PediatriaNefrologia Pediátrica

Glomerulonefrite pós-estreptocócica (GNPE)

Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica

A síndrome nefrítica prototípica da infância. A prova cobra quatro coisas: a latência que separa GNPE de nefropatia por IgA, o padrão do complemento (C3 baixo com C4 normal), a conduta — que é suporte, não corticoide — e os prazos que, ultrapassados, mandam biopsiar.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menina de 6 anos apresenta há 2 dias urina escura "cor de coca-cola", edema palpebral e redução do volume urinário. Há cerca de 2 semanas teve impetigo em membros inferiores. Exame: PA 130/85 mmHg (acima do percentil 99 para idade), FC 90 bpm. Urina I: hematúria dismórfica e cilindros hemáticos, proteinúria 1+. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

A GNPE é a causa mais comum de síndrome nefrítica aguda na criança e uma das poucas doenças da prova em que quase tudo se decide por prazo: quantos dias entre a infecção e a urina escura, quantas semanas até o complemento normalizar, quanto tempo de alteração ainda é evolução esperada — e a partir de quando vira indicação de biópsia. Junto com a febre reumática, é sequela tardia e não supurativa da infecção estreptocócica; ao contrário dela, não deixa profilaxia secundária.

A GNPE não tem PCDT nem protocolo do Ministério da Saúde. O documento nacional de referência é o Documento Científico do Departamento de Nefrologia da SBP, complementado pelo capítulo do Tratado de Pediatria da mesma sociedade; a diretriz internacional que baliza o tema é a KDIGO de 2021, de glomerulopatias. Onde os dois mundos divergem — e divergem no prazo do complemento e no papel do antibiótico — este capítulo mostra as duas posições e como reconhecer qual delas a questão está cobrando.

O que cai, em ordem de frequência: o caso clássico pedindo diagnóstico (escolar com edema, hipertensão e hematúria semanas depois de faringite ou piodermite), o padrão do complemento, a latência como chave do diferencial com nefropatia por IgA, a conduta de suporte — e a pegadinha recorrente do corticoide, que não tem lugar na forma típica.

03

O que muda decisão

A cepa, a latência e o hospedeiro

Como usar este capítulo: reconheça síndrome nefrítica após o intervalo compatível com infecção estreptocócica, confirme consumo de complemento e avalie gravidade por pressão, volemia, função renal e potássio. O tratamento é principalmente suporte; evolução atípica abre o diferencial e a indicação de biópsia.

A GNPE é doença de imunocomplexos. Cepas nefritogênicas do estreptococo beta-hemolítico do grupo A — tipos M específicos, diferentes dos reumatogênicos — deixam antígenos (o receptor de plasminogênio associado à nefrite, NAPlr, e a exotoxina B, SpeB) que se depositam no glomérulo e ativam o complemento pela via alternativa. O resultado anatomopatológico é uma glomerulonefrite proliferativa difusa com infiltrado de neutrófilos, imunofluorescência granular para C3 e IgG (padrão em 'céu estrelado') e, à microscopia eletrônica, os depósitos subepiteliais em corcova ('humps') que são a assinatura da doença. A inflamação derruba o ritmo de filtração glomerular, o rim retém sódio e água com função tubular preservada, e a hipervolemia explica de uma vez edema, hipertensão e a supressão do sistema renina-angiotensina.

A latência é a informação mais cobrada do capítulo: 1 a 2 semanas (10 a 20 dias) depois de uma faringoamigdalite e 3 a 6 semanas depois de uma piodermite — o teto aceito é de 6 semanas. Hematúria que aparece junto com a infecção de garganta, em 1 a 3 dias, não é GNPE: é a hematúria sinfaringítica da nefropatia por IgA. No Brasil e nos trópicos, a porta de entrada cutânea (impetigo, escabiose infectada) segue relevante, e é nela que a sorologia engana — como se verá adiante.

O paciente típico é o escolar: a doença predomina entre 5 e 12 anos, com pico ao redor dos 7, e é rara antes dos 2 anos. Na forma pós-faringite os meninos adoecem duas vezes mais; na forma pós-piodermite os sexos se equivalem. A doença ocorre de forma endêmica ou em surtos — o exemplo nacional é a epidemia de Divinópolis (mg), com mais de cem casos secundários a estreptococo do grupo C, lembrete de que cepas não pertencentes ao grupo A também podem ser nefritogênicas.

Ilustração de um glomérulo em corte com tufo hipercelular, neutrófilos infiltrando as alças capilares e depósitos subepiteliais em corcova sobre a membrana basal.
O glomérulo da GNPE: proliferação difusa com neutrófilos e os depósitos subepiteliais em corcova ('humps'), assinatura da doença à microscopia eletrônica.

A síndrome nefrítica clássica — e a metade invisível

O quadro florido é a tríade nefrítica: edema, hipertensão e hematúria, com oligúria variável. O edema costuma ser leve — em série brasileira, acréscimo médio de 7% do peso —, predomina na face e nas pálpebras ao acordar e muitas vezes é notado de forma indireta ('a roupa apertou', 'o sapato não serve'). A hipertensão aparece em cerca de 90% dos casos e é proporcional à hipervolemia; a hematúria é macroscópica em 2/3 dos pacientes (urina 'cor de coca-cola' ou 'água de carne'), microscópica no restante. Queixas vagas acompanham: indisposição, inapetência, cefaleia, dor abdominal.

Metade dos casos, porém, é subclínica — micro-hematúria com complemento baixo achada de passagem, criança seguindo a vida normal. Em surtos, os subclínicos superam os sintomáticos. É por isso que irmão de paciente com GNPE e piodermite ativa merece ao menos um exame de urina.

A evolução natural da forma não complicada é rápida e estereotipada — e a prova adora essa cronologia: a diurese aumenta e o edema some em 7 a 15 dias; a pressão normaliza 2 a 3 dias depois da diurese; a criança está clinicamente restabelecida na 3ª-4ª semana. As três complicações agudas, em ordem de frequência, são a congestão circulatória (a mais comum — hipervolemia levando a insuficiência cardíaca e edema agudo de pulmão, sem dano miocárdico intrínseco), a encefalopatia hipertensiva (cefaleia, vômitos, alterações visuais, convulsão) e a insuficiência renal aguda oligoanúrica com hipercalemia, a menos comum.

Laboratório: o complemento é obrigatório

Dosar complemento é obrigatório na suspeita de GNPE. O padrão é C3 e CH50 baixos com C4 normal ou pouco alterado — ativação pela via alternativa —, presente em 95 a 98% dos casos na fase aguda. A normalização é a régua do acompanhamento: ocorre tipicamente entre 4 e 8 semanas. C3 que continua baixo depois desse prazo deixa de ser GNPE típica e obriga a pensar em glomerulonefrite membranoproliferativa, glomerulopatia por C3 ou nefrite lúpica — o prazo exato para indicar biópsia é a divergência mais importante do capítulo (ver bloco de divergências). C4 baixo junto com C3 aponta via clássica e afasta o diagnóstico: pense em lúpus.

A evidência da infecção estreptocócica prévia é sorológica quando a cultura já não ajuda. O ASLO (antiestreptolisina O) eleva-se bem após faringite, mas é pouco sensível após piodermite — a estreptolisina O é inativada pelos lipídios da pele. Depois de porta de entrada cutânea, o anticorpo que sobe é o anti-DNase B. Questão que dá impetigo há 4 semanas e ASLO normal está testando exatamente isso: peça anti-DNase B (ou o painel estreptozima), não descarte o diagnóstico.

Na urina: hematúria em ~95% dos casos, dismórfica, com cilindros hemáticos — a marca da hematúria glomerular —, além de cilindros hialinos, granulosos e leucocitários. A proteinúria é subnefrótica na imensa maioria; proteinúria nefrótica (>50 mg/kg/dia) é exceção e pesa contra o diagnóstico se persistir. A densidade urinária fica preservada (1015-1020), porque a lesão é glomerular e o túbulo concentra normalmente. No sangue, ureia e creatinina sobem transitoriamente em ~50% dos casos e normalizam em 3 a 4 semanas; hipercalemia e acidose metabólica aparecem nos oligúricos. Biópsia não faz parte do diagnóstico da forma típica — ela é reservada aos prazos estourados e às apresentações atípicas.

Tratamento: suporte — e quase nada além

Não existe tratamento específico da nefrite: a conduta é suporte enquanto a doença se resolve sozinha. Interna-se a criança com hipertensão, oligúria ou qualquer complicação; a forma leve normotensa pode ser acompanhada de perto ambulatorialmente. A base é a restrição hidrossalina na fase oligúrica: volume limitado às necessidades basais (cerca de 400 mL/m²/dia, ou 20 mL/kg) acrescidas da diurese, e dieta pobre em sódio enquanto houver edema e hipertensão. Restrição de potássio só na oligúria importante (diurese < 240 mL/m²/dia) e restrição proteica só na queda intensa da filtração. Repouso é o que a própria criança tolerar — repouso prolongado não muda a evolução.

O diurético de alça é a primeira arma farmacológica quando há congestão, edema importante ou hipertensão: furosemida 1 a 5 mg/kg/dia. Vale conhecer o dado brasileiro que a prova já explorou: na GNPE não complicada, ensaio randomizado de furosemida contra placebo não encurtou a duração do edema nem da hipertensão — o diurético trata a complicação, não abrevia a doença. Para a hipertensão que persiste apesar de alça e restrição, o anti-hipertensivo de escolha é o bloqueador de canal de cálcio por via oral (anlodipino; nifedipina de liberação prolongada). IECA e BRA são evitados na fase aguda oligúrica pelo risco de hipercalemia e de queda adicional da filtração. Na emergência hipertensiva com encefalopatia, droga endovenosa titulável: nitroprussiato de sódio 0,5 a 8 µg/kg/min, protegido da luz e por no máximo 72 horas, pelo risco de intoxicação por tiocianato — reduzindo a pressão de forma progressiva, nunca abrupta. A nifedipina sublingual de ação rápida, presente em documentos antigos, caiu em desuso pela queda pressórica imprevisível.

Dois 'nãos' valem nota alta. Corticoide não tem lugar na GNPE típica — imunossupressão só entra na minoria (<1%) que evolui como glomerulonefrite rapidamente progressiva com crescentes à biópsia. E digitálico não é indicado na congestão da GNPE, que é hipervolemia com coração sadio: trata-se com furosemida, restrição, oxigênio e, nos refratários, diálise. A diálise (peritoneal, tradicionalmente, na criança) entra na oligoanúria com hipercalemia ou congestão refratárias.

Falta o estreptococo: a recomendação brasileira é erradicar a cepa com penicilina benzatina em dose única IM — 600.000 UI abaixo de 25 kg, 1.200.000 UI a partir de 25 kg (alérgicos: macrolídeo por 10 dias). O antibiótico não altera o curso da nefrite já instalada; o argumento é epidemiológico, limitar a circulação da cepa nefritogênica — e a posição internacional sobre isso é diferente, como mostra o bloco de divergências. O que não existe, em nenhuma das duas escolas, é profilaxia secundária contínua: a recidiva de GNPE é rara (imunidade duradoura contra a cepa), ao contrário da febre reumática, cuja lesão é reativada a cada nova infecção. Confundir as duas profilaxias é armadilha clássica.

Evolução, biópsia e os diferenciais que a prova cobra

O prognóstico da criança é excelente: recuperação completa em mais de 90-95% dos casos, com menos de 1% evoluindo como rapidamente progressiva. No adulto o desfecho é pior — 30 a 50% ficam com hipertensão residual ou doença renal crônica, o que explica o acompanhamento mais agressivo fora da pediatria. Depois da fase aguda, cada alteração tem seu prazo de saída: as alterações urinárias regridem entre a 4ª e a 6ª semana; a proteinúria desaparece ao longo de semanas a poucos meses; a micro-hematúria residual é a mais teimosa — persiste por vários meses em ~10% dos casos, e os livros-texto aceitam até 1-2 anos — sem que isso indique doença ativa nem biópsia.

A biópsia renal entra quando a evolução foge do roteiro. Pelos critérios da SBP: hematúria macroscópica além de 4 semanas; função renal persistentemente alterada além de 4 semanas; hipertensão além de 4 semanas; síndrome nefrótica além de 4 semanas; complemento persistentemente baixo além de 8 semanas. Somam-se as atipias de abertura, que indicam biópsia desde o início: complemento normal na fase aguda, anúria/insuficiência renal rapidamente progressiva, ausência de evidência de infecção estreptocócica e idade fora da faixa (lactente muito novo, por exemplo).

Os diferenciais se resolvem quase todos com dois dados: latência e complemento. Nefropatia por IgA (doença de Berger): hematúria macro recorrente sinfaringítica (1-3 dias após a infecção), complemento normal, sem o cortejo nefrítico completo. Glomerulonefrite membranoproliferativa e glomerulopatia por C3: abrem igual à GNPE, mas o C3 não sobe — é o diagnóstico a excluir quando o prazo do complemento estoura. Nefrite lúpica: C3 E C4 baixos (via clássica), menina maior, sintomas sistêmicos. Púrpura de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA): púrpura palpável de membros inferiores, dor abdominal e artralgia com complemento normal. Síndrome hemolítico-urêmica: pródromo de diarreia (muitas vezes sanguinolenta), anemia hemolítica microangiopática e plaquetopenia — o esfregaço decide.

04

A régua do tempo da GNPE

Quase toda decisão do capítulo é um prazo. O fluxo abaixo é o roteiro do acompanhamento; a primeira tabela diz o que deve melhorar quando (e o que fazer quando não melhora); a segunda resolve os diferenciais pelo complemento.

  1. 1Suspeita clínica (nefrítica + latência compatível) → dosar C3, C4, CH50 + EAS + função renal + sorologia estreptocócica (ASLO; anti-DNase B se porta cutânea)
  2. 2C3 baixo com C4 normal → GNPE provável → suporte (restrição hidrossalina ± furosemida ± BCC) + penicilina benzatina; sem biópsia, sem corticoide
  3. 3Acompanhar prazos: diurese/edema em até 2 semanas; PA e função renal em 3-4 semanas; alterações urinárias em 4-6 semanas
  4. 4Repetir C3 em 8 semanas → normalizou: alta com seguimento; continua baixo: prazo estourado → biópsia (SBP; KDIGO estica para 12 semanas)
  5. 5Qualquer atipia em qualquer momento (anúria/RPGN, nefrótica persistente, C normal na abertura, sem evidência de estreptococcia) → biópsia
AchadoResolução esperadaSe passar do prazo
Oligúria e edema7 a 15 dias (diurese aumenta primeiro)Reavaliar congestão; furosemida; considerar diálise se refratário
Hipertensão arterial2 a 3 dias após a diurese; até ~4 semanasBiópsia se persistir além de 4 semanas
Hematúria macroscópica1 a 2 semanasBiópsia se persistir além de 4 semanas
Ureia/creatinina elevadas (~50% dos casos)3 a 4 semanasBiópsia se persistir além de 4 semanas
Alterações urinárias em geral4ª a 6ª semanaProteinúria nefrótica além de 4 semanas → biópsia
C3 / CH50 baixos4 a 8 semanasBiópsia (SBP: >8 semanas; KDIGO 2021: >12 semanas) para excluir GNMP/glomerulopatia por C3
Micro-hematúria residualMeses; livros-texto aceitam até 1-2 anosIsolada, NÃO indica biópsia — só seguimento

O complemento decide o diferencial da nefrítica

PadrãoC3C4Pensar em
Via alternativa, transitórioBaixo (normaliza em 4-8 semanas)NormalGNPE
Via alternativa, persistenteBaixo além do prazoNormalGNMP / glomerulopatia por C3
Via clássicaBaixoBaixoNefrite lúpica (crioglobulinemia no adulto)
Complemento normalNormalNormalNefropatia por IgA, Púrpura de Henoch-Schönlein, Alport, SHU

A latência também é régua diagnóstica: 1-2 semanas pós-faringite, 3-6 semanas pós-piodermite (teto de 6 semanas). Hematúria 1-3 dias após a faringite = IgA, não GNPE.

C3 normal na fase aguda praticamente afasta GNPE (sensibilidade de 95-98% do C3 baixo) — é atipia que indica biópsia se a nefrítica for real.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto tempo de C3 baixo tolerar antes de biopsiar?

SBP (Documento Científico de Nefrologia): 8 semanas

O documento brasileiro descreve normalização do complemento em 4 a 6 semanas e lista, entre os critérios de biópsia, o complemento persistentemente baixo por mais de 8 semanas. É a régua tradicional do ensino pediátrico nacional.

Toporovski & Bresolin, Documento Científico SBP, 2002

KDIGO 2021: 12 semanas

A diretriz internacional de glomerulopatias considera que, na GN pós-infecciosa clássica, o C3 persistentemente baixo além de 12 semanas indica biópsia, em particular para excluir glomerulopatia por C3 — dando à doença mais tempo para provar que é autolimitada antes de puncionar.

KDIGO Glomerular Diseases Guideline, Kidney International, 2021

Na prova

Os dois números coexistem porque os documentos têm 19 anos de distância e públicos diferentes: o brasileiro é pediátrico e anterior ao conceito moderno de glomerulopatia por C3; o internacional incorporou essa entidade e esticou o prazo. Identifique o recorte: enunciado que cita a SBP, prova pediátrica brasileira ou alternativas construídas em semanas (4/8) apontam a régua nacional; menção nominal ao KDIGO, cenário de nefrologia ou a presença de '12 semanas' entre as opções denunciam a diretriz internacional. Se a questão der C3 baixo aos 3-4 meses de evolução, os dois mundos concordam: biópsia.

Penicilina para todos os casos de GNPE?

Recomendação brasileira: erradicar sempre

O documento da SBP recomenda penicilina benzatina em dose única para todo caso de GNPE (600.000 UI < 25 kg; 1.200.000 UI acima), mesmo sem infecção ativa: o objetivo é erradicar a cepa nefritogênica virulenta e limitar sua circulação na comunidade — argumento epidemiológico, relevante onde piodermite e aglomeração são comuns.

Toporovski & Bresolin, Documento Científico SBP, 2002

Literatura internacional: antibiótico só com infecção presente

A síntese internacional registra que, quando a nefrite abre, a infecção de origem em geral já se resolveu, e o antibiótico não muda o curso da glomerulonefrite — reserva-se o tratamento a quem tem infecção ativa documentada (cultura ou lesão de pele em atividade), tratando também contactantes domiciliares em contexto de surto.

StatPearls (NCBI Bookshelf), Poststreptococcal Glomerulonephritis

Na prova

As duas posições concordam no essencial — o antibiótico não trata a nefrite — e divergem no gesto de saúde pública. Prova brasileira que descreve o caso e pergunta 'além do suporte, qual conduta' costuma estar cobrando a benzatina da recomendação nacional; enunciado que enfatiza 'faringite há 3 semanas, hoje sem queixas infecciosas' com alternativa 'antibioticoterapia não está indicada' está no recorte internacional. As alternativas denunciam: dose única IM de benzatina presente entre as opções é a assinatura do documento brasileiro.

06

Caso resolvido

Menino, 7 anos, trazido por urina 'cor de coca-cola' há 2 dias e inchaço nos olhos ao acordar. Há 4 semanas teve impetigo nas pernas, tratado só com banho e sabonete. Exame: PA 132/88 mmHg (> percentil 95 para idade e estatura), edema periorbital, lesões crostosas cicatrizadas nas pernas. Diurese diminuída. EAS: hematúria +++ com dismorfismo eritrocitário, cilindros hemáticos, proteína ++. Creatinina 0,9 mg/dL, K 4,8 mEq/L. C3 indetectável, C4 normal. ASLO dentro da faixa de referência.
achado
Síndrome nefrítica (edema + hipertensão + hematúria glomerular + oligúria) em escolar, com latência de 4 semanas após porta de entrada cutânea — janela típica da GNPE pós-piodermite (3 a 6 semanas).
interpretação
C3 baixo com C4 normal fecha o padrão de via alternativa da GNPE. O ASLO normal não afasta: após piodermite a estreptolisina O é inativada pelos lipídios da pele — o anticorpo a pedir é o anti-DNase B, que confirma a estreptococcia recente.
conduta
Internação (hipertensão + oligúria): restrição hidrossalina (necessidades basais + diurese), furosemida pela congestão/hipertensão, penicilina benzatina 1.200.000 UI IM dose única se ≥ 25 kg (600.000 UI se abaixo). Sem corticoide, sem biópsia. Monitorar PA, diurese, K e função renal.
seguimento
Espera-se diurese e queda do edema em até 2 semanas e PA normal na sequência; repetir C3 em 8 semanas — se normalizar, é a evolução autolimitada esperada, com micro-hematúria residual podendo persistir meses sem alarme.
07

Agora feche você

Menina, 8 anos, 30 kg, com edema palpebral, urina escura e cefaleia. Faringoamigdalite há 12 dias, não tratada. PA 138/92 mmHg, estertores finos em bases, fígado a 3 cm do rebordo. Diurese de 200 mL nas últimas 24 h. C3 baixo, C4 normal, creatinina 1,4 mg/dL, K 5,9 mEq/L.
achado
GNPE com duas complicações agudas: congestão circulatória (estertores, hepatomegalia) e oligúria com hipercalemia.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Hematúria no 2º dia da faringite tratada como GNPE A questão dá dor de garganta ontem e urina escura hoje — e o candidato marca GNPE por reflexo. Sem latência não é GNPE: hematúria sinfaringítica (1-3 dias) com complemento normal é nefropatia por IgA. A GNPE exige 1-2 semanas após faringite, 3-6 após piodermite.
  2. 2Prescrever profilaxia secundária contínua como na febre reumática As duas são sequelas do mesmo estreptococo, e a prova cola uma na outra de propósito. Só a febre reumática exige benzatina de repetição — cada nova infecção reativa a cardite. Na GNPE a recidiva é rara e não há profilaxia contínua: é dose única para erradicar a cepa, e ponto.
  3. 3Corticoide para a nefrítica 'grave' PA alta, C3 indetectável e creatinina subindo assustam, e a alternativa com prednisona atrai. Na GNPE típica corticoide não muda nada; imunossupressão só na minoria (<1%) com evolução rapidamente progressiva e crescentes comprovadas por biópsia.
  4. 4Descartar GNPE porque o ASLO veio normal Vale após faringite, não após impetigo: os lipídios da pele inativam a estreptolisina O e o ASLO não sobe. Pós-piodermite, a sorologia que confirma é o anti-DNase B. ASLO normal + porta cutânea + C3 baixo continua sendo GNPE até prova em contrário.
  5. 5Biopsiar (ou re-internar) pela micro-hematúria aos 6 meses A micro-hematúria residual persiste por meses — até 1-2 anos nos livros-texto — depois que tudo o mais normalizou. Isolada, não é doença ativa nem critério de biópsia. O que estoura prazo é outra coisa: macro-hematúria/HAS/função renal além de 4 semanas, C3 além de 8 (SBP) ou 12 (KDIGO).
  6. 6C3 e C4 baixos 'confirmando' GNPE O padrão da GNPE é via alternativa: C3 baixo com C4 normal. Se o C4 despencou junto, a via é clássica e o diagnóstico anda para lúpus (ou GNMP tipo imunocomplexos). A alternativa que baixa os dois complementos está descrevendo outra doença.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Hematúria macroscópica (cor de coca-cola), edema, hipertensão e oligúria após infecção estreptocócica cutânea (impetigo, ~2 semanas) definem a glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica, síndrome nefrítica clássica. Lesões mínimas dá síndrome nefrótica sem hematúria/HAS. Pielonefrite cursa com febre, disúria e leucocitúria, não hematúria dismórfica com cilindros hemáticos. Litíase dá dor em cólica, sem cilindros hemáticos. Nefrite intersticial associa-se a droga/rash/eosinofilia, não a infecção estreptocócica prévia.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de cabeça: a tríade nefrítica + as duas latências (faringite 1-2 semanas; piodermite 3-6) + o padrão C3 baixo/C4 normal + os cinco critérios de biópsia (quatro de 4 semanas; complemento 8 semanas SBP / 12 KDIGO). Conduta em uma linha: suporte + restrição hidrossalina + furosemida se congestão/HAS + benzatina dose única — sem corticoide, sem profilaxia contínua.

em 30 dias

Monte a tabela do complemento sem olhar (GNPE × GNMP/C3 × lúpus × IgA/PHS) e a cronologia de resolução (diurese → PA → função renal → urina → C3 → micro-hematúria). Depois responda: por que o ASLO falha na piodermite, e o que pedir no lugar? Por que digitálico não entra na congestão da GNPE?

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 7 anos chega com a mãe: urina escura há 2 dias, rosto inchado ao acordar e 'pressão alta na farmácia'. Teve feridas com casca nas pernas semanas atrás. Conduza: da suspeita à conduta — e decida se ele precisa de biópsia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica – Glomerulonefrite pós-estreptocócica (GNPE) — Preparatório para provas | OsceLabs