80 min de leitura

Clínica MédicaNefrologia

A filtração que estadia não é a que dosa

Estimativa da taxa de filtração glomerular e ajuste de dose renal

Dois números de função renal no mesmo paciente: qual entra no estágio e qual entra na receita

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica, aprovado por portaria conjunta em setembro de 2024, desaconselha a fórmula de Cockcroft-Gault para estimar a função renal. Qual é a justificativa registrada no próprio documento?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata de um único gesto: transformar o número que o laboratório imprimiu no número que a decisão exige. Ficam de fora o estadiamento por categorias de filtração e de albuminúria, o critério de cronicidade de três meses e a régua de encaminhamento ao nefrologista, todos no capítulo de doença renal crônica desta apostila. Entram aqui a unidade, a desindexação pela superfície corporal, o peso que a fórmula antiga usa, os dois estados em que nenhuma equação vale e os três pontos em que os documentos brasileiros e a diretriz internacional respondem diferente para o mesmo paciente.

As réguas são cinco. Duas federais: a portaria conjunta de setembro de 2024, que está em vigor, e o relatório de consulta pública de junho de 2026, que a substituirá. Uma de sociedade: o posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Nefrologia com a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, publicado em 2024. Uma internacional: a diretriz KDIGO de 2024, que os dois documentos federais adotam como base e cuja quarta seção é a única, entre todas, que fala de dose. E a quinta é a bula, que não pergunta a nenhuma das outras qual unidade está usando. Os pacientes que aparecem daqui em diante — os dois exemplos numéricos, as duas vinhetas de caso e as duas figuras — são construídos para este capítulo, e não relatos de atendimento: os números deles foram escolhidos para cair perto dos limiares que os documentos citados definem.

03

O que muda decisão

Três nomes, duas grandezas, um número no laudo

O vocabulário oficial brasileiro dá três nomes ao que o aluno lê como uma coisa só. O relatório de consulta pública de 2026 escreve taxa de filtração glomerular oitenta e três vezes e taxa de filtração glomerular estimada nove; a portaria de 2024 inverte a proporção, com cinquenta e nove do primeiro termo e vinte e cinco do segundo. Os dois documentos usam ainda um terceiro, depuração de creatinina, quando falam da coleta de urina de vinte e quatro horas e da equação de 1976. Os dois primeiros nomes designam a mesma coisa. O terceiro designa outra grandeza, e sai da conta com as mesmas letras de unidade.

A separação que importa é entre grandeza indexada e grandeza absoluta. As equações que a portaria de 2024 e o relatório de 2026 recomendam devolvem um valor já dividido pela superfície corporal do paciente e multiplicado por 1,73 metro quadrado, que é a superfície de referência que essas mesmas réguas mandam usar no laudo. O resultado responde a uma pergunta populacional: quanto este rim filtra em comparação com um adulto de tamanho padrão. É a pergunta certa para classificar, comparar entre pacientes e acompanhar no tempo. A depuração de creatinina, ao contrário, é o volume de plasma que o paciente depura por minuto — sem padronização de tamanho, sem comparação com ninguém. É a pergunta certa para quem vai calcular quanto de fármaco sai do corpo por hora.

O posicionamento brasileiro de 2024 é explícito sobre como relatar: o valor deve ser arredondado para o inteiro mais próximo e relacionado a uma superfície corporal de 1,73 metro quadrado, com a unidade escrita por extenso. A tabela de padrões de implementação da diretriz internacional de 2024 diz o mesmo, com as mesmas palavras de unidade. Ou seja: o laudo é indexado por norma. Não é um descuido de laboratório que se conserta pedindo o exame de outro jeito — é o formato que as duas réguas mandam imprimir.

Por isso o erro não está no laboratório. Está na leitura. O número indexado responde a uma pergunta que a prescrição não fez, e o prescritor o usa como se respondesse. O relatório de 2026 mostra o problema dentro do próprio texto: o diagnóstico da doença é definido por filtração abaixo de 60 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado, e três páginas adiante, na lista de recomendações, a dapagliflozina é liberada com filtração entre 25 e 75 mililitros por minuto, a metformina com valor acima de 30 mililitros por minuto, o encaminhamento a transplante abaixo de 15 mililitros por minuto e a restrição proteica abaixo de 60 mililitros por minuto. Na mesma lista, o bloqueador do sistema renina-angiotensina é mantido "mesmo se a filtração estiver abaixo de 30 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado" e a estatina entra com valor igual ou maior que 60 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado. O mesmo documento escreve limiares com e sem o índice, em recomendações vizinhas.

O que a indexação por 1,73 metro quadrado faz — e como se desfaz

A conta é de uma linha, e é o inverso exato da normalização que o posicionamento brasileiro de 2024 descreve ao explicar que a fração de 1,73 sobre a área do paciente é o que padroniza o resultado. Para sair do valor indexado e chegar à depuração absoluta, multiplique o número do laudo pela razão entre a superfície corporal do paciente e 1,73. Quem tem superfície menor que o padrão recebe um laudo maior do que a própria depuração; quem tem superfície maior recebe um laudo menor. A direção do desvio é determinada pelo tamanho do corpo, e o tamanho do desvio é a distância entre a superfície do paciente e a de referência.

Volte à paciente da abertura: 78 anos, 48 quilos, 1,52 metro, superfície corporal de aproximadamente 1,42 metro quadrado. O laudo diz 35. A razão de superfícies é 1,42 dividido por 1,73, ou 0,82. A depuração absoluta é 35 vezes 0,82, ou 28,7 mililitros por minuto. Ela está abaixo do corte de 30 que a bula usa, e o laudo dizia que estava acima.

Agora um segundo exemplo construído do mesmo modo: homem de 34 anos, 108 quilos, 1,86 metro, superfície corporal de aproximadamente 2,36 metros quadrados. Suponha o mesmo laudo: 35 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado. A razão é 2,36 dividido por 1,73, ou 1,36. A depuração absoluta é 47,7 mililitros por minuto — quase 66% maior que a da paciente anterior, com o mesmo número impresso no laudo e o mesmo estágio pela tabela de estadiamento da portaria. Um está dentro da faixa de redução de dose, o outro está bem fora dela.

Duas réguas horizontais empilhadas com a mesma linha tracejada no valor trinta e cinco; na régua superior o marcador do paciente fica à esquerda da tracejada, dentro da faixa de redução de dose, e na inferior fica à direita, fora dela.
O mesmo valor impresso no laudo cai em lados opostos do limiar de redução de dose quando se desfaz a indexação pela superfície corporal. Figura construída para este capítulo a partir da aritmética descrita no texto.

Quem não quer fazer a conta tem um atalho ruim e um bom. O ruim é ignorá-la em pacientes "de tamanho normal", porque tamanho normal é justamente o que o padrão de 1,73 já assume e o que a maioria das vinhetas de prova não descreve. O bom é reconhecer o gatilho: a diferença só muda decisão quando o valor indexado está perto de um limiar e o corpo está longe do padrão. Idosa magra, paciente com desnutrição, amputado, obeso grave e adolescente grande são as cinco situações em que a conta muda a receita. A diretriz internacional de 2024 nomeia exatamente esse gatilho no seu ponto de prática 4.2.4: em pessoas com extremos de peso corporal, o valor não indexado pela superfície corporal pode estar indicado, sobretudo para medicamentos de faixa terapêutica estreita ou que exijam concentração mínima para funcionar.

Por que os documentos federais proíbem a equação de 1976, e por que a receita ainda pede o número dela

A portaria de 2024 e o relatório de 2026 dizem a mesma frase, quase palavra por palavra: no passado a fórmula de Cockcroft-Gault foi a mais utilizada para estimar a depuração de creatinina, mas seu uso não é atualmente recomendado, porque necessita da correção para a superfície corpórea, além de apresentar vieses na correlação com a filtração. O posicionamento das duas sociedades brasileiras vai adiante e escreve que seu uso não é recomendado para finalidades clínicas, restringindo-se à pesquisa.

Leia a justificativa federal com atenção, porque ela contém a chave do capítulo. A equação é rejeitada porque precisa de correção para a superfície corporal. Isto é: ela devolve um número que não está indexado. Para estadiar, isso é defeito, porque impede comparar pacientes de tamanhos diferentes e coloca o resultado fora da escala em que as categorias foram definidas. Para dosar, isso é a especificação. A mesma propriedade recebe veredictos opostos conforme a pergunta que se faz ao número.

O posicionamento brasileiro acrescenta três limitações históricas que valem como conteúdo de prova. A equação foi construída em 1976 sobre dados de 249 homens com depuração de creatinina entre 30 e 130 mililitros por minuto. Não foi parametrizada para a superfície corporal padrão. E não foi desenvolvida com creatinina padronizada por espectrometria de massa com diluição isotópica, o método de referência que uniformizou os ensaios laboratoriais depois. As três limitações são reais e nenhuma delas é sobre unidade — são sobre amostra, calibração e faixa de validade.

A saída que a diretriz internacional oferece não é ressuscitar a equação de 1976. É outra, e mais simples. O ponto de prática 4.2.2 afirma que, para a maioria das pessoas e dos cenários clínicos, as equações validadas de filtração estimada baseadas em creatinina são apropriadas para o ajuste de dose. O ponto seguinte reserva a maior acurácia para decisões de faixa estreita. E o 4.2.4 fecha: em extremos de peso, use o valor não indexado pela superfície corporal. Ou seja, o caminho é usar a equação recomendada e desfazer a indexação, não trocar de equação. Nenhum dos dois documentos federais diz qual peso entra na fórmula de 1976 — peso total, ideal ou ajustado —, e não diz porque nenhum dos dois a recomenda. Quem a usa fica sem régua oficial para a variável mais sensível dela.

Há um efeito prático dessa ausência que a vinheta explora. Aplicada com o peso total, a equação de 1976 no homem de 108 quilos do exemplo anterior, com creatinina de 2,4 miligramas por decilitro, devolve cerca de 66 mililitros por minuto, contra 47,7 da desindexação e 35 do laudo. São três números para o mesmo paciente, no mesmo dia, com o mesmo exame. O maior deles vem justamente da variável que nenhuma norma brasileira define.

A creatinina engana para os dois lados

Toda equação baseada em creatinina supõe que a produção muscular do paciente é a produção típica de quem entrou no estudo que a construiu. Quando não é, o erro não tem direção única — tem duas, opostas, e elas se distribuem entre grupos de pacientes que a vinheta descreve com uma linha de exame físico.

Quem tem pouca massa muscular produz pouca creatinina. O sangue registra uma concentração baixa que a equação lê como rim eficiente, e a filtração estimada sobe acima da real. É o idoso sarcopênico, o paciente com doença neuromuscular, o amputado, o cirrótico desnutrido. Aqui o risco é de superdosar, e o mecanismo é aritmético antes de ser clínico: um número que cai no denominador da fração faz o resultado crescer.

Quem tem muita massa muscular produz muita creatinina. A concentração alta é lida como rim ruim, e a estimativa desce abaixo da real. É o adulto jovem musculoso, o atleta de força, o paciente que usa suplemento de creatina. Aqui o risco é de subdosar um antimicrobiano e de negar um medicamento por elegibilidade que o paciente na verdade cumpre.

Retângulo dividido ao meio; à esquerda, barra baixa de creatinina com seta para cima indicando filtração estimada acima da real; à direita, barra alta com seta para baixo indicando filtração estimada abaixo da real.
A equação não piora nem melhora entre os dois grupos: o que muda é o sentido do desvio, porque o marcador que ela usa depende da massa que o produz. Figura construída para este capítulo.

É por isso que a cistatina C entra na conversa. Ela é filtrada como a creatinina, mas não vem do músculo, e por isso não carrega o desvio que a massa introduz. O relatório de consulta pública de 2026 reconhece o ganho com todas as letras: estudos sugerem que a filtração estimada pela cistatina é mais precisa para populações específicas de pacientes nos quais a massa muscular possa estar sub ou superestimada, quando comparada à estimativa pela creatinina. O posicionamento das duas sociedades brasileiras vai além do reconhecimento e recomenda, para adultos, o uso preferencial de três equações: a de 2021 com creatinina isolada, a de 2021 combinando creatinina e cistatina C, e a de 2012 com cistatina C isolada.

A diretriz internacional de 2024 organiza isso como uma escada de três degraus. O primeiro é a estimativa por creatinina, disponível para quase todo mundo porque a creatinina já vem no painel metabólico básico. Se ela for esperada como imprecisa, ou se a decisão exigir mais acurácia — o texto cita nominalmente o diagnóstico, o estadiamento e o ajuste de dose —, mede-se cistatina C e estima-se pela combinação. Se ainda assim a estimativa for esperada como imprecisa, mede-se a filtração com marcador exógeno.

Onde o resultado realmente vive: no desfecho que a pergunta escolheu

O relatório de consulta pública de 2026 formulou a cistatina C como uma pergunta estruturada, e vale ler a estrutura antes da resposta. População: pessoa com doença renal crônica nos estágios 1 a 5. Intervenção: dosagem de cistatina C. Comparador: dosagem de creatinina sérica. Desfechos: necessidade de diálise, eventos cardiovasculares e mortalidade por todas as causas e cardiovascular. A recomendação que saiu foi sem recomendação, porque inexistem estudos que evidenciem que o uso da cistatina C como marcador da filtração glomerular nessas populações impacte em melhores desfechos clínicos.

Repare no que aconteceu. O mesmo parágrafo do documento afirma que a estimativa pela cistatina é mais precisa nas populações em que a massa muscular distorce a creatinina, e conclui que não há o que recomendar. As duas frases não se contradizem: elas respondem a perguntas diferentes. Acurácia não estava entre os desfechos. Trocar diálise, evento cardiovascular e morte por concordância com a filtração medida inverteria a resposta sem trocar um único estudo da lista.

É esse o ponto que a prova cobra sem dizer que cobra. O resultado de uma avaliação de tecnologia não vive só na evidência: vive também no comparador e no desfecho que a pergunta escolheu. A diretriz internacional, diante da mesma literatura, manda medir cistatina C quando a estimativa por creatinina for esperada como imprecisa — porque a pergunta dela é sobre acerto da estimativa, e a pergunta do relatório brasileiro é sobre benefício clínico demonstrado. As duas respostas são defensáveis, e a alternativa que diz que uma delas está errada é a que erra.

Fica também o contraponto honesto, e ele é o mesmo dos dois lados. Não existe coorte brasileira que meça o dano de prescrever pelo número indexado — nem o benefício de desindexar. A tabela que descreveria o desfecho não existe. O que dá para afirmar com a mesma régua nos dois lados é aritmético, não epidemiológico: o fator de correção é conhecido, calculável para cada paciente e reprodutível. A distância entre esse fato e uma recomendação com desfecho medido vem de onde os limiares nasceram: os ensaios que fixaram as faixas de elegibilidade recrutaram e relataram por filtração indexada, e é essa a régua que os protocolos copiaram.

A tabela que a portaria publicou sem a chave

O Quadro 1 da portaria de 2024 traz uma única fórmula, a CKD-EPI, com três grupos de coeficientes. O grupo A aparece assim, em duas linhas: mulher igual a 166 e homem igual a 163; mulher igual a 144 e homem igual a 141. Não há, na tabela, nenhuma indicação de quando usar o primeiro par e quando usar o segundo. O grupo B traz os pontos de corte de creatinina por sexo e o grupo C, os expoentes. Só o grupo A fica sem chave.

Esses quatro números são os coeficientes da versão de 2009 da equação, estratificados por raça: o par mais alto vale para pessoas negras, o mais baixo para as demais. A razão entre eles é de cerca de 1,15 — os 166 sobre 144 dão 1,153, e os 163 sobre 141 dão 1,156, muito próximos do fator de 1,159 que o posicionamento brasileiro reproduz ao escrever a equação de 2009 por extenso. Aplicar o par de cima em vez do de baixo eleva o resultado em torno de 15%: uma filtração estimada de 40 passa a ser lida como 46, e o paciente muda de categoria de estágio sem que nada tenha mudado nele.

Antes de chamar isso de defeito, vale afastar duas explicações inocentes, e as duas caem. A primeira seria que os dois pares correspondem ao corte de creatinina — mas esse corte já está no grupo C, com os expoentes separados por valor acima e abaixo de 0,7. A segunda seria perda de formatação na leitura do arquivo: também não, porque no relatório de 2026 o mesmo quadro ganhou uma linha nova para a equação MDRD, e essa linha traz o rótulo de raça escrito por extenso, com negro igual a 1,21 e não negro igual a 1,0. A chave existe na linha vizinha e falta na linha da equação recomendada, no mesmo quadro, na mesma página.

O terceiro elemento fecha o quadro. A linha de fonte, embaixo da tabela, credita o conteúdo a dois trabalhos: o de 2009 e o de 2021. O de 2021 é justamente o que reescreveu a equação sem o coeficiente de raça, e é o que as duas sociedades brasileiras recomendam desde 2024, com o argumento de que raça é conceito social que não se correlaciona necessariamente com as diferenças genotípicas ou metabólicas subjacentes entre as pessoas, e de que o coeficiente pode superestimar a filtração e levar ao subdiagnóstico. O documento cita a equação sem raça e imprime os coeficientes da equação com raça, sem os rótulos que os tornariam aplicáveis.

Para a prova, o que fica é a régua, não a crítica: a equação vigente recomendada pelas sociedades brasileiras não tem coeficiente de raça, e alternativa que peça para corrigir o resultado pela cor da pele do paciente está errada. E fica um segundo achado, útil em questão de leitura crítica: um mesmo defeito de tabela sobreviveu de um documento assinado em 2024 para o rascunho de 2026, e só ficou visível quando a linha vizinha chegou com o rótulo que faltava.

Quando nenhuma fórmula vale: o estado estacionário

Toda equação de estimativa pressupõe que a concentração do marcador está estável — que a creatinina de hoje reflete a filtração de hoje. Quando a função renal está mudando, a creatinina persegue o rim com atraso, e a estimativa descreve o rim de anteontem. A diretriz internacional de 2024 registra isso no ponto de prática 4.2.5: considere e adapte a dose em pessoas nas quais a filtração, os determinantes não relacionados à filtração ou o volume de distribuição não estejam em estado estacionário.

A consequência é direta e cai em vinheta de emergência. Na lesão renal aguda em instalação, com creatinina subindo de um exame para o outro, qualquer equação superestima a filtração, porque lê como estável uma concentração que ainda vai subir. Prescrever pela estimativa de admissão é prescrever para um rim que já não existe. O caminho é usar a tendência da creatinina, o débito urinário e o cenário clínico, não a fórmula.

O espelho disso está na definição de doença renal crônica que os próprios documentos federais adotam: filtração abaixo de 60 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado por, no mínimo, três meses. O requisito de tempo não é burocracia de classificação — é o que garante o estado estacionário que a estimativa pressupõe. Achado isolado e recente exige repetição do exame antes do rótulo, e a mesma cautela vale antes da dose.

Há uma terceira família de situações em que o pressuposto cai por outro motivo: mudanças rápidas de volume de distribuição. Anasarca, ascite volumosa, ressuscitação volêmica agressiva e grandes queimados alteram o volume em que o fármaco se dilui sem alterar a filtração. Aqui a estimativa pode estar certa e a dose, errada — porque a variável que mudou não é a depuração, e sim o espaço que o medicamento ocupa. O ponto de prática 4.2.5 cobre esse caso na mesma frase em que cobra o estado estacionário da filtração.

A janela que libera o remédio: 25 a 75 aqui, 20 sem teto lá fora

As duas réguas divergem no número que autoriza o inibidor do cotransportador de sódio e glicose. O protocolo brasileiro em consulta pública em 2026 mantém o critério da portaria vigente: para usar dapagliflozina o paciente deve estar em terapia padrão com inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor da angiotensina e apresentar filtração entre 25 e 75 mililitros por minuto, se diabético tipo 2, ou razão albuminúria-creatininúria maior que 300 miligramas por grama, se não diabético.

A diretriz internacional de 2024 recomenda tratar adultos com doença renal crônica e filtração igual ou maior que 20 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado com um inibidor desse cotransportador, com grau 1A, e detalha as combinações de albuminúria e insuficiência cardíaca que sustentam a indicação. Não há teto. O paciente com filtração estimada de 82 e albuminúria de 400 miligramas por grama é indicação forte pela régua internacional e fica fora do critério de dispensação do protocolo brasileiro.

O teto de 75 não é um número biológico. É a janela de recrutamento do ensaio que sustentou a incorporação: o próprio relatório de 2026 descreve o estudo como tendo incluído pacientes com filtração acima de 25 mililitros por minuto, e os ensaios da finerenona como tendo exigido filtração estimada maior que 25 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado, razão albuminúria-creatininúria acima de 30 miligramas por grama e diabetes. O critério de dispensação copiou a população estudada, e a diretriz internacional generalizou a partir dela. As duas escolhas são defensáveis e produzem condutas diferentes para o mesmo paciente.

Uma segunda leitura do mesmo documento parece contradição e não é. Na seção que trata do controle glicêmico, o relatório recomenda metformina em pacientes com filtração acima de 30 mililitros por minuto associada a dapagliflozina nos casos com filtração acima de 20 mililitros por minuto — número diferente do 25 do critério de elegibilidade. As duas linhas têm finalidades diferentes: uma organiza o tratamento do diabetes segundo a recomendação da sociedade citada no rodapé; a outra define quem recebe o medicamento por este protocolo. São duas réguas com propósitos distintos, e não um erro de digitação. A conduta que a banca cobra é a do critério de dispensação, porque é ela que decide se o paciente sai da consulta com a receita atendida.

Resta o gesto que amarra o capítulo. Os limiares de elegibilidade dos protocolos são escritos, quase todos, em valor indexado, porque vieram de ensaios que recrutaram assim. Os limiares de dose das bulas são escritos, quase todos, em depuração de creatinina. O laudo entrega um só número. Saber de qual dos dois mundos veio o limiar que está na sua frente — e converter quando ele vier do outro — é a única habilidade que este capítulo pede, e é a que separa o candidato que respondeu à pergunta certa do que respondeu a uma pergunta parecida.

04

Do laudo à receita: qual número entra em cada decisão

A decisão treinada aqui é única: diante de um laudo de filtração estimada e de um limiar, decidir se o número do laudo serve como está ou precisa ser convertido. O fluxo é a sequência de perguntas na ordem em que elas eliminam alternativa. As tabelas trazem a aritmética da desindexação em dois pacientes, o mapa de onde cada documento escreve o limiar com e sem índice, e a direção do erro da creatinina em cada cenário.

  1. 1Leia a unidade do laudo. Se termina em por 1,73 metro quadrado, o número é indexado e responde a uma pergunta populacional.
  2. 2Leia a unidade do limiar. Estágio, elegibilidade de protocolo e encaminhamento costumam vir indexados; dose de fármaco e faixa de bula vêm em depuração absoluta.
  3. 3Se as duas unidades coincidem, compare direto e siga. Se não coincidem, converta antes de comparar.
  4. 4Para converter, estime a superfície corporal a partir de peso e altura e multiplique o valor do laudo pela razão entre essa superfície e 1,73.
  5. 5Verifique se o resultado convertido cruzou o limiar. Se cruzou, a conduta muda; se não cruzou, o laudo bastava e a conta só confirmou.
  6. 6Pergunte se a creatinina representa este paciente. Pouca massa muscular eleva a estimativa acima da real; muita massa a rebaixa.
  7. 7Pergunte se há estado estacionário. Creatinina em subida ou em queda invalida qualquer equação, e nesse caso a dose se guia pela tendência e pelo cenário.
  8. 8Pergunte se o volume de distribuição está estável. Anasarca, ascite volumosa e ressuscitação agressiva mudam a dose sem mudar a depuração.
  9. 9Se a decisão for de faixa terapêutica estreita e a estimativa por creatinina for suspeita, o próximo degrau é medir cistatina C e estimar pela combinação.

O mesmo laudo, dois pacientes, três números cada

DadoMulher, 78 anosHomem, 34 anos
Peso e altura48 kg e 1,52 m108 kg e 1,86 m
Superfície corporal aproximada1,42 m²2,36 m²
Valor impresso no laudo35 mL/min/1,73 m²35 mL/min/1,73 m²
Razão entre a superfície e 1,730,821,36
Depuração absoluta após converter28,7 mL/min47,7 mL/min
Posição diante do corte de 30 mL/minAbaixo: reduzir a doseAcima: dose plena
Categoria de estágio pelo laudoA mesma nos doisA mesma nos dois

Onde o limiar aparece com índice e onde aparece sem, no mesmo relatório federal de 2026

DecisãoComo o limiar está escritoGrandeza que ele exige
Diagnóstico de doença renal crônicaAbaixo de 60 mL/min/1,73 m²Indexada
Estadiamento por categoriasFaixas em mL/min/1,73 m²Indexada
Manter bloqueador do sistema renina-angiotensinaMesmo abaixo de 30 mL/min/1,73 m²Indexada
Indicar estatina a partir dos 50 anosIgual ou maior que 60 mL/min/1,73 m²Indexada
Liberar dapagliflozina pelo protocoloEntre 25 e 75 mL/minEscrita sem índice
Indicar metformina no diabetes tipo 2Acima de 30 mL/minutoEscrita sem índice
Restringir proteína da dietaAbaixo de 60 mL/minutoEscrita sem índice
Encaminhar para avaliação de transplanteAbaixo de 15 mL/minutoEscrita sem índice

Para que lado a estimativa erra, e o que fazer

Situação do pacienteDireção do desvioConduta prática
Superfície corporal menor que 1,73 m²Laudo maior que a depuração realConverter antes de comparar com limiar de dose
Superfície corporal maior que 1,73 m²Laudo menor que a depuração realConverter antes de negar elegibilidade
Sarcopenia, amputação, desnutriçãoEstimativa acima da filtração realConsiderar cistatina C se a decisão for de faixa estreita
Massa muscular elevada ou uso de creatinaEstimativa abaixo da filtração realConsiderar cistatina C antes de rotular como doença renal
Creatinina em ascensãoEstimativa acima da filtração realDosar pela tendência e pelo cenário, não pela fórmula
Anasarca ou ressuscitação volêmicaDepuração pode estar corretaRever o volume de distribuição, não a estimativa

A conversão só muda decisão quando o valor está perto de um limiar e o corpo está longe do padrão de 1,73 metro quadrado. Longe do limiar, a conta confirma o que o laudo já dizia.

A equação recomendada no Brasil desde o posicionamento conjunto de 2024 é a de 2021, sem coeficiente de raça. Alternativa que mande corrigir o resultado pela cor da pele está errada, ainda que o quadro da portaria imprima os coeficientes antigos.

A coleta de urina de vinte e quatro horas não é o caminho de saída: os dois documentos federais a desaconselham pelo erro de coleta e pelo inconveniente do método, e essa recusa vale tanto para estadiar quanto para dosar.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A equação de 1976 tem algum uso clínico que sobreviva

Nenhum: só pesquisa

O posicionamento conjunto das duas sociedades brasileiras afirma que o uso da equação não é recomendado para finalidades clínicas, restringindo-se à pesquisa. Os argumentos são a amostra de 249 homens com depuração entre 30 e 130 mililitros por minuto, a ausência de parametrização para superfície corporal padrão e o desenvolvimento sem creatinina padronizada pelo método de referência.

Kirsztajn GM e cols. Posicionamento consensual SBN e SBPC/ML. Braz J Nephrol. 2024;46(3)

O número dela continua sendo o que a dose pede

A diretriz internacional não reabilita a equação, mas seu ponto de prática 4.2.4 estabelece que, em extremos de peso corporal, a filtração não indexada pela superfície corporal pode estar indicada, sobretudo em fármacos de faixa terapêutica estreita. É exatamente a grandeza que a equação antiga devolve, e a que as bulas usam como limiar.

KDIGO 2024 CKD Guideline, ponto de prática 4.2.4. Kidney Int. 2024;105(4S)

Na prova

Se o enunciado pergunta qual fórmula estadia, a resposta é a equação recomendada pelo protocolo e a de 1976 está errada. Se o enunciado dá peso e altura e pergunta a dose, o avaliador quer a grandeza absoluta: converter o laudo ou reconhecer que o limiar da bula é de outra unidade. O verbo do enunciado, estadiar ou prescrever, é o que separa as duas famílias.

A cistatina C deve ser incorporada para estimar a filtração

Sem recomendação, por ausência de desfecho

O relatório de consulta pública de 2026 registra sem recomendação, porque inexistem estudos que evidenciem que o uso da cistatina C como marcador da filtração impacte em melhores desfechos clínicos. Os desfechos avaliados foram necessidade de diálise, eventos cardiovasculares e mortalidade, com a creatinina sérica como comparador.

Conitec. Relatório de Recomendação, consulta pública nº 56, junho de 2026, questão 3

Uso preferencial, por acurácia

As duas sociedades brasileiras recomendam, para adultos, o uso preferencial da equação de 2021 com creatinina, da equação de 2021 combinando creatinina e cistatina C e da equação de 2012 com cistatina C isolada. O critério aqui é o acerto da estimativa, não o desfecho clínico.

Kirsztajn GM e cols. Posicionamento consensual SBN e SBPC/ML. Braz J Nephrol. 2024;46(3)

Escada por imprecisão esperada

A diretriz internacional organiza a decisão em degraus: começa pela estimativa com creatinina e, se ela for esperada como imprecisa ou se a decisão exigir mais acurácia, incluindo o ajuste de dose, mede-se cistatina C e estima-se pela combinação dos dois marcadores.

KDIGO 2024 CKD Guideline, avaliação da filtração. Kidney Int. 2024;105(4S)

Na prova

Questão de política pública e de acesso cobra a resposta brasileira: o exame não tem recomendação para estadiar no sistema público. Questão de raciocínio diagnóstico cobra a lógica da acurácia: o paciente com massa muscular atípica é onde a cistatina muda a estimativa. Repare qual das duas perguntas o enunciado fez antes de escolher.

Qual faixa de filtração autoriza o inibidor do cotransportador de sódio e glicose na doença renal crônica

Janela fechada, de 25 a 75

O protocolo brasileiro exige terapia padrão com inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor da angiotensina e filtração entre 25 e 75 mililitros por minuto no diabético tipo 2, ou razão albuminúria-creatininúria maior que 300 miligramas por grama no não diabético. O teto reproduz a janela de recrutamento do ensaio que sustentou a incorporação.

Conitec. Relatório de Recomendação, consulta pública nº 56, junho de 2026, critérios de inclusão

Piso de 20, sem teto

A diretriz internacional recomenda tratar adultos com filtração igual ou maior que 20 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado, com grau 1A, combinando albuminúria e presença de insuficiência cardíaca para definir a força da indicação. Não estabelece limite superior de filtração.

KDIGO 2024 CKD Guideline, recomendações 3.7.1 e 3.7.2. Kidney Int. 2024;105(4S)

Na prova

Enunciado que cita unidade básica, dispensação ou o protocolo do Ministério pede a janela fechada, e o paciente com filtração acima de 75 fica fora dela. Enunciado que descreve o raciocínio de indicação sem citar dispensação tende a seguir a régua internacional. A palavra que denuncia o recorte é a que nomeia quem paga o remédio.

06

Caso resolvido

Mulher de 78 anos, 48 quilos, 1,52 metro de altura, hipertensa e diabética, chega à unidade básica com disúria e febre de 38,2 graus há dois dias. Sem sinais de sepse, sem vômitos, aceita via oral. Exames trazidos de ontem: creatinina 1,4 miligramas por decilitro e filtração glomerular estimada de 35 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado, estável em relação a dois exames dos últimos seis meses. O antimicrobiano escolhido tem, em bula, redução de dose quando a depuração de creatinina fica abaixo de 30 mililitros por minuto.
Passo 1
Separe as unidades antes de qualquer conta. O laudo está em mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado, portanto indexado. O limiar da bula está em depuração de creatinina, portanto absoluto. As duas grandezas não são comparáveis como estão, e o enunciado deu peso e altura, que só servem para a conversão.
Passo 2
Estime a superfície corporal a partir de 48 quilos e 1,52 metro: aproximadamente 1,42 metro quadrado. A razão entre ela e o padrão é 1,42 dividido por 1,73, ou 0,82. O laudo será reduzido em cerca de 18% ao ser convertido, porque a paciente é menor que o corpo de referência.
Passo 3
Converta: 35 multiplicado por 0,82 dá 28,7 mililitros por minuto. Esse é o número que a bula pede, e ele está abaixo do corte de 30. A conduta correta é prescrever a dose reduzida, e a alternativa que mantém a dose plena por comparar 35 com 30 é a que o distrator explora.
Passo 4
Verifique o pressuposto antes de fechar. A creatinina está estável em três medidas ao longo de seis meses, então há estado estacionário e a equação é aplicável. Não há anasarca nem ressuscitação volêmica em curso, de modo que o volume de distribuição também não está sob suspeita.
Passo 5
Registre a ressalva que a idade impõe. Uma mulher de 78 anos com 48 quilos tem massa muscular reduzida, e a creatinina de 1,4 pode representar uma filtração ainda menor do que a estimada. O desvio, aqui, empurra na mesma direção da conversão — para menos —, o que reforça a dose reduzida e não a contradiz.
07

Agora feche você

Homem de 34 anos, 108 quilos, 1,86 metro de altura, praticante de musculação há dez anos, em investigação de proteinúria detectada em exame admissional. Traz creatinina de 2,4 miligramas por decilitro e filtração glomerular estimada de 35 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado. Razão albuminúria-creatininúria de 420 miligramas por grama, confirmada em segunda amostra. Não é diabético. Está em uso de bloqueador do receptor da angiotensina na dose máxima tolerada há quatro meses. Pergunta se pode receber dapagliflozina pelo protocolo do sistema público e se algum antimicrobiano que venha a precisar terá de ser ajustado.
Passo 1
Converta o laudo para a grandeza absoluta usando peso e altura, e diga em quanto o número muda e para que lado. Explique por que a direção do ajuste é oposta à do caso anterior.
Passo 2
Aplique o critério de dispensação do protocolo brasileiro item a item — terapia padrão, faixa de filtração, condição de diabetes e valor de albuminúria — e diga se ele é elegível, usando o número na unidade em que o critério está escrito.
Passo 3
Compare o resultado do passo anterior com o que a diretriz internacional recomendaria para o mesmo paciente e nomeie de onde vem a diferença entre as duas respostas.
Passo 4
Avalie se a creatinina de 2,4 representa a filtração deste paciente, dado o histórico de musculação, e diga qual exame a diretriz internacional colocaria no degrau seguinte se a decisão fosse de faixa terapêutica estreita.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Comparar o laudo indexado com o limiar da bula É o erro central do tema, e a vinheta o monta com cuidado: dá peso e altura que não seriam necessários para nada além da conversão. Sempre que o enunciado descreve a compleição do paciente e o limiar vem de bula, a conversão é o que está sendo cobrado.
  2. 2Aplicar a equação de 1976 para estadiar Os dois documentos federais dizem que seu uso não é recomendado, e o posicionamento das sociedades brasileiras a restringe à pesquisa. Alternativa que classifique o estágio a partir dela está errada, mesmo quando o número que ela devolve é o que a receita precisa.
  3. 3Estadiar com uma creatinina que ainda está subindo A definição de doença renal crônica exige alteração por no mínimo três meses, e a estimativa pressupõe estado estacionário. Achado isolado e recente pede repetição antes do rótulo, e a lesão aguda em instalação invalida qualquer equação.
  4. 4Usar o peso total do obeso na fórmula antiga Nenhum dos dois documentos federais define qual peso entra, porque nenhum deles recomenda a fórmula. Com peso total ela superestima a depuração no obeso, e o número inflado é justamente o que a alternativa distratora oferece como se fosse mais preciso.
  5. 5Corrigir o resultado pela cor da pele A equação recomendada pelas sociedades brasileiras desde 2024 não tem coeficiente de raça, e o argumento registrado é que raça é conceito social sem correspondência necessária com diferença metabólica. Que o quadro da portaria ainda imprima os coeficientes antigos não muda a régua.
  6. 6Tomar o teto de 75 como limite biológico O teto é critério de dispensação, herdado da janela de recrutamento do ensaio. A régua internacional não tem teto, e o paciente com filtração acima dele continua tendo indicação clínica — o que ele não tem é o critério do protocolo que paga o medicamento.
  7. 7Trocar a fórmula por urina de vinte e quatro horas Parece o caminho de quem quer a depuração absoluta, e os dois documentos federais o desaconselham explicitamente pelo potencial de erro na coleta e pelo desconforto do método. A conversão pela superfície corporal resolve o mesmo problema sem depender da coleta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O texto federal é literal: a fórmula não é atualmente recomendada porque necessita da correção para a superfície corpórea, além de apresentar vieses na correlação com a filtração glomerular. A crítica sobre coleta temporal existe no mesmo parágrafo, mas se dirige à depuração medida em urina de 24 horas, que é outro método. O coeficiente de raça é problema das equações de 1999 e de 2009, não da de 1976, que não usa raça. A faixa de depuração da amostra original ia de 30 a 130 mililitros por minuto, e não apenas abaixo de 30. E a cistatina C não entra nessa equação, que usa idade, sexo, peso e creatinina. Vale reter o detalhe fino: a necessidade de correção para superfície corporal, que a desqualifica para estadiar, é exatamente a característica que a torna útil para quem precisa da depuração absoluta na hora de dosar.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

O laudo vem indexado por norma, em mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado, e responde a uma pergunta populacional. A dose precisa da depuração absoluta do paciente, que se obtém multiplicando o valor do laudo pela razão entre a superfície corporal dele e 1,73. Corpo menor que o padrão recebe laudo maior que a depuração real; corpo maior recebe laudo menor. A equação de 1976 é rejeitada pelos documentos federais justamente por não ser indexada, que é a propriedade de que a receita precisa. A creatinina erra para cima em quem tem pouca massa muscular e para baixo em quem tem muita. Nenhuma equação vale fora do estado estacionário.

em 30 dias

A régua brasileira vigente é a portaria conjunta de setembro de 2024, e o relatório de consulta pública de junho de 2026 a substituirá. Os dois recomendam a equação CKD-EPI e desaconselham a de 1976 e a urina de vinte e quatro horas. O posicionamento conjunto das duas sociedades brasileiras, de 2024, recomenda a versão de 2021 sem coeficiente de raça e três equações preferenciais para adultos. A cistatina C ficou sem recomendação no relatório federal porque acurácia não estava entre os desfechos avaliados, embora o próprio texto reconheça o ganho de precisão onde a massa muscular distorce a creatinina. A dapagliflozina é dispensada com filtração entre 25 e 75 mililitros por minuto pelo protocolo brasileiro, contra piso de 20 e nenhum teto na diretriz internacional. Em extremos de peso, o ponto de prática 4.2.4 dessa diretriz autoriza a filtração não indexada para decidir dose.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 78 anos, magra, chega à unidade básica com disúria e febre baixa, trazendo exames de ontem com creatinina e filtração estimada. Colha peso, altura e o histórico que sustenta o estado estacionário, diga em voz alta qual grandeza o limiar do antimicrobiano exige, faça a conversão passo a passo e defenda a dose que vai prescrever — inclusive dizendo qual conduta oferecida você recusa e por quê. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Estimativa da taxa de filtração glomerular e ajuste de dose renal – A filtração que estadia não é a que dosa — Preparatório para provas | OsceLabs