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Clínica MédicaInfectologia

HIV/aids

O tema é grande e a prova é seletiva: fechar o diagnóstico pelo fluxograma brasileiro, iniciar a terapia no mesmo dia com o esquema certo, aplicar as regras operacionais de PrEP e PEP e ler a contagem de CD4 para antecipar a oportunista.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 38 anos, HIV positivo com CD4 de 60 células/mm³ e má adesão à terapia antirretroviral, apresenta cefaleia holocraniana progressiva há 2 semanas, febre baixa e vômitos. Ao exame há rigidez de nuca discreta e confusão leve. Punção lombar mostra pressão de abertura elevada, líquor com discreta pleocitose linfocítica, hiperproteinorraquia e teste com tinta da China positivo. Qual é o agente etiológico?

02

Como esse tema cai

HIV é tema soberanamente brasileiro. O país tem programa próprio, trata todo mundo pelo SUS, distribui profilaxia pré e pós-exposição de graça e escreve tudo isso em protocolo. A banca não quer sua opinião clínica — quer saber se você conhece o documento. E como o documento é enorme, o peso da prova se concentra em quatro lugares: fechar o diagnóstico pelo fluxograma nacional, decidir quando e com o que iniciar a terapia antirretroviral, aplicar as regras operacionais de PrEP e PEP, e ler a contagem de CD4 para antecipar a infecção oportunista.

O que fica de fora, de propósito. Tuberculose tem capítulo próprio: aqui entra só o que a coinfecção muda no HIV. Sífilis na gestação e sífilis congênita também têm capítulo próprio, e a coinfecção aparece aqui apenas como rastreio obrigatório. HIV em crianças e adolescentes tem protocolo separado — o que sobra deste lado é a prevenção da transmissão vertical, que é decisão obstétrica. Manejo de falha e esquema de resgate entram no tamanho que a prova cobra: definir falha e pedir genotipagem.

Um aviso de validade, porque neste tema ele é obrigatório. Esquema preferencial, critério de PrEP e apresentação de medicamento mudam rápido, e cada número deste capítulo veio da edição vigente citada no bloco de fontes, com ano. Onde o Brasil se afasta do que as sociedades internacionais recomendam, a causa quase sempre é econômica ou de incorporação — o SUS ainda não comprou a tecnologia —, não discordância sobre a evidência. Vale a pena saber qual é a causa: ela costuma estar embutida no distrator.

03

O que muda decisão

Fechar o diagnóstico: dois testes em série e a segunda amostra

O diagnóstico brasileiro do HIV é uma sequência, não um exame. Na testagem com testes rápidos, faz-se o TR1 em amostra de sangue — polpa digital ou punção venosa. Se ele for não reagente, a amostra é liberada como não reagente, com a ressalva de que, persistindo suspeita clínica, uma nova amostra deve ser colhida trinta dias depois. Se o TR1 for reagente, faz-se um TR2 de antígenos diferentes do primeiro. Reagentes os dois, a amostra é reagente para HIV.

A ordem dos dois testes não é arbitrária: o TR1 precisa ter sensibilidade igual ou maior que a do TR2, e o TR2, especificidade igual ou maior que a do TR1 — primeiro captura, depois confirma. Quando TR1 e TR2 discordam, repete-se o fluxograma inteiro com os mesmos conjuntos e na mesma ordem; persistindo a discordância, colhe-se amostra por punção venosa e manda-se para o laboratório.

Fechado o diagnóstico com dois testes rápidos reagentes, a carga viral e o CD4 são solicitados imediatamente — e a carga viral tem aqui uma função extra: valor igual ou superior a 5.000 cópias/mL confirma a infecção. Abaixo de 5.000, considera-se a hipótese de duplo falso-reagente e parte-se para um ensaio sorológico complementar, do tipo western blot ou imunoblot.

No laboratório, o fluxograma que a prova mais cobra usa imunoensaio de quarta geração seguido de teste molecular. O ensaio de quarta geração detecta ao mesmo tempo o antígeno p24 e os anticorpos, o que encurta a janela para cerca de quinze dias, contra vinte a trinta dias dos ensaios de terceira geração. Reagente o imunoensaio e detectado o vírus em quantidade igual ou superior a 5.000 cópias/mL, a amostra é reagente.

E aí entra a regra que mais derruba gente: acima de dezoito meses de idade, o diagnóstico laboratorial só se conclui com uma segunda amostra, colhida separadamente e submetida ao primeiro teste do fluxograma. Ela não existe para confirmar a sorologia — existe para eliminar troca de amostra. Pelo mesmo motivo, quando o fluxograma de testes rápidos é feito sem a pessoa presente, com material colhido por punção venosa, também se exige segunda amostra repetindo o TR1.

Duas exclusões fecham a seção. Fluxograma com testes rápidos não serve para criança de até dezoito meses, porque o anticorpo materno atravessa a placenta e o teste dá reagente sem infecção — nessa idade o diagnóstico é molecular. E nenhum fluxograma de anticorpo serve para infecção aguda.

Infecção aguda: a única situação em que o teste rápido atrapalha

Depois da transmissão há um período de cerca de dez dias — a fase eclipse — em que nem o RNA viral aparece no plasma. Só então o vírus começa a ser detectável, e os anticorpos vêm bem depois: a janela dos imunoensaios que detectam anticorpo varia de trinta a cento e vinte dias conforme a metodologia. Entre a segunda e a quarta semana após a exposição, boa parte das pessoas faz um quadro parecido com mononucleose ou com síndrome gripal: febre, mal-estar, cefaleia, faringite, exantema, linfadenopatia, mialgia, úlceras mucocutâneas, hepatoesplenomegalia. Autolimitado, some em três a quatro semanas.

A vinheta é sempre a mesma: exposição de risco recente, síndrome febril inespecífica, teste rápido não reagente. A conduta é carga viral do HIV — pesquisa de RNA, não de anticorpo. Pedir outro teste rápido, ou repetir o mesmo, é insistir num marcador que ainda não existe.

Duas consequências práticas. Quem procura profilaxia pré-exposição com suspeita clínica de infecção aguda tem o início adiado até a definição do diagnóstico. E quem soroconverte durante ou logo após o uso de profilaxia pré-exposição tem indicação de genotipagem antes de começar a terapia, pela possibilidade de resistência a tenofovir e lamivudina.

Quando iniciar a TARV: no mesmo dia, e as duas neuroinfecções que seguram

A resposta brasileira é curta e vale a pena decorar na forma em que está escrita: a terapia antirretroviral deve ser iniciada no mesmo dia ou em até sete dias após o diagnóstico da infecção pelo HIV. Para todas as pessoas, independentemente do CD4, sintomáticas ou não. O protocolo é explícito ao dizer que a equipe precisa ter segurança para iniciar antes mesmo dos resultados de CD4 e carga viral — esses exames orientam o seguimento, não a decisão de tratar.

Isso inclui quem parece não precisar. Os chamados controladores de elite, que mantêm carga viral indetectável sem tratamento, têm indicação de terapia do mesmo jeito, pela ativação imune persistente e pelo risco de doenças não relacionadas à aids.

As exceções são neurológicas e são duas. Na meningite criptocócica, o início precoce aumenta a mortalidade: a terapia entra entre a quarta e a sexta semana depois do antifúngico, e só se houver melhora neurológica inequívoca, resolução da hipertensão intracraniana e cultura liquórica negativa. Na meningite tuberculosa, também entre a quarta e a sexta semana do tratamento da tuberculose, podendo antecipar para duas semanas onde há especialista acompanhando de perto — sobretudo com CD4 abaixo de 50 — ou estender para oito semanas onde o acesso é difícil. Em toda tuberculose do sistema nervoso central, corticoide está indicado.

Fora do sistema nervoso central, nada segura. Na tuberculose pulmonar com HIV, a terapia entra em até sete dias após o início do tratamento da tuberculose, independentemente do CD4. Na neurotoxoplasmose, em até sete dias após o início do tratamento — individualizando quando há lesão com efeito de massa ou hipertensão intracraniana. O receio de síndrome inflamatória da reconstituição imune não é motivo para adiar: o ganho de mortalidade do início precoce supera o risco.

O esquema de primeira linha e as duas substituições que a prova cobra

O esquema inicial tem três medicamentos: dois inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleos(t)ídeos mais um de outra classe, em dose única diária. O preferencial no adulto é tenofovir com lamivudina e dolutegravir. Tenofovir e lamivudina existem coformulados — a chamada dois em um — e o dolutegravir entra como comprimido separado de 50 mg.

A razão de o dolutegravir ocupar a terceira vaga é a combinação de alta barreira genética, boa tolerabilidade, supressão viral rápida e dose única diária. Foi o que tirou o efavirenz da preferência: a resistência transmitida a inibidores da transcriptase reversa não análogos de nucleosídeos no Brasil gira em torno de 5,8%, com a mutação K103N estimada entre 3,4% e 5,5% e podendo ultrapassar 10% em alguns estudos — e a Organização Mundial da Saúde orienta países acima de 10% a evitar esquemas com efavirenz.

São duas as substituições cobradas. Se há intolerância ou contraindicação ao dolutegravir, troca-se por darunavir 800 mg potencializado com ritonavir 100 mg em dose única diária, ou por efavirenz — este último preferencialmente quando há possibilidade de genotipagem que comprove sensibilidade, sem que a espera do resultado atrase o início. Se há intolerância ou contraindicação ao tenofovir, troca-se por abacavir, desde que o teste do alelo HLA-B*5701 seja negativo, ou por zidovudina.

As armadilhas moram nas notas de rodapé. O tenofovir é contraindicado com doença renal prévia, disfunção renal aguda ou filtração glomerular estimada abaixo de 60 mL/min. O abacavir exige cautela em alto risco cardiovascular, e a associação abacavir com lamivudina e efavirenz é contraindicada com carga viral acima de 100.000 cópias/mL. E, se há hepatite B ativa e o tenofovir precisa sair, o substituto tem de ser outra droga com atividade contra o vírus da hepatite B — tenofovir alafenamida ou entecavir — sob pena de reativação.

A genotipagem antes de tratar não é para todo mundo. Está indicada em cinco situações: quem se infectou com parceria em uso atual ou prévio de terapia antirretroviral, gestantes, crianças e adolescentes, pessoas com coinfecção tuberculose-HIV e pessoas com uso de profilaxia pré-exposição durante ou após o provável período de infecção. Em nenhuma delas se espera o resultado para começar.

TB-HIV: a rifampicina dobra o dolutegravir

As rifamicinas induzem o metabolismo dos inibidores de protease e do dolutegravir. A consequência para os inibidores de protease é radical: toda a classe é contraindicada em quem usa rifampicina. Para o dolutegravir, a saída é farmacocinética — 50 mg de doze em doze horas devolve níveis séricos equivalentes aos obtidos sem rifampicina.

O esquema preferencial da coinfecção, então, é tenofovir 300 mg com lamivudina 300 mg uma vez ao dia mais dolutegravir 50 mg de doze em doze horas. A dose dobrada não termina junto com a rifampicina: mantém-se por mais quinze dias depois do fim do tratamento da tuberculose, porque a indução enzimática ainda leva um tempo para desaparecer.

A alternativa é o comprimido três em um de tenofovir, lamivudina e efavirenz 600 mg, uma vez ao dia, sem ajuste de dose — a rifampicina reduz a concentração do efavirenz, mas sem impacto clínico. Como a coinfecção é uma das indicações de genotipagem antes de tratar, o efavirenz permanece utilizável onde o teste pode ser feito; terminado o tratamento da tuberculose, reavalia-se a troca por dolutegravir.

O tratamento da tuberculose em si não muda por causa do HIV e tem capítulo próprio. O que muda é a vigilância: consultas mais frequentes, pelo risco somado de interação, toxicidade e síndrome inflamatória da reconstituição imune.

Gestante: mesma espinha dorsal, três decisões obstétricas

A terapia da gestante que vive com HIV segue a mesma escolha do adulto — tenofovir com lamivudina mais dolutegravir —, e a incorporação do dolutegravir uniformizou o país: hoje ele compõe o esquema preferencial em qualquer idade gestacional, inclusive no primeiro trimestre e no período periconcepcional. Toda gestante tem indicação de genotipagem antes de tratar, e nenhuma espera o resultado para começar.

O laboratório do pré-natal tem três marcos. Carga viral na primeira consulta. Nova carga viral duas a quatro semanas depois de iniciar ou modificar a terapia, procurando queda de pelo menos 1 log. E carga viral a partir da 34ª semana em todas — é ela que decide as duas condutas seguintes.

Via de parto: com carga viral desconhecida ou acima de 1.000 cópias/mL depois da 34ª semana, a cesárea eletiva a partir da 38ª semana reduz a transmissão vertical. Abaixo de 1.000 cópias/mL, o parto vaginal é a via indicada se não houver indicação obstétrica de cesárea — abaixo desse valor a cesariana deixa de reduzir transmissão e passa a somar morbidade.

Zidovudina intravenosa: indicada quando a carga viral é desconhecida ou detectável a partir da 34ª semana, ou quando há histórico de má adesão mesmo com carga indetectável. Administra-se no início do trabalho de parto, ou pelo menos três horas antes da cesárea eletiva, até o clampeamento do cordão. Repare no encaixe: carga viral abaixo de 1.000 mas ainda detectável dá parto vaginal e, ainda assim, zidovudina intravenosa.

Depois do parto, a amamentação é contraindicada — a terapia materna não impede a eliminação do vírus pelo leite. Inibe-se a lactação com cabergolina e garante-se fórmula láctea infantil até pelo menos os seis meses. Aleitamento misto, aleitamento cruzado e leite humano com pasteurização domiciliar são igualmente proibidos. A criança recebe profilaxia antirretroviral iniciada o mais precocemente possível, nas primeiras horas de vida.

Seguimento: a carga viral manda e o CD4 se aposenta

Iniciado o tratamento, o exame que governa é a carga viral. Ela é pedida oito semanas após o início da terapia ou após a troca de esquema, para confirmar resposta; a cada seis meses em quem está suprimido e estável; e quatro semanas depois de uma primeira carga viral detectável, para confirmar falha. As consultas médicas, em pessoa suprimida e assintomática, podem ir a intervalos de até seis meses.

O CD4 tem periodicidade própria e, em quem vai bem, tem data de validade. Em pessoa em terapia antirretroviral, assintomática e com carga viral indetectável: abaixo de 350 células/mm³, a cada seis meses; entre 350 e 500, anualmente; acima de 500 em dois exames consecutivos separados por pelo menos seis meses, não se solicita mais. Fora desse cenário as regras mudam — sem terapia, em falha virológica ou diante de evento clínico, o CD4 é semestral; com profilaxia em curso ou infecção oportunista presente, trimestral.

Vale o detalhe que a prova gosta: pessoas esplenectomizadas e parte das que têm coinfecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas podem ter o valor absoluto de CD4 superestimado — nesses casos o parâmetro a avaliar é o percentual, que permanece estável. Flutuações isoladas de CD4 não têm relevância clínica.

Supressão virológica, para efeito de laudo, é o resultado expresso como 'inferior ao limite mínimo' ou 'não detectado' — os testes de rotina detectam entre 20 e 50 cópias/mL, e qualquer dos dois resultados indica sucesso do esquema em uso.

I = I: o número que sustenta a frase

Indetectável igual a intransmissível não é slogan, é desfecho de coorte. Os estudos de casais sorodiferentes não identificaram nenhuma transmissão por pessoas em tratamento com carga viral plasmática abaixo de 200 cópias/mL mantida por pelo menos seis meses. É desses dois números — 200 cópias e seis meses — que a frase nasce.

Uma revisão sistemática posterior, com 7.700 casais sorodiferentes de 25 países, confirmou risco zero de transmissão sexual com carga viral abaixo de 200 cópias/mL. Das 323 transmissões identificadas no conjunto dos estudos, apenas duas ocorreram com carga viral entre 200 e 1.000 cópias/mL. A edição brasileira de 2024 vai um passo além e registra que as evidências atuais não mostram transmissão sexual com carga viral abaixo de 600 cópias/mL.

Duas fronteiras que a questão explora. Primeira: o enunciado do I = I é sobre transmissão sexual — não cobre compartilhamento de agulhas, não cobre transmissão vertical e não libera amamentação. Segunda: quem não atinge supressão precisa ser informado sobre preservativo e sobre a possibilidade de profilaxia pré-exposição para a parceria. Períodos de não adesão devolvem o risco, e vírus resistente também se transmite.

Falha virológica: 200 cópias confirmadas, e a genotipagem

Falha da terapia é ausência de supressão após seis meses de uso, ou rebote depois de um período de supressão. Falha virológica tem número: carga viral confirmada acima de 200 cópias/mL. Confirmada — um exame isolado detectável entre exames indetectáveis é um blip, não representa falha e em geral não prenuncia falha. Viremia baixa persistente é outra história e pode refletir resistência emergindo.

A causa principal é sempre a mesma: não adesão. Adesão irregular mantém níveis séricos insuficientes, que exercem pressão seletiva e selecionam resistência — e a resistência adquirida passa a causar a falha mesmo depois que a pessoa volta a tomar corretamente. Resistência transmitida, identificável na genotipagem antes de tratar, é causa bem menos comum.

Confirmada a falha, pede-se genotipagem — para toda falha virológica — e monta-se o esquema de resgate com apoio de médico de referência em genotipagem, o mais rapidamente possível, porque viremia persistente acumula mutação. Uma limitação operacional aparece na prova: com carga viral abaixo de 500 cópias/mL o teste de genotipagem tem restrições técnicas, embora a faixa entre 200 e 500 já configure falha.

E o contrário também cai: infecção oportunista em quem está com carga viral indetectável não é falha da terapia. É recuperação imunológica insuficiente, falha de profilaxia ou síndrome inflamatória da reconstituição imune — e raramente indica trocar o esquema. O critério que define falha é o virológico.

PrEP: quem, com o quê e quanto tempo até proteger

A profilaxia pré-exposição disponível no SUS é a associação em dose fixa de tenofovir desoproxila 300 mg com entricitabina 200 mg, por via oral. Desde 2022 ela deixou de ser restrita a populações-chave: pode ser indicada a qualquer pessoa a partir de 15 anos e com pelo menos 35 kg que esteja em contexto de vulnerabilidade para adquirir o HIV. Pertencer a um segmento populacional não basta para caracterizar vulnerabilidade, e não pertencer não exclui — o critério é a prática, a parceria e o contexto.

Só dois critérios excluem de saída: teste de HIV reagente e depuração de creatinina estimada abaixo de 60 mL/min. Antes de começar, pedem-se teste de HIV, teste de sífilis, pesquisa molecular de clamídia e gonococo no sítio correspondente à prática sexual, HBsAg com anti-HBc total, anti-HCV e creatinina com cálculo da depuração; oferecem-se vacinas de hepatite A, hepatite B e HPV. Buscar profilaxia pós-exposição mais de uma vez em doze meses é, por si só, porta de entrada para a profilaxia pré-exposição.

O início é no mesmo dia da testagem sempre que possível, com prazo máximo de sete dias. No esquema diário são dois comprimidos no primeiro dia e um por dia depois. O tempo até a proteção segura depende da via de exposição e do uso de hormônio: 7 dias para mulheres cis, pessoas trans designadas do sexo feminino ao nascer e qualquer pessoa em uso de estradiol; 2 horas para homens cis, pessoas não binárias designadas do sexo masculino ao nascer e travestis e mulheres trans que não usam estradiol. A interrupção segura espelha esses números: mais 7 dias ou mais 2 dias depois da última prática sexual.

A adesão mínima também é por grupo — pelo menos 6 comprimidos por semana no primeiro grupo, pelo menos 4 no segundo. Quem tem hepatite B crônica usa a modalidade diária, com ou sem indicação de antiviral, porque o uso intermitente do tenofovir pode induzir resistência do vírus da hepatite B.

A modalidade sob demanda — esquema 2 + 1 + 1, também chamada de orientada por evento — é a que mais aparece em prova e tem regra dupla. O grupo elegível são homens cis heterossexuais, bissexuais, gays e outros homens cis que fazem sexo com homens, pessoas não binárias designadas do sexo masculino ao nascer e travestis e mulheres trans que não estejam em uso de estradiol. Além de pertencer ao grupo, a pessoa precisa habitualmente ter relações sexuais menos de duas vezes por semana e conseguir planejar o uso pelo menos duas horas antes. A posologia é 2 comprimidos de 2 a 24 horas antes da relação, 1 comprimido 24 horas depois da dose inicial e 1 comprimido 24 horas depois desse. Se houver nova relação no dia seguinte, mantém-se 1 comprimido por dia até 48 horas após o último evento; se passar mais de um dia sem comprimido, reinicia-se o 2 + 1 + 1. Não há evidência de proteção para relação neovaginal receptiva, de modo que a indicação vale para sexo anal, insertivo ou receptivo, e vaginal insertivo.

O seguimento é o mesmo nas duas modalidades: teste de HIV um mês depois do início e daí em diante a cada consulta, que passa a ser quadrimestral; sífilis quadrimestral; clamídia e gonococo semestrais; hepatite B anual e hepatite C quadrimestral conforme a avaliação inicial; teste de gravidez quadrimestral. A função renal é reavaliada a cada 12 meses em quem tem menos de 50 anos, sem comorbidade e com depuração inicial igual ou acima de 90 mL/min, e a cada 6 meses em quem tem mais de 50 anos, comorbidade como hipertensão ou diabetes, ou depuração inicial abaixo de 90. A primeira dispensação cobre 30 dias; depois, 90 ou 120 dias. Passado um ano de uso sem descontinuidade, o seguimento pode ir a seis meses.

PEP: 72 horas, 28 dias e o retorno em 30

A profilaxia pós-exposição é atendimento de urgência. Deve ser iniciada o mais precocemente possível, e o limite é 72 horas depois da exposição de risco — não há benefício de antirretroviral depois disso. A avaliação começa por definir se houve exposição com risco: material biológico de risco, via de exposição de risco, tempo abaixo de 72 horas e pessoa exposta com teste não reagente. Pele íntegra e mordedura sem sangue são exposições sem risco de transmissão do HIV.

O esquema preferencial é tenofovir 300 mg com lamivudina 300 mg, um comprimido por dia, mais dolutegravir 50 mg, um comprimido por dia, por 28 dias — o mesmo trio da primeira linha de tratamento. Sem tenofovir, usa-se zidovudina com lamivudina duas vezes ao dia mais dolutegravir. Sem dolutegravir, tenofovir com lamivudina mais darunavir com ritonavir. Em uso de anticonvulsivante indutor, como fenitoína, carbamazepina ou fenobarbital, o dolutegravir vai a 50 mg de doze em doze horas. Em gestante, o preferencial leva dolutegravir em qualquer idade gestacional.

A testagem no primeiro atendimento é com teste rápido e não pode atrasar a primeira dose. O seguimento laboratorial pede teste de HIV no primeiro atendimento, na 4ª e na 12ª semana após o início da profilaxia. Além disso, toda pessoa exposta é orientada a repetir a testagem 30 dias depois da exposição, mesmo tendo completado os 28 dias de medicamento.

O que muda entre os cenários não é o antirretroviral — é o pacote em volta. Na exposição sexual consentida, avalia-se profilaxia pré-exposição na sequência: quem procura a pós-exposição repetidamente sinaliza exposição recorrente, e a transição para a profilaxia pré-exposição é feita depois dos 28 dias, com nova testagem. Na violência sexual somam-se profilaxia medicamentosa das outras infecções sexualmente transmissíveis, anticoncepção de emergência com levonorgestrel, vacina e imunoglobulina de hepatite B conforme o status vacinal, e o cuidado próprio do atendimento à violência. Na exposição ocupacional, acrescenta-se a avaliação da pessoa-fonte — incluindo genotipagem dela se houver resultado dos últimos 12 meses — e o trabalho sobre as condições do acidente.

Quando a pessoa chega depois das 72 horas, a profilaxia não está mais indicada, mas o atendimento não acaba: testa-se para HIV, sífilis e hepatites B e C, pesquisa-se gonococo e clamídia (exceto em acidente com material biológico), vacina-se quando indicado, trata-se o que aparecer, oferece-se anticoncepção de emergência e avalia-se indicação de profilaxia pré-exposição.

Oportunistas por CD4: o que investigar antes de aparecer

A contagem de CD4 é o principal parâmetro para iniciar e suspender profilaxia, e o capítulo de profilaxia do protocolo se resume a quatro cortes. Abaixo de 350, tratamento preventivo da tuberculose para todos, sem necessidade de prova tuberculínica ou IGRA — esses dois exames ficam reservados a quem tem CD4 acima de 350. Abaixo de 200, profilaxia primária de pneumocistose e rastreio de doença criptocócica. Abaixo de 100, profilaxia primária de toxoplasmose e fundoscopia de rotina. Abaixo de 50, profilaxia de micobactérias não tuberculosas enquanto a terapia antirretroviral não começou.

A profilaxia de pneumocistose é sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg, um comprimido três vezes por semana, e a indicação não é só numérica: CD4 abaixo de 200 ou menos de 14%, ou candidíase oral, ou febre de origem indeterminada por mais de duas semanas, ou doença definidora de aids. Suspende-se com boa resposta à terapia e CD4 acima de 200 por mais de três meses, e reintroduz-se se cair abaixo de 200 de novo.

A profilaxia de toxoplasmose é o mesmo medicamento em dose diária, com CD4 abaixo de 100 — e por isso ela cobre a pneumocistose junto. O critério de suspensão é o mesmo, CD4 acima de 200 por mais de três meses; a diferença está na reintrodução, que aqui volta quando o CD4 cai abaixo de 100. Guardar essa assimetria resolve boa parte das questões de profilaxia: para de dosar o mesmo acima de 200, mas volta em 200 na pneumocistose e em 100 na toxoplasmose.

Para criptococose não existe profilaxia primária — o que existe é rastreio. Toda pessoa com CD4 igual ou inferior a 200 e sem histórico de meningite criptocócica coleta o teste de fluxo lateral para antígeno criptocócico, preferencialmente em soro ou plasma. Antígeno reagente sem meningite confirmada leva a tratamento preemptivo com fluconazol 800 mg/dia por duas semanas seguidas de 400 mg/dia por oito semanas, e a terapia antirretroviral pode entrar depois das duas primeiras semanas de antifúngico. O rastreio existe porque o antígeno no sangue precede as manifestações neurológicas em semanas a meses.

Para tuberculose, o teste de fluxo lateral para lipoarabinomanano na urina entrou como rastreio em assintomático: com CD4 igual ou inferior a 100 no ambulatório, com CD4 igual ou inferior a 200 na internação, e sempre que houver sintomas ou pessoa gravemente doente, independentemente do CD4. Resultado reagente manda tratar tuberculose mesmo em assintomático, complementando a investigação com teste rápido molecular ou baciloscopia.

Neurotoxoplasmose, criptococose e pneumocistose: só o que muda conduta

A toxoplasmose cerebral é a causa mais comum de lesão expansiva cerebral em pessoas vivendo com HIV e aparece com CD4 abaixo de 200. O diagnóstico definitivo exigiria confirmação histopatológica, e por isso a regra é tratar empiricamente diante do quadro clínico e radiológico compatível. Uma sorologia IgG anti-Toxoplasma não reagente torna o diagnóstico improvável — é o exame que serve para afastar, não para confirmar. O tratamento dura seis semanas, com sulfadiazina mais pirimetamina e ácido folínico, ou com sulfametoxazol-trimetoprima 25 mg/kg de sulfametoxazol duas vezes ao dia; depois entra manutenção com metade da dose. Corticoide só quando há edema difuso ou efeito de massa importante, e anticonvulsivante profilático não está indicado.

Na meningite criptocócica, o que mata nas duas primeiras semanas é a hipertensão intracraniana, não o fungo. A pressão de abertura liquórica deve ser sempre aferida; acima de 25 cmH₂O com sinais de hipertensão, faz-se punção lombar de alívio retirando 20 a 30 mL de líquor, repetindo diariamente até estabilizar. O tratamento tem três fases: indução com anfotericina B lipossomal 3 mg/kg/dia mais flucitosina 100 mg/kg/dia por pelo menos duas semanas; consolidação com fluconazol 400 a 800 mg/dia por pelo menos oito semanas; manutenção com fluconazol 200 mg/dia por pelo menos seis a doze meses, até CD4 acima de 200 e carga viral indetectável. A terapia antirretroviral entra entre a quarta e a sexta semana.

A pneumocistose é a doença pulmonar oportunista mais comum abaixo de 200 células/mm³. O quadro é insidioso: febre, tosse seca e dispneia progressiva. O detalhe que decide conduta é o corticoide — indicado quando a PaO₂ está abaixo de 70 mmHg em ar ambiente ou o gradiente alvéolo-arterial está acima de 35 mmHg, com prednisona 40 mg duas vezes ao dia por cinco dias, reduzida à metade a cada cinco dias, até completar 21 dias. Depois do tratamento, profilaxia secundária com sulfametoxazol-trimetoprima até CD4 acima de 200 por pelo menos três meses.

Ressonância magnética cerebral axial com múltiplas lesões de realce anelar e edema, ao lado de microscopia em tinta da China com leveduras encapsuladas e brotamento de base estreita.
As duas neuroinfecções que competem no mesmo paciente com CD4 baixo: lesões múltiplas com realce anelar e efeito de massa apontam para toxoplasmose cerebral; leveduras encapsuladas no líquor apontam para criptococose, em que a terapia antirretroviral é adiada.

SIRI: quando suspeitar e o que não fazer

A síndrome inflamatória da reconstituição imune é o preço ocasional de uma terapia que está funcionando. Aparece como piora paradoxal de doença preexistente ou como doença que só se manifesta clinicamente depois que a imunidade voltou — daí a distinção entre a forma paradoxal, quando a infecção já era conhecida e piora, e a desmascarada, quando ela aparece pela primeira vez.

A suspeita combina cinco achados: piora de doença reconhecida ou nova manifestação após o início da terapia; CD4 abaixo de 100 células/mm³ antes de iniciar ou modificar o esquema; relação temporal, geralmente dentro de quatro a oito semanas do início; presença de resposta imunológica, virológica ou ambas; e exclusão de falha de tratamento, efeito adverso ou superinfecção. Repare no que isso significa: o CD4 subindo e a carga viral caindo não afastam o diagnóstico — são parte dele.

O que não fazer tem duas partes. A primeira é não suspender a terapia antirretroviral: a resolução costuma ser espontânea, o manejo é sintomático e a suspensão só se considera em casos graves, particularmente nas neuroinfecções por tuberculose e criptococo. Nos quadros intensos entra corticoide — prednisona 0,5 a 1,5 mg/kg/dia por uma a duas semanas com retirada gradual —, com uma exceção nomeada: no sarcoma de Kaposi o corticoide não deve ser usado.

A segunda parte é não adiar o início da terapia por medo da síndrome. O protocolo diz isso com todas as letras, e a lógica é aritmética: o benefício de mortalidade do início precoce supera o risco de um fenômeno que, na maioria das vezes, se maneja.

Radiografia PA e tomografia axial de tórax com opacidades bilaterais simétricas peri-hilares e extensas áreas em vidro fosco, sem derrame pleural.
Pneumocistose: a radiografia e a tomografia mostram acometimento bilateral difuso, frequentemente peri-hilar e em vidro fosco. A gasometria, porém, é que decide o corticoide associado: PaO₂ abaixo de 70 mmHg em ar ambiente ou gradiente alvéolo-arterial acima de 35 mmHg.
04

A escada do CD4, as profilaxias e as duas prevenções que se confundem

O fluxo abaixo percorre o caminho do primeiro teste até o seguimento estabelecido. Os cards destrincham a única escala verdadeiramente ordinal do tema — a contagem de CD4, que é o que decide o que investigar antes de aparecer. A primeira tabela liga cada faixa às doenças que ela abre; a segunda fecha as profilaxias primárias com os cortes de início e de suspensão; a terceira separa profilaxia pré-exposição de profilaxia pós-exposição item a item, que é onde a troca de números costuma acontecer.

  1. 1Teste rápido 1 em amostra de sangue. Não reagente encerra como amostra não reagente — persistindo suspeita, nova amostra em 30 dias. Reagente segue para o teste rápido 2, de antígenos diferentes.
  2. 2Dois testes rápidos reagentes fecham amostra reagente para HIV. Solicite carga viral e CD4 imediatamente: carga viral igual ou superior a 5.000 cópias/mL confirma. Testes discordantes fazem repetir o fluxograma e, persistindo, ir para o laboratório por punção venosa.
  3. 3Suspeita de infecção aguda com teste de anticorpo não reagente: peça carga viral. Nenhum fluxograma de anticorpo serve aqui, e nenhum deles serve em criança de até 18 meses.
  4. 4Primeira consulta: história, exame físico, hemograma, glicemia, lipídios, função hepática e renal, urina, teste de sífilis, hepatites virais, IgG para toxoplasmose, radiografia de tórax, rastreio de tuberculose e — conforme o CD4 ou o estágio clínico — lipoarabinomanano na urina e antígeno criptocócico.
  5. 5Inicie tenofovir/lamivudina mais dolutegravir no mesmo dia ou em até 7 dias, sem esperar CD4, carga viral ou genotipagem. Segure apenas diante de meningite criptocócica ou meningite tuberculosa.
  6. 6Ajuste pelo cenário: rifampicina em uso leva dolutegravir a 50 mg de 12 em 12 horas, mantidos por mais 15 dias depois do fim da rifampicina; tenofovir contraindicado leva a abacavir com HLA-B*5701 negativo ou a zidovudina; dolutegravir contraindicado leva a darunavir/ritonavir ou efavirenz.
  7. 7Ligue as profilaxias pela contagem de CD4 e registre os critérios de suspensão junto — a data de parar é tão cobrada quanto a de começar.
  8. 8Carga viral em 8 semanas para confirmar resposta e depois a cada 6 meses. Carga viral detectável isolada não é falha: confirme em 4 semanas. Acima de 200 cópias confirmadas, é falha virológica e vai para genotipagem.
  9. 9CD4 conforme a faixa: semestral abaixo de 350, anual entre 350 e 500, e encerrado acima de 500 em dois exames consecutivos separados por pelo menos 6 meses, em pessoa assintomática, em terapia e com carga viral indetectável.

Acima de 500 células/mm³

Reserva imune preservada. Nenhuma profilaxia primária de infecção oportunista está indicada, e a prova tuberculínica ou o IGRA voltam a fazer sentido — abaixo de 350 eles são dispensados porque a indicação de tratar a infecção latente já existe de qualquer forma. É também a faixa em que o próprio CD4 deixa de ser exame de rotina: em pessoa assintomática, em terapia antirretroviral e com carga viral indetectável, dois resultados consecutivos acima de 500, separados por pelo menos seis meses, encerram a solicitação.

Entre 350 e 500 células/mm³

Ainda sem profilaxia primária. O CD4 passa a ser anual em quem está em terapia antirretroviral, assintomático e com carga viral indetectável. É a faixa em que o risco de tuberculose já sobe sem que nada mais tenha aparecido, e por isso a investigação de tuberculose ativa é obrigatória em toda consulta, com os quatro sintomas de rastreio.

Entre 200 e 350 células/mm³

Corte do tratamento preventivo da tuberculose: toda pessoa vivendo com HIV com CD4 igual ou inferior a 350 tem indicação de tratar a infecção latente, sem precisar de prova tuberculínica nem de IGRA — basta excluir doença ativa. O CD4 volta a ser semestral. A candidíase orofaríngea costuma aparecer por aqui e, mesmo com CD4 acima de 200, ela sozinha já indica profilaxia de pneumocistose.

Abaixo de 200 células/mm³

A faixa que abre a maior parte das doenças definidoras de aids. Começa a profilaxia primária de pneumocistose com sulfametoxazol-trimetoprima três vezes por semana. Entra o rastreio de doença criptocócica com o teste de fluxo lateral para antígeno criptocócico em quem nunca teve meningite por criptococo. É a faixa da pneumocistose e da toxoplasmose cerebral, e a do teste de lipoarabinomanano na urina para rastreio de tuberculose em pessoa internada, mesmo assintomática.

Abaixo de 100 células/mm³

Acrescenta a profilaxia primária de toxoplasmose — o mesmo sulfametoxazol-trimetoprima, agora em dose diária, o que faz a profilaxia de pneumocistose vir de carona. O rastreio de tuberculose com lipoarabinomanano na urina passa a valer também no ambulatório, em pessoa assintomática. Entra a fundoscopia de rotina para detectar retinite por citomegalovírus antes que ela cegue. É também o corte que aparece nos critérios de suspeita de síndrome inflamatória da reconstituição imune.

Abaixo de 50 células/mm³

Imunodepressão profunda. Indica-se profilaxia primária de micobactérias não tuberculosas com azitromicina semanal enquanto a terapia antirretroviral ainda não foi iniciada — e ela se suspende assim que a terapia começa. É a faixa da doença de órgão por citomegalovírus e a de maior mortalidade precoce, em que a introdução rápida da terapia antirretroviral reduz óbito mesmo custando mais síndrome inflamatória da reconstituição imune.

Faixa de CD4O que passa a ser possívelO que o protocolo manda fazer nessa faixa
Acima de 350 células/mm³Tuberculose pulmonar, pneumonias bacterianas, herpes-zóster, tuberculose extrapulmonar — o risco de tuberculose já é maior que o da população geral em qualquer contagem.Prova tuberculínica ou IGRA fazem sentido aqui e só aqui; positivos (prova tuberculínica igual ou maior que 5 mm), indicam tratamento preventivo. Rastreio de tuberculose ativa em toda consulta.
Igual ou abaixo de 350 células/mm³Tuberculose com apresentações atípicas e extrapulmonares, candidíase orofaríngea recorrente.Tratamento preventivo da tuberculose indicado para todos, sem prova tuberculínica nem IGRA, depois de excluída doença ativa. CD4 semestral.
Igual ou abaixo de 200 células/mm³Pneumocistose, toxoplasmose cerebral, criptococose, candidíase esofágica, leucoencefalopatia multifocal progressiva.Profilaxia primária de pneumocistose com sulfametoxazol-trimetoprima três vezes por semana. Rastreio de doença criptocócica com antígeno criptocócico em quem nunca teve meningite. Lipoarabinomanano na urina em pessoa internada assintomática.
Abaixo de 100 células/mm³Toxoplasmose cerebral com maior frequência, criptococose disseminada, retinite por citomegalovírus, histoplasmose disseminada.Profilaxia primária de toxoplasmose com sulfametoxazol-trimetoprima em dose diária — que cobre a pneumocistose junto. Fundoscopia de rotina. Lipoarabinomanano na urina em assintomático também no ambulatório.
Abaixo de 50 células/mm³Doença de órgão por citomegalovírus, micobactérias não tuberculosas disseminadas, formas graves e disseminadas de qualquer oportunista.Profilaxia primária de micobactérias não tuberculosas com azitromicina semanal enquanto a terapia antirretroviral não começou, suspensa assim que ela começa. Início rápido da terapia reduz mortalidade.

Profilaxia primária: o corte que começa e o corte que para

AgenteQuando iniciarPrimeira escolhaQuando suspender e quando reintroduzir
Pneumocystis jiroveciiCD4 abaixo de 200 células/mm³ ou abaixo de 14%, ou candidíase oral, ou febre de origem indeterminada por mais de duas semanas, ou doença definidora de aids.Sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg, 1 comprimido, três vezes por semana.Suspende com boa resposta à terapia e CD4 acima de 200 por mais de 3 meses. Reintroduz se o CD4 cair abaixo de 200.
Toxoplasma gondiiCD4 abaixo de 100 células/mm³.Sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg, 1 comprimido, uma vez ao dia — cobre a pneumocistose junto.Suspende com boa resposta à terapia e CD4 acima de 200 por mais de 3 meses. Reintroduz se o CD4 cair abaixo de 100.
Micobactérias não tuberculosasCD4 abaixo de 50 células/mm³ com terapia antirretroviral ainda não iniciada.Azitromicina 1.250 a 1.500 mg por semana.Suspende após o início da terapia antirretroviral.
Histoplasma capsulatumCD4 abaixo de 150 células/mm³ em área hiperendêmica, ou atividade ocupacional de risco.Itraconazol 200 mg por dia.Suspende com boa resposta à terapia, CD4 igual ou acima de 150 e carga viral indetectável por 6 meses.
Cryptococcus sp.Não existe profilaxia primária. O que existe é rastreio com antígeno criptocócico em CD4 igual ou inferior a 200 sem meningite prévia.Antígeno reagente sem meningite: fluconazol 800 mg/dia por 2 semanas e 400 mg/dia por 8 semanas (tratamento preemptivo).Terapia antirretroviral pode entrar após as duas primeiras semanas de antifúngico no tratamento preemptivo.
CitomegalovírusNão existe profilaxia primária.Fundoscopia de rotina com CD4 abaixo de 100 células/mm³, para detectar retinite antes da perda visual.Não se aplica.

PrEP × PEP: item a item, onde os números trocam de lugar

ItemProfilaxia pré-exposiçãoProfilaxia pós-exposição
MomentoAntes da exposição, de forma continuada ou orientada por evento. Início preferencialmente no mesmo dia da testagem, com prazo máximo de 7 dias.Depois da exposição. Urgência: o mais precoce possível, com limite de 72 horas. Passadas as 72 horas, não está mais indicada.
MedicamentoTenofovir desoproxila 300 mg com entricitabina 200 mg, dose fixa combinada, por via oral. Duas drogas.Tenofovir 300 mg com lamivudina 300 mg mais dolutegravir 50 mg. Três drogas — o mesmo trio da primeira linha de tratamento.
DuraçãoEnquanto durar o contexto de vulnerabilidade. Interrupção segura exige mais 7 dias ou mais 2 dias após a última prática, conforme o grupo.28 dias, sempre.
Quem podeA partir de 15 anos e 35 kg, em contexto de vulnerabilidade. Exclui teste de HIV reagente e depuração de creatinina abaixo de 60 mL/min.Qualquer pessoa exposta com risco, com teste de HIV não reagente, dentro de 72 horas. Sexual consentida, violência sexual ou acidente com material biológico.
Testagem de seguimentoTeste de HIV 1 mês após o início e depois a cada consulta, quadrimestral.Teste de HIV no primeiro atendimento, na 4ª e na 12ª semana após o início — e repetição 30 dias após a exposição, mesmo tendo completado a profilaxia.
O elo entre as duasBuscar profilaxia pós-exposição mais de uma vez em 12 meses é indicação de avaliar profilaxia pré-exposição.Terminados os 28 dias, com nova testagem, faz-se a transição para profilaxia pré-exposição em quem tem indicação.

Os cortes de suspensão de profilaxia primária de pneumocistose e de toxoplasmose são o mesmo número — CD4 acima de 200 por mais de três meses —, mas os de reintrodução são diferentes: 200 para pneumocistose e 100 para toxoplasmose. É a assimetria mais cobrada da tabela.

A tabela de faixas descreve risco, não certeza. Pneumocistose com CD4 acima de 200 existe, e a própria indicação de profilaxia contempla isso ao aceitar candidíase oral e febre indeterminada prolongada como gatilho, independentemente da contagem.

Nenhum critério de profilaxia usa carga viral. Quem decide profilaxia é o CD4; quem decide eficácia do tratamento é a carga viral. Trocar os dois papéis é a raiz de boa parte dos erros no tema.

O tratamento preventivo da tuberculose tem esquema próprio e capítulo próprio; aqui entra apenas o gatilho — CD4 igual ou inferior a 350 dispensa prova tuberculínica e IGRA, desde que a doença ativa esteja excluída.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Profilaxia pré-exposição sob demanda (2 + 1 + 1): para quem ela vale

Grupo elegível ampliado, com dois critérios operacionais — PCDT de PrEP Oral do Ministério da Saúde, 2025

O protocolo brasileiro estende a modalidade sob demanda a homens cis heterossexuais, bissexuais, gays e outros homens cis que fazem sexo com homens, a pessoas não binárias designadas do sexo masculino ao nascer e a travestis e mulheres trans que não usem hormônio à base de estradiol. E acrescenta duas condições que não são de identidade e sim de rotina: ter habitualmente relações sexuais com frequência inferior a duas vezes por semana e conseguir planejar o uso com pelo menos duas horas de antecedência. Quem pertence ao grupo mas tem prática sexual mais frequente segue na modalidade diária. O documento registra ainda que os estudos não demonstram proteção para relação neovaginal receptiva.

Ministério da Saúde. PCDT para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) Oral à Infecção pelo HIV, 2025, item 7.2.2 e Quadro 4.

Opção para homens que fazem sexo com homens, sem teto de frequência — Organização Mundial da Saúde, informe técnico de 2019

A atualização da OMS que introduziu o esquema orientado por evento o formula como opção adicional de dosagem para homens que fazem sexo com homens, e é sobre essa população que a evidência foi construída. O informe não condiciona a indicação a um número máximo de relações por semana: a escolha entre o uso diário e o orientado por evento é tratada como preferência e previsibilidade do próprio usuário. Nem a OMS nem o Brasil estendem a modalidade a mulheres cis ou a quem usa hormônio à base de estradiol — nesse ponto os dois documentos coincidem.

World Health Organization. What's the 2+1+1? Event-driven oral pre-exposure prophylaxis to prevent HIV for men who have sex with men: update to WHO's recommendation on oral PrEP, 2019.

Na prova

Os dois corpos concordam no essencial — o esquema é 2 comprimidos de 2 a 24 horas antes, 1 em 24 horas e mais 1 em 24 horas, e não se aplica a mulheres cis nem a quem usa estradiol. A diferença está nos dois filtros operacionais brasileiros. Uma vinheta ambientada em serviço do SUS, unidade dispensadora, formulário de PrEP ou teleatendimento está no recorte nacional, e nele a frequência sexual e a capacidade de planejamento aparecem entre as alternativas. Enunciado que cita nominalmente a OMS, ou que se passa em contexto internacional, tende a cobrar apenas a população-alvo e a posologia. Nas alternativas, o distrator que denuncia o recorte é o que oferece o 2 + 1 + 1 a uma mulher cis: ele está fora dos dois mundos.

Até quando dosar CD4 em quem está com carga viral indetectável

Encerra a solicitação acima de 500 células/mm³ em dois exames — PCDT de Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 1, Ministério da Saúde, 2024

O protocolo brasileiro escalona por faixa: abaixo de 350, a cada seis meses; entre 350 e 500, anualmente; acima de 500 em dois exames consecutivos separados por pelo menos seis meses, não se solicita mais. A condição é ser pessoa assintomática, em terapia antirretroviral e com carga viral indetectável. Fora disso — sem terapia, em falha virológica, diante de evento clínico — o CD4 volta a ser semestral, e trimestral se há profilaxia em curso ou infecção oportunista presente.

Ministério da Saúde. PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 1 — Tratamento, 2024, item 7.2.1 e Quadro 8.

Torna o CD4 opcional já em 300 células/mm³, após um a dois anos de supressão — diretriz norte-americana de antirretrovirais para adultos e adolescentes (DHHS/NIH)

A diretriz norte-americana formula o desfecho de outro jeito: após um a dois anos de terapia supressiva, o monitoramento pode ser reduzido para cada seis meses em quem mantém CD4 abaixo de 300 células/mm³, e o CD4 passa a ser opcional, salvo indicação clínica, em quem está com 300 ou mais. O argumento é que queda para menos de 200 é rara em quem tem carga viral suprimida e CD4 acima de 300, e que o exame raramente muda conduta nesse cenário. O ponto de corte é mais baixo e o gatilho é o tempo de supressão, não o número de exames consecutivos.

U.S. Department of Health and Human Services. Guidelines for the Use of Antiretroviral Agents in Adults and Adolescents with HIV — seção Plasma HIV-1 RNA (Viral Load) and CD4 Count Monitoring.

Na prova

O recorte se identifica pelo vocabulário do enunciado. Faixas escalonadas com 350 e 500 células, exames consecutivos e intervalo mínimo de seis meses são a redação do protocolo brasileiro; 'um a dois anos de terapia supressiva' e 'monitoramento opcional' são a redação norte-americana. Cenário de ambulatório do SUS, dispensação em unidade dispensadora de medicamentos ou menção ao Sistema de Monitoramento Clínico puxam o corpo brasileiro. Nas alternativas, o número 500 associado a dois exames consecutivos só existe num dos mundos, e o número 300 associado a tempo de supressão só existe no outro.

Profilaxia pré-exposição injetável de ação prolongada

Lenacapavir semestral recomendado como opção adicional, ao lado do cabotegravir de ação prolongada — Organização Mundial da Saúde, julho de 2025

A OMS passou a recomendar o lenacapavir injetável, aplicado duas vezes ao ano, como opção adicional de profilaxia pré-exposição, somando-se ao cabotegravir de ação prolongada que já constava das recomendações. O argumento não é de eficácia superior à do comprimido diário tomado corretamente, e sim de adesão: a formulação de longa duração resolve barreiras de rotina, estigma e acesso que fazem a profilaxia oral falhar na vida real, especialmente em populações que a OMS identifica como desproporcionalmente afetadas.

World Health Organization. WHO recommends injectable lenacapavir for HIV prevention, 14 de julho de 2025.

Apenas a apresentação oral está disponível no SUS — PCDT de PrEP Oral do Ministério da Saúde, 2025

O protocolo vigente no Brasil trata, pelo próprio título, da profilaxia pré-exposição oral, e o único esquema que descreve é a dose fixa combinada de tenofovir desoproxila 300 mg com entricitabina 200 mg, nas modalidades diária e sob demanda. Não há apresentação injetável descrita. A causa é de incorporação, não de discordância científica: o cabotegravir de ação prolongada tem registro sanitário no país desde 2023, e a proposta de incorporação ao SUS foi encaminhada à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias, com análise prevista para agosto de 2026 — informação que vem da divulgação do Ministério da Saúde à imprensa em julho de 2026, e não do protocolo.

Ministério da Saúde. PCDT para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) Oral à Infecção pelo HIV, 2025, capítulo 7 — o documento descreve exclusivamente o esquema oral TDF/FTC.

Na prova

Enquanto a incorporação não se concluir, qualquer vinheta ambientada no SUS — unidade básica, unidade dispensadora, teleatendimento — só comporta o esquema oral. A menção a cabotegravir ou lenacapavir dentro de uma alternativa em cenário brasileiro denuncia o distrator, porque o medicamento não está no elenco. O caminho inverso também vale: enunciado que cite nominalmente a OMS, ou que fale em aplicação bimestral ou semestral, saiu do corpo internacional. Como o tema está em movimento, vale conferir se a incorporação foi publicada antes da data da prova — divergência de incorporação tem prazo de validade, e o ano dos documentos aqui é 2025 de um lado e 2025 do outro, com decisão administrativa pendente em 2026.

Meningite criptocócica: as quatro a seis semanas são uma faixa ou um piso para iniciar a terapia antirretroviral

Faixa de quatro a seis semanas, com possibilidade de antecipação em caso selecionado — PCDT de Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 1, Ministério da Saúde, 2024

O protocolo brasileiro recomenda iniciar a terapia antirretroviral entre a quarta e a sexta semana após o início do antifúngico, condicionado a melhora neurológica inequívoca, resolução da hipertensão intracraniana e cultura liquórica negativa. Mas abre uma porta: em quem não tem criptococoma nem pseudocisto mucinoso e apresenta controle da doença por critérios clínicos e liquóricos, com acompanhamento de especialista, é possível iniciar a terapia antes das quatro a seis semanas. Quem tem criptococoma ou pseudocisto deve receber pelo menos seis semanas de indução.

Ministério da Saúde. PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 1 — Tratamento, 2024, item 4.3.

Adiamento de quatro a seis semanas tratado como piso, sustentado pelos ensaios randomizados — diretriz norte-americana de infecções oportunistas (NIH, CDC e IDSA) e o ensaio que o próprio protocolo brasileiro cita

A leitura norte-americana enuncia o adiamento sem porta de saída antecipada: a terapia antirretroviral é geralmente adiada por quatro a seis semanas após o início do antifúngico na criptococose do sistema nervoso central. O respaldo é o ensaio randomizado multicêntrico de tempo ótimo de início, cujo braço precoce — entre sete e treze dias do diagnóstico — teve mortalidade em vinte e seis semanas cerca de quinze pontos percentuais maior que o braço de cinco semanas, com excesso concentrado em quem tinha pobreza de celularidade no líquor. O mesmo conjunto de dados é a referência que o protocolo brasileiro invoca para justificar o adiamento.

Panel on Guidelines for the Prevention and Treatment of Opportunistic Infections in Adults and Adolescents with HIV (NIH/CDC/IDSA), capítulo Cryptococcosis; e Scriven JE et al., Journal of Infectious Diseases, v. 212, n. 5, 2015 — referência 78 do próprio PCDT brasileiro.

Na prova

Nas duas leituras, iniciar a terapia antirretroviral na primeira ou na segunda semana de tratamento da meningite criptocócica é conduta que aumenta mortalidade — esse ponto não está em disputa e é o que a maioria das questões testa. A diferença aparece só em enunciado sofisticado, que descreve controle clínico e liquórico, ausência de criptococoma e acompanhamento especializado: essa combinação de dados na vinheta é o sinal de que o autor está trabalhando com a redação brasileira, que admite antecipar. Enunciado que apenas informa o diagnóstico e pergunta o momento de início trabalha com a faixa de quatro a seis semanas nos dois corpos. Contraste útil: na tuberculose pulmonar com HIV o mesmo protocolo manda iniciar em até sete dias — a neuroinfecção é a exceção, não a regra.

06

Caso resolvido

Homem de 39 anos, internado com tosse produtiva há dois meses, febre vespertina, sudorese noturna e perda de 11 kg. Radiografia de tórax com infiltrado em lobo superior direito e teste rápido molecular em escarro com Mycobacterium tuberculosis detectado, sem resistência à rifampicina. Durante a internação, testagem para HIV com dois testes rápidos reagentes — primeiro diagnóstico, sem uso prévio de antirretroviral. CD4 de 38 células/mm³ e carga viral de 412.000 cópias/mL. Exame neurológico normal, sem cefaleia, sem rigidez de nuca. Creatinina 0,9 mg/dL. Iniciado esquema básico para tuberculose com rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol.
achado
Coinfecção tuberculose-HIV com diagnóstico simultâneo das duas condições, CD4 de 38 células/mm³ e sem qualquer sinal de acometimento do sistema nervoso central. É o cenário em que o tratamento da tuberculose começa imediatamente e a terapia antirretroviral entra logo em seguida.
conduta
Terapia antirretroviral em até sete dias após o início do tratamento da tuberculose, independentemente do CD4. Não há motivo para esperar: o benefício de mortalidade do início rápido é maior justamente com CD4 igual ou inferior a 50, ainda que a síndrome inflamatória da reconstituição imune seja mais frequente nessa faixa.
esquema
Tenofovir 300 mg com lamivudina 300 mg, um comprimido por dia, mais dolutegravir 50 mg de doze em doze horas. A dose dobrada existe porque a rifampicina induz o metabolismo do dolutegravir, e será mantida por mais quinze dias depois de terminado o tratamento da tuberculose. Inibidor de protease está contraindicado enquanto houver rifampicina.
exame
Genotipagem antes de tratar, porque coinfecção tuberculose-HIV é uma das cinco indicações. O resultado não é esperado para iniciar — se vier com resistência a alguma droga do esquema, o esquema é modificado depois.
profilaxia
Com CD4 de 38: sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg em dose diária, que cobre toxoplasmose (corte de 100) e pneumocistose (corte de 200) ao mesmo tempo; azitromicina semanal para micobactérias não tuberculosas enquanto a terapia antirretroviral não começa, suspensa quando ela começar; e coleta de antígeno criptocócico, indicada abaixo de 200 em quem nunca teve meningite criptocócica.
seguimento
Carga viral em oito semanas para confirmar resposta. CD4 a cada três meses enquanto houver profilaxia em curso. E orientação explícita sobre síndrome inflamatória da reconstituição imune: piora dos sintomas pulmonares, aumento de linfonodos ou novas lesões entre a quarta e a oitava semana não indicam falha nem suspensão da terapia antirretroviral.
07

Agora feche você

Mulher cis de 26 anos procura a unidade de pronto atendimento 30 horas depois de relação sexual vaginal receptiva consentida, sem preservativo, com parceria de status sorológico desconhecido. Nega sintomas. Refere que já usou profilaxia pós-exposição duas vezes nos últimos doze meses, ambas completadas. Não usa método contraceptivo. Teste rápido de HIV não reagente; testes rápidos de sífilis, hepatite B e hepatite C não reagentes. Não tem doença renal conhecida e a creatinina, colhida na admissão, resulta em depuração estimada de 112 mL/min. Pergunta se pode usar 'aquele esquema de dois comprimidos antes da relação' que um amigo usa.
achado
Exposição sexual de risco há 30 horas, dentro da janela de 72 horas, com teste de HIV não reagente — indicação formal de profilaxia pós-exposição. E, somado a isso, terceira busca por profilaxia pós-exposição em doze meses, o que caracteriza exposição recorrente.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Esperar CD4, carga viral ou genotipagem para iniciar a terapia antirretroviral Atrai porque parece cuidadoso — pedir tudo antes de prescrever. O protocolo diz o oposto com todas as letras: a equipe precisa ter segurança para iniciar a terapia mesmo antes dos resultados de CD4 e carga viral, e mesmo nas cinco situações em que a genotipagem está indicada o início não é postergado à espera do exame. Esses exames orientam o seguimento e as profilaxias, não a decisão de tratar.
  2. 2Chamar de falha virológica uma carga viral detectável isolada Atrai porque detectável soa como fracasso. Mas falha virológica é carga viral confirmada acima de 200 cópias/mL — e a confirmação vem de um segundo exame quatro semanas depois. Um resultado detectável isolado, cercado de indetectáveis, é um blip: replicação transitória a partir de reservatório, que em geral não prenuncia falha. Trocar o esquema em cima de um blip queima opção terapêutica sem motivo.
  3. 3Chamar de falha da terapia a infecção oportunista com carga viral indetectável Atrai porque o paciente adoeceu tomando remédio. Só que o critério que define falha é o virológico. Infecção oportunista com supressão mantida reflete recuperação imunológica insuficiente, falha de profilaxia ou síndrome inflamatória da reconstituição imune — e raramente indica mudar o esquema antirretroviral.
  4. 4Suspender a terapia antirretroviral diante da síndrome inflamatória da reconstituição imune Atrai porque a piora começou depois do remédio, e parece lógico retirá-lo. Mas a síndrome é sinal de que a terapia está funcionando: o CD4 sobe e a carga viral cai enquanto o quadro inflamatório aparece. A conduta é priorizar diagnóstico e tratamento da infecção oportunista e manter a terapia, reservando a suspensão para casos graves, em particular neuroinfecções por tuberculose e criptococo — e corticoide para os quadros intensos, exceto no sarcoma de Kaposi.
  5. 5Manter a dose habitual de dolutegravir em quem usa rifampicina Atrai porque o comprimido é o mesmo e a prescrição parece igual. A rifampicina induz o metabolismo do dolutegravir e derruba o nível sérico: a dose vai a 50 mg de doze em doze horas e assim permanece por mais quinze dias após o fim do tratamento da tuberculose. Erro irmão desse: prescrever inibidor de protease junto com rifampicina — a classe inteira está contraindicada nessa combinação.
  6. 6Investigar infecção aguda pelo HIV com teste rápido Atrai porque o teste rápido está ali, sai em trinta minutos e resolve quase tudo. Só que ele detecta anticorpo, e na infecção aguda o anticorpo ainda não existe — a janela dos imunoensaios que detectam anticorpo vai de trinta a cento e vinte dias. Diante de síndrome febril inespecífica com exposição recente, o exame é a carga viral, que detecta RNA.
  7. 7Confundir o corte que suspende com o corte que reintroduz a profilaxia Atrai porque as duas profilaxias usam o mesmo medicamento e o mesmo corte de suspensão — CD4 acima de 200 por mais de três meses. A reintrodução é que difere: pneumocistose volta quando o CD4 cai abaixo de 200, toxoplasmose volta quando cai abaixo de 100. Quem decora um número só erra metade das questões de profilaxia.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Meningite subaguda em paciente com CD4 muito baixo, com pressão de abertura elevada e tinta da China (nanquim) positiva é diagnóstica de criptococose (Cryptococcus neoformans). Tuberculose meníngea também dá quadro subagudo com pleocitose linfocítica, mas a tinta da China não é positiva. Toxoplasmose cerebral cursa com lesões focais com efeito de massa na imagem, não meningite com tinta positiva. Pneumococo causa meningite bacteriana aguda com predomínio de neutrófilos e hipoglicorraquia marcante. CMV em imunossuprimido acomete mais retina e trato gastrointestinal, e a tinta da China seria negativa.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

As réguas numéricas, na ordem em que a questão as usa. Diagnóstico: dois testes rápidos em série, o primeiro mais sensível e o segundo mais específico; carga viral igual ou superior a 5.000 cópias/mL confirma; segunda amostra obrigatória acima de 18 meses; janela de cerca de 15 dias no imunoensaio de quarta geração, 20 a 30 dias na terceira geração, 30 a 120 dias nos imunoensaios de anticorpo; fase eclipse de cerca de 10 dias. Início da terapia: mesmo dia ou até 7 dias, para todos, independentemente do CD4. Esquema: tenofovir mais lamivudina mais dolutegravir, dose única diária; com rifampicina, dolutegravir 50 mg de 12 em 12 horas mantidos por mais 15 dias depois do fim da rifampicina. Seguimento: carga viral em 8 semanas e depois a cada 6 meses; falha virológica é carga viral confirmada acima de 200 cópias/mL, confirmada 4 semanas depois; CD4 semestral abaixo de 350, anual entre 350 e 500, encerrado acima de 500 em dois exames com pelo menos 6 meses de intervalo. I = I: carga viral abaixo de 200 cópias/mL por pelo menos 6 meses. PrEP: a partir de 15 anos e 35 kg, exclusão com depuração de creatinina abaixo de 60; proteção em 7 dias ou 2 horas conforme o grupo; interrupção segura com mais 7 dias ou mais 2 dias; sob demanda 2 + 1 + 1 com duas relações por semana como teto e duas horas como antecedência mínima. PEP: limite de 72 horas, duração de 28 dias, testes na 4ª e na 12ª semana e retestagem 30 dias após a exposição. Profilaxias: 350 para tuberculose latente, 200 para pneumocistose e para o rastreio criptocócico, 100 para toxoplasmose, 50 para micobactérias não tuberculosas.

em 30 dias

A lógica, sem os números. Primeiro: o diagnóstico é uma sequência de testes com papéis diferentes — o primeiro captura, o segundo confirma, a segunda amostra elimina troca, e nenhum deles serve para infecção aguda, que se busca por RNA. Segundo: tratar é imediato e universal; as únicas coisas que seguram a terapia antirretroviral são as duas meningites, criptocócica e tuberculosa, porque nelas a reconstituição imune dentro do crânio mata. Fora do crânio, nada segura. Terceiro: quem decide profilaxia é o CD4, quem decide eficácia é a carga viral — trocar esses papéis é a raiz da maioria dos erros do tema. Quarto: PrEP e PEP são a mesma farmacologia em tempos opostos, e o que muda entre elas é número de drogas, duração e prazo; o elo prático é que quem busca PEP de novo é candidato a PrEP. Quinto: piora clínica depois de começar o tratamento, com CD4 subindo e carga viral caindo, é reconstituição imune e não falha — e a resposta quase nunca é retirar a terapia. Sexto: quando o Brasil se afasta do estado da arte neste tema, quase sempre é porque o SUS ainda não incorporou a tecnologia, não porque discorde da evidência.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 39 anos internado com tuberculose pulmonar confirmada por teste rápido molecular e diagnóstico simultâneo de HIV, CD4 de 38 células/mm³, sem sinais neurológicos — decidir quando iniciar a terapia antirretroviral, com que esquema e quais profilaxias associar — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

HIV/aids — Preparatório para provas | OsceLabs