PediatriaNefrologia Pediátrica

Infecção do trato urinário na criança

A prova cobra quatro decisões encadeadas: desconfiar de ITU na febre sem foco, colher a urina pelo método certo e aplicar o corte certo de UFC/mL, escolher antibiótico que trate pielonefrite — e definir quem precisa de ultrassom, uretrocistografia e cintilografia depois do episódio.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente do sexo feminino, 10 meses, apresenta há 2 dias febre de 39 °C sem foco aparente, irritabilidade e recusa alimentar. Exame: PA 90/55 mmHg, FC 150 bpm, T 39,2 °C, sem sinais localizatórios respiratórios ou cutâneos. Urina coletada por saco coletor mostra leucocitúria. Qual a conduta mais apropriada para confirmar o diagnóstico de infecção urinária antes de iniciar tratamento?

02

Como esse tema cai

Durante décadas valeu o dogma: ITU febril em lactente era malformação até prova em contrário, e a prova em contrário exigia uretrocistografia para todos. Duas coisas derrubaram isso. A ultrassonografia pré-natal passou a detectar as grandes uropatias antes do primeiro episódio de febre, e os registros de doença renal crônica mostraram que muitas 'cicatrizes de pielonefrite' eram, na verdade, displasia do desenvolvimento renal — com ou sem refluxo associado. As diretrizes atuais são deliberadamente menos invasivas e mais individualizadas, e as bancas cobram exatamente o desenho desse novo funil.

Quatro pontos concentram as questões: o diagnóstico (que método de coleta vale em quem não controla esfíncter, e que contagem de colônias confirma ITU em cada método), o tratamento (via oral desde cedo, o antibiótico que não serve para pielonefrite, quem interna), a investigação por imagem (ultrassom para quem, uretrocistografia para quem, cintilografia quando) e o refluxo vesicoureteral com sua profilaxia.

A régua documental importa: a ITU da criança não tem protocolo federal único do Ministério da Saúde — a referência nacional é o documento científico de Nefrologia da SBP (2021), e quem operacionaliza a conduta na ponta do SUS são protocolos de rede como o do SUS-BH (2020), construído com a nefrologia pediátrica do HC-UFMG. Prova oficial do MEC tende à conduta praticada no SUS; nas demais bancas, as alternativas denunciam qual documento o examinador leu.

03

O que muda decisão

A cara da ITU muda com a idade — e a prova mora no lactente febril

Como usar este capítulo: confirme primeiro a qualidade da coleta e interprete a urocultura conforme o método. Depois escolha antibiótico e via pela idade e gravidade e, somente após controlar a infecção, decida quem precisa de ultrassonografia, uretrocistografia ou seguimento por cicatriz.

A ITU é a segunda infecção bacteriana mais prevalente da pediatria: atinge 8,4% das meninas e 1,7% dos meninos antes dos 7 anos, com alto risco de recorrência no primeiro ano após o episódio inicial. No primeiro ano de vida acomete igualmente os dois sexos — depois disso, o predomínio feminino se instala. A Escherichia coli responde por cerca de 80% dos casos; Proteus, Klebsiella, Enterobacter e enterococo dividem o resto. Germe que não é E. coli importa dobrado: associa-se a mais cicatriz renal e levanta suspeita de anomalia do trato urinário. Lactobacillus, estafilococo coagulase-negativo e Corynebacterium em cultura são contaminação, não uropatógeno.

O quadro clínico é a idade. No recém-nascido e no lactente a ITU não tem cara de ITU: febre sem foco, vômitos, recusa alimentar, irritabilidade, baixo ganho de peso, icterícia persistente — até quadro francamente séptico. No pré-escolar aparecem urina fétida, dor abdominal, disúria e polaciúria. No escolar, os sintomas miccionais vêm com um marcador que a prova adora: enurese secundária de início recente. No adolescente o quadro é o do adulto — e pede investigação de atividade sexual. Febre com calafrio e dor lombar, em quem já verbaliza, é pielonefrite até segunda ordem.

O gatilho formal de suspeita, pela SBP, é todo lactente com febre sem foco aparente há mais de 24 horas; o protocolo do SUS-BH manda considerar o diagnóstico mesmo antes disso, porque a duração da febre sem antibiótico se correlaciona com o risco de cicatriz renal. Temperatura de 39 °C ou mais aumenta a probabilidade, e achar outro foco possível — uma otite, uma IVAS — não exclui ITU no lactente. Para quantificar a probabilidade antes e depois do exame de urina existe a calculadora uticalc, citada pela SBP como ferramenta de emergência.

A anamnese e o exame físico já começam a investigação de malformação. Perguntas obrigatórias: alteração no ultrassom pré-natal (dilatação de pelve), jato urinário fraco ou em gotejamento (válvula de uretra posterior no menino, bexiga neurogênica, fimose puntiforme), constipação intestinal e perdas urinárias — a disfunção vesical e intestinal acompanha 30% a 50% dos primeiros episódios —, retirada de fralda precoce (antes dos 18 meses) ou tardia (depois dos 3 anos), episódios prévios e história familiar de refluxo ou doença renal. No exame: Giordano e palpação das lojas renais, bexigoma e massas, pressão arterial (hipertensão sugere rim já comprometido), genitais (balanopostite e vulvovaginite fabricam falso-positivo) e a coluna lombossacra atrás de estigmas neurocutâneos — tufo de pelos, fosseta sacral, hemangioma — que denunciam disrafismo oculto.

Coleta de urina: o diagnóstico começa no método

Na criança sem controle esfincteriano, o documento da SBP manda colher por cateterismo vesical ou punção suprapúbica. A alternativa não invasiva aceita é o clean catch: oferta de líquido (25 mL/kg), espera de cerca de 25 minutos e estímulo sacral e suprapúbico com a criança suspensa pelas axilas, aparando o jato intermediário. Na criança que já controla esfíncter, jato médio com higiene prévia resolve.

O saco coletor é o personagem mais traiçoeiro da prova. Ele só serve para afastar o diagnóstico: uma amostra de saco com fita e sedimento normais praticamente exclui ITU em qualquer idade. Cultura positiva de saco coletor não confirma nada — a taxa de falso-positivo é alta, e o resultado precisa ser repetido por método confiável antes de rotular a criança. A nuance brasileira: o protocolo do SUS-BH preconiza saco coletor ou jato médio como método preferencial da rede, por serem não invasivos — com troca do saco a cada 30 minutos, higiene rigorosa e coleta supervisionada — reservando cateterismo e punção para situações especiais. A divergência com a SBP é real e está destrinchada mais adiante.

No sedimento, o que sugere ITU: piúria acima de 5 a 10 leucócitos por campo, nitrito positivo, esterase leucocitária positiva, bacterioscopia com germe visível (o Gram de gota de urina não centrifugada orienta inclusive a escolha empírica do antibiótico). O nitrito é muito específico e pouco sensível no lactente — o esvaziamento vesical frequente não dá tempo de converter nitrato em nitrito. E a recíproca que reprova: urina rotina sem alterações não exclui ITU.

Falso-positivo nasce de coleta ruim, demora no processamento e contaminação; falso-negativo, de pH abaixo de 5, densidade abaixo de 1.003, antibiótico em uso, urina que ficou pouco tempo na bexiga e — armadilha fisiopatológica — obstrução completa do rim infectado, que impede a urina doente de chegar à bexiga.

Urocultura: o corte muda com o método — e com o documento

A urocultura é o padrão-ouro, mas não existe um número mágico: a contagem que confirma ITU depende de como a urina saiu da bexiga. A escadinha da SBP: punção suprapúbica, qualquer crescimento confirma; cateterismo vesical, acima de 1.000 UFC/mL; jato intermediário, acima de 50 a 100 mil UFC/mL. A lógica é limpa — quanto mais estéril o trajeto do método, menor a contagem exigida.

O corte do cateterismo é o único degrau em que os documentos brigam, e cada valor tem dono: a SBP (2021) usa acima de 1.000; o protocolo do SUS-BH (2020) usa 10.000 ou mais; a diretriz americana clássica exigia 50.000 ou mais acompanhado de piúria no exame simples, no recorte de 2 a 24 meses com febre. Para o jato médio, o SUS-BH lembra um dado que desarma decoreba: 20% das crianças com ITU comprovada têm cultura abaixo de 100.000 UFC/mL — o corte é operacional, não biológico.

Três categorias organizam a decisão: cistite (infecção baixa, sem febre nem dor lombar), pielonefrite (febre, comprometimento sistêmico, dor lombar) e bacteriúria assintomática — mais de 100.000 UFC/mL em criança sem nenhum sintoma, com anamnese e exame minuciosos. Bacteriúria assintomática não se trata: sem inflamação do uroepitélio não há doença, e antibiótico só seleciona resistência. Corolário que a prova cobra: urocultura não se pede em criança assintomática.

Quando a cultura desmente a suspeita, pense nos vizinhos: febre com dor abdominal e piúria estéril lembram apendicite e doença de Kawasaki; sintomas miccionais com cultura negativa lembram vulvovaginite, uretrite, corpo estranho vaginal, litíase, hipercalciúria e disfunção vesical e intestinal.

Tratamento: a via oral venceu — e a nitrofurantoína febril é pegadinha

Antibiótico começa logo após a coleta da cultura — não se espera resultado, porque o atraso do tratamento aumenta o risco de cicatriz renal; mas colher antes de tratar é sagrado, senão a cultura nasce morta. A via oral é a preferencial a partir dos 3 meses de idade, mesmo na pielonefrite: a eficácia é equivalente à venosa. Escolhe-se empiricamente o menor espectro que cubra E. coli conforme a sensibilidade local — o padrão só serve se a resistência local for inferior a 20% —, com o Gram da urina ajudando quando disponível.

Na ITU febril, o antibiótico precisa atingir concentração no parênquima renal. Por isso nitrofurantoína e ácido nalidíxico estão contraindicados — concentram na urina, não no tecido. As opções orais do documento da SBP são cefuroxima 30 mg/kg/dia de 12 em 12 horas ou cefaclor 40 mg/kg/dia; a lista da rede SUS-BH começa pela cefalexina 50 a 100 mg/kg/dia, seguida de sulfametoxazol-trimetoprima e amoxicilina-clavulanato. Parenteral, quando preciso: ceftriaxona 50 a 100 mg/kg/dia em dose única diária, gentamicina 5 a 7,5 mg/kg/dia em dose única (menos nefrotóxica em dose única), cefuroxima 150 mg/kg/dia, amicacina ou cefotaxima. Na ITU afebril (cistite), aí sim a nitrofurantoína 5 a 7 mg/kg/dia brilha, ao lado de cefalexina e sulfametoxazol-trimetoprima.

Duração: ITU febril trata-se por 10 dias — número em que a SBP se alinha às diretrizes britânica, italiana e australiana e que o protocolo do SUS-BH repete para febril e recorrente; a diretriz americana e a canadense aceitam 7 a 14 dias. Cistite afebril no maior de 2 anos: 7 dias pelo protocolo do SUS-BH (a britânica usa cursos de 3 dias, o que ocasionalmente aparece em enunciado com sotaque internacional).

Interna-se: menor de 2 meses (SBP e SUS-BH), toxemia ou urossepse, imunodeprimido, vômitos ou incapacidade de usar a via oral, falha do tratamento ambulatorial e contexto que inviabilize seguimento. O esquema venoso segue até 24 a 48 horas afebril e sequencia por via oral até completar os 10 dias. Detalhe de rede que vira alternativa de prova: a primeira dose oral deve ser administrada na unidade, testando aceitação, e a família orientada a retornar se a febre passar de 72 horas.

Reavaliação em 48 a 72 horas com o antibiograma na mão, descalonando quando possível. Sem melhora em 48 horas: ampliar espectro E procurar anormalidade — é indicação de ultrassom precoce, atrás de abscesso e obstrução. Se a criança melhorou e o germe era sensível, urocultura de controle não se pede. E ao escolher o empírico, lembre dos fatores de resistência: antibiótico nos últimos 90 dias (pior se há menos de 30), anomalia do trato urinário, hospitalização prévia e disfunção vesical e intestinal.

Investigação de malformações: o que cada exame enxerga

O objetivo da investigação não é 'documentar a ITU' — é descartar malformação que piore o futuro renal. Três exames fazem tudo, e cada um responde uma pergunta diferente.

O ultrassom de rins e vias urinárias é a porta de entrada: mostra tamanho e forma renal, dilatação de pelve e ureteres, espessura de parede vesical, resíduo pós-miccional, cistos e cálculos. É inócuo e barato, mas míope para duas coisas que a prova pergunta: não diagnostica refluxo vesicoureteral nem cicatriz renal com confiança — ultrassom alterado apenas prediz risco e dispara o próximo exame. Faz-se preferencialmente após a fase aguda, porque a inflamação do episódio fabrica falso-positivo; a exceção é a criança que não melhora em 48 horas, em que o ultrassom precoce procura abscesso e obstrução.

A uretrocistografia miccional é o único exame que diagnostica e gradua o refluxo vesicoureteral — e o único que enxerga a uretra, flagrando a válvula de uretra posterior do menino com jato fraco. O preço: sondagem vesical, contraste e radiação. Por isso ela saiu da rotina e virou exame de segunda linha, disparado por critérios que a seção seguinte detalha.

A cintilografia com DMSA tem dois empregos que a prova mistura de propósito: na fase aguda, confirma que a infecção acometeu o parênquima (é assim que a estratégia top-down começa); tardiamente — 4 a 6 meses depois do episódio, no cronograma britânico —, é o padrão-ouro para cicatriz renal definitiva. Custa caro, irradia e, no fluxo do SUS-BH, fica reservada a casos complexos com aval do especialista.

Trato urinário de lactente com lado normal e lado com refluxo vesicoureteral: ureter e pelve dilatados e fluxo retrógrado da bexiga para o rim.
Refluxo vesicoureteral: a urina volta da bexiga para ureter e pelve. É a malformação que a uretrocistografia procura e gradua de I a V — e a de grau alto é a que pede profilaxia.

O funil de imagem: quem investiga o quê depois da primeira ITU febril

Primeiro degrau — ultrassom para praticamente todos os pequenos: todo menor de 2 anos com primeiro episódio de ITU febril faz ultrassom eletivo. Nisso convergem SBP, a diretriz americana, a italiana e o protocolo do SUS-BH — que estende a indicação a qualquer idade quando a ITU é recorrente, quando há história familiar de doença renal ou urológica, baixo crescimento, hipertensão, má resposta ao antibiótico ou ultrassom fetal alterado. A exceção famosa é a britânica: ultrassom de rotina só no menor de 6 meses; acima disso, só ITU atípica ou recorrente — é a estratégia de menor custo, e a comparação formal entre protocolos mostrou que a americana é a de menor radiação e a top-down a mais cara e mais irradiante.

Segundo degrau — uretrocistografia nunca de rotina após o primeiro episódio. O funil do SUS-BH, que espelha o critério americano clássico: fazem UCM as crianças com duas ou mais ITUs febris; ou com a primeira ITU febril acompanhada de qualquer anormalidade no ultrassom, ou de febre de 39 °C ou mais com germe que não seja E. coli, ou de baixo crescimento ou hipertensão. Fora do funil, a UCM entra direto quando a clínica grita uropatia: menino com jato fraco desde sempre é válvula de uretra posterior até prova em contrário.

Terceiro degrau — cintilografia tardia para cicatriz nos fluxos que a usam (a britânica pede na ITU atípica e na recorrente; a italiana quando o ultrassom se altera ou há refluxo), e fase aguda apenas na lógica top-down: DMSA na infecção; se acometeu parênquima, aí sim UCM. No Brasil assistencial, a cintilografia é decisão de especialista.

Um parêntese que explica enunciados conflitantes: a diretriz americana de 2011, reafirmada em 2016, foi aposentada pela AAP em maio de 2021 — a revisão citava raça como fator na régua de risco, critério abandonado — e ainda não ganhou sucessora. O arcabouço dela, porém, segue operando nos protocolos brasileiros (o funil de UCM acima é a prova) e segue caindo em prova com a data antiga.

Depois do funil, sabem o caminho do nefrologista pediátrico: ITU recorrente confirmada, jato fraco ou rim palpável, germe não-E. coli, ultrassom pré-natal ou atual alterado, cintilografia alterada, refluxo confirmado, disfunção miccional refratária e bexiga neurogênica.

Refluxo vesicoureteral, profilaxia e o seguimento de quem tem cicatriz

O refluxo vesicoureteral — passagem retrógrada de urina da bexiga para o trato superior — é a malformação mais encontrada pela investigação. A graduação clássica vai de I a V: grau I, refluxo só no ureter, sem dilatação; grau II, alcança pelve e cálices, ainda sem dilatar; grau III, dilatação leve a moderada de ureter e pelve com fórnices apenas embotados; grau IV, dilatação e tortuosidade moderadas com perda do ângulo agudo dos fórnices; grau V, dilatação grosseira, ureter tortuoso e cálices balonizados sem impressão papilar. Quanto maior o grau, maior o risco de pielonefrite e cicatriz — mas a premissa de que corrigir refluxo evita doença renal vem sendo relativizada: parte das 'cicatrizes' é displasia congênita, e os dados sobre o impacto do tratamento no desfecho renal de longo prazo são inconclusivos.

ITU recorrente tem definição formal na SBP: duas ou mais pielonefrites; ou uma pielonefrite mais uma cistite; ou três ou mais cistites. Novo episódio em menos de 2 semanas é REinfecção — e reinfecção não é indicação de profilaxia.

Profilaxia antimicrobiana é o tema sem consenso — cada documento tem sua lista, e a divergência está mapeada no bloco adiante. A régua prática da SBP: iniciar profilaxia, até O término da investigação, na criança com ultrassom alterado (antenatal ou atual), refluxo grau IV ou V, uropatia obstrutiva ou ITU recorrente. O SUS-BH mantém profilaxia no refluxo grau IV-V e, sem refluxo, em quem tem recorrência frequente (três ITUs febris em 6 meses ou quatro no ano) ou hidronefrose congênita, por 6 meses. A dose é fração da terapêutica — um terço à metade, uma vez ao dia, à noite —, e as drogas de escolha no nosso meio são nitrofurantoína (1 a 2 mg/kg/dia) e sulfametoxazol-trimetoprima (2 mg de TMP/kg/dia), com cefalexina 15 mg/kg/dia reservada ao menor de 2 meses. Germe resistente ao profilático em cultura nova manda trocar ou suspender.

Tão cobrável quanto o comprimido é a profilaxia não medicamentosa: tratar constipação (laxante comprovadamente reduz recorrência de ITU), pés apoiados no chão ou banquinho durante a micção, micção programada a cada 3 horas e micção em dois tempos quando há resíduo significativo.

Quem sai da investigação com refluxo de alto grau, cicatriz renal ou outra malformação não recebe alta: seguimento com pressão arterial, função renal e albuminúria — é esse o grupo que caminha para doença renal crônica, sobretudo quando a anomalia é congênita ou já há função alterada de saída.

04

Cortes de cultura, funil de imagem e graus do refluxo

Três réguas resolvem a maioria das questões: a contagem que confirma ITU depende do método de coleta; a imagem depois da primeira ITU febril segue um funil (ultrassom para todos os pequenos, uretrocistografia só com critério, cintilografia para cicatriz); e o refluxo se gradua de I a V — o grau alto é o que muda conduta.

  1. 1Febre sem foco em menor de 2 anos → urina: menor de 3 meses ou comprometimento do estado geral, cultura por coleta confiável direto; criança bem, fita e sedimento por jato médio ou saco coletor
  2. 2Fita e sedimento normais afastam ITU; esterase ou nitrito positivos → urocultura por método confiável antes de rotular
  3. 3ITU febril confirmada → antibiótico por 10 dias: oral desde o início se 3 meses ou mais e tolerando; parenteral se menor de 2 meses, toxemia ou vômitos, sequenciando para oral após 24-48 h afebril
  4. 4Reavaliar em 48-72 h com antibiograma; sem melhora em 48 h → ampliar espectro e ultrassom precoce (abscesso? obstrução?)
  5. 5Curou → ultrassom eletivo após a fase aguda em todo menor de 2 anos no primeiro episódio febril
  6. 6Uretrocistografia se: segunda ITU febril; ou primeira ITU febril com ultrassom anormal, ou febre ≥ 39 °C com germe não-E. coli, ou baixo crescimento ou hipertensão; ou jato urinário fraco em menino, em qualquer momento
  7. 7Refluxo grau IV-V, uropatia obstrutiva ou recorrência → profilaxia; cicatriz se pesquisa com DMSA tardia; cicatriz ou refluxo de alto grau → seguir pressão arterial, função renal e albuminúria

Refluxo grau I — só o ureter, sem dilatação

A coluna de contraste sobe pelo ureter e para antes da pelve; calibre normal, fórnices intactos.

Refluxo grau II — alcança a pelve, ainda sem dilatar

O contraste chega a pelve e cálices, mas ureter e pelve mantêm o calibre e os fórnices o ângulo agudo.

Refluxo grau III — dilatação leve, fórnices embotados

Ureter e pelve levemente dilatados; os fórnices perdem a nitidez mas os cálices ainda têm forma.

Refluxo grau IV — dilatação e tortuosidade moderadas

Ureter alargado e sinuoso, pelve dilatada, ângulo agudo dos fórnices abolido; impressão papilar ainda presente.

Refluxo grau V — dilatação grosseira, cálices balonizados

Ureter muito dilatado e tortuoso, pelve balonizada, cálices arredondados sem impressão papilar — o rim que a profilaxia tenta proteger.

Método de coletaSBP 2021 (régua do capítulo)SUS-BH 2020AAP 2011 (2-24 m, febril)
Punção suprapúbicaQualquer crescimentoQualquer crescimento≥ 50.000 UFC/mL + piúria
Cateterismo vesical> 1.000 UFC/mL≥ 10.000 UFC/mL≥ 50.000 UFC/mL + piúria
Jato médio (coleta limpa)> 50-100 mil UFC/mL≥ 100.000 UFC/mL (20% das ITUs reais ficam abaixo)Método não contemplado nessa faixa etária
Saco coletorSó afasta (negativa); positiva exige repetição por método confiávelPreferencial na rede por ser não invasivo; positiva tem alto falso-positivoNão aceito para diagnóstico

Imagem após ITU confirmada — o que mostra e quando pedir

ExameO que mostraQuando pedir
Ultrassom de rins e viasDilatação, hidronefrose, parede vesical, resíduo, cistos, cálculos; NÃO vê refluxo nem cicatrizTodo menor de 2 anos após a 1ª ITU febril, após a fase aguda; qualquer idade se recorrente, história familiar, baixo crescimento, hipertensão ou US fetal alterado; precoce só na má resposta em 48 h
Uretrocistografia miccionalDiagnostica e GRADUA refluxo (I-V); única que vê uretra (válvula de uretra posterior)≥ 2 ITUs febris; ou 1ª ITU febril com US anormal, ou febre ≥ 39 °C + germe não-E. coli, ou baixo crescimento/hipertensão; menino com jato fraco
Cintilografia DMSAFase aguda: acometimento do parênquima (via top-down); tardia (4-6 meses): padrão-ouro de cicatrizCasos complexos, com o especialista; tardia nos fluxos britânico (atípica/recorrente) e italiano (US alterado ou refluxo)

Tratamento — drogas e duração (SBP 2021 + SUS-BH 2020)

SituaçãoOpções e doseDuração
ITU febril, ambulatorial (≥ 3 meses, tolerando VO)Cefuroxima 30 mg/kg/dia 12/12 h ou cefaclor 40 mg/kg/dia (SBP); cefalexina 50-100 mg/kg/dia encabeça a lista do SUS-BH10 dias
ITU febril, internado (< 2 meses, toxemia, vômitos, falha)Ceftriaxona 50-100 mg/kg/dia 1x/dia; gentamicina 5-7,5 mg/kg/dia 1x/dia; cefuroxima 150 mg/kg/dia; sequenciar VO após 24-48 h afebril10 dias no total
Cistite (afebril, > 2 anos)Nitrofurantoína 5-7 mg/kg/dia, cefalexina 50 mg/kg/dia ou SMX-TMP 8-12 mg TMP/kg/dia7 dias (cursos de 3 dias são régua britânica)

Quimioprofilaxia — quem, com o quê, por quanto tempo

IndicaçãoDroga e doseTempo
US alterado (antenatal ou atual), refluxo IV-V, uropatia obstrutiva, ITU recorrente (SBP)Nitrofurantoína 1-2 mg/kg OU SMX-TMP 2 mg TMP/kg, dose única noturna (1/3 a 1/2 da dose terapêutica)Até o término da investigação; mantém no refluxo IV-V
Sem refluxo: 3 ITUs febris em 6 meses ou 4 no ano; hidronefrose congênita (SUS-BH)As mesmas; cefalexina 15 mg/kg/dia se menor de 2 meses (SMX-TMP é vetado nessa idade)6 meses
Reinfecção (novo episódio < 2 semanas)Profilaxia NÃO indicada

Nitrofurantoína e ácido nalidíxico NUNCA na ITU febril: concentram na urina e não atingem o parênquima renal.

Urocultura de controle não se pede quando há melhora clínica e germe sensível — e urocultura não se colhe em criança assintomática.

Bacteriúria assintomática (> 100.000 UFC/mL sem sintoma algum) não se trata em criança.

Suspender ou trocar o profilático se surgir germe resistente a ele em cultura nova.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Como colher em quem não controla esfíncter — e que corte vale no cateterismo

SBP 2021: coleta confiável de saída, corte baixo

Cateterismo vesical ou punção suprapúbica em toda criança sem controle esfincteriano (clean catch como alternativa); no cateterismo, acima de 1.000 UFC/mL já confirma. Saco coletor só para afastar.

DC de Nefrologia da SBP, 2021

SUS-BH 2020: não invasivo primeiro, corte intermediário

Saco coletor ou jato médio como método preferencial da rede pública, com técnica rigorosa e troca a cada 30 minutos; cateterismo e punção ficam para situações especiais. No cateter, 10.000 UFC/mL ou mais.

Protocolo Colaborativo SUS-BH, 2020

AAP 2011: corte alto e casado com piúria

No febril de 2 a 24 meses, diagnóstico exige 50.000 UFC/mL ou mais em amostra de cateter ou punção E evidência de piúria no exame simples — os dois juntos.

AAP, Pediatrics 2011 (reafirmada 2016; aposentada 2021), citada pelo quadro comparativo do DC-SBP 2021

Na prova

O número nas alternativas denuncia o documento: 1.000 aponta para a SBP, 10.000 para protocolo assistencial do SUS, 50.000 com piúria para a diretriz americana. Cenário de UBS ou rede municipal com saco coletor bem colhido e NEGATIVO é consenso (afasta); saco POSITIVO tratado como confirmação é erro em qualquer régua. Menção nominal no enunciado encerra a discussão.

Imagem após a primeira ITU febril: ultrassom para todos ou seletivo

SBP, AAP, italiana e SUS-BH: ultrassom universal nos pequenos

Todo menor de 2 anos com primeira ITU febril faz ultrassom eletivo; a uretrocistografia fica condicionada a ultrassom anormal, segunda ITU febril ou critérios de gravidade. É a estratégia de menor radiação.

DC-SBP 2021 (Quadro 2), AAP 2011-2016, ISPN 2011-2020, Protocolo SUS-BH 2020

NICE: imagem seletiva, menor custo

Ultrassom de rotina apenas no menor de 6 meses; nas demais idades, só quando a ITU é atípica (germe não-E. coli, má resposta em 48 h, sepse, massa, creatinina elevada) ou recorrente, com DMSA tardia nesses grupos.

NICE CG54 2007, sucedido pelo NG224 2022, conforme o comparativo do DC-SBP 2021

Top-down: a cintilografia decide quem faz o resto

DMSA na fase aguda; só quem tem acometimento parenquimatoso segue para uretrocistografia. Maior sensibilidade para quem importa, ao preço da maior radiação e do maior custo entre os protocolos.

Preda et al., J Pediatr 2007, e comparação de La Scola et al., Pediatrics 2013, citados pelo DC-SBP 2021

Na prova

Cenário de atenção primária brasileira, criança pequena e pergunta 'qual o próximo exame' costuma cobrar o ultrassom universal — é a régua dos documentos brasileiros e da prova federal. Vocabulário de 'ITU atípica' e ultrassom condicionado à idade de 6 meses são assinatura britânica; DMSA como PRIMEIRO exame denuncia enunciado top-down. Alternativa com uretrocistografia de rotina após episódio único sem critério está errada em todas as réguas atuais.

Profilaxia antimicrobiana: para quem, e por quanto tempo

SBP 2021: profilaxia ponte, atrelada à investigação

Inicia em ultrassom alterado, refluxo IV-V, uropatia obstrutiva ou ITU recorrente, e mantém ATÉ O TÉRMINO DA INVESTIGAÇÃO, em fração da dose terapêutica (1/3 a 1/2, à noite). Reinfecção em menos de 2 semanas fica de fora.

DC de Nefrologia da SBP, 2021

SUS-BH 2020: listas fechadas e prazo definido

Com refluxo: graus IV-V ou anomalia urológica significativa. Sem refluxo: 3 ITUs febris em 6 meses ou 4 totais no ano, ou hidronefrose congênita — por 6 meses, com doses fixas (SMX-TMP 2 mg TMP/kg; nitrofurantoína 1-2 mg/kg).

Protocolo Colaborativo SUS-BH, 2020

Britânica, italiana e australiana: sem profilaxia de rotina

Não recomendam quimioprofilaxia rotineira após ITU, nem mesmo em todo refluxo — reservam-na a exceções individualizadas, pesando a seleção de resistência contra a redução modesta de recorrência.

NICE 2007/2022, ISPN 2011-2020 e KHA-CARI 2014, conforme o Quadro 2 do DC-SBP 2021

Na prova

Refluxo grau IV-V com profilaxia é o ponto em que quase todos os documentos se encontram — inclusive a diretriz americana, que a restringia aos graus altos. Enunciado brasileiro com hidronefrose congênita ou recorrência de repetição tende às listas SBP/SUS; enunciado que nega profilaxia citando diretriz europeia está usando a régua de lá. A dose fracionada noturna e o veto de SMX-TMP no menor de 2 meses aparecem como detalhe de alternativa.

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Caso resolvido

Lactente feminina, 9 meses, previamente hígida, chega à UPA com febre de 39,4 °C há 48 horas, sem tosse, coriza, diarreia ou outro foco ao exame. Está irritada, hidratada, sem toxemia. Saco coletor após higiene: esterase leucocitária e nitrito positivos, 30 leucócitos por campo.
achado
Febre sem foco há mais de 24 horas em lactente + fita fortemente sugestiva (esterase e nitrito) em amostra de saco coletor.
interpretação
ITU febril PROVÁVEL — mas saco coletor não confirma diagnóstico: a amostra para cultura precisa vir de método confiável. Como não há controle esfincteriano e a criança está bem, colhe-se por cateterismo vesical (ou clean catch) antes do antibiótico.
conduta
Urocultura por cateterismo colhida e antibiótico iniciado NA SEQUÊNCIA, sem esperar resultado: cefuroxima oral 30 mg/kg/dia de 12/12 h, primeira dose na unidade, por 10 dias. Nitrofurantoína está vetada — é ITU febril. Orientação de retorno se febre além de 72 h.
evolução
Afebril em 36 horas. Cultura: E. coli 80.000 UFC/mL pelo cateter — acima de qualquer corte proposto para o método (1.000 da SBP; 10.000 do SUS-BH; 50.000 da régua americana, aqui com piúria associada). ITU febril confirmada; antibiograma sensível, sem cultura de controle.
investigação
Primeira ITU febril em menor de 2 anos: ultrassom de rins e vias após a fase aguda — resultado normal. Sem indicação de uretrocistografia (episódio único, US normal, E. coli, boa resposta), sem cintilografia, sem profilaxia. Orientar sinais de recorrência e concluir os 10 dias.
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Agora feche você

Menino de 16 meses interna com segunda ITU febril em 4 meses (a primeira tratada ambulatorialmente, sem investigação). A mãe conta que ele sempre urinou 'em gotinhas', com esforço. Cultura por cateterismo: Proteus mirabilis 60.000 UFC/mL. Melhora com cefuroxima venosa sequenciada para oral. Ultrassom na internação: hidronefrose bilateral com ureteres dilatados e bexiga de parede espessada.
achado
Segunda ITU febril + germe não-E. coli + jato urinário fraco desde sempre + hidronefrose bilateral com bexiga espessada no ultrassom.
interpretação
Tudo converge para uropatia estrutural: a recorrência já obriga imagem de segunda linha, e jato fraco com repercussão bilateral em menino aponta obstrução infravesical — válvula de uretra posterior — ou refluxo de alto grau.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar (ou investigar) em cima de saco coletor positivo A banca entrega '100.000 UFC/mL no saco coletor' esperando que o candidato confirme ITU. Saco só AFASTA quando negativo; positivo exige repetição por cateterismo, punção ou clean catch. É a armadilha mais repetida do tema.
  2. 2Nitrofurantoína na ITU febril Ela é familiar (cistite da adolescente, profilaxia) e aparece como alternativa sedutora para pielonefrite. Não atinge concentração no parênquima renal — a SBP a contraindica, junto com o ácido nalidíxico, em QUALQUER ITU febril.
  3. 3Uretrocistografia de rotina após o primeiro episódio Era a conduta clássica, e enunciados desatualizados ainda a oferecem. Hoje a UCM exige critério: segunda ITU febril, ultrassom anormal, germe não-E. coli com febre alta, baixo crescimento ou hipertensão — ou clínica de uropatia, como jato fraco.
  4. 4Tratar bacteriúria assintomática Escolar assintomática com urocultura positiva colhida 'de rotina' não recebe antibiótico — sem inflamação não há doença, e tratar só seleciona resistência. O erro anterior foi colher cultura sem sintoma; o segundo erro seria tratá-la.
  5. 5Esperar a urocultura para começar — ou repeti-la para 'documentar a cura' Os dois extremos erram: atraso de antibiótico aumenta cicatriz renal (trata-se logo APÓS colher), e cultura de controle em criança que melhorou com germe sensível é exame inútil que a prova pontua como conduta desnecessária.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em lactente sem controle esfincteriano, a amostra por saco coletor tem alta taxa de contaminação e não confirma ITU — o padrão é urocultura por cateterismo vesical ou punção suprapúbica. A cultura do saco coletor não deve confirmar diagnóstico por falsos-positivos. Jato médio não é confiável em quem não controla a micção. Iniciar antibiótico sem cultura compromete o diagnóstico e a investigação subsequente. Hemocultura não é o exame confirmatório de ITU.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória a escadinha de cortes da urocultura (punção → cateter → jato médio, e o papel do saco coletor) e o funil de imagem: quem faz só ultrassom, o que empurra para a uretrocistografia, quando entra a DMSA. Confira depois na tabela e nos cards de refluxo.

em 30 dias

Monte em 10 linhas a conduta de uma primeira ITU febril aos 10 meses: coleta, corte, droga e duração, critérios de internação, imagem e quem recebe profilaxia. Cheque os três pontos de divergência (corte do cateter, ultrassom universal × seletivo, profilaxia) e a qual documento pertence cada número.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 10 meses chega à UPA com febre de 39,2 °C há dois dias, sem tosse, sem coriza, sem diarreia. Conduza: decida como colher a urina, interprete fita, sedimento e cultura, trate — e defina se e como investigar malformação. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Infecção do trato urinário na criança — Preparatório para provas | OsceLabs