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Clínica MédicaInfectologia

Zoonoses ocupacionais: brucelose e febre Q

Exposição ocupacional e alimentar, diagnóstico microbiológico seguro e tratamento combinado da brucelose e da febre Q.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Qual profissional tem risco ocupacional aumentado para brucelose e, portanto, exige atenção redobrada em acidentes com material biológico?

02

Como esse tema cai

O objeto são duas zoonoses de aquisição alimentar e ocupacional que produzem febre de curso arrastado: a brucelose e a febre Q. Entram aqui o adulto com semanas ou meses de febre, sudorese e emagrecimento, o trabalhador que se acidenta manipulando animal ou amostra, e a pessoa que consome leite cru e derivados não pasteurizados. Entram também as duas perguntas de anamnese que resolvem o caso quando nenhuma outra resolve: em que você trabalha, e o que você come.

A fronteira com o capítulo de leptospirose e febre amarela desta mesma apostila é a que mais importa, e ela tem dois eixos. O primeiro é o tempo: lá o paciente adoece em dias, com febre alta de início súbito, icterícia e sangramento ou queda de diurese; aqui o paciente adoece em semanas a meses, com febre que vai e volta, sudorese noturna e perda de peso, e a icterícia é exceção. O segundo é a exposição: água de enchente, lama, esgoto e rato apontam para leptospirose; mata, cachoeira e macaco morto apontam para febre amarela; rebanho, ordenha, parto de animal, abatedouro, laboratório e queijo artesanal apontam para cá. A dissociação enzimática que separa aquelas duas doenças não separa as duas doenças que entram aqui.

Também fica de fora, com endereço, o que a apostila de Medicina do Trabalho resolve: a caracterização do nexo entre a doença e a atividade, a comunicação de acidente de trabalho, o benefício e a estabilidade, e a mecânica da notificação de doença relacionada ao trabalho. Aqui se reconhece a doença e se decide o antimicrobiano; a consequência previdenciária é de lá. Do mesmo modo, a endocardite infecciosa com sua tabela de critérios e sua profilaxia pertence ao capítulo de endocardite da apostila de Cardiologia — daqui vem apenas o motivo pelo qual dois desses pacientes têm hemocultura persistentemente negativa.

O tema mudou de estatuto no Brasil em maio de 2025, quando o Ministério da Saúde publicou um protocolo clínico federal para a brucelose humana. Antes disso, a régua brasileira era emprestada de textos internacionais; agora existe documento nacional com definições de caso, esquema, duração, profilaxia pós-exposição e monitoramento — e ele não coincide, em pontos importantes, com o que os livros ensinam há quarenta anos. Para a febre Q não há documento nacional, e a régua operante continua sendo a recomendação norte-americana de 2013.

03

O que muda decisão

Duas portas de entrada, e a que a anamnese esquece

A brucelose é causada por cocobacilos gram-negativos intracelulares facultativos do gênero Brucella. Quatro espécies importam para o ser humano: Brucella melitensis, de caprinos e ovinos, a mais virulenta; Brucella abortus, de bovinos, que é a que domina no Brasil; Brucella suis, de suínos; e Brucella canis, de cães. Saber qual espécie predomina no país não é erudição: ela muda o perfil de resistência e o desempenho dos testes.

A primeira porta é alimentar, e é a mais lembrada. Leite cru e derivados não pasteurizados — queijo fresco artesanal, manteiga, nata, iogurte, sorvete e cremes — carregam bactérias que sobrevivem meses nesses produtos. Carne mal cozida tem risco potencial e é via menos frequente. É a porta que explica o caso urbano, em quem nunca chegou perto de uma vaca e comprou queijo de produtor em feira livre.

A segunda porta é ocupacional, e é a que a anamnese pula. O protocolo federal descreve quatro cenários: contato com secreções reprodutivas, urina e leite de animais infectados; inalação de aerossóis em ambientes de criação intensiva, onde a bactéria sobrevive na lama, em produtos do parto, em carcaças, esterco, poeira, água e solo; contato de pele lesada, mucosa ou conjuntiva com fômites contaminados durante procedimento veterinário ou manipulação de tecidos; e a exposição acidental de laboratório. Trabalhador rural, veterinário, funcionário de matadouro e da indústria de carne compõem o grupo, e a ele se somam quem vacina rebanho e quem manipula amostras.

Os números brasileiros confirmam onde está o risco. Entre 2014 e 2018 foram notificados 3.612 casos suspeitos no país, dos quais 25% se confirmaram; a região Sul concentrou 22% das notificações, 75% dos casos ocorreram em homens, 53% tinham exposição ocupacional e metade morava em zona rural, com pico entre 30 e 39 anos. A incidência anual estimada é de 0,11 caso por 100.000 habitantes, número que o próprio documento trata como subestimado.

Há vias menos frequentes que valem menção porque aparecem em enunciado: transmissão vertical e neonatal, aleitamento materno, transmissão sexual, transfusão e doação de órgãos. A infecção intrauterina pode causar abortamento, parto prematuro e infecção congênita.

Diagrama em Y: no ramo superior, um recipiente de leite com uma cunha de queijo; no ramo inferior, a silhueta de um bovino em cercado com partículas dispersas subindo em leque; as duas setas convergem num círculo vazio à direita, que representa a pessoa acometida.
As duas portas convergem no mesmo paciente. Em cima, a alimentar: leite cru e derivados não pasteurizados, em que a bactéria sobrevive meses. Embaixo, a ocupacional: contato com secreções e produtos de parto, e inalação de aerossóis em ambiente de criação. A anamnese que só cobre uma delas perde metade dos casos.

Uma febre que volta, uma astenia que não passa

O período de incubação vai de uma semana a dois meses, mais comumente entre duas e quatro semanas, e ocasionalmente se estende por vários meses. O início é insidioso com mais frequência do que agudo, e a doença tende à cronificação quando não tratada.

O quadro é uma síndrome febril inespecífica com sinais constitucionais. Segundo as séries reunidas no protocolo federal, febre aparece em cerca de 78% dos casos, artralgia em 65%, mialgia em 47% e dor lombar em 45%. Somam-se mal-estar, astenia desproporcional ao quadro, inapetência, perda de peso, cefaleia, tosse e alterações de humor com padrão depressivo. Ao exame, hepatomegalia, esplenomegalia e linfadenopatia.

Dois detalhes semiológicos vêm dos textos clássicos e o protocolo os registra. O primeiro é o padrão ondulante da febre, com períodos afebris de dias intercalados por recrudescimento — o que faz o paciente acreditar que melhorou e o médico acreditar que o antibiótico anterior funcionou. O segundo é a sudorese noturna profusa com odor peculiar, descrito como de mofo, que obriga à troca de roupa de cama.

Quando a doença se arrasta, ela se localiza, e é aí que aparece o que muda a conduta. O sistema osteoarticular é o mais acometido, com sacroileíte, espondilodiscite e artrite periférica — a dor lombar de ritmo inflamatório, que piora no fim da noite e melhora ao andar, é a apresentação que mais se confunde com espondiloartrite. Seguem o acometimento geniturinário, com orquiepididimite; o do sistema nervoso central, com meningite e meningoencefalite; e o cardiovascular, com endocardite, que é a complicação de maior mortalidade e a razão de o ecocardiograma entrar na avaliação.

Em crianças a febre pode ser o único sintoma, e o acometimento osteoarticular é a principal complicação. Em gestantes o risco é obstétrico — abortamento, prematuridade, infecção intrauterina e morte fetal —, o que faz do reconhecimento precoce uma decisão de desfecho e não de conforto.

As definições que o protocolo federal criou, e por que elas importam

O protocolo de 2025 fez algo que nenhum texto brasileiro tinha feito: definiu operacionalmente o que conta como caso. Essas definições são a espinha do capítulo porque determinam quem investiga, quem trata e quem apenas acompanha.

Caso suspeito sintomático é o paciente com febre acompanhada de sinais constitucionais — calafrios, mialgia, sudorese, artralgia, astenia, fraqueza, hepatoesplenomegalia — ou com comprometimento localizado de órgão, como artrite, orquite, endocardite ou meningite, associado a vínculo epidemiológico: consumo de alimento contaminado, exposição a animal infectado ou exposição acidental a material orgânico. Caso suspeito assintomático é a pessoa exposta que não tem sintoma nenhum — e ela existe como categoria justamente porque há conduta para ela.

Diagnóstico provável é o caso suspeito sintomático com positividade em duas plataformas sorológicas distintas — Rosa Bengala e ensaio imunoenzimático total ou da fração de imunoglobulina G — ou com detecção de material genético da bactéria por reação em cadeia da polimerase. Uma plataforma só não fecha, e a detecção isolada de imunoglobulina M não é aceita como critério.

Diagnóstico definitivo é o caso suspeito sintomático confirmado por crescimento em cultura ou por elevação de quatro vezes no título de um teste sorológico em duas amostras colhidas com intervalo igual ou superior a duas semanas. Repare no desenho: cultura ou cinética, e não título isolado.

As demais definições resolvem o seguimento. Falha terapêutica é a persistência de sinais ou sintomas após seis semanas de início do tratamento. Recidiva é o reaparecimento após período assintomático, até doze meses depois do fim do tratamento. Soroconversão recente é a viragem sorológica ou a elevação de quatro vezes ou mais em qualquer teste durante o seguimento de um exposto — e ela é considerada situação de alto risco de adoecimento, com oportunidade de intervenção.

O laboratório, e o aviso que protege o técnico

O isolamento em cultura é o padrão-ouro e é o que dá diagnóstico definitivo, mas tem três limitações práticas: é laborioso, exige incubação prolongada e requer infraestrutura com nível de biossegurança 3. A hemocultura rende melhor na fase aguda, definida como menos de três meses de infecção, e perde sensibilidade nas formas arrastadas — o que inverte a intuição de pedir cultura justamente no paciente que está doente há mais tempo.

Por isso o protocolo estrutura a rotina em torno de sorologia e biologia molecular. A recomendação é realizar simultaneamente duas técnicas diferentes: aglutinação em lâmina pelo antígeno tamponado, o Rosa Bengala, titulável ou não, e ensaio imunoenzimático total ou da fração de imunoglobulina G. Positivos os dois, tem-se diagnóstico provável. Em paralelo, colhe-se sangue total para a reação em cadeia da polimerase — e um resultado negativo nessa técnica não descarta a suspeita.

Quando há material de sítio acometido — líquido articular, fragmento ósseo, líquido cefalorraquidiano, vegetação valvar —, ele segue para cultura e para biologia molecular, porque o rendimento em tecido é superior ao do sangue nas formas localizadas.

Há um ato que não é exame e vale ponto em prova prática: avisar o laboratório da suspeita. A brucelose é uma das infecções adquiridas em laboratório mais relatadas no mundo, e o risco de exposição significativa cresce muito depois que o material é semeado em meio sólido ou líquido. Procedimentos de rotina — homogeneizar tecido, centrifugar, agitar suspensão — dispersam a bactéria pelo ambiente. Comunicar a suspeita permite que a amostra seja manipulada em cabine com barreira física e por equipe informada, e é também o que autoriza a incubação prolongada.

Os exames inespecíficos compõem o retrato e não fecham nada: anemia normocítica, leucopenia com linfocitose relativa, plaquetopenia, elevação de velocidade de hemossedimentação e de proteína C reativa, e alteração discreta de transaminases e de fosfatase alcalina. Ecocardiograma para rastrear acometimento valvar e imagem dirigida ao sítio doloroso completam a avaliação.

Tratar: sempre combinado, sempre longo

A regra que organiza toda a terapêutica é uma só: combinação de dois antimicrobianos com atividade intracelular, por seis semanas. Monoterapia produz recidiva com frequência inaceitável, porque a bactéria vive dentro de células e sobrevive a esquemas curtos.

Para adultos e crianças acima de dez anos, o protocolo federal traz dois esquemas preferenciais e um alternativo. Preferenciais: doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 42 dias, associada a estreptomicina 1.000 mg por dia por via intramuscular por 14 dias; ou a mesma doxiciclina por 42 dias associada a gentamicina 5 mg por quilograma por dia, por via intramuscular ou intravenosa, por 5 a 7 dias. Alternativo: doxiciclina 100 mg a cada 12 horas somada a rifampicina 600 mg uma vez ao dia, ambas por 42 dias.

Para crianças até dez anos e para gestantes, em que as tetraciclinas são contraindicadas, o esquema é sulfametoxazol com trimetoprima associado a rifampicina, por 42 dias — na gestante, com 600 mg de rifampicina uma vez ao dia, e com suplementação de ácido fólico por causa da interferência do antifólico. Aminoglicosídeos e quinolonas também não são recomendados na gestação.

Uma contraindicação específica precisa ser decorada porque parece detalhe e decide alternativa: a rifampicina não entra quando a infecção veio da cepa vacinal RB51, porque essa cepa é resistente ao fármaco. A observação vale tanto para tratamento quanto para profilaxia.

Os casos que saem do protocolo estão nomeados: acometimento do sistema nervoso central, endocardite, osteomielite, abscesso profundo e pacientes imunossuprimidos devem ser conduzidos em serviço especializado, com esquema individualizado. Como princípio geral, o documento sugere estender o tratamento para quatro a seis meses na osteomielite e considerar drenagem cirúrgica quando houver coleção. Recidiva em até doze meses e falha após seis semanas de tratamento são as duas balizas do seguimento.

O acidente com Brucella, e a única profilaxia com algoritmo brasileiro

A profilaxia pós-exposição é a parte mais original do protocolo brasileiro, e é onde o tema encontra a saúde do trabalhador. A decisão se apoia na caracterização da fonte e do contexto: o acidente de laboratório com material comprovadamente contaminado é a situação com mais relatos e mais evidência, e é dela que veio a estratificação de risco adotada — o documento estendeu a recomendação a todos os acidentes de alto risco, dentro e fora do laboratório.

O esquema padrão é doxiciclina 100 mg associada a rifampicina 300 mg, ambas a cada 12 horas, por 21 dias. O contraste com o tratamento é o que a prova cobra: 21 dias para prevenir, 42 dias para tratar quem já tem sintoma. A profilaxia pode ser iniciada em até 24 semanas depois de uma exposição de alto risco, o que é uma janela generosa e contraintuitiva.

Duas variações completam o quadro. Quem tem contraindicação à doxiciclina recebe sulfametoxazol com trimetoprima associado a rifampicina, também por 21 dias. E quem se acidenta com a vacina de cepa RB51 não recebe rifampicina, pela resistência já mencionada: a estratégia a considerar é doxiciclina em monoterapia por 21 dias — a única circunstância em que monoterapia aparece neste tema.

Para quem não recebe profilaxia, existe o monitoramento sorológico. Colhe-se sorologia basal imediatamente ou em até 14 dias da exposição, para saber a condição anterior do trabalhador — positividade nessa coleta significa infecção prévia ao acidente, não o acidente. Depois, repete-se periodicamente nos primeiros seis meses, com intervalos de duas a seis semanas conforme o risco estimado. A detecção de soroconversão recente reclassifica a pessoa como alto risco e abre a janela para profilaxia de 21 dias.

Há uma exceção que fecha o raciocínio e explica por que a norma agropecuária importa aqui: não existe monitoramento sorológico para exposição à cepa RB51 nem à Brucella canis, porque nenhuma das duas produz anticorpos detectáveis pelos métodos disponíveis. É a mesma propriedade que fez a RB51 ser escolhida para vacinar fêmeas bovinas mais velhas sem confundir o rastreamento do rebanho. Nesses acidentes, o seguimento é clínico, e qualquer sintoma manda direto para cultura. Todos os expostos, com ou sem profilaxia, automonitoram sinais e sintomas por seis meses.

Febre Q: a zoonose que se pega pelo ar

A febre Q é causada por Coxiella burnetii, bactéria intracelular obrigatória, e compartilha com a brucelose o reservatório — bovinos, caprinos e ovinos — e o grupo de risco. O que a distingue é a via: a transmissão se faz sobretudo por inalação de aerossóis, e não pela boca.

A concentração da bactéria nos produtos do parto é o que explica quase tudo. Placenta, líquidos e restos de parição de ruminantes contêm carga bacteriana altíssima; o material seca, vira poeira e é carregado pelo vento e pelo manejo do esterco. A bactéria resiste no ambiente por longos períodos, e a dose infectante é muito baixa. Daí a característica que aparece em enunciado: surtos atingem pessoas que nunca tocaram no animal e apenas estiveram a favor do vento, perto de uma propriedade em época de parição.

O grupo ocupacional é o mesmo da brucelose com um acréscimo: veterinários, criadores, trabalhadores de matadouro, tosquiadores e quem manipula produtos de parto. O consumo de leite cru é via possível e claramente secundária.

No Brasil a doença é subdiagnosticada por falta de suspeita e de teste disponível. A primeira evidência sorológica nacional é de 1953, e inquéritos posteriores encontraram positividade entre manipuladores de leite e trabalhadores de gado no Vale do Paraíba paulista. Como não há notificação obrigatória, não há série histórica — a revisão brasileira que reúne esses dados trata a lacuna como problema de saúde pública num país que lidera a exportação de carne bovina.

A infecção é assintomática na maioria das pessoas expostas. Entre as que adoecem, a apresentação divide-se em duas categorias que não são fases obrigatórias de um mesmo processo, e sim desfechos diferentes: a infecção aguda e a infecção persistente.

Aguda e persistente: a sorologia que se lê ao contrário

A infecção aguda se apresenta de três maneiras principais. Como síndrome febril inespecífica autolimitada, com cefaleia intensa retro-orbitária, mialgia e sudorese. Como pneumonia atípica, com tosse seca e achado radiológico desproporcional à ausculta. E como hepatite granulomatosa, com elevação de transaminases e o achado histológico característico do granuloma em anel de fibrina, também chamado granuloma em rosquinha, com um vacúolo central circundado por anel fibrinoide.

A infecção persistente é a que mata, e a endocardite é sua forma mais frequente. Ela se instala em quem tem substrato: valvopatia prévia, prótese valvar, enxerto vascular ou aneurisma, imunossupressão. A apresentação é arrastada, com febre baixa, emagrecimento, anemia e fenômenos imunológicos, e o achado que a define no laboratório é a hemocultura persistentemente negativa — a bactéria não cresce em meio convencional. Outras formas persistentes atingem osso, articulação e enxerto vascular. A gestação é situação de risco própria, com desfecho obstétrico adverso.

O diagnóstico é sorológico, por imunofluorescência indireta, e a leitura é o ponto que separa quem estudou de quem decorou. A bactéria tem duas variações antigênicas: a fase II, que domina a resposta na infecção aguda, e a fase I, que domina na persistente. Na infecção aguda, o título contra a fase II supera o da fase I. Na infecção persistente, a relação se inverte, com título alto contra a fase I. O padrão parece invertido em relação à intuição de que a fase I viria primeiro, e é justamente por isso que ele é cobrado.

O tratamento da forma aguda no adulto é doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 14 dias, com maior benefício quando iniciada nos primeiros dias de doença. Na gestação, a alternativa é sulfametoxazol com trimetoprima, pelo mesmo motivo que vale na brucelose.

A endocardite exige esquema longo e combinado: doxiciclina associada a hidroxicloroquina, por no mínimo 18 meses em valva nativa e 24 meses em prótese, com acompanhamento sorológico para decidir a suspensão. A hidroxicloroquina não é anti-inflamatória aqui — ela alcaliniza o vacúolo intracelular onde a bactéria vive e restaura a atividade da doxiciclina, que é bacteriostática em meio ácido.

Vigilância: a obrigação está no rebanho, não no paciente

Nem a brucelose humana nem a febre Q constam da Lista Nacional de Notificação Compulsória. O protocolo federal de 2025 registra que sete unidades federativas — Santa Catarina, Paraná, Tocantins, Rondônia, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — instituíram notificação de todos os casos suspeitos de brucelose por relevância epidemiológica local, e que essa é justamente a fonte dos poucos dados nacionais que existem.

A obrigação legal brasileira sobre brucelose recai sobre o animal. O Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose Animal, do Ministério da Agricultura, torna obrigatória a vacinação de todas as fêmeas bovinas e bubalinas entre três e oito meses de idade, em dose única de vacina viva liofilizada de cepa B19, e proíbe essa vacina acima de oito meses. A vacina de cepa RB51, que não induz anticorpos aglutinantes, pode substituí-la e é permitida em fêmeas mais velhas; cada uma tem marcação própria no animal.

Essa arquitetura tem consequência clínica direta. Como a RB51 não gera anticorpos detectáveis, o acidente com ela não pode ser acompanhado por sorologia — e como ela é resistente à rifampicina, a profilaxia perde o segundo fármaco. Duas decisões de beira de leito nascem de uma norma agropecuária.

Quando o caso é ocupacional, o canal que existe em todo o país é o das doenças relacionadas ao trabalho. A caracterização do nexo, a comunicação de acidente e as consequências previdenciárias estão na apostila de Medicina do Trabalho, e o médico assistente precisa apenas saber que o registro existe e que ele é a via pela qual o caso vira estatística.

A prevenção primária é a mesma para as duas doenças e cabe em três linhas: pasteurização de leite e derivados; equipamento de proteção individual na ordenha, no manejo de partos, no abate e no laboratório, incluindo o momento da vacinação do rebanho; e controle sanitário do rebanho, que é a única medida que interrompe a cadeia na origem.

Onde a prova costuma armar o vão

O primeiro vão é o da sorologia da brucelose. Uma geração inteira aprendeu soroaglutinação em tubo com título de corte e prova de Coombs anti-Brucella; o protocolo brasileiro de 2025 trabalha com Rosa Bengala mais ensaio imunoenzimático em duas plataformas, mais reação em cadeia da polimerase. Um enunciado que cite o documento nacional está pedindo a régua nova; um que descreva título de aglutinação está pedindo a antiga.

O segundo é o dos dois relógios. Vinte e um dias para profilaxia depois de acidente, quarenta e dois dias para tratamento de quem tem sintoma. Trocar um pelo outro é o erro mais previsível do tema, e a alternativa que oferece o número errado costuma vir com a droga certa.

O terceiro é o da rifampicina na exposição à cepa vacinal. É contraintuitivo porque a rifampicina é a companheira habitual da doxiciclina, e a exceção depende de saber que a cepa usada em bovinos adultos é resistente ao fármaco. É a mesma cepa que não permite monitoramento sorológico.

O quarto é o da sorologia da febre Q. Fase II maior que fase I na infecção aguda, fase I maior que fase II na persistente. Quem tenta deduzir pela numeração erra, porque a numeração das fases não segue a cronologia da doença.

O quinto é o da endocardite com hemocultura negativa. Diante de febre arrastada, valvopatia e culturas repetidamente negativas, as duas zoonoses tratadas aqui entram na lista junto com os agentes de crescimento fastidioso — e as duas se diagnosticam por sorologia, não por cultura de sangue. Para a brucelose, ainda assim, vale avisar o laboratório e pedir incubação prolongada.

E há um vão de anamnese, que é o mais caro de todos. Nenhuma das duas doenças se diagnostica por sintoma, porque os sintomas são de qualquer síndrome febril prolongada. As duas se diagnosticam pela pergunta sobre profissão, sobre contato com rebanho e sobre consumo de leite cru — e é essa pergunta que o enunciado esconde no meio do texto, esperando que o candidato não a leia.

04

Os números que decidem

Quase tudo neste tema é decidido por um par de números que se parecem. A tabela separa os pares que a prova troca.

Provável e definitivo não são sinônimos

Provável é o caso sintomático com positividade em duas plataformas sorológicas — Rosa Bengala e ensaio imunoenzimático — ou com material genético detectado. Definitivo exige cultura positiva ou elevação de quatro vezes no título entre duas amostras separadas por pelo menos duas semanas.

Sorologia da febre Q, ao contrário

Na infecção aguda o título contra a fase II supera o da fase I. Na infecção persistente, com endocardite à frente, a relação se inverte e a fase I domina. A numeração das fases não acompanha a cronologia da doença, e é aí que o erro nasce.

A cepa que muda duas decisões

A vacina de cepa RB51, usada em fêmeas bovinas, não induz anticorpos aglutinantes e é resistente à rifampicina. Por isso o acidente com ela não tem monitoramento sorológico e a profilaxia se faz com doxiciclina isolada, única monoterapia aceita neste tema.

Avisar o laboratório é conduta

A suspeita comunicada permite incubação prolongada da hemocultura e manipulação com barreira física. A brucelose é uma das infecções adquiridas em laboratório mais relatadas, e o risco cresce depois que o material é semeado.

Esquemas, prazos e cortes

SituaçãoCondutaDuração
Brucelose no adulto, esquema preferencialDoxiciclina 100 mg a cada 12 horas por via oral, com estreptomicina 1.000 mg por dia por via intramuscular42 dias de doxiciclina e 14 dias de estreptomicina
Brucelose no adulto, segundo preferencialDoxiciclina 100 mg a cada 12 horas com gentamicina 5 mg por quilograma por dia42 dias de doxiciclina e 5 a 7 dias de gentamicina
Brucelose no adulto, alternativoDoxiciclina 100 mg a cada 12 horas com rifampicina 600 mg uma vez ao dia42 dias
Brucelose em gestante ou criança até 10 anosSulfametoxazol com trimetoprima associado a rifampicina42 dias
Profilaxia após exposição de alto riscoDoxiciclina 100 mg com rifampicina 300 mg, ambas a cada 12 horas21 dias, iniciáveis em até 24 semanas
Profilaxia após acidente com a cepa vacinal RB51Doxiciclina 100 mg a cada 12 horas, sem rifampicina, pela resistência da cepa21 dias
Febre Q aguda no adultoDoxiciclina 100 mg a cada 12 horas, com maior benefício se iniciada cedo14 dias
Endocardite por Coxiella burnetiiDoxiciclina associada a hidroxicloroquina, com seguimento sorológico18 meses em valva nativa e 24 meses em prótese

A hemocultura rende mais na fase aguda, com menos de três meses de doença, e perde sensibilidade nas formas arrastadas — o oposto do que a intuição sugere.

Nem a brucelose humana nem a febre Q constam da Lista Nacional de Notificação Compulsória. Sete estados instituíram notificação própria de brucelose, e a obrigação federal existente recai sobre o rebanho.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual sorologia usar na brucelose: a régua clássica de aglutinação ou a combinação que o protocolo federal adotou

Aglutinação em tubo e prova de Coombs

O texto de referência da Organização Mundial da Saúde estrutura o diagnóstico sorológico em torno da soroaglutinação em tubo, com título de corte interpretado conforme a endemicidade da região, e da prova de Coombs anti-Brucella, indicada para detectar anticorpos bloqueadores nas formas arrastadas em que a aglutinação direta pode ser falsamente baixa.

Corbel MJ. Brucellosis in humans and animals. Genebra: World Health Organization, 2006. WHO/CDS/EPR/2006.7.

Rosa Bengala com ensaio imunoenzimático, e biologia molecular

O protocolo brasileiro de 2025 estrutura a rotina em duas técnicas realizadas simultaneamente — aglutinação em lâmina pelo antígeno tamponado e ensaio imunoenzimático total ou da fração de imunoglobulina G — somadas à reação em cadeia da polimerase em sangue total, e não incorpora a soroaglutinação em tubo nem a prova de Coombs às suas definições de caso.

Portaria SECTICS/MS nº 22, de 12 de maio de 2025 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Brucelose Humana, seção de diagnóstico laboratorial e definições.

Na prova

O sinal está no vocabulário do enunciado. Texto que fala em título de 1:160 ou de 1:320, em prova de Coombs anti-Brucella ou em anticorpo bloqueador está usando a régua clássica, e é ela que responde. Texto que menciona o protocolo do Ministério da Saúde, definição de caso provável ou duas plataformas sorológicas está usando a régua nova. Ambas convergem num ponto que nenhum enunciado contraria: título isolado não fecha diagnóstico definitivo, que exige cultura ou elevação de quatro vezes em duas amostras.

Profilaxia com antimicrobiano fora do laboratório: recomendar ou monitorar

Estender a profilaxia a todo acidente de alto risco

O protocolo brasileiro reconhece que a evidência disponível vem apenas de séries de exposição laboratorial, com oito estudos observacionais e 97 indivíduos, e que a qualidade dessa evidência é muito baixa — mas opta por estender a recomendação de profilaxia a todos os acidentes classificados como de alto risco, dentro e fora do laboratório, por 21 dias.

Portaria SECTICS/MS nº 22/2025 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Brucelose Humana, seção de profilaxia pós-exposição e Quadro 4.

Monitorar sorologicamente quando o risco é baixo

O mesmo documento registra que, fora do ambiente laboratorial, as evidências não sustentam recomendação universal de profilaxia, e apresenta como abordagem alternativa o monitoramento sorológico com coleta basal e repetições periódicas por seis meses, reservando o antimicrobiano para quem apresentar soroconversão recente.

Portaria SECTICS/MS nº 22/2025 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Brucelose Humana, seção de monitoramento sorológico e Quadro 5.

Na prova

O documento não se contradiz: ele grada por risco. Enunciado que descreve acidente com material comprovadamente contaminado, quebra de frasco, aerossol em bancada ou perfuração com agulha de vacina está no cenário de alto risco, e a resposta é profilaxia de 21 dias. Enunciado que descreve contato eventual, sem quebra de barreira e sem material confirmado, está no cenário de risco baixo, e a resposta é sorologia basal com repetição. A palavra que decide é a que qualifica o acidente.

Febre Q crônica ou infecção persistente focalizada

Febre Q crônica

A recomendação norte-americana de 2013 mantém a divisão entre febre Q aguda e febre Q crônica, define a segunda pela persistência da infecção com título elevado contra a fase I e pela presença de endocardite, infecção vascular ou osteoarticular, e organiza em torno dessa nomenclatura o esquema prolongado de doxiciclina com hidroxicloroquina.

Anderson A, Bijlmer H, Fournier PE, Graves S, Hartzell J, Kersh GJ, et al. Diagnosis and management of Q fever — United States, 2013. MMWR Recomm Rep. 2013;62(RR-03):1-30.

Infecção persistente focalizada

A revisão que propôs a mudança de paradigma sustenta que o termo crônico descreve mal a doença, porque o que define o prognóstico é o sítio em que a bactéria se instala — valva, enxerto, aneurisma, osso — e não a duração; propõe falar em infecção persistente focalizada e defende rastrear ativamente quem tem valvopatia depois de uma infecção aguda.

Eldin C, Mélenotte C, Mediannikov O, Ghigo E, Million M, Edouard S, et al. From Q fever to Coxiella burnetii infection: a paradigm change. Clin Microbiol Rev. 2017;30(1):115-190.

Na prova

A divergência é de nome e de ênfase, não de tratamento: as duas leituras chegam a doxiciclina com hidroxicloroquina por 18 a 24 meses. Enunciado brasileiro tende a usar o termo crônico, e enunciado traduzido de literatura recente pode usar persistente ou focalizada — se as duas expressões aparecerem entre as opções descrevendo o mesmo quadro, olhe o resto da frase, porque o que separa a alternativa certa costuma ser o esquema e a duração, não o rótulo.

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Caso resolvido

Mulher de 39 anos, professora, procura o ambulatório por febre há três semanas. A febre é vespertina e noturna, chega a 39 °C, vem com calafrio e cede de madrugada com sudorese profusa que obriga a trocar a roupa de cama, referida como de odor peculiar. Houve dois intervalos sem febre, de dois a três dias, com retorno depois. Associa astenia incapacitante, hiporexia, perda de 4 kg, cefaleia vespertina, artralgia migratória de joelhos e ombros sem edema, e peso em hipocôndrio esquerdo. Recebeu dois cursos de antimicrobiano empírico em pronto atendimento, sem resposta. Consome semanalmente queijo artesanal de leite não pasteurizado comprado de produtor em feira livre e, há cinco semanas, participou de uma festa em propriedade rural onde comeu o mesmo queijo com familiares. Ao exame: baço palpável a 3 cm do rebordo, fígado a 2 cm, sem linfonodomegalia periférica, sem sopro cardíaco. Hemoglobina 10,8 g/dL, leucócitos 3.900/mm3 com 46% de linfócitos, plaquetas 142.000/mm3, velocidade de hemossedimentação 58 mm na primeira hora, proteína C reativa 42 mg/L, transaminases discretamente elevadas.
Passo 1
Nomeie a síndrome antes da doença. Trata-se de febre de duração prolongada com padrão ondulante, sudorese noturna, perda de peso, artralgia e hepatoesplenomegalia, com citopenias discretas e provas inflamatórias elevadas. Esse conjunto abre uma lista clássica: tuberculose, febre tifoide, mononucleose, leishmaniose visceral, endocardite subaguda e linfoma. O que estreita a lista não está no exame físico.
Passo 2
Vá buscar o vínculo epidemiológico, que é o critério que a definição de caso exige. Consumo semanal de queijo de leite não pasteurizado é exposição alimentar típica, e a refeição compartilhada há cinco semanas cai dentro do período de incubação de duas a quatro semanas. Pergunte, na mesma consulta, sobre exposição ocupacional a rebanho, abatedouro, parto de animal e laboratório, e sobre outras pessoas doentes que comeram o mesmo queijo — a resposta muda a investigação de uma pessoa para a de um surto.
Passo 3
Peça o laboratório na configuração que o protocolo federal define, e avise quem vai processar. Duas plataformas sorológicas simultâneas — aglutinação em lâmina pelo antígeno tamponado e ensaio imunoenzimático total ou da fração de imunoglobulina G — mais sangue total para reação em cadeia da polimerase. Colha hemoculturas comunicando a suspeita ao laboratório, o que autoriza incubação prolongada e protege o técnico. Positividade nas duas plataformas já caracteriza diagnóstico provável e permite tratar.
Passo 4
Procure ativamente a doença localizada antes de tratar, porque ela muda a duração e o local do tratamento. Percuta as apófises espinhosas e examine as sacroilíacas em busca de espondilodiscite e sacroileíte; ausculte o coração e solicite ecocardiograma para rastrear acometimento valvar, que é a complicação de maior mortalidade; investigue sintomas neurológicos. Confirmada qualquer dessas formas, o caso sai do esquema padrão e vai para serviço especializado.
Passo 5
Prescreva combinado e longo, e organize o que vem depois. Doxiciclina 100 mg a cada 12 horas por 42 dias associada a estreptomicina 1.000 mg por dia por via intramuscular por 14 dias, ou a gentamicina por 5 a 7 dias; o esquema alternativo troca o aminoglicosídeo por rifampicina 600 mg ao dia pelos mesmos 42 dias. Explique a duração e o risco de recidiva, que é definida como reaparecimento em até 12 meses. Oriente suspender laticínios não pasteurizados, avalie os familiares expostos que estejam sintomáticos e acione a vigilância para investigar a fonte e o rebanho de origem.
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Agora feche você

Homem de 34 anos, técnico de laboratório de defesa agropecuária, comparece ao serviço de saúde do trabalhador trinta dias depois de um acidente. Ele relata que, ao vacinar bovinos em campo com a vacina de cepa RB51, sofreu perfuração acidental do polegar com a agulha carregada. Não usava luvas no momento. Está assintomático, sem febre, sem mialgia e sem artralgia. Não procurou atendimento na ocasião e não colheu nenhum exame. Nega comorbidades, não usa medicação contínua e não é alérgico a antimicrobianos. Traz o rótulo do frasco e a data do acidente anotada. Pergunta se precisa tomar alguma coisa, quanto tempo precisa esperar para saber se pegou a doença e se pode continuar trabalhando.
Passo 1
Classifique o acidente antes de qualquer prescrição. Escreva por que uma perfuração com agulha carregada de vacina viva, sem barreira, é acidente de alto risco, e diga o que, na definição do protocolo federal, torna este trabalhador um caso suspeito assintomático. Diga também se o intervalo de trinta dias desde o acidente já fecha a janela de intervenção, e por quê.
Passo 2
Prescreva a profilaxia e justifique cada fármaco que entra e o que fica de fora. Escreva o esquema padrão e diga qual das duas drogas habituais precisa ser retirada neste caso específico, por qual propriedade da cepa envolvida, e qual conduta resta. Depois diga por quantos dias e explique por que esse número não é o mesmo do tratamento de quem tem sintoma.
Passo 3
Responda à segunda pergunta do paciente, que é sobre seguimento. Explique o que aconteceria com o monitoramento sorológico num acidente com outra cepa — quando se colhe a amostra basal, o que a positividade nessa primeira coleta significaria, e com que intervalo se repete e por quanto tempo. Em seguida, diga por que nada disso se aplica ao acidente com esta cepa, e qual é o único seguimento possível aqui.
Passo 4
Escreva as instruções de automonitoramento que este trabalhador leva para casa. Liste os sinais e sintomas pelos quais ele deve procurar atendimento, o período durante o qual essa vigilância deve durar e o que exatamente será feito se algum deles aparecer — incluindo qual exame passa a ser o caminho diagnóstico quando a sorologia não serve.
Passo 5
Feche o caso pelo lado coletivo e diga onde cada providência é resolvida. Aponte as medidas de proteção que evitariam a repetição do acidente no momento da vacinação do rebanho, diga se a brucelose humana está na Lista Nacional de Notificação Compulsória e qual é, então, o canal de registro que existe para um caso ocupacional — nomeando a apostila em que a caracterização do nexo e a comunicação de acidente estão detalhadas.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar brucelose com monoterapia ou com esquema curto A bactéria é intracelular, e a recidiva é a consequência previsível de esquema único ou abreviado. A regra é combinação de dois fármacos por 42 dias, com o aminoglicosídeo em curso mais curto dentro desse período. A única monoterapia aceita em todo o tema é a doxiciclina isolada na profilaxia após acidente com a cepa vacinal RB51.
  2. 2Trocar os 21 dias da profilaxia pelos 42 do tratamento São dois relógios distintos e a confusão é frequente: 21 dias de doxiciclina com rifampicina para quem se expôs e não tem sintoma, e 42 dias de esquema combinado para quem adoeceu. A profilaxia ainda pode ser iniciada em até 24 semanas depois da exposição de alto risco, prazo bem maior do que a intuição sugere.
  3. 3Incluir rifampicina na profilaxia do acidente com a vacina de cepa RB51 Essa cepa é resistente à rifampicina, e o protocolo federal registra a contraindicação tanto para tratamento quanto para profilaxia. A conduta é doxiciclina isolada. Pela mesma cepa não induzir anticorpos aglutinantes, também não existe monitoramento sorológico possível nesse acidente — o seguimento é clínico, com cultura se aparecer sintoma.
  4. 4Pedir hemocultura como estratégia principal na forma arrastada A cultura é padrão-ouro e dá diagnóstico definitivo, mas rende melhor na fase aguda, com menos de três meses de doença, e perde sensibilidade justamente no paciente que está doente há mais tempo. Nas formas localizadas, o material do sítio acometido rende mais que o sangue, e a sorologia em duas plataformas é o caminho da rotina.
  5. 5Coletar amostra sem avisar o laboratório da suspeita O aviso tem duas funções: autorizar a incubação prolongada, sem a qual a cultura é liberada como negativa antes do tempo, e proteger o técnico. A brucelose é uma das infecções adquiridas em laboratório mais relatadas, e o risco aumenta depois que o material é semeado em meio de cultivo e submetido a centrifugação e agitação.
  6. 6Ler a sorologia da febre Q pela ordem dos números Parece lógico que a fase I venha primeiro, e é o contrário. Na infecção aguda o título contra a fase II é o dominante; na infecção persistente, com endocardite à frente, o título contra a fase I é que se eleva. Quem deduz pela numeração inverte o diagnóstico e a conduta.
  7. 7Excluir febre Q porque as hemoculturas estão negativas Coxiella burnetii não cresce em meio convencional, e a hemocultura negativa é característica da endocardite que ela causa, não argumento contra o diagnóstico. Em febre arrastada com valvopatia ou prótese e culturas repetidamente negativas, a investigação sorológica dessa e de outras causas fastidiosas é obrigatória.
  8. 8Usar doxiciclina na gestante com qualquer das duas doenças As tetraciclinas são contraindicadas na gestação, e aminoglicosídeos e quinolonas também não são recomendados. Na brucelose, o esquema é sulfametoxazol com trimetoprima associado a rifampicina por 42 dias, com suplementação de ácido fólico. Na febre Q, a alternativa em gestantes é o mesmo antifólico, e o desfecho obstétrico é o que justifica tratar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A brucela é um dos agentes mais associados a infecção adquirida em laboratório, porque a manipulação de culturas gera aerossóis altamente infectantes, o que exige nível de biossegurança adequado e profilaxia após exposição. Pensar nos profissionais de assistência direta engana quem raciocina por proximidade com pacientes, mas a transmissão interpessoal é excepcional e o risco real está na cultura manipulada.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Brucelose e febre Q são zoonoses de curso arrastado, adquiridas por leite cru e por exposição ocupacional a rebanho; a febre Q vem sobretudo por aerossol de produtos de parto. Diagnóstico provável de brucelose exige duas plataformas sorológicas — Rosa Bengala e ensaio imunoenzimático — ou material genético detectado; definitivo exige cultura ou elevação de quatro vezes em duas amostras separadas por duas semanas. Tratamento sempre combinado, por 42 dias, com doxiciclina somada a estreptomicina, gentamicina ou rifampicina; gestantes e crianças até dez anos recebem sulfametoxazol com trimetoprima e rifampicina. Profilaxia após acidente de alto risco: 21 dias.

em 30 dias

O que os documentos não escrevem juntos: o protocolo federal de 2025 abandonou a soroaglutinação em tubo e a prova de Coombs que os livros ensinam e trabalha com Rosa Bengala, ensaio imunoenzimático e biologia molecular. A cepa vacinal RB51, obrigatória no rebanho por norma agropecuária, é resistente à rifampicina e não induz anticorpos aglutinantes — por isso o acidente com ela se previne com doxiciclina isolada e não se acompanha por sorologia. Na febre Q, o título contra a fase II domina na infecção aguda e o da fase I na persistente; a endocardite tem hemocultura negativa e se trata com doxiciclina e hidroxicloroquina por 18 meses em valva nativa e 24 em prótese, porque o alcalinizante restaura a atividade da doxiciclina dentro do vacúolo. E nenhuma das duas doenças está na Lista Nacional de Notificação Compulsória.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Professora de trinta e nove anos com três semanas de febre vespertina que vai e volta, sudorese noturna profusa, artralgia migratória, perda de peso e dois cursos de antimicrobiano sem resposta. Conduza a anamnese até encontrar o vínculo epidemiológico que nenhum dos atendimentos anteriores procurou, examine baço, fígado, linfonodos e coluna, e monte a investigação e o tratamento sabendo que a duração do esquema é o que o paciente mais vai questionar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Zoonoses ocupacionais: brucelose e febre Q — Preparatório para provas | OsceLabs