Ginecologia e ObstetríciaHemorragias da gestação e do puerpério

Embolia de líquido amniótico e parada cardiorrespiratória na gestante

Dois números resolvem quase toda questão: quatro minutos sem retorno da circulação e útero palpável na cicatriz umbilical. E um detalhe que separa quem estudou de quem decorou — o quarto critério diagnóstico da embolia de líquido amniótico é a ausência de uma coisa, não a presença.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 34 anos, G3P2, a termo (39 semanas), em trabalho de parto avançado (colo com 9 cm), subitamente apresenta dispneia intensa, agitação e sensação de morte iminente, seguida em poucos minutos por cianose, hipotensão grave (PA 60/30 mmHg), dessaturação (SatO2 78% em ar ambiente) e convulsão. Logo após, evolui com sangramento vaginal profuso e sangramento pelos sítios de punção venosa. Não há febre, o líquido amniótico era claro e não houve manipulação uterina anômala. A frequência cardíaca fetal cai abruptamente para 70 bpm. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Dois assuntos viajam juntos porque a prova os junta. A embolia de líquido amniótico é a causa mais característica de colapso materno súbito — instala-se em minutos, no trabalho de parto ou logo depois, e não tem exame que confirme. A parada cardiorrespiratória na gestante é o algoritmo que se aplica quando o colapso chega ao extremo, e ele tem particularidades que não existem em nenhuma outra parada de adulto. A vinheta clássica descreve uma parturiente que desaba de repente e pergunta o que fazer nos próximos cinco minutos; a resposta depende de três decisões cronometradas — deslocar o útero, não esperar a hipotensão e abrir o abdome antes do que o instinto manda.

Este capítulo não repete o algoritmo geral de parada: ritmos chocáveis, sequência de desfibrilação, causas reversíveis em 5H e 5T e cuidados pós-retorno da circulação estão no capítulo de parada cardiorrespiratória e suporte avançado de vida, que trata do adulto. Também não repete a escada terapêutica da hemorragia pós-parto nem o protocolo de transfusão maciça, que estão no capítulo de hemorragia pós-parto desta mesma apostila. O que entra aqui é a diferença: o que a gravidez muda na reanimação, quando a retirada do feto vira manobra de ressuscitação da mãe, e como se reconhece uma embolia de líquido amniótico sem exame que a prove.

Vale saber de onde vem cada régua, porque os dois assuntos têm procedências diferentes. Para a parada na gestante existe texto nacional: o capítulo 66 do Manual de gestação de alto risco do Ministério da Saúde (2022) e a seção 10.14 da Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar da Sociedade Brasileira de Cardiologia (2019) — e as duas convergem no essencial. Para a embolia de líquido amniótico a régua operante em prova é internacional: a diretriz clínica nº 9 da Society for Maternal-Fetal Medicine (2016), que estabeleceu o manejo, e os critérios diagnósticos de Clark e colaboradores publicados no mesmo ano, que definiram o que conta como caso. Quando um enunciado brasileiro cobra embolia amniótica, ele está reproduzindo esse corpo internacional.

03

O que muda decisão

Por que a gestante para diferente — e por que ela desaba mais rápido

O útero gravídico comprime a veia cava inferior e a aorta. A consequência hemodinâmica é dupla e some das contas de quem trata a gestante como uma adulta comum: o retorno venoso cai e a pós-carga sobe. Em decúbito dorsal, essa compressão sozinha já produz hipotensão numa gestante consciente; numa gestante em parada, ela subtrai justamente o pré-carga que a compressão torácica tenta gerar. É por isso que a primeira modificação do algoritmo não é uma droga nem um choque: é uma mão empurrando o útero para a esquerda.

A segunda diferença é respiratória e explica a pressa. A capacidade residual funcional cai até 25% na gestação, enquanto o consumo de oxigênio aumenta pelas demandas metabólicas materna e fetal. Menos reserva e mais consumo significam que a hipoxemia se instala rapidamente diante de qualquer hipoventilação. Some-se a isso a curva de dissociação da oxi-hemoglobina desviada para a direita, que exige pressão parcial de oxigênio maior para atingir a mesma saturação. O intervalo entre parar de ventilar e dessaturar, que num adulto dá algum tempo, na gestante é curto.

A terceira é a via aérea. Toda gestante é considerada via aérea difícil. As vias aéreas superiores ficam edemaciadas e friáveis, o que dificulta a laringoscopia e pode sangrar à intubação — e por isso a diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda tubo orotraqueal de tamanho menor, pelo edema de glote, com dispositivo supraglótico como plano seguinte se a intubação falhar. A ventilação com máscara e balão com oxigênio a 100% antes da intubação é a estratégia rápida e não invasiva para começar. Quem tem mais experiência assume a via aérea, porque a segunda tentativa custa caro.

A quarta é digestiva: o trânsito gastrointestinal está lentificado e há predisposição à aspiração de conteúdo gástrico. E a quinta, farmacológica: o metabolismo das drogas está alterado na gravidez. Nenhuma delas, porém, muda a dose de nada — este é o ponto onde a prova arma armadilha, e ele fica na seção da reanimação.

Guarde a soma: a gestante tem menos reserva de oxigênio, mais consumo, uma via aérea pior e um obstáculo mecânico ao retorno venoso que nenhum outro paciente tem. A lesão cerebral anóxica não espera. É essa aritmética, e não a preocupação com o feto, que sustenta o relógio de quatro minutos.

Reanimação de gestante em decúbito dorsal, com compressões torácicas e segundo profissional realizando deslocamento uterino manual para a esquerda.
Na parada materna com útero ao nível ou acima do umbigo, manter compressões torácicas de qualidade em decúbito dorsal e deslocamento uterino manual para a esquerda. As medidas obstétricas e de suporte avançado devem ocorrer em paralelo.

O elenco de causas muda — e a lista brasileira é curta o bastante para decorar

A parada cardiorrespiratória na gestação é evento raro. A Sociedade Brasileira de Cardiologia registra prevalência de 1 em 20.000 a 1 em 50.000 gestações. Rara, mas de altíssima letalidade, e com um elenco de causas que não é o do adulto de pronto-socorro.

O Manual de gestação de alto risco lista sete grupos: complicações anestésicas, hemorragias, doenças cardiovasculares, uso de drogas, eventos embólicos, infecções e complicações hipertensivas. É uma lista sem números, feita para ser percorrida à beira do leito.

A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia dá as frequências, e elas vêm de casuísticas dos Estados Unidos e do Reino Unido: tromboembolismo pulmonar 29%, hemorragia 17%, sepse 13%, cardiomiopatia periparto 8%, acidente vascular cerebral 5% e pré-eclâmpsia com eclâmpsia 2,8%. Somadas, essas seis categorias respondem por cerca de três quartos dos casos; o quarto restante fica com complicações relacionadas à anestesia, embolia de líquido amniótico, infarto agudo do miocárdio, doença cardíaca preexistente e trauma, que a diretriz cita sem percentual.

Repare no que essa distribuição ensina. As duas primeiras causas — tromboembolismo e hemorragia — são obstruções e perdas, não arritmias primárias. Isso quer dizer que a parada da gestante tende a se apresentar em ritmo não chocável, e que o monitor com assistolia ou atividade elétrica sem pulso é a regra, não a exceção. O Manual do Ministério é explícito: a hipovolemia é a principal causa reversível de parada em gestantes, geralmente determinando ritmos não chocáveis, e nesses casos a infusão de volume e a identificação da causa são essenciais.

Duas ressalvas para não estender essa frase além do que ela vale. A primeira: ela descreve a causa mais comum de parada na população obstétrica em geral, e não autoriza inundar de cristaloide toda gestante que colapsa — na embolia de líquido amniótico, como se verá adiante, o problema é falência do ventrículo direito e o excesso de volume piora. A segunda: as frequências acima são de séries estrangeiras, e o enunciado que quiser cobrar realidade brasileira vai apoiar a alternativa em hemorragia e em doença hipertensiva, que são as duas primeiras causas de morte materna no país.

Embolia de líquido amniótico: o nome descreve errado o que acontece

O nome sugere que células e debris fetais entopem mecanicamente a árvore pulmonar, como um trombo faria. Não é isso, e o raciocínio muda quando se abandona a imagem. A presença de células escamosas fetais na artéria pulmonar materna deixou de ser considerada diagnóstica porque o mesmo achado aparece em gestantes que morreram de outras causas. O que se descreve hoje é uma resposta sistêmica desencadeada pela passagem de antígenos fetais para a circulação materna, com comportamento de reação anafilactoide — o que explica por que a intensidade não guarda relação com o volume de líquido que passou e por que a variabilidade entre casos é enorme.

A sequência hemodinâmica tem uma ordem que a prova gosta de inverter. Primeiro vem vasoconstrição pulmonar intensa e transitória, às vezes com broncoconstrição, e a consequente sobrecarga aguda do ventrículo direito. O ventrículo direito dilata, empurra o septo e compromete o enchimento do ventrículo esquerdo — a falência esquerda é, nessa fase inicial, consequência da direita, e não um evento paralelo. Daí o colapso cardiovascular súbito. É esse encadeamento que torna a sobrecarga volêmica perigosa: encher um ventrículo direito já falido não melhora o débito, piora.

A frequência é baixa e as estimativas variam conforme a fonte e o critério usado. Nos Estados Unidos descreve-se algo entre 2,2 e 7,7 casos por 100.000 partos — o que equivale, invertendo a conta, a cerca de 1 caso em 13.000 a 1 em 45.000 partos. As séries internacionais, com definições mais frouxas ou mais rígidas, espalham a estimativa numa faixa ainda mais ampla, de 1 em 8.000 a 1 em 80.000 partos. Não decore um número único: decore que é da ordem de um caso em algumas dezenas de milhares e que a dispersão existe porque não há teste que defina o caso.

A letalidade é o outro número que se lê com cuidado. Séries antigas descreviam mortalidade em torno de 60%; casuísticas recentes de países desenvolvidos descrevem letalidade de 11% a 26%. A diferença não é só melhora do cuidado — é também mudança de critério: quanto mais frouxa a definição, mais casos leves entram e menor a letalidade calculada. O que se mantém estável entre as séries é a concentração temporal: cerca de metade dos óbitos ocorre na primeira hora.

Os fatores de risco descritos são idade materna avançada, grande multiparidade, espectro do acretismo placentário — que multiplica o risco por cerca de dez —, polidrâmnio, parto operatório, feto do sexo masculino e história de alergia. Nenhum deles tem valor preditivo útil na prática: a lista serve para a questão que pergunta qual paciente tem risco aumentado, não para vigiar ninguém.

Os quatro critérios: todos precisam estar presentes, e o quarto é uma ausência

Em 2016 um grupo reunido pela Society for Maternal-Fetal Medicine e pela Amniotic Fluid Embolism Foundation publicou critérios uniformes para definir o caso, e o motivo declarado foi específico: a embolia de líquido amniótico vinha sendo superdiagnosticada em puérperas graves, em especial quando havia algum componente de coagulopatia. Os quatro critérios devem estar todos presentes.

Primeiro: início súbito de parada cardiorrespiratória, ou então a combinação de hipotensão (pressão sistólica abaixo de 90 mmHg) com comprometimento respiratório (dispneia, cianose ou saturação periférica de oxigênio abaixo de 90%). Note a estrutura — ou a parada, ou os dois juntos; hipotensão isolada não abre o critério.

Segundo: documentação de coagulação intravascular disseminada franca depois do aparecimento desses sinais iniciais, pelo escore do comitê da International Society on Thrombosis and Haemostasis modificado para a gestação. E vem a cláusula que carrega o critério inteiro: a coagulopatia precisa ser detectada antes de haver perda de sangue suficiente para, por si só, explicar uma coagulopatia dilucional ou consumptiva do choque.

Terceiro: início clínico durante o trabalho de parto ou dentro de 30 minutos da saída da placenta. Quarto: ausência de febre — temperatura de 38 °C ou mais — durante o trabalho de parto. O quarto critério é o mais esquecido justamente por ser negativo: ele existe para tirar da conta a sepse, que produz colapso e coagulopatia com a mesma cara.

O escore de coagulação intravascular disseminada modificado para a gestação usa três variáveis e soma no máximo 5 pontos; escore de 3 ou mais é compatível com coagulação intravascular disseminada franca na gestante. Plaquetas acima de 100.000/mL pontuam 0, abaixo de 100.000/mL pontuam 1 e abaixo de 50.000/mL pontuam 2. O prolongamento do tempo de protrombina ou da razão normalizada internacional pontua 0 se o aumento é menor que 25%, 1 se o aumento fica entre 25% e 50% e 2 se passa de 50%. Fibrinogênio acima de 2 g/L pontua 0 e abaixo de 2 g/L pontua 1. Repare que os limiares de plaqueta e de fibrinogênio são muito mais permissivos que os do escore usado fora da gestação — é assim porque a gestante chega ao parto com plaquetas e fibrinogênio fisiologicamente mais altos, e um valor que pareceria normal já representa consumo.

Um alerta de escopo que decide questão: esses critérios foram construídos para uniformizar relato de pesquisa, não para autorizar ou negar tratamento à beira do leito. Nenhum deles precisa estar confirmado para começar a reanimar.

A coagulopatia que chega antes do sangue perdido

O segundo critério é o que separa embolia de líquido amniótico de tudo o mais, e vale entender por quê. Numa hemorragia pós-parto por atonia, a coagulopatia é consequência: a paciente sangra, consome fatores, recebe cristaloide, dilui o que sobrou, e a coagulopatia aparece depois de um volume de perda que a explica sozinho. Na embolia de líquido amniótico a ordem se inverte — a coagulação intravascular disseminada é parte do evento, deflagrada junto com o colapso, e está lá antes de existir perda de sangue capaz de justificá-la.

É essa inversão temporal que a vinheta descreve quando diz que a paciente começou a sangrar por todos os locais de punção, pelos pontos da episiotomia e pela sonda, com um volume de perda vaginal que ainda não é impressionante. Sangramento difuso desproporcional ao volume perdido, numa paciente que colapsou minutos antes, é a assinatura.

O corolário prático é que a avaliação da coagulação precisa ser precoce e repetida. A diretriz da Society for Maternal-Fetal Medicine recomenda avaliação precoce do estado de coagulação e manejo agressivo e precoce do sangramento clínico com os protocolos padronizados de transfusão maciça. Ou seja: não se espera o coagulograma para tratar, e não se trata a coagulopatia da embolia amniótica com um esquema próprio — usa-se o mesmo protocolo de transfusão maciça já estudado no capítulo de hemorragia pós-parto, incluindo a atenção ao fibrinogênio, que na hemorragia obstétrica cai mais cedo do que no trauma.

Há ainda um ponto que fecha o raciocínio clínico e costuma aparecer como distrator: a embolia de líquido amniótico frequentemente produz atonia uterina. Assim, uma mesma paciente pode ter, ao mesmo tempo, colapso por falência ventricular direita, coagulopatia de consumo e útero mole sangrando. Tratar apenas o útero, nesse cenário, é tratar um terço do problema.

Em uma série coreana de 12 casos diagnosticados clinicamente, a coagulopatia clínica esteve presente em 100% deles, enquanto a parada cardiovascular apareceu em 41,7%. Os sinais iniciais mais frequentes foram neurológicos — perda de consciência, alteração do estado mental, parestesia, crise convulsiva, agitação — em 50% dos casos, seguidos de dispneia em 25%, hipotensão em 16,7% e sangramento vaginal em 16,7%. Guarde a lição: a queixa neurológica súbita numa parturiente não é sempre eclâmpsia, e a coagulopatia é o achado mais constante do quadro.

A reanimação: quase tudo é igual, e é a lista do que não muda que cai

O reconhecimento segue o padrão: avaliar responsividade, chamar ajuda, marcar a hora do início da parada e checar simultaneamente respiração e pulso central em não mais de dez segundos. Na dúvida, considera-se sem pulso e começa-se a reanimação.

As compressões torácicas são as mesmas: frequência de 100 a 120 por minuto, profundidade de aproximadamente 5 cm, retorno total do tórax entre as compressões, relação de 30 compressões para 2 ventilações e interrupções limitadas a 10 segundos, apenas para via aérea avançada ou desfibrilação. Recomenda-se placa de apoio rígida sob o tórax.

A desfibrilação também é a mesma. A impedância transtorácica não se altera com a gestação, e por isso as recomendações de energia são idênticas às da não gestante: desfibrilador bifásico com 120 a 200 joules, retomando as compressões imediatamente após o choque. Não existe risco de choque para o feto que justifique reduzir energia ou hesitar — e a hesitação é o erro que a questão quer flagrar.

As drogas são as mesmas, nas mesmas doses. Ritmos não chocáveis: epinefrina 1 mg a cada 3 a 5 minutos. Ritmos chocáveis: epinefrina 1 mg a cada 3 a 5 minutos e, sem resposta, amiodarona 300 mg seguida, se necessário após 3 a 5 minutos, de mais 150 mg, com as doses de epinefrina e amiodarona intercaladas e administradas após o choque, durante as compressões. E a frase que o Ministério da Saúde escreve sem meio-termo: nenhuma medicação deve ser suspensa por teratogenicidade, porque o foco é a ressuscitação materna.

O que muda é curto e cabe em quatro itens. Um: deslocamento manual do útero para a esquerda durante todo o período de reanimação, nas pacientes com útero palpável acima da cicatriz umbilical, mantendo a paciente em decúbito dorsal. A lateralização do corpo inteiro foi abandonada porque a inclinação reduz a força máxima da compressão torácica, e compressão fraca é pior do que cava parcialmente comprimida. Dois: via aérea difícil por definição, tubo menor, operador mais experiente. Três: acesso venoso acima do diafragma, porque abaixo dele o útero pode obstruir o retorno da droga infundida. Quatro: durante a reanimação não há recomendação de avaliar vitalidade fetal — o monitor fetal não entra na sala, e quem o pede está gastando tempo e atenção com uma informação que não muda nenhuma conduta.

Sobre volume, a régua depende do que se suspeita. Se a causa provável é hipovolemia — e ela é a principal causa reversível de parada na gestante —, a infusão é essencial. Se a suspeita é embolia de líquido amniótico, a diretriz da Society for Maternal-Fetal Medicine recomenda oxigenação e ventilação adequadas e, conforme o estado hemodinâmico, vasopressores e inotrópicos, com a advertência explícita de que a administração excessiva de fluidos deve ser evitada. As duas frases não se contradizem: uma trata de um tanque vazio, a outra de uma bomba direita falida.

Cesárea perimorte: o relógio de quatro minutos e para quem ela é feita

A recomendação brasileira é convergente nas duas fontes nacionais. O Manual de gestação de alto risco indica cesariana diante de parada em gestante que não retornou ao ritmo sinusal após quatro minutos de manobras habituais, com altura uterina acima da cicatriz umbilical. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia escreve o mesmo com um acréscimo útil: sem retorno da circulação espontânea em 4 minutos e útero na altura da cicatriz umbilical, o que corresponde a pelo menos 20 semanas de gestação, considera-se cesárea de emergência, e a retirada do feto não deve demorar mais que 5 minutos.

Os dois números formam um par que a prova cobra junto: aos 4 minutos decide-se e incisa-se, aos 5 minutos o feto está fora. Na prática isso significa que a preparação começa antes — não se decide aos quatro minutos para só então buscar material. Um cronômetro dedicado, marcando o início da parada, é parte do procedimento.

Três regras de execução caem tanto quanto os números. A cesárea é feita no mesmo local do atendimento da parada, sem transportar a paciente para o centro cirúrgico, porque o transporte consome exatamente o tempo que a indicação existe para poupar. As manobras de reanimação não são interrompidas durante a decisão nem durante o parto, e o deslocamento uterino para a esquerda continua até o útero ser esvaziado. E a equipe neonatal precisa estar avisada e posicionada para receber o recém-nascido.

O parto vaginal só substitui a cesárea numa situação estreita: dilatação cervical total e feto já insinuado no canal de parto. Fora disso, a via é abdominal.

Agora o ponto conceitual que separa quem entendeu de quem decorou. A retirada do feto é, antes de tudo, uma manobra de ressuscitação materna: esvaziar o útero elimina de vez a compressão aortocava, e há relatos de melhora hemodinâmica súbita e dramática da mãe logo após o esvaziamento — o que sugere que o deslocamento manual, sozinho, nem sempre basta. O Manual do Ministério registra os dois objetivos: evitar lesão cerebral hipóxica e melhorar a chance de sobrevivência fetal e materna. Consequência lógica que a banca adora: mesmo com óbito fetal já estabelecido, o esvaziamento uterino continua fazendo sentido pelo lado materno.

A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia acrescenta duas situações de exceção. Se o prognóstico materno for grave e os esforços de reanimação parecerem fúteis, a cesárea parece apropriada desde que o feto seja viável. E se a parada não foi presenciada, com período de suspeita prolongado, prioriza-se a retirada do feto.

Depois do colapso: o que sustenta quem voltou

Retornada a circulação, o caso deixa de ser algoritmo e vira terapia intensiva obstétrica. A diretriz da Society for Maternal-Fetal Medicine recomenda que uma equipe multidisciplinar — anestesia, fisioterapia respiratória, medicina intensiva e medicina fetal — conduza o cuidado continuado da mulher com embolia de líquido amniótico. Não é frase de cortesia: é a recomendação classificada como boa prática, e a única do documento que não trata de um gesto isolado.

O suporte hemodinâmico segue a fisiologia descrita: garantir oxigenação e ventilação, usar vasopressores e inotrópicos guiados pelo estado hemodinâmico e evitar sobrecarga de volume. Ecocardiograma à beira do leito, quando disponível, é o exame que mostra o ventrículo direito dilatado e orienta essa escolha — não porque confirme o diagnóstico, que continua clínico, mas porque separa a bomba falida do tanque vazio.

A frente hemostática corre em paralelo e é onde a maior parte do sangue é consumida. Avaliação precoce da coagulação, manejo agressivo do sangramento clínico e protocolo de transfusão maciça padronizado — o mesmo do capítulo de hemorragia pós-parto, com atenção especial ao fibrinogênio. Se houver atonia associada, a escada de uterotônicos daquele capítulo se aplica integralmente, respeitadas as contraindicações de sempre.

Nos casos refratários, a literatura descreve o uso de oxigenação por membrana extracorpórea como resgate do colapso cardiopulmonar que não responde às medidas convencionais. São relatos e séries pequenas, não ensaio clínico, e a disponibilidade no Brasil é restrita a poucos centros — o que a torna resposta correta apenas em enunciados que explicitem serviço terciário com o recurso disponível.

Finalmente, um lembrete de escopo diagnóstico. Não existe teste laboratorial que confirme ou afaste embolia de líquido amniótico; a diretriz da Society for Maternal-Fetal Medicine recomenda expressamente que nenhum exame específico seja usado com essa finalidade e afirma que o diagnóstico permanece clínico. Dosagens de triptase, de frações do complemento e achados histopatológicos aparecem em pesquisa, não em decisão. Qualquer alternativa que ofereça um exame confirmatório está errada por definição.

04

Os quatro critérios e o relógio de cinco minutos

Duas coisas neste tema têm forma fechada e a prova explora as duas. A primeira é a definição de caso da embolia de líquido amniótico, que é uma conjunção — os quatro critérios valem juntos, e falhar um tira o caso da definição. A segunda é a sequência cronometrada da parada na gestante, que não é uma escada de escalonamento como a da hemorragia: é uma lista de coisas que acontecem em paralelo, com dois instantes marcados.

  1. 1Reconhecer: irresponsiva, sem respiração normal, sem pulso central — checagem de no máximo 10 segundos. Na dúvida, é parada. Marcar a hora e disparar um cronômetro dedicado
  2. 2Acionar de uma vez o time obstétrico, o anestésico e o neonatal — avisando que pode haver histerotomia em quatro minutos
  3. 3Compressões de alta qualidade: 100 a 120 por minuto, cerca de 5 cm, retorno total do tórax, 30:2, interrupções de no máximo 10 segundos, com placa rígida sob o dorso
  4. 4Deslocamento manual do útero para a esquerda, paciente em decúbito dorsal, sempre que o útero é palpável acima da cicatriz umbilical — mantido até o esvaziamento uterino
  5. 5Ritmo chocável: desfibrilar sem hesitar — bifásico, 120 a 200 J, mesma energia da não gestante, compressões retomadas logo após o choque
  6. 6Drogas nas doses habituais: epinefrina 1 mg a cada 3 a 5 minutos; amiodarona 300 mg e, se necessário, mais 150 mg. Nenhuma medicação se suspende por teratogenicidade
  7. 7Via aérea pelo operador mais experiente, com tubo de calibre menor e supraglótico como plano seguinte; acesso venoso acima do diafragma; sem monitorização fetal
  8. 8Aos 4 minutos sem retorno da circulação, com útero na cicatriz umbilical ou acima (cerca de 20 semanas): incisar — com o feto fora até os 5 minutos
  9. 9Operar no local da parada, sem transporte, sem interromper compressões nem o deslocamento uterino, com a equipe neonatal posicionada
  10. 10Após o retorno da circulação: caçar a causa, avaliar a coagulação de imediato, acionar transfusão maciça se houver sangramento e conduzir em terapia intensiva com equipe multidisciplinar

Critério 1 — colapso cardiorrespiratório

Parada cardiorrespiratória de início súbito; ou, sem parada, hipotensão com sistólica abaixo de 90 mmHg somada a comprometimento respiratório (dispneia, cianose ou saturação periférica abaixo de 90%). É uma disjunção com um ramo composto: hipotensão sozinha não abre o critério, e não é preciso ter parado para preenchê-lo.

Critério 2 — coagulopatia antes do sangue perdido

Coagulação intravascular disseminada franca documentada depois dos sinais iniciais, pelo escore da International Society on Thrombosis and Haemostasis modificado para a gestação (3 pontos ou mais). A cláusula que carrega o critério: a coagulopatia precisa aparecer antes de haver perda de sangue suficiente para explicá-la por diluição ou consumo do choque.

Critério 3 — a janela de 30 minutos

Início clínico durante o trabalho de parto, ou dentro de 30 minutos da saída da placenta. É o critério que exclui o colapso que aparece horas depois — e é também o que mais deixa caso clínico verdadeiro de fora da definição, porque parte dos quadros se manifesta entre uma e duas horas após a dequitação.

Critério 4 — ausência de febre

Nenhuma temperatura de 38 °C ou mais durante o trabalho de parto. É o único critério negativo e o mais esquecido. Existe para tirar da definição a sepse e a corioamnionite, que produzem colapso, hipotensão e coagulopatia com a mesma apresentação — e que são muito mais frequentes.

Hipótese no colapso peripartoO que a vinheta costuma destacarO que a separa da embolia de líquido amniótico
Embolia de líquido amnióticoColapso súbito no trabalho de parto ou até 30 minutos após a dequitação, sangramento difuso por punções e pontos, sem febreÉ a referência: coagulopatia franca que aparece antes de existir perda de sangue capaz de explicá-la
Tromboembolismo pulmonarDispneia e dor torácica súbitas, hipoxemia, fatores de risco para trombose, às vezes sinais de trombose venosa profundaNão cursa com coagulopatia de consumo precoce nem com sangramento difuso por sítios de punção
Hemorragia (atonia, descolamento prematuro de placenta, rotura uterina)Perda visível ou oculta, útero amolecido ou doloroso, hipotensão que precede qualquer queixa respiratóriaA coagulopatia vem depois de um volume de perda que a explica sozinho — a ordem temporal é inversa
EclâmpsiaCrise convulsiva em gestante com hipertensão e proteinúria, cefaleia e escotomas antecedendoA hipertensão precede o evento; a coagulopatia, quando existe, vem com síndrome HELLP e é progressiva, não fulminante
Sepse e corioamnioniteFebre, taquicardia, líquido amniótico fétido, foco identificávelTemperatura de 38 °C ou mais durante o trabalho de parto derruba o quarto critério por definição
Anafilaxia a medicamentoExposição recente a droga, urticária, angioedema, broncoespasmoHá gatilho identificável e resposta à adrenalina; coagulopatia franca não faz parte do quadro típico
Complicação anestésica (bloqueio alto ou total, toxicidade por anestésico local)Relação temporal estreita com o bloqueio, bradicardia, dormência ascendente, apneiaO gatilho é o procedimento e o quadro não traz coagulopatia — é, porém, causa frequente de parada obstétrica
Cardiomiopatia periparto e infarto agudo do miocárdioDispneia que vinha progredindo, congestão, alteração eletrocardiográfica, dor torácicaA instalação não é de minutos e não há coagulopatia precoce

Os quatro critérios definem caso para relato de pesquisa. Nenhum deles precisa estar preenchido para começar a reanimar — e nenhum é obtido a tempo de decidir.

A impedância transtorácica não muda na gestação: a energia da desfibrilação é idêntica à da não gestante, e não existe dose reduzida por causa do feto.

Durante a reanimação não se avalia vitalidade fetal. O dado não altera nenhuma conduta e consome atenção da equipe.

O relógio começa na parada, não na decisão: aos 4 minutos já se incisa, justamente para que o feto esteja fora aos 5.

A histerotomia é manobra de ressuscitação materna. Óbito fetal já estabelecido não a cancela, porque o ganho hemodinâmico da mãe independe do feto estar vivo.

Volume generoso é a regra na parada por hipovolemia e é erro na embolia de líquido amniótico, em que o que falhou foi o ventrículo direito.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O relógio da histerotomia: quatro minutos como regra ou como referência

Quatro minutos para decidir e incisar, cinco para o feto estar fora (Ministério da Saúde 2022; SBC 2019)

O Manual de gestação de alto risco recomenda a cesariana diante de parada em gestante que não retornou ao ritmo sinusal após quatro minutos de manobras habituais, com altura uterina acima da cicatriz umbilical. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia adota o mesmo corte, explicita que o útero na altura da cicatriz umbilical corresponde a pelo menos 20 semanas e acrescenta que a retirada do feto não deve demorar mais que 5 minutos. As duas fontes especificam que o procedimento é feito no local, sem interromper as manobras nem o deslocamento uterino.

Brasil, Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, cap. 66, item 66.4; e Bernoche C et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da SBC — 2019. Arq Bras Cardiol 2019;113(3):449-663, item 10.14.

O corte não é evidência e não define futilidade (Lipman et al., AJOG 2016)

Um grupo de anestesiologistas obstétricos e obstetras publicou comentário sustentando que a regra dos 4 a 5 minutos não tem base empírica como ponto de corte e que tratá-la como limite induz o erro de presumir futilidade quando o intervalo já passou. A proposta é preparar a histerotomia assim que a parada é documentada em útero palpável na cicatriz umbilical ou acima, e proceder ao esvaziamento se a condição materna não for rapidamente reversível — independentemente do tempo decorrido e da viabilidade fetal. Há relatos de sobrevida materna com o procedimento realizado bem depois dos cinco minutos.

Lipman SS, Cohen S, Mhyre J, Carvalho B, Einav S, Arafeh J, Jeejeebhoy F, Cobb B, Druzin M, Katz V, Harney K. Challenging the 4- to 5-minute rule: from perimortem cesarean to resuscitative hysterotomy. Am J Obstet Gynecol 2016;215(1):129-31.

Na prova

O corte de 4 minutos, com retirada do feto até 5, é o que está nos dois documentos brasileiros — e é a resposta em qualquer enunciado que peça conduta segundo o Ministério da Saúde, prova do MEC ou banca que cite protocolo nacional. A posição crítica aparece de outro jeito: o enunciado descreve uma parada com mais de cinco, dez ou quinze minutos de duração e oferece, entre as alternativas, suspender o esforço por futilidade. Aí o que se testa é saber que o prazo não é critério de exclusão. Vocabulário também denuncia o recorte — 'cesárea perimorte' é o termo dos textos brasileiros; 'histerotomia de ressuscitação' é o termo de quem defende a leitura mais ampla e quer marcar que o procedimento é feito pela mãe.

Os quatro critérios da SMFM servem para diagnosticar à beira do leito?

Critérios estritos, e assumidamente construídos para pesquisa (Clark et al., 2016)

O grupo da Society for Maternal-Fetal Medicine e da Amniotic Fluid Embolism Foundation propôs quatro critérios que devem estar todos presentes, apoiados na tríade de comprometimento hemodinâmico e respiratório acompanhada de coagulação intravascular disseminada estritamente definida. O objetivo declarado é limitar os relatos de pesquisa a casos homogêneos, porque as definições anteriores eram inespecíficas e incluíam mulheres com condições muito mais comuns. Os autores registram que a embolia de líquido amniótico é frequentemente superdiagnosticada em puérperas graves, sobretudo quando há algum elemento de coagulopatia.

Clark SL, Romero R, Dildy GA, Callaghan WM, Smiley RM, Bracey AW, Hankins GD, D'Alton ME, Foley M, Pacheco LD, Vadhera RB, Herlihy JP, Berkowitz RL, Belfort MA. Proposed diagnostic criteria for the case definition of amniotic fluid embolism in research studies. Am J Obstet Gynecol 2016;215(4):408-12.

Boa parte dos casos clínicos verdadeiros não cabe nos quatro critérios (série coreana, 2021)

Numa revisão de 12 casos de embolia de líquido amniótico diagnosticados clinicamente em serviços coreanos, 8 deles — 66,7% — não preenchiam os quatro critérios simultaneamente, principalmente por não atender ao critério de coagulação intravascular disseminada documentada antes da perda sanguínea ou ao limite estrito de 30 minutos. Não houve diferença de mortalidade materna nem de volume transfundido entre os que preenchiam todos os critérios e os que deixavam pelo menos um de fora. Os autores citam ainda um estudo francês de 36 mulheres que morreram de embolia de líquido amniótico, no qual 41,7% não satisfaziam um ou mais critérios.

Kim JH, Seol HJ, Seong WJ, Ryu HM, Bae JG, Hong JS, Yang JI, Sung JH, Choi SJ, Oh SY, Roh CR. Summary of clinically diagnosed amniotic fluid embolism cases in Korea and disagreement with 4 criteria proposed for research purpose. Obstet Gynecol Sci 2021;64(2):190-200.

Na prova

Enunciado que apresenta os quatro critérios e pede qual está ausente, ou que dá um caso e pergunta se ele preenche a definição, está cobrando o corpo da SMFM — e ali a resposta é literal, inclusive o quarto critério negativo. Enunciado que descreve uma puérpera que colapsou 90 minutos após a dequitação, com coagulopatia franca, e pergunta a hipótese mais provável, está cobrando o raciocínio clínico: embolia de líquido amniótico continua sendo a resposta, ainda que o caso fique fora da definição de pesquisa. A pista que separa os dois é o verbo — 'preenche os critérios' contra 'a hipótese diagnóstica mais provável'.

Que idade gestacional indica esvaziar o útero — 20 ou 23 semanas?

Útero na cicatriz umbilical, cerca de 20 semanas — indicação materna (SBC 2019; Ministério da Saúde 2022)

A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia condiciona a cesárea de emergência a útero na altura da cicatriz umbilical, o que corresponde a pelo menos 20 semanas de gestação, e justifica a medida pela redução da compressão aortocava e pela maior chance de retorno da circulação espontânea. O Manual de gestação de alto risco usa o mesmo marcador anatômico — altura uterina acima da cicatriz umbilical — e registra que a retirada do feto melhora a hemodinâmica materna. Nessa leitura o gatilho é o tamanho do útero, não a viabilidade do feto.

Bernoche C et al. Arq Bras Cardiol 2019;113(3):449-663, item 10.14; Brasil, Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, item 66.4.

Feto de 23 semanas ou mais — indicação fetal, grau 2C (SMFM 2016)

A diretriz clínica nº 9 da Society for Maternal-Fetal Medicine recomenda, após parada cardíaca associada a embolia de líquido amniótico, o parto imediato na presença de feto de 23 semanas ou mais, com grau de recomendação 2C. A mesma diretriz recomenda reanimação cardiopulmonar imediata de alta qualidade com os protocolos padronizados de suporte básico e avançado, sem qualquer modificação de dose ou de energia por causa da gestação.

Society for Maternal-Fetal Medicine (SMFM); Pacheco LD, Saade G, Hankins GD, Clark SL. Amniotic fluid embolism: diagnosis and management. SMFM Clinical Guideline No. 9. Am J Obstet Gynecol 2016;215(2):B16-24.

Na prova

A diferença não é contradição, é finalidade: 20 semanas é a régua de quem esvazia o útero para ressuscitar a mãe, 23 semanas é a régua de quem antecipa o parto pensando no recém-nascido. A vinheta entrega qual das duas está sendo cobrada. Se descreve parada materna, cronômetro correndo e pergunta o próximo passo, o gatilho é o útero na cicatriz umbilical, por volta de 20 semanas — e serve mesmo com feto morto. Se descreve embolia de líquido amniótico em gestação de 24 ou 30 semanas e pergunta sobre o momento do parto, entra a régua fetal. Alternativa que nega a histerotomia numa parada de 22 semanas alegando inviabilidade fetal confunde as duas.

06

Caso resolvido

Primigesta de 29 anos, 39 semanas, em trabalho de parto sob analgesia peridural instalada há 2 horas, 8 cm de dilatação, bolsa rota há 40 minutos. Pré-natal sem intercorrências; nenhuma aferição de temperatura durante o trabalho de parto passou de 37,1 °C. Enquanto a enfermeira reposiciona o monitor, a paciente queixa-se de falta de ar e formigamento nas mãos, fica agitada e perde a consciência em menos de um minuto. Ao exame: irresponsiva, sem respiração normal, pulso carotídeo não palpável. O monitor mostra atividade elétrica sem pulso. O fundo uterino está três dedos acima da cicatriz umbilical.
achado
Colapso súbito intraparto precedido de queixa neurológica e dispneia, em paciente sem febre em nenhum momento do trabalho de parto: embolia de líquido amniótico encabeça a lista. A ausência de febre não é detalhe de conforto — é o quarto critério, e é o que afasta sepse e corioamnionite, os dois diferenciais mais frequentes desse mesmo quadro. Atividade elétrica sem pulso é ritmo não chocável, o padrão da parada obstétrica, cujas duas causas mais comuns são obstrutivas e hemorrágicas, não arrítmicas.
gravidade
Fundo uterino acima da cicatriz umbilical significa útero com massa suficiente para comprimir cava e aorta. Isso liga duas coisas ao mesmo tempo: obriga o deslocamento manual do útero para a esquerda desde já, e coloca esta paciente dentro da indicação de histerotomia caso não haja retorno da circulação em quatro minutos. Marque a hora do início da parada e delegue a alguém a função exclusiva de cronometrar.
ação imediata
Compressões torácicas de alta qualidade — 100 a 120 por minuto, cerca de 5 cm, retorno total do tórax, 30:2, interrupções de no máximo 10 segundos, com placa rígida sob o dorso. Simultaneamente: deslocamento manual do útero para a esquerda com a paciente mantida em decúbito dorsal (nunca inclinada), ventilação com balão e máscara com oxigênio a 100%, e acionamento conjunto das equipes obstétrica, anestésica e neonatal, já avisando da possibilidade de histerotomia. Acesso venoso acima do diafragma. Nenhum monitor fetal entra na sala.
medicação
Atividade elétrica sem pulso não se desfibrila: a droga é epinefrina 1 mg por via endovenosa a cada 3 a 5 minutos, na dose padrão do adulto. Nada se ajusta por causa da gestação e nada se suspende por teratogenicidade. Em paralelo, percorra as causas reversíveis com o elenco obstétrico em mente — hemorragia oculta, embolia, complicação anestésica (a peridural há duas horas obriga a considerar bloqueio alto e toxicidade por anestésico local), causas hipertensivas e sepse.
detalhe que muda a conduta
O relógio é a conduta. Sem retorno da circulação espontânea aos 4 minutos, a incisão é feita — no local do atendimento, sem transportar a paciente para o centro cirúrgico, sem interromper as compressões e sem soltar o útero, que continua deslocado até o esvaziamento. O objetivo é ter o feto fora até os 5 minutos. Como a paciente está com 8 cm e o feto não está insinuado, o parto vaginal não é opção: a via é abdominal.
se falhar
Retornando a circulação, o diagnóstico se apoia no que aparece a seguir: coagulopatia franca com sangramento por locais de punção e pela histerotomia, desproporcional ao volume perdido. Colha coagulação imediatamente, acione o protocolo de transfusão maciça diante de sangramento clínico, vigie o fibrinogênio e trate a atonia associada com a escada habitual de uterotônicos. Suporte com vasopressores e inotrópicos guiados pela hemodinâmica, evitando sobrecarga de volume, e cuidado continuado em terapia intensiva com equipe multidisciplinar. Sem retorno da circulação, a histerotomia já realizada continua sendo a medida que mais melhora a chance de reversão, e o esforço não se interrompe pelo simples fato de terem passado mais de cinco minutos.
07

Agora feche você

Secundigesta de 34 anos, parto vaginal espontâneo há 20 minutos, placenta dequitada há 12 minutos, sem intercorrências no trabalho de parto e com todas as temperaturas aferidas abaixo de 37,2 °C. Enquanto recebe sutura de laceração perineal de segundo grau, refere mal-estar e falta de ar. PA 82×48 mmHg, FC 126 bpm, saturação periférica de oxigênio 86% em ar ambiente, consciente e agitada. O útero está contraído e no nível esperado. O sangramento vaginal acumulado é estimado em 250 mL — mas há sangramento contínuo, em babação, pelo sítio de punção venosa e pelos pontos da laceração. Coagulograma e fibrinogênio já colhidos, ainda sem resultado.
achado
Não houve parada, e mesmo assim o primeiro critério está preenchido pelo seu segundo ramo: hipotensão com sistólica abaixo de 90 mmHg somada a comprometimento respiratório com saturação abaixo de 90%. O terceiro critério também: o quadro começou 12 minutos após a saída da placenta, dentro da janela de 30 minutos. E o quarto: nenhuma temperatura de 38 °C ou mais no trabalho de parto, o que afasta corioamnionite e sepse. Útero contraído com sangramento ativo tira a atonia do lugar de causa primária.
coagulação
O sangramento difuso por sítio de punção e por ferida operatória, com apenas 250 mL de perda vaginal acumulada, é a assinatura temporal do quadro: a coagulopatia está aparecendo antes de existir perda de sangue capaz de explicá-la por diluição ou por consumo do choque. É exatamente a cláusula do segundo critério — e a única diferença para o caso definido é que a documentação laboratorial ainda não voltou.
conduta
Descreva as medidas imediatas de oxigenação, suporte circulatório e hemostasia. É preciso esperar o coagulograma para tratar?
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Onde a banca derruba

  1. 1Lateralizar o corpo da paciente em vez de deslocar o útero Atrai porque a inclinação lateral esquerda é o que se ensina para a gestante hipotensa acordada, e ali funciona. Na parada, não: quanto maior o ângulo de inclinação, menor a força máxima que a compressão torácica consegue gerar. A recomendação é deslocamento manual do útero para a esquerda com a paciente em decúbito dorsal — que descomprime a cava e a aorta e ainda preserva compressão, via aérea, acesso venoso e desfibrilação.
  2. 2Reduzir a energia do choque por causa do feto Atrai porque parece prudente. A impedância transtorácica não se altera com a gestação, e por isso as recomendações de energia são as mesmas da não gestante: desfibrilador bifásico com 120 a 200 joules. Não há qualquer indicação de reduzir carga, adiar o choque ou retirar monitorização por causa do feto — e a hesitação custa a única intervenção que reverte fibrilação ventricular.
  3. 3Pedir cardiotocografia ou ultrassonografia obstétrica durante a parada Atrai porque a presença do feto parece exigir vigilância. Durante a assistência à parada não há recomendação de avaliar vitalidade fetal. O motivo é lógico: nenhum resultado mudaria a conduta, que já é reanimar a mãe e esvaziar o útero no tempo certo. Aparelho na sala rouba espaço, gente e atenção, e a única informação que importa é a altura do fundo uterino — obtida com a mão.
  4. 4Levar a paciente para o centro cirúrgico antes de operar Atrai porque cesárea, no imaginário, é procedimento de sala cirúrgica. A cesárea perimorte é feita no mesmo local do atendimento da parada, sem transporte, e as manobras de reanimação continuam durante a decisão e durante o parto. O transporte consome exatamente o intervalo que a indicação existe para poupar — e a janela inteira, do início da parada à retirada do feto, é de cinco minutos.
  5. 5Suspender medicação da reanimação por risco fetal Atrai porque a lista de drogas proscritas na gestação é longa e bem decorada. O texto do Ministério da Saúde não dá margem: nenhuma medicação deve ser suspensa por teratogenicidade, porque o foco é a ressuscitação materna. Epinefrina e amiodarona entram nas doses habituais. Mãe morta não gera feto vivo — a única via de sobrevivência fetal, nesse cenário, passa pela circulação materna.
  6. 6Procurar o exame que confirma embolia de líquido amniótico Atrai porque toda hipótese grave parece exigir confirmação laboratorial. A diretriz da Society for Maternal-Fetal Medicine recomenda expressamente que nenhum exame específico seja usado para confirmar ou afastar o diagnóstico, que permanece clínico. Células escamosas fetais em artéria pulmonar já foram tidas como diagnósticas e não são mais, porque aparecem em gestantes que morreram de outras causas. Alternativa que oferece teste confirmatório está errada por construção.
  7. 7Inundar de cristaloide o colapso por suspeita de embolia amniótica Atrai porque hipovolemia é a principal causa reversível de parada na gestante, e a frase fica gravada sem o escopo. Na embolia de líquido amniótico o mecanismo inicial é vasoconstrição pulmonar com falência aguda do ventrículo direito, e a recomendação explícita é evitar administração excessiva de fluidos, usando vasopressores e inotrópicos conforme o estado hemodinâmico. Encher um ventrículo direito já dilatado piora o enchimento do esquerdo.
  8. 8Exigir parada cardiorrespiratória para cogitar embolia de líquido amniótico Atrai porque o quadro é apresentado como colapso catastrófico. Mas o primeiro critério tem dois ramos: parada súbita, ou hipotensão com sistólica abaixo de 90 mmHg somada a comprometimento respiratório. Numa série de casos diagnosticados clinicamente, a parada cardiovascular apareceu em menos da metade, enquanto hipotensão e comprometimento respiratório estiveram presentes na grande maioria e a coagulopatia clínica, em todos. Esperar a parada para pensar no diagnóstico é chegar atrasado.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a tríade clássica da embolia de líquido amniótico (ELA) é hipóxia/colapso cardiorrespiratório súbito + hipotensão e, em seguida, coagulopatia de consumo (CIVD) — instalação abrupta no periparto, com pródromo de agitação/sensação de morte iminente e sangramento por múltiplos sítios, exatamente o quadro descrito. Eclâmpsia cursa com convulsão, mas o colapso cardiovascular fulminante com hipóxia súbita e CIVD imediata não é o padrão, e faltam sinais de pré-eclâmpsia (hipertensão prévia, proteinúria). TEP causa dispneia/hipóxia e hipotensão, mas não explica a coagulopatia consumptiva precoce nem a convulsão. Sepse tem instalação mais arrastada, febre e foco infeccioso — ausente aqui, com líquido claro. O DPP pode causar choque e coagulopatia, mas aqui o gatilho é o colapso cardiorrespiratório hipóxico súbito com sangramento por sítios de punção (CIVD), e não hemorragia placentária como evento primário.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite sem consultar: os quatro critérios da embolia de líquido amniótico, incluindo os cortes de 90 mmHg, 90% de saturação, 30 minutos e 38 °C; as três variáveis e o ponto de corte do escore de coagulação intravascular disseminada modificado para a gestação; o par 4 minutos e 5 minutos da cesárea perimorte e o marcador anatômico que a indica; e a lista do que NÃO muda na reanimação da gestante — compressões, energia da desfibrilação, doses de epinefrina e amiodarona. Depois refaça o caso resolvido cobrindo os passos.

em 30 dias

Monte quatro vinhetas de cabeça e resolva: (1) parturiente que colapsa aos 8 cm com atividade elétrica sem pulso — diga tudo o que acontece do minuto zero ao minuto cinco, em ordem; (2) puérpera que colapsa 90 minutos após a dequitação com coagulopatia franca — qual critério ela não preenche e por que isso não muda a conduta; (3) gestante de 22 semanas em parada há 6 minutos, feto sem batimentos — indica ou não a histerotomia, e com que argumento; (4) parturiente com febre de 38,4 °C que colapsa com hipotensão e coagulopatia — qual diagnóstico sobe ao topo. Feche revisando as três divergências e o que, no enunciado, denuncia o recorte de cada uma.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é chamado à sala de pré-parto. Primigesta de 31 anos, 40 semanas, em trabalho de parto com 7 cm de dilatação e bolsa rota há 25 minutos, começou há dois minutos com falta de ar e agitação e agora está irresponsiva. A técnica de enfermagem já iniciou compressões torácicas. O monitor mostra ritmo organizado lento, sem pulso palpável. O fundo uterino está bem acima da cicatriz umbilical. Nenhuma temperatura aferida no trabalho de parto passou de 37 °C. Conduza. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Embolia de líquido amniótico e parada cardiorrespiratória na gestante — Preparatório para provas | OsceLabs