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Clínica MédicaInfectologia

Chikungunya no adulto: a fase da doença decide o exame e o remédio

Poliartralgia simétrica e incapacitante depois da febre em área de arbovirose: o que muda entre a fase aguda, a pós-aguda e a crônica

O tempo de doença organiza diagnóstico, analgesia, terapia anti-inflamatória, reabilitação e escalonamento da artrite persistente.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Paciente no 100º dia de doença descreve queimação e formigamento nas duas mãos, com dormência nos três primeiros dedos e piora noturna, além de dor articular já em uso de anti-inflamatório sem benefício sobre esse componente. Qual é a conduta que atende ao sintoma descrito?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do adulto com chikungunya, do primeiro dia de febre ao quarto mês de dor articular. O eixo é o relógio da doença: em que dia o paciente está, e o que esse número decide sobre o exame que responde, a classe de analgésico liberada e a droga modificadora que entra.

Ficam de fora, com endereço próprio: a mecânica da notificação compulsória — periodicidade, esferas, ficha e sistema —, que pertence ao capítulo de vigilância das arboviroses, nesta mesma apostila; a classificação de risco e a hidratação por estágio, que são da dengue e estão no capítulo dela; e as arboviroses na criança, que têm capítulo próprio na apostila de Infectologia Pediátrica. As duas razões distintas pelas quais dengue e chikungunya afastam o anti-inflamatório na fase aguda estão trabalhadas no capítulo de analgesia da apostila de Medicina de Emergência.

O que fica aqui é o que a doença pede depois que a febre passa: caracterizar a dor, escolher o exame pela janela em que ele responde, reconhecer a forma grave e o idoso atípico, e conduzir a escada de tratamento das três fases — com as duas réguas brasileiras que a governam, e onde elas discordam.

03

O que muda decisão

A febre acaba em uma semana; a articulação, não

O vírus chikungunya é um alfavírus da família Togaviridae, transmitido pela picada de fêmeas de mosquitos do gênero Aedes, os mesmos que sustentam a dengue e a zika nas cidades brasileiras. O período de incubação dentro do corpo humano é curto — em média de três a sete dias —, e a doença abre de forma tão abrupta que o próprio paciente costuma cravar a hora em que começou. O nome vem de uma língua africana e descreve a aparência encurvada de quem sofre com a artralgia: aqueles que se dobram.

A febre é geralmente alta e contínua, com vários episódios ao dia, mais intensa nos primeiros três dias, e pode persistir por até sete. Ela vem acompanhada de poliartralgia intensa e, com frequência, de artrite verdadeira — simétrica, de predomínio distal, com edema e calor em punhos, articulações metacarpofalângicas, joelhos e tornozelos. Há exantema maculopapular, muitas vezes pruriginoso, e cefaleia. Nada disso é exclusivo da chikungunya, e é por isso que o quadro da primeira semana quase nunca resolve sozinho a identificação do vírus.

O que separa esta doença das outras arboviroses urbanas não é a semana febril: é o que sobra depois dela. Numa proporção grande de adultos a dor articular não termina com a febre. Ela continua, muda de caráter, e passa a se comportar como uma doença articular inflamatória — com rigidez matinal, tenossinovite de punhos e tornozelos, e às vezes erosão óssea. O paciente que volta ao consultório trinta, sessenta, cem dias depois não tem mais uma virose: tem um problema reumatológico que começou com uma virose.

Essa é a razão pela qual o raciocínio deste capítulo não é o de uma doença febril aguda. O relógio da doença é o dado clínico mais importante da consulta, porque é ele que define qual pergunta ainda faz sentido, qual exame ainda responde e qual medicamento pode entrar. Perguntar há quantos dias começou não é abertura protocolar de anamnese aqui — é o que organiza tudo o que vem depois.

Silhueta humana vista de frente, com a cabeça apenas esboçada e sem traços de rosto, mostrando destaque simétrico em punhos, mãos, tornozelos e pés, e destaque mais discreto em joelhos e cotovelos.
O acometimento articular é simétrico e de predomínio distal, com punhos, mãos, tornozelos e pés à frente. A febre cede em cerca de uma semana; a dor articular é o que permanece e o que separa as fases seguintes da doença.

Três fases, e a do meio tem dois nomes no Brasil

O espectro clínico é dividido cronologicamente em três fases. A fase aguda vai até o décimo quarto dia: os sinais e sintomas articulares duram até duas semanas. A fase intermediária começa no décimo quinto dia e vai até o fim do terceiro mês; os sintomas articulares persistem por mais de duas semanas, e a evolução pode ser contínua desde o início ou ter períodos intermitentes sem queixa. A fase crônica é a do paciente cujas queixas musculoesqueléticas passam de noventa dias.

O intervalo do meio é um só, mas recebe dois rótulos diferentes na literatura brasileira. O guia federal de manejo clínico o chama de fase pós-aguda, e assim nomeia as suas seções e os seus quadros de tratamento. As recomendações da sociedade brasileira de reumatologia chamam o mesmo intervalo de fase subaguda, e assim nomeiam os seus fluxogramas. Nenhum dos dois documentos usa a palavra do outro: o guia federal escreve pós-aguda dezenas de vezes e subaguda quatro; o consenso de reumatologia escreve subaguda dezenas de vezes e pós-aguda nenhuma.

Isso não é preciosismo de vocabulário. Quem estuda por um dos dois textos e procura o outro termo no outro texto não acha, e conclui que o assunto não está lá. Pior: o próprio guia federal, na frase em que orienta o que fazer com o paciente que só chega ao médico depois dos três meses sem nunca ter recebido tratamento, chama esse tratamento de terapêutica de fase subaguda — usando, na hora de instruir a conduta, o nome que ele não usa em nenhum título de seção. Os dois nomes descrevem a mesma janela: do décimo quinto dia ao nonagésimo.

A orientação prática que fecha esse ponto é útil e vale decorar: a divisão cronológica é o ideal, mas o paciente que chega tarde, sem ter recebido o tratamento da fase que já passou, deve ser tratado conforme a fase correspondente ao seu tempo de doença — e não conforme a fase que ele pulou. O relógio manda; a lacuna assistencial não se compensa retroativamente.

O dia de doença escolhe o exame

A confirmação laboratorial se faz por métodos diretos, que procuram o vírus, ou indiretos, que procuram os anticorpos. Entre os diretos estão o isolamento viral por inoculação, a pesquisa do genoma viral por reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa e a pesquisa de antígenos por imuno-histoquímica, esta última em geral acoplada ao estudo anatomopatológico. Entre os indiretos, a pesquisa de anticorpos das classes eme e gê por ensaio imunoenzimático, a soroconversão por inibição da hemaglutinação e a variação de título no teste de neutralização por redução de placas.

A regra que decide na prática é de calendário, não de preferência. A pesquisa do material genético do vírus exige coleta até o quinto dia de sintomas — depois disso a viremia caiu e o exame perde a capacidade de responder. A sorologia entra no sentido oposto: a primeira coleta do teste de neutralização é feita a partir do sexto dia, e a segunda quinze dias depois da primeira. Em caso de óbito, a extensão do prazo molecular pode ser discutida com as autoridades de vigilância.

Daí vem uma consequência que muda conduta: pedir o exame errado para o dia errado produz um resultado negativo que não significa ausência de doença. Um resultado molecular negativo colhido no oitavo dia diz apenas que já não havia vírus circulando no sangue naquele momento. Uma sorologia negativa colhida no terceiro dia diz apenas que o corpo ainda não teve tempo de produzir anticorpo. Exame fora da janela não afasta o diagnóstico; só desperdiça a amostra.

Há ainda a pergunta anterior a essa: o exame específico muda alguma coisa neste paciente? Em cenário de epidemia estabelecida, com quadro clínico e vínculo epidemiológico compatíveis, o tratamento é o mesmo com ou sem confirmação, e a confirmação é feita por amostragem. O diagnóstico específico ganha peso em quem tem comorbidade, na gestante em fim de gestação — pelo risco de transmissão para o bebê no periparto —, no idoso e no recém-nascido. E ganha peso de novo nas fases tardias, quando a pergunta deixa de ser qual arbovirose foi e passa a ser se a artrite que persiste é mesmo pós-viral ou se é outra doença reumatológica que começou por acaso naquele verão.

A fase aguda: aliviar a dor sem apagar a dengue

Na primeira semana a conduta é de suporte, e o eixo é a analgesia. O paciente com chikungunya aguda tem dor de intensidade desproporcional ao que se espera de uma virose comum, e subtratá-la é um erro clínico com consequência funcional. O caminho é escalonado: analgésico simples, e depois opioide fraco quando o simples não alcança. Hidratação oral, repouso relativo da articulação e compressa fria completam o pacote — o frio local tem efeito real sobre a dor articular e sobre o edema, e é uma das poucas medidas sem contraindicação.

O ponto que exige disciplina é o anti-inflamatório. Enquanto a dengue não estiver afastada, o anti-inflamatório não esteroide e o ácido acetilsalicílico ficam fora da prescrição, porque as duas doenças se apresentam de forma parecida o bastante para que o médico não saiba, naquele momento, qual está tratando — e na dengue essas drogas agravam sangramento. A proibição pertence ao intervalo de incerteza, não à chikungunya em si. É uma regra sobre o que ainda não se sabe, e o capítulo de analgesia na emergência, nesta mesma coleção, trabalha em detalhe as duas razões distintas que sustentam a mesma frase prática.

Vale registrar o que a proibição não abrange, porque a leitura pela metade é frequente. Ela não retira o paracetamol, não retira a dipirona, não retira o opioide fraco, não retira a compressa fria e não retira a fisioterapia. E ela não vale para sempre: nas fases seguintes o anti-inflamatório volta à mesa, com indicação escrita e dose escrita. Quem decora a metade proibitiva e não decora o recorte acaba mantendo o paciente sem anti-inflamatório por meses, o que é tão errado quanto prescrevê-lo na primeira semana.

Por fim, a fase aguda é o momento da notificação. A chikungunya é agravo de notificação compulsória, e existe uma linha própria para o caso ocorrido em área sem transmissão autóctone, que sobe de periodicidade. A mecânica completa — periodicidade, esferas, ficha e sistema — é assunto do capítulo de vigilância das arboviroses, nesta mesma apostila; aqui basta reter que a suspeita clínica já basta para notificar, e que não se espera exame.

Quem não pode esperar: as formas graves e os grupos de risco

Ao lado do quadro articular existe a chikungunya com manifestações extra-articulares — neurológicas, cardiovasculares, dermatológicas, oftalmológicas, hepáticas, renais, respiratórias e hematológicas — e a chikungunya grave, definida como o caso acompanhado de insuficiência de pelo menos um órgão ou sistema, com ameaça à vida e necessidade de internação. Foi a percepção de que a doença mata que reorganizou o manejo brasileiro: há evidência acumulada de evolução para formas graves e fatais tanto na fase aguda quanto na fase seguinte.

Os grupos que mudam a régua são conhecidos e devem ser procurados ativamente: o recém-nascido de mãe virêmica no periparto, o idoso, o portador de comorbidade descompensada e a gestante próxima do parto. Nesses, a conduta ambulatorial de rotina não serve de padrão, e o limiar de observação e de internação cai. O exame neurológico merece atenção específica — convulsão, paresia, parestesia e alteração do nível de consciência são sinais de comprometimento grave —, e o exame oftalmológico deve ser feito diante de queixa ocular, procurando uveíte, retinite e outras complicações do olho.

Uma medida honesta do quanto a classificação clássica falha no idoso vem de um hospital universitário na Ilha da Martinica. Entre duzentos e cinquenta e sete pacientes com mais de sessenta e cinco anos e confirmação molecular, quarenta e dois vírgula sete por cento não puderam ser encaixados em nenhuma categoria do sistema de classificação proposto pela Organização Mundial da Saúde; entre os cento e nove pacientes mais jovens, o percentual de não classificáveis foi de dezessete vírgula quatro. No grupo mais velho, apenas oito vírgula dois por cento couberam numa das categorias.

A leitura clínica desse número é direta e não depende de decorar a classificação: no idoso, a apresentação não se parece com a descrição do livro. Febre pode faltar, a dor pode ser interpretada como piora de artrose prévia, e a descompensação de uma doença de base pode ser a única manifestação visível. Exigir o quadro típico para levantar a hipótese é a maneira mais eficiente de perder o caso grave na faixa etária em que ele é mais letal.

A dor que não vem da articulação

Uma parte importante da queixa tardia não é articular no sentido estrito. A exacerbação da dor pode atingir articulações já acometidas e vir acompanhada de tenossinovite, com predomínio em punhos e tornozelos e rigidez matinal associada. Além da tenossinovite, aparecem tendinite, entesite, fasceíte, capsulite e periostite. E aparece, com frequência que surpreende quem espera só artrite, a dor neuropática — em queimação, em formigamento, em dormência, tipicamente em mãos e pés — e a síndrome do túnel do carpo.

Separar as duas dores muda o remédio, e é por isso que a pergunta pelo caráter da dor não é detalhe de anamnese. Dor que responde a repouso, que piora ao movimento da articulação e que vem com edema visível é inflamatória, e o caminho é anti-inflamatório, corticoide e depois a droga modificadora. Dor em queimação, com dormência ou formigamento, distribuída em luva ou em meia, é neuropática, e nenhum anti-inflamatório vai resolvê-la. Existe questionário validado para essa triagem, e ele é aplicado à beira do leito, sem exame complementar.

Para a dor neuropática o guia federal traz, em quadro próprio, o anticonvulsivante como opção estruturada: cápsulas de trezentos ou quatrocentos miligramas, dose inicial de trezentos miligramas três vezes ao dia, com aumento possível até o teto de três mil e seiscentos miligramas por dia. Na criança entre três e doze anos a dose inicial é de dez a quinze miligramas por quilo por dia, dividida em três tomadas; acima dos doze anos, trezentos miligramas três vezes ao dia. O antidepressivo tricíclico é a outra opção, e as duas classes podem ser combinadas.

O terceiro pilar, e o mais subestimado, é a fisioterapia. Ela é recomendada em todas as fases da doença, junto com práticas integrativas complementares como acupuntura, atividade física orientada e educação domiciliar do paciente. Não é adjuvante opcional: numa doença em que o desfecho ruim é a limitação funcional persistente, o programa de reabilitação é tratamento. O exercício ativo se orienta em intensidade leve, para manter a função sem exacerbar os sintomas inflamatórios, e o repouso indicado é relativo, nunca absoluto.

A fase do meio: o anti-inflamatório volta e o corticoide entra

Passados os quatorze dias e afastada a dengue, o cenário muda. A avaliação clínica, eventualmente apoiada em imagem, serve agora para definir o padrão predominante — se a queixa é articular inflamatória, se é de partes moles, se é neuropática ou se é uma combinação — porque é o padrão que escolhe a droga. O anti-inflamatório não esteroide entra nesta fase com apresentação e dose escritas em quadro próprio do guia federal: comprimidos de duzentos, trezentos ou seiscentos miligramas, de duzentos a seiscentos miligramas três a quatro vezes ao dia no adulto, com teto de três mil e duzentos miligramas por dia.

O corticoide oral é o degrau seguinte quando há artrite ou tenossinovite que não cede. A dose recomendada pelo consenso de reumatologia é de cinco a vinte miligramas por dia, preferencialmente em tomada única pela manhã, admitindo-se doses mais altas em casos graves. O detalhe que decide a evolução não é a dose de entrada, e sim a saída: a retirada deve ser lenta e gradual, ao longo de seis a oito semanas, pelo risco de recidiva dos sintomas articulares. Interromper de uma vez porque o paciente melhorou é a forma mais comum de fabricar uma recaída e uma segunda escalada de dose.

Antes de iniciar o corticoide, e durante o seu uso, vale a checagem que o consenso pede: rastrear fatores de risco para osteoporose, glaucoma com história familiar e diabetes, e monitorar pressão arterial e glicemia de jejum. São medidas baratas, e são exatamente as que se esquecem quando o corticoide é prescrito como analgésico e não como imunossupressor de curso definido.

A infiltração intra-articular ou peritendínea é uma opção nesta fase, com bons resultados descritos, especialmente quando o problema é localizado em uma ou duas articulações e não difuso. É a alternativa que evita expor o corpo inteiro a um corticoide sistêmico por causa de um punho. E há um critério de encaminhamento que fecha a fase: o paciente com mais de seis semanas de doença, com artrite ou tenossinovite persistente ou com erosão óssea aparecendo, e que precise de tratamento imunossupressor, deve passar a ser acompanhado pelo reumatologista.

Fase crônica: a hidroxicloroquina e a conta que se faz pelo peso

Depois dos noventa dias a droga de escolha é o antimalárico, preferencialmente a hidroxicloroquina, isolada ou associada. É aqui que o clínico brasileiro encontra a primeira divergência numérica relevante do tema, e ela não é acadêmica: o guia federal prescreve seis miligramas por quilo por dia, com dose máxima de quatrocentos miligramas por dia; o fluxograma do consenso de reumatologia prescreve cinco miligramas por quilo por dia, com o mesmo teto de quatrocentos. Mesmo teto, doses por peso diferentes.

A diferença importa porque é justamente o cálculo por quilo que governa o risco de toxicidade de retina, o efeito adverso que limita o uso prolongado do antimalárico. Num paciente de sessenta quilos, seis por quilo dá trezentos e sessenta miligramas e cinco por quilo dá trezentos — ambos abaixo do teto, e portanto ambos permitidos sem que o teto sirva de proteção. Em alguém com setenta quilos, a régua de seis já encosta no teto, e é o teto que passa a mandar. O número que protege a retina é o miligrama por quilo, não o comprimido inteiro.

Sobre a vigilância dessa toxicidade os dois documentos também se dividem, e de forma complementar. O guia federal lista a retinopatia como contraindicação ao antimalárico e delega, na coluna de observações do seu próprio quadro, para o protocolo clínico da artrite reumatoide — ou seja, nomeia o risco e não escreve o acompanhamento. O consenso de reumatologia escreve o acompanhamento: com fatores de risco para toxicidade de retina, avaliação oftalmológica prévia e reavaliação anual; sem fatores de risco, nenhuma avaliação prévia e reavaliação anual apenas depois de cinco anos de tratamento. Um nomeia a porta; o outro diz de quanto em quanto tempo se olha por ela.

O tempo de teste da droga é o outro número a reter. O paciente deve ser reavaliado depois de oito semanas; havendo resposta clínica favorável, mantém-se o antimalárico por mais três meses. Não havendo, passa-se ao degrau seguinte. Uma advertência de calibração fecha a seção: o próprio consenso de reumatologia registra que a evidência para os antimaláricos nesta doença é de qualidade baixa, e cita um ensaio em que a adição de hidroxicloroquina não trouxe benefício mensurável, com resultados melhores nos grupos que usaram corticoide. Recomendar com evidência fraca e dizer que ela é fraca não é contradição — é honestidade metodológica, e a leitura correta é que a resposta individual precisa ser verificada nas oito semanas, não presumida.

Quando o antimalárico falha: dois caminhos com degraus diferentes

Na falha da hidroxicloroquina entra o metotrexato, e aqui os dois documentos brasileiros desenham escadas diferentes. O guia federal escreve uma cadeia curta: antimalárico, depois metotrexato, e na falha do metotrexato o encaminhamento ao reumatologista. O consenso de reumatologia intercala mais um degrau: antimalárico, metotrexato — sugerido preferencialmente quando o quadro articular inflamatório dificulta a retirada do corticoide —, depois a sulfassalazina para quem tem contraindicação ou falha ao metotrexato, e só então a terapia biológica anti-fator de necrose tumoral, após avaliação do especialista.

A sulfassalazina não aparece no guia federal: nenhuma vez, em nenhuma das duas edições da segunda versão. Quem estuda só pelo documento do ministério não encontra esse degrau, e quem estuda só pelo consenso encontra dois. As doses do metotrexato também não coincidem: o quadro federal escreve de sete vírgula cinco a vinte e cinco miligramas uma vez por semana por via oral, com teto de vinte e cinco por semana; o consenso escreve de dez a vinte e cinco miligramas por semana, por via oral ou subcutânea. A faixa federal começa mais baixo.

O consenso de reumatologia também se desencontra de si mesmo na dose da sulfassalazina: a recomendação escreve de duas a três gramas por dia, e a tabela de monitorização do mesmo documento escreve de uma a duas gramas por dia. As duas faixas só se tocam em dois gramas. Diante de divergência assim, o que sustenta a conduta não é escolher o número mais bonito: é reconhecer que a droga existe, que a faixa gira em torno de dois gramas diários e que a decisão fina pertence a quem vai acompanhar o hemograma.

As contraindicações do metotrexato são o que mais aparece na prática e merecem lista: tuberculose sem tratamento, infecção bacteriana com indicação de antibiótico, infecção fúngica que ameace a vida, herpes-zóster ativo, hepatite bê ou cê agudas, e gestação, amamentação ou intenção de concepção — esta última valendo para homens e mulheres. O monitoramento é hemograma, transaminases e função renal antes de começar e a cada três meses; o ácido fólico semanal, tomado no dia seguinte ao do metotrexato, reduz eventos adversos; e há risco de toxicidade pulmonar a vigiar.

O que dizer ao paciente na primeira consulta

A conversa da primeira consulta define a adesão dos três meses seguintes, e ela tem um conteúdo específico. A febre vai passar em poucos dias e isso não significa cura; a dor articular pode continuar por semanas e, numa parcela real de adultos, por meses. Dizer isso na primeira consulta não assusta — evita que o paciente interprete a persistência como erro médico, abandone o seguimento e reapareça no quarto mês com limitação funcional instalada e sem nunca ter feito fisioterapia.

O segundo conteúdo é o critério de retorno. Retorno programado para reavaliar a dor e a função, e retorno imediato diante de sinal de gravidade: alteração do nível de consciência, convulsão, déficit motor novo, dor torácica, falta de ar, sangramento, queda importante da diurese ou queixa ocular. Em quem tem comorbidade, em quem é idoso e na gestante próxima do parto, esse limiar é mais baixo, e a orientação deve ser dada de forma explícita ao acompanhante, não apenas ao paciente.

O terceiro é a prescrição do que não é medicamento. Repouso relativo — e não repouso absoluto, que piora a rigidez —, compressa fria, elevação do membro edemaciado, exercício ativo de intensidade leve para preservar a amplitude articular, e encaminhamento à fisioterapia desde a fase aguda. Em casos com edema extra-articular, sobretudo com linfedema, a drenagem linfática tem indicação descrita. Nada disso disputa espaço com a farmacologia: a limitação funcional é o desfecho que se previne com reabilitação, não com comprimido.

Por último, o registro. Anotar a data exata do início dos sintomas na primeira consulta é o que permite, meses depois, saber em que fase o paciente está — e portanto qual escada de tratamento se aplica a ele. Sem essa data, o médico que o receber no terceiro mês vai ter de estimar, e a estimativa erra justamente na fronteira em que a conduta muda. A anotação de uma data é, neste tema, um ato terapêutico.

04

Onde o paciente está no relógio da doença

Uma única pergunta organiza a consulta inteira: há quantos dias começaram os sintomas. Ela decide qual exame ainda responde, qual classe de medicamento está liberada e qual meta de tratamento faz sentido. As três faixas abaixo são as do guia federal de manejo clínico; a faixa do meio é a que recebe dois nomes na literatura brasileira.

  1. 1Datar o início dos sintomas em dias — é o dado que escolhe tudo o que vem depois.
  2. 2Até o 5º dia: RT-PCR. Do 6º em diante: sorologia. Fora da janela, o negativo não afasta.
  3. 3Dengue afastada? Enquanto não, sem AINE e sem AAS — mantendo paracetamol, dipirona e opioide fraco.
  4. 4Caracterizar a dor: inflamatória (edema, rigidez matinal) ou neuropática (queimação, dormência em mãos/pés).
  5. 5Procurar gravidade: disfunção de órgão, sinal neurológico, queixa ocular — e baixar o limiar em idoso, comorbidade, gestante a termo e recém-nascido.
  6. 6Prescrever reabilitação desde a fase aguda, em qualquer faixa do relógio.

Até o 14º dia — fase aguda

Febre alta de início súbito (mais intensa nos 3 primeiros dias, até 7), poliartralgia/artrite simétrica, exantema. Exame: RT-PCR só até o 5º dia. Analgesia com paracetamol/dipirona e opioide fraco; AINE e AAS fora enquanto a dengue não for afastada. Compressa fria, hidratação, repouso relativo. Notificar.

15 a 90 dias — pós-aguda (= subaguda)

Sorologia é o exame desta faixa (1ª coleta a partir do 6º dia; PRNT pareado 15 dias depois). AINE liberado: ibuprofeno 200–600 mg 3–4x/dia, máx. 3.200 mg/dia. Corticoide 5–20 mg/dia em dose matinal, com retirada lenta em 6–8 semanas. Infiltração se localizado. >6 semanas com artrite persistente: reumatologista.

Após 90 dias — crônica

Hidroxicloroquina: 6 mg/kg/dia (guia federal) ou 5 mg/kg/dia (consenso SBR), teto 400 mg/dia nos dois. Reavaliar em 8 semanas; se responder, manter mais 3 meses. Falha: metotrexato 7,5–25 mg/semana (federal) ou 10–25 mg/semana (SBR) + ácido fólico. SBR acrescenta sulfassalazina e depois anti-TNF.

A régua de periodicidade, esferas e ficha da notificação está no capítulo de vigilância das arboviroses, nesta mesma apostila.

As duas razões distintas pelas quais dengue e chikungunya proíbem o anti-inflamatório na fase aguda estão trabalhadas no capítulo de analgesia da apostila de Medicina de Emergência.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O nome da fase que vai do 15º ao 90º dia

"O espectro clínico da doença envolve cronologicamente três fases: uma fase aguda (até 14 dias), uma fase pós-aguda (15 a 90 dias) e uma fase crônica (após três meses)." O termo 'pós-aguda' aparece 21 vezes no documento e nomeia as seções 2.1.2, 5.2 e 8.3.2; 'subaguda' aparece 4 vezes, uma delas em 'tenossinovite subaguda', que não é nome de fase.

Ministério da Saúde. Chikungunya: manejo clínico. 2. ed. rev. Brasília, 2025, seção 8.3

O consenso intitula a Figura 2 como "Fluxograma de tratamento da fase subaguda da febre chikungunya". 'Subaguda' aparece 27 vezes na Parte 2 e 6 vezes na Parte 1; 'pós-aguda' não aparece nenhuma vez em nenhuma das duas partes.

Sociedade Brasileira de Reumatologia. Recomendações para diagnóstico e tratamento da febre chikungunya. Parte 2 – Tratamento. Rev Bras Reumatol. 2017;57(S2):S438–S451

Na prova

O enunciado pode usar qualquer um dos dois rótulos, e o candidato precisa reconhecer que descrevem o mesmo intervalo. Quem aprendeu só 'fase subaguda' e lê 'fase pós-aguda' tende a procurar uma quarta fase que não existe; quem aprendeu só pelo guia federal e lê 'subaguda' faz o mesmo. O intervalo é sempre 15 a 90 dias.

A dose de hidroxicloroquina por quilo de peso

"Hidroxicloroquina — Comprimido de 400 mg — 6 mg/kg/dia — Dose máxima: 400 mg/dia". Na coluna de observações, apenas "PCDT de artrite reumatoide"; na de contraindicações, "Retinopatia". O guia não escreve cronograma de acompanhamento oftalmológico.

Ministério da Saúde. Chikungunya: manejo clínico. 2. ed. rev., 2025, Quadro 5 — Tratamento medicamentoso da fase crônica no adulto

A Figura 3 escreve "HCQ 5mg/kg/dia, maximo 400mg", e a tabela de monitorização escreve "Antimaláricos 5,0 mg/kg de HCQ e 3 mg/kg de cloroquina, VO, uma vez ao dia", com o cronograma que o guia federal não traz: "Com fatores de risco para toxicidade retiniana: avaliação oftalmológica prévia; reavaliação anual. Sem fatores de risco: não há necessidade de avaliação prévia; reavaliação anual após 5 anos de tratamento".

Sociedade Brasileira de Reumatologia, Parte 2 – Tratamento, 2017, Figura 3 e tabela de monitorização

Na prova

O teto de 400 mg/dia é consensual e por isso raramente separa alternativas. Quem separa é a dose por peso, e há duas em circulação. Enunciado que cobre o cálculo em paciente de baixo peso costuma pedir a régua por quilo, não o teto.

O degrau que vem depois do metotrexato

"A droga de escolha nesta fase é preferencialmente a hidroxicloroquina (HCQ). Os pacientes devem ser avaliados após oito semanas, e em caso de resposta clínica favorável deve-se manter a droga por mais três meses. Na falha do HCQ, deve ser prescrito o Metrotexato (MTX). Para os casos de falha do MTX, o médico deve encaminhar o caso para o reumatologista". A palavra 'sulfassalazina' não ocorre no documento — nem na edição de 2024, nem na revisada de 2025.

Ministério da Saúde. Chikungunya: manejo clínico. 2. ed. rev., 2025, seção 5.3

C.8: "Na fase crônica da febre chikungunya pode ser usada a sulfassalazina, na dose de 2 a 3 g/dia, isolada ou em associação, especialmente em pacientes com contraindicação ou falha ao MTX" (concordância 8,77; evidência baixa a muito baixa). C.9 admite terapia biológica após avaliação do reumatologista nos refratários.

Sociedade Brasileira de Reumatologia, Parte 2 – Tratamento, 2017, recomendações C.7, C.8 e C.9

Na prova

Alternativa que oferece sulfassalazina como opção da fase crônica é correta pelo consenso de reumatologia e não encontra respaldo no guia federal, que não cita a droga. Alternativa que manda encaminhar ao reumatologista após falha do metotrexato é literal no guia federal. As duas podem aparecer como corretas em provas diferentes.

A dose de sulfassalazina dentro do próprio consenso

"pode ser usada a sulfassalazina, na dose de 2 a 3 g/dia".

SBR, Parte 2 – Tratamento, recomendação C.8 (caractere 16.479 do texto extraído do PDF do SciELO)

"Sulfassalazina 1 a 2 g/dia, VO — Hemograma, transaminases e função renal antes do início do tratamento e a cada três meses". As duas faixas se sobrepõem apenas em 2 g/dia.

SBR, Parte 2 – Tratamento, tabela de monitorização dos medicamentos (caractere 23.328 do mesmo texto, 6.849 caracteres adiante)

Na prova

É divergência interna a um único documento, e por isso nenhuma prova a cobra pelo número exato. Serve como calibração: quando duas passagens do mesmo texto discordam, a conduta defensável é a faixa em que elas se tocam.

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Caso resolvido

Mulher de 44 anos, professora, procura a unidade básica de saúde no 4º dia de doença. Refere febre alta de início súbito, que hoje está cedendo, e dor articular de forte intensidade, simétrica, em punhos, articulações metacarpofalângicas, joelhos e tornozelos, com edema visível em punhos e dificuldade para segurar objetos e para caminhar sem apoio. Tem exantema maculopapular em tronco, discretamente pruriginoso. Reside em bairro com casos confirmados de arbovirose no último mês. Pesa 60 kg, é hígida, não usa medicação contínua. Sem sangramento, sem sinal neurológico, sem queixa ocular, diurese preservada, pressão arterial e frequência cardíaca normais.
Datar a doença: 4º dia
O tempo de doença coloca a paciente na fase aguda (até o 14º dia) e dentro da janela molecular (até o 5º dia). Essa data entra no prontuário em números, porque é ela que vai orientar as consultas dos próximos meses.
Escolher o exame pela janela, não pela preferência
No 4º dia o exame que responde é a pesquisa do genoma viral por RT-PCR. Sorologia agora seria colhida antes de o corpo produzir anticorpo e voltaria negativa sem significar nada. Em cenário epidêmico com quadro compatível, a confirmação individual não muda o tratamento desta paciente — mas ela não tem comorbidade, não é idosa nem gestante, então a coleta segue a orientação local de amostragem.
Notificar pela suspeita
A notificação é ato de suspeita e não espera exame. A periodicidade, as esferas e a ficha correta são assunto do capítulo de vigilância das arboviroses; aqui a decisão é simplesmente notificar.
Analgesia sem apagar a dengue
Paracetamol ou dipirona em dose plena e horário fixo, com opioide fraco de resgate se a dor não ceder. Anti-inflamatório não esteroide e ácido acetilsalicílico ficam fora enquanto a dengue não estiver afastada — a incerteza diagnóstica é que proíbe, não a chikungunya.
Prescrever o que não é comprimido
Compressa fria nas articulações edemaciadas, repouso relativo (nunca absoluto), elevação dos punhos, hidratação oral e encaminhamento à fisioterapia já nesta consulta. A reabilitação é recomendada em todas as fases.
Combinar retorno e sinais de alarme
Retorno programado para reavaliar dor e função, e retorno imediato diante de alteração do nível de consciência, convulsão, déficit motor novo, dor torácica, dispneia, sangramento, queda da diurese ou queixa ocular — os marcadores de manifestação extra-articular e de forma grave.
Dizer o que vem depois
Explicar que a febre vai ceder em poucos dias e que isso não é cura; que a dor articular pode durar semanas e, numa parcela real de adultos, meses; e que existe tratamento para cada fase. É a conversa que sustenta a adesão do terceiro mês.
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Agora feche você

A mesma paciente retorna no 110º dia de doença. A febre não voltou, mas a dor articular nunca cessou: mantém rigidez matinal de cerca de uma hora, edema em punhos e tornozelos, e agora refere queimação e formigamento nas duas mãos, com piora à noite e sensação de dormência nos três primeiros dedos. Fez uso irregular de dipirona. Nunca foi encaminhada à fisioterapia. Pesa 60 kg. Não tem tuberculose, hepatite ou infecção ativa; não está grávida e não pretende engravidar. Hemograma, transaminases e função renal normais.
Passo 1
Diga em qual fase do relógio da doença esta paciente está e qual é o limite em dias que define essa fase. Diga também qual é o outro nome pelo qual a fase anterior é chamada na literatura brasileira, e por que isso importa para quem procura o assunto em dois documentos diferentes.
Passo 2
Separe as duas dores que ela descreve. Nomeie qual achado pertence ao componente inflamatório e qual pertence ao componente neuropático, e diga qual classe de medicamento não vai resolver a segunda por mais que se aumente a dose.
Passo 3
Prescreva a droga de escolha desta fase e calcule a dose pelas duas réguas brasileiras em vigor, usando o peso de 60 kg. Diga qual é o teto diário comum às duas e a partir de qual peso esse teto passa a governar o cálculo.
Passo 4
Escreva em quantas semanas essa droga deve ser reavaliada e o que fazer em cada um dos dois desfechos possíveis: resposta clínica favorável e ausência de resposta. Nomeie o degrau seguinte segundo o guia federal e o degrau adicional que o consenso de reumatologia intercala antes do biológico.
Passo 5
Liste o que precisa ser checado antes de iniciar o medicamento do degrau seguinte e a cada três meses durante o uso, e diga qual suplemento semanal reduz eventos adversos e em que dia da semana ele é tomado em relação à droga.
Passo 6
Diga qual acompanhamento de órgão-alvo o consenso de reumatologia escreve para o antimalárico e que o guia federal não escreve, separando a conduta de quem tem fatores de risco da de quem não tem. Depois indique a medida não farmacológica que deveria ter começado no 4º dia e ainda não começou.
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir RT-PCR no oitavo dia e concluir que não é chikungunya A pesquisa molecular exige coleta até o 5º dia de sintomas; depois disso a viremia caiu e o resultado negativo não tem valor diagnóstico. A partir do 6º dia o exame que responde é a sorologia. Um negativo fora da janela é um exame que não foi feito — e a conduta segue guiada pela clínica e pelo vínculo epidemiológico.
  2. 2Manter o anti-inflamatório proibido para sempre A restrição vale enquanto a dengue não estiver afastada, na fase aguda. Depois disso o AINE é a droga escrita em quadro próprio do guia federal para a fase pós-aguda (ibuprofeno 200 a 600 mg, 3 a 4 vezes ao dia, máximo de 3.200 mg/dia), e volta a ser opção na fase crônica em quadro refratário ou recidivante. Decorar a metade proibitiva mantém o paciente sem analgesia adequada por meses.
  3. 3Tratar o teto de 400 mg como se fosse a dose Hidroxicloroquina se calcula por quilo — 6 mg/kg/dia no guia federal, 5 mg/kg/dia no consenso da SBR — e o teto de 400 mg/dia só passa a governar em pacientes de maior peso. Num paciente de 55 kg, prescrever o comprimido inteiro por rotina entrega uma dose acima da régua por peso, que é justamente a que protege a retina.
  4. 4Suspender o corticoide de uma vez porque melhorou A retirada tem de ser lenta e gradual, ao longo de 6 a 8 semanas, pelo risco documentado de recidiva articular. A interrupção abrupta devolve o paciente ao ponto de partida e costuma exigir uma segunda escalada, com dose maior e por mais tempo do que a original.
  5. 5Exigir o quadro típico no idoso No estudo da Martinica, 42,7% dos pacientes com mais de 65 anos e infecção confirmada não couberam em nenhuma categoria da classificação da OMS, contra 17,4% dos mais jovens. Febre pode faltar e a dor pode ser lida como piora de artrose. Esperar a apresentação clássica para levantar a hipótese é perder o caso justamente na faixa de maior letalidade.
  6. 6Tratar dor neuropática com anti-inflamatório Queimação, formigamento e dormência em mãos e pés, com ou sem síndrome do túnel do carpo, não respondem a AINE nem a corticoide. O caminho é anticonvulsivante (gabapentina, início de 300 mg três vezes ao dia, teto de 3.600 mg/dia) e/ou antidepressivo tricíclico. Caracterizar o tipo da dor antes de prescrever é o que separa as duas escadas.
  7. 7Deixar a fisioterapia para quando a dor passar A reabilitação é recomendada em todas as fases, inclusive na aguda, com exercício ativo de intensidade leve e repouso relativo — nunca absoluto. O desfecho que se quer evitar é a limitação funcional persistente, e ela se previne com programa de reabilitação, não com aumento de dose.
  8. 8Não anotar a data de início dos sintomas É o dado que, meses depois, define em qual fase o paciente está e qual escada terapêutica se aplica. Sem ele, o médico que receber esse paciente no terceiro mês terá de estimar — e a estimativa erra exatamente na fronteira dos 90 dias, onde a conduta muda de degrau.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Queimação e formigamento podem ocorrer como dor neuropática na chikungunya crônica, mas dormência noturna predominante nos três primeiros dedos sugere compressão do nervo mediano e exige exame dirigido para síndrome do túnel do carpo. A conduta depende da gravidade e pode incluir medidas conservadoras, investigação eletrofisiológica em casos selecionados e encaminhamento; gabapentinoide ou antidepressivo pode tratar componente neuropático, mas não substitui a avaliação da neuropatia compressiva. AINE em dose crescente, pulso de corticoide e ressonância cervical automática não são respostas adequadas. Fontes: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7405653/ ; https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/chikungunya/chikungunya-manejo-clinico-2a-edicao.pdf

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as três faixas do relógio da doença com os seus limites em dias, e escreva ao lado de cada uma: o exame que responde naquela faixa, a classe de analgésico liberada e a meta do tratamento. Depois responda em voz alta por que um RT-PCR negativo no oitavo dia não afasta o diagnóstico, e por que uma sorologia negativa no terceiro dia também não.

em 30 dias

Monte a mesma paciente de 60 kg em três consultas — no 4º dia, no 40º e no 120º — e escreva as três prescrições completas lado a lado, com dose. Diga em qual delas o anti-inflamatório entra e por quê, em qual o corticoide entra e como sai, e calcule a dose de hidroxicloroquina pelas duas réguas brasileiras (6 e 5 mg/kg/dia), dizendo em qual peso o teto de 400 mg/dia passa a mandar. Por fim, liste os quatro grupos em que o limiar de internação é mais baixo e diga o que você procuraria no exame físico de cada um.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Treine as duas consultas do mesmo paciente: a do quarto dia, em que o relógio escolhe o exame e a incerteza sobre a dengue escolhe o analgésico, e a do quarto mês, em que a dor muda de natureza e a escada de tratamento troca de degrau. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Poliartralgia simétrica e incapacitante depois da febre em área de arbovirose – Chikungunya no adulto: a fase da doença decide o exame e o remédio — Preparatório para provas | OsceLabs