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A analgesia entra junto: o ato que acerta e a classe que derruba
Analgesia como parte da conduta: o ato que acompanha, a classe que a alternativa nomeia para derrubar e a fase que inverte a regra
Escolha do analgésico conforme fase, risco e contexto
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Mulher de 42 anos procura a unidade básica com dor lombar há cinco dias, iniciada após carregar peso. A dor piora ao levantar e melhora deitada, não irradia abaixo do joelho e não a acorda. Nega febre, perda de peso, trauma de alta energia e antecedente oncológico. Força e reflexos simétricos, elevação da perna estendida negativa. Tem doença renal crônica com taxa de filtração glomerular estimada em 38 mL/min/1,73 m². Qual a conduta?
Como esse tema cai
O recorte é a analgesia como componente de uma conduta proposta em alternativa de múltipla escolha, nas cenas em que a dor é sintoma e não diagnóstico: trauma de membro, lombalgia inespecífica, otite e faringoamigdalite, artralgia de arbovirose, síndrome do túnel do carpo relacionada ao trabalho, cefaleia com e sem sinal de alarme.
Ficam fora deste capítulo a dor oncológica e o cuidado paliativo, a dor crônica com componente neuropático estabelecido e a analgesia de procedimento — cada uma tem régua própria e capítulo próprio. Fica fora também a farmacologia das classes: aqui interessa quando cada uma cabe, não como cada uma age.
O que o capítulo entrega é uma sequência de leitura da alternativa e três réguas de documento oficial que se contradizem em aparência e se resolvem por recorte: a fase da doença, a razão da proibição e o intervalo até a reavaliação.
O que muda decisão
A alternativa certa nunca traz a analgesia sozinha
Quem lê depressa uma bateria de questões de residência sai com a impressão de que analgesiar é a resposta fácil, aquela que se marca quando nada mais parece caber. A leitura atenta desmente isso de um jeito curioso. A analgesia povoa as alternativas corretas, e em nenhuma delas ela aparece sozinha. Vem sempre pendurada em outro ato — a imobilização, o antibiótico, a órtese, a hidratação, a notificação, a manutenção da atividade.
Isso muda o modo de ler a alternativa. A analgesia não é o conteúdo da conduta; é o acompanhamento dela. Numa fratura fechada, o que decide é imobilizar e chamar a ortopedia, e a analgesia entra no mesmo fôlego. Numa otite externa difusa, o que decide é limpar o conduto e pingar a gota certa, e a analgesia entra no mesmo fôlego. Em nenhum dos dois casos a alternativa se sustenta se tirarem o outro ato e deixarem só o alívio.
A consequência prática é direta: quando duas alternativas oferecem analgesia, o que as separa é o ato que vem junto. Uma manda imobilizar; a outra manda radiografar sem imobilizar. Uma manda manter a atividade; a outra manda repouso. O aluno que compara as duas pela palavra analgesia compara pelo termo que elas têm em comum, e o termo em comum nunca é o critério.
Há um segundo efeito, menos óbvio. Como a analgesia é sempre acompanhamento, ela funciona como um selo de plausibilidade: uma alternativa errada fica mais convincente quando alguém escreve analgesia dentro dela. O examinador sabe disso e usa. A palavra aparece dos dois lados da questão com frequência parecida, e por isso ela não discrimina nada sozinha.
Vale registrar a assimetria que sustenta essa leitura. Nas provas de acesso direto, do Revalida, do Enare e do Enamed, a palavra analgesia aparece em pouco mais de sessenta questões da grande área de outras especialidades. Em vinte e três delas ela está apenas na correta, em trinta e duas apenas nos distratores, em cinco dos dois lados da mesma questão e em três somente no enunciado. Nenhuma sobra: os quatro grupos fecham a conta.
Guarde a forma antes do número. A pergunta útil diante de uma alternativa com analgesia não é se o paciente tem dor — ele tem, o enunciado já disse. É qual ato a analgesia está acompanhando, e se aquele ato é o que o caso pede agora.

O ato acerta; a receita erra
A separação mais produtiva do tema não é entre analgesiar e não analgesiar. É entre nomear o ato e nomear o fármaco. Quando a alternativa diz analgesia e para por aí, ela acerta perto de metade das vezes. Quando ela desce ao nome da classe — anti-inflamatório não esteroidal — acerta menos de uma em dez.
A diferença não é estilística. Dizer analgesia é afirmar uma intenção terapêutica que quase nenhum cenário desmente: aliviar a dor é adequado no trauma, na otite, na lombalgia, na artralgia da arbovirose, na síndrome do túnel do carpo. Dizer anti-inflamatório é afirmar uma escolha farmacológica que muitos cenários desmentem — e o enunciado costuma ter plantado, antes, exatamente o dado que a desmente.
Repare no que o enunciado planta. Idade avançada. Doença renal crônica. Uso de anticoagulante. Antecedente de úlcera. Asma. Plaquetopenia. Suspeita de arbovirose com sangramento possível. Cada um desses fragmentos parece cor local, e cada um deles é a chave que retira o anti-inflamatório da lista de opções. O dado que parece cenário é o critério.
As outras classes seguem a mesma curva, com números menores. Quando a alternativa nomeia opioide, dipirona ou paracetamol, o acerto também cai bem abaixo do que se obtém dizendo apenas analgesia. Nomear morfina, tramadol, codeína ou ibuprofeno praticamente nunca é a resposta certa nessa grande área. Não porque esses fármacos sejam ruins, mas porque a pergunta raramente é sobre qual deles.
Há uma exceção que confirma a regra e que aparece com clareza nas arboviroses: ali a alternativa correta nomeia dipirona ou paracetamol e, no mesmo período, exclui o anti-inflamatório e o ácido acetilsalicílico. Isto é, ela desce ao nome do fármaco justamente para poder dizer o que não entra. O nome serve à subtração, não à prescrição.
A régua de leitura, então, é esta. Alternativa que diz analgesia sem nome: provavelmente segura, e o que decide é o ato que a acompanha. Alternativa que nomeia a classe: procure no enunciado o dado que a contraindica, porque em quase todos os casos ele está lá. Alternativa que nomeia o fármaco para excluir outro: leia com atenção, porque essa costuma ser a certa.
Por que o anti-inflamatório é o distrator mais bem construído
Um bom distrator precisa ser plausível para quem sabe pouco e insustentável para quem sabe. O anti-inflamatório cumpre as duas exigências melhor do que qualquer outra opção terapêutica da grande área, e por isso o examinador volta a ele o tempo todo: ele aparece em algumas dezenas de questões, quase sempre do lado errado.
A plausibilidade vem da experiência do candidato. Dor musculoesquelética, otite, artralgia, cefaleia — em todas essas cenas o anti-inflamatório é o que se vê prescrever na vida real, e com frequência funciona. A insustentabilidade vem do enunciado, que colocou lá o rim, o estômago, a plaqueta, o anticoagulante ou a suspeita de dengue.
Mas há um segundo componente, e é ele que faz o distrator ficar bom de verdade. Em mais da metade das questões em que aparece do lado errado, o anti-inflamatório vem acoplado a um verbo de espera: prescrever e reavaliar em quatro semanas, prescrever e retornar em trinta dias, prescrever e aguardar a resolução espontânea. Nas poucas vezes em que o anti-inflamatório está na alternativa correta, esse acoplamento não aparece nenhuma vez.
Ou seja, o distrator não erra só na classe: erra no par. Ele oferece um fármaco que o caso contraindica e um intervalo que o caso não comporta, e a soma dos dois é o que o torna atraente — parece prudente, parece conservador, parece o que um médico calmo faria. Prudência aparente é o disfarce favorito do erro.
Alguns exemplos da forma são quase caricatos quando se lê o par inteiro: dar alta com anti-inflamatório e orientação de retorno se houver piora, diante de uma cefaleia súbita com tomografia normal; prescrever anti-inflamatório e reavaliar em duas semanas, diante de cefaleia nova no idoso com alteração visual; manter a poliquimioterapia e prescrever apenas anti-inflamatório, diante de uma reação hansênica com neurite.
A leitura operacional é simples. Ao encontrar uma alternativa com anti-inflamatório, leia o resto do período. Se ela também mandar esperar, você provavelmente já encontrou o distrator principal da questão — e a resposta certa costuma ser aquela que faz alguma coisa agora, com analgesia entrando de carona.
Aliviar a dor é o que autoriza recusar o exame
O achado mais útil desse tema não está na farmacologia. Está na sintaxe das alternativas corretas: em boa parte delas a analgesia aparece na mesma frase em que a conduta recusa um exame de imagem. Analgesia simples, manutenção das atividades habituais e reavaliar, sem solicitar exame de imagem. Tratamento conservador com analgesia, sem radiografia neste momento.
A construção não é enfeite. Recusar uma imagem é a parte da conduta que o candidato tem medo de marcar, porque parece omissão. A analgesia é o que torna a recusa defensável: o paciente não vai embora sem nada; vai embora com o sintoma tratado, a atividade mantida e o critério de retorno explicado. A analgesia é o contrapeso que transforma a recusa em plano.
Na lombalgia inespecífica isso é quase um molde. Das alternativas corretas que mencionam imagem nesse tema, a maioria a menciona justamente para dizer que não a solicita agora. O motivo é clínico e conhecido: a imagem precoce na lombalgia sem sinais de alarme não muda a conduta e piora o desfecho, ao rotular achados degenerativos que a maioria dos adultos assintomáticos também tem.
O mesmo desenho reaparece longe da coluna. Na síndrome do túnel do carpo relacionada ao trabalho, a alternativa correta reúne órtese noturna em posição neutra, analgesia, afastamento da exposição e a emissão do documento de comunicação do acidente — e não pede eletroneuromiografia para decidir. Na otite externa difusa, reúne limpeza do conduto, gota otológica e analgesia — e não pede cultura de secreção.
Existe o espelho disso, e ele também é medível: quando pedem a imagem, a analgesia some da frase. Radiografia de coluna lombossacra em três incidências e prescrição de anti-inflamatório por sete dias é um distrator recorrente, e a ordem das palavras já entrega o problema — o exame vem primeiro e o alívio vem como acessório do exame, não do paciente.
Convém separar recusa de negligência, porque a prova cobra a diferença. Recusar a imagem sem dizer mais nada é abandono; recusar a imagem dizendo o diagnóstico provável, tratando o sintoma, orientando a atividade e nomeando o que faria o paciente voltar é conduta completa. A alternativa correta quase sempre traz os quatro elementos, e a errada costuma trazer dois.
Fica então um par de leitura rápido. Analgesia mais recusa de exame, com critério de retorno: candidata forte. Exame mais fármaco, com prazo longo de reavaliação: candidata a distrator. O que decide não é a presença da analgesia; é de que lado da frase ela está.
O mesmo documento proíbe e libera a mesma classe
A regra que mais derruba candidato nesse tema não vem de dois documentos brigando. Vem de um só, dizendo coisas opostas em páginas diferentes — e a diferença entre elas não é a intensidade da dor nem a preferência do autor. É a fase da doença.
No guia de manejo clínico da chikungunya do Ministério da Saúde, a fase aguda recebe uma proibição sem rodeios: deve-se evitar o uso de anti-inflamatórios não esteroides na fase aguda da doença. Algumas páginas adiante, ao tratar da fase crônica, o mesmo guia escreve que analgésicos, anti-inflamatórios e drogas para dor neuropática podem também ser utilizados, de acordo com a manifestação clínica do paciente.
Não há contradição. Há um recorte temporal que o candidato precisa carregar junto com a classe. Na fase aguda o problema é a sobreposição clínica com a dengue e o risco de sangramento; superada a fase aguda e afastada a arbovirose hemorrágica, o mesmo fármaco volta à mesa como ferramenta legítima da artropatia persistente.
O enunciado de prova quase sempre situa a cena na fase aguda: febre há poucos dias, exantema, poliartralgia intensa, área com transmissão ativa. É por isso que, nesse cenário, a alternativa correta nomeia dipirona ou paracetamol e diz explicitamente que evita o anti-inflamatório e o ácido acetilsalicílico enquanto a dengue não for afastada. A palavra enquanto é o critério inteiro.
Vale notar uma diferença de vocabulário que atrapalha quem estuda por resumo. O guia oficial escreve a proibição de várias maneiras — anti-inflamatórios não esteroides, a sigla correspondente, e ainda a forma antiga anti-inflamatório não hormonal com outra sigla. São grafias diferentes da mesma proibição, e nenhuma delas é sinônimo de corticoide, que segue caminho próprio.
A lição transferível vai além da arbovirose. Sempre que uma norma proíbe uma classe, procure no mesmo texto a condição que delimita a proibição — fase, gravidade, faixa etária, comorbidade. Proibição sem recorte é rara em documento oficial, e quem decora só a metade proibitiva erra a questão que cobra a outra metade.
Duas proibições que chegam por caminhos incompatíveis
Dengue e chikungunya terminam na mesma frase prática — não use anti-inflamatório —, e chegam lá por raciocínios que não se substituem. Entender a diferença é o que permite estender a regra para o caso que a prova inventar.
O manual de diagnóstico e manejo clínico da dengue proíbe pelo sangramento. Escreve que os salicilatos, como o ácido acetilsalicílico, são contraindicados e não devem ser administrados, pois podem causar ou agravar sangramentos, e que os anti-inflamatórios não hormonais e as drogas com potencial hemorrágico não devem ser utilizados. O argumento é sobre o que o fármaco faz na hemostasia de um paciente que já está com a hemostasia ameaçada.
O guia da chikungunya proíbe pela confusão diagnóstica. Escreve que, por apresentar manifestações clínicas muito parecidas com as da dengue, possibilitando confusão diagnóstica, deve-se evitar o uso de anti-inflamatórios não esteroides na fase aguda. O argumento aqui não é sobre o que a chikungunya faz — é sobre o que o médico ainda não sabe no momento em que prescreve.
As duas razões produzem regras diferentes quando o cenário muda. Se o critério for sangramento, o anti-inflamatório volta a ser possível quando o risco hemorrágico desaparece. Se o critério for incerteza diagnóstica, ele volta a ser possível quando o diagnóstico se firma — ainda que o risco de sangramento nunca tenha sido alto naquele paciente. São gatilhos de liberação distintos para a mesma proibição.
Nenhuma das duas generaliza para virose em geral, e é aí que o candidato tropeça. Não existe regra de que anti-inflamatório seja proibido em quadro febril agudo. Existe uma proibição ancorada em risco hemorrágico e outra ancorada em indistinguibilidade clínica, ambas escritas para um contexto epidemiológico específico.
Quando o enunciado descrever febre, exantema e artralgia em área com transmissão ativa, as duas razões se somam e a proibição é firme. Quando descrever dor musculoesquelética mecânica num paciente sem febre e sem risco hemorrágico, nenhuma das duas se aplica — e a alternativa que proíbe o anti-inflamatório passa a ser a errada.
A norma que manda no médico não escreve a palavra dor
Há uma assimetria entre os documentos desse tema que vale carregar, porque explica por que o assunto parece órfão de régua. Quem manda no médico quase não fala do ato de aliviar.
O Código de Ética Médica atravessa mais de uma centena de artigos sem escrever a palavra dor uma única vez, e sem escrever analgesia. O que ele traz sobre sofrimento é uma vedação: jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou moral. É uma proibição de infligir, não um comando de aliviar.
A obrigação positiva aparece em outro documento do mesmo conselho, e num contexto restrito. Ao tratar da fase terminal de enfermidades graves e incuráveis, a resolução sobre limitação de procedimentos diz que o doente continuará a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, assegurada a assistência integral. Aliviar vira dever explícito — mas o texto está falando de terminalidade.
Do outro lado estão os guias do Ministério da Saúde e a literatura científica. Ali a dor é nomeada às centenas, a analgesia às dezenas, e a dose aparece em miligramas, por peso e por intervalo. É desse lado que sai a resposta operacional — qual fármaco, quanto, de quanto em quanto tempo, em quem não usar.
Cada um domina metade do problema. A norma ética diz que o médico não pode causar sofrimento e que deve cuidar até o fim; o guia assistencial diz o que fazer com a dor de terça-feira à tarde. A prova de residência quase sempre pergunta a metade assistencial, e raramente a metade normativa — mas quando pergunta a normativa, pergunta sobre terminalidade e cuidado paliativo, não sobre dose.
A assimetria também explica um hábito de prova. Quando a questão é de ética e menciona dor, ela quase nunca pergunta qual analgésico: pergunta se o médico pode limitar um procedimento, se deve respeitar uma recusa, se pode encurtar sofrimento. Quando a questão é assistencial e menciona dor, ela nunca pergunta o fundamento deontológico: pergunta qual classe cabe naquele paciente.
Esse mapa evita dois erros de estudo. O primeiro é procurar no código de ética uma orientação de analgesia que ele não dá. O segundo é supor que, por não estar no código, aliviar a dor seja opcional: a vedação de causar sofrimento e o dever de assistência integral cobrem, por caminhos indiretos, o essencial.
Primeira linha é uma frase de cenário, não de intensidade
A expressão primeira linha engana quando lida como uma hierarquia de potência. Ela não diz qual fármaco é mais forte; diz qual entra primeiro naquele cenário, e o cenário inclui a doença, a fase, a comorbidade e o que já foi excluído.
Numa revisão brasileira sobre tratamento de condições ambulatoriais comuns de dor aguda, o paracetamol, a dipirona e os anti-inflamatórios não esteroides aparecem como fármacos de primeira linha para dor aguda leve a moderada. Na dor lombar aguda, o mesmo texto diz que os anti-inflamatórios são considerados tratamento de primeira linha, ainda que apresentem analgesia leve quando comparados ao placebo.
Guardadas as duas frases, o candidato tem duas afirmações verdadeiras que apontam para lados opostos conforme o enunciado: anti-inflamatório é primeira linha na lombalgia aguda e é proibido na fase aguda da arbovirose. Quem decorou uma das duas como regra geral vai errar metade das questões do tema.
O mesmo texto acrescenta uma correção de altitude que costuma cair em prova de medicina de família: a analgesia multimodal, que integra abordagens farmacológicas e não farmacológicas, representa uma mudança significativa no paradigma atual de manejo da dor, e tratamentos não farmacológicos sempre devem ser considerados. Alternativa que só oferece comprimido raramente basta.
Isso ajuda a explicar por que as alternativas corretas da lombalgia quase sempre juntam analgesia a manutenção da atividade, exercício ou reabilitação, e por que as do túnel do carpo juntam analgesia a órtese e ao afastamento da exposição. O componente não farmacológico não é enfeite da alternativa: é parte do que a torna correta.
Uma última observação sobre escada analgésica. Ela organiza a escolha por intensidade dentro de um cenário já definido, e não substitui a pergunta anterior — este paciente pode receber esta classe? Subir degrau numa cena em que a classe está contraindicada não resolve; troca um erro por outro do mesmo tamanho.
O que a dor que não cede está dizendo
Até aqui o capítulo tratou a analgesia como acompanhamento. Falta o caso em que ela vira instrumento diagnóstico: a dor que não cede com analgesia adequada é um dado clínico.
Na síndrome compartimental, a dor desproporcional ao achado e refratária à analgesia é sinal precoce, e vem antes da alteração de pulso. Na artrite séptica e na osteomielite, a dor que persiste sob analgesia plena num membro com sinais inflamatórios muda a conduta de ambulatorial para hospitalar. Na cefaleia, a dor que não responde ao que costumava resolver é um dos sinais de alarme clássicos.
Aqui a analgesia deixa de ser conforto e passa a ser teste. Prescrevê-la e reavaliar a resposta é conduta; prescrevê-la e mandar o paciente embora sem reavaliar é omissão. A diferença entre as duas está no intervalo: horas, no quadro agudo grave, contra semanas, no quadro mecânico benigno.
É por isso que reavaliar em quatro semanas funciona tão bem como distrator. O prazo não é absurdo em si — é o prazo certo da lombalgia inespecífica. Ele vira erro quando o enunciado descreveu déficit progressivo, febre, perda de peso, dor noturna, antecedente oncológico ou trauma significativo. O intervalo é função do sinal de alarme, não do diagnóstico.
A leitura em prova fica assim. Encontre no enunciado, antes de olhar as alternativas, se existe algum sinal de alarme. Se existir, qualquer alternativa que combine analgesia com prazo longo está descartada, mesmo que a analgesia esteja correta. Se não existir, a alternativa com analgesia, manutenção da atividade e prazo de semanas costuma ser a certa.
Note que os sinais de alarme não pedem imagem por si mesmos em todo cenário; eles encurtam o relógio e mudam o destino do paciente. Numa lombalgia com déficit motor progressivo, o que muda não é apenas pedir ressonância — é que o caso deixa de ser ambulatorial.
O alívio que apaga o sinal, e por que quase não se pergunta isso
A objeção clássica ao alívio precoce é que ele mascara o quadro e atrapalha o exame — a velha recomendação de não analgesiar o abdome agudo antes da avaliação cirúrgica. Convém dizer com clareza duas coisas diferentes sobre ela: o que a evidência mostrou e o que a prova cobra.
A evidência acumulada nas últimas décadas não sustentou a proibição. A analgesia adequada no abdome agudo não reduziu a acurácia do exame nem atrasou o diagnóstico, e a prática de retardar o alívio até a avaliação especializada foi abandonada nas principais referências de emergência. O medo de mascarar sobreviveu à evidência que o desmontou.
Quanto à prova, o dado é ainda mais direto: essa discussão praticamente não aparece nas questões da grande área. As palavras que a formulam — mascarar o quadro, prejudicar o exame, adiar a analgesia — são raras ou inexistentes nas alternativas. O examinador não está testando se o candidato acredita no mito; está testando se ele sabe qual classe cabe naquele paciente.
Isso não significa que alívio nunca apague informação. Significa que o apagamento relevante é outro: o antitérmico que esconde a febre que se monitorava, o corticoide que abranda uma reação sem tratar a neurite que a acompanha, o anti-inflamatório que atenua a dor de um processo infeccioso e adia a decisão de internar.
Nos três exemplos o problema não é analgesiar — é analgesiar em vez de decidir. A alternativa errada raramente diz não trate a dor; ela diz trate a dor e não faça mais nada. O verbo apenas é um bom indicador: prescrever apenas antitérmico, prescrever apenas anti-inflamatório, manter apenas o sintomático.
Há ainda o caso em que o alívio precisa vir acompanhado de vigilância explícita. Quem recebe analgesia potente numa emergência precisa de reavaliação em intervalo curto, porque a melhora do sintoma muda o aspecto do paciente sem mudar a doença. Isso não é argumento contra analgesiar; é argumento a favor de registrar a resposta ao que foi dado, que é o que transforma o alívio em informação.
Feche o tema com a inversão que ele ensina. O erro típico do candidato não é esquecer a analgesia — é escolhê-la em vez da conduta. E o erro típico do examinador, quando quer derrubar, não é esconder a analgesia — é oferecê-la com o fármaco errado, no prazo errado, sem o ato que deveria vir junto.
Quatro perguntas antes de marcar a alternativa com analgesia
A sequência abaixo resolve as cenas do tema porque separa, na ordem, as quatro coisas que a alternativa faz ao mesmo tempo: propõe um ato principal, escolhe uma classe, fixa um prazo e recusa ou pede um exame. Cada pergunta elimina um conjunto diferente de opções.
- 1Pergunte primeiro qual ato a analgesia está acompanhando. Alternativa em que ela aparece sozinha, sem nenhum outro ato, é rara entre as corretas — e quando duas opções trazem analgesia, o que as distingue é sempre o ato vizinho.
- 2Pergunte depois se a alternativa desce ao nome da classe. Analgesia sem nome atravessa quase todo cenário; anti-inflamatório nomeado exige que você volte ao enunciado e procure o dado que o contraindica — ele costuma estar plantado como se fosse cor local.
- 3Pergunte então que prazo acompanha a proposta. Fármaco mais espera longa é o par mais frequente entre os distratores; a presença de qualquer sinal de alarme no enunciado encurta o relógio e derruba a opção, ainda que o fármaco esteja certo.
- 4Pergunte por fim o que a alternativa recusa. Recusar imagem com analgesia e critério de retorno é o desenho típico da resposta na dor mecânica sem alarme; pedir imagem e deixar o alívio como acessório é o desenho típico do erro.
Primeiro: qual ato ela acompanha?
A analgesia nunca decide sozinha. Localize, na mesma alternativa, o ato principal — imobilizar, drenar, tratar a infecção, afastar da exposição, manter a atividade. É esse ato que se compara com o das outras opções.
Segundo: a alternativa nomeia a classe?
Dizer analgesia é seguro em quase todo cenário. Nomear anti-inflamatório raramente é. Se a classe aparecer, volte ao enunciado e procure rim, estômago, plaqueta, anticoagulante, asma ou suspeita de arbovirose.
Terceiro: que prazo vem junto?
Fármaco mais espera longa é o par que mais derruba. Procure sinais de alarme no enunciado: se houver algum, qualquer prazo de semanas está descartado, mesmo com a analgesia certa.
Quarto: o que a alternativa recusa?
Analgesia acompanhada de recusa explícita de imagem, com critério de retorno, costuma ser a resposta. Exame primeiro, com o alívio como acessório do exame, costuma ser o distrator.
Nomear o fármaco não é sempre errado. Nas arboviroses a alternativa correta nomeia dipirona ou paracetamol justamente para poder excluir o anti-inflamatório e o ácido acetilsalicílico — o nome está ali a serviço da subtração.
Recusar exame não é sempre certo. A recusa só se sustenta quando o enunciado não trouxe sinal de alarme; com déficit progressivo, febre, perda de peso ou antecedente oncológico, a alternativa que dispensa investigação passa a ser a errada.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Os anti-inflamatórios não esteroides são descritos como fármacos de primeira linha para o tratamento da dor aguda leve a moderada, ao lado do paracetamol e da dipirona, e especificamente como tratamento de primeira linha na dor lombar aguda.
Revisão brasileira sobre tratamento de condições ambulatoriais comuns de dor aguda, publicada no periódico da sociedade brasileira para o estudo da dor.
Por apresentar manifestações clínicas muito parecidas com as da dengue, possibilitando confusão diagnóstica, deve-se evitar o uso de anti-inflamatórios não esteroides na fase aguda da doença.
Guia de manejo clínico da chikungunya do Ministério da Saúde, segunda edição revisada, seção de tratamento da fase aguda.
Analgésicos, anti-inflamatórios e drogas para dor neuropática podem também ser utilizados na fase crônica, de acordo com a manifestação clínica do paciente.
Guia de manejo clínico da chikungunya do Ministério da Saúde, segunda edição revisada, seção da fase crônica.
Na prova
O enunciado traz dor aguda intensa e as alternativas oferecem anti-inflamatório em algumas e o excluem em outras. O que decide não é a intensidade da dor: é o cenário epidemiológico e a fase da doença descritos antes.
Os salicilatos, como o ácido acetilsalicílico, são contraindicados e não devem ser administrados, pois podem causar ou agravar sangramentos; os anti-inflamatórios não hormonais e as drogas com potencial hemorrágico não devem ser utilizados.
Manual de diagnóstico e manejo clínico da dengue em adulto e criança, do Ministério da Saúde.
Os anti-inflamatórios não esteroidais não são recomendados em razão do risco de sangramento aumentado nesses pacientes ou de lesão renal.
Guia de manejo clínico da chikungunya do Ministério da Saúde, trecho sobre pacientes com comorbidades.
Não utilizar anti-inflamatório não hormonal ou aspirina pelo risco de complicações associadas às formas graves de chikungunya, com hemorragia e insuficiência renal.
Guia de manejo clínico da chikungunya do Ministério da Saúde, fluxograma de manejo da dor.
Na prova
As duas doenças terminam na mesma proibição, e o comentário de gabarito costuma dar só uma das razões. A questão fica difícil quando o cenário muda e só uma das razões continua valendo.
Jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativas contra sua dignidade e integridade.
Código de Ética Médica, capítulo de princípios fundamentais — a única menção a sofrimento, e em forma de vedação.
O doente continuará a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, assegurada a assistência integral, o conforto físico, psíquico, social e espiritual.
Resolução do Conselho Federal de Medicina sobre limitação e suspensão de procedimentos na fase terminal, parágrafo segundo do artigo primeiro.
A atuação busca a prevenção e o alívio do sofrimento, através do reconhecimento precoce, de uma avaliação precisa e criteriosa e do tratamento da dor e de outros sintomas.
Exposição de motivos da mesma resolução, ao descrever a abordagem de cuidados paliativos.
Na prova
Questões de ética costumam oferecer alternativas que invocam o código de ética para justificar conduta analgésica. O texto do código não trata do assunto; quem trata é outra norma, e num contexto restrito.
Caso resolvido
- Primeiro: classifique antes de tratar
- Dor lombar de início mecânico, sem irradiação radicular, sem sinal de alarme e com exame neurológico normal é lombalgia inespecífica. A classificação já resolve a maior parte da conduta: sem alarme, o caso é ambulatorial e não pede imagem nesta consulta.
- Segundo: leia o dado que parece cor local
- A doença renal crônica não está no enunciado por acaso. Ela é exatamente o dado que retira o anti-inflamatório — a classe que, fora esse contexto, seria descrita como primeira linha para dor lombar aguda. Aqui a escolha recai sobre analgesia simples.
- Terceiro: componha a conduta, não só a receita
- A alternativa correta reúne analgesia, orientação para manter as atividades habituais dentro do tolerado e explicação sobre a natureza autolimitada do quadro. O componente não farmacológico não é enfeite: evitar repouso prolongado é parte do tratamento.
- Quarto: fixe o prazo e o critério de retorno
- Sem sinal de alarme, reavaliar em algumas semanas é adequado, e a orientação de retorno imediato deve nomear o que muda a rota: déficit de força, alteração de continência, febre ou dor que passa a acordar a paciente.
- Quinto: recuse a imagem por escrito
- A conduta inclui não solicitar radiografia nem ressonância agora, e essa recusa é defensável porque vem acompanhada de tratamento, orientação e critério de retorno. Marcar a alternativa que pede imagem seria trocar o plano por um exame que não mudaria nada.
Agora feche você
- Primeiro
- Diga em que fase da doença este paciente está e por que essa definição, sozinha, já decide o que não entra na prescrição. Aponte no enunciado o elemento epidemiológico que sustenta a decisão.
- Segundo
- Escreva as duas razões, vindas de documentos diferentes, pelas quais o anti-inflamatório está fora agora. Diga qual delas deixaria de valer se o diagnóstico de chikungunya fosse confirmado e a dengue afastada.
- Terceiro
- Componha a conduta desta consulta nomeando o que entra e o que não entra, e explique por que, neste caso específico, nomear o fármaco é necessário em vez de escrever apenas analgesia.
- Quarto
- Defina o prazo e o conteúdo da reavaliação, e liste os achados que fariam este paciente voltar antes do prazo. Diga o que muda no destino dele se algum deles aparecer.
- Quinto
- Responda à pergunta que ele fez sobre a cartela, e diga em que momento futuro do curso da doença aquela mesma classe poderia ser considerada, segundo o guia oficial.
Onde a banca derruba
- 1Comparar duas alternativas pela palavra analgesia É o termo que elas têm em comum, e termo em comum nunca é critério. Compare pelo ato vizinho: uma manda imobilizar, a outra manda radiografar; uma manda manter a atividade, a outra manda repouso.
- 2Ler o dado do enunciado como cor local Idade avançada, doença renal, anticoagulante, úlcera, asma, plaquetopenia. Cada um desses fragmentos parece cenário e é a chave que retira o anti-inflamatório da lista — o examinador os planta antes das opções.
- 3Aceitar o prazo longo porque o fármaco está certo Reavaliar em quatro semanas é o prazo correto da lombalgia inespecífica e o erro clássico diante de déficit progressivo, febre ou antecedente oncológico. O intervalo é função do sinal de alarme, não do diagnóstico provável.
- 4Achar que recusar imagem é omissão Na dor mecânica sem alarme, a imagem precoce não muda a conduta e rotula achados degenerativos comuns em assintomáticos. A analgesia com critério de retorno é o que transforma a recusa em plano.
- 5Decorar a proibição sem o recorte que a delimita O mesmo guia que proíbe o anti-inflamatório na fase aguda da chikungunya o libera na fase crônica. Proibição sem recorte é rara em documento oficial; quem decora só a metade proibitiva erra a outra.
- 6Estender a proibição da arbovirose para toda febre As razões são risco hemorrágico e indistinguibilidade clínica com a dengue, ambas ancoradas num contexto epidemiológico. Anti-inflamatório não é proibido em todo quadro febril.
- 7Procurar no código de ética uma régua de analgesia Ele não escreve dor nem analgesia; o que traz sobre sofrimento é a vedação de causá-lo. O dever explícito de aliviar está em outra norma do conselho e fala de terminalidade, não de dose.
Dor lombar mecânica, sem irradiação radicular e sem sinal de alarme, com exame neurológico normal, é lombalgia inespecífica: imagem precoce não muda a conduta e rotula achados degenerativos comuns em assintomáticos. A doença renal crônica é o dado plantado que retira o anti-inflamatório, classe que fora desse contexto seria descrita como primeira linha na dor lombar aguda. Manter a atividade conforme tolerado é parte do tratamento, e repouso no leito piora o desfecho. A conduta que reúne analgesia simples, manutenção da atividade e critério de retorno é a única compatível com o caso.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Adolescente de 15 anos apresenta odinofagia há dois dias, febre de 38,7 °C, exsudato amigdaliano, adenomegalia cervical anterior dolorosa e ausência de tosse. Sem alergia a betalactâmicos. Teste rápido para estreptococo do grupo A positivo. Qual a conduta?
Com teste rápido positivo em quadro clínico compatível, a faringoamigdalite estreptocócica tem tratamento definido, e a penicilina permanece a escolha em paciente sem alergia — o macrolídeo é alternativa para alérgicos. A cultura não é necessária depois de um teste rápido positivo, e adiar o antibiótico mantém o risco de complicação supurativa e de febre reumática. A analgesia entra acompanhando o antibiótico, e não no lugar dele: as alternativas que a oferecem sem tratar a infecção trocam o ato principal pelo acompanhamento.
Em discussão de caso, um residente afirma que o Código de Ética Médica determina expressamente analgesia adequada para todo paciente com dor, em qualquer contexto. Sobre o fundamento normativo do alívio do sofrimento, qual afirmação é mais precisa?
O Código de Ética Médica não prescreve um esquema universal de analgesia para cada situação clínica. Contudo, o parágrafo único do artigo 41 determina que, nos casos de doença incurável e terminal, o médico ofereça todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, considerando a vontade do paciente ou representante. O Código também veda o uso dos conhecimentos médicos para causar sofrimento. A versão anterior errou ao localizar a obrigação positiva apenas em resolução separada. Fonte: CFM, Resolução 2.217/2018, Código de Ética Médica.
Homem de 35 anos, sem comorbidades, com dor lombar há três dias após esforço, sem irradiação, sem déficit neurológico, sem febre e sem antecedente relevante. Solicita radiografia porque um colega de trabalho fez e descobriu um problema na coluna. Qual a conduta mais adequada nesta consulta?
Lombalgia inespecífica sem sinal de alarme não tem indicação de imagem nesta consulta: o exame não altera a conduta e a chance de encontrar alteração degenerativa sem relação com o sintoma é alta, o que gera investigação em cascata. Acolher a demanda significa explicar por que o exame não ajuda, e não pedi-lo. A recusa da imagem só se sustenta acompanhada de tratamento, orientação de manter atividade e critério de retorno — que é exatamente a composição da resposta correta. Repouso prolongado piora o prognóstico.
Homem de 31 anos, morador de bairro com transmissão ativa de arboviroses, apresenta febre há três dias, exantema no tronco e poliartralgia intensa em punhos, tornozelos e joelhos. Prova do laço negativa, sem sangramento, hemodinamicamente estável, sem sinais de alarme e sem comorbidades. Qual a conduta analgésica?
Na fase aguda, o guia federal de manejo da chikungunya orienta evitar anti-inflamatórios não esteroidais, justamente porque as manifestações se confundem com as da dengue e a confusão diagnóstica é possível; o manual de dengue contraindica salicilatos e anti-inflamatórios não hormonais pelo risco de causar ou agravar sangramento. Sobram dipirona e paracetamol, e a alternativa correta nomeia esses fármacos exatamente para poder excluir os demais. Adiar toda analgesia até a sorologia não tem respaldo e deixa o paciente com dor incapacitante sem necessidade.
Homem de 27 anos sofreu fratura de tíbia tratada com imobilização há dez horas. Retorna ao pronto-socorro com dor progressiva na perna, desproporcional ao esperado, que não cede após doses adequadas de analgésico, e piora intensamente à extensão passiva dos dedos. Panturrilha tensa, pulso pedioso presente e perfusão distal preservada. Qual a conduta?
Dor desproporcional, refratária a analgesia adequada e agravada pela extensão passiva dos dedos é o conjunto precoce da síndrome compartimental aguda, e o pulso preservado não a afasta: a ausência de pulso é achado tardio. Aqui a analgesia deixa de ser conforto e vira instrumento diagnóstico — a dor que não cede é o dado clínico. A conduta é liberar a constrição, confirmar a pressão e operar; elevar o membro acima do coração reduz a perfusão e agrava, e qualquer alternativa que combine fármaco com espera perde o tempo do membro.
Homem de 58 anos com antecedente de adenocarcinoma de próstata tratado há três anos apresenta dor lombar há seis semanas, de piora progressiva, que o acorda à noite, associada a perda de 6 kg. Refere, há dois dias, dificuldade para iniciar a micção. Força de membros inferiores grau 4, reflexos vivos. Qual a conduta?
O enunciado reúne sinais de alarme empilhados: antecedente oncológico, dor progressiva com despertar noturno, perda ponderal e disfunção esfincteriana recente. Qualquer conduta que combine analgesia com prazo de semanas está descartada, ainda que a analgesia esteja correta, porque o intervalo é função do sinal de alarme e não do diagnóstico provável. O caso deixa de ser ambulatorial: exige imagem urgente e avaliação hospitalar, pela hipótese de compressão medular metastática, em que o tempo até o tratamento determina o desfecho neurológico.
Costureira de 46 anos, há oito anos na mesma função, queixa-se de parestesia noturna nos três primeiros dedos da mão direita, que a acorda e melhora ao sacudir a mão. Sinal de Phalen positivo, sem atrofia da eminência tenar e sem déficit motor. Qual a conduta mais completa?
O quadro é síndrome do túnel do carpo relacionada ao trabalho, sem sinal de gravidade que imponha cirurgia. A conduta completa reúne medida não farmacológica (órtese noturna em posição neutra), analgesia, atuação sobre a causa (adequação ergonômica com afastamento da exposição) e o ato administrativo obrigatório de comunicação do acidente de trabalho. O exame eletrofisiológico não é pré-requisito para iniciar o tratamento conservador em quadro clínico típico, e prescrever apenas o fármaco deixa de fora a exposição que mantém a doença.
Paciente com diagnóstico confirmado de chikungunya há quatro meses mantém poliartralgia simétrica incapacitante de mãos e punhos, sem febre, com dengue afastada por sorologia à época do quadro agudo. Não tem doença renal, úlcera péptica nem uso de anticoagulante. Sobre o uso de anti-inflamatório não esteroidal neste momento, é correto afirmar que:
O mesmo guia federal que orienta evitar anti-inflamatórios não esteroidais na fase aguda registra, no trecho sobre a fase crônica, que analgésicos, anti-inflamatórios e drogas para dor neuropática podem ser utilizados de acordo com a manifestação clínica. A proibição tem recorte temporal, e as duas razões que a sustentam na fase aguda deixaram de valer aqui: a dengue foi afastada e não há mais risco hemorrágico associado ao quadro agudo. Decorar a metade proibitiva do texto sem o recorte é o erro que a questão testa.
Em atividade de educação permanente, discute-se por que dengue e chikungunya recebem, nos guias federais, a mesma orientação de não usar anti-inflamatório não esteroidal na fase aguda. Qual afirmação descreve corretamente os fundamentos dessa orientação?
As duas orientações terminam na mesma frase prática e chegam lá por caminhos distintos: o manual de dengue contraindica salicilatos e anti-inflamatórios não hormonais porque podem causar ou agravar sangramento; o guia de chikungunya acrescenta que, por as manifestações se parecerem muito com as da dengue e possibilitarem confusão diagnóstica, deve-se evitar a classe na fase aguda. A diferença importa porque os gatilhos de liberação não coincidem, e porque nenhuma das razões generaliza para toda síndrome febril.
Mulher de 24 anos refere otalgia intensa à direita há dois dias, iniciada após frequentar piscina. Ao exame, dor intensa à tração do pavilhão auricular, conduto auditivo externo edemaciado com secreção, membrana timpânica não visualizada por edema. Sem febre e sem comorbidades. Qual a conduta?
Dor à tração do pavilhão com edema e secreção do conduto após exposição à água caracteriza otite externa aguda difusa, cujo tratamento é tópico: limpeza do conduto para permitir o contato da medicação e gota com antimicrobiano. O antibiótico sistêmico não é a primeira escolha e a cultura não é necessária no quadro não complicado. A analgesia aparece na resposta como acompanhamento do ato principal, e não como conduta isolada — é justamente essa composição que distingue a alternativa correta das que trazem analgesia sem o tratamento tópico.
Paciente com forte suspeita clínica de apendicite aguda aguarda avaliação cirúrgica com dor intensa. Qual afirmativa está correta quanto à analgesia?
A recomendação atual é analgesiar precocemente: os estudos mostram que o opioide alivia a dor sem reduzir a acurácia diagnóstica nem retardar a decisão cirúrgica. Adiar a analgesia é o erro mais enraizado, herdado de uma tradição que temia mascarar a irritação peritoneal, e hoje é considerado prática desnecessariamente cruel. Restringir a antiespasmódicos ou condicionar o alívio à realização da tomografia apenas prolonga o sofrimento sem ganho diagnóstico.
Homem de 58 anos, no 1º dia de pós-operatório de laparotomia por hemicolectomia, refere dor abdominal 8/10 em repouso, não consegue tossir nem sair do leito. Está em uso apenas de dipirona a cada 6 horas. Qual a conduta mais adequada?
A analgesia pós-operatória adequada é multimodal e prescrita com horário fixo mais doses de resgate, porque combinar fármacos com mecanismos diferentes reduz a dose de opioide e seus efeitos adversos, e permite tossir, respirar fundo e deambular. Suspender a analgesia para não mascarar complicações engana por parecer vigilância clínica, mas a dor não controlada é que impede a mobilização e favorece atelectasia e trombose — a complicação se detecta por sinais vitais e exame, não pela dor.
Paciente de 72 anos, com creatinina de 2,1 mg/dL e história de doença ulcerosa péptica, no pós-operatório de artroplastia. Qual classe analgésica deve ser evitada?
Os anti-inflamatórios não esteroidais reduzem a perfusão renal por inibição de prostaglandinas e agridem a mucosa gastroduodenal, somando dois riscos já presentes neste paciente. O opioide engana porque também exige cautela no idoso, mas pode ser usado com dose reduzida e monitorização, enquanto a lesão renal e a hemorragia digestiva são desfechos que o anti-inflamatório precipita de forma direta. O bloqueio regional é justamente a alternativa poupadora nesse perfil.
Qual é a principal consequência clínica do controle inadequado da dor aguda pós-operatória?
A dor limita a tosse, a respiração profunda e a deambulação, favorecendo atelectasia, pneumonia e trombose, além de sustentar a sensibilização central que leva à dor persistente após a cirurgia. Imaginar benefício na cicatrização engana quem associa dor a resposta adaptativa, mas a resposta ao estresse mal controlada é catabólica e imunossupressora, com efeito oposto.
Sobre a avaliação da dor no pós-operatório, qual conduta é a mais adequada?
A dor precisa ser medida com instrumento validado e registrada com regularidade, incluindo a avaliação durante o movimento, porque é ela que determina se o paciente conseguirá tossir e deambular. Avaliar apenas em repouso engana porque muitos pacientes referem conforto deitados e ficam impedidos de se mobilizar, e é justamente essa imobilidade que gera complicações respiratórias e tromboembólicas.
Qual é o princípio central da analgesia multimodal no pós-operatório?
A soma de mecanismos diferentes — analgésico simples, anti-inflamatório, opioide, adjuvantes e bloqueio regional — produz melhor controle com menos efeitos adversos do que escalonar uma única classe. Basear o esquema no opioide em dose máxima engana por controlar a dor de fato, mas ao custo de íleo, sedação, náusea e depressão respiratória, justamente o que atrasa a recuperação. Esperar dor intensa para tratar torna o controle muito mais difícil.
Sobre a analgesia no grande queimado, é correto afirmar que:
Com a perfusão periférica comprometida, o fármaco injetado no músculo pode não ser absorvido de imediato e depois entrar de uma vez, e por isso a via venosa é a escolha. Evitar opioides engana e condena o paciente a sofrimento desnecessário num dos quadros mais dolorosos da medicina. As áreas de espessura total são justamente as insensíveis, mas costumam estar cercadas por áreas de segundo grau muito dolorosas.
Qual afirmação sobre o uso de analgesia no paciente com trauma abdominal em investigação está correta?
A prática de negar analgesia para não mascarar o exame foi abandonada, pois o alívio da dor não prejudica a acurácia diagnóstica e permite exame mais confiável, além de reduzir a resposta ao estresse. Negar analgesia até o diagnóstico é justamente o dogma superado. Restringir a anti-inflamatórios não esteroidais é inadequado no traumatizado, pelo risco renal e hemostático. Contraindicar analgesia em qualquer trauma abdominal não tem respaldo. E o opioide, titulado com cuidado, é ferramenta legítima, exigindo apenas atenção à hemodinâmica e ao nível de consciência.
Qual conduta é adequada quanto à analgesia no grande queimado durante o atendimento inicial?
A dor do grande queimado é intensa e exige opioide titulado por via endovenosa, porque a perfusão periférica comprometida torna a absorção intramuscular imprevisível e pode gerar acúmulo com efeito tardio. Adiar a analgesia até completar a avaliação é desnecessário e cruel, e sedar sem analgesiar deixa o paciente com dor sem conseguir expressá-la — falha grave que ainda ocorre na prática.
Sobre a analgesia na dor musculoesquelética aguda, qual classe está associada a maior risco de eventos adversos graves e deve ser evitada como escolha inicial em idosos?
Os opioides carregam o maior risco de eventos graves no idoso — sedação, quedas com fratura, delirium, constipação grave e dependência —, e por isso não figuram como escolha inicial na dor musculoesquelética aguda dessa população. Analgésicos simples têm perfil bem mais seguro quando respeitadas as doses e a função hepática e renal. Medidas físicas, fisioterapia e exercício supervisionado são intervenções de baixo risco, e classificá-las como perigosas inverte completamente a hierarquia de segurança.
Homem de 47 anos está no primeiro dia de pós-operatório de herniorrafia inguinal aberta e refere dor moderada, com intensidade 6 em 10, principalmente ao mobilizar-se. Está estável, sem náuseas, com abdome sem sinais de complicação e ferida operatória limpa e seca. Ele recebeu apenas opioide em dose fixa, com sonolência importante e constipação no primeiro dia. A equipe deseja otimizar a analgesia, favorecendo a mobilização precoce e a recuperação funcional. A conduta mais adequada é:
A analgesia multimodal combina fármacos com mecanismos diferentes e técnicas regionais, permitindo controle adequado da dor com menor dose de opioide e, portanto, menos sonolência, constipação, náuseas e risco de depressão respiratória, além de favorecer mobilização precoce, elemento central da recuperação acelerada. Aumentar apenas o opioide agrava os efeitos adversos já presentes. Suspender toda analgesia impede a mobilização e piora desfechos. Repouso absoluto aumenta risco de tromboembolismo, atelectasia e perda funcional.
Mulher de 41 anos chega à sala de emergência com queimaduras de segundo grau em 25% da superfície corporal, sofridas há uma hora em incêndio doméstico. Refere dor de forte intensidade, classificada em 9 de 10 na escala numérica. Está consciente, com PA 112x70 mmHg, FC 116 bpm, FR 22 irpm e saturação de 98% em ar ambiente. Já foi puncionado acesso venoso periférico calibroso e iniciada a hidratação. A equipe discute como conduzir a analgesia inicial dessa paciente. Qual é a conduta mais adequada?
A dor do queimado é intensa e a analgesia deve ser feita com opioide por via venosa, titulada e reavaliada, porque a absorção por outras vias é errática na fase de instabilidade hemodinâmica e edema. A via intramuscular é imprevisível justamente nesse cenário e pode gerar acúmulo com pico tardio. Analgésicos simples isolados são insuficientes para dor de forte intensidade em grande queimado. Adiar a analgesia até terminar avaliação e curativo é inaceitável do ponto de vista clínico e ético, já que o curativo é procedimento doloroso que exige analgesia prévia.
Homem, 70 anos, com insuficiência cardíaca e fração de ejeção de 30%, apresenta dor intensa por fratura de fêmur, aguardando cirurgia. PA 108/68 mmHg, FC 96 bpm, FR 20 ipm, SatO2 95%. A equipe considera analgesia enquanto aguarda o procedimento, ponderando os riscos de cada classe farmacológica em paciente cardiopata, idoso e com função renal limítrofe. Qual a estratégia analgésica mais adequada?
Em cardiopata idoso com fratura, o controle da dor é essencial para evitar taquicardia, hipertensão e delirium, e a estratégia adequada combina opioide em dose ajustada com monitorização e bloqueio regional quando disponível, que reduz a necessidade de opioide sistêmico. Anti-inflamatórios não esteroidais são evitados na insuficiência cardíaca e na disfunção renal, por retenção de sódio e piora hemodinâmica. Associar corticoide sistêmico soma retenção hídrica sem benefício analgésico proporcional. Deixar sem analgesia é inaceitável do ponto de vista clínico e ético. A sedação profunda contínua aumenta complicações respiratórias e delirium sem tratar adequadamente a dor.
Homem, 44 anos, chega ao pronto-socorro com cólica renal, referindo dor intensa em flanco esquerdo com irradiação para região inguinal há 4 horas, avaliada como 9 em 10. Exame: agitado pela dor, PA 148x88 mmHg, FC 104 bpm, sem febre, abdome sem peritonite, Giordano positivo à esquerda. Função renal normal e ausência de alergias. Sobre a analgesia no pronto-socorro, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que adia a analgesia até o resultado dos exames: essa prática, baseada no receio antigo de mascarar o diagnóstico, foi abandonada, e a analgesia precoce é conduta humanizada e recomendada. É correto que o anti-inflamatório não esteroide é eficaz na cólica renal quando a função renal está preservada. Também é correto associar opioide diante de dor persistente. Avaliar a dor com escala e reavaliar após a intervenção é prática adequada. Por fim, é correto que a analgesia não prejudica a acurácia do exame físico na dor abdominal aguda, conforme demonstrado em estudos clínicos.
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em 7 dias
Escreva de memória as quatro perguntas da sequência — qual ato acompanha, se a classe está nomeada, que prazo vem junto, o que a alternativa recusa — e aplique-as a uma questão de lombalgia e a uma de artralgia por arbovirose. Diga em voz alta, para cada uma, qual dado do enunciado retira o anti-inflamatório da mesa.
em 30 dias
Reconstrua, sem consultar, as duas razões pelas quais dengue e chikungunya proíbem a mesma classe, e diga o que acontece com cada proibição quando o risco hemorrágico desaparece e quando o diagnóstico se firma. Depois explique por que o mesmo guia libera a classe na fase crônica.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Uma mulher de quarenta e dois anos chega à unidade básica com dor lombar há cinco dias, começada depois de carregar peso, sem irradiação e sem febre. Ela tem doença renal crônica e chega pedindo uma radiografia e o anti-inflamatório que costuma tomar. Atenda: procure os sinais de alarme, decida o que entra na conduta e explique a ela por que o exame e o comprimido que ela pediu não são o melhor plano hoje. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
