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Síndrome hemolítico-urêmica: a disenteria que não pede antibiótico

Síndrome hemolítico-urêmica na criança: diarreia com sangue, antibiótico da disenteria, tríade laboratorial e indicação de diálise

O cartaz federal da diarreia manda iniciar antibiótico no menino com sangue nas fezes e dor abdominal; o guia de vigilância nomeia a toxina que produz a síndrome e não prescreve droga nenhuma; a nefrologia escreve que o antibiótico multiplica o risco. A decisão de dois minutos na porta da unidade não está inteira em nenhum dos três documentos.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 3 anos, previamente hígido, apresenta há 6 dias diarreia com sangue, evoluindo há 2 dias com palidez, letargia e redução do volume urinário. Exame: PA 110/70 mmHg, FC 130 bpm, palidez cutâneo-mucosa, petéquias. Exames: Hb 7,0 g/dL com esquizócitos no esfregaço, plaquetas 40.000/mm³, creatinina 2,4 mg/dL, ureia elevada, LDH aumentado. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

O capítulo trata da síndrome hemolítico-urêmica que se instala depois de uma diarreia com sangue na criança: o que a régua federal manda fazer na fase diarreica, o que a literatura nefrológica manda evitar, como a tríade laboratorial fecha o diagnóstico, quando a diálise entra e como separar o quadro das outras púrpuras da infância.

Ficam de fora a glomerulonefrite pós-estreptocócica e a síndrome nefrótica, que têm capítulo próprio e outra fisiopatologia; a púrpura trombocitopênica imune e a púrpura de Henoch-Schönlein, que aparecem aqui só como diagnóstico diferencial; e os planos A, B e C de reidratação, que pertencem ao capítulo de diarreia aguda e são pressupostos, não reensinados.

Fica dentro tudo o que acontece entre a primeira evacuação com sangue e a decisão de terapia renal substitutiva: quando o antibiótico da disenteria vira risco, que exame separa a anemia hemolítica microangiopática da autoimune, o que a norma manda notificar, e o que resta de rim depois que a fase aguda passa.

03

O que muda decisão

Diarreia sanguinolenta: quando suspeitar de toxina Shiga

Como usar este capítulo: diante de diarreia sanguinolenta, procure anemia hemolítica microangiopática, plaquetopenia e lesão renal aguda. Evite antibiótico e antimotilidade quando houver suspeita de toxina Shiga, ofereça suporte intensivo e indique diálise pelas complicações, não por um único valor laboratorial.

O documento operacional do Ministério da Saúde, aquele de uma folha que fica na parede da unidade, escreve que os antibióticos devem ser usados somente para casos de diarreia com sangue (disenteria) e comprometimento do estado geral, ou em caso de cólera grave. No fluxo clínico, o gatilho é sangue nas fezes com comprometimento do estado geral, febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico.

A droga vem com dose e via. Para criança de até trinta quilos, azitromicina dez miligramas por quilo no primeiro dia e cinco por quilo por mais quatro dias, com ceftriaxona cinquenta miligramas por quilo por via intramuscular como alternativa. Acima de trinta quilos, ciprofloxacino. É a régua pregada em qualquer unidade brasileira, e a que o enunciado reproduz quando quer testar a disenteria.

A literatura nefrológica escreve o inverso, com o mesmo grau de firmeza. O artigo em português afirma que a antibioticoterapia não é, em geral, indicada no tratamento das infecções por Escherichia coli produtora de toxina Shiga, porque não traz benefício e pode ser prejudicial, aumentando o risco de ocorrência da síndrome, principalmente se empregada na fase inicial da doença, por aumentar a produção e a liberação da toxina.

A revisão internacional que essa peça cita fecha a lista do que não se dá: antibióticos, agentes antimotilidade, narcóticos e anti-inflamatórios não esteroidais não devem ser administrados ao paciente agudamente infectado, e o que se recomenda no lugar é internação e fluido endovenoso. As duas frases descrevem a mesma criança e mandam fazer coisas opostas.

O ponto que decide a questão de prova é qual das duas o enunciado está evocando. Quando a vinheta nomeia Escherichia coli enterohemorrágica, cita o sorotipo, ou descreve criança de dois a seis anos com cólica intensa e sangue sem febre, o eixo é a toxina e o antibiótico sai. Quando traz febre alta e prostração, o eixo é a disenteria bacteriana clássica e a régua federal vale.

Nenhum dos dois documentos está errado dentro do próprio recorte, e é isso que torna a questão difícil. O cartaz é um instrumento de saúde pública desenhado para reduzir mortalidade por disenteria em rede básica, onde a etiologia raramente é conhecida no dia da consulta. A literatura de nefrologia trata do que acontece depois, em criança já selecionada pela suspeita etiológica. A prova de residência costuma dar exatamente a informação que o cartaz não tem, e é por isso que a resposta muda.

Indicações de diálise: tratar complicações, não números isolados

Vale medir antes de decidir o que estudar. Em duas mil cento e vinte e nove questões de prova de Pediatria das quatro trilhas de concurso, a palavra diálise, somada a terapia renal substitutiva, aparece na resposta correta seis vezes. As seis são síndrome hemolítico-urêmica. Nenhuma outra doença pediátrica chega à alternativa correta pedindo substituição renal.

O nome da síndrome e o do agente reúnem sete respostas certas. Somando as que só escrevem a ação — suporte clínico com controle hidroeletrolítico e diálise se indicada — e a que aparece com enunciado invertido, o tema fecha em onze corretas, da mesma ordem de temas que já têm capítulo próprio nesta apostila.

Há uma armadilha embutida nisso, cara a quem varre corpus por nome de doença. O descritor da vinheta, diarreia com sangue e suas variantes, carrega setenta e sete questões e não aparece em uma única resposta certa. O que existe é uma resposta que escreve a ação, não o achado.

A mesma medição mostra o inverso do lado da droga. Ciprofloxacino aparece em doze enunciados e em zero respostas certas. Azitromicina tem trinta e uma respostas certas, nenhuma de diarreia: nove são de coqueluche. O nome da droga que a norma trocou não é o que a banca pede.

E há uma questão de prova que inverte o sentido de resposta certa: o comando pede a conduta a ser evitada em criança com colite suspeita de Escherichia coli produtora de toxina Shiga, e a alternativa marcada é iniciar antibioticoterapia empírica. Ler a marcação como conduta recomendada ensina o contrário do que a questão ensina.

Do pródromo entérico à tríade microangiopática

Contar termos em nove documentos separa o campo em dois blocos que quase não se tocam. Nos três que um pediatra abre diante da criança com sangue nas fezes — o cartaz federal, o guia de sociedade de dois mil e vinte e três e o de dois mil e dezessete — a palavra disenteria aparece cinco, sete e seis vezes; diálise aparece zero, zero e zero.

Nos que tratam do rim — os dois artigos de nefrologia e o de doença renal crônica — diálise aparece oito, nove e três vezes, e disenteria aparece zero, zero e zero. Não é falta de espaço: os artigos somam vinte e duas páginas e descrevem o pródromo diarreico em detalhe. É recorte de competência, e deixa a decisão do primeiro dia sem dono.

Dois marcadores laboratoriais mostram o vão com precisão maior. Coombs aparece em exatamente um dos nove documentos, o artigo de dois mil e catorze, cinco vezes. Esquizócito, contando a grafia com zê, a com esse e a menção à fragmentação de hemácias, aparece nesse mesmo artigo duas vezes e em nenhuma das outras oito peças. Os dois exames que separam esta anemia de todas as outras não estão em documento de diarreia nenhum.

O sorotipo é o mais extremo do conjunto. O157 aparece em dois dos nove documentos: sete vezes no manual laboratorial do Ministério, quatro no artigo de dois mil e catorze e nenhuma nas outras sete peças, inclusive nas duas de sociedade sobre diarreia. O nome que a prova usa para sinalizar o eixo está quase só onde o pediatra não vai procurar.

Notificação, por fim, aparece sessenta e quatro vezes no guia de bolso e quarenta e quatro no guia de vigilância, e zero nas outras sete. As peças de sociedade e as de nefrologia não escrevem a palavra uma vez. Quem estuda pelo lado clínico não encontra a obrigação; quem estuda pelo lado da vigilância não encontra a conduta.

Antibióticos na disenteria: quando podem aumentar o risco

O guia de sociedade de dois mil e vinte e três tem doze páginas. Na tabela de agentes, atribui à Escherichia coli enterohemorrágica enterocolite com sangue sem leucócitos nas fezes, colite hemorrágica e a síndrome, por lesão vilositária e toxina Shiga um e dois, com nota de rodapé explicando a sigla. É descrição correta do mecanismo.

Seis páginas depois, no tratamento medicamentoso, o mesmo documento escreve que os antibióticos devem ser usados somente na diarreia com sangue e comprometimento do estado geral, e traz o quadro de doses por peso. Entre a tabela que nomeia a complicação e o quadro que prescreve a droga não há uma linha excluindo o agente que a própria tabela acabou de nomear.

A frase do tratamento não é paráfrase: são duzentos e cinquenta e oito caracteres idênticos, caractere por caractere, aos do cartaz federal do mesmo ano — e a mesma frase falta na edição de dois mil e dezessete da própria sociedade e no guia de vigilância de dois mil e vinte e quatro. É reprodução editorial datada.

Cabe o contraponto honesto, porque a leitura fácil seria acusar erro. O documento é um guia de diarreia aguda, e o antibiótico tem alvo declarado: Shigella, que responde pela maioria das disenterias febris no país e piora sem tratamento. O problema não é a recomendação; é a falta de uma linha dizendo em que criança ela não se aplica.

Para a prova, vira regra de leitura: documento de diarreia responde pela disenteria bacteriana e por nada mais, e a exceção da toxina vem de outra fonte. Quando a banca põe as duas na mesma vinheta, testa se o candidato sabe que a régua da parede tem uma borda que ela mesma não escreve.

Tríade diagnóstica e papel do teste de Coombs

A definição laboratorial tem três componentes, e o artigo os escreve com os pontos de corte. Anemia hemolítica não autoimune, com hemoglobina baixa, Coombs direto negativo, esquizócitos no sangue periférico, haptoglobina baixa e desidrogenase láctica elevada. Plaquetopenia, abaixo de cento e cinquenta mil por milímetro cúbico ou queda maior que vinte e cinco por cento. E acometimento renal.

O elemento que mais decide questão é o Coombs direto negativo, e decide por ser negativo. A hemólise é mecânica: a hemácia se parte ao atravessar a microcirculação ocluída por trombos, e não há anticorpo ligado à sua superfície. Um teste positivo empurra o raciocínio para anemia hemolítica autoimune e tira a forma típica da mesa.

Microvaso parcialmente ocluído por microtrombos, com hemácias íntegras antes do estreitamento e esquizócitos depois, além de um detalhe do esfregaço periférico.
A hemácia se fragmenta ao atravessar a microcirculação ocluída, produzindo esquizócitos. Como a hemólise é mecânica e não mediada por anticorpos, o Coombs direto costuma ser negativo.

A exceção está na mesma fonte e é o único cenário em que o teste positivo não afasta a síndrome. Na forma por doença pneumocócica invasiva, a neuraminidase do pneumococo expõe o antígeno T em hemácias, plaquetas e endotélio, e anticorpos pré-formados se ligam a ele: o Coombs vem positivo em cerca de noventa por cento dos casos.

Do lado renal, fecha o quadro a queda de débito urinário com ureia e creatinina em elevação, hipertensão frequente e, em parte dos casos, hematúria e proteinúria. A criança típica tem dois a seis anos e chega entre cinco e dez dias depois do início da diarreia, quando o quadro intestinal já cessou — e a família não relaciona as duas coisas.

Vale saber o que a tríade não exige, porque enunciado costuma testar por omissão. Não é preciso febre, não é preciso cultura positiva e não é preciso biópsia renal. Também não é preciso que a diarreia ainda esteja presente: em boa parte dos casos ela já cessou quando a criança chega pálida. A cultura de fezes, quando colhida, tem valor epidemiológico e ajuda a investigação de surto, mas o diagnóstico da síndrome é clínico e laboratorial, e não espera resultado de microbiologia para começar o suporte.

Quanto a exposição à toxina aumenta o risco

O número que sustenta a contramão vem de coorte prospectiva de setenta e uma crianças menores de dez anos com diarreia por Escherichia coli O157:H7. Nove receberam antibiótico; dez desenvolveram a síndrome, e cinco dessas dez estavam entre as nove tratadas. O risco relativo publicado é catorze vírgula três, com intervalo de confiança de noventa e cinco por cento de dois vírgula nove a setenta vírgula sete.

Vale fazer a conta que o resumo permite. Cinco em nove tratadas dá cinquenta e cinco por cento; cinco em sessenta e duas não tratadas dá oito por cento; a razão bruta é seis vírgula nove, menos da metade do valor publicado. Quem repete o catorze sem saber de onde vem repete um resultado que não está nos números crus.

O contraponto honesto está no mesmo resumo. O catorze vírgula três é ajustado por regressão logística para a leucometria inicial e para o dia de doença da coprocultura — fatores que o estudo mostra associados ao desfecho, com riscos relativos de um vírgula três e zero vírgula três. O ajuste move o efeito para cima porque as tratadas eram menos graves na entrada.

O intervalo merece leitura antes de virar argumento: dois vírgula nove a setenta vírgula sete cobre uma faixa de vinte e quatro vezes. O limite inferior já basta para mudar conduta, e é ele que sustenta a recomendação; o valor pontual carrega imprecisão que nove crianças tratadas não reduzem. A régua é firme na direção e frouxa na magnitude.

Para a prova, importam a direção e a fase. O risco se decide na fase diarreica, antes de a síndrome aparecer, e é ali que a decisão sobre o antibiótico existe. Instaladas a anemia, a plaquetopenia e a queda de função renal, a lesão vascular já está em curso e o manejo é de suporte.

SHU típica e atípica: frequência e mecanismo

A distribuição etiológica é cobrada com frequência e vem escrita de dois jeitos. O artigo de dois mil e catorze afirma que, na infância, noventa por cento dos casos vêm da Escherichia coli produtora de toxina Shiga, sobretudo entre dois e seis anos, com incidência de seis vírgula um casos por cem mil crianças abaixo de cinco anos por ano.

A coorte de dois mil e vinte e três escreve a mesma proporção como faixa: oitenta e cinco a noventa por cento dos casos pediátricos, com doença pneumocócica invasiva em cerca de cinco por cento e desregulação da via alternativa do complemento em cinco a dez. As duas concordam no topo da faixa e discordam só em admitir o limite inferior.

Há um número que não fecha, e está dentro de uma frase só. O artigo de dois mil e catorze escreve que o pneumococo compreende cinco por cento dos casos em crianças e quarenta por cento dos casos não associados à toxina. Se as duas valem, os não associados são doze e meio por cento — e não os dez por cento que sobram dos noventa da mesma página.

O contraponto honesto é que a discrepância é de dois pontos e meio e some com a faixa da coorte mais recente: a oitenta e sete e meio por cento de casos por toxina, os dois números da frase fecham exatos. O que a conta mostra é o custo de publicar noventa por cento redondo onde a literatura trabalha com faixa.

A magnitude do evento também merece contexto, porque a doença é rara e a diarreia é comum. A incidência registrada abaixo de cinco anos é de seis vírgula um casos por cem mil por ano, e mesmo em surto documentado apenas parte dos infectados evolui: no maior episódio descrito, três mil oitocentas e dezesseis pessoas adoeceram, oitocentas e quarenta e cinco desenvolveram a síndrome e cinquenta e quatro morreram. É pouco mais de um quinto dos doentes, o que explica por que a decisão do primeiro dia é de risco, e não de certeza.

O terceiro grupo muda o manejo. A forma atípica, por desregulação do complemento, dispensa pródromo diarreico, recidiva, atinge lactentes e adultos e responde a bloqueio terminal do complemento, com vacinação meningocócica e profilaxia antibiótica antes. É a única situação em que antibiótico entra por decisão correta, e entra como profilaxia de quem foi bloqueado.

Ausência de febre não tranquiliza

O manual laboratorial do Ministério descreve a colite hemorrágica e a distingue das demais infecções por bactérias invasoras por dois traços: a grande quantidade de sangue nas fezes e a falta de febre. Acrescenta incubação de três a oito dias e duração de dois a nove.

Isso conversa mal com o gatilho do cartaz clínico. Lá, a antibioticoterapia se abre diante de sangue nas fezes com comprometimento do estado geral, ou febre alta persistente, ou dor abdominal, ou tenesmo, ou comprometimento sistêmico. A febre, que o manual usa para afastar o agente, é um gatilho; a dor abdominal, traço mais constante da colite por toxina, é outro.

O resultado é que a criança com colite hemorrágica satisfaz o critério do cartaz pela porta errada: não tem febre, o que deveria empurrar para a toxina, mas tem cólica intensa, o que basta para abrir a prescrição. Nenhuma das duas peças escreve a outra, e a criança que a prova descreve costuma ser essa.

Quadro confronta cinco gatilhos de antibioticoterapia com o perfil geralmente afebril da colite por toxina Shiga, que pode preencher o critério pela dor abdominal intensa.
Um único gatilho pode abrir a prescrição no cartaz. A criança com colite por toxina Shiga, embora geralmente afebril e sem comprometimento sistêmico, pode preencher o critério pela cólica intensa; por isso o conjunto clínico deve prevalecer sobre um item isolado.

A leitura que resolve o enunciado é a do conjunto, não a de um sinal. Sangue abundante, cólica forte, criança de dois a seis anos, afebril, com história de carne malpassada ou contato com gado, sem prostração: retrato da toxina. Febre alta, prostração, muco e pus nas fezes e piora do estado geral: retrato da disenteria bacteriana, e a régua federal vale.

Notificação e investigação de surtos

O guia de vigilância vigente escreve a obrigação numa frase única, fácil de citar fora de contexto: quando houver casos que evoluírem para síndrome hemolítico-urêmica, a ficha de notificação individual deve ser preenchida e inserida no sistema de agravos de notificação, além da ficha de surto. Lida sozinha, parece transformar todo caso em notificação individual obrigatória.

O parágrafo em que ela está, porém, trata inteiro de surto. As frases anteriores descrevem a ficha de investigação de surto de doenças de transmissão hídrica e alimentar, e a regra de que, em surtos de doenças da lista de notificação compulsória, cada caso suspeito seja notificado também na ficha individual. A frase da síndrome fecha com além da ficha de surto, o que a prende ao mesmo cenário.

O que sobra para o caso isolado é a vigilância das doenças diarreicas agudas por unidades sentinela, que registra o episódio diarreico e não a complicação renal. A criança que desenvolve a síndrome fora de surto identificado não tem, nesse capítulo, ficha individual própria.

Isso não é descuido de redação. A síndrome não é agravo de notificação compulsória por si: entra pela porta da doença diarreica e da doença transmitida por alimento, que são os agravos vigiados. Quando a vigilância pede a ficha individual, pede o dado que amarra o caso grave ao surto que o produziu.

Para a prova, a leitura segura é conservadora: diante de caso agrupado, fonte alimentar comum ou surto em curso, a notificação individual entra, e a coleta de fezes antes do antibiótico é parte do fluxo. No caso isolado, cobra-se a conduta clínica e a comunicação à vigilância.

Tratamento de suporte e papel dos antimicrobianos

A comparação entre as duas edições da mesma sociedade data a mudança. Em dois mil e dezessete, o ciprofloxacino era primeira escolha na disenteria da criança, quinze miligramas por quilo duas vezes ao dia por três dias, com azitromicina em segundo. Em dois mil e vinte e três a ordem se inverteu: azitromicina primeiro, ceftriaxona como alternativa, ciprofloxacino só acima de trinta quilos.

A justificativa é de resistência: o levantamento citado mostra alta taxa de resistência das amostras brasileiras de Shigella ao sulfametoxazol com trimetoprima, recomendação anterior, boa sensibilidade ao ciprofloxacino e à ceftriaxona, e que os estudos brasileiros não testaram a azitromicina. A troca seguiu a norma federal, que o documento diz ter adotado.

Nas duas mil cento e vinte e nove questões medidas, a mudança não aparece. Ciprofloxacino carrega doze enunciados e nenhuma resposta correta; azitromicina tem trinta e uma corretas, nenhuma em quadro diarreico. A troca de primeira escolha é justamente o que a banca não pergunta.

O contraponto honesto é que isso não é desatualização das provas, e sim recorte de competência. Escolha de antimicrobiano por perfil de resistência muda de ano em ano e de estado para estado, e envelhece antes de o edital sair. A banca cobra a decisão que não envelhece: hidratar, classificar, reconhecer a complicação.

E a única questão de prova que toca a droga a põe no comando invertido: pergunta o que evitar. Nesse desenho, o antibiótico deixa de ser item de farmacologia e vira item de raciocínio — a banca migrou a droga de o que prescrever para o que não prescrever, que é onde ela muda o desfecho.

Seguimento renal depois da fase aguda

A coorte de dois mil e vinte e três acompanhou admissões em uma unidade de nefrologia pediátrica por vinte e quatro anos: vinte e nove pacientes admitidos, quatro excluídos por falta de dados, e vinte e cinco pacientes com vinte e seis eventos incluídos. Sessenta e quatro por cento eram do sexo masculino, com mediana de idade ao diagnóstico de dois anos.

A aritmética dos subgrupos parece não fechar e fecha. O grupo anterior a dois mil e quinze tem dezenove pacientes e o posterior tem sete, o que soma vinte e seis contra vinte e cinco — e o texto declara a razão: um paciente entrou nos dois grupos, por episódio antes e recidiva depois. É a diferença entre pacientes e eventos, na linha seguinte.

O número de manejo é o mais citável: na fase aguda, catorze pacientes, ou cinquenta e seis por cento, precisaram de terapia renal substitutiva. Etiologia infecciosa em sete, cinco por Escherichia coli e dois por Streptococcus pneumoniae. Depois de dois mil e quinze, com teste genético disponível, dois de sete casos vieram do complemento e nenhum de causa infecciosa.

O desfecho tardio desmente a fama de doença que passa sem marca. Com mediana de seguimento de seis anos e meio, houve um óbito, sete pacientes com doença renal crônica, quatro deles transplantados, uma recidiva e sete sem sequela. Sete em vinte e cinco é menos de um terço, e é por isso que o documento de doença renal crônica lista a síndrome entre as causas na idade escolar.

Duas ressalvas cabem antes de usar esses números. A unidade é portuguesa, e a própria conclusão atribui o perfil à falta de surtos infecciosos no país, o que reduz a fração por toxina; e vinte e cinco pacientes em vinte e quatro anos é casuística pequena, na qual um óbito já vale quatro por cento. Leva-se daí a ordem de grandeza do seguimento, não a taxa exata.

04

Da primeira evacuação com sangue à decisão de diálise, sem prescrever o que solta toxina

A decisão treinada aqui tem cinco degraus, e o primeiro deles é o que separa as duas réguas. O pediatra olha a febre e a idade antes de olhar a receita, colhe fezes antes de qualquer droga, hidrata cedo e por veia quando a criança já está com dor forte, e passa a vigiar hemograma e função renal em vez de esperar a piora aparecer.

  1. 1Classifique o padrão da diarreia com sangue antes de abrir qualquer prescrição. Febre alta persistente, prostração, muco e pus nas fezes e piora do estado geral compõem o retrato da disenteria bacteriana clássica, em que a régua federal de antibiótico vale. Sangue abundante, cólica intensa, criança entre dois e seis anos e febre ausente ou baixa compõem o retrato da colite por toxina, em que o antibiótico sai da mesa.
  2. 2Colha fezes antes de qualquer medicamento. A régua de vigilância manda coletar amostra antes da administração de antibióticos, e a coorte prospectiva mostra que a coprocultura colhida cedo se associa a menor risco de evolução para a síndrome, provavelmente por identificar quem não deve ser tratado. Sem a coleta prévia, a etiologia se perde e a decisão vira aposta.
  3. 3Hidrate cedo e com volume, por veia quando houver dor abdominal intensa ou vômito. A recomendação internacional troca o antibiótico por internação e fluido endovenoso, e a expansão precoce é considerada protetora do rim. Suspenda antidiarreicos e antiperistálticos, que prolongam a exposição intestinal à toxina, e evite anti-inflamatórios não esteroidais.
  4. 4Vigie o laboratório em série em vez de esperar a piora clínica. Hemograma com contagem de plaquetas e pesquisa de esquizócitos, ureia e creatinina, e débito urinário. A janela em que a síndrome aparece vai do quinto ao décimo dia depois do início da diarreia, quando o quadro intestinal com frequência já cessou e a família já parou de relacionar as duas coisas.
  5. 5Diante da tríade instalada, encaminhe para serviço com nefrologia pediátrica e capacidade de terapia renal substitutiva, e mantenha o suporte: controle hidroeletrolítico e volêmico, manejo da hipertensão, transfusão criteriosa de hemácias e diálise quando indicada. Não há tratamento que encurte a forma típica, e o antibiótico nesta fase já não é a pergunta.

A tríade cresce junta, e a terceira é a que muda o destino

Anemia hemolítica não autoimune com esquizócitos e Coombs direto negativo; plaquetopenia abaixo de cento e cinquenta mil por milímetro cúbico ou queda maior que um quarto; e acometimento renal com queda de débito urinário e elevação de ureia e creatinina. As três se instalam na mesma janela, e é a terceira que decide entre observar na enfermaria e transferir para serviço com diálise.

A janela em que o risco se decide vem antes de tudo que se vê

Incubação de três a oito dias até a diarreia; sangue nas fezes em seguida; a síndrome aparece entre o quinto e o décimo dia depois do início do quadro intestinal, quando a diarreia com frequência já cessou. A decisão sobre o antibiótico só existe no começo dessa linha, e a lesão vascular já está em curso quando a criança chega pálida.

Duas réguas cheias e uma terceira que ninguém escreveu

A régua da disenteria vem completa, com droga, dose e via. A régua da toxina vem completa, com o que evitar e o que fazer no lugar. A régua que diria, na porta da unidade, qual das duas se aplica a esta criança não está escrita em nenhum dos nove documentos medidos, e é ela que a prova cobra.

Os dois retratos da diarreia com sangue e o que cada um manda fazer

TraçoDisenteria bacteriana clássicaColite por toxina Shiga
FebreAlta e persistente, com prostraçãoAusente ou baixa; a falta de febre é traço descritivo do agente
FezesSangue com muco e pus, volume pequeno, tenesmoSangue abundante, sem leucócitos, com cólica intensa
Idade típicaQualquer, com maior peso em escolaresSobretudo entre dois e seis anos
AntibióticoIndicado pela régua federal, com azitromicina de primeira escolha até trinta quilosContraindicado na fase diarreica; aumenta a liberação de toxina
O que vigiarPersistência de sangue após quarenta e oito horas, que na criança até dez anos manda internarHemograma, plaquetas, esquizócitos, ureia, creatinina e débito urinário até o décimo dia
Fonte da réguaCartaz federal de manejo da diarreia e guia de sociedade que o reproduzLiteratura de nefrologia pediátrica e revisão internacional citada por ela

As três formas e o que muda em cada uma

FormaComo se apresentaO que muda no manejo
Típica, por toxina ShigaNoventa por cento dos casos pediátricos; pródromo de diarreia com sangue; pico entre dois e seis anosSuporte, hidratação, diálise se indicada; sem antibiótico e sem antidiarreico
Por pneumococo invasivoCerca de cinco por cento; pneumonia complicada ou meningite; sem pródromo diarreicoCoombs direto positivo em cerca de noventa por cento; tratar a infecção invasiva e evitar plasma
Atípica, por complementoCinco a dez por cento; recidiva, história familiar, lactentes e adultosInvestigação genética e bloqueio terminal do complemento, com vacina meningocócica e profilaxia antes

A diferença entre as duas réguas é de fase, não de opinião. Na disenteria febril com comprometimento do estado geral, o alvo declarado do antibiótico é a Shigella, e ali ele trata. Na colite por toxina, ele solta toxina. O erro caro é aplicar uma das duas sem olhar febre e idade.

Coletar fezes antes do medicamento é o único passo que serve às duas réguas ao mesmo tempo: identifica a Shigella que justificaria tratar e identifica o agente produtor de toxina que proibiria.

Antidiarreicos e antiperistálticos entram na mesma proibição do antibiótico, e por motivo diferente: prolongam o tempo de contato da toxina com a mucosa. Anti-inflamatórios não esteroidais também saem, por somarem agressão renal a um rim já em risco.

Transfusão de hemácias na fase aguda é criteriosa, não liberal: a hemólise é contínua e a hipertensão é frequente, de modo que volume transfundido sem indicação piora a pressão sem resolver a anemia.

A forma atípica é a única em que a resposta correta pode conter antibiótico, e ele entra como profilaxia de quem recebeu bloqueio terminal do complemento e ficou suscetível a meningococo, não como tratamento do intestino.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Dar ou não antibiótico à criança com diarreia com sangue

Antibiótico indicado na disenteria com comprometimento do estado geral

A peça operacional federal determina que os antibióticos sejam usados somente para casos de diarreia com sangue e comprometimento do estado geral ou em caso de cólera grave, e prescreve azitromicina dez miligramas por quilo no primeiro dia e cinco miligramas por quilo por mais quatro dias para a criança de até trinta quilos, com ceftriaxona intramuscular como alternativa. Em outras condições, escreve que os antibióticos são ineficazes e não devem ser prescritos.

Ministério da Saúde, Departamento de Doenças Transmissíveis. Manejo do paciente com diarreia, dois mil e vinte e três, item de uso de medicamentos e passo de identificação de disenteria.

Antibiótico contraindicado quando o agente é produtor de toxina Shiga

A revisão de nefrologia pediátrica publicada em português afirma que a antibioticoterapia não é, em geral, indicada no tratamento das infecções por Escherichia coli produtora de toxina Shiga, porque não determina benefício e pode ser prejudicial, aumentando o risco de ocorrência da síndrome, principalmente na fase inicial da doença, por elevar a produção e a liberação da toxina.

Jornal Brasileiro de Nefrologia. Síndrome Hemolítico-Urêmica na infância, dois mil e catorze, seção de tratamento da forma típica.

Lista fechada do que não se administra na fase aguda

A revisão internacional citada por essa mesma peça escreve que antibióticos, agentes antimotilidade, narcóticos e anti-inflamatórios não esteroidais não devem ser administrados ao paciente agudamente infectado, e recomenda internação e administração de fluidos endovenosos no lugar.

The Lancet, dois mil e cinco, revisão sobre Escherichia coli produtora de toxina Shiga e síndrome hemolítico-urêmica, resumo estruturado.

Na prova

O enunciado costuma dar os dois lados de uma vez e o candidato precisa decidir qual régua a vinheta evoca. Repare em três marcas: febre alta persistente com prostração puxa para a disenteria bacteriana e libera o antibiótico; ausência de febre com cólica intensa em criança de dois a seis anos puxa para a toxina e proíbe. E quando o comando pergunta o que evitar, a alternativa do antibiótico é a resposta.

Qual é a primeira escolha de antibiótico quando a disenteria de fato pede

Ciprofloxacino como primeira escolha na criança

A edição de dois mil e dezessete da sociedade escreve que devem ser prescritos, nos quadros disentéricos, ciprofloxacino como primeira escolha, quinze miligramas por quilo duas vezes ao dia por três dias na criança, com azitromicina como segunda escolha e ceftriaxona nos casos graves que requerem hospitalização.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia. Diarreia aguda: diagnóstico e tratamento, dois mil e dezessete, item de antibióticos.

Azitromicina como primeira escolha até trinta quilos

A edição de dois mil e vinte e três da mesma sociedade declara que os antibióticos indicados sofreram mudanças segundo a nova recomendação federal e traz o quadro por peso, com azitromicina para a criança de até trinta quilos e ciprofloxacino apenas acima desse peso, exatamente como o cartaz do Ministério do mesmo ano.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia. Diarreia Aguda Infecciosa, dois mil e vinte e três, quadro de antibioticoterapia por peso.

Na prova

Aparece pouco como pergunta direta e muito como distrator. A troca entre as duas edições da mesma sociedade é recente, e enunciados antigos ainda reproduzem a escolha anterior. Se a questão pedir a droga, prefira a régua federal vigente; se a questão pedir a conduta, o antibiótico raramente é a resposta correta.

Quanto vale, de fato, o risco atribuído ao antibiótico

Risco relativo ajustado de catorze vírgula três

A coorte prospectiva de setenta e uma crianças menores de dez anos com diarreia pelo sorotipo O157:H7 publica risco relativo de catorze vírgula três para o tratamento antibiótico, com intervalo de confiança de noventa e cinco por cento de dois vírgula nove a setenta vírgula sete, em análise ajustada para leucometria inicial e para o dia de doença da coprocultura.

The New England Journal of Medicine, dois mil, coorte sobre risco de síndrome hemolítico-urêmica após tratamento antibiótico, resumo estruturado.

Razão bruta de seis vírgula nove pelos números do próprio resumo

O mesmo resumo publica que nove crianças receberam antibiótico e que cinco das dez que desenvolveram a síndrome estavam entre elas, o que dá cinquenta e cinco por cento nas tratadas contra oito por cento nas sessenta e duas não tratadas, ou razão bruta de seis vírgula nove. A diferença para o valor publicado é o efeito do ajuste, declarado no próprio resumo.

The New England Journal of Medicine, dois mil, mesmos resultados; a razão bruta é conta feita sobre os números que o resumo apresenta.

Na prova

Questão de prova costuma pedir a direção, não o número. Quando o número aparece, aparece como risco relativo aproximado de catorze. Saber que o valor é ajustado e que o intervalo é largo evita que o candidato descarte a alternativa correta por achar a magnitude implausível.

Quanto pesa a Escherichia coli produtora de toxina no total dos casos

Noventa por cento dos casos na infância

A revisão em português afirma que, na infância, noventa por cento dos casos são desencadeados por infecção pela Escherichia coli produtora de toxina Shiga, sobretudo entre dois e seis anos de idade, com incidência de seis vírgula um casos por cem mil crianças abaixo de cinco anos por ano.

Jornal Brasileiro de Nefrologia. Síndrome Hemolítico-Urêmica na infância, dois mil e catorze, seção da forma típica.

Oitenta e cinco a noventa por cento, com pneumococo em cinco e complemento em cinco a dez

A coorte publicada em dois mil e vinte e três escreve a mesma proporção como faixa de oitenta e cinco a noventa por cento de todos os casos pediátricos, com infecções invasivas por Streptococcus pneumoniae responsáveis por aproximadamente cinco por cento e mutações associadas à desregulação da via alternativa do complemento por cinco a dez por cento.

Jornal Brasileiro de Nefrologia. Síndrome hemolítico-urêmica: vinte e quatro anos de experiência de uma unidade de nefrologia pediátrica, dois mil e vinte e três, introdução.

Na prova

A banca aceita as duas formulações e costuma escrever cerca de noventa por cento. O que a questão realmente testa é se o candidato sabe que existe um grupo não associado à toxina, sem pródromo diarreico, que recidiva e que muda o manejo.

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Caso resolvido

Menino de três anos, previamente hígido, é levado ao pronto-socorro com diarreia há três dias, hoje com raias de sangue, e dor abdominal em cólica. Está afebril, bem hidratado, ativo, com pressão e frequência cardíaca normais para a idade. A família relata churrasco em família na semana anterior. A coprocultura foi solicitada com suspeita de colite por Escherichia coli enterohemorrágica. Função renal e hemograma iniciais normais.
Passo 1
Leia a febre antes da receita. A criança está afebril e ativa, com sangue nas fezes e cólica forte. O manual laboratorial federal descreve exatamente isso ao separar a colite hemorrágica das demais disenterias: grande quantidade de sangue e falta de febre. O retrato é de toxina, não de Shigella.
Passo 2
Reconheça que o gatilho da régua federal está satisfeito pela porta errada. O cartaz abre a antibioticoterapia diante de sangue nas fezes acompanhado de comprometimento do estado geral, febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico. A dor abdominal desta criança preenche o critério, e é justamente o traço mais constante da colite por toxina.
Passo 3
Não inicie antibiótico. Na infecção por Escherichia coli produtora de toxina Shiga, o antibiótico não traz benefício e aumenta o risco de evolução para a síndrome, por elevar a produção e a liberação da toxina, e o efeito é maior justamente na fase inicial, que é onde esta criança está.
Passo 4
Retire da mesa o que também solta ou soma dano: antidiarreicos e antiperistálticos, que prolongam a exposição da mucosa à toxina, e anti-inflamatórios não esteroidais, que agridem um rim em risco. Mantenha analgesia sem essa classe e reposição volêmica endovenosa generosa com cristaloide isotônico, que é considerada protetora do rim.
Passo 5
Programe a vigilância laboratorial seriada, e não a espera passiva. Hemograma com plaquetas e pesquisa de esquizócitos, ureia, creatinina e controle de débito urinário, porque a síndrome aparece entre o quinto e o décimo dia do início da diarreia, quando o quadro intestinal já pode ter cessado.
Passo 6
Oriente sinais de retorno imediato à família com nomes que ela reconheça: urinar pouco ou parar de urinar, ficar pálido, ficar sonolento, aparecer manchas roxas pequenas na pele ou inchaço no rosto. São os quatro sinais que marcam o início da microangiopatia e o momento de transferir.
07

Agora feche você

Menina de três anos é levada ao pronto-socorro por palidez e redução do volume urinário há dois dias. Há seis dias teve diarreia com sangue, já resolvida. Ao exame: descorada, letárgica, com petéquias e edema leve, pressão arterial acima do percentil para idade e estatura. Exames: hemoglobina seis vírgula oito gramas por decilitro, plaquetas quarenta e cinco mil por milímetro cúbico, esquizócitos no esfregaço, desidrogenase láctica elevada, ureia e creatinina elevadas, Coombs direto negativo.
Passo 1
Feche a tríade antes de discutir causa. Anemia com hemácias fragmentadas e desidrogenase láctica elevada dá a hemólise; quarenta e cinco mil plaquetas dá a plaquetopenia; ureia e creatinina elevadas com queda de débito urinário dão o acometimento renal. Três componentes presentes fecham o diagnóstico sindrômico.
Passo 2
Use o exame negativo como pilar, não como detalhe. Coombs direto negativo caracteriza a anemia hemolítica como não autoimune, o que é parte da definição laboratorial e afasta hemólise por anticorpo. É esse resultado, somado aos esquizócitos, que sustenta a microangiopatia.
Passo 3
Reconstrua o pródromo, mesmo que a família não o mencione. Diarreia com sangue seis dias antes, já resolvida, coloca a criança na janela típica, entre o quinto e o décimo dia. A forma associada à toxina responde por noventa por cento dos casos na infância e tem pico entre dois e seis anos, que é a idade dela.
Passo 4
Descarte, pelo próprio quadro, as duas púrpuras que competem. Na púrpura trombocitopênica imune não há anemia com esquizócitos nem alteração de função renal. Na vasculite por imunoglobulina A a púrpura é palpável, com artrite, e as plaquetas são normais ou altas. Nenhuma das duas explica hemácias fragmentadas com creatinina em elevação.
Passo 5
Defina o manejo como de suporte e transfira. Controle hidroeletrolítico e volêmico, manejo da hipertensão, transfusão criteriosa de concentrado de hemácias e encaminhamento para serviço com nefrologia pediátrica e terapia renal substitutiva. Cerca de metade dos casos graves de coorte hospitalar precisou de diálise na fase aguda.
Passo 6
Não prescreva antibiótico nesta fase e explique por quê na evolução. A lesão vascular já está em curso quando o quadro se manifesta, e não há tratamento que encurte a forma típica. Programe seguimento longo com pressão arterial, proteinúria e filtração glomerular, porque a maioria dos pacientes desenvolve alguma sequela.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever o antibiótico porque o cartaz da parede manda É o erro mais caro do tema e o mais fácil de cometer, porque a régua está escrita, é federal e é recente. O que ela não escreve é a borda: nenhuma linha do cartaz exclui a Escherichia coli produtora de toxina, e nenhuma linha nomeia a síndrome. Antes de abrir a prescrição, olhe febre e idade. Criança de dois a seis anos, com sangue abundante e cólica intensa e sem febre alta, é retrato de toxina, e ali o antibiótico multiplica o risco.
  2. 2Achar que Coombs positivo confirma o diagnóstico A hemólise da síndrome típica é mecânica, e o Coombs direto é negativo justamente porque não há anticorpo na hemácia. Quem lê o exame como se positivo fosse confirmação inverte o raciocínio e cai em anemia hemolítica autoimune. A exceção é a forma por pneumococo invasivo, em que a neuraminidase expõe o antígeno T e o teste vem positivo em cerca de noventa por cento — mas essa criança não tem pródromo de diarreia com sangue, e sim pneumonia complicada ou meningite.
  3. 3Descartar o diagnóstico porque a diarreia já passou A síndrome aparece entre o quinto e o décimo dia depois do início do quadro intestinal, quando a diarreia com frequência já cessou e a família já parou de mencioná-la. A criança chega pálida, sonolenta e urinando pouco, e a história de sangue nas fezes só aparece se for perguntada. Palidez com oligúria em pré-escolar obriga a pergunta sobre diarreia na semana anterior.
  4. 4Confundir a plaquetopenia com púrpura trombocitopênica imune As duas dão petéquias em pré-escolar depois de um quadro infeccioso, e é aí que a semelhança acaba. Na púrpura imune a criança está bem, corada, com plaquetas baixas e o resto do hemograma normal, e função renal preservada. Na síndrome há anemia com esquizócitos, desidrogenase láctica elevada e ureia e creatinina subindo. Um hemograma completo com esfregaço e uma função renal separam as duas na primeira consulta.
  5. 5Tratar como púrpura de Henoch-Schönlein por causa da dor abdominal A vasculite por imunoglobulina A também dá dor abdominal e sangramento intestinal em criança dessa idade, mas a marca dela é a púrpura palpável em nádegas e membros inferiores, com artrite e plaquetas normais ou altas. Plaquetas baixas com anemia e hemácias fragmentadas não pertencem a esse quadro, e a presença delas muda o destino da criança de observação para transferência.
  6. 6Achar que hidratar é conduta neutra que se pode adiar A recomendação internacional troca o antibiótico por internação e fluido endovenoso, e a hidratação precoce e generosa é tratada como protetora do rim, não como suporte de conforto. Segurar volume em criança com colite hemorrágica intensa, por medo de sobrecarregar, é decisão que piora o desfecho renal antes de qualquer sinal aparecer.
  7. 7Dar antidiarreico para aliviar a família Agente antimotilidade entra na mesma lista de proibições do antibiótico, e por mecanismo próprio: prolonga o tempo de contato da toxina com a mucosa. A questão de prova que pergunta o que evitar costuma pôr o antidiarreico como alternativa correta ao lado do antibiótico, e o candidato que só decorou a proibição do antibiótico erra.
  8. 8Prometer que passa sem sequela porque a forma é típica A coorte de vinte e quatro anos mostra sete pacientes sem sequela entre vinte e cinco, com sete evoluindo para doença renal crônica, quatro deles transplantados, e um óbito. A forma típica é a de melhor prognóstico entre as três, o que não é o mesmo que prognóstico bom. Seguimento prolongado com pressão arterial, proteinúria e filtração glomerular faz parte da alta, e é isso que a questão de conduta pós-aguda cobra.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade anemia hemolítica microangiopática (esquizócitos, LDH alto), plaquetopenia e lesão renal aguda após diarreia sanguinolenta (E. coli produtora de toxina Shiga) define a síndrome hemolítico-urêmica. PTI tem plaquetopenia isolada, sem anemia hemolítica microangiopática nem lesão renal. GNPE não cursa com esquizócitos/plaquetopenia. Síndrome nefrótica não gera hemólise microangiopática. PHS dá púrpura palpável em MMII e artralgia, sem esquizócitos e plaquetopenia.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Diarreia com sangue tem dois retratos e duas réguas opostas. Febre alta com prostração e comprometimento do estado geral é disenteria bacteriana, e a régua federal manda azitromicina até trinta quilos, com ceftriaxona como alternativa. Sangue abundante com cólica intensa, sem febre, em criança de dois a seis anos, é colite por toxina Shiga, e ali o antibiótico aumenta o risco da síndrome. Colha fezes antes de qualquer droga, hidrate cedo e por veia, suspenda antidiarreico e anti-inflamatório, e vigie hemograma, plaquetas, esquizócitos, ureia, creatinina e débito urinário até o décimo dia.

em 30 dias

A tríade é anemia hemolítica não autoimune com esquizócitos e Coombs direto negativo, plaquetopenia abaixo de cento e cinquenta mil por milímetro cúbico ou queda maior que um quarto, e acometimento renal. Noventa por cento dos casos pediátricos vêm da toxina; cerca de cinco por cento do pneumococo invasivo, única forma com Coombs positivo; e cinco a dez por cento da desregulação do complemento, que recidiva e responde a bloqueio terminal. O manejo da forma típica é de suporte, com diálise em cerca de metade dos casos graves, e o seguimento é longo, porque menos de um terço sai sem sequela renal.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Pré-escolar com diarreia com sangue e cólica intensa, sem febre, cuja família pergunta se o antibiótico começa hoje — e que volta uma semana depois pálido e urinando pouco. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndrome hemolítico-urêmica na criança – Síndrome hemolítico-urêmica: a disenteria que não pede antibiótico — Preparatório para provas | OsceLabs