). Em vinheta com quadro clínico compatível, qualquer alternativa que coloque um exame entre a suspeita e a conduta está errada; o próprio manual do Ministério manda não retardar a abordagem terapêutica.
  2. 2Graduar a gravidade pelo sangue que se vê A banca descreve 'pequeno sangramento vaginal' e espera que o aluno relaxe. Um em cada cinco casos não exterioriza nada, e não há correlação entre o volume externado e o acometimento fetal. O sangue está retido atrás da placenta, e a paciente pode chegar em choque com a roupa limpa. O que gradua é o tônus, a vitalidade fetal e a hemodinâmica materna — nunca a mancha.
  3. 3Fazer toque vaginal antes de excluir placenta prévia Atrai porque o toque parece parte do exame obstétrico básico. Em sangramento da segunda metade sem localização placentária conhecida, o toque pode agravar dramaticamente a hemorragia de uma prévia. O exame especular é permitido e informativo — mostra a origem do sangue e a dilatação. O toque digital só depois que ultrassom ou exame anterior tiverem excluído a prévia.
  4. 4Tratar o DPP pré-termo inicial como trabalho de parto prematuro O próprio manual do Ministério avisa: em fases iniciais e em gestações pré-termo, o DPP pode cursar com contrações sem sangramento evidente, e é diagnóstico diferencial obrigatório do trabalho de parto prematuro. O erro não é só de rótulo: quem rotula como trabalho de parto prematuro prescreve tocólise, que é contraindicada no descolamento e em hemorragia materna com instabilidade. A dor contínua e o útero que não relaxa entre as contrações são o que separa.
  5. 5Achar que útero de Couvelaire manda histerectomizar A imagem do útero tigroide e infiltrado de sangue sugere órgão perdido, e a alternativa 'histerectomia' fica visualmente convincente. Mas a indicação é funcional: histerectomia subtotal apenas se não houver resposta contrátil após a sutura e os ocitócicos. Útero que contrai, fica. O erro simétrico também existe e é pior: diante de útero que não responde, adiar a histerectomia por a paciente ser jovem.
  6. 6Corrigir a coagulopatia antes de esvaziar o útero Parece lógico não operar quem não coagula. Só que a fonte de tromboplastina é a placenta descolada — enquanto ela estiver lá, o consumo continua e a reposição não alcança. Os cuidados vitais maternos são concomitantes à interrupção da gestação, não anteriores a ela. Transfunde-se e esvazia-se ao mesmo tempo.
  7. 7Esquecer a imunoglobulina anti-D É o item que some no meio da emergência e que a banca coloca como alternativa correta justamente por isso. Gestante Rh negativa não sensibilizada com DPP tem indicação de anti-D — 300 µg em até 72 horas no esquema brasileiro —, e isso vale independentemente de já ter recebido a profilaxia de rotina da 28ª semana. Sangramento vaginal materno, óbito fetal e trauma abdominal são, cada um deles, evento sensibilizante.
  8. 8Confundir o fator mais frequente com o fator mais forte Enunciado que pergunta 'qual o principal fator de risco' costuma ter tanto 'síndromes hipertensivas' quanto 'DPP em gestação anterior' entre as alternativas. O antecedente de DPP é o de maior magnitude de risco — 10 a 15 vezes, chegando a 93. A hipertensão é a condição clinicamente mais associada, presente em até 50% dos casos não traumáticos. Leia se a pergunta é sobre força de associação ou sobre frequência.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: sangramento vivo com dor, hipertonia/útero lenhoso e sofrimento fetal em hipertensa sugere descolamento prematuro de placenta (DPP), emergência que exige interrupção imediata (cesárea de urgência se feto vivo) e ressuscitação materna. Placenta prévia cursa com sangramento indolor e sem hipertonia. Vasa prévia causa sofrimento fetal com sangramento, mas é rara e não dá hipertonia/dor materna intensa; aguardar seria fatal. O quadro não é parto normal. Rotura uterina é diferencial, mas o manejo nunca é eletivo/adiado — seria também emergência.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite o fluxograma em voz alta sem consultar: as duas perguntas (mãe estável? feto vivo?) e os três desfechos com seus números — 20 minutos, 4 a 6 horas, cesárea agora. Depois repita a tabela do diferencial pelo tônus uterino: lenhoso e doloroso, mole e indolor, dor que cessa com as contrações, sangramento que começa na amniorrexe. E diga por que a ultrassonografia não afasta DPP, com o número da sensibilidade.

em 30 dias

Refaça a classificação de Sher escrevendo, para cada grau, o par hipertonia + vitalidade fetal e o que aquele grau muda na conduta. Em seguida, liste de memória: o teste do coágulo (quantos mL, que tubo, quantos minutos), por que a amniotomia é mandatória, o que o útero de Couvelaire muda e o que não muda, e a dose e o prazo da imunoglobulina anti-D. Feche revisitando as quatro divergências e o que, em cada uma, denuncia o recorte do enunciado.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 31 anos, 34 semanas, com pré-eclâmpsia em acompanhamento, chega ao pronto-socorro obstétrico com dor abdominal súbita e contínua há uma hora e pequena perda vaginal de sangue escuro. Está taquicárdica, o útero é doloroso e não relaxa entre as palpações, e a ausculta fetal mostra bradicardia. Conduza o atendimento: reconheça o quadro sem apoiar a decisão em exame de imagem, estabilize a paciente, defina a via de parto pelo tempo previsto até o nascimento e não esqueça o que se faz depois — inclusive a tipagem sanguínea. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Descolamento prematuro de placenta — Preparatório para provas | OsceLabs