Ginecologia e ObstetríciaHemorragias da gestação e do puerpério

Rotura uterina: o útero com cicatriz, e o sinal que chega antes do sangue

A decisão se toma duas vezes: no pré-natal, quando se define se este útero entra em trabalho de parto e com o que se induz; e na sala, no minuto em que o traçado despenca e a apresentação sobe.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante de 36 anos, secundigesta, com 39 semanas, chega à maternidade em trabalho de parto. Tem antecedente de uma cesárea prévia por desproporção. À admissão, dilatação de 4 cm, apresentação cefálica, batimentos fetais normais. Subitamente apresenta dor abdominal intensa, sangramento vaginal e o padrão de contrações cessa, com deterioração dos batimentos cardíacos fetais. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?

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Como esse tema cai

Rotura uterina é uma emergência que quase nunca se anuncia pelo sangue. Ela se anuncia pelo traçado, pela dor que não cede no intervalo entre as contrações e pela apresentação que sobe — e o sangue que importa já está dentro do abdome quando algum aparece na vagina. Este capítulo trata da parede uterina como objeto de decisão: qual cicatriz este útero tem, o que se pode usar para amadurecer o colo dele, que vigilância a tentativa exige, e o que se faz no minuto em que a tentativa termina.

O recorte é deliberadamente estreito de um lado e completo do outro. Fica de fora o acretismo placentário, que divide com a rotura o mesmo antecedente — a cesárea anterior — mas cuja investigação, planejamento e resolução já estão escritos em 'Placenta prévia', na seção que trata do que a placenta prévia obriga a procurar. Ficam de fora também o manejo da hemorragia pós-parto por atonia, que está em 'Hemorragia pós-parto', e a leitura do traçado categorizada, que está em 'Cardiotocografia intraparto'. Aqui entra o que é da parede: a cicatriz, a indução, a vigilância, os sinais e a mesa.

Fica dentro, e é o eixo: a diferença entre rotura e deiscência, o que a incisão uterina prévia autoriza, a droga que a régua nacional proíbe nesse útero, a síndrome de iminência com os dois sinais que a nomeiam, os achados da rotura consumada em ordem de frequência, a decisão entre costurar e retirar, e o que a mulher precisa saber antes da alta sobre a próxima gestação.

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O que muda decisão

O útero que se rompe e o útero que apenas se abre

Duas coisas diferentes moram sob o mesmo nome, e separá-las é a primeira decisão do tema. A rotura uterina é a solução de continuidade que atravessa toda a parede do útero, serosa inclusive, e põe a cavidade uterina em comunicação com a cavidade peritoneal. A deiscência de cicatriz — a chamada janela uterina — é o afinamento ou a abertura do miométrio com a serosa preservada, sem sangramento significativo e, na maioria das vezes, sem sintoma nenhum.

A consequência é direta. A deiscência costuma ser achado de cesárea: o cirurgião abre o abdome por outra indicação e encontra um segmento inferior translúcido, através do qual se veem as membranas ou o feto. Não há hemorragia nem colapso, e o achado não é emergência — é informação sobre a próxima gestação. A rotura completa é o oposto: a hemorragia é intraperitoneal, o feto pode ser extruído para o abdome, e a perda é grande antes que apareça sangue na vagina.

É por isso que quem espera o sangramento vaginal para pensar em rotura chega tarde. O sangue que importa está dentro do abdome. Quando a mulher sangra pela vagina, ela já perdeu antes, e a queda de pressão pode ser desproporcional ao que se vê no absorvente — o achado clássico de choque sem sangramento externo compatível.

A terceira distinção é temporal e vale para a conduta. A rotura pode ser iminente, quando o útero ainda está inteiro mas já dá os sinais de que vai ceder, e consumada, quando cedeu. A iminente ainda comporta uma decisão de via de parto tomada com a mulher na sala; a consumada é laparotomia. Confundir as duas é o modo mais rápido de perder tempo, porque a iminente pede que se pare de estimular o útero e se leve a mulher para o centro cirúrgico, e a consumada pede que se abra o abdome.

Uma quarta distinção é anatômica: a rotura do segmento inferior, que segue a cicatriz de uma cesárea transversa, e a rotura do corpo uterino, que acompanha cicatriz longitudinal ou útero sem cicatriz alguma. A primeira sangra menos, costuma poupar as artérias uterinas e com frequência se costura; a segunda envolve mais vasos e é a que mais termina em histerectomia. O sítio, portanto, não é detalhe descritivo: ele antecipa o que a mesa vai exigir e o que se poderá prometer sobre gestações futuras.

A cicatriz manda, e manda pelo tipo de corte

A esmagadora maioria das roturas acontece em útero que já foi aberto. E o que decide o risco não é apenas ter cicatriz: é qual cicatriz.

A incisão segmentar transversa — a de quase toda cesárea moderna — é feita num segmento inferior fino, pouco muscular e pouco contrátil. Ela cicatriza bem, é a que sustenta a oferta de parto vaginal depois de cesárea e carrega o risco mais baixo. A incisão longitudinal, seja corporal clássica, seja segmento-corporal, atravessa músculo que se contrai com força a cada metrossístole; é a cicatriz que rompe com muito mais frequência, e pode romper antes mesmo do trabalho de parto começar. O documento federal brasileiro é categórico: o trabalho de parto e o parto vaginal não são recomendados na mulher com cicatriz uterina longitudinal de cesariana anterior.

A mesma lógica vale para cirurgias que não são cesárea. Miomectomia com abertura da cavidade e correção de malformação uterina deixam cicatriz corporal e entram na mesma categoria de cautela. Rotura uterina prévia é o extremo da escala: quem já rompeu não entra em trabalho de parto de novo.

O número de cesáreas anteriores muda a conversa, mas não do jeito que se costuma supor. A diretriz inglesa admite oferecer parto vaginal a mulheres com duas ou mais cesáreas segmentares prévias, desde que o aconselhamento seja feito por obstetra experiente, que inclua o risco de rotura e de morbidade materna, e que o trabalho de parto ocorra em serviço com acesso imediato à cirurgia. Não é proibição: é condição.

Dois outros marcadores do útero operado aparecem nas listas de risco e merecem leitura cuidadosa. O primeiro é a espessura do segmento inferior medida por ultrassonografia — segmento fino associa-se a mais rotura nos estudos, mas a régua brasileira desaconselha fazer essa medida de rotina, e o mesmo vale para a pelvimetria. O segundo é o intervalo entre os partos, que é objeto de divergência entre documentos e reaparece adiante.

Fica então a pergunta que se faz antes de qualquer outra: onde foi o corte da última vez? A resposta não está na barriga da mulher — a incisão de pele não informa a incisão uterina — e sim no relatório cirúrgico. Quando ele não existe, a conduta prudente trata a cicatriz como desconhecida e leva a decisão a quem tem experiência.

Os úteros que se rompem sem cicatriz nenhuma

Rotura em útero íntegro é rara e, por isso, diagnosticada tarde: ninguém a procura. Os cenários têm denominador comum — o útero contraiu contra um obstáculo, ou foi estimulado além do que suportava.

O primeiro cenário é o parto obstruído. Desproporção não reconhecida, apresentação córmica, hidrocefalia, feto macrossômico num canal que não o comporta: o útero contrai, o feto não desce, o segmento inferior se distende progressivamente e afina até ceder. É a rotura das horas de trabalho de parto sem reavaliação, e é a que mais mata onde o acesso à cesárea é ruim.

O segundo é a estimulação inadequada do útero. Ocitocina em dose crescente sem reavaliar a resposta, indução com prostaglandina em situação em que ela não cabe, e a soma dos dois com um colo que não amadurece produzem taquissistolia e hipertonia — o útero deixa de relaxar entre as contrações e trabalha continuamente contra a resistência.

O terceiro é o trauma sobre o útero gravídico, direto ou iatrogênico: a pressão sobre o fundo uterino no expulsivo, hoje proscrita, a versão interna, a extração pélvica difícil, o fórceps alto e o trauma abdominal fechado de alta energia.

O quarto é a grande multiparidade, cujo miométrio acumula substituição de fibra muscular por tecido conjuntivo e tolera menos distensão. Some-se a placentação anormalmente invasiva: a placenta percreta atravessa o miométrio e pode romper o útero longe do trabalho de parto, às vezes no segundo trimestre, com dor abdominal e instabilidade sem sangramento vaginal.

Reconhecer esses cenários muda o que se procura. Sem cesárea prévia, a rotura não é lembrada pela história, e sim pela cena: trabalho de parto longo, útero que contraía bem e parou, dor que não cede no intervalo. Quem só a considera em quem tem cicatriz deixa de diagnosticá-la onde ela é mais letal.

O que não se usa para amadurecer um colo com cicatriz atrás

Induzir o parto de um útero com cicatriz é a decisão em que mais se erra, e a régua brasileira é surpreendentemente clara nela.

O misoprostol está proscrito. O documento federal que orienta a operação cesariana no país escreve que o uso de misoprostol para indução do parto em mulheres com cicatriz de cesárea anterior não é recomendado, e acrescenta a cláusula que fecha a porta: independentemente do número de cesáreas prévias. Não há dose baixa que o torne aceitável, não há via que o torne aceitável, e não existe a categoria de cicatriz antiga o bastante. A prostaglandina produz contração que não se desliga: uma vez administrada, não se retira o comprimido de dentro da vagina em tempo útil de mudar o desfecho.

O que se admite é o balão cervical e a ocitocina, ambos com adjetivo: uso prudente, apenas com indicação médica, e indução eletiva por conveniência do médico ou da gestante expressamente vedada. O balão dilata sem introduzir droga uterotônica e é removível; a ocitocina tem meia-vida curta, e desligar a bomba desliga o estímulo em minutos.

O preço da indução, mesmo feita com o que se admite, está medido. A diretriz inglesa informa a mulher de que o trabalho de parto induzido ou conduzido carrega risco de rotura duas a três vezes maior do que o trabalho de parto espontâneo depois de cesárea, além de mais chance de terminar em cesárea. Esse número é o que transforma a indução numa decisão de obstetra experiente e não de rotina de plantão: a mesma diretriz pede que a decisão de induzir, o método escolhido, a decisão de usar ocitocina, o intervalo entre os toques e os parâmetros de progresso que interrompem a tentativa sejam todos discutidos com a mulher por um obstetra sênior.

Traduzido para a prescrição: com cesárea anterior e indicação real de interromper a gestação, a pergunta não é qual dose de misoprostol usar, e sim se o colo já está favorável — porque, se não estiver, o caminho é mecânico ou cirúrgico. Prescrever misoprostol a um útero com cicatriz é, na régua nacional vigente, erro de conduta com nome e endereço.

Quem pode tentar o parto vaginal depois de uma cesárea

A prova de trabalho de parto depois de cesárea não é uma concessão nem uma temeridade: é a conduta recomendada na maioria das situações, e é assim que o documento federal brasileiro a descreve. O que a torna segura é o cenário em que ela acontece.

As contraindicações são poucas e firmes: cicatriz uterina longitudinal, rotura uterina prévia, cirurgia uterina com abertura da cavidade, e qualquer indicação obstétrica independente de cesárea — placenta prévia, apresentação anômala, comprometimento fetal já estabelecido. Fora disso, a conversa é de aconselhamento, não de veto.

As chances ajudam a decidir e devem ser ditas em voz alta. A diretriz inglesa registra taxa de sucesso da prova de trabalho de parto planejada entre setenta e dois e setenta e cinco por cento, e informa que parto vaginal anterior — sobretudo um parto vaginal anterior depois de cesárea — é o melhor preditor isolado de sucesso, elevando a taxa para a faixa de oitenta e cinco a noventa por cento. O mesmo antecedente reduz, de forma independente, o risco de rotura. Do outro lado da balança, o risco de rotura na prova planejada é de aproximadamente um em duzentos.

O lugar é parte da indicação: maternidade com equipe e estrutura para cesárea imediata e reanimação neonatal avançada, acesso venoso garantido, tipagem e reserva de sangue, e cuidado individualizado durante todo o trabalho de parto. Serviço que não abre o abdome em minutos não é lugar para essa tentativa — e por isso a via de parto se decide no pré-natal e se registra em prontuário, com motivos, data, nome de quem decidiu e termo de consentimento assinado.

O sinal de alerta silencioso que a diretriz inglesa nomeia merece destaque porque quase ninguém o ensina: a necessidade crescente de analgesia durante a prova de trabalho de parto foi identificada como fator independente associado a rotura iminente. A analgesia peridural não está contraindicada — mas a mulher que pede reforço atrás de reforço está dizendo alguma coisa sobre o útero dela, e não sobre o limiar de dor dela.

A prova de trabalho de parto, portanto, se oferece com generosidade e se vigia com rigor. Quem restringe a oferta torna toda mulher com cesárea cirúrgica para sempre; quem a oferece sem estrutura assume um risco que não é dela.

A rotura iminente tem dois nomes de gente e um útero em ampulheta

Antes de romper, o útero obstruído avisa, e o aviso tem forma. A síndrome de iminência de rotura é um quadro de exame físico, não de exame complementar.

O anel de retração que separa o corpo uterino do segmento inferior distendido sobe progressivamente em direção à cicatriz umbilical, e passa a ser visível e palpável como um sulco transversal no abdome. O útero adquire contorno de ampulheta: duro e globoso acima do anel, fino e distendido abaixo dele. Esse é o sinal que leva o nome de Bandl.

Ao mesmo tempo, os ligamentos redondos se tornam tensos, retesados e palpáveis como duas cordas oblíquas partindo do fundo uterino em direção às regiões inguinais, porque estão sendo tracionados pelo corpo uterino que sobe. É o sinal que leva o nome de Frommel. Juntos, os dois compõem a síndrome que carrega os dois nomes.

Completa o quadro a clínica do útero que trabalha contra um obstáculo: contrações frequentes e cada vez mais dolorosas, útero que não relaxa entre elas, dor contínua sobre o segmento inferior, agitação, e ausência de progressão apesar de dinâmica exuberante.

O que se faz diante disso é o que quase se esquece de ensinar: interromper imediatamente qualquer uterotônico em curso, não estimular mais, e levar a mulher para o centro cirúrgico. Tocólise de resgate pode ser usada enquanto se prepara a sala. Não se pede exame de imagem, não se aguarda a próxima reavaliação e, sobretudo, não se tenta abreviar o expulsivo por via vaginal num útero que está avisando que vai ceder — a pressão sobre o fundo uterino, nesse cenário, é o gesto que consuma a rotura.

Reconhecer a iminência é a única oportunidade de transformar catástrofe em cesárea: depois que o anel sobe, o intervalo até a rotura é curto, e não há nada a ganhar esperando.

Esquema de útero gravídico visto de frente: a porção superior é espessa e globosa, a porção inferior é fina e alongada, e um sulco transversal alto separa as duas; dois ligamentos redondos aparecem retesados, partindo do fundo uterino em direção às regiões inguinais.
Contorno em ampulheta: o sulco transversal sobe conforme o segmento inferior se distende, e os ligamentos redondos ficam tensos e palpáveis na parede abdominal.

O traçado chega antes do sangue

Se houvesse um único achado para levar deste tema, seria este: a alteração da frequência cardíaca fetal é o sinal mais constante da rotura uterina, e costuma ser o primeiro. A diretriz inglesa mede o quanto: a cardiotocografia anormal está presente na maioria dos episódios, numa faixa que vai de dois terços a três quartos dos casos, e mais da metade das roturas se apresenta como combinação de achados — mais frequentemente traçado anormal somado a dor abdominal.

O padrão típico é a desaceleração prolongada ou a bradicardia sustentada, que se instala e não se recupera. Ela pode ser precedida por desacelerações variáveis recorrentes, mas o que caracteriza a rotura é o traçado que deixa de melhorar com as medidas habituais.

Um detalhe do traçado é quase patognomônico e raramente aparece nas listas: a impossibilidade de captar o coração fetal no sítio habitual. O transdutor estava no lugar, o sinal era bom, e de repente não há batimento naquele sítio — porque o feto mudou de compartimento.

Os demais achados clínicos se somam a ele, e nenhum é obrigatório: dor abdominal intensa, sobretudo a dor que persiste entre as contrações; dor localizada e súbita sobre a cicatriz; sangramento vaginal anormal; hematúria, quando a rotura envolve a bexiga; cessação da dinâmica uterina que vinha eficiente; taquicardia materna, hipotensão, lipotimia ou choque; perda da altura da apresentação ao toque, com a parte que estava insinuada tornando-se alta e móvel; e mudança do contorno abdominal, com partes fetais que passam a ser palpáveis sob a parede.

Observe o que essa lista não tem: não tem exame de laboratório, não tem imagem e não tem tempo. A conjunção que importa é a de uma mulher com útero cicatrizado ou obstruído, em trabalho de parto, com traçado que despenca e dor que não cede. O diagnóstico é feito na sala de cirurgia, e a própria diretriz inglesa escreve isso com todas as letras: o diagnóstico se faz na cesárea de emergência ou na laparotomia pós-parto.

A suspeita, portanto, é indicação suficiente: pedir imagem antes de indicar a laparotomia troca minutos de feto vivo por um exame que não exclui o diagnóstico.

Onde a rotura acontece, e em que momento do trabalho de parto

A rotura tem uma epidemiologia interna que orienta a vigilância, e ela é mais concentrada do que a intuição sugere.

A ampla maioria dos episódios acontece durante o trabalho de parto, e o pico se dá numa faixa estreita de dilatação — em torno da metade do período de dilatação, quando as contrações já são fortes e sustentadas e a apresentação começa a encontrar resistência. Uma fração menor, mas nada desprezível, ocorre no segundo período, e uma parcela é identificada apenas depois do parto vaginal, quando a mulher permanece com dor, instabilidade ou sangramento que não se explicam pelo útero contraído.

Esse último grupo é o que mais escapa. A mulher pariu por via vaginal, o útero está contraído, e ainda assim ela taquicardiza, hipotende e queixa dor abdominal difusa. Atribuir isso a dor de pós-parto, ou tratar como hemorragia por atonia num útero que está duro, é o erro que atrasa a laparotomia. Útero contraído com choque é sangramento em outro lugar, e no puerpério imediato de uma prova de trabalho de parto esse outro lugar tem endereço.

A distribuição temporal explica por que a vigilância não afrouxa quando o trabalho de parto vai bem: o risco acompanha o esforço uterino do começo ao fim, e sobrevive ao nascimento. Daí a regra que a diretriz inglesa formaliza — a vigilância da prova de trabalho de parto não é apenas fetal. Ela inclui acompanhamento contínuo do bem-estar materno, avaliação periódica do progresso cervicométrico e cuidado individualizado. Progresso que trava num útero com cicatriz não é só um problema de tempo: é um dos contextos em que o útero rompe.

Primeiro ato: abrir o abdome

Diante da suspeita de rotura consumada, a sequência é curta e não admite etapa intermediária: laparotomia imediata, com reanimação materna correndo em paralelo, e não antes dela.

Em paralelo significa dois acessos calibrosos, tipagem e prova cruzada, acionamento do estoque de sangue e do protocolo de hemorragia maciça, e reposição iniciada a caminho da sala. Não significa estabilizar primeiro e operar depois: o sangramento é arterial e intracavitário, e só a cirurgia o interrompe. Com o abdome fechado, nenhuma reposição alcança o ritmo da perda.

O uterotônico não tem papel aqui, e essa é uma inversão que merece ser dita: na atonia, o útero que não contrai é o problema, e o fármaco é a resposta; na rotura, o útero pode até estar contraído, e o que sangra é a solução de continuidade e os vasos que ela abriu. Prescrever ocitocina para uma rotura é tratar o diagnóstico errado com o gesto certo.

Sobre o feto, o dado que orienta a pressa é o intervalo entre a alteração do traçado e o nascimento. Quanto mais curto esse intervalo, menor a chance de acidose grave e de encefalopatia hipóxico-isquêmica — e o alvo praticável em maternidade estruturada se conta em poucos minutos, não em dezenas. É a razão pela qual a prova de trabalho de parto exige centro cirúrgico em prontidão, e não centro cirúrgico disponível.

Aberto o abdome, a primeira tarefa é hemostática antes de ser reconstrutiva: retirar o feto e a placenta, identificar a extensão da rotura, clampear ou comprimir o que sangra, e só então decidir o que fazer com o útero. Inspecionar a bexiga é parte obrigatória do inventário — a rotura do segmento inferior anterior pode continuar na parede vesical, e a hematúria vista antes da cirurgia é o aviso.

Também se inventariam os ligamentos largos e os pedículos uterinos: hematoma que disseca o ligamento largo esconde volume grande de sangue e desloca o ureter — reconhecê-lo na mesa evita a sequela urológica.

Costurar ou retirar: o que se decide na mesa

Depois de conter o sangramento, resta a decisão que a mulher vai carregar pelo resto da vida reprodutiva. Ela é tomada com o abdome aberto e com dados que não existiam antes.

O reparo primário — sutura da rotura em planos — é preferível sempre que quatro condições se somam: a rotura é regular e limitada, tipicamente a que segue a cicatriz segmentar; as bordas estão viáveis; a mulher está hemodinamicamente estável ou responde à reposição; e há desejo de gestação futura. É a situação mais comum na rotura de cicatriz transversa, e é a que permite oferecer à mulher a possibilidade de engravidar de novo.

A histerectomia entra quando a rotura é extensa ou irregular, quando compromete o colo, os pedículos vasculares ou se estende ao ligamento largo, quando as bordas estão desvitalizadas, quando a mulher segue instável a despeito da reposição, ou quando o sangramento não cede após a tentativa de reparo. Vale a regra geral da cirurgia de urgência: a decisão de retirar o útero é mais frequentemente tomada tarde demais do que cedo demais, e a mulher precisa estar viva para conversar sobre fertilidade.

Entre as duas condutas cabem manobras de controle vascular — ligadura das artérias uterinas e, quando necessário, das hipogástricas — que podem tornar viável um reparo que parecia impossível. Elas compram campo cirúrgico e reduzem perda, mas não substituem a decisão: útero irreparável ligado é útero irreparável.

A lesão vesical identificada se repara no mesmo tempo cirúrgico, com sondagem vesical de demora prolongada no pós-operatório. E o cuidado não termina na sala: essas mulheres saem com perda sanguínea grande, risco de coagulopatia de consumo e de lesão renal aguda, e devem ir para leito de vigilância intensiva com reavaliação seriada de hemoglobina, coagulograma, diurese e função renal.

Por fim, o registro. O relatório precisa descrever o sítio exato da rotura, se ela seguiu ou não a cicatriz prévia, a extensão, o que foi feito e o que foi lesado. Esse texto é o documento que vai decidir a via de parto da próxima gestação — e escrevê-lo mal é transferir para o obstetra seguinte uma decisão sem base.

Depois: a conversa que começa na alta e termina na próxima gestação

A mulher que teve rotura uterina e manteve o útero sai do hospital com uma informação que muda toda gestação futura, e ela precisa sair sabendo disso — não descobrir no pré-natal seguinte.

A primeira regra é absoluta: rotura prévia contraindica prova de trabalho de parto. Não há circunstância obstétrica favorável que a reabra. Toda gestação subsequente se resolve por cesárea programada, e programada quer dizer antes que o trabalho de parto comece — porque o objetivo é justamente evitar a contração sobre um útero que já cedeu uma vez.

A segunda é que o risco de recorrência não é uniforme: ele é menor quando a rotura anterior ficou restrita ao segmento inferior e maior quando envolveu o corpo uterino. Essa distinção depende do relatório cirúrgico, e é a razão de ele existir.

A terceira é o intervalo: a próxima gestação não deve vir logo em seguida, e a contracepção eficaz faz parte da alta — não como conselho genérico, mas como conduta indicada pelo evento. Quem perdeu o útero não precisa de método, e sim de acolhimento e de informação clara sobre o que foi retirado; quem o manteve precisa de método eficaz e de um plano escrito para a gestação seguinte.

A quarta é o luto e a culpa. Rotura uterina é um evento com desfecho perinatal frequentemente ruim, e a mulher costuma sair do hospital acreditando que escolheu errado ao tentar o parto vaginal. A conversa honesta separa a decisão do desfecho: a prova de trabalho de parto foi oferecida sob critérios, com risco conhecido e comunicado, e um evento raro não retroage para transformar uma decisão correta em erro.

E há o encaminhamento institucional. Rotura uterina compõe a morbidade materna grave, e revisá-la no serviço — o que se ofereceu, com que estrutura, em quanto tempo se abriu o abdome — é o que melhora o desfecho da próxima mulher. A diretriz inglesa a inclui entre os eventos de auditoria obrigatória, ao lado da histerectomia periparto e da mortalidade materna.

04

Da cicatriz à laparotomia: quatro perguntas, sempre nesta ordem

A ordem não é estética. Quem pula a primeira induz com a droga errada; quem pula a terceira pede imagem enquanto o feto acidosa.

Primeira: qual cicatriz este útero tem?

Segmentar transversa: prova de trabalho de parto recomendada na maioria das situações; risco de rotura ~1 em 200 (0,5%) na prova planejada. Longitudinal (clássica ou segmento-corporal): trabalho de parto não recomendado (diretriz federal brasileira). Miomectomia com abertura de cavidade e rotura uterina prévia: mesma proibição. Duas ou mais cesáreas segmentares: pode ser oferecida após aconselhamento por obstetra sênior, em serviço com cirurgia imediata (RCOG 45). Ultrassonografia da cicatriz e pelvimetria não são recomendadas de rotina.

Segunda: como este colo vai amadurecer?

Misoprostol: não recomendado com cicatriz de cesárea anterior, independentemente do número de cesáreas prévias (diretriz federal brasileira). Balão cervical e ocitocina: uso prudente, apenas com indicação médica; indução eletiva por conveniência é vedada. O preço da indução está medido: risco de rotura 2 a 3 vezes maior e ~1,5 vez mais cesárea do que no trabalho de parto espontâneo (RCOG 45). Sucesso da prova planejada: 72%–75%; com parto vaginal anterior, 85%–90%.

Terceira: o traçado ou o exame mudou?

Cardiotocografia anormal é o achado mais constante da rotura: 66%–76% dos episódios; mais da metade se apresenta como traçado anormal + dor abdominal (RCOG 45). Somam-se: dor que persiste entre contrações, dor súbita sobre a cicatriz, sangramento vaginal, hematúria, cessação da dinâmica, taquicardia/hipotensão/choque, perda da altura da apresentação, mudança do contorno abdominal e perda do foco cardíaco no sítio habitual. Mais de 90% ocorrem no trabalho de parto (pico em 4–5 cm); ~18% no segundo período; 8% detectadas após o parto vaginal.

Quarta: costurar ou retirar?

Laparotomia imediata; reanimação em paralelo, nunca antes. Reparo primário: rotura regular, limitada, bordas viáveis, mulher estável, desejo reprodutivo — típico da rotura de cicatriz segmentar. Histerectomia: extensa/irregular, colo ou pedículos envolvidos, ligamento largo, bordas desvitalizadas, instabilidade persistente, falha do reparo. Inventariar bexiga e ligamentos largos. Descrever sítio e extensão no relatório — é o que decide a via de parto da próxima gestação. Rotura prévia: cesárea programada, sem nova prova de trabalho de parto.

A incisão de pele não informa a incisão uterina: sem relatório cirúrgico, a cicatriz é desconhecida e a decisão sobe de nível.

Necessidade crescente de analgesia durante a prova de trabalho de parto é fator independente associado a rotura iminente (RCOG 45) — a peridural não está contraindicada, mas o pedido repetido é sinal.

Útero contraído com choque no pós-parto imediato de uma prova de trabalho de parto não é atonia.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Monitorização fetal na prova de trabalho de parto após cesárea: intermitente ou contínua

Intermitente

"Para as gestantes que desejam um parto vaginal após cesariana é recomendada a monitorização fetal intermitente e assistência que possibilite acesso imediato à cesariana." A recomendação vem rotulada como qualidade de evidência LE4 e está no mesmo quadro que veda o misoprostol nessa população.

Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana (Conitec/Ministério da Saúde, nº 179, março/2016), quadro de recomendações, deslocamento normalizado 19.916 (PyMuPDF) e 19.945 (pypdf)

Contínua, desde a primeira contração regular

"Women should be advised to have continuous electronic fetal monitoring for the duration of planned VBAC, commencing at the onset of regular uterine contractions." A monitorização contínua reaparece como item da lista de cuidados obrigatórios do trabalho de parto e como padrão de auditoria com meta de 100%.

RCOG Green-top Guideline No. 45, Birth After Previous Caesarean Birth (outubro/2015), deslocamento normalizado 5.672 (PyMuPDF) e 5.673 (pypdf)

Na prova

As duas réguas medem a mesma variável, na mesma população, com instruções opostas — não é diferença de regime nem de população. O enunciado que cita explicitamente a diretriz nacional de operação cesariana pede a leitura brasileira; o enunciado sem citação, com cenário de maternidade estruturada e prova de trabalho de parto planejada, cobra a vigilância contínua, que é a que sustenta o achado seguinte do tema: o traçado é o sinal mais constante de rotura, e traçado intermitente pode simplesmente não estar ligado na hora em que ele muda.

Intervalo curto entre os partos: fator de risco de rotura, ou não

Menos de seis meses não impede, se as condições forem favoráveis

"O trabalho de parto e parto vaginal em mulheres com cesariana prévia pode ser realizado mesmo quando esse intervalo é de menos de 6 meses, se as condições obstétricas são favoráveis." Rotulado como qualidade de evidência LE4.

Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana (Conitec/MS, 2016), quadro de recomendações, deslocamento normalizado 19.712 (PyMuPDF)

Menos de doze meses está na lista de risco — e o estudo citado logo abaixo o retira

A mesma seção escreve que "factors that potentially increase the risk of uterine rupture include short inter-delivery interval (less than 12 months since last delivery)" e, três linhas adiante, relata estudo retrospectivo com 3.176 pacientes cuja conclusão é que intervalo menor que doze meses "is not a risk factor for major complications such as uterine rupture and maternal death, but that it is for preterm delivery", fechando com a frase de que a presença desses fatores não contraindica a prova de trabalho de parto.

RCOG Green-top Guideline No. 45 (2015), seção 6.4, deslocamentos normalizados 21.072 e 21.439 (PyMuPDF)

Na prova

Aqui a divergência não é só entre documentos: ela existe dentro de um deles, entre a lista de fatores e o estudo que a própria lista cita. Enunciado que apresenta intervalo curto como contraindicação está errado pelas duas réguas — nenhuma das duas contraindica. O que o intervalo curto faz é entrar no aconselhamento e elevar o nível de quem decide, não fechar a porta. Trate como divergência sobre a força do fator, nunca como fato consolidado.

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Caso resolvido

Mulher de 31 anos, G3P2 (um parto vaginal e uma cesárea segmentar transversa há três anos, por sofrimento fetal), com 39 semanas e 2 dias, admitida em trabalho de parto espontâneo, dilatação de 5 cm, bolsa íntegra, apresentação cefálica insinuada. Optou por prova de trabalho de parto no pré-natal, com termo assinado. Recebeu peridural há duas horas e já pediu dois reforços. Há vinte minutos refere dor abdominal intensa que não alivia entre as contrações; a dinâmica, antes de quatro contrações em dez minutos, cessou. A cardiotocografia mostra bradicardia de 70 bpm sustentada há quatro minutos, e a enfermeira relata que precisou reposicionar o transdutor porque "sumiu o coração onde estava". Ao toque, a apresentação, antes no plano zero de DeLee, está alta e móvel. Pressão arterial 88 x 52 mmHg, frequência cardíaca materna 128 bpm, sangramento vaginal escasso.
primeiro, nomear a cena: qual é a conjunção?
Não é um achado, são cinco somados: traçado que despencou e não recupera, dor que persiste entre as contrações, cessação de uma dinâmica que era eficiente, perda da altura da apresentação e perda do foco cardíaco no sítio em que ele vinha sendo captado. A diretriz inglesa lista exatamente esses itens como as características clínicas da rotura de cicatriz uterina, e registra que mais da metade dos episódios se apresenta como combinação — mais frequentemente traçado anormal com dor abdominal. O sangramento vaginal escasso não afasta nada: na rotura completa o sangue vai para o peritônio.
segundo, ler o detalhe que a maioria ignora
Os dois reforços de peridural em duas horas não são um dado de conforto. A necessidade crescente de analgesia durante a prova de trabalho de parto foi identificada como fator independente associado a rotura iminente, e a explicação proposta é que a dor crescente precede a rotura. Retrospectivamente, esse foi o primeiro aviso — antes do traçado.
terceiro, decidir o que não se faz
Não se pede ultrassonografia: imagem normal não exclui rotura e o diagnóstico se faz na cesárea de emergência ou na laparotomia. Não se prescreve ocitocina: o útero pode até estar contraído, e o que sangra é a solução de continuidade. Não se tenta abreviar o expulsivo por via vaginal, e sobretudo não se aplica pressão sobre o fundo uterino — com a apresentação alta e móvel, não há parto vaginal a ser abreviado. E não se estabiliza antes de operar: enquanto o abdome estiver fechado, nenhuma reposição alcança o ritmo da perda.
quarto, executar em paralelo
Laparotomia imediata, com a reanimação correndo junto: dois acessos calibrosos, tipagem e prova cruzada, acionamento do estoque de sangue e do protocolo institucional de hemorragia maciça, reposição iniciada no trajeto. A prontidão do centro cirúrgico é parte da indicação da prova de trabalho de parto justamente para este minuto: o intervalo entre a bradicardia e o nascimento é o que se correlaciona com acidose grave e encefalopatia.
quinto, o que decidir com o abdome aberto
Retirar feto e placenta, conter o sangramento, e só então avaliar o útero. Cicatriz segmentar transversa que rompeu de forma regular, bordas viáveis, mulher que responde à reposição e deseja engravidar de novo: reparo primário em planos. Inventariar bexiga — a rotura anterior do segmento pode continuar na parede vesical — e ligamentos largos. Descrever no relatório o sítio exato e a extensão: é esse texto que vai decidir a via de parto da próxima gestação.
sexto, a conversa antes da alta
Se o útero foi preservado, ela sai sabendo de duas coisas. Rotura prévia contraindica nova prova de trabalho de parto: toda gestação seguinte se resolve por cesárea programada, antes que o trabalho de parto comece. E a decisão que ela tomou no pré-natal foi correta sob os critérios então disponíveis — um evento de aproximadamente um em duzentos não retroage para transformar uma escolha informada em erro. Contracepção eficaz faz parte da alta.
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Agora feche você

Mulher de 28 anos, G2P1, uma cesárea há catorze meses cuja indicação foi "apresentação córmica em trabalho de parto prematuro com 32 semanas". Não há relatório cirúrgico disponível; a cicatriz abdominal é transversa suprapúbica. Gestação atual de 41 semanas e 1 dia, feto único cefálico, estimativa de peso de 3.900 g, colo posterior, grosso, 1 cm de dilatação. Não está em trabalho de parto. A ultrassonografia obstétrica não descreve a espessura do segmento inferior. Ela quer muito evitar outra cesárea e pergunta se pode "tomar aquele comprimido para induzir".
Passo 1
A cicatriz abdominal é transversa. Isso permite afirmar qual foi a incisão uterina? Explique o que a indicação registrada (apresentação córmica com 32 semanas) sugere sobre a histerotomia provável e o que muda na conduta quando o relatório cirúrgico não existe.
Passo 2
A gestante pede "o comprimido para induzir". Qual é a régua da diretriz federal brasileira de operação cesariana sobre o misoprostol nesta paciente, e qual é a cláusula do texto que impede a exceção que a maioria tenta abrir?
Passo 3
Se a decisão for por indução, quais são os dois métodos que a mesma diretriz admite, com que adjetivo, e qual das duas vantagens — mecânica ou farmacológica — cada um oferece diante de um útero com cicatriz?
Passo 4
Quantifique, com o número da diretriz inglesa, o que a indução ou condução acrescenta ao risco de rotura em relação ao trabalho de parto espontâneo, e diga por que esse número transfere a decisão para um obstetra sênior.
Passo 5
Liste três fatores presentes nesta paciente que aparecem nas listas de risco de rotura, e explique por que nenhum deles, isoladamente, contraindica a prova de trabalho de parto.
Passo 6
A ultrassonografia não mediu a espessura do segmento inferior. Você deve solicitar essa medida antes de decidir? Responda citando o que a diretriz federal brasileira diz sobre a avaliação ultrassonográfica da cicatriz e sobre a pelvimetria de rotina.
Passo 7
Descreva os achados de exame físico que caracterizariam iminência de rotura durante o trabalho de parto desta mulher, nomeando os dois sinais epônimos, e diga exatamente quais são as duas primeiras condutas no momento em que você os reconhecer.
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar sangramento vaginal para pensar em rotura É a inversão mais cara do tema. Na rotura completa a hemorragia é intraperitoneal: a mulher pode chocar com pouco ou nenhum sangue no absorvente. O achado que fecha o raciocínio é a desproporção — instabilidade hemodinâmica maior do que o sangramento externo explica. Quem espera o sangue vaginal chega depois do feto.
  2. 2Pedir ultrassonografia para confirmar a suspeita antes de indicar a laparotomia A própria diretriz inglesa registra que o diagnóstico se faz na cesárea de emergência ou na laparotomia. Imagem normal não exclui rotura, e o tempo gasto sai do intervalo entre a bradicardia e o nascimento — o único intervalo que se correlaciona com o desfecho neonatal. Suspeita fundamentada é indicação suficiente.
  3. 3Prescrever misoprostol "em dose baixa" para induzir um útero com cicatriz A régua nacional não abre exceção por dose, por via nem por número de cesáreas prévias: o misoprostol não é recomendado para indução em mulher com cicatriz de cesárea anterior. O que se admite, com o adjetivo prudente, é balão cervical ou ocitocina, e só com indicação médica. A prostaglandina, uma vez administrada, não se desliga.
  4. 4Tratar como atonia o choque puerperal de útero contraído Uma parcela das roturas só é identificada depois do parto vaginal. A mulher pariu, o útero está duro, e ela taquicardiza e hipotende. Repetir uterotônico ali é tratar o diagnóstico errado: útero contraído com choque manda procurar sangramento fora da cavidade uterina, e no puerpério de uma prova de trabalho de parto isso significa abrir o abdome.
  5. 5Decidir a via de parto pela frase do quadro nacional sobre três ou mais cesáreas O quadro de recomendações da diretriz federal de operação cesariana traz, escrita assim, a frase: "De maneira geral, a cesariana não é recomendada em mulheres com 3 ou mais cesarianas prévias, exceto em situação de óbito fetal." Duzentos e setenta e cinco caracteres antes, no mesmo quadro, está a frase que ela deveria completar: "As mulheres com três ou mais cesáreas anteriores devem ser esclarecidas de que há aumento do risco de ruptura uterina com o parto vaginal." A ressalva do óbito fetal só faz sentido se o sujeito for o parto vaginal — é com feto morto que se aceita a via vaginal apesar das cicatrizes, porque não há mais benefício fetal a comprar com o risco materno. Não decida por essa linha isolada: as duas frases aparecem juntas e idênticas em dois pontos do arquivo (deslocamentos normalizados 19.270 e 91.914 no primeiro leitor; 19.299 e 92.177 no segundo), com a mesma distância de duzentos e setenta e cinco caracteres entre elas — é um mesmo enunciado repetido, e não duas seções que discordam. A conduta segura é a do resto do documento e do restante da literatura: cicatriz longitudinal e rotura prévia vedam o trabalho de parto; três ou mais cesáreas entram no aconselhamento individualizado, com quem tem experiência e em serviço com cirurgia imediata.
  6. 6Confundir deiscência de cicatriz com rotura A janela uterina preserva a serosa, não sangra de forma significativa e costuma ser achado de cesárea em mulher assintomática. Não é emergência e não exige a mesma conduta. O que ela exige é registro, porque muda o aconselhamento da próxima gestação. Tratar deiscência como rotura leva a histerectomias que não precisavam acontecer.
  7. 7Ler a necessidade crescente de analgesia como baixo limiar de dor A diretriz inglesa identificou o reforço repetido de peridural durante a prova de trabalho de parto como fator independente associado a rotura iminente. A analgesia não está contraindicada; o que não se pode é atribuir o pedido à mulher em vez de ao útero dela. Reavalie dinâmica, progressão e traçado antes de aumentar a dose.
  8. 8Aplicar pressão sobre o fundo uterino para abreviar o expulsivo A manobra é proscrita, e num útero obstruído ou cicatrizado ela é o gesto que consuma a rotura. Diante de anel de retração que sobe e ligamentos redondos tensos, a conduta é parar o uterotônico e levar a mulher ao centro cirúrgico — não empurrar o feto contra o segmento que está cedendo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em gestante com cesárea prévia em trabalho de parto, a tríade de dor abdominal súbita e intensa, cessação das contrações (perda do tônus) e sofrimento fetal agudo com sangramento é altamente sugestiva de rotura uterina. O descolamento prematuro de placenta (distrator) cursa com útero hipertônico/lenhoso e dor, mas as contrações não cessam e o antecedente de cesárea não é o gatilho típico. Placenta prévia (distrator) causa sangramento indolor, sem a dor e sem parada das contrações. Prolapso de cordão (distrator) causa bradicardia fetal aguda, mas não a dor abdominal intensa com sangramento e cessação do padrão contrátil.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Rotura completa atravessa a serosa e comunica útero e peritônio; deiscência (janela) poupa a serosa, não sangra e é achado de cesárea. Risco de rotura na prova de trabalho de parto planejada: ~1 em 200 (0,5%). Sucesso da prova: 72%–75%; com parto vaginal anterior, 85%–90%. Indução/condução: risco de rotura 2–3× maior e ~1,5× mais cesárea. Misoprostol não recomendado com cicatriz de cesárea, independentemente do número de cesáreas; admitem-se balão cervical e ocitocina, com uso prudente e indicação médica. Cicatriz longitudinal, rotura prévia e miomectomia com abertura de cavidade: sem prova de trabalho de parto. Cardiotocografia anormal em 66%–76% dos episódios — é o achado mais constante; >90% ocorrem no trabalho de parto, pico em 4–5 cm, ~18% no segundo período, 8% após o parto vaginal. Suspeita = laparotomia; imagem não exclui.

em 30 dias

Síndrome de iminência: anel de retração que ascende (Bandl) + ligamentos redondos tensos e palpáveis (Frommel), útero em ampulheta, dor contínua, taquissistolia, ausência de progressão — parar uterotônico e levar ao centro cirúrgico. Sinais da rotura consumada: dor que persiste entre contrações, dor súbita sobre a cicatriz, cessação da dinâmica, perda da altura da apresentação, partes fetais palpáveis, hematúria, choque desproporcional ao sangramento externo, e perda do foco cardíaco fetal no sítio habitual. Divergência de monitorização: a diretriz federal brasileira de 2016 recomenda monitorização fetal intermitente na prova de trabalho de parto (LE4); a RCOG 45 recomenda monitorização eletrônica contínua desde a primeira contração regular, com auditoria de 100%. Intervalo interpartal curto: a régua brasileira admite menos de 6 meses com condições favoráveis; a RCOG lista <12 meses como fator de risco e, na mesma seção, cita estudo com 3.176 pacientes que o retira — e conclui que não contraindica. Reparo primário quando a rotura é regular, limitada, com bordas viáveis, mulher estável e desejo reprodutivo; histerectomia na rotura extensa/irregular, com colo ou pedículos envolvidos, bordas desvitalizadas ou instabilidade persistente. Inventariar bexiga e ligamentos largos. Rotura prévia contraindica nova prova de trabalho de parto: cesárea programada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

O tema se fecha num atendimento em que a mulher chega em trabalho de parto com uma cesárea anterior e nenhum relatório cirúrgico, e a consulta inteira consiste em decidir o que se pode oferecer, com que vigilância, e qual sinal encerra a tentativa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Rotura uterina: o útero com cicatriz, e o sinal que chega antes do sangue — Preparatório para provas | OsceLabs