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Sepse e choque séptico

A prova cobra a primeira hora. O foco infeccioso costuma vir de graça no enunciado; o que pontua é enxergar a disfunção orgânica no paciente que 'só tem uma infecção', disparar lactato, culturas, antibiótico e volume dentro do prazo e saber que o vasopressor não espera o volume terminar.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 68 anos, diabético, é levado ao pronto-socorro com febre, tosse produtiva e queda do estado geral há 2 dias. Ao exame: sonolento, PA 82/48 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm, SatO2 90% em ar ambiente, T 38,9 °C. Ausculta pulmonar com estertores em base direita. Exames iniciais: lactato 4,2 mmol/L (VR < 2,0), creatinina 2,1 mg/dL (basal 1,0), leucócitos 18.500/mm3. Iniciada expansão volêmica com cristaloide 30 mL/kg. Após a ressuscitação inicial, a PA permanece 84/50 mmHg, com PAM 61 mmHg, mantendo lactato 3,8 mmol/L. Qual a conduta mais apropriada neste momento?

02

Como esse tema cai

Sepse é tema garantido em prova de acesso direto e o formato é quase sempre o mesmo: um paciente com infecção evidente — pneumonia, pielonefrite, abdome agudo — e alguns sinais espalhados pelo enunciado que, somados, dizem que já existe disfunção orgânica. O diagnóstico do foco raramente é o ponto difícil. O ponto é perceber que aquele paciente saiu da categoria 'infecção' e entrou na categoria 'sepse', e executar o que essa mudança de rótulo obriga a fazer na hora seguinte.

Este capítulo cobre exatamente esse recorte: as definições que separam infecção, sepse e choque séptico; o que o SIRS, o qSOFA e o SOFA servem para fazer; o pacote de 1 hora item a item; o volume, o vasopressor e a reavaliação. Ele termina quando o paciente está com o foco endereçado, a perfusão em recuperação e o destino definido. Escolha de esquema antimicrobiano por foco, manejo prolongado de terapia intensiva, ventilação na síndrome do desconforto respiratório agudo, sepse em pediatria e neutropenia febril pertencem a outros capítulos.

A escala do problema no Brasil dá o tamanho da aposta. No relatório nacional do ILAS de 2023, com 16.025 pacientes de 79 centros, a letalidade foi de 21,2% na sepse e 53,5% no choque séptico. São mais de 30 pontos percentuais de mortalidade entre um rótulo e o outro — e o intervalo entre eles é, em boa parte dos casos, a primeira hora.

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O que muda decisão

Sepse é infecção com disfunção — e a disfunção é o que você mede

A definição vigente vem do Sepsis-3, de 2016: sepse é disfunção orgânica ameaçadora à vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção. Operacionalmente, o consenso traduziu 'disfunção orgânica' como aumento agudo de 2 ou mais pontos no escore SOFA em relação ao basal. Um SOFA de 2 pontos ou mais em quem tem infecção suspeita corresponde a um risco de morte hospitalar em torno de 10% — mais do que muitas condições que ninguém manda para casa.

Duas consequências dessa definição caem direto em prova. A primeira: a categoria 'sepse grave' deixou de existir. O que antes era sepse grave passou a se chamar apenas sepse, e o que antes era chamado de sepse (infecção com resposta inflamatória, sem disfunção) virou 'infecção sem disfunção' — que não é sepse. A segunda: infecção com febre, taquicardia e leucocitose, mas sem nenhuma disfunção orgânica, não abre o rótulo de sepse por mais impressionante que pareça o hemograma.

Calcular SOFA na porta do pronto-socorro, porém, é impraticável: o escore exige relação PaO2/FiO2, plaquetas, bilirrubina, creatinina, escala de coma de Glasgow e pressão arterial média com a dose de vasopressor em uso. Por isso o ILAS tomou uma decisão explícita e conveniente para quem atende: adotou a nomenclatura do Sepsis-3, mas não adotou a variação do SOFA como critério operacional, por entender que ela não é aplicável a iniciativas de melhoria de qualidade. É o que diz a revisão de 2018; na de julho de 2026, que a substituiu, a mesma frase saiu sem o não, mas a lista de critérios que vem logo depois é a antiga, e é ela que vale (a conta está nas notas do critério). Manteve uma lista de disfunções que qualquer enfermeiro ou médico confere à beira do leito.

A lista brasileira de disfunções orgânicas, que é o que efetivamente abre um protocolo de sepse no Brasil: hipotensão (pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, pressão arterial média abaixo de 65 mmHg ou hipotensão relativa — queda de mais de 40 mmHg em relação à habitual na revisão de 2018, sistólica abaixo da basal conhecida na de 2026, lida por esta apostila como queda de mais de 40 mmHg); oligúria de 0,5 mL/kg/h ou menos, ou creatinina acima de 2 mg/dL; relação PaO2/FiO2 abaixo de 300 ou necessidade de oxigênio para manter saturação acima de 90%; plaquetas abaixo de 100.000/mm³ ou queda de 50% em relação ao maior valor dos últimos 3 dias; lactato acima do valor de referência — 2 mmol/L ou 18 mg/dL, na revisão de 2026; rebaixamento do nível de consciência, agitação ou delirium; e aumento de bilirrubinas acima de 2 vezes o valor de referência.

A regra prática que fecha esta seção está escrita com todas as letras no protocolo brasileiro: na presença de uma dessas disfunções, sem outra explicação plausível e com foco infeccioso presumível, o diagnóstico de sepse deve ser feito e o pacote de tratamento iniciado imediatamente após a identificação. Uma disfunção basta. Não se espera a segunda, não se espera o lactato e não se espera a cultura.

SIRS e qSOFA: dois instrumentos, duas funções

O SIRS é a síndrome da resposta inflamatória sistêmica: pelo menos dois de quatro sinais — temperatura central acima de 38,3 °C ou abaixo de 36 °C (ou axilar acima de 37,8 °C ou abaixo de 35 °C, cortes que o protocolo brasileiro passou a escrever na revisão de 2026); frequência cardíaca acima de 90 bpm; frequência respiratória acima de 20 irpm ou PaCO2 abaixo de 32 mmHg; leucócitos acima de 12.000/mm³ ou abaixo de 4.000/mm³ ou com mais de 10% de formas jovens. Ele saiu da definição de sepse em 2016, mas nunca saiu da triagem. É uma rede muito sensível e pouco específica: uma amigdalite em jovem hígido faz SIRS. É exatamente por isso que o protocolo brasileiro separa quem abre a suspeita (em geral a enfermagem) de quem decide dar seguimento (a equipe médica).

O qSOFA é outra coisa. São três itens, um ponto cada, todos sem laboratório: frequência respiratória de 22 irpm ou mais; alteração do nível de consciência; pressão arterial sistólica de 100 mmHg ou menos. Positivo é 2 ou mais. Ele foi proposto para identificar, entre pacientes com infecção fora da terapia intensiva, aqueles com maior risco de morrer — não para encontrar quem tem sepse.

O número que explica tudo está no estudo de derivação: apenas 24% dos pacientes infectados tinham qSOFA de 2 ou 3 pontos, mas esses pacientes concentravam 70% dos desfechos ruins. Isso é a assinatura de um instrumento específico e pouco sensível: quando ele acende, acende por um bom motivo; quando não acende, não afasta nada. Como rede de captura, deixa passar três em cada quatro.

Daí as posições que a prova cobra. O ILAS, já em 2018, escreveu que o qSOFA não deve ser utilizado para triagem de pacientes com suspeita de sepse, e sim, após a triagem por critérios mais sensíveis, para identificar quem tem maior risco de óbito — e manteve a posição na revisão de 2026. A Surviving Sepsis Campaign chegou ao mesmo lugar em 2021, com uma recomendação forte, de evidência moderada, contra o uso do qSOFA como ferramenta única de rastreio, preferindo SIRS, NEWS ou MEWS nessa função — posição reafirmada na versão de 2026.

A tradução clínica é curta. qSOFA de 0 ponto não descarta sepse, e o paciente com uma disfunção orgânica isolada e qSOFA negativo tem sepse do mesmo jeito. qSOFA de 2 ou mais é bandeira vermelha: pede atenção prioritária, do mesmo modo que pede o paciente com múltiplas disfunções.

Choque séptico: as duas definições, e por que a diferença importa

No Sepsis-3, choque séptico é sepse com anormalidade circulatória e celular profunda o bastante para exigir duas coisas simultâneas, ambas persistindo apesar de reposição volêmica adequada: necessidade de vasopressor para manter pressão arterial média de 65 mmHg ou mais, e lactato acima de 2 mmol/L (18 mg/dL). Assim definido, o choque séptico tem mortalidade hospitalar acima de 40%.

O protocolo brasileiro do ILAS, alinhado à Surviving Sepsis Campaign, usa outra régua operacional: choque séptico é a sepse que evoluiu com hipotensão não corrigida por reposição volêmica (pressão arterial média de 65 mmHg ou menos), independentemente do lactato. A revisão de 2018 registrava que a Surviving Sepsis Campaign não havia adotado o critério do lactato do Sepsis-3 e seguia a mesma régua; a de 2026 escreve que o critério de choque não mudou e acrescenta à definição a necessidade de vasopressor para manter a perfusão. A razão é de operação, não de ciência: em protocolo gerenciado, num país com letalidade alta, exigir o lactato para rotular o choque atrasaria a identificação de quem precisa de vasopressor agora.

Os números brasileiros justificam o cuidado com o rótulo. No relatório do ILAS de 2023, a letalidade foi de 21,2% na sepse e 53,5% no choque séptico. A quebra por natureza do hospital é dura: 25% e 57,8% nos públicos, 18% e 47,4% nos privados. E o choque não é o quadro dominante — foi 24,4% dos casos, contra 75,6% de sepse; o pulmão foi o foco em 41,2% dos pacientes, o trato urinário em 15,7% e o abdome em 11,1%.

Um detalhe de leitura que separa quem estudou de quem decorou: existem dois cortes de lactato no tema, e eles não são o mesmo número nem servem para a mesma coisa. Acima de 2 mmol/L (18 mg/dL) é o critério de choque séptico do Sepsis-3. Acima de duas vezes o valor de referência do laboratório — na prática, algo em torno de 4 mmol/L ou 36 mg/dL — é o corte de hiperlactatemia inicial do protocolo brasileiro, aquele que obriga a ressuscitação volêmica mesmo em paciente ainda normotenso, e que define quem precisa do segundo lactato.

Pele do joelho com padrão de livedo reticular e polpa digital sendo comprimida para avaliar o tempo de enchimento capilar.
Livedo e enchimento capilar lentificado são sinais de hipoperfusão que aparecem sem nenhum exame — e contam como gatilho de ressuscitação, mesmo com a pressão ainda de pé.

O tempo zero é quando alguém escreve a suspeita

Todo prazo deste capítulo se conta a partir de um instante específico: o momento em que a hipótese de sepse é formulada e registrada. O protocolo brasileiro é explícito — registre o diagnóstico no prontuário ou na ficha de triagem, e todas as medidas passam a ser contadas dali. Não é burocracia: é o único jeito de o relógio existir para a equipe inteira, incluindo quem assume o plantão seguinte.

Só que esse relógio não é o relógio do paciente, e os dados brasileiros mostram o tamanho da diferença. No relatório do ILAS de 2023, o tempo médio entre a instalação da disfunção orgânica e o diagnóstico foi de 2,7 horas, enquanto o tempo médio entre o diagnóstico e o antimicrobiano foi de 1,0 hora. O próprio relatório avisa que o tempo real até o antibiótico é a soma dos dois — perto de 4 horas. A equipe que celebra 'antibiótico em uma hora' pode estar entregando quatro.

A distribuição diz onde está o buraco. Nos pacientes reconhecidos no pronto-socorro e ali tratados, o tempo de disfunção foi de 1,2 hora; nos que adoeceram internados em enfermaria, 4,9 horas; nos que já estavam na terapia intensiva, 4,7 horas. Quem chega grave é visto rápido; quem piora dentro do hospital é visto tarde. O maior ganho não está em raspar minutos do antibiótico, e sim em encurtar o intervalo até alguém pronunciar a palavra 'sepse' — que é precisamente o que um protocolo gerenciado compra.

Vale saber também quando o protocolo não segue. O ILAS lista as saídas legítimas: quadro típico de infecção de via aérea alta ou amigdalite em paciente jovem e sem comorbidade, que faz SIRS e tem baixa probabilidade de sepse; suspeita de dengue, malária ou leptospirose, que têm fluxo próprio; e paciente com cuidados de fim de vida já definidos, em que o protocolo é descontinuado e não entra no denominador dos indicadores. Fora dessas, disfunção clínica aparente manda seguir imediatamente com o pacote de 1 hora.

O pacote de 1 hora, item a item

Primeiro item: lactato arterial, colhido o mais rápido possível e dentro da primeira hora, encaminhado imediatamente ao laboratório — amostra que fica parada dá resultado falsamente elevado — com o objetivo de ter o resultado em 30 minutos. Junto dele vai a bateria que caça disfunção: gasometria, hemograma completo, creatinina, bilirrubina e coagulograma. É essa coleta que transforma 'infecção' em 'sepse' ou permite afirmar que não há disfunção; sem ela, o rótulo é chute.

Segundo item: hemoculturas antes da administração do antimicrobiano — duas de sítios distintos, em até uma hora, na revisão de 2018; na de 2026, ao menos 20 mL de sangue, de preferência de sítios distintos, tão cedo quanto possível —, mais as culturas dos outros sítios pertinentes — urocultura, aspirado traqueal, líquor —, que a revisão de 2026 deixa colher logo depois da primeira dose quando for preciso. A regra que a prova adora está na frase seguinte do protocolo: caso não seja possível a coleta antes da primeira dose, a administração do antimicrobiano não deve ser postergada. Cultura tem prioridade de ordem, nunca de relógio.

Terceiro item: antimicrobiano de amplo espectro, por via endovenosa, dirigido ao foco suspeito, dentro da primeira hora da identificação da sepse. O esquema segue a orientação do controle de infecção da instituição, que conhece o perfil local e a diferença entre infecção comunitária e associada à assistência. Aqui há três detalhes de farmacologia que separam a conduta correta da conduta plausível.

Dose máxima para o foco, com dose de ataque quando pertinente, e sem ajuste para função renal ou hepática — podendo permanecer sem ajuste renal por 24 a 72 horas na revisão de 2026 (nas primeiras 24 horas, na de 2018). O motivo é físico-químico: a ressuscitação volêmica aumenta o volume de distribuição dos antimicrobianos hidrofílicos, e a dose 'corrigida' pela creatinina entrega concentração insuficiente justamente no paciente que menos pode esperar. Reduzir dose por creatinina alterada na primeira dose de um paciente séptico é erro clássico.

Infusão estendida dos betalactâmicos como piperacilina-tazobactam e meropenem — estendida ou contínua nos de meia-vida curta, cefepima incluída, na revisão de 2026 —, com uma exceção que a prova cobra: a primeira dose vai em bolus, o mais rápido possível. A infusão prolongada otimiza o tempo acima da concentração inibitória mínima, mas só faz sentido depois que a concentração já subiu. Estender a primeira dose é atrasar o tratamento com aparência de tecnicismo. Terapia combinada fica reservada, na revisão de 2026, à suspeita de infecção por múltiplos agentes e a casos selecionados de suspeita de multirresistência — a de 2018 falava em duas ou três drogas diante de agente multirresistente e em considerar classes diferentes no choque séptico —, e o descalonamento vem quando o patógeno e a sensibilidade forem conhecidos.

Quarto e quinto itens são volume e vasopressor, e cada um merece sua própria seção. O sexto — o segundo lactato — pertence à reavaliação, mas nasce aqui: quem tem lactato inicial acima de duas vezes o valor de referência já sai da primeira hora com a segunda dosagem programada.

Volume: 30 mL/kg, quem recebe e o que a evidência sustenta

Quem recebe: pacientes hipotensos — pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, pressão arterial média abaixo de 65 mmHg ou queda de 40 mmHg em relação à pressão habitual — ou com sinais de hipoperfusão, entre eles lactato acima de duas vezes o valor de referência do laboratório. E hipoperfusão não é só número: oligúria, livedo, tempo de enchimento capilar lentificado e alteração do nível de consciência contam, mesmo com a pressão ainda de pé — e a revisão de 2026 manda medir o enchimento capilar em todo suspeito e ressuscitar quando ele passa de 3 segundos, mesmo com lactato normal.

Quanto e em quanto tempo: 30 mL/kg de cristaloide. A revisão de 2018 do protocolo brasileiro mandava infundir dentro da primeira hora do diagnóstico ou da detecção dos sinais de hipoperfusão; a de 2026 escreve até 30 mL/kg, com início na primeira hora e fim em até 3 horas, o mesmo prazo da Surviving Sepsis Campaign, que fala em pelo menos 30 mL/kg dentro das primeiras 3 horas. Esta apostila adota 30 mL/kg como volume de referência, iniciado na primeira hora e terminado em até 3 horas, com volume menor decidido por fluido-tolerância ou falta de resposta e com o motivo escrito no prontuário. Para um paciente de 70 kg, são 2.100 mL. Cristaloide é preferido a coloide com recomendação forte; entre os cristaloides, a solução balanceada é preferida à salina a 0,9%, com recomendação fraca em 2021 e mantida como condicional em 2026. Amidos — e, na revisão de 2026, também gelatinas — não são recomendados, por aumento de disfunção renal. Albumina não entra de rotina na reposição inicial, mas pode compô-la em situações específicas, sobretudo quando grandes volumes de cristaloide já foram necessários ou no cirrótico.

O que esse número vale como evidência é a parte que separa quem entendeu de quem decorou. Os 30 mL/kg eram recomendação forte até a versão de 2016 e foram rebaixados em 2021 a recomendação fraca com evidência de baixa qualidade, porque o número vem do protocolo do estudo de terapia precoce guiada por metas e não de um ensaio que tenha comparado volumes diferentes. Ensaios posteriores de estratégia restritiva versus liberal não mostraram diferença de mortalidade. A versão de 2026 manteve os 30 mL/kg como recomendação condicional e abriu espaço explícito para considerar características individuais do paciente e do serviço.

Na prática, isso não autoriza a não repor. Autoriza a repor com o dedo no pulso. O protocolo brasileiro diz que pacientes cardiopatas podem necessitar de redução na velocidade de infusão, conforme a presença de disfunção sistólica ou diastólica, e acrescenta uma exigência que raramente se lê em diretriz: nos casos em que se optar por não realizar a reposição, parcial ou integralmente, após avaliação de fluido-responsividade, essa decisão deve estar adequadamente registrada no prontuário — e o uso de vasopressor para garantir pressão de perfusão precisa ser avaliado.

As duas condutas erradas são simétricas e ambas aparecem como alternativas em prova: correr 30 mL/kg em bolus livre num paciente com fração de ejeção de 25% e estertores difusos, e negar volume a um paciente hipotenso e hipoperfundido só porque ele tem um diagnóstico de insuficiência cardíaca no prontuário. O caminho é alíquota, reavaliação entre elas e vasopressor cedo.

Vasopressor: entra por pressão, não por volume terminado

O alvo é pressão arterial média de 65 mmHg — recomendação forte, de evidência moderada, na versão de 2021 e mantida em 2026, que acrescentou a sugestão de trabalhar com 60 a 65 mmHg em pacientes de 65 anos ou mais. A droga de primeira escolha é a noradrenalina.

A frase mais útil do protocolo brasileiro é a que dá o prazo: não se deve tolerar pressões abaixo de 65 mmHg por períodos superiores a 30 a 40 minutos; por isso o vasopressor deve ser iniciado dentro da primeira hora nos pacientes em que está indicado. E, em hipotensão ameaçadora à vida, o vasopressor pode ser iniciado antes ou durante a reposição volêmica. A ideia de que o vasopressor 'mascara' a hipovolemia e por isso deve esperar o volume acabar não sobrevive a esse raciocínio: garantir pressão de perfusão enquanto se continua repondo é o objetivo, não um atalho.

O acesso não é desculpa. A noradrenalina pode ser iniciada em veia periférica enquanto se providencia o acesso venoso central — posição do protocolo brasileiro desde 2018, que na revisão de 2026 passou a pedir o acesso central quando a necessidade de vasopressor se prolonga, e recomendação formal da Surviving Sepsis Campaign desde 2021, mantida em 2026, aceitando o uso periférico por período limitado, da ordem de algumas horas, justamente para não atrasar o início. Na revisão de 2018, o paciente em vasopressor era idealmente monitorado com pressão arterial invasiva, porque o manguito seria pouco fidedigno nessa situação; na de 2026, a invasiva é indicada quando a dose de vasopressor é intermediária ou alta, sobe ou soma drogas, quando as gasometrias arteriais são frequentes ou quando o manguito entrega medidas incoerentes — e, onde não houver, o manguito serve, em medidas seriadas e com vigilância clínica.

Quando um vasopressor não basta: a vasopressina é a segunda droga, somada à noradrenalina em vez de se escalonar a dose desta — na prática, quando a noradrenalina chega à faixa de 0,25 a 0,5 µg/kg/min. A adrenalina entra quando a vasopressina não é suficiente; na revisão de 2018, o protocolo brasileiro a dava como preferível nos pacientes que se apresentam com débito cardíaco reduzido. A dobutamina não é vasopressor: entra quando há evidência de baixo débito ou sinais persistentes de hipoperfusão tecidual — livedo, oligúria, enchimento capilar lentificado, saturação venosa central baixa, lactato que não cai — apesar de volume e pressão adequados; na revisão de 2026, o protocolo brasileiro soma o inotrópico ao vasopressor ou usa a adrenalina isolada, e esta apostila lê a associação como dobutamina associada à noradrenalina, ou adrenalina isolada, pela conta das notas do critério.

O corticoide fecha o degrau seguinte. A indicação clássica é o choque séptico refratário, aquele em que não se consegue manter a pressão-alvo apesar de ressuscitação volêmica adequada e vasopressor. A droga é a hidrocortisona, 50 mg a cada 6 horas — assim na revisão de 2018 do protocolo brasileiro; a de 2026 passou a admitir considerá-la no choque séptico, sem exigir refratariedade, em 200 mg por dia, em doses de 50 mg a cada 6 horas ou em infusão contínua, pesando hiperglicemia e hipernatremia. São os mesmos 200 mg por dia da Surviving Sepsis Campaign, que também admite infusão contínua e situa o limiar em noradrenalina ou adrenalina de 0,25 µg/kg/min ou mais, mantida por pelo menos 4 horas. É recomendação fraca: o ganho demonstrado é resolução mais rápida do choque e mais dias livres de vasopressor, não uma queda inequívoca de mortalidade.

Antebraço com cateter venoso periférico conectado a uma bomba de seringa, com kit de acesso venoso central ainda lacrado sobre uma bandeja ao fundo.
A noradrenalina pode começar em veia periférica enquanto o acesso central é providenciado. Esperar o central é gastar a janela em que a pressão ainda pode ser recuperada.

Reavaliar: o segundo lactato, a perfusão e o que fecha a primeira hora

Quem tinha lactato inicial acima de duas vezes o valor de referência repete a dosagem dentro de 4 horas da abertura do protocolo, pela revisão de 2026 do ILAS, que pede nova coleta depois da intervenção inicial em todo lactato alterado — a revisão de 2018 dizia entre 2 e 4 horas após o início da ressuscitação volêmica. A meta é a queda, não um número redondo. E há uma ressalva que a prova gosta de transformar em pegadinha: nem sempre se obtém a normalização, porque existem outras causas de hiperlactatemia além da hipoperfusão, e a hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais clínicos de hipoperfusão nem má evolução, não necessariamente precisa ser tratada. Perseguir o número com mais volume produz dano.

No Brasil, esse é o elo mais fraco da corrente. No relatório do ILAS de 2023, o segundo lactato foi colhido em apenas 31,7% dos pacientes elegíveis, contra 83,6% de adesão ao antimicrobiano, 83% ao volume, 79,8% ao primeiro lactato e 78,5% às hemoculturas. O vasopressor no prazo ficou em 66,6%. O pacote completo foi cumprido em 49,1% dos casos — ou seja, metade dos pacientes de hospitais que participam de um programa de qualidade não recebe o pacote inteiro.

A reavaliação formal das 6 horas vale para quem se apresenta com choque séptico, hiperlactatemia ou sinais clínicos de hipoperfusão, e consiste em registrar o estado volêmico e a perfusão por algum método — pressão venosa central, variação de pressão de pulso, distensibilidade de veia cava, elevação passiva de membros inferiores, resposta pressórica a uma prova de volume, saturação venosa central, tempo de enchimento capilar, presença de livedo, ou sinais indiretos como melhora do nível de consciência e retomada da diurese. O tempo de enchimento capilar virou adjunto formal na Surviving Sepsis Campaign em 2021 e segue em 2026: é o parâmetro que não depende de equipamento nenhum.

Alguns cortes de suporte que costumam completar a questão. Transfusão: pacientes com sinais de hipoperfusão e hemoglobina abaixo de 7 g/dL podem ser transfundidos, salvo situação que peça individualização — na revisão de 2018, deviam ser transfundidos o quanto antes. Glicemia: meta abaixo de 180 mg/dL, com insulina iniciada a partir desse valor, evitando hipoglicemia e oscilações bruscas. Bicarbonato: não está indicado na acidose lática do choque séptico só para melhorar a hemodinâmica ou poupar vasopressor, porque o tratamento dessa acidose é restabelecer a perfusão, e pode ser avaliado na acidose metabólica grave com lesão renal aguda importante — a revisão de 2018 usava o corte de pH 7,15. E o paciente séptico hipertenso — mais comum do que parece, sobretudo em hipertenso crônico — pode precisar de redução da pós-carga com vasodilatador endovenoso de ação curta, nunca com droga de efeito prolongado, porque ele pode desabar em minutos.

O que fecha a primeira hora é o foco e o destino. Antibiótico em coleção não drenada não resolve choque: abscesso se drena, cateter infectado se retira, via urinária obstruída se desobstrui, e isso entra na conta das primeiras horas, não da semana. A intubação deve ser considerada no paciente séptico com insuficiência respiratória aguda, aumento do trabalho respiratório, hipoxemia persistente, rebaixamento do nível de consciência, via aérea desprotegida ou deterioração progressiva — na revisão de 2018, ela não devia ser postergada na insuficiência respiratória com hipoperfusão; se ventilar, ventile protegido — na SDRA, volume corrente de 6 mL/kg do peso predito, com platô até 30 cmH2O; sem SDRA, entre 6 e 8 mL/kg. Pacientes com disfunção orgânica grave ou choque devem ser alocados em leito de terapia intensiva assim que possível — e, quando não houver leito, o atendimento não rebaixa: a ficha do protocolo acompanha o paciente pelas 6 primeiras horas exatamente para sobreviver às trocas de turno e de setor.

04

Os quatro degraus e o que cada um dispara

Sepse não é um estado, é uma escada: infecção sem disfunção, sepse, choque séptico e choque refratário. Cada degrau tem um critério objetivo, uma letalidade própria e um conjunto de ações que ele obriga. Saber em que degrau o paciente está é o que define a conduta — e o enunciado costuma dar os elementos espalhados, esperando que você os some. Antes dos degraus, o caminho da primeira hora:

  1. 1Paciente com infecção suspeita ou confirmada: procure disfunção orgânica — consciência, respiração, pressão, diurese, pele, plaquetas, creatinina, bilirrubina, lactato.
  2. 2Uma disfunção, sem outra explicação plausível, já é sepse. Registre a hipótese no prontuário: é dali que todos os prazos passam a correr.
  3. 3Ainda na primeira hora: lactato arterial (resultado em 30 minutos) com a bateria de disfunção, e hemoculturas com ao menos 20 mL de sangue, de preferência de sítios distintos, mais as culturas dos demais sítios pertinentes, que podem vir logo depois da primeira dose.
  4. 4Antimicrobiano de amplo espectro endovenoso dirigido ao foco, dentro da primeira hora, em dose plena e sem ajuste renal — sem esperar cultura nem lactato.
  5. 5Hipotenso ou com sinais de hipoperfusão, inclusive lactato acima de 2 vezes o valor de referência: 30 mL/kg de cristaloide, ajustando a velocidade em quem tem cardiopatia.
  6. 6Pressão arterial média abaixo de 65 mmHg durante ou após o volume: noradrenalina, em veia periférica se for o acesso disponível. Não espere o volume terminar nem o cateter central chegar.
  7. 7Lactato inicial alterado: repita após a intervenção inicial — acima do dobro da referência, em até 4 horas da abertura do protocolo pela revisão de 2026, e entre 2 e 4 horas pela de 2018 — e persiga a queda, não a normalização a qualquer custo.
  8. 8Reavalie volemia e perfusão ao longo das 6 primeiras horas, controle o foco e defina o destino: leito de terapia intensiva para disfunção grave ou choque.

Infecção sem disfunção

Foco infeccioso suspeito ou confirmado, com ou sem critérios de resposta inflamatória sistêmica, e nenhuma disfunção orgânica. Não é sepse. Pode ter protocolo aberto por uma triagem sensível, mas a equipe médica pode seguir outro fluxo em quadro típico de infecção de via aérea alta ou amigdalite em jovem sem comorbidade.

Sepse

Infecção com disfunção orgânica ameaçadora à vida — aumento agudo de 2 ou mais pontos no SOFA pelo Sepsis-3, ou qualquer disfunção da lista operacional no protocolo brasileiro. Dispara o pacote de 1 hora inteiro. Letalidade de 21,2% nos dados brasileiros de 2023.

Choque séptico

Hipotensão que não corrige com reposição volêmica adequada e exige vasopressor. O Sepsis-3 acrescenta lactato acima de 2 mmol/L; o protocolo brasileiro dispensa esse critério. Letalidade de 53,5% no Brasil em 2023 e acima de 40% na descrição do Sepsis-3.

Choque refratário

Pressão-alvo que não se sustenta apesar de volume adequado e vasopressor em curso. É o degrau da segunda droga vasoativa e da monitorização invasiva — e em que o leito de terapia intensiva deixa de ser negociável. A hidrocortisona, que a revisão de 2018 do protocolo brasileiro reservava a este degrau em 50 mg a cada 6 horas, pode ser considerada já no choque séptico na de 2026, em 200 mg por dia.

Item do pacotePrazoQuem recebeO detalhe que a prova cobra
Bateria de disfunção: gasometria, hemograma, creatinina, bilirrubina, coagulograma1ª horaTodo paciente com protocolo abertoÉ essa coleta que transforma 'infecção' em 'sepse' — ou que autoriza dizer que não há disfunção; na revisão de 2026, só a gasometria com lactato fica no pacote, e hemograma, creatinina, bilirrubina e coagulograma passam a coleta habitual dos serviços.
Lactato arterialO quanto antes, de preferência na 1ª hora; resultado em 30 minutosTodo paciente com protocolo abertoAmostra que demora a chegar ao laboratório dá falso-positivo. Acima de 2 vezes o valor de referência, dispara ressuscitação mesmo sem hipotensão; na revisão de 2026, o venoso periférico serve à triagem de quem não tem disfunção respiratória nem hipoperfusão, com seguimento arterial se vier alto.
Hemoculturas — ao menos 20 mL de sangue, de preferência de sítios distintos, na revisão de 2026; duas de sítios distintos na de 2018 (mais culturas dos demais sítios pertinentes)Antes do antimicrobiano, tão cedo quanto possível (até 1 hora, na revisão de 2018); as culturas dos demais sítios podem vir logo depois da 1ª doseTodo paciente com protocolo abertoAntes do antibiótico, sim — mas se a coleta não for possível, a primeira dose não é postergada.
Antimicrobiano de amplo espectro endovenoso dirigido ao foco1ª hora no choque séptico e na sepse; 3 horas na possível sepse sem choque, no texto internacionalSepse e choque sépticoDose máxima, com ataque quando pertinente, sem ajuste renal por 24 a 72 horas (24 horas, na revisão de 2018). Primeira dose em bolus; infusão estendida só a partir da segunda.
Cristaloide 30 mL/kgInício na 1ª hora e fim em até 3 horas no protocolo brasileiro de 2026, que escreve até 30 mL/kg (1ª hora, na revisão de 2018); primeiras 3 horas na Surviving Sepsis CampaignHipotensos (PAS < 90, PAM < 65 ou queda > 40 mmHg) ou com sinais de hipoperfusão, incluindo lactato acima de 2 vezes o valor de referênciaBalanceado é preferido à salina; amidos contraindicados; cardiopata reduz a velocidade e reavalia entre alíquotas — não fica sem volume.
NoradrenalinaDentro da 1ª hora, quando indicadaPAM abaixo de 65 mmHg durante ou após a reposiçãoVeia periférica serve; o central vem quando a necessidade de vasopressor se prolonga (revisão de 2026). PAM abaixo de 65 mmHg não se tolera por mais de 30 a 40 minutos.
Segundo lactatoDentro de 4 horas da abertura do protocolo, na revisão de 2026 (na de 2018, de 2 a 4 horas depois de iniciada a ressuscitação)Quem tinha lactato acima de 2 vezes o valor de referênciaA meta é clareamento, não normalização a qualquer custo. É o item de pior adesão no Brasil: 31,7% em 2023.

Cultura e antibiótico disputam o mesmo relógio, e a ordem de prioridade é explícita: colher antes, mas nunca adiar a primeira dose por causa da coleta.

Os dois cortes de lactato não são o mesmo número. Acima de 2 mmol/L (18 mg/dL) é critério de choque séptico no Sepsis-3; acima de 2 vezes o valor de referência é o gatilho de ressuscitação volêmica do protocolo brasileiro, que na revisão de 2026 fixou a referência em 2 mmol/L — o gatilho fica, então, acima de 4 mmol/L.

Paciente com cuidados de fim de vida já definidos não segue no protocolo e, nos hospitais que gerenciam indicadores, não entra no denominador.

Um erro de unidade sobreviveu às duas revisões do protocolo brasileiro. O limiar transfusional do paciente com sinais de hipoperfusão aparece como hemoglobina abaixo de 7 mg/dL, com verbo de obrigação em 2018 e de possibilidade em 2026. Em g/dL, que é a unidade da hemoglobina, 7 mg/dL são 0,007 — mil vezes menos que o corte pretendido. Este capítulo usa 7 g/dL.

O número 65 serve a quatro regras do protocolo brasileiro que não combinam na borda. Choque séptico, na tabela de conceitos, é PAM de 65 mmHg ou menos após o volume; hipotensão, na lista de disfunções, é PAM abaixo de 65; o vasopressor é indicado abaixo de 65; e a revisão de 2026 põe a meta inicial em 65, admitindo 60 a 65 no idoso selecionado. Um paciente que sai do volume com PAM de 65 exatos é choque por uma frase, não é hipotenso por outra e já cumpre a meta. O desencontro entre tabela e lista vem desde 2018. Esta apostila lê assim: PAM parada em 65 depois do volume está na borda de baixo da faixa-alvo e pede a vigilância de quem está abaixo.

A frase do protocolo brasileiro sobre o SOFA perdeu uma negação entre as revisões. Em agosto de 2018, o ILAS recusava como critério operacional a variação do SOFA do Sepsis-3, por julgá-la inaplicável a programas de qualidade, e ficava com a lista anterior, lactato incluído. Em julho de 2026, a passagem diz que esses critérios se adotam, pela razão de nem sempre servirem, e logo depois que se mantêm os critérios anteriores, inclusive a hiperlactatemia. A frase nova se desmente três vezes — o motivo alegado nega a decisão, o SOFA não tem lactato, e os critérios listados logo abaixo são os velhos —, e por isso a régua em uso continua sendo a lista.

A hipotensão relativa perdeu o número na revisão de 2026 do protocolo brasileiro. A lista de 2018 dizia queda de mais de 40 mmHg da pressão habitual; a de 2026 diz sistólica inferior à pressão basal conhecida, sem corte, o que faria de uma queda de 130 para 125 — 5 mmHg — uma disfunção orgânica. O mesmo texto de 2026 segue usando os 40 mmHg para dizer quem é hipotenso na reposição volêmica, e é essa coerência interna que decide: esta apostila adota a queda de mais de 40 mmHg da sistólica habitual como régua de hipotensão relativa.

O volume da revisão de 2026 do protocolo brasileiro não confere consigo mesmo. Em 2018, eram 30 mL/kg dentro da primeira hora; em 2026, até 30 mL/kg, começando na primeira hora e acabando em 3 horas — e o mesmo parágrafo manda registrar a reposição que não for completada, registro sem sentido se não houver um total esperado. A Surviving Sepsis Campaign, citada neste capítulo, fala em pelo menos 30 mL/kg nas 3 primeiras horas. Resolvendo pela coerência, esta apostila adota 30 mL/kg como volume de referência, iniciado na primeira hora e terminado em até 3 horas, com volume menor decidido por fluido-tolerância ou falta de resposta e com o motivo escrito no prontuário — 2.100 mL em 70 kg.

A associação para o baixo débito troca um nome na revisão de 2026 do protocolo brasileiro. O texto diz que, persistindo baixo débito ou hipoperfusão depois de volume e vasopressor, pode-se usar adrenalina com dobutamina, ou adrenalina isolada: a adrenalina aparece nos dois ramos, e o paciente descrito já está no vasopressor que o próprio protocolo manda usar primeiro, a noradrenalina. A leitura coerente é dobutamina associada à noradrenalina, ou adrenalina isolada, e é a que este capítulo ensina; a revisão de 2018 dava a adrenalina como preferível no débito cardíaco reduzido e a dobutamina para baixo débito ou hipoperfusão persistente.

Os cortes axilares da SIRS acrescentados na revisão de 2026 do protocolo brasileiro — acima de 37,8 °C e abaixo de 35 °C — não guardam a mesma distância dos centrais: são 0,5 °C no alto, entre 38,3 e 37,8, e 1,0 °C no baixo, entre 36 e 35. O documento não diz qual conversão usou. Aplicada a distância do corte alto, o baixo seria 35,5 °C axilar, e o paciente com 35,4 °C axilar fica hipotérmico por uma leitura e normotérmico pela outra. Na dúvida, conte a hipotermia.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O qSOFA serve para rastrear ou para prever risco de morte?

Sepsis-3 (2016)

Propôs o qSOFA — frequência respiratória de 22 irpm ou mais, alteração do nível de consciência e pressão sistólica de 100 mmHg ou menos, positivo com 2 ou mais pontos — como identificador rápido, sem laboratório, de pacientes com infecção fora da terapia intensiva sob maior risco de desfecho ruim.

Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. Sepsis-3. JAMA. 2016;315(8):801-810

ILAS (2018, mantida em 2026)

Na revisão de 2018: escore ainda não validado prospectivamente, com boa acurácia para prever óbito às custas de baixa sensibilidade. Na de 2026: não recomendado para triagem pela diretriz internacional daquele ano, pela baixa sensibilidade, e validado como escore de deterioração clínica. Nas duas, não deve ser usado para triagem de pacientes com suspeita de sepse, e sim, após triagem por critérios mais sensíveis, para identificar quem tem maior risco de morrer.

ILAS — Protocolo clínico de sepse e choque séptico, revisões de agosto de 2018 e de julho de 2026, que substituiu a anterior

Surviving Sepsis Campaign (2021, mantida em 2026)

Recomendação forte, de evidência moderada, contra o uso do qSOFA como ferramenta única de rastreio, preferindo SIRS, NEWS ou MEWS nessa função. No estudo de derivação, só 24% dos infectados tinham qSOFA de 2 ou 3 pontos, embora esses concentrassem 70% dos desfechos ruins.

Evans L, et al. Surviving Sepsis Campaign 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143; Prescott HC, et al. Surviving Sepsis Campaign 2026. Crit Care Med. 2026;54(4):725-812

Na prova

O recorte aparece no verbo do enunciado. Quando o texto fala em triar, rastrear ou abrir protocolo à beira do leito e coloca SIRS, NEWS e qSOFA lado a lado nas alternativas, a questão está testando a diferença entre rede de captura e marcador de gravidade — e o próprio conjunto de alternativas denuncia isso. Quando o enunciado nomeia o Sepsis-3 ou pergunta quem tem maior risco de morrer, o eixo é prognóstico. Um distrator que trata qSOFA de 0 ou 1 ponto como afastando sepse foi construído em cima da baixa sensibilidade, que é justamente o motivo da posição de 2021. Registre os anos: qSOFA proposto em 2016, restrição do ILAS em 2018, mantida na revisão de 2026, posição forte contra o uso isolado em 2021 e reafirmada em 2026.

Choque séptico exige lactato alterado?

Sepsis-3 (2016)

Exige os dois critérios simultaneamente, ambos persistindo apesar de reposição volêmica adequada: necessidade de vasopressor para manter PAM de 65 mmHg ou mais E lactato acima de 2 mmol/L (18 mg/dL). Assim definido, o choque séptico tem mortalidade hospitalar acima de 40%.

Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. Sepsis-3. JAMA. 2016;315(8):801-810

ILAS (2018, mantida em 2026) e Surviving Sepsis Campaign

Choque séptico é hipotensão não corrigida com reposição volêmica (PAM de 65 mmHg ou menos), independentemente de alterações do lactato. Na revisão de 2018, o protocolo registrava que a Surviving Sepsis Campaign não havia adotado o critério do lactato do Sepsis-3; na de 2026, escreve que o critério de choque não mudou e põe na definição a necessidade de vasopressor. A régua evita atrasar a identificação de quem precisa de vasopressor em protocolo gerenciado, num país de letalidade alta.

ILAS — Protocolo clínico de sepse e choque séptico, revisões de agosto de 2018 e de julho de 2026, que substituiu a anterior

Na prova

A causa da diferença não é científica, é operacional — o corpo brasileiro corta o critério que atrasa a ação, e diz isso por escrito. Enunciado que cita Sepsis-3, entrega um valor numérico de lactato e pede a classificação está no mundo das definições, em que faltam vasopressor e lactato juntos. Enunciado que descreve abertura de protocolo institucional, pacote de 1 hora ou indicadores de adesão está no mundo operacional, em que hipotensão que não corrige com volume basta. As alternativas denunciam o recorte: 'choque séptico apenas se o lactato estiver acima de 2 mmol/L' só faz sentido no primeiro; 'choque séptico independentemente do lactato' só faz sentido no segundo. Anos: Sepsis-3 em 2016, protocolo do ILAS revisado em 2018 e em 2026, com o mesmo critério de choque.

O SIRS morreu ou continua valendo?

Sepsis-3 (2016)

Retirou o SIRS dos critérios que definem sepse e extinguiu a categoria 'sepse grave'. O argumento é que os critérios de resposta inflamatória descrevem uma resposta do hospedeiro que pode ser adequada, e não necessariamente disfunção orgânica.

Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. Sepsis-3. JAMA. 2016;315(8):801-810

ILAS (2018 e 2026) e Surviving Sepsis Campaign (2021, 2026)

O SIRS não define mais sepse, mas continua sendo instrumento de triagem para identificar pacientes com infecção sob risco de sepse ou choque. A Surviving Sepsis Campaign chega a colocá-lo à frente do qSOFA quando se trata de escolher uma ferramenta única de rastreio.

ILAS — Protocolo clínico de sepse e choque séptico (revisões de 2018 e de julho de 2026); Evans L, et al. Surviving Sepsis Campaign 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143

Na prova

A expressão 'sepse grave' numa alternativa data o enunciado: ela deixou de existir em 2016 e sobrevive em questões antigas e em prontuário. Pergunta sobre definição de sepse aponta para o Sepsis-3 e para a disfunção orgânica; pergunta sobre rastreio, triagem de enfermagem ou abertura de protocolo aponta para o SIRS, que segue em uso nessa função por escolha explícita das duas fontes. E o inverso também cai: disfunção orgânica na ausência de critérios de SIRS pode ser sepse — o idoso hipotérmico, sem leucocitose e confuso é o caso-modelo. Registre os anos dos documentos: saída do SIRS da definição de sepse em 2016, permanência dele como instrumento de triagem em 2018, 2021 e 2026.

Os 30 mL/kg são um número fixo?

ILAS (2018; até 30 mL/kg em 3 horas em 2026)

Na revisão de 2018, infusão imediata de 30 mL/kg de cristaloide dentro da primeira hora para hipotensos ou com sinais de hipoperfusão; na de 2026, infusão imediata de até 30 mL/kg, iniciada na primeira hora e terminada em até 3 horas, com ritmo e total ajustados ao quadro clínico, à resposta a fluidos e à tolerância a eles. As duas trazem a ressalva escrita de que cardiopatas podem necessitar de redução da velocidade de infusão e de que a decisão de não repor, parcial ou integralmente, deve ser registrada no prontuário após avaliação de fluido-responsividade.

ILAS — Protocolo clínico de sepse e choque séptico, revisões de agosto de 2018 e de julho de 2026, que substituiu a anterior

Surviving Sepsis Campaign (2021 e 2026)

Pelo menos 30 mL/kg de cristaloide nas primeiras 3 horas, com recomendação fraca e evidência de baixa qualidade — rebaixada da recomendação forte que vigorava até 2016. A versão de 2026 manteve o número como recomendação condicional e abriu espaço explícito para considerar características individuais do paciente e do serviço.

Evans L, et al. Surviving Sepsis Campaign 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143; Prescott HC, et al. Surviving Sepsis Campaign 2026. Crit Care Med. 2026;54(4):725-812

Crítica metodológica

O número vem do protocolo do estudo de terapia precoce guiada por metas, e não de um ensaio que tenha comparado volumes. Ensaios posteriores de estratégia restritiva versus liberal não mostraram diferença de mortalidade em 90 dias, e estratégias restritivas não aumentaram dano.

Justificativa registrada na própria Surviving Sepsis Campaign 2021 para o rebaixamento da recomendação (evidência de baixa qualidade, ausência de ensaios comparando volumes)

Na prova

Cenário de pronto-socorro ou UPA brasileira, com protocolo gerenciado e paciente sem cardiopatia, cobra o número redondo e o prazo — 30 mL/kg, primeira hora no texto brasileiro de 2018, primeiras 3 horas no texto internacional, prazo que a revisão brasileira de 2026 passou a usar para terminar a infusão, escrevendo até 30 mL/kg. O recorte muda quando o enunciado carrega uma comorbidade que o autor não colocou por acaso: fração de ejeção reduzida, doença renal em diálise, estertores difusos. Aí a questão está testando individualização, e as alternativas costumam separar três mundos — correr o volume fechado, reduzir a velocidade e reavaliar por alíquotas, ou não repor nada. Note a força, não só o número: forte até 2016, fraca desde 2021, condicional em 2026. O valor não mudou; o grau de certeza sim.

06

Caso resolvido

Mulher de 78 anos, diabética e hipertensa, é levada ao pronto-socorro pela filha por tosse produtiva há três dias e piora da confusão mental nas últimas 12 horas. Ao exame: sonolenta, orientada apenas no tempo; frequência respiratória de 30 irpm; PA 86 x 50 mmHg; FC 118 bpm; temperatura axilar de 38,6 °C; saturação de 90% em ar ambiente; tempo de enchimento capilar de 4 segundos; estertores em base direita. Peso estimado de 60 kg. Sem cardiopatia conhecida. O serviço tem valor de referência de lactato até 2 mmol/L.
rótulo
Foco pulmonar presumível com três disfunções orgânicas simultâneas: rebaixamento do nível de consciência, hipotensão (PAS abaixo de 90 mmHg) e necessidade de oxigênio para manter saturação acima de 90%. Isso é sepse, não 'pneumonia com desidratação'. Uma disfunção já bastaria.
escores
SIRS positivo com 3 dos 4 critérios (temperatura, frequência cardíaca e frequência respiratória) mesmo antes do hemograma. qSOFA com 3 de 3 pontos: frequência respiratória de 30 irpm, alteração do nível de consciência e sistólica abaixo de 100 mmHg. O qSOFA aqui não faz o diagnóstico — ele diz que o risco de morte é alto e que a paciente vai na frente da fila.
tempo zero
Registrar a hipótese de sepse no prontuário e anotar a hora. Todos os prazos que vêm a seguir correm a partir desse minuto, e é ele que a equipe do próximo turno vai ler.
coletas
Lactato arterial encaminhado imediatamente, com resultado esperado em 30 minutos, junto de gasometria, hemograma, creatinina, bilirrubina e coagulograma. Duas hemoculturas de sítios distintos, mais urocultura e cultura de escarro se factível — antes do antibiótico, mas sem que a coleta atrase a primeira dose.
antibiótico
Antimicrobiano de amplo espectro endovenoso, dirigido a pneumonia comunitária grave, conforme o esquema do controle de infecção da instituição, dentro da primeira hora. Dose plena, sem ajuste pela creatinina nesta primeira dose, e em bolus — a infusão estendida entra a partir da segunda.
volume
Hipotensa e hipoperfundida: 30 mL/kg, ou seja, 1.800 mL de cristaloide, preferencialmente balanceado, começando dentro da primeira hora e terminando em até 3 horas. Sem cardiopatia conhecida, não há razão para reduzir a velocidade — mas a reavaliação entre alíquotas continua sendo boa prática.
vasopressor
Se a pressão arterial média permanecer abaixo de 65 mmHg durante ou após o volume, noradrenalina começa dentro da primeira hora, em veia periférica se o acesso central ainda não estiver pronto. Uma média abaixo de 65 mmHg não se tolera por mais de 30 a 40 minutos.
reavaliação e destino
Segundo lactato dentro de 4 horas da abertura do protocolo se o inicial vier acima de 4 mmol/L, com meta de queda. Reavaliação de volemia e perfusão pelas 6 primeiras horas — enchimento capilar, diurese, nível de consciência. Com essas disfunções, o destino é leito de terapia intensiva assim que possível; enquanto não houver vaga, o pacote não rebaixa.
07

Agora feche você

Homem de 64 anos, com insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida conhecida (fração de ejeção de 30%), chega ao pronto-socorro com febre, dor lombar à direita e disúria há dois dias. PA 82 x 48 mmHg, FC 112 bpm, FR 24 irpm, lúcido. Tempo de enchimento capilar de 4 segundos, extremidades frias. Lactato de 4,6 mmol/L (valor de referência do serviço até 2 mmol/L). Peso 80 kg. Ausculta pulmonar com estertores discretos em bases. Hemoculturas e urocultura já colhidas, antimicrobiano endovenoso administrado 20 minutos após a chegada.
rótulo
Pielonefrite com hipotensão, hipoperfusão periférica e lactato acima de duas vezes o valor de referência. É sepse, e ainda não é choque séptico: a hipotensão não foi testada contra reposição volêmica adequada.
o que já está certo
Culturas colhidas e antimicrobiano em 20 minutos cumprem dois itens do pacote de 1 hora. Falta o item que a comorbidade complica.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Esperar o lactato ou as culturas para liberar o antibiótico A ordem é colher antes, mas a prioridade de relógio é do antimicrobiano. O protocolo brasileiro diz com todas as letras que, se a coleta não for possível antes da primeira dose, a administração não deve ser postergada. Alternativa que manda 'aguardar o resultado do lactato para decidir' é sempre a errada em paciente com disfunção instalada.
  2. 2Usar qSOFA como rede de rastreio — e liberar quem tem 1 ponto O qSOFA é específico e pouco sensível: no estudo de derivação, apenas 24% dos infectados tinham 2 ou 3 pontos. Ele identifica quem tem risco alto de morrer, não quem tem sepse. Desde 2021 há recomendação forte contra o uso dele como ferramenta única de rastreio, com SIRS, NEWS ou MEWS preferidos nessa função.
  3. 3Não abrir o protocolo porque não há febre nem leucocitose Disfunção orgânica na ausência de critérios de resposta inflamatória sistêmica pode ser sepse — está escrito assim no protocolo brasileiro. O idoso hipotérmico, com leucograma normal, confuso e com creatinina que dobrou tem duas disfunções da lista e um foco presumível. Isso basta.
  4. 4Falar em 'sepse grave' A categoria deixou de existir em 2016. O que era sepse grave passou a se chamar sepse, e o que era chamado de sepse virou infecção sem disfunção — que não é sepse. A expressão numa alternativa costuma denunciar enunciado antigo ou distrator montado sobre nomenclatura vencida.
  5. 5Segurar o vasopressor até terminar os 30 mL/kg ou até chegar o cateter central Pressão arterial média abaixo de 65 mmHg não se tolera por mais de 30 a 40 minutos, e em hipotensão ameaçadora à vida a noradrenalina pode começar antes ou durante a reposição. Veia periférica serve enquanto se providencia o acesso central — é recomendação formal, não improviso.
  6. 6Ajustar a dose do antibiótico pela creatinina na primeira dose A ressuscitação volêmica aumenta o volume de distribuição dos antimicrobianos hidrofílicos, e o protocolo permite manter dose plena sem ajuste renal por 24 a 72 horas na revisão de 2026 — nas primeiras 24 horas, na de 2018. Corrigir a dose pela creatinina de um paciente que acabou de receber litros de cristaloide entrega concentração insuficiente exatamente a quem menos pode esperar.
  7. 7Perseguir a normalização do lactato com mais volume A meta é o clareamento, e existem outras causas de hiperlactatemia além da hipoperfusão. Hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais clínicos de hipoperfusão e sem má evolução, não necessariamente precisa ser tratada — e o protocolo alerta que a busca pela normalização a qualquer custo gera intervenções desnecessárias e potencialmente deletérias.
  8. 8Esquecer o segundo lactato É o item de pior desempenho do país: 31,7% de adesão no relatório do ILAS de 2023, contra 83,6% do antimicrobiano. Quem tinha lactato acima de duas vezes o valor de referência repete dentro de 4 horas da abertura do protocolo, na revisão de 2026 — entre 2 e 4 horas do início da ressuscitação, na de 2018. Em prova, é o item que a alternativa 'correta na aparência' costuma omitir.
  9. 9Tratar a acidose lática com bicarbonato Não está indicado bicarbonato na acidose lática do choque séptico só para melhorar a hemodinâmica ou reduzir vasopressor, porque o tratamento dessa acidose é restabelecer a perfusão. Na revisão de 2026, a terapia pode ser avaliada na acidose metabólica grave com lesão renal aguda importante — o que é diferente de ser a conduta esperada; a de 2018 usava o corte de pH 7,15 e reservava o bicarbonato abaixo dele para salvamento.
  10. 10Parar no antibiótico e não caçar o foco Abscesso não drenado, cateter infectado mantido e via urinária obstruída sustentam o choque apesar do esquema perfeito. Controle de foco pertence às primeiras horas, não ao segundo dia — e uma questão que descreve pielonefrite com hidronefrose ou colangite está testando exatamente isso.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Trata-se de choque séptico (hipotensão persistente com necessidade de vasopressor + lactato elevado após ressuscitação volêmica adequada). Após os 30 mL/kg de cristaloide, a PAM permanece < 65 mmHg, indicando início imediato de noradrenalina, o vasopressor de primeira linha pela Surviving Sepsis Campaign. Novo bolus fixo de 30 mL/kg às cegas não é recomendado após a ressuscitação inicial adequada — o próximo passo diante de hipotensão persistente é vasopressor guiado por metas. Dobutamina é inotrópico, indicada em hipoperfusão por disfunção miocárdica, não como vasopressor inicial. Corticoide (hidrocortisona) só se choque refratário a fluido e vasopressor, não isoladamente agora. Não há indicação de transfusão (sem anemia significativa referida); Hb-alvo na sepse é ≥ 7 g/dL.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

As três definições e o que cada instrumento faz. Sepse é infecção com disfunção orgânica (aumento agudo de 2 ou mais pontos no SOFA pelo Sepsis-3; qualquer disfunção da lista operacional no protocolo brasileiro). Choque séptico é hipotensão que não corrige com volume e exige vasopressor — com lactato acima de 2 mmol/L somado, no Sepsis-3, e dispensado no protocolo brasileiro. SIRS (2 de 4) é rastreio, não definição; qSOFA (frequência respiratória de 22 ou mais, alteração de consciência, sistólica de 100 ou menos; positivo com 2 pontos) é marcador de risco de óbito, não rede de rastreio. E o pacote de 1 hora: lactato com resultado em 30 minutos, duas hemoculturas de sítios distintos, antimicrobiano de amplo espectro endovenoso, 30 mL/kg de cristaloide em quem está hipotenso ou hipoperfundido, noradrenalina se a pressão arterial média ficar abaixo de 65 mmHg.

em 30 dias

Os detalhes que separam a nota. A lista de disfunções do protocolo brasileiro com os números (PAS < 90 ou PAM < 65 ou hipotensão relativa — sistólica abaixo da basal na revisão de 2026, lida aqui como queda > 40 mmHg; diurese ≤ 0,5 mL/kg/h ou creatinina > 2 mg/dL; PaO2/FiO2 < 300; plaquetas < 100.000/mm³; bilirrubina > 2 vezes o valor de referência). Os dois cortes de lactato e para que serve cada um. A primeira dose em bolus contra a infusão estendida a partir da segunda, e a dose plena sem ajuste renal por 24 a 72 horas (24 horas em 2018). Noradrenalina periférica, com o central quando a necessidade se prolonga; vasopressina somada quando a noradrenalina chega a 0,25 a 0,5 µg/kg/min; adrenalina depois; dobutamina associada à noradrenalina, ou adrenalina isolada, para baixo débito. Hidrocortisona 200 mg por dia, em 50 mg a cada 6 horas, considerável no choque séptico desde a revisão de 2026 (no refratário, em 2018). Segundo lactato dentro de 4 horas da abertura (2 a 4 horas em 2018), com meta de queda. E a força das recomendações: 30 mL/kg era forte até 2016, virou fraca em 2021 e segue condicional em 2026.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Idosa de 78 anos trazida ao pronto-socorro com tosse há três dias e confusão mental hoje — hipotensa, taquipneica e com enchimento capilar lentificado. A primeira hora começou. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Sepse e choque séptico — Preparatório para provas | OsceLabs