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Imunodeficiências primárias: os sinais de alerta e a investigação inicial

Quase tudo neste tema é contagem — quantas otites, quantas pneumonias, em quantos meses, com quantos linfócitos. E quase toda contagem tem mais de uma lista por trás. A lista americana, a lista brasileira e a lista do primeiro ano de vida não pedem os mesmos números, não valem para as mesmas idades e não concordam nem sobre quantos sinais bastam para investigar. Saber de qual lista a alternativa está falando é o que separa quem acerta de quem decorou dez itens.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 6 meses com história de duas pneumonias, otite média de repetição e diarreia crônica. Exame revela ausência de tonsilas palatinas e linfonodos pouco palpáveis. Hemograma normal. Imunofenotipagem mostra ausência quase total de linfócitos B (CD19) com linfócitos T presentes e imunoglobulinas séricas muito reduzidas em todas as classes. Qual é o diagnóstico mais provável?

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Como esse tema cai

No acervo de questões desta plataforma há, neste instantâneo, 28 questões vivas com este tema, num acervo de 23.753 questões objetivas e 309 capítulos de nível preparatório. As 28 estão soltas: nenhuma pertence a capítulo nenhum. Treze foram catalogadas como sinais de alerta e investigação inicial, quinze como imunodeficiências primárias e secundárias, e sete destas últimas foram guardadas na especialidade do adulto embora a vinheta seja de lactente.

O que essas 28 pedem é notavelmente concentrado. Sete são a mesma vinheta com roupas diferentes — menino, infecções piogênicas que começam por volta dos 6 meses, amígdalas e linfonodos ausentes, imunoglobulinas todas baixas, linfócitos B ausentes, tio materno morto na infância — e todas querem o nome da agamaglobulinemia ligada ao X. Quatro querem o CH50 diante de doença meningocócica de repetição. Quatro querem a doença granulomatosa crônica a partir de germe catalase-positivo com teste da diidrorrodamina alterado. Três querem o mesmo par de exames de triagem inicial. O que nenhuma delas pergunta é a que lista de sinais o enunciado está se referindo, quantos sinais bastam para investigar, ou qual corte de linfócito vale para a idade da criança da vinheta.

O espelho do acervo confirma o desenho. Varrendo enunciado, alternativas e comentário de todas as questões vivas pelo texto, sem olhar a coluna de tema, o assunto aparece em 66 questões. Dessas, 50 estão soltas e 16 já pertencem a algum capítulo — mas nove delas pertencem a capítulos de outros níveis, e as sete restantes estão espalhadas uma em cada capítulo, sempre como alternativa que se descarta: o diferencial da glomerulonefrite, o substrato de uma reação transfusional, a contraindicação de vacina viva, o motivo pelo qual um lúpus começou cedo demais. Entre os 309 capítulos do preparatório, 17 tocam no assunto, e o campeão em menções tem sete — é o capítulo do calendário vacinal, onde o imunodeprimido aparece para explicar quem não recebe vacina atenuada. Nenhum capítulo ensina a doença.

Três fronteiras ficam fora daqui. O calendário nacional e as indicações dos centros de referência para imunobiológicos especiais têm capítulo próprio na apostila de Infectologia Pediátrica, e é lá que estão as contraindicações vacinais por produto. As cinco etapas da triagem neonatal, o que o SUS oferece hoje e o que a lei ainda promete pertencem ao capítulo de triagens neonatais, na apostila de Puericultura — aqui elas entram só pelo que muda a decisão diante de um lactente com suspeita. E a imunodeficiência adquirida pelo vírus da imunodeficiência humana tem capítulo próprio na apostila de Infectologia: neste texto ela aparece em uma linha, como o primeiro diagnóstico a afastar.

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O que muda decisão

Quando infecções recorrentes deixam de ser normais

Como usar este capítulo: suspeite pelo padrão, gravidade, agente e localização das infecções, além de crescimento, autoimunidade e história familiar. Hemograma com linfócitos, imunoglobulinas e testes dirigidos iniciam a investigação; suspeita de imunodeficiência combinada grave é emergência.

A expressão "os dez sinais de alerta" aparece em enunciado de prova como se houvesse uma lista só. Há pelo menos três em circulação no Brasil, e elas não pedem os mesmos números. A primeira é a original, do conselho consultivo da Jeffrey Modell Foundation, com direitos de 2009 e 2010: quatro ou mais otites novas em um ano; duas ou mais sinusites graves em um ano; dois ou mais meses de antibiótico com pouco efeito; duas ou mais pneumonias em um ano; falha do lactente em ganhar peso ou crescer normalmente; abscessos profundos e recorrentes; monilíase oral persistente ou infecção fúngica de pele; necessidade de antibiótico intravenoso; duas ou mais infecções profundas incluindo septicemia; e história familiar.

A segunda é a adaptação brasileira que circula pelo BRAGID e é reproduzida tanto na cartilha da ASBAI de 2023 quanto no protocolo hospitalar do HC-UFTM de 2025. São dez itens de novo, mas não os mesmos: duas ou mais pneumonias no último ano; quatro ou mais otites novas no último ano; estomatites de repetição ou monilíase por mais de dois meses; abscessos de repetição ou ectima; um episódio de infecção sistêmica grave, com meningite, osteoartrite e sepse como exemplos; infecções intestinais de repetição ou diarreia crônica; asma grave, doença do colágeno ou doença autoimune; efeito adverso ao BCG ou infecção por micobactéria; fenótipo clínico sugestivo de síndrome associada a imunodeficiência; e história familiar de imunodeficiência.

A terceira é a lista brasileira do adulto, publicada em paralelo com a infantil: duas ou mais otites novas em um ano; duas ou mais sinusites novas em um ano na ausência de alergia; uma pneumonia por ano; diarreia crônica com perda de peso; infecções virais de repetição; necessidade repetida de antibiótico intravenoso; abscessos profundos; monilíase persistente ou infecção fúngica invasiva; infecção por micobactéria; e história familiar.

Compare os dois primeiros itens de cada lista brasileira e a fronteira aparece sozinha. Otite conta a partir de quatro episódios na criança e de dois no adulto; pneumonia, a partir de duas no ano na criança e de uma no adulto. Os limiares do adulto são metade dos da criança — e nenhum dos dois documentos brasileiros diz em que idade se troca de lista. A única versão que declara a faixa é a canadense do cartaz original: "children up to age 18".

O vão é aritmético e cabe numa vinheta. Adolescente de 16 anos, três otites e uma pneumonia nos últimos doze meses. Pela lista infantil ele não pontua em item nenhum; pela lista do adulto pontua em dois. O mesmo paciente, com os mesmos números, é caso de investigar ou caso de tranquilizar conforme a coluna que o examinador tinha aberta.

Sinais de alerta brasileiros e suas limitações

Colocadas lado a lado, a lista americana e a brasileira infantil não são traduções: são listas diferentes. Quatro itens do original sumiram — dois ou mais meses de antibiótico com pouco efeito; falha em ganhar peso ou crescer normalmente; necessidade de antibiótico intravenoso; e duas ou mais sinusites graves em um ano. Em troca entraram quatro que o original não tem: efeito adverso ao BCG ou infecção por micobactéria; fenótipo sindrômico; asma grave, doença do colágeno ou doença autoimune; e infecção intestinal de repetição ou diarreia crônica.

As entradas se explicam sozinhas: o Brasil vacina com BCG ao nascer, tem tuberculose endêmica e tem carga alta de diarreia infantil, e nenhuma dessas três realidades está no cartaz americano. As saídas é que são o problema.

O mesmo protocolo hospitalar que reproduz a lista brasileira escreve, duas páginas adiante, que entre os sinais propostos os mais importantes para identificar esses pacientes são os que dizem respeito ao uso de antibiótico, ao retardo no desenvolvimento ponderoestatural e, principalmente, à história familiar — esta última multiplicando por 18 a chance de a criança receber o diagnóstico. Dos três sinais que o próprio documento chama de mais importantes, dois foram justamente os que a lista infantil brasileira apagou. Só a história familiar sobreviveu.

A consequência é direta e cabe numa criança real. Menino de 2 anos, dois meses seguidos de antibiótico oral sem resolução do quadro respiratório, peso no percentil 2 com queda de canal de crescimento, uma internação para antibiótico venoso. Pela lista americana, três sinais — e o cartaz original manda investigar a partir de dois. Pela lista brasileira infantil, zero sinais: nenhum desses três itens existe nela. A criança que mais preenche os preditores medidos é a que a lista brasileira não enxerga.

Há ainda uma inversão de limiar. O item da infecção profunda pede, no original, duas ou mais infecções profundas incluindo septicemia; na lista brasileira infantil pede um episódio de infecção sistêmica grave. Uma criança com um único episódio de meningite marca um sinal cheio na régua brasileira e nada na americana — e o enunciado que descreve exatamente um episódio de sepse está, sem avisar, escolhendo uma das duas.

A régua da lista, por fim, não é infalível em nenhuma das versões. Num centro que avaliou 2.851 encaminhamentos por suspeita e confirmou o diagnóstico em 896 deles, 20,4% dos pacientes com diagnóstico confirmado não tinham nenhum dos dez sinais; com a lista estendida para catorze itens, a proporção caiu para 14%. É população selecionada — todos ali já haviam sido encaminhados —, e ainda assim um em cada cinco doentes atravessa a lista inteira sem marcar um item.

Como aplicar sinais de alerta no lactente

Os dois primeiros itens da lista infantil contam episódios "no último ano". Aplique-os a um lactente de 5 meses e o problema aparece: para marcar quatro otites novas no último ano, esse bebê precisaria de uma otite a cada cinco semanas e meia desde o nascimento; para marcar duas pneumonias, de duas pneumonias em 22 semanas de vida. Os dois itens de maior peso da lista exigem um denominador de doze meses de uma criança que viveu cinco. A lista construída para a infância é aritmeticamente cega justamente na faixa em que moram as imunodeficiências que matam.

É por isso que Carneiro-Sampaio, Jacob e Leone propuseram uma lista separada para o menor de 1 ano, reproduzida no protocolo hospitalar em doze itens: infecção fúngica, viral ou bacteriana persistente ou grave; reação adversa ao BCG; doença autoimune ou inflamatória; quadro sepse-símile febril sem foco; lesões cutâneas extensas; diarreia persistente; cardiopatia congênita, principalmente de vasos da base; atraso na queda do coto umbilical acima de 30 dias; história familiar de erro inato da imunidade ou de óbito precoce por infecção; linfocitopenia abaixo de 2.500 células/mm³, outra citopenia ou leucocitose persistente sem infecção; hipocalcemia; e ausência de imagem tímica na radiografia.

Repare no que essa lista trocou. Nenhum dos doze itens conta episódios por ano, e cinco deles não são história clínica, são achado de exame — o coto que não cai, o cálcio baixo, o timo que não aparece, a citopenia, a cardiopatia de vasos da base. Um lactente de 3 meses com hipocalcemia, cardiopatia conotruncal e sombra tímica ausente marca três itens da lista do primeiro ano e zero itens das duas listas de dez. É a mesma criança, com a mesma síndrome de DiGeorge, invisível numa régua e evidente na outra.

Cada achado aponta para um compartimento. Coto umbilical que não cai depois dos 30 dias, com infecção sem pus e leucocitose, é deficiência de adesão leucocitária. Hipocalcemia com cardiopatia de vasos da base e ausência de timo é síndrome de DiGeorge. Linfocitopenia isolada em lactente pequeno é imunodeficiência combinada grave. Eczema precoce com plaquetopenia e sangramento é síndrome de Wiskott-Aldrich.

A lista do primeiro ano termina aos 12 meses, e a infantil só passa a fazer sentido aritmético quando há doze meses de história para contar. No décimo terceiro mês o item do coto umbilical sai do repertório e o das quatro otites acaba de nascer — quem investiga um lactente dessa idade ainda precisa das duas.

Linfopenia por idade: interpretar antes de tranquilizar

A contagem absoluta de linfócitos é o exame mais barato e mais decisivo deste tema. Também é o que mais engana, porque o valor de referência do laudo costuma ser o do adulto.

A régua hematológica geral define linfocitopenia como contagem total abaixo de 1.000/mcL em adultos ou abaixo de 3.000/mcL em crianças com menos de 2 anos. A lista de alerta do primeiro ano de vida usa um corte diferente: linfocitopenia abaixo de 2.500 células/mm³. E o relato brasileiro de imunodeficiência combinada grave publicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria escreve que um hemograma com linfócitos abaixo de 2.800 células/mm³ em lactente nos primeiros meses de vida é altamente sugestivo da doença.

Três documentos, três números, e uma faixa em que eles se contradizem. Um lactente de 6 meses com 2.700 linfócitos/mm³ é linfopênico pela régua hematológica, é altamente sugestivo de imunodeficiência combinada grave pela régua da sociedade pediátrica, e não marca sinal de alerta pela lista do primeiro ano de vida, que só começa a contar abaixo de 2.500. A faixa de 2.500 a 3.000/mm³ é um território onde a hematologia já viu doença e a lista de alerta ainda não.

O erro mais caro, porém, não é escolher entre 2.500 e 2.800: é ler o número com a régua do adulto. Um lactente de 4 meses com 1.500 linfócitos/mm³ tem um valor que qualquer laudo com referência de 1.000 a 4.800 imprime como normal — e que é metade do piso da própria faixa etária. Os três cortes acima estão todos acima do limite que define linfopenia no adulto.

Régua laboratorial com um limiar adulto isolado, três limiares pediátricos agrupados mais acima e dois resultados de lactentes que parecem normais quando comparados à faixa adulta
Os cortes de linfopenia do lactente ficam acima do corte do adulto. Um resultado pode parecer normal no laudo baseado em referência adulta e ainda representar linfopenia importante para a idade.

Duas cautelas fecham o assunto. A primeira: número absoluto vale mais que porcentagem, porque o percentual de linfócitos flutua com a contagem de neutrófilos e pode mascarar uma linfopenia grave num leucograma de aparência banal. A segunda: contagem normal de linfócitos não afasta a imunodeficiência combinada grave, e linfopenia documentada em duas ocasiões é indicação de fenotipagem, não de repetir o hemograma uma terceira vez. Na forma típica, a fenotipagem mostra linfócitos T CD3+ abaixo de 300 células/mL.

Por fim, a dosagem de imunoglobulinas não resolve a suspeita de defeito combinado no lactente jovem por dois motivos que se anulam: a IgG normal pode ser inteiramente materna, atravessada pela placenta no último trimestre, e a IgG baixa pode ser apenas imaturidade. O exame que decide nessa idade é o hemograma com contagem absoluta, e a radiografia de tórax que mostra ou não a sombra tímica — dois exames que qualquer unidade básica pede.

O fenótipo infeccioso escolhe os exames iniciais

A investigação inicial é sempre a mesma frase em prova: hemograma completo com diferencial e dosagem de imunoglobulinas. É a resposta correta em três das questões vivas do acervo — mas é a triagem do defeito de anticorpos, e o tema não se resume a ele.

A revisão brasileira de 2021 organiza a decisão por fenótipo, e vale guardar a tabela pelo que ela liga. Infecções graves, disseminadas ou por oportunistas — citomegalovírus, Pneumocystis jirovecii, Candida, micobactéria vacinal — com início precoce, comprometimento do crescimento, diarreia crônica e ausência de timo apontam para defeito combinado de células T e B, e os exames iniciais são hemograma, contagem de linfócitos por marcador (CD3, CD4, CD8, CD19, CD56), TREC e imunoglobulinas.

Infecções bacterianas por germes encapsulados do trato respiratório, com início acima dos 6 meses, ausência de amígdalas e adenoides e giardíase, apontam para defeito predominantemente de anticorpos, e os exames iniciais são hemograma, dosagem de imunoglobulinas, contagem de linfócitos B e KREC. O protocolo nacional descreve a mesma janela com outro número — após o 7º mês para os defeitos de anticorpos e antes do 6º mês para as formas combinadas. O discriminador que resolve não é o mês, é o agente: bactéria encapsulada puxa para o humoral, oportunista puxa para o combinado.

Infecções invasivas por Neisseria e por pneumococo, sobretudo de repetição e sobretudo com manifestação lúpus-símile ou glomerulopatia, apontam para defeito do complemento, e os exames iniciais são C3, C4 e CH50. Aqui a régua é limpa e a prova a cobra sem disfarce: doença meningocócica invasiva de repetição pede CH50, que avalia a via clássica inteira até o complexo de ataque à membrana e vem ausente ou muito baixo nas deficiências dos componentes terminais.

Infecções cutâneas recorrentes, abscessos profundos, pneumonias necrotizantes e osteomielite por germes catalase-positivos — estafilococo, Serratia, Klebsiella, Burkholderia cepacia, Aspergillus —, com granulomas, atraso da queda do coto e má cicatrização, apontam para defeito de fagócitos, e os exames iniciais são hemograma com hematoscopia e avaliação do burst oxidativo pelo teste da diidrorrodamina, ou pela redução do nitroazul de tetrazólio.

Duas travas fecham a etapa inicial. A primeira é excluir a imunodeficiência secundária, de longe a mais comum: sorologia para o vírus da imunodeficiência humana, imunossupressor, desnutrição, neoplasia, perda renal ou intestinal de proteína — e albumina caindo junto com as imunoglobulinas indica perda, não falha de produção. A segunda é que a dosagem sozinha não fecha nada: é preciso verificar se o anticorpo funciona, por isoemaglutininas, títulos pós-vacinais ou anticorpos antipolissacarídeos do pneumococo. IgG normal não exclui defeito de anticorpo.

Padrões clínicos que apontam o braço imunológico afetado

Sete das 28 questões do acervo descrevem a mesma criança. Menino, infecções bacterianas piogênicas começando entre o quinto e o sétimo mês, otites e pneumonias de repetição, amígdalas ausentes e linfonodos impalpáveis, tios maternos mortos na infância por infecção, IgG, IgA e IgM todas muito baixas, linfócitos B CD19 ausentes e T normais. É a agamaglobulinemia ligada ao X, por mutação no gene BTK, com incidência de 1/100.000 recém-nascidos e IgG abaixo de 200 mg/dL, IgA e IgM abaixo de 20 mg/dL.

O par que a prova monta contra ela é a imunodeficiência comum variável, e o discriminador é uma linha do exame: os linfócitos B estão presentes, em número geralmente normal, porque o defeito é de diferenciação e não de geração da célula. Some-se a idade — segunda ou terceira década — e a queda de pelo menos duas das três classes, com IgG frequentemente abaixo de 250 mg/dL e incidência de 1/50.000. Giardíase e infecção sinopulmonar aparecem nas duas e não separam nada. A comum variável traz ainda risco aumentado de autoimunidade e de neoplasia linfoide.

A deficiência seletiva de IgA é a imunodeficiência primária mais frequente, com incidência de 1/320 a 1/800 recém-nascidos, e cerca de metade dos portadores é assintomática. Define-se por IgA sérica muito baixa com IgG e IgM normais e resposta vacinal preservada. Três consequências: pode evoluir para imunodeficiência comum variável, e por isso pede reavaliação; cerca de um quarto tem deficiência associada de subclasse de IgG; e há risco de reação anafilática a hemoderivado que contenha IgA.

A doença granulomatosa crônica é o fenótipo de fagócito que a prova mais repete: abscessos cutâneos e hepáticos, linfadenite supurativa, pneumonia por Aspergillus ou Serratia, granulomas, e teste da diidrorrodamina ou do nitroazul de tetrazólio alterado, por falha do complexo da NADPH-oxidase em gerar o burst oxidativo. O par que se monta contra ela é a deficiência de adesão leucocitária, e o discriminador é clínico antes de ser laboratorial: nela o coto umbilical cai tarde, não há pus na lesão, há leucocitose importante, e o teste da diidrorrodamina é normal.

A deficiência dos componentes terminais do complemento vive de um roteiro só: doença invasiva por Neisseria, sobretudo de repetição e sobretudo por sorogrupos incomuns, em criança ou adolescente hígido, sem infecções sinopulmonares e sem atraso de crescimento, com história familiar. Triagem por CH50. Vale notar a assimetria dentro do próprio sistema: a deficiência dos componentes iniciais — C1, C4 e C2 — associa-se mais a doença autoimune de início precoce que a infecção, e a deficiência de C3 dá as duas coisas.

A síndrome de Wiskott-Aldrich fecha a lista pela tríade eczema, infecções de repetição e plaquetopenia com microplaquetas, em menino, com herança ligada ao X. O sangramento prolongado após a punção do teste do pezinho é um detalhe recorrente nas vinhetas, e o volume plaquetário médio reduzido é o dado que a separa da trombocitopenia imune primária.

Imunodeficiência combinada grave: uma emergência pediátrica

Um erro inato da imunidade é emergência pediátrica no sentido literal: sem reconstituição imune, a imunodeficiência combinada grave é fatal até os 2 anos. Afeta cerca de 1 em 55.000 recém-nascidos por uma estimativa e 1 em 50.000 a 100.000 por outra, corresponde a 15% dos casos registrados pela sociedade latino-americana de imunodeficiências, e menos de um terço dos afetados tem história familiar.

O cronômetro é medido. Transplante de células-tronco hematopoéticas realizado antes dos 3,5 meses de idade associa-se a 91,5% de sobrevida em cinco anos; realizado depois dessa idade, a 68%. São 23,5 pontos percentuais dependurados num corte de três meses e meio. E a presença de infecção ativa no momento do transplante derruba a sobrevida de 82,3% para 64,7% — o que significa que o tempo perdido cobra duas vezes: uma pela idade, outra pela infecção que ele deixou instalar.

A criança nasce assintomática. É por isso que a triagem por TREC — pequenos círculos de DNA excisados durante a formação do receptor da célula T, dosados na mesma gota de sangue em papel-filtro do teste do pezinho — é o único caminho que cabe dentro daquela janela de 3,5 meses. Contagem baixa ou indetectável sugere a doença, mas não é específica: identifica outras linfopenias T, inclusive a síndrome de DiGeorge, e é influenciada por prematuridade, imunossupressor materno e infecção congênita.

O erro que o relato brasileiro publicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria documenta merece ser memorizado. Lactente com irmão morto aos 10 meses pela mesma doença; triagem por TREC no primeiro mês alterada, abaixo de 10 cópias por microlitro; optou-se por repetir; a recoleta veio acima de 10 e a investigação parou ali. O bebê recebeu o calendário completo, inclusive agentes vivos, e chegou aos 6 meses com doença pulmonar por micobactéria vacinal. A regra é curta: recoleta normal não desfaz um TREC alterado — o que desfaz é o teste confirmatório, a imunofenotipagem de linfócitos.

Enquanto o transplante não acontece, o pacote de proteção é sempre o mesmo e é o que a prova cobra: nenhuma vacina de agente vivo — BCG, rotavírus, pólio oral, tríplice viral, varicela —; hemoderivados exclusivamente irradiados, leucodepletados e de doador negativo para citomegalovírus, para evitar a doença do enxerto contra o hospedeiro transfusional e a infecção pelo vírus; reposição de imunoglobulina; profilaxias antimicrobianas; e isolamento protetor.

Duas notas incomodam por serem contraintuitivas. A primeira: no Brasil o BCG é aplicado na maternidade, antes de qualquer resultado e de qualquer sinal — e aproximadamente metade dos lactentes com a doença que recebem a vacina desenvolvem complicação, localizada ou disseminada. A contraindicação existe no papel e chega tarde na prática, e é por isso que "efeito adverso ao BCG" virou item da lista brasileira: o programa fabrica o próprio sinal. A segunda: o aleitamento, em regra mantido, é suspenso quando a sorologia materna para citomegalovírus é positiva, porque o vírus aumenta o risco de doença do enxerto contra o hospedeiro no transplante. O motivo é o vírus, nunca a transferência de imunoglobulinas.

Triagem neonatal e ampliação prevista no Brasil

A Lei nº 14.154, de 26 de maio de 2021, alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para fixar um rol mínimo de doenças rastreadas pelo teste do pezinho, com implantação escalonada em cinco etapas e nesta ordem de progressão: etapa 1, as sete condições clássicas — fenilcetonúria e outras hiperfenilalaninemias, hipotireoidismo congênito, doença falciforme e outras hemoglobinopatias, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita, deficiência de biotinidase e toxoplasmose congênita; etapa 2, galactosemias, aminoacidopatias, distúrbios do ciclo da ureia e distúrbios da betaoxidação dos ácidos graxos; etapa 3, doenças lisossômicas; etapa 4, imunodeficiências primárias; etapa 5, atrofia muscular espinhal.

A ordem, lida junto com a aritmética do transplante, é o ponto que a prova pode explorar. A única condição do rol cujo tratamento tem uma janela de eficácia medida em semanas — 91,5% de sobrevida antes dos 3,5 meses contra 68% depois — está na quarta das cinco etapas, atrás de um bloco inteiro de doenças lisossômicas. A lei não fixou prazos rígidos: deixou o cronograma para regulamentação do Ministério da Saúde e entrou em vigor 365 dias depois da publicação.

Para o enunciado, isso produz duas leituras. "O que a Lei nº 14.154/2021 prevê" pede o rol das cinco etapas, e nele a imunodeficiência primária está. O que a maternidade do SUS oferece àquela criança é outra coisa: o rastreamento por TREC e KREC está em implantação escalonada e não é oferta universal. Daí a consequência clínica: diante de um lactente com suspeita, não se espera pelo pezinho, pede-se hemograma com contagem absoluta e radiografia de tórax.

Fica também a regra de coleta, que a lei fixa: os testes são realizados preferencialmente a partir das 48 horas até o quinto dia de vida. É essa janela que torna a triagem compatível com o corte de 3,5 meses do transplante — e é por isso que o fluxo confirmatório precisa estar montado antes, não improvisado depois.

Reposição de imunoglobulina: indicações e dose

A régua brasileira de quem recebe imunoglobulina humana pelo SUS é o protocolo clínico aprovado pela Portaria nº 495, de 11 de setembro de 2007, que trata das imunodeficiências primárias com predominância de defeitos de anticorpos. Ele é explícito sobre um ponto que a prova adora inverter: a decisão de repor não se baseia na concentração de IgG, e sim na evidência de que o paciente tem infecções típicas do grupo e não é capaz de produzir anticorpo antígeno-específico.

A lista de exclusão é tão instrutiva quanto a de inclusão. Ficam fora do protocolo a deficiência isolada de IgA, a de IgM, a de IgD, a imunodeficiência predominantemente celular, o achado laboratorial incidental sem história de infecções ameaçadoras da vida, e ainda infecção ativa, neoplasia, insuficiência renal ou hepática e anafilaxia prévia à própria imunoglobulina. A deficiência de IgA, a mais comum de todas, é justamente a que não se repõe.

A posologia inicial recomendada é de 300 a 400 mg/kg a cada 3 semanas ou de 400 a 500 mg/kg a cada 4 semanas, com máximo de 600 mg/kg a cada 3 semanas ou 800 mg/kg a cada 4 semanas. As duas opções são oferecidas lado a lado como se fossem equivalentes, e no teto elas não são. Convertidas para o mesmo período de 28 dias, a primeira entrega de 400 a 533 mg/kg e a segunda entrega de 400 a 500 mg/kg: os pisos coincidem, os tetos não. Um paciente iniciado no topo do esquema de três semanas recebe cerca de 7% a mais por mês que outro iniciado no topo do esquema de quatro semanas. Nas doses máximas o protocolo se corrige sozinho — 600 mg/kg a cada 21 dias e 800 mg/kg a cada 28 dias dão exatamente os mesmos 800 mg/kg por 28 dias.

A aritmética continua no frasco. As apresentações intravenosas do protocolo são de 0,5, 1,0, 2,5, 3,0, 5,0 e 6,0 g. Uma criança de 10 kg a 400 mg/kg precisa de 4,0 g, que fecham exatamente com um frasco de 3,0 e um de 1,0. Uma de 10,5 kg precisa de 4,2 g, e o arredondamento para cima é 4,5 g — 7% acima do prescrito, só pela granularidade do frasco.

O acompanhamento tem números próprios: dosagem de IgG antes de cada aplicação, com o objetivo declarado de mantê-la acima de 500 mg/dL; hemograma, urina e provas de função renal e hepática a cada três meses; exclusão de infecção ativa no dia da aplicação; e ajuste guiado pela clínica — dias perdidos de escola, internações e uso de antibiótico nos três meses anteriores. O benefício leva de 4 a 6 semanas para aparecer, e o tratamento é contínuo. Antibiótico profilático não é recomendado para todos, pelo risco de germe resistente e infecção fúngica.

Erros inatos da imunidade: por que a classificação muda

A nomenclatura mudou e a prova ainda usa as duas. "Imunodeficiências primárias" é o termo tradicional; "erros inatos da imunidade" é o preferido hoje, porque muitos defeitos recém-descritos se manifestam mais por desregulação — autoimunidade, linfoproliferação, alergia grave, neoplasia — do que por deficiência. Os dois são intercambiáveis em enunciado e a troca não muda conduta.

O que muda com a data é a contagem de doenças, e ela funciona como carimbo de época. A revisão brasileira de 2021 escrevia 416 doenças e mais de 450 genes. O protocolo hospitalar de 2025 cita a classificação de 2022 da união internacional das sociedades imunológicas, com 485 distúrbios em dez grupos. A atualização de 2024 descreve 559 erros inatos da imunidade, 508 genes e 17 fenocópias, com 67 defeitos monogênicos novos. Alternativa que traz um número redondo de doenças está datando a si mesma.

As proporções entre grupos, essas sim, são estáveis. Pelo quadro do protocolo brasileiro, os defeitos de função linfocitária respondem por 70% do total — 40% de anticorpos, 20% combinados, 10% celulares puros —, os de fagócitos por 18% e as deficiências de complemento por 2%. Diante de uma criança com infecções de repetição sem pista de compartimento, a aposta estatística é defeito de anticorpo, e é por isso que o hemograma com diferencial e a dosagem de imunoglobulinas são a triagem de primeira linha.

Um último número reorganiza a percepção de raridade. O protocolo estima a incidência do grupo em 1 a cada 10.000 recém-nascidos vivos — excluídos os casos assintomáticos de deficiência de IgA. Mas a própria deficiência de IgA tem incidência de 1/320 a 1/800: a condição retirada do denominador é, sozinha, de 12 a 31 vezes mais frequente que tudo o que ficou dentro dele. Numa escola de mil crianças é esperado que uma ou duas a tenham, e que a maioria nunca saiba disso.

Fecha o raciocínio a advertência que já apareceu, agora como regra: as listas servem para levantar suspeita e não para descartá-la. Diante de uma criança que continua adoecendo sem explicação, a ausência de itens marcados é motivo para investigar de outro jeito, não para parar.

04

Qual lista está sendo usada, e o que ela manda pedir

Duas réguas em uma. Embaixo, a tabela que põe lado a lado os limiares das quatro listas em circulação, para que o enunciado se denuncie pelo número que escolheu. Acima, os cartões que resolvem a sequência da investigação: primeiro qual compartimento o fenótipo aponta, depois qual exame de primeira linha corresponde a ele, e por último quais números decidem no lactente.

  1. 1Criança com infecções que não se explicam: primeiro, qual a idade — decide qual lista de sinais vale
  2. 2Segundo, afaste imunodeficiência secundária: vírus da imunodeficiência humana, imunossupressor, desnutrição, perda renal ou intestinal, neoplasia
  3. 3Terceiro, afaste causa não imunológica: fibrose cística, discinesia ciliar, malformação, refluxo, atopia, hipertrofia de adenoide
  4. 4Quarto, leia o fenótipo — agente, sítio, idade de início, resposta ao antibiótico, reação a vacina atenuada, manifestação não infecciosa associada
  5. 5Quinto, peça o exame de primeira linha do compartimento apontado, sempre com hemograma e contagem absoluta na base
  6. 6Sexto, compare todo resultado com o valor de referência para a idade — nunca com a faixa do adulto
  7. 7Sétimo, se a suspeita persistir, encaminhe ao serviço de referência sem esperar o diagnóstico de certeza: proteção e reposição começam antes da genética
tres faixas, tres listas, uma zona de disputaate 1 ano12 sinais: achado de exame, sem contar por ano1 a 18 anos10 sinais infantis: 4 otites, 2 pneumonias por anoadulto10 sinais adultos: 2 otites, 1 pneumonia por ano16 a 18 anos: nenhum documento brasileiro diz de quem e o paciente

A idade escolhe a lista antes de a lista escolher o exame

Menor de 1 ano: use a lista dos doze sinais do primeiro ano de vida, que não conta episódios por ano e valoriza achado de exame — coto umbilical acima de 30 dias, hipocalcemia, ausência de sombra tímica, cardiopatia de vasos da base, linfocitopenia. De 1 a 18 anos: use a lista infantil, com quatro otites e duas pneumonias por ano. Acima disso: a lista do adulto, com duas otites e uma pneumonia por ano. Entre 16 e 18 anos as duas colunas disputam o mesmo paciente, e só a versão canadense do cartaz original declara que a coluna infantil vai até os 18.

Do fenótipo ao exame de primeira linha

Oportunista, início precoce, sem timo, crescimento parado: defeito combinado — hemograma com contagem absoluta, subpopulações linfocitárias, TREC. Encapsulado no respiratório, começo depois dos 6 meses, sem amígdalas, giardíase: defeito de anticorpo — hemograma, imunoglobulinas, linfócitos B, KREC. Neisseria de repetição, quadro lúpus-símile: complemento — C3, C4 e CH50. Abscesso profundo por catalase-positivo, granuloma, coto tardio: fagócito — hemograma com hematoscopia e teste da diidrorrodamina. Em qualquer ramo, afaste primeiro a causa secundária, começando pela sorologia do vírus da imunodeficiência humana.

linfocitos no lactente: tres cortes, uma faixa de conflito2500 a 30002500sinal de alerta2800 sugestivo3000linfocitopeniazona de perigoa regua do adulto comeca em 1000: usar o laudo do adulto perde o lactente

Os números do lactente com suspeita de forma combinada

Linfócitos abaixo de 2.800/mm³ nos primeiros meses é altamente sugestivo; abaixo de 2.500/mm³ é sinal de alerta formal da lista do primeiro ano; abaixo de 3.000/mm³ já é linfocitopenia pela régua hematológica em menores de 2 anos. Contagem normal não afasta. Linfopenia em duas ocasiões manda fenotipar, não repetir de novo. Na forma típica, T CD3+ abaixo de 300 células/mL. Radiografia sem sombra tímica reforça. Dosagem de imunoglobulinas ajuda pouco nessa idade: IgG normal pode ser materna e IgG baixa pode ser imaturidade.

O mesmo achado em quatro réguas — quando ele conta como sinal de alerta

AchadoCartaz original (Jeffrey Modell)Lista brasileira — criançaLista brasileira — adultoLista do 1º ano de vida
Otite média aguda4 ou mais novas em 1 ano4 ou mais novas no último ano2 ou mais novas em 1 anonão é item
Pneumonia2 ou mais em 1 ano2 ou mais no último ano1 por ano por mais de 1 ano (a cartilha brasileira escreve só 1 por ano)entra como infecção bacteriana persistente ou grave
Sinusite grave2 ou mais em 1 anonão é item2 ou mais em 1 ano, sem alergianão é item
Antibiótico por 2 meses sem efeitoé itemnão é itemnão é itemnão é item
Necessidade de antibiótico intravenosoé itemnão é itemé itemnão é item
Falha de ganho de peso ou crescimentoé itemnão é itementra junto com diarreia crônicanão é item isolado
Infecção sistêmica grave (sepse, meningite)2 ou mais infecções profundas1 episódio bastanão é item isoladoquadro sepse-símile sem foco é item
Efeito adverso ao BCG ou micobactérianão é itemé itemé item (micobactéria)é item
Monilíase ou estomatitemonilíase persistentepor mais de 2 mesespersistente ou fúngica invasivainfecção fúngica persistente ou grave
Doença autoimune ou asma gravenão é itemé itemnão é itemé item
Fenótipo sindrômiconão é itemé itemnão é itemcardiopatia de vasos da base e dismorfismo entram
Atraso da queda do coto umbilicalnão é itemnão é itemnão é itemacima de 30 dias é item
Hipocalcemia com ou sem convulsãonão é itemnão é itemnão é itemé item
Ausência de sombra tímica na radiografianão é itemnão é itemnão é itemé item
Linfocitopenianão é itemnão é itemnão é itemabaixo de 2.500/mm³ é item
História familiaré itemé itemé itemé item, incluindo óbito precoce por infecção
Quantos sinais bastam para investigar2 ou mais, declarado no cartaznão declaradonão declaradonão declarado

Os dez sinais infantis brasileiros e os dez sinais infantis do cartaz original não são a mesma lista: quatro itens saíram e quatro entraram. Enunciado que cita nominalmente a fundação americana está usando a lista de lá.

O limiar de dois sinais para investigar é declarado apenas no cartaz original. Os documentos brasileiros publicam as listas sem dizer quantos itens bastam.

As etapas 1 a 5 são da Lei nº 14.154/2021 e a imunodeficiência primária está na etapa 4. O que a lei prevê e o que a maternidade oferece são perguntas diferentes, e o capítulo de triagens neonatais desta coleção separa as duas.

Reposição de imunoglobulina é decisão do protocolo de defeitos de anticorpos. Deficiência isolada de IgA, de IgM ou de IgD e defeito predominantemente celular estão na lista de exclusão.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Uma pneumonia por ano no adulto — com ou sem a qualificação de tempo

Uma pneumonia por ano, sem qualificar por quanto tempo

O terceiro sinal da lista do adulto é escrito como 'uma pneumonia por ano'. Lido ao pé da letra, um único episódio de pneumonia nos últimos doze meses já marca o item, e o adulto com uma pneumonia isolada entra na contagem.

Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, cartilha Erros Inatos da Imunidade ou Imunodeficiências Primárias, 2023, página 15

Uma pneumonia por ano por mais de um ano

O terceiro sinal da lista do adulto é escrito como 'uma pneumonia por ano por mais de um ano'. O item só se cumpre quando o padrão se repete em anos consecutivos; um episódio isolado nos últimos doze meses não marca nada. É a forma que reproduz o cartaz original, onde se lê 'one pneumonia per year for more than 1 year'.

Protocolo PRT.HC-UFTM-UCA.003, versão 2, de 26 de setembro de 2025, item 8, e cartaz 10 Warning Signs of Primary Immunodeficiency, Jeffrey Modell Foundation Medical Advisory Board

Na prova

O enunciado entrega o recorte pelo tempo que ele descreve. Vinheta que diz 'um episódio de pneumonia no último ano' e trata isso como sinal de alerta está usando a cartilha resumida. Vinheta que diz 'uma pneumonia por ano nos últimos três anos', ou que descreve pneumonias em anos consecutivos, funciona nas duas versões e é a que o examinador cuidadoso monta. Quando a diferença for decisiva para a resposta, prefira a leitura que exige a repetição — é a que está no documento hospitalar mais recente e a que reproduz o original.

A partir de quantos sinais se investiga

Dois ou mais sinais, limiar declarado no cartaz

O cartaz original instrui explicitamente: se a criança apresentar dois ou mais destes sinais, converse com o médico sobre a possibilidade de imunodeficiência primária. O limiar de dois é parte da ferramenta, e um sinal isolado não dispara a investigação.

10 Warning Signs of Primary Immunodeficiency, Jeffrey Modell Foundation Medical Advisory Board, edição canadense com direitos de 2009 e edição norte-americana de 2010

Sem limiar declarado nas versões brasileiras

Tanto a cartilha da sociedade brasileira de alergia e imunologia quanto o protocolo hospitalar publicam as duas listas de dez itens sem enunciar quantos itens bastam para encaminhar. O protocolo acrescenta que muitos pacientes não apresentam nenhum dos sinais e que a presença deles também não confirma a doença, mas não fixa número de corte.

Cartilha da ASBAI, 2023, página 15, e Protocolo PRT.HC-UFTM-UCA.003, versão 2, 2025, item 8

Na prova

Reconheça o recorte pela contagem que o enunciado faz. Questão que descreve exatamente um sinal e pergunta se cabe investigar está apostando na ausência de limiar da versão brasileira, e a resposta esperada costuma ser investigar. Questão que cita nominalmente a fundação americana e diz 'dois dos dez sinais' está usando o limiar declarado do cartaz. Em vinheta com três ou mais sinais a divergência some, e é por isso que os enunciados bem construídos empilham otites, pneumonias, história familiar e déficit de crescimento na mesma criança.

O corte de linfócitos que importa no lactente

Abaixo de 3.000/mcL em menores de 2 anos já é linfocitopenia

A régua hematológica geral define linfocitopenia como contagem total abaixo de 1.000/mcL em adultos ou abaixo de 3.000/mcL em crianças com menos de 2 anos. Por ela, um lactente com 2.700 linfócitos já tem uma anormalidade nomeada.

Manuais MSD, edição para profissionais, verbete Linfocitopenia

Abaixo de 2.500/mm³ é o sinal de alerta do primeiro ano

A lista de sinais de alerta para o menor de 1 ano usa linfocitopenia definida como menos de 2.500 células/mm³, ao lado de outras citopenias e da leucocitose persistente sem infecção. Por ela, o mesmo lactente com 2.700 linfócitos não marca item.

Carneiro-Sampaio M, Jacob CM e Leone CR, reproduzido no Protocolo PRT.HC-UFTM-UCA.003, versão 2, 2025, item 8

Abaixo de 2.800/mm³ é altamente sugestivo nos primeiros meses

O relato brasileiro publicado pela sociedade pediátrica escreve que um hemograma com linfócitos abaixo de 2.800 células/mm³ em lactente nos primeiros meses de vida é altamente sugestivo de imunodeficiência combinada grave, e que linfopenia em duas ocasiões indica fenotipagem.

Demoner GC, Lelis PF e Chiabai J, Residência Pediátrica, 2026;16(2):1-4

Na prova

O número da vinheta diz qual documento o examinador abriu. Contagem abaixo de 2.500 funciona nas três réguas e é a que aparece nas questões bem construídas. Contagem entre 2.500 e 3.000 é território de conflito e raramente vira gabarito sozinha — quando aparece, vem acompanhada de outro achado que decide, como ausência de sombra tímica ou infecção por oportunista. E qualquer contagem de lactente comparada a uma faixa de referência que comece em 1.000 está sendo lida com a régua errada, o que é a armadilha mais frequente do tema.

Quando começam as infecções do defeito de anticorpos

Após o 7º mês de vida

O protocolo terapêutico nacional escreve que as infecções dos defeitos de anticorpos costumam incidir após o 7º mês de vida, pela perda da proteção conferida pelos anticorpos maternos recebidos no último trimestre, e que nas formas combinadas os sintomas começam antes do 6º mês.

Portaria SAS/MS nº 495, de 11 de setembro de 2007, anexo, item 3.1

Acima dos 6 meses

A revisão brasileira de 2021 registra, na coluna de manifestações associadas dos defeitos predominantemente de anticorpos, o início dos sintomas acima dos 6 meses, ao lado da ausência de amígdalas e adenoides e da linfoproliferação.

Grumach AS e Goudouris ES, Jornal de Pediatria (Rio de Janeiro), 2021;97(Supl 1):S84-S90, Tabela 1

Na prova

As vinhetas do acervo usam quase sempre 'a partir dos 6 meses', que é a formulação da revisão, e a diferença de um mês nunca é o que decide. O que decide é o agente e o achado de exame: bactéria encapsulada com amígdalas ausentes e imunoglobulinas baixas aponta defeito de anticorpo; oportunista com crescimento parado e timo ausente aponta defeito combinado. Enunciado que insiste no mês exato sem dar agente nem exame está pedindo memorização de um número que as próprias fontes escrevem diferente.

06

Caso resolvido

Lactente de 5 meses, sexo masculino, nascido a termo, é internado por pneumonia que não melhorou após nove dias de amoxicilina, agora com dispneia e hipoxemia. Tem monilíase oral desde os 2 meses, refratária a nistatina, e diarreia arrastada com queda de dois canais na curva de peso. Recebeu BCG na maternidade e o restante do calendário, incluindo rotavírus. A mãe conta que um filho anterior morreu aos 10 meses por infecção. Ao exame não se palpam linfonodos e as amígdalas são hipotróficas. Radiografia de tórax com infiltrado difuso e sem sombra tímica identificável. Hemograma: leucócitos 6.400/mm³, linfócitos totais 1.200/mm³, plaquetas 288.000/mm³. A equipe pergunta se cabe pedir dosagem de imunoglobulinas antes de qualquer outra coisa e se vale esperar o resultado do teste do pezinho ampliado.
Qual lista de sinais vale para esta criança
Cinco meses de vida: a lista dos dez sinais infantis não se aplica aritmeticamente, porque seus dois primeiros itens contam episódios em doze meses que este bebê não viveu. A lista útil é a do primeiro ano, e nela ele marca pelo menos cinco itens: infecção fúngica persistente, infecção bacteriana grave, diarreia persistente, história familiar de óbito precoce por infecção, linfocitopenia, e ainda a ausência de imagem tímica na radiografia. Seis, contando o timo.
O que a contagem de linfócitos diz, e com que régua
Linfócitos totais de 1.200/mm³ estariam dentro de uma faixa de referência de adulto e são gravemente baixos para 5 meses. O valor fica abaixo dos três cortes que importam: abaixo de 3.000, que já é linfocitopenia em menores de 2 anos pela régua hematológica; abaixo de 2.800, que é altamente sugestivo de forma combinada grave no lactente jovem; e abaixo de 2.500, que é o sinal de alerta formal da lista do primeiro ano. Nada aqui é limítrofe.
Qual compartimento o fenótipo aponta
Infecção fúngica persistente desde os 2 meses, diarreia crônica, falha de crescimento, pneumonia refratária, início muito precoce e ausência de tecido linfoide e de sombra tímica: é o roteiro do defeito combinado de células T e B, não o de defeito de anticorpo. O defeito de anticorpo puro começa depois do sexto ou sétimo mês, com bactéria encapsulada, e não dá monilíase persistente nem diarreia por oportunista.
Responder à pergunta sobre as imunoglobulinas
Elas serão colhidas, mas não são o exame que decide nesta idade. Uma IgG normal aqui pode ser inteiramente materna, e uma IgG baixa pode ser apenas imaturidade — a dosagem raramente esclarece a forma combinada grave no lactente jovem. O que decide é o que já está na mesa: contagem absoluta de linfócitos e radiografia sem timo. O passo seguinte é a imunofenotipagem, procurando T CD3+ abaixo de 300 células/mL, e a definição do subtipo pelas contagens de B e de células natural killer.
Responder à pergunta sobre o teste do pezinho
Não se espera. O rastreamento por TREC e KREC está na etapa 4 das cinco etapas da Lei nº 14.154/2021, atrás das doenças lisossômicas, e a implantação é escalonada — pode simplesmente não existir naquele serviço. Ainda que existisse e viesse normal, uma triagem normal não afastaria o diagnóstico diante deste quadro; o inverso também vale, e é o erro do relato brasileiro: triagem alterada com recoleta normal não encerra nada.
O que muda hoje, antes de qualquer resultado
Suspender toda vacina de agente vivo e registrar que BCG e rotavírus já foram aplicados — aproximadamente metade dos lactentes com a doença vacinados com BCG desenvolve complicação, e a micobactéria vacinal entra no diferencial do infiltrado pulmonar. Toda transfusão passa a ser com hemocomponente irradiado, leucodepletado e de doador negativo para citomegalovírus. Iniciar reposição de imunoglobulina e profilaxias, manter isolamento protetor e verificar a sorologia materna para citomegalovírus, porque, se positiva, o aleitamento é suspenso.
Por que a pressa tem número
O tratamento curativo é o transplante de células-tronco hematopoéticas, e o corte medido é de 3,5 meses de idade: antes dele, 91,5% de sobrevida em cinco anos; depois, 68%. Esta criança já perdeu essa janela, o que torna o segundo número ainda mais importante — a sobrevida cai de 82,3% para 64,7% quando há infecção ativa no momento do transplante. Tratar a pneumonia agressivamente e encaminhar em paralelo, sem esperar a genética, é o que ainda está sob controle da equipe.
O que sai do capítulo e vai para outro
A conduta vacinal detalhada da criança e da família, incluindo o que os centros de referência para imunobiológicos especiais oferecem ao imunodeprimido, está no capítulo do calendário vacinal, na apostila de Infectologia Pediátrica. A implantação das cinco etapas do teste do pezinho e o que o SUS oferece em cada uma estão no capítulo de triagens neonatais, na apostila de Puericultura.
07

Agora feche você

Adolescente de 16 anos, sexo masculino, é levado ao ambulatório porque a mãe está preocupada com infecções de repetição. Nos últimos doze meses teve três episódios de otite média aguda tratados com antibiótico oral e um episódio de pneumonia documentada por radiografia, com internação de três dias. Nega diarreia crônica, monilíase, abscessos, eczema e reação a vacinas. Crescimento e desenvolvimento normais, peso no percentil 45. Sem história familiar de imunodeficiência. O pediatra abre a cartilha da sociedade de alergia e imunologia, encontra as duas colunas de dez sinais e pergunta a você qual usar, e se há indicação de investigar. Ele pergunta também se, caso decida investigar, o primeiro exame deve ser a contagem de subpopulações linfocitárias.
Primeiro, decida a lista pela idade e diga por que ela é ambígua
Aos 16 anos as duas colunas brasileiras disputam o paciente, porque nenhuma delas declara faixa etária. Recupere qual documento declara, e qual limite ele fixa.
Segundo, conte os itens nas duas colunas
Três otites e uma pneumonia. Diga quantos itens ele marca na coluna infantil e quantos na coluna do adulto, e nomeie o limiar de cada um dos dois achados em cada coluna.
Terceiro, resolva a conduta apesar da ambiguidade
Diga o que fazer quando as duas colunas discordam, e recupere o número que justifica não usar lista negativa como exclusão.
Quarto, ordene a investigação
Nomeie o que se afasta antes de qualquer exame imunológico, o exame de primeira linha correspondente ao fenótipo descrito, e por que a contagem de subpopulações não é o primeiro passo.
Quinto, antecipe as duas ressalvas de interpretação
Diga o que fazer se a IgG vier normal, e o que pensar se as imunoglobulinas vierem baixas com albumina baixa.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Repetir o TREC alterado e deixar a recoleta normal encerrar a investigação Atrai porque repetir exame alterado é hábito bom em quase todo rastreamento. Aqui não é. No relato brasileiro publicado pela sociedade pediátrica, um lactente com irmão morto pela mesma doença teve TREC abaixo de 10 cópias por microlitro no primeiro mês, recoleta acima de 10, investigação encerrada, calendário vacinal completo com agentes vivos e diagnóstico só aos 6 meses, depois de doença pulmonar por micobactéria vacinal. Recoleta normal não desfaz triagem alterada: o que desfaz é o teste confirmatório, que é a imunofenotipagem de linfócitos. E o tempo perdido custa a diferença entre 91,5% e 68% de sobrevida em cinco anos.
  2. 2Pedir dosagem de imunoglobulinas para investigar suspeita de forma combinada no lactente Atrai porque hemograma e imunoglobulinas são a triagem inicial correta na maioria dos enunciados. O problema é a idade. No lactente jovem a IgG pode estar normal por ser inteiramente materna, atravessada pela placenta no último trimestre, e pode estar baixa por simples imaturidade — a dosagem raramente ajuda a diagnosticar a forma combinada grave. O que decide nessa faixa é a contagem absoluta de linfócitos, a radiografia de tórax procurando a sombra tímica e, na sequência, a imunofenotipagem.
  3. 3Ler a contagem de linfócitos do lactente com a faixa de referência do adulto Atrai porque o laudo imprime a referência do laboratório, que costuma ser de 1.000 a 4.800 células. Um lactente de 4 meses com 1.500 linfócitos cai dentro dessa faixa e está com metade do piso da própria idade. Os três cortes que importam no primeiro ano — 2.500, 2.800 e 3.000 — são todos maiores que o limite superior daquilo que se chama linfopenia no adulto. Todo resultado deste tema se compara com o valor de referência para a idade, e a contagem absoluta vale mais que a porcentagem.
  4. 4Contar um episódio de sepse como dois sinais, ou como nenhum Atrai porque as duas listas usam palavras parecidas para coisas diferentes. O cartaz original pede duas ou mais infecções profundas incluindo septicemia — um episódio isolado não marca o item. A lista brasileira infantil pede um episódio de infecção sistêmica grave, com meningite, osteoartrite e sepse como exemplos — um basta. A mesma menina com um episódio de sepse pneumocócica marca um sinal cheio numa régua e zero na outra. Quando o enunciado citar nominalmente a fundação americana, use o limiar de dois.
  5. 5Achar que déficit de crescimento e antibiótico prolongado são sinais da lista brasileira Atrai porque os dois são, de fato, dos preditores mais fortes — o próprio protocolo hospitalar diz que os sinais mais importantes são os do uso de antibiótico, do retardo ponderoestatural e da história familiar. Mas a lista infantil brasileira não tem nenhum item de crescimento nem de duração de antibiótico: os dois pertencem ao cartaz original, e o de antibiótico intravenoso sobreviveu apenas na lista brasileira do adulto. Em vinheta que descreve percentil 3 e dois meses de antibiótico sem melhora, marque a criança para investigar — mas saiba que quem está contando itens da lista brasileira não conta nenhum dos dois.
  6. 6Indicar reposição de imunoglobulina para deficiência seletiva de IgA Atrai porque é a imunodeficiência primária mais comum e porque o nome tem 'deficiência de imunoglobulina' dentro. O protocolo nacional a coloca explicitamente na lista de exclusão, ao lado da deficiência isolada de IgM, da deficiência isolada de IgD, do defeito predominantemente celular e do achado laboratorial incidental sem infecções ameaçadoras da vida. O que a deficiência de IgA exige é outra coisa: reavaliação periódica, porque pode evoluir para imunodeficiência comum variável, atenção à deficiência associada de subclasse de IgG em cerca de um quarto dos casos, e cuidado com hemoderivados que contenham IgA, pelo risco de reação anafilática.
  7. 7Suspender o aleitamento materno na forma combinada grave pelo motivo errado Atrai por meio caminho estar certo. Suspender o aleitamento pode ser correto nessa criança — o relato brasileiro suspendeu, e a razão foi sorologia materna positiva para citomegalovírus, porque a infecção pelo vírus aumenta o risco de doença do enxerto contra o hospedeiro no transplante alogênico. O que nunca justifica suspender é 'transferência de imunoglobulinas' ou qualquer variante disso. Alternativa que manda suspender por causa dos anticorpos do leite erra pelo motivo, não pela ação.
  8. 8Tratar a lista negativa como exclusão diagnóstica Atrai porque dez itens parecem cobrir tudo. Num centro que confirmou 896 diagnósticos entre 2.851 encaminhamentos por suspeita, 20,4% dos pacientes com erro inato da imunidade confirmado não tinham nenhum dos dez sinais; com a lista estendida a catorze itens, incluindo eczema grave, alergias, distúrbios hemato-oncológicos e autoimunidade, a proporção caiu para 14%. As listas levantam suspeita e não descartam nada. Autoimunidade precoce, citopenia sem causa e linfoproliferação são portas de entrada tão legítimas quanto a otite de repetição.
  9. 9Esperar o resultado do teste do pezinho para investigar um lactente sintomático Atrai porque a Lei nº 14.154/2021 realmente inclui imunodeficiências primárias no rol do teste do pezinho. Só que elas estão na etapa 4 das cinco, atrás das doenças lisossômicas, e a implantação é escalonada. O que a lei prevê e o que a maternidade daquela criança oferece são perguntas diferentes. Diante de um lactente com infecção por oportunista, crescimento parado ou complicação de vacina atenuada, o caminho é hemograma com contagem absoluta e radiografia de tórax no mesmo dia — não aguardar triagem que pode nem existir naquele estado.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Lactente do sexo masculino com infecções bacterianas de repetição, tecido linfoide hipoplásico (tonsilas ausentes), ausência de linfócitos B e hipogamaglobulinemia global aponta para agamaglobulinemia ligada ao X (mutação em BTK). Na imunodeficiência comum variável os linfócitos B costumam estar presentes e a apresentação é mais tardia. DiGeorge afeta linfócitos T (defeito tímico), com hipocalcemia e cardiopatia. SCID compromete T e B com linfopenia grave e apresentação mais precoce/fulminante. Deficiência de IgA acomete apenas IgA, com demais imunoglobulinas normais.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite, sem consultar, os quatro limiares que separam a lista infantil da lista do adulto: quantas otites e quantas pneumonias por ano em cada uma. Diga qual das quatro listas declara quantos sinais bastam para investigar, e qual número ela declara. Nomeie os quatro itens do cartaz original que a lista infantil brasileira não tem, e os quatro que ela acrescentou. Depois dê os três cortes de linfócitos do lactente — 2.500, 2.800 e 3.000 — dizendo a que documento pertence cada um e o que acontece com uma criança que tem 2.700. Por fim, diga o exame de primeira linha de cada um dos quatro compartimentos: combinado, anticorpo, complemento e fagócito.

em 30 dias

Refaça o capítulo por decisões, não por listas. Dada uma vinheta, responda em sequência: que idade tem a criança e que lista vale para ela; que compartimento o agente e o sítio apontam; que exame de primeira linha corresponde; e com que valor de referência o resultado precisa ser comparado. Depois recite os números da imunodeficiência combinada grave — 3,5 meses, 91,5% contra 68%, 82,3% contra 64,7%, aproximadamente metade dos vacinados com BCG com complicação, T CD3+ abaixo de 300 células/mL — e explique por que a recoleta de um TREC alterado não encerra a investigação. Feche com a régua da reposição: quem entra, quem o protocolo exclui nominalmente, as duas posologias iniciais convertidas para 28 dias e o alvo de IgG acima de 500 mg/dL.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Chega ao ambulatório um lactente de 8 meses, do sexo masculino, trazido pela mãe por infecções de repetição que começaram por volta dos 6 meses: duas pneumonias, otites e um episódio de diarreia arrastada. A mãe menciona que um tio dela morreu na infância por infecções. Você tem à mão a caderneta com o calendário vacinal, um hemograma recente e a possibilidade de solicitar dosagem de imunoglobulinas e contagem de linfócitos B. Conduza o atendimento: caracterize os episódios infecciosos por agente, sítio e resposta ao antibiótico, examine o tecido linfoide, decida qual lista de sinais de alerta cabe nessa idade, afaste as causas secundárias e não imunológicas, escolha a triagem de primeira linha e explique à mãe o que o resultado vai e o que não vai responder. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Imunodeficiências primárias: os sinais de alerta e a investigação inicial — Preparatório para provas | OsceLabs