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Clínica MédicaImunologia

Urticária e angioedema

Duas perguntas resolvem quase toda questão: a lesão individual dura mais de 24 horas? E o inchaço vem com urtica junto? A primeira separa urticária de vasculite urticariforme; a segunda separa o angioedema histaminérgico do bradicinérgico — e troca a droga inteira.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 35 anos com episódios recorrentes de edema não pruriginoso e não eritematoso em face, extremidades e, por vezes, dor abdominal em cólica com náuseas. Os episódios duram 2 a 4 dias, não respondem a anti-histamínicos nem a corticoides e não há urticária associada. Há relato de quadros semelhantes no pai. Exame com C4 reduzido. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Urticária é doença de mastócito, e angioedema é um achado — não uma doença. É essa assimetria que a prova explora. A urtica é superficial, pruriginosa e fugaz; o angioedema é profundo, arde mais do que coça e demora mais para sair. Os dois podem andar juntos, e quando andam, o diagnóstico é urticária. O problema começa quando o inchaço vem sozinho: aí a lista de causas muda de dono, sai do mastócito e entra na bradicinina, e nenhuma das drogas que resolvem a urticária funciona.

O eixo do capítulo é essa bifurcação e as duas réguas de tempo que a sustentam. A régua da lesão: urtica que dura mais de 24 horas no mesmo ponto, arde em vez de coçar e deixa marca não é urtica — é vasculite urticariforme, e pede biópsia e complemento. A régua da doença: seis semanas separam aguda de crônica, e essa data decide se há investigação laboratorial ou não. Em cima delas se apoiam a classificação, o painel mínimo de exames, o algoritmo de tratamento e o escore que diz quando subir de degrau.

A régua documental é dividida entre os dois lados do tema, e vale saber de qual lado se está. A urticária crônica é governada no Brasil pelo Guia Prático da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, publicado em 2024 na revista oficial da sociedade, e pela Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, que define o que existe para prescrever na rede — o Ministério da Saúde não publicou protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para ela. Já o angioedema hereditário tem protocolo nacional: a Portaria SAS/MS nº 880, de 12 de julho de 2016, com proposta de atualização submetida à Consulta Pública Conitec/sectics nº 50/2024 que ainda não virou portaria.

Um detalhe de vigência muda o segundo degrau do tratamento e é a novidade quente do tema. O guia brasileiro de 2024 comenta a diretriz internacional de 2022, e nela a segunda linha tinha um fármaco só: omalizumabe. A diretriz internacional foi substituída em 2026, e agora a segunda linha tem três — omalizumabe, dupilumabe e remibrutinibe, com a escolha guiada por comorbidade. Enunciado que oferece 'ciclosporina' como resposta logo após a falha do anti-histamínico está errado nas duas versões; enunciado que exige um único fármaco de segunda linha está lendo a versão antiga.

03

O que muda decisão

Urtica e angioedema: duas lesões, dois relógios

A urtica tem três características que a definem e que a prova cobra em bloco. É um edema central superficial, de tamanho e forma variáveis, quase sempre circundado por eritema reflexo. Coça — ou, menos vezes, arde. E é fugaz: a pele volta ao aspecto normal, em geral entre 30 minutos e 24 horas, sem deixar lesão residual. As três juntas, não uma delas. A palavra que carrega mais peso na hora de resolver questão é a terceira: cada lesão, individualmente, some em menos de 24 horas.

O angioedema é o edema súbito e pronunciado da derme inferior e do subcutâneo, ou de mucosas. Pode ser eritematoso ou da cor da pele. A sensação descrita não é prurido: é formigamento, ardor, aperto e, às vezes, dor. E a resolução é mais lenta que a da urtica, podendo levar até 72 horas.

Urticária, como entidade, é a condição caracterizada pelo aparecimento de urticas, angioedema ou ambos. Isso significa que o paciente que só tem urtica tem urticária, o que tem urtica e inchaço tem urticária, e o que só tem inchaço recorrente é o que exige a lista de diferenciais — porque nesse grupo cabe tanto a urticária que se manifesta apenas com angioedema quanto tudo o que não é urticária. É essa terceira coluna que produz as questões difíceis do tema.

Duas condições precisam ser separadas da urticária logo na definição, porque compartilham a lesão mas não o mecanismo. A anafilaxia cursa com urticas, mas os sintomas não persistem por dias como na urticária aguda, e ela tem capítulo próprio nesta coleção — ali a urtica é um dos critérios diagnósticos, e a droga é adrenalina intramuscular, não anti-histamínico. E o angioedema mediado por bradicinina, inclusive o hereditário, não é considerado tipo de urticária, por mecanismo fisiopatológico e apresentação clínica distintos.

Dois cortes verticais de pele lado a lado: à esquerda, placa elevada rasa confinada à derme superior e média, com vênulas dilatadas logo abaixo e halo de eritema ao redor; à direita, edema volumoso ocupando derme profunda e subcutâneo, elevando toda a superfície num domo amplo, com derme superior poupada. Um relógio no canto de cada painel, com arco curto à esquerda e arco longo à direita.
A profundidade explica tudo o que se cobra. Na derme superior há terminações nervosas sensitivas: por isso a urtica coça. Na derme profunda e no subcutâneo há menos delas: por isso o angioedema arde, aperta e às vezes dói, mas coça pouco. E o volume maior de tecido edemaciado é o que faz o relógio da direita ser mais lento.

Seis semanas, e depois espontânea ou induzida

A classificação anda em dois eixos independentes, e é recomendação forte usar os dois. O primeiro é a duração: urticária aguda é a ocorrência de urticas, angioedema ou ambos por 6 semanas ou menos; urticária crônica, por mais de 6 semanas. O segundo é o papel do desencadeante: espontânea, quando não há fator eliciador definido, e induzida, quando há um gatilho específico e definido.

O que faz o gatilho ser 'definido' merece atenção porque é o que separa urticária crônica induzida de urticária crônica espontânea agravada por alguma coisa. Na induzida, os sintomas sempre aparecem quando o gatilho está presente no limiar individual do paciente, e nunca aparecem quando ele está ausente. Estresse e infecção, que pioram muita urticária espontânea, não são gatilhos definidos: eles aumentam a atividade, não a produzem sozinhos.

Os subtipos de urticária crônica induzida são nove, e a lista é decorável: dermografismo sintomático, urticária ao frio, urticária ao calor, urticária solar, urticária de pressão tardia, angioedema vibratório, urticária aquagênica, urticária colinérgica e urticária de contato. Dois ou mais subtipos podem coexistir no mesmo paciente, e a urticária crônica induzida com frequência acompanha a espontânea.

O tempo de resposta separa a maioria das induzidas da urticária de pressão tardia, e é aí que mora a pegadinha. Na maior parte das induzidas os sintomas surgem em cerca de 10 minutos depois da exposição e se resolvem em 1 a 3 horas depois que ela cessa. Na urticária de pressão tardia, as lesões começam 4 a 6 horas após um estímulo de pressão sustentado, podem surgir em até 12 a 24 horas e durar até 72 horas — enunciado com placa dolorosa na palma da mão do carregador que apareceu na madrugada seguinte está descrevendo essa, e não uma reação alérgica ao almoço.

O dermografismo sintomático é o mais comum e o mais barato de confirmar: pressão suave e linear sobre a pele com objeto sem corte, e o teste é positivo se surgir urtica pruriginosa no local em até 10 minutos. Está presente em 2% a 5% da população geral e responde por 30% a 50% dos casos de urticária crônica induzida. Na urticária ao frio, o teste clássico é o cubo de gelo envolto em plástico aplicado ao antebraço por 5 minutos, com leitura 10 minutos depois.

Urticária aguda: a questão em que a resposta certa é não pedir exame

A prevalência de urticária aguda ao longo da vida é de aproximadamente 20%, e a duração média é de uma semana. Na maior parte das vezes está associada a infecções virais, especialmente em crianças, ou é idiopática. A recomendação da diretriz internacional é forte e negativa: recomenda-se contra medidas diagnósticas de rotina na urticária aguda espontânea. O guia brasileiro escreve o mesmo — a urticária aguda geralmente não necessita de avaliação diagnóstica complementar.

As exceções são duas e ambas vêm da história, não do protocolo. A primeira é suspeita de alergia mediada por IgE: aí cabem testes cutâneos ou dosagem de IgE específica, e no Brasil os desencadeantes relevantes são alimentos, medicamentos e veneno de himenópteros. A segunda é a urticária por analgésicos e anti-inflamatórios não esteroidais, que é frequente e não mediada por IgE, e que muitas vezes se manifesta apenas com angioedema, sem urticas — investigar direito aqui é o que evita rotular o paciente como alérgico a um medicamento pelo resto da vida.

O tratamento da urticária aguda é anti-histamínico H1 de segunda geração por duas a três semanas. Casos mais graves podem precisar de dose acima da licenciada em bula e de um curso curto de corticosteroide sistêmico. A taxa de progressão de urticária aguda para crônica varia de 5% a 39% na maioria dos estudos — número que serve para responder à pergunta do paciente sobre quanto tempo aquilo vai durar, e que explica por que a consulta de retorno importa.

Uma distinção fina que aparece em questão de emergência: urticária aguda extensa não é anafilaxia. O que separa é o acometimento de um segundo sistema — respiratório, cardiovascular ou gastrintestinal — e a velocidade. Urticas que persistem por dias são urticária; urticas que aparecem em minutos junto com rouquidão, sibilância, vômito repetido ou hipotensão são anafilaxia, e a conduta muda de anti-histamínico para adrenalina intramuscular.

Urticária crônica espontânea: poucos exames, e cada um com uma pergunta

A prevalência da urticária crônica varia de 0,1% a 1,0%, e um estudo com pacientes brasileiros encontrou urticária crônica diagnosticada em 0,41% da população. A duração média é de 1 a 4 anos, com remissão espontânea em torno de 45% após 5 anos de doença, e recorrência dos sintomas em cerca de um terço dos pacientes. São números de aconselhamento, e a prova gosta deles porque parecem detalhes e resolvem a alternativa que promete cura em semanas.

Os pilares do diagnóstico são história clínica detalhada e exame físico com evidência de urticas, angioedema ou ambos — incluindo a revisão das fotos que o paciente traz no celular, que a diretriz lista como parte do exame físico. A investigação laboratorial é deliberadamente enxuta: hemograma, velocidade de hemossedimentação e/ou proteína C-reativa em todos os pacientes; e, no cuidado especializado, IgE total e IgG anti-tireoperoxidase.

Cada exame do painel mínimo responde a uma pergunta diferente, e saber qual é o que impede a alternativa que pede 'perfil completo de autoanticorpos'. O hemograma com diferencial e os marcadores inflamatórios servem para excluir doença sistêmica grave, parasitose, doença autoimune e doença linfoproliferativa; a proteína C-reativa alta também sinaliza urticária mais grave. A IgE total e o IgG anti-tireoperoxidase servem para caracterizar o endótipo autoimune e estimar resposta ao tratamento — mas a própria diretriz de 2026 registra que o desempenho diagnóstico e a acurácia preditiva desses testes permanecem limitados.

A estrutura mnemônica da investigação são os sete C: confirmar o diagnóstico e excluir diferenciais; procurar causas subjacentes; identificar cofatores que modifiquem a atividade; checar comorbidades; identificar as consequências; avaliar componentes, isto é, biomarcadores e preditores de resposta; e monitorar o curso, com atividade, impacto e controle. Note que quatro dos sete não são exames — são perguntas de consulta.

Duas investigações que a intuição pede e a diretriz desaconselha como rotina. Vírus crônicos: há evidência de que hepatite B e C não modulam a atividade da urticária crônica espontânea, e a busca de rotina não é recomendada. Helicobacter pylori: os estudos são heterogêneos e contraditórios, o efeito da erradicação sobre o curso da doença permanece controverso, e a pesquisa deve seguir a história clínica — o que combina com a lista de indicações estabelecidas de pesquisa e erradicação do capítulo de doença ulcerosa péptica desta coleção, em que a urticária crônica não entra.

Dietas de exclusão merecem a mesma cautela. Alimentos podem agravar a urticária crônica espontânea funcionando como pseudoalérgenos, e dietas com baixo teor deles ou pobres em histamina podem ser consideradas de forma individualizada — mas são controversas, não devem ser rotina porque pioram uma qualidade de vida já comprometida e, quando usadas como prova diagnóstica, devem durar apenas 3 a 4 semanas.

Quando a urtica não é urtica: o diferencial que a biópsia resolve

Se a lesão individual persiste mais de 24 horas no mesmo ponto, o diagnóstico de urticária está sob suspeita. As lesões urticariformes que imitam a urticária costumam ser mais endurecidas, descoloridas ou escurecidas, duram mais de 24 horas na maior parte das vezes e evoluem com lesão residual, geralmente hiperpigmentada. E a sensação muda de qualidade: provocam dor ou ardor, com pouco ou nenhum prurido.

A vasculite urticariforme é a principal armadilha do grupo. Além da duração e do resíduo hiperpigmentado, pode acompanhar lesões equimóticas e sintomas sistêmicos — artralgia, febre, mal-estar, perda de peso —, e a investigação envolve marcadores inflamatórios, complemento sérico, triagem para doenças autoimunes, infecciosas e linfoproliferativas, e biópsia cutânea, que mostra vasculite leucocitoclástica com predomínio de neutrófilos. Angioedema raramente a acompanha.

Nos pacientes que desenvolvem exclusivamente urticas, sem angioedema, os dois diferenciais nomeados pela diretriz são a vasculite urticariforme e as doenças autoinflamatórias, como a síndrome de Schnitzler e as síndromes periódicas associadas à criopirina. Rash urticariforme com duração acima de 24 horas acompanhado de inflamação sistêmica — febre recorrente, dor articular, perda de peso — é o retrato dessas síndromes, e em criança justifica avaliação genética.

Completam a lista os imitadores que a dermatologia entrega: mastocitose cutânea, em que o sinal de Darier é o achado indicativo e a biópsia mostra infiltrado mastocitário; eritema multiforme, com lesão em alvo de centro escurecido; dermatite urticariforme, com placas e pápulas pruriginosas que duram mais de 24 horas; penfigoide bolhoso, com bolhas tensas em base urticariforme e imunofluorescência direta com IgG linear na membrana basal; e a erupção polimórfica da gravidez, que começa em áreas de estrias e é diagnóstico clínico, sem exames.

Angioedema sem urtica: a bifurcação que troca a farmacologia inteira

Diante de angioedema recorrente isolado, a primeira pergunta não é qual a causa, e sim qual o mediador. Os sinais de alerta para mecanismo bradicinérgico são três e vêm da história: ausência de resposta aos anti-histamínicos H1, aos corticosteroides e à adrenalina; quadros semelhantes em outros membros da família, que apontam para angioedema hereditário; e presença de outras doenças, especialmente linfoproliferativas e colagenoses, que apontam para angioedema adquirido.

A relação com medicamentos precisa ser perguntada em todo angioedema isolado recorrente, e ela se divide pelos dois mecanismos. Do lado bradicinérgico, o paradigma são os inibidores da enzima conversora de angiotensina; a diretriz internacional vigente nomeia ainda os bloqueadores do receptor de angiotensina II, os inibidores da dipeptidil peptidase IV (gliptinas) e os inibidores da neprilisina — registrando, na legenda do próprio algoritmo diagnóstico, que esses três foram descritos induzindo angioedema em associação ao inibidor da enzima conversora e com frequência muito menor. Do lado histaminérgico estão os anti-inflamatórios não esteroidais, que com frequência produzem angioedema sem urticas.

O que decide no angioedema por inibidor da enzima conversora não é a data de início da droga, e sim a retirada. O medicamento é suspenso e a resposta é o teste: a remissão deve ocorrer em poucos dias e, em casos raros, leva até 6 meses após a suspensão. Ou seja, um paciente que usa o fármaco há anos, com dose estável, não está inocentado pelo tempo de uso — e um edema que persiste algumas semanas depois da retirada ainda não afasta a hipótese. A ausência de urticas e de prurido, somada à resposta ruim à adrenalina, é a assinatura descrita na lista de diferenciais da anafilaxia, e é por isso que esse quadro atravessa dois capítulos desta coleção.

O angioedema adquirido por consumo de complemento distingue-se do hereditário por três marcas: idade de início mais tardia, ausência de história familiar e associação com doença de base — cerca de metade dos pacientes tem doença hematológica subjacente, como gamopatia monoclonal de significado indeterminado ou neoplasia de células B. E há um exame que separa os dois no laboratório: o C1q sérico, que está reduzido no adquirido e normal no hereditário.

Um terceiro tipo raro fecha a lista de angioedema recorrente não histaminérgico e vale conhecer pelo enunciado: o angioedema eosinofílico, ou síndrome de Gleich, cujas características indicativas são ganho de peso, eosinofilia significativa, edema facial unilateral envolvendo pescoço e edema doloroso de membros. Outras condições que cursam com edema e entram no diferencial são celulite, síndrome de Melkersson-Rosenthal, dermatite de contato, doenças da tireoide e dermatomiosite.

Bifurcação em Y invertido. No topo, rosto com edema de um lábio e de uma pálpebra. Ramo esquerdo desce para mastócitos liberando grânulos junto a um vaso, ao lado de pictograma de mão coçando e de placas elevadas. Ramo direito desce para uma cascata enzimática de três elos terminando numa pequena molécula acoplada a um receptor do vaso, ao lado de pictograma de mão coçando riscado e sem placas.
O mesmo inchaço, dois mediadores. À esquerda, histamina liberada por mastócito: coça, costuma vir com urtica e responde a anti-histamínico, corticoide e adrenalina. À direita, bradicinina: não coça, não vem com urtica e não responde a nenhuma dessas três — o que faz da falha terapêutica um dado diagnóstico, e não apenas um fracasso.

Angioedema hereditário: os três exames e os dois tipos

O angioedema hereditário associado à deficiência do inibidor de C1 esterase é imunodeficiência primária do sistema complemento, de herança autossômica dominante, codificada pelo gene SERPING1. O inibidor de C1 esterase é uma molécula inibidora da calicreína e da bradicinina; quando deficiente, os níveis de bradicinina sobem, e a bradicinina é um vasodilatador — daí o edema. No protocolo nacional, a doença aparece com o CID-10 D84.1.

A divisão em dois tipos é quantitativa contra funcional, e a prova cobra as duas frações. O tipo 1 responde por 80% a 85% dos casos, com níveis plasmáticos do inibidor reduzidos a 5% a 30% do normal. O tipo 2 corresponde a 15% a 20% dos casos, e nele o inibidor tem nível sérico normal ou mesmo elevado, sendo o diagnóstico feito pela demonstração de que sua atividade está abaixo de 50% do normal. Dosar só a fração quantitativa deixa o tipo 2 passar.

Os critérios diagnósticos do protocolo brasileiro exigem quadro clínico compatível somado a evidência bioquímica ou genética. A evidência bioquímica é a constatação laboratorial de ausência, redução abaixo de 50% ou defeito funcional do inibidor com função abaixo de 50%, com redução do complemento hemolítico total e diminuição da fração C4. A ressalva vem em seguida e é o detalhe cobrado: C4 e complemento hemolítico total podem estar normais fora das crises. A alternativa genética é a presença de mutação patogênica em SERPING1.

O quadro clínico é o de edema não pruriginoso, não doloroso e não eritematoso, em qualquer parte do corpo, principalmente face e extremidades, com acometimento respiratório e gastrintestinal. Duas consequências definem a gravidade e a armadilha. O comprometimento da respiração pode resultar em asfixia e, sem tratamento, responder pelo óbito em cerca de 25% dos pacientes. E as cólicas abdominais podem ser interpretadas como abdome agudo, levando pacientes a laparotomia exploradora desnecessária — o angioedema hereditário é diferencial de dor abdominal recorrente sem causa, não só de inchaço.

História familiar positiva fortalece a suspeita, mas sua ausência não exclui o diagnóstico. As crises podem ser espontâneas ou desencadeadas por ansiedade, estresse, pequenos traumas, cirurgias, tratamentos dentários, menstruação ou gravidez. Estima-se que 1 em cada 10.000 a 50.000 indivíduos seja afetado; o protocolo nacional registra que não foram conduzidos estudos de prevalência da doença no Brasil.

Angioedema hereditário no SUS: a norma de 2016 e as incorporações de 2023

O tratamento se divide em profilaxia de crises e tratamento das crises, e no protocolo vigente as duas metades têm donos diferentes. Para a profilaxia, o medicamento de escolha é o danazol, andrógeno atenuado, sustentado por ensaio clínico duplo-cego com nove pacientes que comparou 93 cursos de 28 dias de danazol ou placebo: houve crise em 93,6% dos cursos com placebo contra 2,2% dos cursos com danazol. O esquema da portaria começa com 200 mg por dia por via oral, divididos em duas tomadas, no primeiro mês, com ajuste posterior pela resposta clínica e laboratorial.

A monitorização do danazol é o que separa candidato que decorou a droga de quem entendeu o protocolo. O alvo laboratorial é atividade do inibidor de C1 esterase em torno de 50% do valor normal e C4 dentro dos valores normais, e a meta é sempre a menor dose eficaz. Acompanham-se efeitos androgênicos — mudança de voz, acne, aumento de pelos, irregularidade menstrual — e, a cada 6 meses, hematócrito, hemoglobina, transaminases, fosfatase alcalina, colesterol total e frações, triglicerídeos e exame qualitativo de urina. Sugere-se ultrassonografia abdominal anual pelo risco de adenoma hepático e carcinoma hepatocelular.

Duas classes de medicamento são explicitamente evitadas no paciente com angioedema hereditário porque desencadeiam crises: os inibidores da enzima conversora de angiotensina e os estrogênios. É uma contraindicação de mão dupla com a hipertensão, e o enunciado que oferece 'iniciar enalapril' num paciente com angioedema hereditário está montando exatamente essa armadilha.

O tratamento das crises é predominantemente hospitalar e não inclui o danazol. E aqui a norma de 2016 ficou para trás dos fatos: ela registra que o icatibanto não havia sido recomendado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS em junho de 2015 e por isso não estava indicado. Em 2023 a decisão mudou. A Portaria sectics/MS nº 68/2023 incorporou o acetato de icatibanto e a Portaria sectics/MS nº 69/2023 incorporou o inibidor de C1 esterase derivado do plasma humano, ambos para o tratamento de crises dos tipos 1 e 2, condicionados ao uso restrito hospitalar.

O que ficou de fora também cai, e é o outro lado da mesma leva de decisões. A Portaria sectics/MS nº 70/2023 registrou a não incorporação do inibidor de C1 esterase derivado de plasma para uso subcutâneo na profilaxia de crises, e o lanadelumabe também foi avaliado para profilaxia e não incorporado. O berotralstate, inibidor oral de calicreína, tem registro aprovado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, mas sua incorporação ao SUS não foi avaliada. O ácido tranexâmico não é recomendado como profilaxia: as evidências são metodologicamente limitadas e as diretrizes recentes não o incluem entre as alternativas.

As doses das duas drogas hospitalares aparecem na proposta de atualização do protocolo e vale conhecê-las pelo padrão de repetição. O acetato de icatibanto, antagonista seletivo do receptor B2 da bradicinina, é 30 mg por via subcutânea no adulto; em caso de alívio insuficiente ou recorrência, uma segunda dose pode ser administrada após 6 horas e uma terceira após outras 6 horas, com o teto de três injeções em 24 horas, e a faixa etária autorizada começa aos 2 anos. O inibidor de C1 esterase derivado de plasma humano é 20 UI/kg por via intravenosa, o mais cedo possível ao primeiro sinal de crise. Quando nenhum dos dois está disponível, o plasma fresco é a alternativa.

Primeiro degrau: um anti-histamínico, na dose certa, e não dois

A primeira linha do tratamento da urticária, aguda ou crônica, é o anti-histamínico H1 de segunda geração em dose padrão — recomendação forte, com 100% de concordância no consenso internacional. A racionalidade é de segurança: os de segunda geração são mínima ou nenhuma vez sedantes e livres de efeitos anticolinérgicos, e ainda têm efeito anti-inflamatório por inibir a liberação de citocinas por mastócitos e basófilos, meia-vida mais longa e menor lipossolubilidade, atravessando pouco a barreira hematoencefálica.

Os de primeira geração não são recomendados, e o motivo é dose-independente. Eles têm efeitos anticolinérgicos e sedativos pronunciados, interagem com álcool, analgésicos, hipnóticos e sedativos, interferem no sono de movimentos oculares rápidos e prejudicam aprendizado e desempenho — o prejuízo é particularmente marcado em tarefas sensório-motoras complexas, como dirigir. A meia-vida no sistema nervoso central é maior que no sangue periférico, de modo que o efeito adverso dura mais que o efeito anti-histamínico. Há relatos de superdosagem letal.

Se a dose padrão não controla, a conduta é aumentar a dose do mesmo fármaco em até quatro vezes — recomendação forte —, e a janela de avaliação é de 2 a 4 semanas, ou antes se os sintomas forem insuportáveis. Há evidência de eficácia e segurança em dose quadruplicada para bilastina, cetirizina, desloratadina, ebastina, fexofenadina, levocetirizina, mizolastina e rupatadina. O paciente precisa ser informado de que o aumento de dose é off-label.

Duas fronteiras fecham o degrau e são as duas recomendações negativas mais cobradas — com forças diferentes, e vale saber qual é qual. Não se usa mais de quatro vezes a dose padrão: recomendação forte contra, porque acima disso não foi testado. E não se combinam anti-histamínicos diferentes ao mesmo tempo: aqui a diretriz sugere contra, com força condicional, porque o uso de um mesmo anti-histamínico em dose alta demonstrou ser superior à combinação de diferentes anti-histamínicos no controle do prurido, e as propriedades farmacológicas de cada um são distintas demais para que a soma seja previsível. A alternativa que soma cetirizina de manhã e desloratadina à noite está descrevendo exatamente a conduta desaconselhada.

Na urticária crônica espontânea o anti-histamínico é tomado regularmente, não sob demanda, para prevenir o surgimento de urticas e angioedema. Na urticária crônica induzida a decisão é individual e depende da presença e da previsibilidade do gatilho — urticária ao frio no inverno é o exemplo que a própria diretriz dá. Dois fármacos de segunda geração ficaram de fora por cardiotoxicidade com inibidores da CYP3A4, como cetoconazol e eritromicina: astemizol e terfenadina, que a diretriz recomenda não usar.

Segundo degrau e adiante: o que mudou em 2026

Vale saber quanta gente chega ao segundo degrau, porque o número justifica o degrau existir. Aproximadamente 61% dos pacientes com urticária crônica espontânea não respondem às doses licenciadas do anti-histamínico de segunda geração e, destes, 63% não se beneficiam de doses mais altas. Multiplicando as duas frações, cerca de 38% de todos os pacientes com urticária crônica espontânea seguem sem controle mesmo depois da dose quadruplicada — não é uma minoria excêntrica, é quase dois em cada cinco.

O omalizumabe é o anticorpo monoclonal humanizado anti-IgE que se liga à IgE livre no mesmo domínio pelo qual ela se liga ao receptor de alta afinidade dos mastócitos e basófilos. A dose recomendada na urticária crônica espontânea é 300 mg a cada 4 semanas, por via subcutânea, independentemente do nível de IgE sérica e do peso do paciente. É o único biológico aprovado para urticária crônica espontânea refratária a anti-histamínico acima dos 12 anos, e recebe recomendação forte no segundo degrau.

Três detalhes do omalizumabe decidem questão. Primeiro, a paciência: existem respondedores rápidos, que controlam entre 4 e 6 semanas, e respondedores tardios, que respondem entre 12 e 16 semanas — a ausência de resposta não deve ser considerada antes de no mínimo 6 meses de tratamento. Segundo, o escalonamento: quem não responde à dose licenciada pode receber doses maiores, intervalos menores ou ambos, com estudos sustentando até 600 mg e intervalo de 2 semanas, tudo off-label. Terceiro, a segurança: casos muito raros de anafilaxia foram descritos nos primeiros três meses, de modo que as três primeiras doses são administradas em ambiente médico-hospitalar e a partir da quarta a administração pode ser domiciliar.

A novidade de 2026 é que o segundo degrau deixou de ser um fármaco só. A diretriz internacional vigente coloca no mesmo patamar, como acréscimo ao anti-histamínico de segunda geração, o omalizumabe com recomendação forte e o dupilumabe e o remibrutinibe com recomendação condicional, registrando que, dependendo das comorbidades e de outros fatores, um deles pode ser preferido, e que os tratamentos de segunda linha podem ser trocados entre si em caso de controle inadequado.

O dupilumabe é o anticorpo monoclonal anti-receptor alfa de IL-4, que bloqueia o efeito de IL-4 e IL-13. Os estudos de fase 3 mostram eficácia como tratamento aditivo, provavelmente menos pronunciada que a do omalizumabe, e a vantagem específica é agir independentemente de níveis basais baixos de IgE — justamente a situação em que o omalizumabe costuma responder mal. As doses da diretriz são por faixa de peso: 600 mg de ataque e 300 mg a cada 2 semanas acima de 60 kg; 400 mg de ataque e 200 mg a cada 2 semanas entre 30 e 60 kg; e 400 mg de ataque com 200 mg a cada 4 semanas entre 15 e 30 kg. A diretriz registra que o dupilumabe está licenciado para urticária nos Estados Unidos, nos Emirados Árabes Unidos, no Brasil e no Japão.

O remibrutinibe é inibidor oral da tirosina quinase de Bruton, aprovado pela agência regulatória norte-americana em setembro de 2025 para adultos com urticária crônica espontânea que permanecem sintomáticos apesar do anti-histamínico H1, com dose provável de 25 mg duas vezes ao dia. O que o torna atraente na prática é o que ele dispensa: não é injetável e não exige monitorização laboratorial. A própria diretriz reconhece que omalizumabe, dupilumabe e remibrutinibe têm restrições pelo custo alto.

A ciclosporina A desceu para o terceiro degrau e ficou com recomendação condicional, indicada para quem não responde aos tratamentos licenciados ou quando eles não estão disponíveis. A dose é 3 a 5 mg/kg/dia, o uso é off-label na urticária, e a eficácia descrita é de cerca de 65%. Os efeitos adversos são dependentes de dose e de tempo e ocorrem em mais de 50% dos pacientes tratados com doses moderadas de 4 a 5 mg/kg/dia — hipertensão, neuropatia periférica e aumento da creatinina são os que exigem monitorização. Antes de iniciar, aferem-se pressão arterial em duas ocasiões e um painel que inclui ureia, creatinina, hemograma, magnésio, lipídios, potássio, ácido úrico e hepatograma, repetido mensalmente e a cada ajuste de dose.

O topo do algoritmo é o degrau em que a recomendação não pode ser formada. E ele encolheu: antagonistas H2, antileucotrienos, hidroxicloroquina, metotrexato e dapsona, que figuravam em versões anteriores da diretriz e em diretrizes nacionais, passaram a ser considerados de evidência insuficiente para permanecer no algoritmo — embora a diretriz reconheça que continuam relevantes por serem muito acessíveis em sistemas de saúde mais restritos. O benralizumabe tem evidência de qualidade moderada, mas falhou em demonstrar eficácia estatisticamente significativa em ensaio clássico de urticária crônica.

Escada de quatro degraus em perfil, subindo da esquerda para a direita. O primeiro degrau é um bloco sólido único. O segundo é um patamar dividido em três blocos iguais lado a lado, na mesma altura. O terceiro é um bloco de contorno tracejado. O quarto, mais alto, tem contorno pontilhado e preenchimento mais claro. Uma seta vertical fina acompanha a escada apontando para cima.
O desenho do segundo degrau é a mudança de 2026: três blocos na MESMA altura, não em fila. Omalizumabe, dupilumabe e remibrutinibe ocupam o mesmo patamar, e a escolha entre eles é por comorbidade e disponibilidade, não por ordem. Ciclosporina desceu para o degrau seguinte, e o topo agrupa terapias sem recomendação formada.

Corticoide: resgate curto, nunca trilho

Corticosteroide sistêmico não entra no algoritmo como degrau. Ele entra como resgate, e a recomendação contra o uso prolongado é forte: os riscos do uso longo superam em muito os benefícios possíveis — supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, osteoporose com risco de fratura, distúrbios metabólicos, cardiovasculares e oculares, e maior risco de infecções. Preparações de depósito estão na mesma recomendação negativa.

O resgate é curto e tem contorno definido. Na urticária aguda e nas exacerbações agudas da urticária crônica, um curso oral de no máximo até 10 dias pode ajudar a reduzir duração e atividade da doença. O guia brasileiro escreve a dose como 0,5 a 1 mg/kg/dia de prednisona ou prednisolona, o que corresponde a 20 a 60 mg no adulto, por 7 a 10 dias; a diretriz internacional de 2026 escreve a faixa como 20 a 50 mg/dia de equivalente de prednisona, explicitando que a dose é para adulto e não para criança.

Duas frases do guia brasileiro delimitam o uso na emergência e resolvem alternativa. A associação de corticoide oral a doses baixas de anti-histamínico de segunda geração não é recomendada — se o paciente ainda não subiu a dose do anti-histamínico, a conduta é subir a dose, não acrescentar corticoide. E cursos repetidos de corticoide devem ser evitados, o que transforma o paciente que volta ao pronto-socorro todo mês em candidato a escalonar o algoritmo, não a repetir a receita.

Corticoide tópico não deve ser usado na urticária. A diretriz internacional admite uma exceção estreita, de baixa evidência: urticária de pressão em plantas dos pés, como terapia alternativa. Fora dela, pomada em urtica é gasto sem efeito.

Medir para decidir: os escores que governam o degrau

Recomenda-se avaliar atividade, impacto e controle em toda consulta, e as ferramentas são instrumentos preenchidos pelo paciente, não exames. A divisão é lógica: quem tem urtica mede atividade pelo escore de atividade da urticária em 7 dias; quem tem angioedema mede pelo escore de atividade do angioedema; quem tem os dois usa os dois. Para controle, urtica com ou sem angioedema usa o teste de controle da urticária, e angioedema isolado usa o teste de controle do angioedema.

O escore de atividade da urticária em 7 dias soma, para cada dia, 0 a 3 pontos por urticas e 0 a 3 por prurido, ao longo de 7 dias consecutivos, chegando ao máximo de 42. As faixas são: 0, sem sintomas; 1 a 6, bem controlada; 7 a 15, leve; 16 a 27, moderada; e 28 a 42, grave. Considera-se adequado um valor igual ou menor que 6, mas o objetivo do tratamento é zero. Suas limitações explicam por que não basta: não contempla angioedema, não avalia urticária crônica induzida e não mede controle.

O teste de controle da urticária é retrospectivo, tem quatro perguntas, cobre as 4 semanas anteriores e vai de 0 a 16 pontos, com corte em 12 — quanto maior, melhor o controle. Abaixo de 12, a doença não está controlada e a conduta é subir de degrau. Entre 12 e 15, está bem controlada, e o que se faz é manter e tentar otimizar. Em 16, está completamente controlada, e o que se considera é reduzir dose ou aumentar intervalo. Ele avalia tanto a espontânea quanto a induzida e considera o angioedema, e é por isso que complementa o escore de atividade.

O escore de atividade do angioedema é preenchido diariamente com cinco perguntas respondidas quando houve angioedema nas últimas 24 horas, cada uma valendo de 0 a 3 pontos, com máximo de 15 por dia, e deve ser aplicado por pelo menos 28 dias, porque o angioedema é mais episódico que a urtica. O teste de controle do angioedema tem quatro questões e vai de 0 a 16, com escore igual ou maior que 10 significando bom controle. Para qualidade de vida existem o questionário de qualidade de vida em urticária crônica, com 23 itens e escore de 23 a 115, e o questionário de qualidade de vida em angioedema, com 17 perguntas e escore de 17 a 85; em ambos, quanto maior, pior.

A régua de retirada usa os mesmos números. Uma vez atingido o controle, considera-se reduzir o tratamento para diminuir a carga terapêutica e avaliar remissão espontânea, e recomenda-se reavaliar a necessidade de manter ou trocar o tratamento a cada três a seis meses. Para o omalizumabe, depois de controle total por período igual ou superior a 6 meses, a decisão de descontinuar é individualizada, e as duas estratégias descritas são interromper de imediato mantendo vigilância, ou aumentar progressivamente os intervalos até 8 semanas antes de parar.

O que a farmácia da unidade básica realmente entrega

A distância entre a diretriz e a receita aparece com clareza na lista nacional de medicamentos. Na seção de aparelho respiratório da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 há três anti-histamínicos de uso sistêmico no Componente Básico da Assistência Farmacêutica: loratadina, em xarope de 1 mg/mL e comprimido de 10 mg; maleato de dexclorfeniramina, em comprimido de 2 mg, solução oral e xarope de 0,4 mg/mL; e cloridrato de prometazina, em comprimido de 25 mg e solução injetável de 25 mg/mL.

Dois dos três são de primeira geração — exatamente a classe que a diretriz recomenda não usar. A loratadina é o único de segunda geração na lista, o que faz dela, na prática da rede básica, o fármaco do primeiro degrau. E aqui há uma sutileza que vale registrar: a lista de fármacos com evidência de eficácia e segurança em dose quadruplicada, tanto no guia brasileiro quanto na diretriz internacional, traz bilastina, cetirizina, desloratadina, ebastina, fexofenadina, levocetirizina e rupatadina — a loratadina não está nela. O guia brasileiro admite seu uso em dose aumentada, mas com uma cautela específica: ao usar doses aumentadas de loratadina, deve-se monitorar a função hepática regularmente. Quadruplicar significa 40 mg por dia, quatro comprimidos de 10 mg.

O omalizumabe existe na mesma lista, com apresentação de 150 mg, mas do outro lado do financiamento: está no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, cuja dispensação corre por protocolo clínico e diretrizes terapêuticas — e o protocolo que hoje abre a porta do omalizumabe é o da asma. O Ministério da Saúde não publicou protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para urticária crônica. Ou seja: a droga de segunda linha está no país, está na lista nacional, e não é por essa via que o paciente com urticária a recebe.

A consequência prática atravessa a consulta e vale dizer ao paciente com todas as letras. O primeiro degrau é integralmente executável na atenção básica, com um fármaco de segunda geração disponível e uma regra de dose que não custa nada: subir a dose do mesmo remédio até quatro vezes antes de considerar qualquer outra coisa. O segundo degrau, na rede pública, depende de encaminhamento e de vias que não são a farmácia da unidade — e é por isso que documentar controle inadequado com o teste de controle da urticária, e não com impressão clínica, muda o que acontece com o encaminhamento.

Populações especiais: criança, gestante e idoso

Em crianças o algoritmo é o mesmo dos adultos, com dose do anti-histamínico de segunda geração ajustada por peso e idade e aumento em até quatro vezes se o controle for insuficiente após 2 a 4 semanas. Os anti-histamínicos de segunda geração recomendados e disponíveis no Brasil para essa faixa são bilastina, cetirizina, desloratadina, fexofenadina, levocetirizina e loratadina, e a menor idade disponível começa aos 6 meses. Os de primeira geração não devem ser usados em nenhuma etapa: além da sedação, podem causar excitabilidade paradoxal, ganho de peso e constipação.

Ainda na criança, o omalizumabe é aprovado em bula a partir dos 12 anos, na mesma dose de 300 mg a cada 4 semanas. Abaixo dessa idade o uso é off-label, apoiado em séries e estudos com doses entre 75 mg e 450 mg por mês. Um diferencial merece atenção especial nessa faixa: a síndrome periódica associada à criopirina, doença autoinflamatória rara que se apresenta com quadro urticariforme acompanhado de febre e se manifesta na infância.

Na gestação, o tratamento padrão é o mesmo: começar com a dose licenciada do anti-histamínico de segunda geração, aumentar até quatro vezes se necessário e acrescentar omalizumabe nas refratárias. Não há relatos de defeitos congênitos com anti-histamínicos de segunda geração, e os preferíveis são loratadina e cetirizina, com possível extrapolação para desloratadina, bilastina e levocetirizina; os de primeira geração devem ser evitados tanto na gravidez quanto na lactação. A doença piora em cerca de um terço das gestantes e melhora em cerca de metade, e o argumento mais forte para tratar é que ida à emergência por exacerbação foi fator de risco independente para parto prematuro.

No idoso, procedimentos diagnósticos e terapêuticos são os mesmos das outras faixas etárias, e a dose regular costuma bastar para o controle da maioria — o aumento até a dose quadruplicada também demonstrou boa eficácia. O que muda é o entorno: comorbidades relacionadas à idade são mais prevalentes, a polifarmácia amplia as interações e a disfunção renal ou hepática pode exigir ajuste conforme o anti-histamínico escolhido. Caso recalcitrante nessa faixa deve reabrir o diagnóstico diferencial, que é mais difícil pela probabilidade de outras doenças próprias da idade.

04

As duas árvores: da urtica ao degrau, e do inchaço sem urtica ao mediador

O fluxo abaixo é o caminho completo, da porta do consultório ao terceiro degrau. A primeira tabela é a régua do diagnóstico diferencial pela lesão, e é a que decide se o caso é urticária. As três tabelas seguintes são, nesta ordem: os escores com suas faixas, os degraus do tratamento com dose, e o angioedema hereditário no SUS com o que está e o que não está incorporado.

  1. 1Olhe a lesão individual, não o conjunto. Ela some em menos de 24 horas e não deixa marca? É urtica. Dura mais, arde em vez de coçar, deixa hiperpigmentação? Suspeite de vasculite urticariforme e peça complemento sérico e biópsia.
  2. 2Há urtica junto com o inchaço? Se sim, é urticária, e o mediador é histamina. Se o inchaço vem SOZINHO e é recorrente, abra a segunda árvore.
  3. 3Angioedema isolado recorrente: pergunte por resposta a anti-histamínico, corticoide e adrenalina; por casos na família; por doença linfoproliferativa ou colagenose; e por inibidor da enzima conversora, gliptina e anti-inflamatório não esteroidal. Falta de resposta às três drogas aponta bradicinina.
  4. 4Suspeita de bradicinina: dose C4, inibidor de C1 esterase quantitativo E funcional. Se o inibidor for normal em quantidade e função, considere estudo genético; se houver doença de base e início tardio, acrescente C1q para separar adquirido de hereditário.
  5. 5Confirmada urticária, conte as semanas. Seis semanas ou menos: aguda. Sem exame de rotina. Anti-histamínico de 2ª geração por 2 a 3 semanas; corticoide oral curto só se grave.
  6. 6Mais de seis semanas: crônica. Espontânea ou induzida? Gatilho definido e reprodutível → teste de provocação do subtipo. Sem gatilho definido → hemograma, VHS e/ou PCR em todos; IgE total e IgG anti-TPO no especializado.
  7. 7Trate: anti-histamínico H1 de 2ª geração em dose padrão. Reavalie em 2 a 4 semanas, ou antes se insuportável.
  8. 8Sem controle: quadruplique a dose do MESMO fármaco. Não combine dois anti-histamínicos. Não passe de 4x.
  9. 9Meça antes de subir: UCT abaixo de 12 é doença não controlada e autoriza o próximo degrau. UCT de 12 a 15, mantenha e otimize. UCT 16, considere reduzir dose ou espaçar.
  10. 10Segundo degrau, como acréscimo ao anti-histamínico: omalizumabe 300 mg a cada 4 semanas (recomendação forte), OU dupilumabe, OU remibrutinibe — escolha por comorbidade e disponibilidade, e troque entre eles se o controle for inadequado.
  11. 11Não declare falha do omalizumabe antes de 6 meses. Antes disso, escalone dose e/ou encurte intervalo (até 600 mg a cada 2 semanas, off-label).
  12. 12Terceiro degrau: ciclosporina A 3 a 5 mg/kg/dia, com pressão arterial e função renal monitoradas. Exacerbação aguda em qualquer ponto: curso curto de corticoide oral, no máximo até 10 dias, nunca contínuo.
AchadoUrtica (urticária)Vasculite urticariformeAngioedema bradicinérgico
Duração da lesão individual30 minutos a 24 horasMais de 24 horas na maioria das vezesAté 72 horas (é angioedema, não urtica)
SensaçãoPrurido (às vezes ardor)Dor ou ardor, com pouco ou nenhum pruridoFormigamento, ardor, aperto, às vezes dor
Lesão residualNenhuma — a pele volta ao normalHiperpigmentação; pode haver lesão equimóticaNenhuma
Urtica acompanhandoÉ a própria lesãoA lesão parece urtica mas não éAusente — é o dado que abre a segunda árvore
Resposta a anti-H1, corticoide e adrenalinaRespondeResposta pobre; o alvo é a vasculiteNão responde — a via da bradicinina não é atingida
Sintomas sistêmicosAusentesArtralgia, febre, mal-estar, perda de pesoDor abdominal em cólica; risco de asfixia por edema de via aérea
Investigação que decideClínica; na crônica, hemograma, VHS/PCR (IgE total e IgG anti-TPO no especializado)Complemento sérico e biópsia (vasculite leucocitoclástica com neutrófilos)C4, inibidor de C1 esterase quantitativo e funcional; C1q se suspeita de adquirido

Os escores da urticária crônica — o que cada um mede e onde corta

InstrumentoO que medeFaixaCorte que decide
UAS7 (atividade da urticária em 7 dias)Urticas e prurido, 0 a 3 cada, por 7 dias consecutivos0 a 420 sem sintomas; 1-6 bem controlada; 7-15 leve; 16-27 moderada; 28-42 grave. Adequado ≤ 6; alvo 0
UCT (controle da urticária)Controle nas 4 semanas anteriores, 4 perguntas0 a 16≥ 12 controlada. < 12 sobe degrau; 12-15 mantém e otimiza; 16 considera reduzir
AAS (atividade do angioedema)5 perguntas diárias quando houve angioedema em 24 h0 a 15 por dia, por ≥ 28 diasQuanto maior, mais atividade; usar junto do UAS7 quando há urtica e angioedema
AECT (controle do angioedema)Frequência, qualidade de vida, imprevisibilidade e tratamento0 a 16≥ 10 bom controle; < 10 falta de controle
CU-Q2oL (qualidade de vida em urticária)23 itens, 2 semanas anteriores23 a 115Quanto maior, pior a qualidade de vida
AE-QoL (qualidade de vida em angioedema)17 perguntas17 a 85Quanto maior, pior a qualidade de vida

Os degraus do tratamento da urticária — diretriz internacional vigente

DegrauFármaco e doseForçaQuando passar adiante
Anti-histamínico H1 de 2ª geração, dose padrão de bulaForteSem controle: quadruplicar o MESMO fármaco (também forte). Nunca combinar dois; nunca ultrapassar 4x
2º (a)Omalizumabe 300 mg SC a cada 4 semanas, como acréscimo; escalonável até 600 mg a cada 2 semanas (off-label)ForteReavaliar em 2 a 4 semanas para subir de degrau, mas não declarar falha do omalizumabe antes de 6 meses
2º (b)Dupilumabe: ≥ 60 kg, 600 mg de ataque + 300 mg a cada 2 semanas; 30 a 60 kg, 400 mg + 200 mg a cada 2 semanas; 15 a 30 kg, 400 mg + 200 mg a cada 4 semanasCondicionalMesmo patamar do omalizumabe; útil quando a IgE basal é baixa ou há comorbidade tipo 2
2º (c)Remibrutinibe 25 mg por via oral, 2 vezes ao diaCondicionalMesmo patamar; oral, sem injeção e sem monitorização laboratorial
Ciclosporina A 3 a 5 mg/kg/dia, off-labelCondicionalSó depois de falha dos licenciados, ou se estes não estiverem disponíveis
Fora do degrauCorticoide oral 20 a 50 mg/dia de equivalente de prednisona (guia brasileiro: 0,5 a 1 mg/kg/dia, 20 a 60 mg no adulto)Forte CONTRA uso prolongado; condicional a favor do curso curtoSó em exacerbação aguda, no máximo até 10 dias. Nunca contínuo, nunca de depósito, nunca tópico

Angioedema hereditário no SUS — o que a norma diz e o que foi decidido depois

FinalidadeTecnologiaSituaçãoDose / detalhe cobrado
Profilaxia de longo prazoDanazolNo PCDT vigente (Portaria SAS/MS nº 880/2016)200 mg/dia por via oral em duas tomadas no 1º mês, depois a menor dose eficaz. Contraindicado na gravidez e na lactação
Profilaxia de curto prazo (procedimento)DanazolNo PCDT vigente400 a 600 mg/dia nos 5 dias anteriores e nos 3 dias posteriores ao procedimento
Tratamento da criseAcetato de icatibanto (antagonista do receptor B2 da bradicinina)Incorporado — Portaria SECTICS/MS nº 68/2023, uso restrito hospitalar30 mg SC no adulto; 2ª dose após 6 h e 3ª após mais 6 h se preciso; máximo 3 injeções em 24 h; a partir dos 2 anos
Tratamento da criseInibidor de C1 esterase derivado do plasma humanoIncorporado — Portaria SECTICS/MS nº 69/2023, uso restrito hospitalar20 UI/kg por via intravenosa, o mais cedo possível ao primeiro sinal de crise
Tratamento da crisePlasma frescoAlternativa quando os de primeira linha não estão disponíveisContém o inibidor, mas também o substrato sobre o qual a protease age
ProfilaxiaInibidor de C1 esterase subcutâneoNÃO incorporado — Portaria SECTICS/MS nº 70/2023Avaliado especificamente para profilaxia de crises
ProfilaxiaLanadelumabeNÃO incorporadoAvaliado pela comissão nacional para profilaxia de longo prazo
ProfilaxiaÁcido tranexâmicoNão recomendado pelo protocoloEvidência metodologicamente limitada; fora das alternativas das diretrizes recentes

As três incorporações de 2023 mudaram o tratamento da crise sem que a portaria de 2016 fosse reescrita: a norma ainda registra que o icatibanto não estava indicado, por decisão da comissão nacional de junho de 2015. Quem lê só a portaria erra a conduta da crise; quem lê só as portarias de incorporação perde o danazol e a monitorização. Enunciado de prova que pergunta 'o que o SUS oferece' cobra as duas camadas.

O corte do UCT é 12 de 16 pontos, e ele é o gatilho formal para subir de degrau. Não confundir com o UAS7, cujo alvo é 6 ou menos, idealmente zero: um mede controle nas últimas 4 semanas, o outro mede atividade nos últimos 7 dias.

A regra 'até quatro vezes' vale para o anti-histamínico, e só para ele. O omalizumabe também escalona, mas por outro caminho — dose maior e/ou intervalo menor, até 600 mg a cada 2 semanas —, e esse escalonamento é off-label, assim como o aumento do anti-histamínico.

C4 e complemento hemolítico total podem estar normais fora das crises no angioedema hereditário. Exame normal colhido em período assintomático não afasta o diagnóstico, e essa é a frase que a portaria destaca.

Angioedema hereditário é diferencial de dor abdominal recorrente, não apenas de inchaço. A cólica pode ser lida como abdome agudo e levar a laparotomia exploradora desnecessária — é a complicação evitável que o protocolo nomeia.

No paciente com angioedema hereditário, inibidores da enzima conversora de angiotensina e estrogênios são evitados porque desencadeiam crises. A contraindicação vale mesmo quando a indicação cardiológica ou ginecológica parece forte.

Sobre as classes bradicinérgicas além do inibidor da enzima conversora, a diretriz internacional vigente se contradiz entre o corpo do texto e a legenda do algoritmo: o corpo lista as gliptinas ao lado do inibidor da enzima conversora como causa de angioedema bradicinérgico, enquanto a legenda descreve gliptinas, sartanas e inibidores da neprilisina como indutores de angioedema QUANDO COMBINADOS ao inibidor da enzima conversora, e com frequência muito menor. Sem como decidir entre as duas redações, fica a direção, que é a que resolve questão: o inibidor da enzima conversora é a causa dominante, e as outras classes entram na anamnese como suspeitas de segunda ordem.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O segundo degrau tem um fármaco ou três?

Um fármaco (Guia Prático da ASBAI, 2024, apoiado na diretriz internacional de 2022)

O guia brasileiro descreve um algoritmo de três linhas estritas: anti-histamínico H1 de segunda geração em dose padrão e depois quadruplicada como primeira linha; omalizumabe como segunda linha, na frase 'recomenda-se adicionar o omalizumabe ao tratamento de pacientes com urticária crônica refratários aos anti-histamínicos de segunda geração em dose quadruplicada'; e ciclosporina A como terceira linha. O texto reconhece dupilumabe, barzolvolimabe, fenebrutinibe e remibrutinibe como potenciais tratamentos, mas os classifica como 'atualmente sob investigação em ensaios clínicos randomizados', fora do algoritmo.

Dias GAC, Agondi RC, Brandão LS, et al. Atualização do Guia Prático da ASBAI para o Diagnóstico e Tratamento da Urticária baseado na diretriz internacional. Arq Asma Alerg Imunol. 2024;8(2):91-115

Três fármacos no mesmo patamar (diretriz internacional vigente, Allergy, 2026)

A versão vigente da diretriz internacional coloca omalizumabe, dupilumabe e remibrutinibe lado a lado como acréscimo ao anti-histamínico de segunda geração, num único degrau, com a ressalva de que, dependendo das comorbidades e de outros fatores, um deles pode ser preferido e de que os tratamentos de segunda linha podem ser trocados entre si em caso de controle inadequado. Só o omalizumabe recebe recomendação forte; dupilumabe e remibrutinibe recebem recomendação condicional. A ciclosporina desce para o degrau seguinte, também condicional.

Zuberbier T, et al. The International Guideline for the Definition, Classification, Diagnosis and Management of Urticaria. Allergy. 2026. DOI 10.1111/all.70210

Na prova

O recorte se identifica pela data e pelo verbo do enunciado. Enunciado que pergunta 'qual a próxima etapa' e traz apenas omalizumabe entre as opções biológicas está escrito sobre a régua anterior, e a resposta é omalizumabe — que continua sendo a única recomendação forte do degrau nas duas versões. Enunciado que oferece dupilumabe ou remibrutinibe ao lado do omalizumabe, ou que descreve baixa IgE total e comorbidade tipo 2 (asma, dermatite atópica, polipose nasal), está escrito sobre a régua de 2026, e a chave está em reconhecer que os três dividem o mesmo patamar. Em qualquer das duas versões, ciclosporina logo após a falha do anti-histamínico está errada.

A dose do corticoide de resgate

0,5 a 1 mg/kg/dia, 20 a 60 mg no adulto, por 7 a 10 dias (Guia Prático da ASBAI, 2024)

O guia brasileiro escreve a conduta da alta da emergência como anti-histamínico de segunda geração de uma a quatro vezes ao dia conforme a necessidade, com corticoide oral podendo ser associado por 7 a 10 dias, na dose de 0,5 a 1 mg/kg/dia, equivalendo a 20 a 60 mg de prednisona ou prednisolona em adultos. Em outro trecho, ao tratar da urticária aguda grave, o mesmo documento escreve a dose como 1 mg/kg/dia por sete a 10 dias.

Dias GAC, Agondi RC, Brandão LS, et al. Arq Asma Alerg Imunol. 2024;8(2):91-115

20 a 50 mg/dia de equivalente de prednisona, no máximo até 10 dias (diretriz internacional, Allergy, 2026)

A diretriz internacional vigente escreve que, se corticosteroides sistêmicos forem usados, são necessárias doses entre 20 e 50 mg/dia de equivalente de prednisona, explicitando que a faixa serve para adultos e não para crianças, e que para urticária aguda e exacerbações agudas da urticária crônica espontânea um curso oral curto de no máximo até 10 dias pode ajudar a reduzir duração e atividade da doença. Registra também que ensaios clínicos randomizados bem desenhados sobre esse ponto são inexistentes.

Zuberbier T, et al. Allergy. 2026. DOI 10.1111/all.70210

Na prova

A divergência é de teto, não de conduta: as duas fontes concordam no curso curto, no limite de 10 dias e na proibição do uso prolongado e das preparações de depósito. Se o enunciado der o peso do paciente e pedir a dose, está usando a régua brasileira em mg/kg; se der só a dose fixa em miligramas, está usando a régua internacional. O item que separa candidatos não é o número: é reconhecer que corticoide não é degrau do algoritmo e que associá-lo a dose BAIXA de anti-histamínico é a conduta desaconselhada — antes de acrescentar corticoide, sobe-se a dose do anti-histamínico.

A dose máxima do danazol na profilaxia de longo prazo do angioedema hereditário

Até 600 mg/dia (norma vigente — Portaria SAS/MS nº 880, de 12 de julho de 2016)

O protocolo em vigor prescreve danazol 200 mg por via oral, divididos em duas administrações diárias, durante o primeiro mês, com ajuste posterior conforme resposta clínica e laboratorial, e fixa dose máxima diária de 600 mg para profilaxia a longo prazo, ressalvando que o uso de doses acima de 200 mg/dia deve ser considerado somente em casos especiais.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 880, de 12 de julho de 2016, item 8.2

Máximo de 200 mg/dia (proposta em consulta pública — Conitec/SECTICS nº 50/2024)

A proposta de atualização do protocolo, submetida à consulta pública em 2024 e ainda não publicada como portaria, escreve a profilaxia de longo prazo como 100 mg a 200 mg por dia, por via oral, sendo a dose máxima de 200 mg/dia, e justifica o teto mais baixo pelos eventos adversos do fármaco. A mesma proposta mantém a profilaxia de curto prazo em dose maior, de 2,5 a 10 mg/kg/dia até o máximo de 600 mg/dia, iniciada 5 a 7 dias antes do procedimento e mantida por 2 a 3 dias depois.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec/SECTICS. Relatório preliminar — PCDT Angioedema Hereditário associado à deficiência de inibidor de C1-esterase, Consulta Pública nº 50/2024

Na prova

Enquanto a portaria nova não sai, a norma que vale é a de 2016 — e é dela que sai a resposta esperada em questão que pede 'segundo o PCDT do Ministério da Saúde'. O sinal de que o enunciado está na régua nova é o teto de 200 mg/dia na profilaxia contínua ou a menção às incorporações hospitalares de 2023. Repare que a divergência é só na profilaxia de LONGO prazo: as duas versões concordam que a de curto prazo, antes de procedimento, usa dose alta, até 600 mg/dia.

06

Caso resolvido

Mulher de 34 anos vem à unidade básica com placas elevadas, avermelhadas e muito pruriginosas no tronco e nos braços, que aparecem e somem ao longo do dia, há cerca de quatro meses, quase diariamente. Cada lesão dura poucas horas e sai sem deixar marca. Refere dois episódios de inchaço dos lábios no período, ambos junto com as placas. Nega febre, artralgia, perda de peso e uso de medicamentos, exceto ibuprofeno para cólica, que percebe piorar as lesões. Sem história familiar de inchaços. Exame físico com placas urticariformes em tronco, sem lesão residual em áreas antigas; sem estigmas sistêmicos. Vem usando loratadina 10 mg/dia há seis semanas, sem controle.
Quatro meses de sintomas quase diários ultrapassa o corte de 6 semanas: é urticária crônica. Não há gatilho definido e reprodutível — o ibuprofeno é agravante, não desencadeante específico, e o critério da induzida exige que os sintomas apareçam sempre com o gatilho e nunca sem ele. Logo, urticária crônica espontânea. O angioedema de lábios acompanhado de urticas mantém o caso dentro da urticária, e não abre a árvore do angioedema isolado.
Cada lesão dura poucas horas, coça, e sai sem lesão residual — as três características da urtica. Não há dor, ardor predominante, hiperpigmentação residual, lesão equimótica, febre, artralgia nem perda de peso. Isso afasta vasculite urticariforme e síndromes autoinflamatórias sem precisar de biópsia. A investigação de mais de 24 horas por lesão só entraria se ela existisse.
Hemograma, velocidade de hemossedimentação e/ou proteína C-reativa. IgE total e IgG anti-tireoperoxidase ficam para o cuidado especializado, e servem para caracterizar endótipo e estimar resposta ao tratamento, não para fechar diagnóstico. Não há indicação de sorologia para hepatites, de pesquisa de Helicobacter pylori nem de painel de IgE específica: nenhum item da história os sugere.
Aplique o teste de controle da urticária. Sintomas quase diários apesar de seis semanas de loratadina em dose padrão vão resultar em escore abaixo de 12, o que caracteriza doença não controlada e autoriza formalmente subir de degrau. Registrar o número importa: é ele que sustenta o escalonamento e, mais adiante, o encaminhamento.
A conduta é aumentar a dose até quatro vezes a padrão do MESMO fármaco. Não se acrescenta um segundo anti-histamínico, não se troca por um de primeira geração e não se passa de quatro vezes. Se o fármaco mantido for a loratadina — que é a opção da farmácia básica —, quatro vezes significa 40 mg por dia, e o guia brasileiro exige monitorização regular da função hepática nessa situação. Explique que o aumento é off-label e que a janela de avaliação é de 2 a 4 semanas.
Medicamentos exacerbam a urticária crônica espontânea em cerca de um terço dos pacientes, e os anti-inflamatórios não esteroidais são os mais comuns entre eles; paracetamol e inibidores seletivos ou preferenciais da COX-2 são as opções mais seguras. Oriente a troca. Dieta de exclusão ampla não entra: é controversa, piora a qualidade de vida e, quando usada como prova diagnóstica, dura no máximo 3 a 4 semanas.
Se em 2 a 4 semanas o teste de controle da urticária seguir abaixo de 12 com a dose quadruplicada, a paciente está no grupo de cerca de 38% que não controla nem com quatro vezes a dose, e a indicação é segunda linha como acréscimo ao anti-histamínico: omalizumabe 300 mg a cada 4 semanas, com dupilumabe e remibrutinibe no mesmo patamar pela diretriz vigente. Isso exige encaminhamento ao especialista, e o número do escore é o que o sustenta.
A duração média da urticária crônica é de 1 a 4 anos, com remissão espontânea em torno de 45% após 5 anos de doença, e recorrência dos sintomas em cerca de um terço dos pacientes. O objetivo do tratamento é controle completo — teste de controle da urticária igual a 16 e escore de atividade igual a zero —, e depois de mantido, considera-se reduzir a carga terapêutica para testar remissão. Reavaliação formal a cada três a seis meses.
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Agora feche você

Outro paciente, no mesmo plantão. Homem de 58 anos, hipertenso, chega com edema de lábio inferior e de língua iniciado há três horas, sem urticas, sem prurido e sem lesão em nenhuma outra parte do corpo. Refere dois episódios semelhantes nos últimos oito meses, ambos resolvidos espontaneamente em cerca de dois dias. Nega alimento novo, picada, medicamento novo ou infecção recente. Usa enalapril há quatro anos, sem mudança de dose. Nega casos semelhantes na família e nega dor abdominal recorrente. Ao exame: consciente, orientado, voz normal, sem estridor, sem sibilos, sem lesões cutâneas; pressão arterial 148/90 mmHg, frequência cardíaca 82 bpm, saturação 97% em ar ambiente. Recebeu na sala de espera prometazina intramuscular e hidrocortisona endovenosa, sem qualquer mudança do edema em duas horas.
Liste os achados que decidem: presença ou ausência de urtica, presença ou ausência de prurido, e o tempo de resolução dos episódios anteriores. Diga a qual das duas árvores o caso pertence e por quê.
O paciente recebeu anti-histamínico e corticoide sem resposta em duas horas. Escreva o que essa ausência de resposta significa em termos de mediador, e por que ela é informação diagnóstica e não apenas fracasso terapêutico. Diga também o que ainda falta testar dessa mesma tríade.
Escreva as três causas de angioedema recorrente não histaminérgico que cabem neste paciente, e para cada uma o achado da história que a torna mais ou menos provável. Depois liste os exames que as separam no laboratório, dizendo qual exame distingue especificamente o adquirido do hereditário. Feche com a conduta imediata na sala e com o que precisa ser suspenso na prescrição crônica.
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Onde a banca derruba

  1. 1Caçar alérgeno na urticária crônica espontânea É o pedido que o paciente faz e a alternativa que o enunciado oferece: painel de IgE específica, teste cutâneo para inalantes, dieta de exclusão ampla. Na urticária crônica espontânea, por definição, não há fator desencadeante específico, e a investigação recomendada é curta: hemograma, velocidade de hemossedimentação e/ou proteína C-reativa em todos, mais IgE total e IgG anti-tireoperoxidase no cuidado especializado. Alergia mediada por IgE é hipótese da urticária AGUDA, e mesmo lá só quando a história sugere.
  2. 2Pedir bateria de exames na urticária aguda A recomendação é forte e negativa: contra medidas diagnósticas de rotina na urticária aguda espontânea. A maior parte dos casos está ligada a infecção viral, especialmente em crianças, ou é idiopática, e a duração média é de uma semana. Pedir sorologias, complemento, autoanticorpos e parasitológico em quadro de três dias transforma uma doença autolimitada num percurso de exames com achados incidentais.
  3. 3Insistir com adrenalina, corticoide e anti-histamínico no angioedema que não responde Falha das três drogas não é dose insuficiente: é o dado que muda o diagnóstico. Elas atuam na via da histamina, e o angioedema hereditário, o adquirido e o induzido por inibidor da enzima conversora de angiotensina são mediados por bradicinina — a via em que essas drogas não agem. Diante de edema de via aérea sem urtica e sem prurido que não cede, o caminho é o tratamento específico da crise, e o tempo perdido escalonando anti-histamínico é tempo de via aérea.
  4. 4Combinar dois anti-histamínicos diferentes em vez de quadruplicar um É intuitivo — dois mecanismos, dois horários, mais cobertura — e é justamente o que a diretriz sugere contra. O uso de um mesmo anti-histamínico em dose alta demonstrou ser superior à combinação de diferentes anti-histamínicos no controle do prurido, e as propriedades farmacológicas dos fármacos são distintas demais para que a soma seja previsível. A alternativa que oferece 'associar cetirizina pela manhã e desloratadina à noite' está descrevendo a conduta desaconselhada.
  5. 5Passar de quatro vezes a dose do anti-histamínico Há recomendação forte contra doses acima de quatro vezes a padrão na urticária crônica, e o motivo é simples: acima disso não foi testado. Quem chegou ao teto e não controlou não tem mais degrau de anti-histamínico para subir — tem indicação de segunda linha. Vale lembrar que já a dose quadruplicada é off-label e precisa ser explicada ao paciente.
  6. 6Prescrever corticoide contínuo, de depósito ou tópico Três erros na mesma classe. O uso prolongado tem recomendação forte contra, incluindo preparações de depósito, pelo custo em supressão adrenal, osteoporose, distúrbio metabólico e infecção. O corticoide de resgate é curto — no máximo até 10 dias, para exacerbação aguda — e cursos repetidos devem ser evitados. E corticoide tópico não deve ser usado na urticária: a única exceção admitida, de baixa evidência, é urticária de pressão nas plantas dos pés.
  7. 7Acrescentar corticoide oral a uma dose baixa de anti-histamínico A sequência correta é subir o anti-histamínico primeiro. O guia brasileiro é explícito em não recomendar a associação de corticoide oral a doses baixas de anti-histamínico de segunda geração, admitindo-a na ausência de resposta à dose QUADRUPLICADA. O paciente que sai da emergência com loratadina 10 mg mais prednisona 40 mg está com um dos dois degraus pulado.
  8. 8Chamar de urticária a lesão que dura mais de 24 horas e deixa marca Urtica individual dura entre 30 minutos e 24 horas e não deixa lesão residual. Placa que persiste além disso, arde mais do que coça e sai deixando hiperpigmentação é vasculite urticariforme até prova em contrário, e pede complemento sérico, marcadores inflamatórios e biópsia com procura de vasculite leucocitoclástica. Tratar isso como urticária resistente é o caminho para escalonar anti-histamínico numa doença que não é de mastócito.
  9. 9Declarar falha do omalizumabe cedo demais Existem respondedores tardios, que só controlam entre 12 e 16 semanas, e a ausência de resposta não deve ser considerada antes de no mínimo 6 meses de tratamento. Antes de trocar de degrau, o que se faz é escalonar: dose maior, intervalo menor ou os dois, com estudos sustentando até 600 mg a cada 2 semanas. Trocar por ciclosporina no terceiro mês troca um fármaco seguro por um que exige monitorização de pressão e de função renal.
  10. 10Investigar hepatites e Helicobacter pylori de rotina na urticária crônica Há evidência de que infecções virais crônicas como hepatite B e C não modulam a atividade da urticária crônica espontânea, e a busca de rotina não é recomendada. Quanto ao Helicobacter pylori, os estudos são heterogêneos e contraditórios, o efeito da erradicação sobre o curso da doença permanece controverso, e a pesquisa deve seguir a história clínica — urticária crônica não figura entre as indicações estabelecidas de pesquisa e erradicação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Angioedema recorrente sem urticária/prurido, refratário a anti-histamínico e corticoide, com dor abdominal, história familiar e C4 baixo é clássico de angioedema hereditário por deficiência de C1-inibidor (mediado por bradicinina). Urticária crônica cursa com placas pruriginosas e responde a anti-histamínico. Anafilaxia é aguda e multissistêmica com gatilho. Angioedema por IECA depende de uso do fármaco e não tem herança familiar. Mastocitose cursa com flushing, prurido e triptase elevada, não com C4 baixo isolado.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as três características da urtica — edema superficial circundado por eritema, prurido, e caráter fugaz de 30 minutos a 24 horas sem lesão residual — e as três do angioedema: profundo, ardor e aperto em vez de prurido, resolução em até 72 horas. Escreva os dois eixos da classificação: 6 semanas separando aguda de crônica, e gatilho definido separando induzida de espontânea. Recite o painel da urticária crônica espontânea: hemograma, VHS e/ou PCR em todos; IgE total e IgG anti-TPO no especializado — e, na aguda, nenhum exame de rotina. Feche com os quatro números do algoritmo: dose padrão, até 4 vezes, reavaliar em 2 a 4 semanas, e UCT abaixo de 12 para subir de degrau.

em 30 dias

Sem consultar, desenhe as duas árvores. Primeira: lesão que dura mais de 24 horas, arde e deixa hiperpigmentação vai para vasculite urticariforme, com complemento e biópsia. Segunda: angioedema sem urtica e sem prurido que não responde a anti-histamínico, corticoide e adrenalina vai para bradicinina, com C4 e inibidor de C1 esterase quantitativo E funcional, mais C1q se a suspeita for adquirido. Depois escreva o algoritmo inteiro com dose: anti-H1 de 2ª geração padrão, quadruplicado, e então o patamar de segunda linha com omalizumabe 300 mg a cada 4 semanas (única recomendação forte), dupilumabe e remibrutinibe 25 mg 2x/dia ao lado, e ciclosporina 3 a 5 mg/kg/dia no degrau seguinte. Some as duas frações que justificam esse patamar: 61% não respondem à dose licenciada e 63% desses não respondem ao aumento — cerca de 38% do total. Termine pelo lado nacional: PCDT do angioedema hereditário é a Portaria SAS/MS nº 880/2016, com danazol na profilaxia; icatibanto e inibidor de C1 esterase foram incorporados em 2023 para a crise, restritos ao hospital; C1-INH subcutâneo e lanadelumabe não foram incorporados; e a farmácia básica tem um único anti-histamínico de segunda geração, a loratadina.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Treine a bifurcação numa estação: paciente com inchaço de face que já tomou anti-histamínico e corticoide sem melhora. A anamnese tem quatro perguntas que decidem tudo — houve placa que coça junto com o inchaço, quanto tempo cada episódio leva para sair, há alguém na família com o mesmo quadro, e quais medicamentos de uso contínuo estão na receita. Errar a última é o modo mais comum de perder o caso, porque o inibidor da enzima conversora costuma estar na lista há anos e o paciente não o menciona como novidade. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Urticária e angioedema — Preparatório para provas | OsceLabs