174 min de leitura

Clínica MédicaInfectologia

Dengue

O manejo é protocolo do Ministério da Saúde, e a prova cobra literalmente o grupo e o plano: dado um paciente febril, dizer se ele é A, B, C ou D, onde trata, que exame pede e quantos mililitros por quilo recebe, em quanto tempo.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 34 anos, previamente hígido, procura atendimento com febre de 39°C, cefaleia intensa, dor retro-orbitária, mialgia difusa e prostração há 3 dias. Reside em bairro com alta infestação de Aedes aegypti e relata surto de doença semelhante na vizinhança. Ao exame: PA 118x76 mmHg, FC 92 bpm, T 38,7°C, exantema maculopapular em tronco e prova do laço positiva. Hemograma com plaquetas 130.000/mm³ e leucopenia. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Dengue é o tema em que a prova brasileira menos quer saber a sua opinião. Existe um documento nacional, ele é recente, e ele decide tudo: em que grupo o paciente cai, onde ele é tratado, que exame é obrigatório e quantos mililitros por quilo ele recebe em quanto tempo. A 6ª edição do manual do Ministério da Saúde, de 2024, é a régua. Quando a questão descreve um paciente febril e pergunta a conduta, ela quase nunca está pedindo raciocínio fisiopatológico — está pedindo que você reconheça um sinal de alarme, converta isso num grupo e recite o plano daquele grupo com o número certo.

Por isso este capítulo é montado ao contrário do habitual. O bloco central não é o texto: é a tabela dos grupos A, B, C e D com a hidratação de cada um. Tudo o que vem antes existe para você conseguir classificar corretamente, e tudo o que vem depois existe para você não ser derrubado por uma armadilha de calibragem — o volume do grupo vizinho, a via de administração proibida, o antitérmico que não pode.

O recorte é o manejo clínico do caso suspeito, adulto e criança, do acolhimento à alta. Fica de fora controle vetorial, entomologia e a discussão epidemiológica da temporada. A vacina entra, mas pelo ângulo que a prova cobra: quem o SUS vacina hoje, com o quê, e por que a faixa etária é essa — que é uma decisão de disponibilidade de doses, não de biologia.

03

O que muda decisão

Três fases, e a armadilha de a febre melhorar

A dengue sintomática é descrita pelo manual em três fases. A febril começa de forma abrupta, costuma ficar entre 39 e 40 graus e dura de dois a sete dias, acompanhada de cefaleia, adinamia, mialgia, artralgia e dor retro-orbitária. Exantema maculopapular aparece em torno de metade dos casos, atinge face, tronco e membros de forma aditiva e inclui palmas das mãos e plantas dos pés. Diarreia com fezes pastosas, três a quatro evacuações por dia, é comum e ajuda a separar de gastroenterite.

A fase crítica começa com a defervescência — a queda da febre — entre o terceiro e o sétimo dia de doença. É aí que os sinais de alarme aparecem, é aí que o extravasamento plasmático se instala e é aí que o paciente choca. Essa é a inversão que a doença impõe e que a prova adora: o paciente melhora da febre, se sente melhor, e é exatamente esse o momento de maior risco. O choque costuma ocorrer entre o quarto e o quinto dia de doença, com intervalo do terceiro ao sétimo, e o período de extravasamento e choque dura de 24 a 48 horas. Uma vez instalado, o choque da dengue pode levar ao óbito em 12 a 24 horas — ou à recuperação rápida, se a reposição volêmica for adequada.

É dessa cronologia que sai a orientação de retorno do Grupo A, e ela é literal: retornar no dia da melhora da febre, porque é o possível início da fase crítica; e, se não houver defervescência, retornar no quinto dia de doença. Quem manda o paciente para casa sem essa instrução perdeu metade do manejo.

A fase de recuperação vem com a reabsorção do líquido extravasado. O débito urinário normaliza ou aumenta, pode surgir bradicardia e alterações eletrocardiográficas, e é comum um exantema com prurido generalizado. O risco aqui muda de natureza: deixa de ser hipovolemia e passa a ser hiper-hidratação, com edema pulmonar em quem recebeu volume demais e não teve a infusão reduzida a tempo.

Curva de temperatura em três fases, com destaque para o momento em que a febre cai e começa a fase crítica.
A fase crítica começa quando a febre cede, entre o terceiro e o sétimo dia. Melhora da febre não é melhora da doença.

Sinais de alarme: a lista literal

O Quadro 1 do manual traz sete sinais de alarme: dor abdominal intensa, referida ou à palpação, e contínua; vômitos persistentes; acúmulo de líquidos, isto é, ascite, derrame pleural ou derrame pericárdico; hipotensão postural ou lipotimia; hepatomegalia maior que 2 centímetros abaixo do rebordo costal; sangramento de mucosa; letargia ou irritabilidade.

Há um oitavo item que a prova cobra junto e que não está no Quadro 1, mas aparece na caracterização do Grupo C e na definição de caso suspeito com sinais de alarme: aumento progressivo do hematócrito. Ele é laboratorial, os outros sete são clínicos. Guardar os sete clínicos mais o hematócrito é a forma segura de responder tanto a questão que pede sete quanto a que pede oito.

A regra de uso é binária e não admite gradação: um único sinal de alarme, na ausência de sinais de gravidade, coloca o paciente no Grupo C. Não existe meio sinal de alarme, não existe sinal de alarme que autorize observação domiciliar, e não existe esperar o exame para começar a hidratar. A maioria desses sinais é consequência do aumento da permeabilidade vascular — eles marcam o início da deterioração, não o seu ápice.

Duas armadilhas de leitura. Dor abdominal precisa ser intensa e contínua para contar; desconforto abdominal vago no primeiro dia de febre não é sinal de alarme. E hepatomegalia conta pelo tamanho: acima de 2 centímetros do rebordo costal. Fígado palpável a 1 centímetro não fecha o critério.

Dengue grave: choque, sangramento e órgão

Dengue grave, no manual, tem três portas de entrada, e basta uma. A primeira é o extravasamento plasmático grave levando a choque ou a acúmulo de líquidos com desconforto respiratório. A segunda é sangramento grave, avaliado pelo médico — o manual dá como exemplos hematêmese, melena, metrorragia volumosa e sangramento do sistema nervoso central. A terceira é comprometimento grave de órgãos, com dano hepático importante definido por AST ou ALT acima de 1.000, alteração de consciência por acometimento do sistema nervoso central, miocardite, e outros órgãos.

Os sinais de choque que o manual lista para caracterizar o Grupo D são nove: taquicardia; extremidades distais frias; pulso fraco e filiforme; enchimento capilar lento, acima de 2 segundos; pressão arterial convergente, com pressão diferencial menor que 20 mmHg; taquipneia; oligúria, definida aqui como menos de 1,5 mL/kg/h; hipotensão arterial, que é fase tardia; e cianose, também fase tardia.

Note a ordem: hipotensão e cianose vêm por último. O choque compensado da dengue é o que mata o desatento, porque a pressão sistólica ainda está normal enquanto a diastólica sobe e a pressão de pulso estreita. O manual chega a advertir que, no choque compensado, o paciente pode parecer lúcido e o choque passar despercebido se ele não for tocado — extremidade fria e enchimento capilar de 3 a 5 segundos aparecem antes de qualquer número da pressão mudar.

Hipotensão, no adulto, é pressão sistólica menor que 90 mmHg ou pressão arterial média menor que 70 mmHg; também conta queda da sistólica maior que 40 mmHg em relação ao habitual, ou valor menor que 2 desvios-padrão abaixo do normal para a idade, e pressão de pulso igual ou menor que 20 mmHg. Em crianças de até 10 anos, o quinto percentil da pressão sistólica é estimado pela fórmula 70 mais duas vezes a idade em anos. Guarde essa fórmula: ela é a única do capítulo que a prova pede de cabeça.

No hipertenso crônico, o corte absoluto engana. O manual avisa que uma redução de 40% em relação aos níveis pressóricos anteriores do paciente já pode significar hipotensão, e que sinais de má perfusão periférica e oligúria valem mais que o número no manguito.

A prova do laço: técnica exata e onde ela decide

A prova do laço é o exame que separa o Grupo A do Grupo B em quem não tem sinal de alarme nem comorbidade, e sua técnica é cobrada com precisão de bula. Afere-se a pressão arterial e calcula-se a média pela fórmula soma da sistólica com a diastólica dividida por dois. O exemplo do próprio manual: pressão de 100 por 60, média 80 mmHg. Insufla-se o manguito até esse valor médio e mantém-se por cinco minutos no adulto e três minutos na criança. Desenha-se um quadrado de 2,5 centímetros de lado no antebraço e contam-se as petéquias dentro dele.

A prova é positiva com 20 ou mais petéquias no adulto e 10 ou mais na criança. Vale ainda procurar petéquias em todo o antebraço, no dorso das mãos e nos dedos. E vale saber quando ela mente: o manual registra que a prova é frequentemente negativa na obesidade e durante o choque — ou seja, justamente nos dois pacientes em que você mais gostaria de um sinal objetivo.

A 6ª edição fez algo incomum: manteve o exame no estadiamento e, ao mesmo tempo, abriu o Apêndice G dizendo que uma revisão sistemática publicada em 2022 pela Opas/OMS, com 217 estudos, encontrou baixo valor preditivo da prova do laço para formas graves e como critério de hospitalização, e que a sua realização pode gerar discordância na condução dos casos. As duas coisas convivem no mesmo documento, e a distinção é útil: a prova do laço decide entrada em Grupo B, não decide gravidade nem internação.

Antebraço com manguito insuflado no braço e um quadrado desenhado na pele, com petéquias contadas dentro dele.
Quadrado de 2,5 centímetros de lado no antebraço: 20 ou mais petéquias no adulto, 10 ou mais na criança.

Diagnóstico laboratorial: o exame depende do dia de doença

A regra é uma linha do tempo, e ela é o conteúdo mais fácil de acertar do capítulo. Até o quinto dia do início dos sintomas, o alvo é o vírus: antígeno NS1, RT-PCR ou isolamento viral. A partir do sexto dia, o alvo é o anticorpo: sorologia IgM por ELISA. Pedir sorologia no segundo dia de febre e NS1 no oitavo é o erro clássico, e ambos aparecem como distratores.

A confirmação laboratorial de caso, no capítulo 10 do manual, aceita cinco resultados: NS1 reagente; isolamento viral positivo; RT-PCR detectável até o quinto dia; IgM ELISA a partir do sexto dia; e aumento de quatro vezes ou mais nos títulos de anticorpos em PRNT ou inibição da hemaglutinação, com amostras pareadas de fase aguda e convalescente separadas por pelo menos 14 dias. Na impossibilidade de confirmação específica, ou diante de resultado inconclusivo, vale a confirmação por vínculo clínico-epidemiológico com caso confirmado laboratorialmente.

Detalhes operacionais que a prova ocasionalmente cobra: recomenda-se 5 mL de sangue total sem anticoagulante na criança e 10 mL no adulto; o acondicionamento é a menos 70 graus para amostras colhidas até o quinto dia e a menos 20 graus a partir do sexto. Dengue e Zika são flavivírus e dão reação cruzada na sorologia, o que gera resultado inconclusivo com frequência.

O ponto que fecha o raciocínio clínico: exame específico não muda conduta. O manual é explícito ao dizer, para o Grupo A, que se deve esclarecer ao paciente que exames de confirmação não são necessários para a conduta terapêutica, e, para os Grupos C e D, que os exames de confirmação são obrigatórios do ponto de vista da vigilância, mas não essenciais para a decisão de tratamento. Quem decide conduta é o hemograma, pela hemoconcentração, e o exame clínico.

Uma novidade de 2026 vale registrar porque já apareceu em nota técnica do Ministério: em vacinado recente, a viremia vacinal pode dar RT-PCR e, dependendo do teste, NS1 reagentes, e depois soroconversão de IgM. Resultado positivo em quem tomou a vacina há poucos dias não confirma automaticamente dengue selvagem, e a investigação precisa considerar o histórico vacinal.

O que não se prescreve — e a via que não se usa

A lista de proibições é curta e cai muito. O manual, na conduta do Grupo A, escreve em uma linha: não utilizar salicilatos ou anti-inflamatórios não esteroides e corticosteroides. Salicilato — o ácido acetilsalicílico — inibe a função plaquetária num paciente que já cursa com plaquetopenia e disfunção vascular, e ainda carrega o risco de síndrome de Reye em criança. Os anti-inflamatórios não esteroides agravam gastrite e sangramento digestivo; o manual, ao descrever hemorragia grave, cita nominalmente uso prévio de ácido acetilsalicílico, anti-inflamatórios e anticoagulantes entre os fatores que a favorecem.

O que se prescreve é dipirona ou paracetamol, com as doses do Apêndice H. Dipirona no adulto: 20 gotas ou 1 comprimido de 500 mg até de 6 em 6 horas; na criança, 10 mg/kg/dose até de 6 em 6 horas. Paracetamol no adulto: 40 gotas ou 1 comprimido de 500 mg de 4 em 4 horas, podendo ser 60 gotas ou 2 comprimidos até de 6 em 6 horas, sem exceder 4 gramas em 24 horas; na criança, 10 mg/kg/dose até de 6 em 6 horas, com o aviso expresso de que doses maiores são hepatotóxicas.

A via intramuscular é evitada, e a razão é mecânica: injeção intramuscular em paciente com plaquetopenia e fragilidade vascular produz hematoma, e o manual da OMS de 2009 registra trauma de qualquer natureza, incluindo injeção intramuscular, entre os fatores de risco para sangramento maior, escrevendo diretamente que não se devem aplicar injeções intramusculares para evitar hematoma. A Sociedade Brasileira de Pediatria formula do jeito mais operacional: a via intramuscular deve ser evitada até que se conheça a contagem de plaquetas. A 6ª edição do manual brasileiro não repete essa frase no corpo do texto — ela lista a apresentação injetável da dipirona no apêndice sem qualificar a via —, e por isso o comando vale mas a fonte dele é a orientação internacional e a pediátrica brasileira, não uma linha do manual de 2024.

Sobre hemoderivados, a lógica é a mesma de toda a hemostasia da dengue: sangramento se previne com volume, não com plaqueta. Transfusão de plaquetas, no Grupo D, é considerada apenas diante de sangramento persistente não controlado, depois de corrigidos os fatores de coagulação e o choque, e com plaquetopenia associada a INR acima de 1,5 vez o valor normal. Plaqueta baixa isolada, em paciente estável, não transfunde.

Quem sobe de grupo só por ser quem é

O Grupo B não é feito apenas de quem sangra. O manual, no rodapé do fluxograma, define condições clínicas especiais, risco social ou comorbidades como: lactentes com menos de 24 meses, gestantes, adultos acima de 65 anos, hipertensão arterial ou outras doenças cardiovasculares graves, diabetes mellitus, doença pulmonar obstrutiva crônica, asma, obesidade, doenças hematológicas crônicas, doença renal crônica, doença ácido-péptica, hepatopatias e doenças autoimunes. Qualquer uma delas, mesmo sem nenhum sinal de alarme e com prova do laço negativa, tira o paciente do Grupo A.

No lactente, o problema é a apresentação. O manual descreve, em menores de 2 anos, dor que se manifesta como choro persistente, adinamia e irritabilidade, quadro facilmente confundido com qualquer outra febre da faixa etária; e adverte que na criança o agravamento costuma ser súbito, diferentemente do adulto, em que os sinais de alarme são mais facilmente detectáveis — o quadro grave pode ser a primeira manifestação percebida. A Sociedade Brasileira de Pediatria reforça o mesmo ponto.

No idoso, a inversão é do risco do tratamento. O manual abre dois alertas idênticos, um no Grupo C e outro no Grupo D, dizendo que apesar do risco maior de complicações e choque, esses pacientes correm risco maior de sobrecarga de fluidos, em parte por comorbidades, maior risco de lesão renal e redução da função miocárdica, e que a hidratação deve ser minuciosamente acompanhada na busca de sinais de edema pulmonar, com crepitação à ausculta. O volume não muda; a vigilância muda. E a apresentação da 6ª edição destaca o idoso como grupo de maior vulnerabilidade para desfecho fatal.

Na gestante, o comportamento fisiopatológico é o mesmo, o estadiamento é o mesmo, e o volume prescrito é o mesmo — o manual escreve que a gestante com sinal de alarme ou de choque recebe volume igual ao dos demais pacientes, de acordo com o estadiamento. O que muda é a leitura. As adaptações da gravidez atrasam o reconhecimento: o volume sanguíneo aumenta cerca de 40%, o hematócrito cai por hemodiluição, a resistência vascular periférica e a pressão caem, e há hipoproteinemia. Taquicardia, hipotensão postural e hemoconcentração aparecem mais tarde e podem ser confundidas com a fisiologia gestacional. A letalidade em gestantes é superior à de mulheres não gestantes em idade fértil, com maior risco no terceiro trimestre. O diagnóstico diferencial obrigatório em quadros graves inclui pré-eclâmpsia, síndrome HELLP e sepse, que podem mimetizar e podem coexistir. Radiografia é permitida a critério clínico. A partir da 20ª semana, a gestante deitada fica em decúbito lateral, preferencialmente esquerdo.

No hipertenso e no cardiopata, o manual passou a dar instruções nominais nesta edição. Paciente sem sinais de alarme e com pressão normal mantém as medicações habituais. Em desidratação e hipovolemia com necessidade de ressuscitação venosa, suspendem-se em princípio diuréticos e vasodilatadores; a suspensão de betabloqueador e clonidina deve ser ponderada pelo risco de hipertensão rebote. Na dengue grave com extravasamento importante, os hipotensores são prontamente suspensos.

Internar, escalonar, dar alta

As indicações de internação hospitalar do manual são seis. Presença de sinais de alarme ou de choque, sangramento grave ou comprometimento grave de órgão, isto é, os Grupos C e D. Recusa à ingestão de alimentos e líquidos. Comprometimento respiratório, com dor torácica, dificuldade respiratória, diminuição do murmúrio vesicular ou outros sinais de gravidade. Impossibilidade de seguimento ou de retorno à unidade por condição clínica ou social. Comorbidades descompensadas ou de difícil controle, com exemplos que a prova reaproveita: diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca, uso de dicumarínicos, crise asmática e anemia falciforme. E outras situações a critério clínico.

O escalonamento entre grupos tem gatilhos escritos. O Grupo B vira Grupo C quando aparece hemoconcentração ou surge sinal de alarme. O Grupo C vira Grupo D quando não há melhora clínica e laboratorial depois das fases de expansão. O caminho de volta também existe e cai em prova: o paciente do Grupo D que melhora após a expansão rápida retorna para a fase de expansão do Grupo C e segue a conduta de lá.

A alta hospitalar exige que todos os critérios sejam preenchidos, e são cinco na lista do item 6.10: estabilização hemodinâmica durante 48 horas; ausência de febre por 24 horas; melhora visível do quadro clínico; hematócrito normal e estável por 24 horas; plaquetas em elevação. Repare no último: o critério é plaqueta subindo, não plaqueta acima de um valor. É a tendência que importa, porque a plaquetopenia da dengue se recupera depois da estabilização hemodinâmica. O fluxograma da mesma edição escreve seis critérios e lista os mesmos cinco — a lista é a que vale.

Depois da alta, o retorno do paciente que passou pelo Grupo C ou D segue a orientação do Grupo B: reavaliação clínica e laboratorial diária. E o cartão de acompanhamento da dengue é preenchido e entregue em todos os grupos, do A ao D.

A vacina, do jeito que a prova pergunta

O Ministério da Saúde incorporou ao SUS, em dezembro de 2023, a vacina dengue atenuada do laboratório Takeda, e o público-alvo é crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, em duas doses com intervalo de três meses. A oferta começou restrita a 521 municípios, subiu para 2.752 até dezembro de 2025 e foi ampliada a todos os municípios do país pela Nota Técnica nº 4/2026, de janeiro de 2026.

A pergunta que a prova faz não é qual a faixa etária, é por quê. A nota técnica responde sem rodeios: a definição de territórios prioritários decorreu da produção limitada por parte do laboratório produtor, o que impactou o quantitativo de doses disponibilizadas e o cronograma de entrega; e a escolha da faixa de 10 a 14 anos considerou as recomendações do SAGE, o grupo consultivo de especialistas em imunizações da OMS, as taxas de hospitalização por dengue nos cinco anos anteriores à incorporação e a pactuação na Comissão Intergestores Tripartite. Ou seja: é a faixa que mais internava, dentro do que havia de dose. Não é limite biológico da vacina.

Em 2026 entrou no Programa Nacional de Imunizações uma segunda vacina atenuada, do Instituto Butantan, recomendada para 15 a 59 anos em dose única de 0,5 mL por via subcutânea. Em 8 de junho de 2026 o Ministério anunciou a descontinuidade temporária dessa estratégia, por precaução e em consenso com a Anvisa, após o registro de eventos adversos raros incompatíveis com o estudo clínico: 42 casos com sinais de alarme e três eventos graves entre mais de 500 mil doses aplicadas. A vacina da Takeda seguiu sem restrição. Quem estuda por material anterior a junho de 2026 está com essa informação desatualizada.

04

Grupos A, B, C e D: onde trata, o que pede, quanto hidrata

Esta é a tabela central do capítulo e o único conteúdo que vale decorar número a número. Os quatro grupos são uma escala ordinal real de gravidade — A é o paciente que vai para casa, D é o paciente em choque —, e o paciente atravessa a escala durante a doença, em qualquer direção. O fluxo abaixo é a ordem das perguntas do fluxograma oficial; os cards mostram o que está acontecendo com o plasma em cada degrau; a tabela grande traz o plano de cada grupo; e as duas tabelas seguintes fecham o diagnóstico laboratorial por dia de doença e o diferencial com as outras duas arboviroses urbanas.

  1. 1Confirme a suspeita: febre, usualmente de dois a sete dias, mais duas ou mais entre náusea ou vômito, exantema, mialgia ou artralgia, cefaleia ou dor retro-orbital, petéquias, prova do laço positiva e leucopenia — em quem vive ou viajou nos últimos 14 dias para área com transmissão. Criança de área endêmica com febre aguda de dois a sete dias e sem foco aparente também é caso suspeito.
  2. 2Pergunta 1: há sinal de alarme ou sinal de gravidade? Se há sinal de gravidade — choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgão —, é Grupo D e a expansão rápida começa agora. Se há sinal de alarme sem sinal de gravidade, é Grupo C e a reposição de 10 mL/kg começa agora. Nos dois casos, a hidratação é iniciada em qualquer ponto de atenção, inclusive durante a transferência, mesmo sem exames.
  3. 3Pergunta 2, só para quem passou sem alarme: há sangramento espontâneo de pele, sangramento induzido pela prova do laço, condição clínica especial, risco social ou comorbidade? Se sim, Grupo B. Se não, Grupo A.
  4. 4Grupo A vai para casa com hidratação oral calculada, sintomático, orientação de retorno e cartão de acompanhamento. Grupo B fica em leito de observação, com hemograma obrigatório e hidratação oral igual à do A, até sair o resultado.
  5. 5Releia o hemograma do Grupo B: hematócrito normal libera para tratamento ambulatorial com reavaliação diária; hemoconcentração ou surgimento de sinal de alarme faz o paciente ser conduzido como Grupo C.
  6. 6No Grupo C, reavalie clinicamente após a primeira hora e o hematócrito em até duas horas. Sem melhora do hematócrito ou dos sinais hemodinâmicos, repita a fase de expansão — até três vezes. Com melhora, entre na fase de manutenção. Sem melhora clínica e laboratorial, conduza como Grupo D.
  7. 7No Grupo D, reavalie a cada 15 a 30 minutos e o hematócrito a cada 2 horas, repetindo a expansão rápida até três vezes. Se melhorar, volte para a fase de expansão do Grupo C. Se o choque persistir, decida pelo hematócrito: em ascensão, expansor plasmático; em queda, procure hemorragia.
  8. 8Antes da alta, confira os cinco critérios. Depois da alta, o retorno segue a orientação do Grupo B.

Grupo A — sem alarme, sem condição especial

Caso suspeito, sem sinal de alarme, sem sangramento espontâneo ou induzido e sem comorbidade, condição clínica especial ou risco social. Não há extravasamento em curso. Classificação de risco azul: atendimento conforme horário de chegada. Tratamento ambulatorial, hidratação oral, exame complementar a critério médico.

Grupo B — sangramento de pele ou condição especial

Caso suspeito sem sinal de alarme, mas com sangramento espontâneo de pele ou induzido pela prova do laço, ou com condição clínica especial, risco social ou comorbidade. A parede vascular já denuncia fragilidade, sem extravasamento maciço. Classificação verde: prioridade não urgente. Leito de observação até o hemograma, que é obrigatório.

Grupo C — pelo menos um sinal de alarme

Caso suspeito com um ou mais sinais de alarme e sem sinal de gravidade. O plasma está saindo do vaso e se acumulando nas cavidades — é o que produz a dor abdominal, os vômitos, o derrame e o hematócrito subindo. Classificação amarela: urgência. Leito de internação até estabilizar, mínimo de 48 horas, com hidratação venosa.

Grupo D — dengue grave

Caso suspeito com sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgão. O volume perdido cruzou o limiar: taquicardia, extremidades frias, pulso filiforme, enchimento capilar acima de 2 segundos, pressão convergente. Classificação vermelha: emergência. Leito de terapia intensiva até estabilizar, mínimo de 48 horas.

GrupoO que defineOnde trataExamesHidratação: volume, via e tempoReavaliação
A (azul)Sem sinal de alarme, sem sangramento espontâneo nem induzido, sem comorbidade, condição especial ou risco social.Ambulatorial, em casa.A critério médico. Hemograma não é obrigatório.Oral. Adulto: 60 mL/kg/dia, sendo 1/3 com sais de reidratação oral e 2/3 com líquidos caseiros, com volume maior no início — nas primeiras 4 a 6 horas, 1/3 do total. Criança menor de 13 anos, pelo peso: até 10 kg, 130 mL/kg/dia; acima de 10 até 20 kg, 100 mL/kg/dia; acima de 20 kg, 80 mL/kg/dia. Manter durante todo o período febril e por 24 a 48 horas após a defervescência.Retorno no dia da melhora da febre, pelo possível início da fase crítica. Sem defervescência, retorno no quinto dia de doença. Retorno imediato se surgir sinal de alarme ou sangramento.
B (verde)Sem sinal de alarme, mas com sangramento espontâneo de pele ou induzido — prova do laço positiva —, ou com condição clínica especial, risco social ou comorbidade: lactente com menos de 24 meses, gestante, adulto acima de 65 anos, hipertensão ou cardiopatia grave, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica, asma, obesidade, doença hematológica crônica, doença renal crônica, doença ácido-péptica, hepatopatia, doença autoimune.Leito de observação até sair o resultado dos exames e a reavaliação clínica.Hemograma completo obrigatório para todos. Colher no atendimento, liberar em até 2 horas ou no máximo 4 horas. Outros exames conforme a condição associada.Oral, no mesmo volume do Grupo A, até o resultado dos exames.Hematócrito normal: tratamento ambulatorial com reavaliação clínica e laboratorial diária, até 48 horas após a queda da febre. Hemoconcentração ou surgimento de sinal de alarme: conduzir como Grupo C.
C (amarelo)Pelo menos um sinal de alarme, sem sinal de gravidade.Leito de internação até a estabilização, mínimo de 48 horas.Obrigatórios: hemograma completo, albumina sérica e transaminases. Imagem recomendada: radiografia de tórax em PA, perfil e incidência de Hjelm-Laurell, e ultrassonografia de abdome — mais sensível para derrames cavitários. Conforme necessidade: glicemia, ureia, creatinina, eletrólitos, gasometria, tempo de protrombina, ecocardiograma.Venosa, soro fisiológico a 0,9%. Expansão: 10 mL/kg na primeira hora; mantém 10 mL/kg na segunda hora até avaliar o hematócrito — máximo de 20 mL/kg em 2 horas por fase de expansão, para infusão gradativa e monitorada. Sem melhora, repetir a fase de expansão até três vezes. Com melhora clínica e laboratorial, manutenção: primeira fase 25 mL/kg em 6 horas; havendo melhora, segunda fase 25 mL/kg em 8 horas.Clínica após 1 hora — sinais vitais, pressão arterial e diurese, desejável 1 mL/kg/h — e hematócrito em até 2 horas, após cada etapa. Sem melhora clínica e laboratorial, conduzir como Grupo D.
D (vermelho)Sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgão.Leito de terapia intensiva até a estabilização, mínimo de 48 horas; depois, leito de internação.Os mesmos obrigatórios do Grupo C: hemograma, albumina e transaminases, mais imagem e exames conforme necessidade.Venosa, expansão rápida com soro fisiológico a 0,9%: 20 mL/kg em até 20 minutos. Repetir até três vezes conforme avaliação clínica. Iniciar em qualquer nível de complexidade, inclusive durante a transferência, mesmo sem exames. Com melhora, retornar à fase de expansão do Grupo C. Choque persistente com hematócrito subindo: albumina 0,5 a 1 g/kg, em solução a 5% — para cada 100 mL, 25 mL de albumina a 20% e 75 mL de soro fisiológico; na falta, coloide sintético a 10 mL/kg/hora. Hematócrito caindo com choque persistente: investigar hemorragia.Clínica a cada 15 a 30 minutos e hematócrito a cada 2 horas, com monitoramento contínuo. Oferecer oxigênio em toda situação de choque.

Diagnóstico laboratorial por dia de doença

JanelaExameO que confirmaDetalhe operacional
Do 1º ao 5º dia de sintomasAntígeno NS1, RT-PCR ou isolamento viralNS1 reagente, RT-PCR detectável ou isolamento positivo confirmam o caso.Sangue total sem anticoagulante: 5 mL na criança, 10 mL no adulto. Acondicionar a menos 70 graus.
A partir do 6º dia de sintomasSorologia IgM por ELISAIgM reagente confirma o caso.Acondicionar a menos 20 graus. Dengue e Zika são flavivírus e cruzam na sorologia, gerando resultado inconclusivo.
Fase aguda e convalescente, com pelo menos 14 dias de intervaloPRNT ou inibição da hemaglutinação em amostras pareadasAumento de quatro vezes ou mais nos títulos confirma o caso.Uso essencialmente de vigilância e pesquisa; não muda conduta à beira do leito.
Qualquer dia, e é o que decide condutaHemograma completoNão confirma dengue: mede hemoconcentração e plaquetopenia, que definem o grupo e a resposta à hidratação.Obrigatório nos Grupos B, C e D. No Grupo C e D vem acompanhado de albumina sérica e transaminases.
Sem laboratório disponível ou resultado inconclusivoVínculo clínico-epidemiológicoConfirma o caso por ligação com caso confirmado laboratorialmente, após avaliar a distribuição espacial dos casos.Exame específico é obrigatório para a vigilância, mas não é essencial para a decisão terapêutica.

Dengue, Zika e chikungunya: o que separa as três

AchadoDengueZikaChikungunya
FebreAlta, acima de 38 graus, por 2 a 7 diasAusente ou subfebril, até 38 graus, por 1 a 2 diasAlta, acima de 38 graus, por 2 a 3 dias
Exantema: quando surgeDo 3º ao 6º diaDo 1º ao 2º diaDo 2º ao 5º dia
MialgiaMuito frequenteFrequenteFrequente
Artralgia: frequência e intensidadePouco frequente e leveFrequente, leve a moderadaMuito frequente, moderada a intensa
Edema articularRaro e leveFrequente e leveFrequente, moderado a intenso
ConjuntiviteRaraEm 50% a 90% dos casosEm cerca de 30%
LinfoadenomegaliaPouco frequenteMuito frequenteFrequente
Hemorragia discretaFrequenteAusentePouco frequente
Acometimento neurológicoPouco frequenteMuito frequenteFrequente
Leucopenia e plaquetopeniaAmbas muito frequentesLeucopenia frequente, plaquetopenia pouco frequenteAmbas frequentes

Hidratação oral é para A e B; hidratação venosa é para C e D. Essa é a frase literal do fluxograma e resolve sozinha uma parte das questões.

Nos Grupos C e D, a reposição volêmica começa em qualquer ponto de atenção, independentemente do nível de complexidade, inclusive durante a transferência para a unidade de referência, e mesmo na ausência de exames complementares. Esperar o hemograma para começar a hidratar é erro de conduta.

O total máximo de cada fase de expansão do Grupo C é 20 mL/kg em 2 horas. O número 20 mL/kg, portanto, existe nos dois grupos com significados opostos: no C é o teto de duas horas, no D é o bolus de vinte minutos.

A prova do laço decide entrada no Grupo B. Ela não define gravidade nem indica internação — e a própria 6ª edição registra a revisão sistemática da Opas/OMS de 2022, com 217 estudos, apontando baixo valor preditivo do exame para formas graves e como critério de hospitalização.

Interromper ou reduzir a infusão à velocidade mínima necessária quando houver término do extravasamento, normalização de pressão, pulso e perfusão periférica, queda do hematócrito na ausência de sangramento, diurese normalizada e resolução dos sintomas abdominais.

Transfusão de plaquetas no Grupo D só com sangramento persistente não controlado, depois de corrigidos os fatores de coagulação e o choque, e com plaquetopenia associada a INR acima de 1,5 vez o valor normal. Hemorragia: concentrado de hemácias 10 a 15 mL/kg/dia; coagulopatia: plasma fresco 10 mL/kg, vitamina K endovenosa e crioprecipitado 1 unidade para cada 5 a 10 kg.

Edema subcutâneo generalizado e derrames cavitários nos Grupos C e D não significam, por si, hiper-hidratação: são a perda capilar, e podem aumentar mesmo com hidratação correta. O acompanhamento da reposição é feito por hematócrito, diurese e sinais vitais — não pelo edema.

Dengue é de notificação compulsória a partir da suspeita clínica, sem esperar confirmação laboratorial, e a notificação cabe à primeira unidade que atende o paciente.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Classificação brasileira em Grupos A, B, C e D contra a classificação de gravidade da OMS de 2009

Grupos A, B, C e D — estadiamento operacional do Ministério da Saúde

Quatro grupos que combinam gravidade e logística de atendimento, cada um com cor de classificação de risco, local de tratamento, exames e plano de hidratação próprios. O Grupo B existe por um motivo que não é de gravidade: reúne quem sangra pouco e quem tem comorbidade, condição especial ou risco social. O Grupo D corresponde à dengue grave.

Brasil. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança, 6. ed., 2024, capítulos 5 e 6.

Dengue com ou sem sinais de alarme e dengue grave — classificação de gravidade da OMS, 2009

Três categorias de gravidade: dengue sem sinais de alarme, dengue com sinais de alarme e dengue grave, esta definida por extravasamento plasmático grave, sangramento grave ou comprometimento grave de órgãos. Para manejo, a mesma diretriz usa três grupos com as letras A, B e C, mas com significado diferente do brasileiro: A é quem pode ir para casa, B é quem deve ser encaminhado para manejo hospitalar — incluindo os com sinais de alarme e os com condições coexistentes ou circunstâncias sociais desfavoráveis — e C é quem precisa de tratamento de emergência e encaminhamento urgente.

World Health Organization. Dengue: guidelines for diagnosis, treatment, prevention and control, 2009, Figura 1.4 e seções 2.2 e 2.3.

Na prova

As duas classificações compartilham letras e não compartilham significados, e é aí que a questão separa quem estudou. Sinais de que o enunciado usa a régua brasileira: as palavras estadiamento e Grupo D, cores de classificação de risco, volumes em mL/kg com tempo fechado, ou cenário de unidade básica, UPA e SUS. Sinais de que usa a régua da OMS: os termos dengue com sinais de alarme e dengue grave sem menção a grupos, ou grupos A, B e C definidos por destino do paciente. Um detalhe entrega quase sempre: se o enunciado chama de Grupo C o paciente com um sinal de alarme, é a régua brasileira; se chama de Grupo C o paciente em choque, é a régua da OMS. Vale ainda que prova oficial do MEC tende a conduta SUS; em outras bancas, um distrator com volume em mL/kg/hora contínua costuma denunciar recorte internacional.

Volume da reposição venosa na dengue com sinal de alarme e no choque

Volumes fechados por etapa — Ministério da Saúde, 2024

Grupo C: 10 mL/kg de soro fisiológico a 0,9% na primeira hora, mantendo 10 mL/kg na segunda hora até avaliar o hematócrito, com teto de 20 mL/kg em 2 horas por fase de expansão e repetição de até três fases; manutenção em 25 mL/kg em 6 horas seguidos de 25 mL/kg em 8 horas. Grupo D: 20 mL/kg em até 20 minutos, repetível até três vezes. O desenho é de etapas com volume e tempo fixos, executável em qualquer nível de complexidade e sem bomba de infusão.

Brasil. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança, 6. ed., 2024, itens 6.3.2 e 6.4.2.

Velocidades decrescentes tituladas pela resposta — OMS, 2009

Dengue com sinais de alarme: cristaloide isotônico a 5 a 7 mL/kg/hora por 1 a 2 horas, reduzindo para 3 a 5 mL/kg/hora por 2 a 4 horas e depois para 2 a 3 mL/kg/hora, guiado pelo hematócrito e por diurese em torno de 0,5 mL/kg/hora. Choque compensado: 5 a 10 mL/kg/hora em uma hora. Choque hipotensivo: 20 mL/kg em bolus em 15 minutos, com coloide considerado no segundo bolus se o hematócrito permanecer alto. O desenho é de velocidade contínua ajustada a cada reavaliação.

World Health Organization. Dengue: guidelines for diagnosis, treatment, prevention and control, 2009, seção 2.3.2 e Figuras 2.2 e 2.3.

Na prova

A causa da diferença não é discordância científica sobre fisiologia: é desenho de protocolo para escala. O brasileiro precisa ser executável por equipe de unidade básica em epidemia, com centenas de atendimentos por dia e sem bomba de infusão, e por isso converte velocidade em etapas de volume e tempo. O internacional supõe titulação contínua com reavaliação frequente. Pistas de recorte no enunciado: alternativas escritas em mL/kg/hora com faixas — 5 a 7, 3 a 5, 2 a 3 — apontam para o corpo internacional; alternativas com número inteiro mais janela fechada, do tipo 10 mL/kg na primeira hora ou 20 mL/kg em 20 minutos, apontam para o corpo brasileiro. Repare que o choque hipotensivo é o único ponto em que os dois coincidem quase literalmente, em 20 mL/kg rápido — o que faz dele um mau discriminador e um bom distrator.

Volume da hidratação oral na criança do Grupo A

Cálculo por faixa de peso — Ministério da Saúde, 6ª edição, 2024

Criança menor de 13 anos, com base na regra de Holliday-Segar acrescida de reposição de perdas de 3%: até 10 kg, 130 mL/kg/dia; acima de 10 até 20 kg, 100 mL/kg/dia; acima de 20 kg, 80 mL/kg/dia. Um terço na forma de sais de reidratação oral, dois terços em água, sucos e chás, com um terço do volume ofertado nas primeiras 4 a 6 horas. Alimentação não é interrompida e a amamentação é mantida e estimulada.

Brasil. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança, 6. ed., 2024, Quadro 3.

Oferta por volume fracionado e faixa de 60 a 80 mL/kg/dia — Sociedade Brasileira de Pediatria, 2019

Para crianças, orientação de oferta fracionada: 50 a 100 mL por vez em menores de 2 anos e 100 a 200 mL por vez acima de 2 anos, com um terço das necessidades basais em sais de reidratação oral. Para adolescentes, cálculo de 60 a 80 mL/kg/dia, um terço com sais de reidratação oral. O guia reproduz o protocolo do Ministério vigente à época de sua publicação.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Dengue — Guia Prático de Atualização, setembro de 2019.

Na prova

Aqui a divergência é de data, não de conteúdo: 2019 contra 2024, com o guia da sociedade reproduzindo o protocolo ministerial anterior. Números por faixa de peso — 130, 100 e 80 mL/kg/dia — pertencem ao texto de 2024; a faixa de 60 a 80 mL/kg/dia para adolescente e a oferta em mililitros por vez pertencem ao material anterior. Como as bancas atualizam bibliografia com atraso variável, o discriminador prático é o enunciado: quando ele cita explicitamente o manual do Ministério da Saúde ou traz o peso da criança em quilos, está pedindo a conta por faixa de peso. Em adulto o valor não mudou nas duas fontes brasileiras: 60 mL/kg/dia.

Público-alvo da vacina contra dengue no SUS e a recomendação das sociedades e da bula

Programa Nacional de Imunizações: 10 a 14 anos, duas doses

A vacina dengue atenuada do laboratório Takeda é ofertada no SUS a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, em duas doses com intervalo de três meses, hoje em todos os municípios do país. A nota técnica declara a causa da restrição: produção limitada pelo laboratório produtor, com impacto no quantitativo de doses e no cronograma de entrega; a faixa foi escolhida a partir das recomendações do SAGE/OMS, das taxas de hospitalização por dengue nos cinco anos anteriores à incorporação e da pactuação tripartite. Há orientação temporária de ampliação, até o limite etário de bula, apenas para aproveitamento de doses com validade próxima do vencimento.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 4/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS, de 15 de janeiro de 2026, e Nota Técnica nº 24/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS.

Calendário da Sociedade Brasileira de Pediatria: a partir dos 4 anos

A vacina é recomendada independentemente de contato prévio com o vírus da dengue, a partir de quatro anos de idade, no esquema de duas doses com intervalo de três meses. A recomendação acompanha o licenciamento do produto, e não a disponibilidade de doses na rede pública.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Imunizações, nota de esclarecimento de 12 de junho de 2026.

Na prova

A diferença entre 10 a 14 anos e a partir de 4 anos não é científica — é de estoque. A faixa pública é o recorte da população que mais internava dentro do número de doses que o produtor conseguiu entregar. Enunciado que fala em estratégia de vacinação, campanha, sala de vacina do SUS ou público-alvo está pedindo o recorte do Programa Nacional de Imunizações; enunciado que fala em indicação, licenciamento, calendário de sociedade ou clínica privada está pedindo o recorte de bula. Vale acrescentar o estado da política em 2026: a segunda vacina, do Instituto Butantan, para 15 a 59 anos em dose única, teve a estratégia descontinuada temporariamente em 8 de junho de 2026, por precaução, após 42 casos com sinais de alarme e três eventos graves entre mais de 500 mil doses aplicadas — sem restrição para a vacina da Takeda.

Manter ou abandonar a prova do laço no estadiamento

Manutenção no fluxograma de estadiamento — Ministério da Saúde, 2024

A prova do laço continua no fluxograma oficial como a pesquisa de sangramento induzido que separa o Grupo A do Grupo B, e o manual descreve a técnica completa no Apêndice G, com os cortes de 20 petéquias no adulto e 10 na criança. Ela também integra a definição de caso suspeito de dengue.

Brasil. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança, 6. ed., 2024, Figura 2, item 10.1 e Apêndice G.

Baixo valor preditivo para gravidade e hospitalização — revisão Opas/OMS, 2022

Revisão sistemática publicada em 2022 pela Organização Pan-Americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde identificou 217 estudos em que o valor de predição da prova do laço foi baixo para formas graves e como critério de hospitalização, e a realização do exame nessas circunstâncias pode gerar discordância na condução dos casos.

Revisão sistemática Opas/OMS de 2022, citada e resumida no Apêndice G do próprio manual do Ministério da Saúde, 6. ed., 2024.

Na prova

As duas posições estão no mesmo documento, o que muda o tipo de pergunta possível: nenhuma banca vai pedir qual delas o Brasil segue, porque o Brasil segue as duas ao mesmo tempo. O que a questão testa é a fronteira de uso. Enunciado sobre técnica, contagem de petéquias, tamanho do quadrado ou tempo de insuflação está no terreno do Apêndice G. Enunciado que usa a prova do laço positiva para justificar internação, ou para dizer que o paciente é grave, está construindo o distrator com o ponto exato que a revisão de 2022 derruba — o exame classifica em Grupo B, e Grupo B é conduta ambulatorial com observação até o hemograma. Também é frequente o enunciado descrever um paciente obeso ou chocado com prova negativa: é a limitação registrada no próprio manual.

06

Caso resolvido

Homem de 41 anos, motorista de aplicativo, procura a unidade de pronto atendimento no quinto dia de doença. Conta que teve febre de 39 graus com dor no corpo e dor atrás dos olhos desde domingo, e que a febre cedeu ontem à tarde. Hoje acordou com dor abdominal em barra, forte e que não passa, e vomitou quatro vezes desde a manhã, sem conseguir tomar água. Mora em bairro com vários casos de dengue. Nega comorbidades e não usa medicação contínua. Ao exame: descorado 1 mais em 4, hidratado, consciente e orientado; temperatura axilar 36,4 graus; pressão arterial 118 por 82 mmHg deitado, com pressão de 100 por 84 sentado e tontura ao sentar; frequência cardíaca 104 batimentos por minuto; frequência respiratória 20; extremidades aquecidas, enchimento capilar de 2 segundos. Abdome doloroso à palpação difusa, fígado palpável a 3 centímetros do rebordo costal direito. Sem sangramento visível. Peso 80 kg.
fase
Quinto dia de doença com a febre tendo cedido ontem: o paciente está na fase crítica, que começa com a defervescência entre o terceiro e o sétimo dia. Melhora da febre aqui é o sinal de entrada no período de risco, não de resolução.
achado
Três sinais de alarme, e bastaria um: dor abdominal intensa e contínua; vômitos persistentes; hepatomegalia maior que 2 centímetros abaixo do rebordo costal — o fígado está a 3. A tontura ao sentar com queda da sistólica configura ainda hipotensão postural, que é o quarto.
gravidade
Não há sinal de gravidade. Extremidades aquecidas, enchimento capilar de 2 segundos, pressão de pulso de 36 mmHg, sem oligúria relatada, sem sangramento grave, sem alteração de consciência. Choque ausente afasta o Grupo D.
estadiamento
Sinal de alarme presente e sinal de gravidade ausente é a definição literal do Grupo C. Classificação de risco amarela, urgência, atendimento o mais rápido possível.
conduta
Reposição volêmica imediata, antes e independentemente do resultado dos exames: soro fisiológico a 0,9%, 10 mL/kg na primeira hora — 800 mL para os 80 kg deste paciente. Internação em leito, com permanência mínima de 48 horas até a estabilização.
exames
Obrigatórios: hemograma completo, albumina sérica e transaminases. Radiografia de tórax em PA, perfil e incidência de Hjelm-Laurell, e ultrassonografia de abdome, que é mais sensível para detectar derrames cavitários. Não se espera nenhum deles para hidratar.
reavaliação
Reavaliação clínica após a primeira hora — sinais vitais, pressão arterial e diurese, desejável 1 mL/kg/h — e hematócrito em até duas horas. Mantém-se 10 mL/kg na segunda hora até essa avaliação, respeitando o teto de 20 mL/kg em 2 horas por fase de expansão.
escalonamento
Sem melhora do hematócrito ou dos sinais hemodinâmicos, repete-se a fase de expansão, até três vezes. Havendo melhora, entra a manutenção: 25 mL/kg em 6 horas e, se persistir a melhora, 25 mL/kg em 8 horas. Se não houver melhora clínica e laboratorial após as expansões, conduz-se como Grupo D.
sintomático
Dipirona ou paracetamol para dor e febre. Nada de salicilato, anti-inflamatório não esteroide ou corticosteroide. Notificar o caso, já que é a primeira unidade que atende este paciente, e preencher o cartão de acompanhamento.
07

Agora feche você

Mulher de 68 anos, hipertensa em uso de losartana e hidroclorotiazida, chega à unidade básica de saúde no terceiro dia de febre. Relata febre aferida de 38,7 graus, cefaleia, dor no corpo e náusea, sem vômitos. Está conseguindo comer e beber. Diz que a filha teve dengue confirmada na semana passada. Ao exame: bom estado geral, consciente e orientada, temperatura axilar 38,2 graus; pressão arterial 128 por 78 mmHg, sem queda postural; frequência cardíaca 88; frequência respiratória 16; extremidades aquecidas, enchimento capilar menor que 2 segundos. Abdome indolor, fígado não palpável. Sem petéquias espontâneas. Prova do laço realizada conforme a técnica: negativa. Peso 62 kg.
achado
Terceiro dia de febre, ainda febril, sem nenhum sinal de alarme: sem dor abdominal intensa, sem vômitos persistentes, sem acúmulo de líquidos, sem hipotensão postural ou lipotimia, sem hepatomegalia, sem sangramento de mucosa, sem letargia ou irritabilidade. Sem sinal de gravidade. Prova do laço negativa e nenhum sangramento espontâneo de pele.
detalhe que decide
Idade de 68 anos e hipertensão arterial em tratamento. Adultos acima de 65 anos e hipertensão constam nominalmente na lista de condições clínicas especiais e comorbidades do fluxograma do Ministério da Saúde.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Dar alta ao paciente que melhorou da febre Atrai porque é o que a intuição clínica faz em quase toda virose: febre cedeu, paciente melhorando, alta. Na dengue é o inverso — a fase crítica começa com a defervescência, entre o terceiro e o sétimo dia, e é nela que surgem os sinais de alarme e o choque. Por isso o retorno do Grupo A é agendado justamente para o dia da melhora da febre.
  2. 2Trocar o 20 mL/kg do Grupo D pelo do Grupo C O número 20 mL/kg aparece nos dois grupos e significa coisas opostas. No Grupo D é bolus de expansão rápida em até 20 minutos. No Grupo C é o teto acumulado de uma fase de expansão inteira, em 2 horas — dez vezes mais lento. Infundir o bolus do D num paciente do C é hiper-hidratar quem tem permeabilidade capilar aumentada; infundir a etapa do C num paciente chocado é subtratar um choque que mata em 12 a 24 horas.
  3. 3Esperar o hemograma para começar a hidratar o Grupo C ou D Parece prudente e é o contrário. O manual manda iniciar a reposição volêmica imediatamente, em qualquer ponto de atenção, independentemente do nível de complexidade, inclusive durante a transferência para unidade de referência e mesmo na ausência de exames complementares. O hemograma serve para reavaliar a resposta, não para autorizar o início.
  4. 4Classificar como Grupo A quem tem comorbidade O erro nasce de ler o Grupo B como o grupo do sangramento. Ele é também o grupo do lactente com menos de 24 meses, da gestante, do adulto acima de 65 anos, do hipertenso, do diabético, do asmático, do obeso, do renal crônico, do hepatopata. Prova do laço negativa e ausência de sinais de alarme não devolvem essas pessoas para o Grupo A.
  5. 5Pedir sorologia no terceiro dia de febre Atrai porque sorologia soa como o exame que fecha diagnóstico. Até o quinto dia o exame que serve é NS1, RT-PCR ou isolamento viral; IgM por ELISA só a partir do sexto dia. E o erro maior está embutido: nenhum desses exames muda a conduta, que é definida pelo estadiamento clínico e pelo hemograma.
  6. 6Transfundir plaqueta porque a plaqueta está baixa Plaquetopenia impressiona no laudo e é o gatilho errado. Transfusão de plaquetas fica reservada a sangramento persistente não controlado, após corrigidos os fatores de coagulação e o choque, com trombocitopenia associada a INR acima de 1,5 vez o valor normal. Sangramento na dengue se previne com reposição volêmica precoce e adequada.
  7. 7Usar plaqueta acima de um valor como critério de alta A lista de alta tem cinco itens e o quinto é plaquetas em elevação — tendência, não patamar. O paciente pode receber alta com plaqueta ainda baixa, desde que esteja subindo e os outros quatro critérios estejam preenchidos: estabilidade hemodinâmica por 48 horas, sem febre por 24 horas, melhora visível do quadro e hematócrito normal e estável por 24 horas.
  8. 8Prescrever anti-inflamatório para a dor do corpo A mialgia intensa convida ao anti-inflamatório, e o paciente muitas vezes já se automedicou com um. Salicilatos, anti-inflamatórios não esteroides e corticosteroides estão proibidos: agravam gastrite e sangramento, comprometem a função plaquetária de quem já tem plaquetopenia, e o ácido acetilsalicílico ainda carrega risco de síndrome de Reye na criança. Sobram dipirona e paracetamol.
  9. 9Confiar na pressão normal do hipertenso e da gestante Nos dois, o número engana por motivos diferentes. No hipertenso crônico, queda de 40% em relação aos níveis habituais já pode significar hipotensão, mesmo com valor absoluto aceitável. Na gestante, a hemodiluição fisiológica derruba o hematócrito e mascara a hemoconcentração, e taquicardia e hipotensão postural aparecem tardiamente. Nos dois casos, perfusão periférica e diurese valem mais que o manguito.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro de febre alta, dor retro-orbitária, mialgia, exantema, prova do laço positiva, leucopenia e plaquetopenia em área de circulação do Aedes é clássico de dengue. Leptospirose costuma cursar com mialgia em panturrilhas, sufusão conjuntival e história de exposição à água contaminada. Febre tifoide evolui de forma insidiosa com febre em escada, dor abdominal e roséola tífica, sem dor retro-orbitária. Malária exige história epidemiológica de área endêmica e paroxismos febris com calafrios. Hepatite A cursa com icterícia e elevação de transaminases, não com exantema e dor retro-orbitária.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a questão os usa. Fases: febril de 2 a 7 dias, com febre de 39 a 40 graus; crítica começando com a defervescência, entre o terceiro e o sétimo dia; choque tipicamente no quarto ou quinto dia, intervalo do terceiro ao sétimo, extravasamento durando 24 a 48 horas e óbito possível em 12 a 24 horas. Sinais de alarme, sete clínicos: dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, acúmulo de líquidos, hipotensão postural ou lipotimia, hepatomegalia maior que 2 cm, sangramento de mucosa, letargia ou irritabilidade; mais o aumento progressivo do hematócrito. Sinais de choque: taquicardia, extremidades frias, pulso filiforme, enchimento capilar acima de 2 segundos, pressão convergente abaixo de 20 mmHg, taquipneia, oligúria abaixo de 1,5 mL/kg/h, hipotensão e cianose, estas duas tardias. Hipotensão no adulto: sistólica abaixo de 90 ou média abaixo de 70 mmHg; em criança até 10 anos, quinto percentil da sistólica igual a 70 mais duas vezes a idade. Prova do laço: manguito na média entre sistólica e diastólica, 5 minutos no adulto e 3 na criança, quadrado de 2,5 cm, positiva com 20 ou mais petéquias no adulto e 10 ou mais na criança. Hidratação oral: adulto 60 mL/kg/dia, um terço com sais de reidratação; criança até 10 kg 130, de 10 a 20 kg 100, acima de 20 kg 80 mL/kg/dia. Grupo C: 10 mL/kg na primeira hora, teto de 20 mL/kg em 2 horas por fase, até três fases; manutenção 25 mL/kg em 6 horas e 25 mL/kg em 8 horas. Grupo D: 20 mL/kg em até 20 minutos, até três vezes. Internação mínima de 48 horas no C e na terapia intensiva no D. Laboratório: até o quinto dia NS1, RT-PCR ou isolamento; do sexto em diante IgM. Alta: cinco critérios.

em 30 dias

As decisões, e não os números. Primeiro: a pergunta inicial do fluxograma é sempre sinal de alarme ou de gravidade, e ela é binária — um único sinal de alarme já leva ao Grupo C, e o Grupo B só é avaliado em quem passou limpo por essa pergunta. Segundo: o Grupo B tem duas portas independentes, sangramento espontâneo ou induzido, e condição especial, comorbidade ou risco social; esquecer a segunda porta é o erro mais comum de classificação. Terceiro: hidratação oral para A e B, venosa para C e D, e nos dois últimos ela começa antes de qualquer exame, em qualquer ponto de atenção. Quarto: os grupos são dinâmicos nas duas direções — B vira C com hemoconcentração ou sinal de alarme, C vira D sem melhora após as expansões, e D volta para a expansão do C quando responde. Quinto: o exame que decide conduta é o hemograma; o exame que confirma a doença é o do dia de doença e serve à vigilância. Sexto: nas populações que mudam o estadiamento, o volume não muda, a vigilância muda — no idoso pela sobrecarga de fluidos, na gestante porque a fisiologia mascara o extravasamento, no lactente porque o agravamento é súbito. Sétimo: existe uma classificação brasileira em quatro grupos e uma classificação da OMS em três categorias de gravidade com três grupos de manejo que reaproveitam as letras A, B e C com outro sentido; identificar qual está sendo cobrada, pelo vocabulário e pelas alternativas, resolve as questões que parecem ter duas respostas.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 41 anos no quinto dia de doença, com a febre tendo cedido ontem, chega ao pronto atendimento com dor abdominal intensa e contínua, quatro episódios de vômito, tontura ao sentar e fígado palpável a 3 centímetros do rebordo costal — bairro com vários casos de dengue — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Dengue — Preparatório para provas | OsceLabs