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Artrite idiopática juvenil

Quase tudo neste tema é contagem: quantas semanas de artrite, quantos anos de idade, quantas articulações em quantos meses, quantos dias de febre, quantos quilos de peso. E quase toda contagem tem mais de uma régua — o protocolo brasileiro foi reescrito em janeiro de 2026, a classificação internacional continua valendo, e as duas nem sempre dizem o mesmo número. Saber de qual régua a alternativa está falando é o que separa quem acerta de quem decorou o nome dos subtipos.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menina de 3 anos apresenta há 8 semanas edema, calor e limitação de movimento no joelho direito e no tornozelo esquerdo, sem febre ou comprometimento sistêmico. A mãe nota que a criança 'manca' pela manhã e melhora ao longo do dia. Fator antinuclear (FAN) positivo em título 1:320. Fator reumatoide negativo. Qual a complicação extra-articular que exige rastreamento oftalmológico periódico nesse subtipo?

02

Como esse tema cai

No acervo de questões desta plataforma há, neste instantâneo, onze questões vivas com este tema, num acervo de 23.673 que cresce em paralelo. Elas se distribuem de forma desigual: quatro giram em torno da forma oligoarticular e da sua complicação ocular, três pedem o diagnóstico da forma sistêmica, duas cobram a artrite relacionada a entesite e duas cobram a síndrome de ativação macrofágica — uma delas, aliás, num lúpus juvenil, não numa artrite idiopática juvenil.

O que essas onze questões não pedem é mais informativo do que o que elas pedem. Nenhuma pergunta quantas articulações separam a forma persistente da estendida. Nenhuma pergunta de quanto em quanto tempo o olho é examinado. Nenhuma pergunta dose, faixa de peso, escore de atividade ou critério de remissão. O tema entra na prova pelo reconhecimento do quadro e sai antes de chegar à contagem — e é justamente na contagem que as réguas divergem.

O espelho do acervo confirma o desenho. Varrendo enunciado, alternativas, comentário e resposta esperada de todas as questões vivas, sem olhar a coluna de tema, a artrite idiopática juvenil aparece em onze questões que já pertencem a algum capítulo. Nenhuma delas é ensinada aqui: ela figura como diferencial da leucemia linfoblástica aguda, como aquilo que a febre reumática não é, como causa sistêmica de olho vermelho e como substrato de um estudo sobre vacina em imunossuprimidos. Em 814 capítulos escritos, a doença reumática crônica mais comum da infância nunca foi o assunto — só a alternativa que se descarta.

Este capítulo cobre o buraco pelo lado que a prova brasileira passou a ter em janeiro de 2026: um protocolo clínico novo, com tabelas próprias, que verte para o português critérios internacionais e, em alguns pontos, muda o número. Onde muda, o capítulo mostra os dois números e diz de quem é cada um.

03

O que muda decisão

Seis semanas, dezesseis anos, e o relógio de seis meses que classifica

Como usar este capítulo: confirme artrite com duração mínima e início antes dos 16 anos, exclua diagnósticos concorrentes e classifique o subtipo. O risco ocular exige rastreamento mesmo sem sintomas; atividade, dano e resposta orientam a escalada terapêutica.

Artrite idiopática juvenil é um nome de guarda-chuva. O protocolo brasileiro a define como um grupo heterogêneo de doenças autoimunes caracterizadas por artrite crônica, de origem desconhecida, que se inicia antes dos 16 anos. Crônica, aqui, tem número: duração superior a seis semanas. Abaixo disso a artrite é aguda, e a companhia habitual da artrite aguda é a infecção. Esse é o primeiro corte, e ele é temporal, não anatômico.

A identificação da artrite em si é clínica, e o protocolo é econômico ao descrevê-la: aumento de volume articular, ou a presença de dois sinais inflamatórios, como dor à palpação ou dor com limitação de movimentos. Exames de imagem podem confirmar a artrite, mas em geral não são necessários. O laboratório mínimo é hemograma, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa; fator reumatoide e HLA-B27 servem para separar subtipos, e o fator antinuclear serve, segundo o próprio texto, para avaliar o risco de uveíte.

Firmada a artrite crônica, começa o segundo relógio, e ele é o que produz os subtipos: os seis primeiros meses de doença. A contagem de articulações que classifica o paciente não é a contagem do dia da consulta; é a contagem acumulada nesse semestre inicial. Até quatro articulações no semestre, oligoarticular. Cinco ou mais no semestre, poliarticular — e a poliarticular ainda se divide em duas, conforme o fator reumatoide, que só conta como positivo se der positivo em dois testes separados por pelo menos três meses.

Depois do semestre a contagem não para de importar, mas passa a ter outro efeito: em vez de reclassificar de oligo para poli, ela desdobra a oligoarticular em duas. Se novas articulações se somam e o total passa de quatro, a forma é estendida; se o paciente permanece em quatro ou menos, é persistente. É a redação da classificação internacional, e o número que ela usa como fronteira é o mesmo dos outros cortes: quatro de um lado, cinco do outro.

A prosa do protocolo brasileiro descreve esse desdobramento com outras palavras, e as palavras mudam a fronteira. O texto diz que, se depois dos seis meses o número de articulações acometidas ultrapassar cinco, a forma será estendida; se permanecer com menos de cinco, será persistente. Ultrapassar cinco começa em seis. Permanecer com menos de cinco termina em quatro. A criança que chega a exatamente cinco articulações no oitavo mês não recebe nome por nenhuma das duas metades da frase — e é essa quinta articulação, e não a sexta, que a classificação internacional usa para chamar a forma de estendida.

A consequência não é de nomenclatura. O próprio protocolo determina que os casos que evoluem como oligoarticular estendida devem receber tratamento semelhante ao da forma poliarticular, o que significa sair do fluxograma da infiltração e do anti-inflamatório e entrar no fluxograma do metotrexato. A articulação que muda o fluxograma é exatamente a que a frase deixa sem endereço.

A febre que classifica não é a febre que diagnostica

A forma sistêmica é a mais grave e a que menos parece artrite no começo. Em cerca de 10% dos pacientes a artrite chega atrasada, semanas ou meses depois das manifestações sistêmicas. O que domina o quadro inicial é febre alta com picos e retorno da temperatura ao normal entre eles, acompanhada de pelo menos uma manifestação extra-articular: exantema, serosite, hepatomegalia, esplenomegalia ou linfonodomegalia generalizada.

A duração da febre é onde três textos deixam de coincidir. O Quadro 2 do protocolo brasileiro exige febre por mais de 15 dias, documentada por pelo menos 3 dias na semana. A classificação internacional exige febre de pelo menos duas semanas de duração. A Sociedade Brasileira de Pediatria descreve febre alta, acima de 39 °C, frequente por pelo menos 2 semanas, uma ou duas vezes ao dia. Duas semanas começam no décimo quarto dia; mais de quinze dias começa no décimo sexto. Os dias 14 e 15 preenchem o critério de duas das três réguas e não preenchem o da terceira.

A divergência não está só na duração: está também no padrão. Documentado por pelo menos 3 dias na semana admite uma febre que falta em alguns dias. Uma ou duas vezes ao dia descreve uma febre diária. Uma criança com picos às segundas, quartas e sextas satisfaz a primeira frase e não satisfaz a segunda. Ao ler a alternativa, vale separar os dois eixos: quantos dias ao todo, e com que padrão dentro da semana.

Nada disso, porém, autoriza o passo seguinte, que é o erro caro. Critério de classificação existe para agrupar pacientes de forma homogênea, e o próprio protocolo abre uma categoria de artrite sistêmica provável para quem tem manifestações sistêmicas típicas sem artrite, mandando tratar antes de classificar. Uma criança no sexto dia de febre com exantema evanescente, hepatoesplenomegalia, leucocitose neutrofílica e ferritina muito alta, com cultura negativa e investigação oncológica limpa, é caso de suspeita de forma sistêmica, e a questão que pede o diagnóstico mais provável nessa situação está certa em apontá-la. O que ainda não se pode dizer, no sexto dia, é que ela preenche o critério de febre de qualquer uma das três réguas.

A complicação que faz a forma sistêmica ser tratada com pressa é a síndrome de ativação macrofágica, que ocorre em cerca de 10% dos casos e pode ser fatal em 6% a 8% deles. O laboratório dela é contraintuitivo: a velocidade de hemossedimentação cai em vez de subir, porque o fibrinogênio é consumido, e caem também as séries do hemograma, enquanto sobem ferritina, transaminases, desidrogenase lática, D-dímeros e triglicerídeos, com prolongamento dos tempos de coagulação. Febre que deixa de ter picos e passa a ser contínua, num paciente já diagnosticado, é o sinal clínico que acompanha essa virada laboratorial. O tratamento começa com pulsos endovenosos de metilprednisolona e, sem resposta evidente, acrescenta ciclosporina.

Há ainda uma quarta redação circulando, e ela vem da proposta de reclassificação que o protocolo cita e resume. Nessa proposta, a febre típica passa a ser critério obrigatório; artrite e exantema evanescente viram critérios maiores; e o diagnóstico se fecha com febre mais dois critérios maiores, ou febre mais um critério maior e dois critérios menores. A lista de menores que o protocolo transcreve traz serosite, hepatomegalia, esplenomegalia ou linfonodomegalia, leucocitose, artralgia por mais de duas semanas e mais de 15.000 leucócitos por milímetro cúbico — em que leucocitose e mais de 15.000 leucócitos são, na prática, o mesmo achado contado duas vezes. Como a proposta está em validação, nenhuma prova deveria cobrá-la como régua vigente; ela vale como aviso de que a régua da forma sistêmica está em movimento.

Os cinco critérios de exclusão são o que decide o subtipo

Os sete subtipos da classificação internacional são mutuamente exclusivos, e é a lista de exclusões que garante isso. O protocolo brasileiro a reproduz num quadro próprio com cinco itens: psoríase ou história de psoríase no paciente ou em parente de primeiro grau; artrite com início em paciente com mais de seis anos, do sexo masculino e com HLA-B27 presente; espondilite anquilosante, artrite relacionada a entesite, sacroiliíte com artrite inflamatória intestinal, síndrome de artrite reativa, uveíte anterior aguda ou história de uma dessas em parente de primeiro grau; presença de fator reumatoide IgM em duas ocasiões com intervalo superior a três meses; e presença de artrite sistêmica no paciente.

Cada subtipo carrega a sua própria seleção desses cinco. A forma sistêmica exclui os itens 1 a 4. A oligoarticular exclui os cinco. A poliarticular com fator reumatoide positivo exclui 1, 2, 3 e 5 — não o 4, porque o 4 é justamente o que a define. A poliarticular com fator reumatoide negativo exclui os cinco. A artrite psoriásica exclui 2, 3, 4 e 5 — não o 1, pela mesma lógica. A artrite relacionada a entesite exclui 1, 3, 4 e 5, e não o 2, que descreve o seu próprio paciente típico. Quem não preenche nenhum subtipo, ou preenche mais de um, cai na artrite indiferenciada.

Ler as exclusões de trás para frente resolve boa parte das questões de classificação: a alternativa que descreve um achado presente no paciente e que consta da lista de exclusão daquele subtipo derruba o subtipo, por mais típico que o resto do quadro pareça. Um menino de onze anos com oligoartrite assimétrica de membros inferiores, entesite aquileana, sacroiliíte e HLA-B27 positivo tem a artrite relacionada a entesite escrita na testa — e uma psoríase no pai a exclui, porque o item 1 está na lista dela.

O item 4 traz um detalhe de redação que vale registrar. A definição da poliarticular com fator reumatoide positivo, tanto no quadro quanto na prosa, aceita dois testes positivos com intervalo de três ou mais meses, ou intervalo mínimo de três meses. O critério de exclusão, no quadro seguinte, exige intervalo superior a três meses. Dois exames colhidos com exatamente três meses de diferença satisfazem a definição e não satisfazem a exclusão. É diferença pequena e de consequência estreita, mas serve de aviso: em quadro de critérios, mínimo e superior não são sinônimos.

Há um segundo ponto de redação, e este pesa mais. A classificação internacional lista, entre os itens da artrite relacionada a entesite, o início da artrite em menino com mais de seis anos como um item único. O texto brasileiro apresenta essa condição em duas linhas separadas: início da artrite no sexo masculino, e pacientes com mais de seis anos. Como o subtipo se fecha com artrite ou entesite mais dois itens da lista, contar sexo e idade como dois faria de qualquer menino de sete anos com artrite um caso de artrite relacionada a entesite, sem entesite, sem HLA-B27, sem dor axial e sem história familiar. A leitura que preserva o sentido do subtipo é a do original: menino acima de seis anos vale um item, e ainda falta o outro.

O olho não avisa, e o calendário do olho tem mais de uma versão

A principal complicação extra-articular da forma oligoarticular é a uveíte anterior crônica, e o adjetivo que a torna perigosa não é crônica: é assintomática. Não há olho vermelho, não há dor, não há queixa de visão. A criança não reclama porque não percebe, e a inflamação segue produzindo sinéquias, ceratopatia em faixa, catarata e glaucoma até chegar à perda definitiva. Por isso o rastreio é ativo, com lâmpada de fenda, em criança que não tem sintoma nenhum. O maior risco está na oligoarticular de início precoce, no sexo feminino, com fator antinuclear positivo — e a poliarticular com fator reumatoide negativo, que o protocolo descreve como forma exacerbada da oligoarticular, corre risco parecido.

O calendário brasileiro está no capítulo de monitoramento do protocolo e é declaradamente adaptado de uma diretriz britânica. Ele manda encaminhar ao oftalmologista já na suspeita ou no diagnóstico, avaliar na mesma semana quem tem sintoma ocular, e então repetir a avaliação a cada duas semanas desde o início da artrite por um período de 6 meses, passando depois a cada 3 a 4 meses até que a criança complete 11 anos. Após a alta da triagem, orienta automonitorização semanal da visão, um olho de cada vez, e controle oftalmológico anual. E há uma regra à parte para quem interrompe o imunossupressor: avaliação a cada dois meses por um período de seis meses.

Vale ler as duas frases juntas, porque elas estão no mesmo parágrafo e usam unidades diferentes para janelas de mesmo tamanho: duas semanas na fase inicial, dois meses depois da suspensão do metotrexato. A diferença de unidade não é decorativa. Num semestre de 26 semanas, um intervalo de duas semanas produz 13 reavaliações; um intervalo de dois meses produz 3. É mais de quatro vezes a quantidade de idas ao oftalmologista, na mesma fase da mesma doença.

A régua americana de 2019 organiza o mesmo rastreio por outro eixo. Ela não usa um calendário único: estratifica. Alto risco é a criança com oligoartrite, poliartrite com fator reumatoide negativo, artrite psoriásica ou artrite indiferenciada que seja, ao mesmo tempo, positiva para o fator antinuclear, com início da AIJ antes dos 7 anos e duração de doença de 4 anos ou menos. Para esse grupo, rastreio a cada 3 meses. Para quem não preenche todos esses itens — negativo para o fator antinuclear, ou com 7 anos ou mais no início, ou com mais de 4 anos de doença —, a cada 6 a 12 meses.

Repare no desenho dos dois limiares dessa definição, porque eles não são simétricos. Início antes dos 7 anos exclui quem começou exatamente aos 7. Duração de 4 anos ou menos inclui quem tem exatamente 4 anos de doença. Um dos cortes é estrito e o outro não, na mesma frase — e o candidato que assume simetria erra em uma das duas pontas.

As duas réguas também discordam sobre quando parar. A brasileira encerra a triagem aos 11 anos e devolve a criança à automonitorização com revisão anual. A americana não fixa idade de alta: mantém o paciente numa faixa de risco enquanto a duração de doença o mantiver lá. Uma menina que adoece aos 3 anos é rastreada por 8 anos pela régua brasileira; a que adoece aos 10 é rastreada por 1 ano. Pela régua americana, a primeira é de alto risco até completar 4 anos de doença e a segunda nunca chega a sê-lo, por ter começado depois dos 7 — mas continua em rastreio semestral ou anual sem prazo para acabar.

Há ainda um detalhe interno que a prova gosta. O protocolo diz, na seção de diagnóstico laboratorial, que a identificação do fator antinuclear serve para avaliar o risco de uveíte. O calendário que ele prescreve, no entanto, é o mesmo para todos, positivos e negativos. O anticorpo que o texto aponta como marcador de risco não aparece em nenhuma linha do cronograma que o mesmo texto manda seguir.

Fora do rastreio, o tratamento da uveíte tem números próprios. O alvo é grau zero de células na câmara anterior nos dois olhos. Corticoide tópico é a primeira linha; se a doença não estiver controlada em 3 meses com mais de 3 gotas em cada olho por dia, entra o metotrexato, que em uveíte grave sobe para 20 mg/m². Sem controle após 3 a 4 meses de metotrexato, entram adalimumabe ou infliximabe como primeira escolha entre os biológicos. Dois medicamentos ficam de fora por aumentarem o risco de recorrência de uveíte, e são justamente dois que servem bem à articulação: etanercepte e os anti-inflamatórios não esteroidais. A leflunomida também não é indicada para a uveíte.

A escada do tratamento, e o quilo que troca a régua da dose

A escada começa diferente em cada subtipo. Na oligoarticular, o primeiro degrau é anti-inflamatório não esteroidal ou glicocorticoide intra-articular; havendo contratura, começa direto pela infiltração. A infiltração pode ser repetida no máximo três vezes no ano, com intervalo mínimo de quatro meses — três aplicações espaçadas ao mínimo ocupam oito meses de calendário, o que na prática significa uma em janeiro, uma em maio e uma em setembro. O medicamento sintético entra quando o efeito da infiltração dura menos de seis meses, quando há doença grave e erosiva, ou quando novas articulações são acometidas, sobretudo as de mau prognóstico: coluna cervical, punhos e tornozelos.

Na poliarticular, o metotrexato entra assim que o diagnóstico se confirma, na dose de 15 mg/m² por semana, com ácido fólico 1 mg por dia durante 6 dias ou ácido folínico na fração de um terço da dose do metotrexato, ao menos 24 horas depois dele. Para uma criança de 0,8 m², isso dá 12 mg semanais de metotrexato e 4 mg de ácido folínico. Corticoide sistêmico em dose baixa cabe por período curto, inferior a 3 meses, enquanto o sintético não faz efeito. Anti-inflamatório não deve ser monoterapia por mais de 2 meses. Se a resposta ao sintético for insuficiente após 3 meses, associa-se um biológico, preferencialmente um anti-TNF-alfa.

Duas situações furam a fila e permitem biológico antes do sintético: a forma sistêmica com manifestações sistêmicas ativas e a artrite relacionada a entesite com sacroiliíte. Na forma sistêmica, o roteiro é pulso de metilprednisolona seguido de prednisona oral; se ao fim de sete dias a febre estiver controlada e a proteína C reativa tiver caído 50%, começa a redução do corticoide; se não, novo pulso na semana seguinte; e se após duas semanas a febre persistir ou as doses altas continuarem necessárias, entra o biológico, de preferência o tocilizumabe.

A escolha da classe segue o subtipo. Forma sistêmica com manifestações ativas, preferencialmente anti-IL6. Artrite relacionada a entesite, anti-TNF-alfa. Oligoarticular e poliarticular, anti-TNF-alfa, abatacepte ou tocilizumabe. Antes de qualquer biológico, é obrigatório afastar hepatites, HIV e tuberculose ativa e latente, com radiografia de tórax e prova tuberculínica ou teste de liberação de interferon-gama; prova tuberculínica igual ou maior que 5 mm, ou teste reagente, manda tratar a infecção latente, e o biológico entra 4 semanas depois do início desse tratamento.

É no quadro de posologias que mora a armadilha aritmética deste capítulo, e ela tem nome: 30 kg. Duas linhas da mesma tabela usam esse peso como divisor, e usam em direções opostas. O tocilizumabe endovenoso na forma sistêmica é de 12 mg/kg a cada 2 semanas para quem tem menos de 30 kg, e de 8 mg/kg a cada 2 semanas para quem tem mais de 30 kg. O adalimumabe é de 20 mg a cada 14 dias para quem tem menos de 30 kg, e de 40 mg a cada 14 dias para quem tem mais de 30 kg.

Ponha dois pacientes lado a lado. A criança de 29,4 kg recebe 352,8 mg de tocilizumabe por infusão; a de 30,6 kg recebe 244,8 mg. A mais leve recebe 108 mg a mais — 44% acima da dose da mais pesada, com 1,2 kg de diferença entre as duas. E a inversão dura muito: para receber tantos miligramas quanto a criança de 29,4 kg, um paciente da faixa de cima precisa chegar a 44,1 kg. Toda criança entre 30 e 44 kg recebe, em miligramas, menos tocilizumabe do que uma que pesa pouco menos de 30. No adalimumabe, na mesma tabela, o degrau anda para o outro lado: 0,68 mg/kg aos 29,4 kg contra 1,31 mg/kg aos 30,6 kg, quase o dobro por quilo.

Comparação conceitual em que um pequeno aumento de peso ao cruzar um limiar produz queda do volume total de medicação, seguida de nova elevação progressiva
O degrau dos 30 kg inverte a dose: 29,4 kg correspondem a 352,8 mg, enquanto 30,6 kg correspondem a 244,8 mg; só a partir de 44,1 kg a faixa superior volta a alcançar a dose da criança mais leve.

E os 30 kg exatos não são nomeados por nenhuma das duas faixas: a tabela diz menos de 30 e mais de 30, e nenhuma das duas frases contém o número redondo. Aplicando cada uma delas à mesma criança de 30,0 kg, o tocilizumabe sai 360 mg ou 240 mg — uma diferença de 120 mg, um terço da dose maior, decidida por uma preposição.

Outros dois números fecham o quadro. O etanercepte é 0,8 mg/kg por semana com teto de 50 mg por dose, o que faz o teto passar a valer a partir de 62,5 kg: aos 60 kg a dose é 48 mg e cresce com o peso; aos 65 kg ela para de crescer. E o abatacepte tem, hoje, uma janela etária dupla: bula a partir dos 6 anos e, enquanto durar o desabastecimento declarado no protocolo, início restrito a quem tem menos de 18 anos. Como o protocolo inclui pacientes com artrite idiopática juvenil de qualquer idade, é possível estar dentro do protocolo e fora do abatacepte pelos dois lados — jovem demais aos 5, velho demais aos 18.

Medir para decidir: o escore, a escala e as duas remissões

O tratamento da artrite idiopática juvenil é orientado a alvo, e alvo exige medida. O instrumento é o JADAS, que soma quatro variáveis: número de articulações ativas, avaliação global pelo paciente numa escala visual de 0 a 10, avaliação global pelo médico na mesma escala, e uma prova de atividade inflamatória normalizada de 0 a 10. Existe em três tamanhos, conforme quantas articulações se contam: 71, 27 ou 10.

Antes de usar qualquer ponto de corte, é preciso saber de qual escala ele veio, e a conta é simples. Contando 71 articulações, o máximo é 71 mais três vezes 10, ou seja, 101; contando 27, é 57; contando 10, é 40. Retirando a prova laboratorial obtém-se o JADAS clínico, que perde 10 pontos de teto: 91, 47 e 30. O protocolo publica exatamente esses seis números, e eles fecham.

Doença inativa é JADAS 27 de até 1, ou JADAS clínico 10 de até 1. Baixa atividade, que é conceito diferente e às vezes aceitável, tem cortes por subtipo: no JADAS 27, até 2 na oligoarticular e até 3,8 na poliarticular; no JADAS clínico 10, até 1,5 e até 2,5.

Para decidir a entrada do biológico, o protocolo publica um quadro à parte, com o JADAS clínico avaliado aos 3 e aos 6 meses: acima de 5 na oligoarticular e acima de 7 na poliarticular aos três meses; acima de 3 e acima de 4 aos seis meses. Há uma condição prévia embutida na frase, e ela é a parte que se esquece: esses cortes só autorizam o biológico se o paciente tiver cumprido corretamente o glicocorticoide intra-articular e usado metotrexato 15 mg/m² por via subcutânea. Escore alto com tratamento inicial mal feito não indica biológico; indica refazer o tratamento inicial.

O quadro dos cortes não diz qual dos três tamanhos de JADAS clínico está em jogo, e a diferença é grande. Um valor de 7 é 23% da escala se o instrumento for o de 10 articulações, cujo teto é 30, e menos de 8% se for o de 71 articulações, cujo teto é 91. O quadro anterior, que define doença inativa e baixa atividade, ancora explicitamente no JADAS clínico de 10 articulações — é a leitura coerente, e é a que mantém os dois quadros na mesma régua. Conferir a escala antes de comparar o número é hábito que vale para qualquer escore, e aqui é obrigatório.

Doença inativa tem também uma definição sem escore, os critérios de Wallace, que o protocolo reproduz: nenhuma articulação com artrite; ausência de febre, exantema, serosite, esplenomegalia e linfonodomegalia generalizada atribuídas à doença; sem uveíte ativa; velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa normais, ou elevadas por outro motivo; avaliação global do médico no melhor escore possível; e rigidez matinal com duração menor que 15 minutos.

Daí saem as duas remissões, que a prova troca com frequência. Mantida a doença inativa pelos seis meses seguintes, o paciente é classificado em remissão com medicamento. Retirados todos os medicamentos, e permanecendo doze meses sem recidiva, passa a remissão sem medicamento. São nomes de estados diferentes, com relógios diferentes, e o segundo relógio só começa depois que o medicamento sai. Somando o mínimo dos dois, vão-se dezoito meses entre atingir a doença inativa e poder chamar o quadro de remissão sem medicamento — e o protocolo ainda recomenda esperar doze meses de doença inativa antes de iniciar a retirada, porque a recidiva após a suspensão é frequente.

Na forma sistêmica, os alvos vêm com prazos próprios: em 7 dias, resolução da febre e melhora de 50% da proteína C reativa; em 4 semanas, melhora de 50% no número de articulações ativas e na avaliação global do médico, com JADAS 10 igual ou inferior a 5,4; e em 6 a 12 meses, doença clinicamente inativa e sem glicocorticoide. Note que 5,4 pontos num instrumento cujo teto é 40 é um alvo apertado — de novo, a escala antes do número.

04

Do enunciado ao subtipo, e do subtipo à decisão

Três perguntas em sequência, e cada uma se resolve com um relógio diferente. A primeira é se aquilo é artrite idiopática juvenil, e se resolve por duração e idade. A segunda é qual subtipo, e se resolve pela contagem do primeiro semestre somada à lista de exclusões. A terceira é o que fazer, e se resolve por subtipo, por tempo de tratamento e por peso.

tres relogios, tres perguntas6 semanasartrite cronica: abaixo disso, artrite aguda16 anosteto da idade de inicio pela regua vigente6 mesesjanela da contagem: ate 4 oligo, 5+ polidepois do 6o mes a contagem so desdobra a oligo: persistente ou estendida

Os três relógios da classificação

Seis semanas é a duração mínima da artrite para chamá-la de crônica; abaixo disso, pense em artrite aguda e em infecção. Dezesseis anos é o teto da idade de início pela régua vigente — a proposta em validação sugere 18, e ainda não vale. Seis meses é a janela em que se contam as articulações: até quatro é oligoarticular, cinco ou mais é poliarticular, e o que acontece depois do sexto mês desdobra a oligoarticular em persistente ou estendida, sem nunca transformá-la em poliarticular.

o mesmo divisor, duas direcoes30 kg (nao nomeado)menos de 30 kgmais de 30 kgtocilizumabe 12 mg/kgtocilizumabe 8 mg/kgadalimumabe 20 mgadalimumabe 40 mg29,4 kg = 352,8 mg de tocilizumabe30,6 kg = 244,8 mg de tocilizumabe

O degrau dos 30 kg anda para os dois lados

Na mesma tabela de posologias, o peso de 30 kg divide duas linhas em sentidos opostos. Abaixo dele o tocilizumabe é mais generoso por quilo e o adalimumabe é mais econômico; acima dele, o inverso. Quem decora por medicamento erra; quem lê a faixa antes da droga acerta. E o número redondo não é nomeado por nenhuma das duas metades da tabela, que dizem menos de 30 e mais de 30.

Qual régua o enunciado está usando no olho

Se a alternativa fala em duas semanas na fase inicial, depois 3 a 4 meses, e alta aos 11 anos, o enunciado está no protocolo brasileiro, que não consulta o fator antinuclear em nenhum degrau do cronograma. Se fala em 3 meses para alto risco e 6 a 12 meses para o resto, está na diretriz americana de 2019, em que alto risco exige simultaneamente fator antinuclear positivo, início antes dos 7 anos e duração de 4 anos ou menos. Alternativa que mistura o intervalo de uma com o critério da outra está errada nas duas.

As três coisas que a prova cobra da forma sistêmica

Primeira, o padrão da febre com picos e retorno ao normal, acompanhada de exantema evanescente, visceromegalia, linfonodomegalia ou serosite. Segunda, a síndrome de ativação macrofágica, reconhecida pela queda da velocidade de hemossedimentação e das plaquetas com ferritina em disparada, hipofibrinogenemia e hipertrigliceridemia. Terceira, que a artrite pode chegar depois — em cerca de 10% dos casos ela aparece semanas ou meses após as manifestações sistêmicas, e o protocolo prevê tratar como provável antes de classificar.

Fator reumatoide só é positivo para fins de classificação com dois testes; o intervalo entre eles é de pelo menos três meses na definição do subtipo e superior a três meses no critério de exclusão.

Anti-inflamatório não esteroidal nunca é monoterapia por mais de dois meses, e não é indicado na uveíte relacionada à doença.

Etanercepte serve à articulação e não serve ao olho: está entre os que aumentam o risco de recorrência de uveíte.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantos dias de febre a forma sistêmica exige

Mais de quinze dias, com febre em pelo menos três dias da semana

O critério de inclusão do subtipo sistêmico traz artrite, febre por mais de 15 dias documentada por pelo menos 3 dias na semana, e mais uma manifestação extra-articular entre exantema, serosite, hepatomegalia, esplenomegalia e linfonodomegalia generalizada. Por essa redação, a febre passa a contar a partir do décimo sexto dia, e o padrão exigido é semanal, não diário.

Quadro 2 do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Idiopática Juvenil, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, de 19 de janeiro de 2026

Pelo menos duas semanas

A artrite sistêmica é definida como artrite acompanhada de, ou precedida por, febre de pelo menos duas semanas de duração, com pelo menos uma entre exantema eritematoso evanescente, linfonodomegalia generalizada, hepatomegalia, esplenomegalia ou serosite. Por essa redação, o décimo quarto dia já conta.

Critérios da International League of Associations for Rheumatology, revisão de Edmonton, 2001, na redação reproduzida pelo verbete NBK554605 do NCBI Bookshelf

Pelo menos duas semanas, uma ou duas vezes ao dia

A sociedade brasileira descreve febre alta, acima de 39 °C, e frequente por pelo menos 2 semanas, 1 ou 2 vezes ao dia, geralmente no fim da tarde ou à noite. Coincide com a régua internacional na duração e acrescenta o padrão diário, que é justamente o eixo em que a redação ministerial abre espaço para febre não diária.

Sociedade Brasileira de Pediatria, verbete Artrite idiopática juvenil subtipo sistêmico

Na prova

Separe os dois eixos antes de marcar. Se o enunciado dá a duração exata da febre, veja se ela cai entre o décimo quarto e o décimo quinto dia: nessa janela a resposta muda conforme a régua, e uma banca que cita o protocolo brasileiro está pedindo mais de quinze dias. Se o enunciado descreve um padrão de febre que falta em alguns dias, a régua ministerial admite e as outras duas não. E, em questão que pede o diagnóstico mais provável em vez da classificação, nenhuma das três é obstáculo: o protocolo prevê tratar a forma sistêmica provável antes de o critério fechar.

De quanto em quanto tempo o olho é examinado, e até quando

Calendário único, sem consultar o fator antinuclear, com alta aos 11 anos

O encaminhamento é feito já na suspeita ou no diagnóstico, e quem tem sintoma ocular é avaliado na mesma semana. A reavaliação é feita a cada duas semanas, desde o início da artrite, por um período de 6 meses, e depois a cada 3 a 4 meses até a criança completar 11 anos. Após a alta da triagem, orienta-se automonitorização semanal da visão e controle oftalmológico anual. Quem interrompe imunossupressor volta a ser avaliado a cada dois meses por seis meses. O cronograma é o mesmo para positivos e negativos para o fator antinuclear.

Seção de monitoramento do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Idiopática Juvenil, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, de 19 de janeiro de 2026

Intervalo estratificado por risco, sem idade de alta

Recomenda-se rastreio a cada 3 meses para a criança de alto risco, definida como aquela com oligoartrite, poliartrite com fator reumatoide negativo, artrite psoriásica ou artrite indiferenciada que seja positiva para o fator antinuclear, tenha iniciado a doença antes dos 7 anos e tenha duração de doença de 4 anos ou menos. Quem não preenche todos esses itens é rastreado a cada 6 a 12 meses, conforme a combinação de fatores. A alta não é definida por idade.

Angeles-Han ST e cols., 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Screening, Monitoring, and Treatment of Juvenile Idiopathic Arthritis-Associated Uveitis, Arthritis Care & Research 2019;71(6):703-16

Na prova

Localize primeiro o vocabulário. Onze anos e automonitorização semanal são palavras do texto brasileiro; alto risco, fator antinuclear positivo e duração de quatro anos são palavras da diretriz americana. Depois confira as unidades: no calendário brasileiro a fase inicial é contada em semanas e a fase de manutenção em meses, e alternativa que troca uma pela outra está descrevendo um cronograma que nenhuma das duas prescreve. Por fim, lembre que os dois limiares da definição americana não são simétricos — antes dos 7 anos exclui quem começou exatamente aos 7, e quatro anos ou menos inclui quem tem exatamente quatro.

Qual articulação faz a oligoarticular virar estendida

A quinta

A oligoartrite é a artrite em quatro articulações ou menos nos seis primeiros meses de doença; é persistente quando permanece em quatro ou menos, e estendida quando mais de quatro articulações são acometidas depois desse período. A fronteira é a mesma que separa oligoarticular de poliarticular na contagem do primeiro semestre: quatro de um lado, cinco do outro.

Critérios da International League of Associations for Rheumatology, revisão de Edmonton, 2001, na redação reproduzida pelo verbete NBK554605 do NCBI Bookshelf

A sexta, pela letra do texto brasileiro

O texto diz que, se após os seis primeiros meses o número de articulações acometidas ultrapassar cinco, a forma será denominada oligoarticular estendida, e que, se permanecer com menos de cinco, será denominada persistente. Ultrapassar cinco começa em seis; permanecer com menos de cinco termina em quatro. O paciente que chega a exatamente cinco articulações depois do sexto mês não é nomeado por nenhuma das duas metades da frase. No mesmo protocolo, a definição de poliarticular usa cinco ou mais como fronteira.

Seção 3.1.1 do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Idiopática Juvenil, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, de 19 de janeiro de 2026

Na prova

Nenhuma banca vai perguntar de qual lado fica o paciente com exatamente cinco articulações, porque a resposta depende de qual frase se lê. O que a banca pergunta é a consequência, e essa é única nos dois textos: a forma estendida recebe tratamento semelhante ao da poliarticular, com metotrexato, enquanto a persistente segue no fluxograma da infiltração. Se o enunciado descrever uma criança que ganhou articulações depois do sexto mês e a alternativa mantiver a conduta da oligoarticular, ela está errada por qualquer das duas leituras.

06

Caso resolvido

Dois meninos de 9 anos estão em acompanhamento no mesmo serviço, ambos com artrite idiopática juvenil de início sistêmico diagnosticada há sete meses, ambos com manifestações sistêmicas ativas, ambos com indicação firmada de tocilizumabe endovenoso após pulsos de metilprednisolona e duas semanas de febre persistente sob doses altas de glicocorticoide. Um pesa 29,4 kg. O outro pesa 30,6 kg. A prescrição segue o quadro de posologias do protocolo brasileiro. Pergunta-se qual dos dois recebe mais miligramas por infusão, de quanto é a diferença, e o que a mesma tabela faria se um terceiro paciente, idêntico aos dois, pesasse exatamente 30,0 kg.
A faixa de peso vem antes do cálculo
O quadro de posologias separa o tocilizumabe em duas faixas. Para pacientes com menos de 30 kg, a forma sistêmica recebe 12 mg/kg a cada 2 semanas por via endovenosa. Para pacientes com mais de 30 kg, 8 mg/kg a cada 2 semanas. O intervalo é o mesmo nas duas faixas; o que muda é a dose por quilo, e ela muda para baixo à medida que o peso sobe.
A conta inverte o que a intuição espera
O menino de 29,4 kg está na faixa de baixo: 29,4 vezes 12 dá 352,8 mg por infusão. O de 30,6 kg está na faixa de cima: 30,6 vezes 8 dá 244,8 mg. A criança mais leve recebe 108 mg a mais que a mais pesada, ou seja, 44% acima da dose dela, com 1,2 kg de diferença entre os dois corpos. Não é erro de conta: é o efeito de um degrau em que a dose por quilo cai um terço de uma faixa para a outra.
A inversão não é pontual, é uma faixa inteira
Para que um paciente da faixa de cima receba tantos miligramas quanto o menino de 29,4 kg, ele precisa pesar 44,1 kg, porque 44,1 vezes 8 devolve os mesmos 352,8 mg. Isso significa que toda criança entre 30 e 44 kg recebe, em miligramas absolutos, menos tocilizumabe do que uma criança que pesa pouco menos de 30. Quem prescreve por analogia com o paciente do leito ao lado, sem olhar a faixa, produz doses que parecem trocadas.
O paciente de 30,0 kg não é nomeado por nenhuma das duas linhas
A tabela diz menos de 30 kg e mais de 30 kg. O número redondo não aparece em nenhuma das duas frases. Aplicando a linha de baixo, o terceiro paciente receberia 30 vezes 12, ou 360 mg; aplicando a de cima, 30 vezes 8, ou 240 mg. São 120 mg de diferença, um terço da dose maior, decididos por uma preposição que a tabela não escreveu. Na prática o serviço decide por protocolo interno ou por bula; na prova, o que se cobra é reconhecer que o corte existe e para que lado cada faixa puxa.
O mesmo divisor, no medicamento vizinho, anda para o outro lado
Na mesma tabela, o adalimumabe usa o mesmo peso de 30 kg e inverte o sentido: 20 mg a cada 14 dias abaixo, 40 mg a cada 14 dias acima. Aplicado aos dois meninos, isso dá 0,68 mg/kg para o de 29,4 kg e 1,31 mg/kg para o de 30,6 kg — quase o dobro por quilo, na direção oposta à do tocilizumabe. É por isso que a regra útil não é decorar dose por medicamento, e sim localizar a faixa antes de escolher a linha.
E um terceiro número, para fechar a lógica dos tetos
O etanercepte é dosado a 0,8 mg/kg por semana com teto de 50 mg por dose. Dividindo 50 por 0,8 chega-se a 62,5 kg: abaixo desse peso a dose cresce com o paciente, acima dele ela para. Um adolescente de 60 kg recebe 48 mg; um de 65 kg recebe 50 mg, o que corresponde a 0,77 mg/kg. Faixa de peso, teto de dose e dose por quilo são três mecanismos diferentes, e a mesma tabela usa os três.
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Agora feche você

Menina de 3 anos, previamente hígida, é levada por claudicação matinal e aumento indolor do joelho direito com onze semanas de evolução. Não há febre, exantema, visceromegalia nem linfonodomegalia. O fator antinuclear é positivo em título 1:320, o fator reumatoide é negativo, a velocidade de hemossedimentação está discretamente elevada e a análise do líquido sinovial é inflamatória, com cultura negativa. Ao longo dos seis primeiros meses de doença acumulam-se quatro articulações acometidas: os dois joelhos, um tornozelo e um punho. No oitavo mês, em consulta de rotina, aparece artrite no segundo tornozelo — a quinta articulação. Descreva o raciocínio completo, dizendo o que exclui cada opção que descartar.
Primeiro prove que é artrite idiopática juvenil, e só depois qual subtipo
Diga qual é o número mínimo de semanas de artrite que autoriza chamá-la de crônica e confira se as onze semanas o cumprem. Diga qual é o teto de idade de início pela régua vigente e qual seria o teto pela proposta em validação, deixando claro qual das duas se aplica hoje. Liste o exame de imagem que o protocolo considera necessário para essa confirmação e explique por que a resposta é econômica.
Classifique com a contagem do semestre e depois com a lista de exclusões
Diga qual subtipo os primeiros seis meses definem e cite o número que o separa do subtipo vizinho. Em seguida, percorra os cinco critérios de exclusão que esse subtipo carrega e mostre, um a um, que nenhum deles está presente nesta menina. Aponte especificamente qual dos cinco impediria a classificação caso o pai tivesse psoríase, e qual impediria caso o fator reumatoide voltasse positivo em dois exames espaçados.
Diga o que a quinta articulação faz, e o que ela não faz
Explique por que essa quinta articulação, surgida no oitavo mês, não transforma a paciente em poliarticular. Nomeie a categoria em que ela cai pela redação internacional e mostre por que a redação da prosa do protocolo brasileiro deixa esse caso exato sem nome, citando as duas expressões usadas ali. Conclua com a consequência prática, que é idêntica pelas duas leituras, e nomeie o fluxograma para onde ela passa.
Monte a escada terapêutica com os números que a governam
Diga o que se faz antes da quinta articulação aparecer, incluindo o teto anual de infiltrações e o intervalo mínimo entre elas, e diga por quantos meses um anti-inflamatório pode ficar sozinho. Depois, com a paciente já no fluxograma da poliarticular, informe a dose de metotrexato por metro quadrado e por semana, o que se associa a ela e com que intervalo de horas, e em quantos meses se avalia se o sintético foi suficiente antes de associar um biológico.
Construa dois calendários oftalmológicos para a mesma menina
Primeiro pelo protocolo brasileiro: diga em que momento o encaminhamento é feito, qual é o intervalo da fase inicial e por quanto tempo ela dura, qual é o intervalo seguinte e até que idade, e o que se orienta depois da alta da triagem. Calcule quantas reavaliações isso produz no primeiro semestre. Depois pela diretriz americana de 2019: verifique se esta menina preenche as três condições simultâneas do alto risco e diga qual intervalo ela receberia. Compare os dois números e diga que dado clínico dela é usado por uma régua e ignorado pela outra.
Feche pelo alvo e pelos dois relógios da remissão
Diga qual escore compõe a medida de atividade, quantas variáveis ele soma e qual é o teto da versão de 10 articulações com e sem a prova laboratorial. Informe o valor que caracteriza doença inativa nessa versão e a condição de tratamento que precisa estar cumprida antes de qualquer corte autorizar biológico. Termine dizendo quantos meses de doença inativa produzem remissão com medicamento, quantos meses sem medicamento produzem remissão sem medicamento, e por que a soma desses dois prazos é o mínimo entre um estado e o outro.
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Onde a banca derruba

  1. 1Contar as articulações do dia da consulta em vez das do primeiro semestre A contagem que classifica é a acumulada nos seis primeiros meses de doença, não a do exame de hoje. Uma criança com duas articulações inflamadas na consulta, mas com registro de seis acometidas ao longo do primeiro semestre, é poliarticular. E o contrário também vale: quem teve quatro no semestre e tem sete hoje não virou poliarticular — virou oligoarticular estendida, que é categoria própria, com tratamento de poliarticular e nome de oligoarticular.
  2. 2Excluir a forma sistêmica porque a febre ainda não completou duas semanas Critério de classificação não é critério diagnóstico. O protocolo brasileiro cria a categoria de artrite sistêmica provável exatamente para quem tem manifestações sistêmicas típicas sem preencher tudo, e manda iniciar tratamento. Questão que descreve criança com febre alta em picos há poucos dias, exantema evanescente concomitante aos picos, hepatoesplenomegalia, leucocitose neutrofílica e ferritina muito elevada, com culturas negativas, está pedindo o diagnóstico mais provável — e ele é a forma sistêmica, mesmo que a duração da febre ainda não feche nenhuma das três réguas. O critério de febre entra quando o enunciado pergunta pela classificação, não pela hipótese.
  3. 3Decorar a dose pelo medicamento e não pela faixa de peso Trinta quilos divide as duas linhas em direções opostas na mesma tabela: abaixo dele o tocilizumabe é 12 mg/kg e o adalimumabe é 20 mg; acima dele o tocilizumabe cai para 8 mg/kg e o adalimumabe sobe para 40 mg. Quem memoriza que a dose sempre cresce com o peso erra o tocilizumabe, em que a criança de 29,4 kg recebe 352,8 mg e a de 30,6 kg recebe 244,8 mg. Leia a faixa antes de ler o nome do remédio.
  4. 4Achar que o fator antinuclear muda o intervalo do rastreio no calendário brasileiro Muda na régua americana de 2019, em que fator antinuclear positivo é uma das três condições simultâneas do alto risco. Não muda no cronograma do protocolo brasileiro, que prescreve o mesmo intervalo para todos e encerra a triagem aos 11 anos. O protocolo aponta o fator antinuclear como marcador de risco de uveíte na seção de diagnóstico laboratorial e não o usa em nenhum degrau do cronograma que ele mesmo publica — quem responde pelo raciocínio, e não pela letra do calendário citado no enunciado, escolhe o intervalo errado.
  5. 5Somar sexo masculino e idade acima de seis anos como dois itens da artrite relacionada a entesite Na classificação internacional, o início da artrite em menino com mais de seis anos é um item só. O texto brasileiro o apresenta em duas linhas, e contá-las como dois tornaria qualquer menino de sete anos com artrite um caso de artrite relacionada a entesite, sem entesite, sem HLA-B27, sem dor axial e sem história familiar. O subtipo exige artrite e entesite, ou artrite ou entesite mais dois itens — e menino acima de seis anos preenche um deles, nunca dois.
  6. 6Comparar um valor de JADAS clínico sem dizer de qual escala ele veio O teto do JADAS clínico é 91, 47 ou 30, conforme se contem 71, 27 ou 10 articulações. Um valor de 7 é quase um quarto da escala de 10 articulações e menos de um décimo da de 71. Os cortes de biológico publicados no protocolo — acima de 5 e acima de 7 aos três meses, acima de 3 e acima de 4 aos seis — só fazem sentido na mesma escala em que estão os cortes de doença inativa, que o protocolo ancora no JADAS clínico de 10 articulações. E os cortes só valem se o tratamento inicial tiver sido cumprido, com infiltração e metotrexato subcutâneo de 15 mg/m².
  7. 7Trocar remissão com medicamento por remissão sem medicamento São dois estados e dois relógios. Seis meses de doença inativa dão remissão com medicamento. Doze meses sem qualquer medicamento e sem recidiva dão remissão sem medicamento, e esse segundo relógio só começa depois que o medicamento sai. Alternativa que chama de remissão sem medicamento o momento da suspensão está confundindo o gatilho com o resultado.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é artrite idiopática juvenil oligoarticular (≤4 articulações, criança pequena, FAN positivo, FR negativo); o FAN positivo é fator de risco para uveíte anterior crônica, frequentemente assintomática, exigindo rastreamento oftalmológico periódico com lâmpada de fenda para evitar cegueira. Esclerite necrosante e neurite óptica não são as complicações típicas rastreadas nessa forma. Retinopatia pigmentar é doença hereditária não relacionada. Catarata pode ocorrer por corticoterapia, mas não é a razão do rastreamento neste subtipo, e não por corticoide inalatório.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os três relógios da classificação com seus números: quantas semanas fazem a artrite ser crônica, qual é o teto de idade de início e qual é a janela em que se contam as articulações. Diga o número que separa oligoarticular de poliarticular e o que separa persistente de estendida, e explique por que a prosa do protocolo brasileiro deixa exatamente cinco articulações sem nome. Liste os cinco critérios de exclusão e diga, para cada um dos sete subtipos, qual deles não se aplica e por quê. Termine com as três exigências da forma sistêmica: duração da febre por cada uma das três réguas, padrão da febre, e a manifestação extra-articular obrigatória.

em 30 dias

Reconstrua sem consultar as duas tabelas que decidem conduta. Primeiro a das faixas de peso: diga o que acontece com tocilizumabe e adalimumabe abaixo e acima de 30 kg, calcule a dose de tocilizumabe para 29,4 kg e para 30,6 kg, diga qual das duas crianças recebe mais miligramas e a partir de que peso a faixa de cima alcança a de baixo. Depois a dos escores: dê o teto do JADAS e do JADAS clínico nas três versões, o valor de doença inativa, os quatro cortes que autorizam biológico aos três e aos seis meses e a condição de tratamento inicial que precede todos eles. Feche montando os dois calendários oftalmológicos lado a lado — o brasileiro, com seus intervalos e sua idade de alta, e o americano, com suas três condições de alto risco — e diga, em uma frase, qual dado clínico da criança uma régua usa e a outra ignora.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menina de 4 anos é levada ao ambulatório por claudicação que piora ao acordar e melhora ao longo do dia, com aumento de volume do joelho esquerdo há cerca de dez semanas, sem febre e sem perda de peso. A mãe conta que já passou por dois serviços, recebeu anti-inflamatório por conta e nunca fez exame de sangue. Conduza o atendimento: colha a história com atenção à duração, ao ritmo dos sintomas e aos antecedentes familiares, examine todas as articulações e as ênteses, defina se aquilo preenche artrite crônica, peça o laboratório mínimo, diga qual encaminhamento não pode esperar mesmo com a criança sem queixa ocular nenhuma, e explique à mãe, sem jargão, por que um exame de olho é marcado antes de qualquer tratamento começar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Artrite idiopática juvenil — Preparatório para provas | OsceLabs