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Clínica MédicaNefrologia

Distúrbios do potássio

O laudo mede o compartimento errado: 98% do potássio está dentro da célula, e o número muda por deslocamento antes de mudar por balanço. A prova cobra três coisas — quando o eletrocardiograma decide e quando ele falta (só 55% dos hipercalêmicos têm alteração no traçado), a ordem fixa de estabilizar, redistribuir e remover, e o que mudou no SUS em maio de 2025.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 70 anos é levada ao pronto-socorro por fraqueza e palpitações. ECG mostra ondas T apiculadas e alargamento do QRS. Exame: PA 130x80 mmHg, FC 58 bpm irregular. Potássio sérico 7,2 mEq/L (VR 3,5-5,0), creatinina 3,8 mg/dL. Qual é a PRIMEIRA medida a ser instituída para proteção cardíaca?

02

Como esse tema cai

A frase que resolve metade das questões deste tema cabe numa linha: 98% do potássio do corpo está dentro da célula, e o exame só enxerga o resto. Sódio baixo quase nunca é falta de sal; potássio alterado quase nunca é, sozinho, excesso ou falta de ingestão. Antes de perguntar quanto potássio entrou ou saiu do corpo, pergunte quanto potássio mudou de lado — porque essa parte se move em minutos e é ela que o laudo captura.

O recorte cobrado é estreito e operacional. Na hipercalemia, a pergunta não é a etiologia: é se há alteração no eletrocardiograma, qual é a ordem dos degraus, o que cada degrau faz (e o que ele não faz), e quando a diálise deixa de ser opção e vira indicação. Na hipocalemia, a pergunta é se o magnésio foi checado, quanto o paciente perdeu de verdade e por qual via e em qual velocidade o potássio pode entrar sem matar. A investigação etiológica completa organiza o raciocínio, mas raramente é o gabarito.

Este capítulo fica no potássio. O eixo da tonicidade e a correção do sódio pertencem ao capítulo de distúrbios do sódio; cálcio, magnésio e fósforo têm capítulo próprio; a escolha do cristaloide está no capítulo de reposição volêmica; o potássio da cetoacidose está no capítulo de cetoacidose diabética; e a lise tumoral, no de emergências oncológicas. Da injúria renal aguda e da doença renal crônica, desta mesma apostila, herdamos o gatilho de diálise e o monitoramento de potássio no bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona — os dois capítulos citam a hipercalemia como desfecho a evitar e como porta de diálise, sem nunca ensinar a escada. É essa lacuna que este capítulo fecha.

03

O que muda decisão

O número do laudo mede o compartimento errado

Cerca de 98% do potássio do corpo fica dentro da célula. O que o laboratório dosa é o pouco que sobrou fora — e é por isso que a calemia pode despencar ou disparar sem que um único miliequivalente tenha entrado ou saído do corpo. Existem dois balanços governando o mesmo número: o balanço externo, entre o que se ingere e o que o rim excreta, que leva horas a dias; e o balanço interno, a distribuição entre dentro e fora da célula, que se move em minutos sob comando de insulina, catecolamina beta-2, pH e tonicidade. Toda a clínica do potássio é a disputa entre esses dois relógios.

Guarde a faixa e a graduação do relatório de recomendação que incorporou o quelante mais novo ao SUS, porque é ela que a banca reproduz: normopotassemia entre 3,5 e 5,0 mEq/L; hipercalemia leve entre 5,0 e 5,5; moderada entre 5,5 e 6,0; e grave acima de 6,0 mEq/L. Repare que os cortes são estreitos — meio miliequivalente separa uma categoria da seguinte, e a mesma amostra colhida com garrote apertado pode atravessar duas delas.

A epidemiologia explica por que o tema cai tanto. Uma revisão sistemática com metanálise de 542 estudos publicados entre 1976 e 2021 encontrou prevalência global de hipercalemia entre adultos de 6,3% (IC 95% 5,8 a 6,8), com incidência de 2,8 casos por 100 pessoas-ano; o número sobe para 14,6% na doença renal crônica não dialítica e para 33,3% na doença renal crônica em diálise. Em brasileiros com doença renal crônica acompanhados por nefrologista, a prevalência descrita varia de 25% a 41% conforme o estágio. Dois documentos independentes — o relatório da Conitec de 2025 e uma coorte hospitalar sul-africana do mesmo ano — reproduzem os mesmos 6,3% e os mesmos 2,8 casos por 100 pessoas-ano, o que é uma boa notícia para quem vai decorar: o número não está em disputa.

A hipercalemia é, nas palavras do guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia, a principal emergência nefrológica — e é assintomática até deixar de ser. Fraqueza, parestesia e paralisia flácida existem, mas não são o que mata; o que mata é a arritmia, e ela não avisa. Já a hipocalemia mata pelo outro lado da mesma moeda: hiperexcitabilidade, extrassístole, torsades e, no digitalizado, intoxicação com potássio dentro da faixa de referência.

Antes de tratar: este potássio é de verdade?

A pseudo-hipercalemia é o passo zero e a banca a esconde no meio da história do laboratório. O potássio sai da célula depois que ela morre ou é espremida: hemólise da amostra, garrote apertado com o punho fechando e abrindo antes da punção, agulha fina, transporte demorado e refrigeração. Existe ainda a pseudo-hipercalemia por contagem celular extrema — leucocitose ou trombocitose muito altas liberam potássio durante a coagulação do tubo, e nesse caso o soro vem alto enquanto o plasma heparinizado vem normal. O sinal que trai é a dissociação: potássio de 7 num paciente eucárdico, sem doença renal, sem droga que retenha potássio e com eletrocardiograma limpo.

A pseudo-HIPOcalemia é mais rara e igualmente traiçoeira: em leucocitose extrema, se a amostra fica em temperatura ambiente por muito tempo, os leucócitos continuam captando potássio dentro do tubo e o resultado vem falsamente baixo. O antídoto dos dois erros é o mesmo e não custa nada: repetir a coleta sem garrote, com agulha calibrosa, e mandar processar rápido.

Na emergência, a gasometria resolve o tempo. O potássio do gasômetro sai em minutos, e a comparação direta com o eletrodo íon-seletivo do laboratório mostra correlação alta: num estudo transversal com 67 pacientes de unidade de emergência, o coeficiente de correlação entre os dois métodos foi de 0,905 para o potássio, com médias de 3,80 ± 1,055 mmol/L pelo gasômetro contra 3,93 ± 0,835 mmol/L pelo eletrodo do laboratório. A diferença é estatisticamente significativa (p = 0,024) e clinicamente irrelevante — o tamanho de efeito de Cohen foi de 0,157. Traduzindo: o gasômetro tende a ler um pouco menos potássio, o que é coerente com o fato de o soro conter o potássio liberado pelas plaquetas durante a coagulação; e essa diferença de cerca de 0,13 mmol/L jamais deve ser motivo para esperar quarenta minutos pelo laboratório com um paciente que tem alteração no traçado.

Duas armadilhas de coleta fecham a seção. A primeira é dosar potássio de veia onde corre soro com potássio — o resultado é da bolsa, não do paciente. A segunda é a hipercalemia factícia por punho cerrado: o exercício isométrico do antebraço libera potássio muscular e pode elevar a amostra em vários décimos, o que basta para atravessar a fronteira entre leve e moderada.

O eletrocardiograma decide — e falta em quase metade dos casos

A régua clássica que circula em material de revisão liga cada faixa de potássio a um achado eletrocardiográfico: 5,5 a 6,5 mEq/L, onda T alta e apiculada; 6,5 a 7,5, desaparecimento da onda P; 7,0 a 8,0, alargamento do QRS; acima de 8,0, arritmia ventricular e assistolia. Ela é útil como ordem de gravidade e péssima como cronômetro — repare que as próprias faixas se sobrepõem entre 7,0 e 7,5, de modo que o traçado não pode ser lido de trás para frente para estimar a calemia.

O dado que muda a conduta veio de uma coorte hospitalar de um ano. De 434 pacientes identificados com hipercalemia, 344 preencheram critério (potássio maior ou igual a 5,5 mmol/L com eletrocardiograma feito dentro de uma janela de 3 horas antes ou depois). Desses 344, apenas 189 — 55% — tinham qualquer alteração no traçado; 155, ou 45%, não tinham nenhuma. A conclusão dos autores é explícita: as alterações eletrocardiográficas da hipercalemia têm valor de rastreio limitado.

Dentro dos 189 com alterações, as mais frequentes foram as da onda P, em 98 pacientes (52%) — duração acima de 120 ms em 58 (31%), P achatada em 12 (6%) e P ausente em 28 (15%) —, seguidas de onda T apiculada em 84 (45%). Faça a conta que a vinheta cobra e o mito cai: 84 de 344 dão 24,4% do total de hipercalêmicos. Ou seja, a onda T apiculada, ensinada como o primeiro e mais confiável sinal, esteve presente em cerca de um quarto dos pacientes com potássio alto. Atenção ao denominador — os 52% e os 45% são calculados sobre os 189 com alteração, não sobre os 344 do estudo, e trocar um pelo outro dobra o número.

Isso não rebaixa o eletrocardiograma: reposiciona-o. Ele não serve para rastrear hipercalemia nem para estimar a calemia, mas continua sendo o que decide a urgência em quem já tem o número. Os pacientes com alterações tinham bicarbonato mais baixo (15,4 contra 19,3 mmol/L) e creatinina mais alta (345 contra 229 µmol/L) — a acidose e a insuficiência renal andam juntas com o traçado alterado. E, entre as alterações, as que se associaram a eventos adversos de curto prazo num estudo retrospectivo citado por esses autores foram o alargamento do QRS, a bradicardia e o ritmo juncional; a onda T apiculada, isoladamente, não mostrou correlação estatisticamente significativa com desfecho adverso.

A consequência prática, que vale como regra de prova: um eletrocardiograma normal não afasta hipercalemia perigosa e não autoriza esperar. Quem manda tratar é o número somado ao contexto — e quem manda tratar Agora, sem esperar mais nada, é o traçado alterado.

Esquema de dois compartimentos separados por uma membrana celular: o intracelular, cheio de partículas de potássio, e o extracelular, quase vazio, com setas de entrada comandadas por insulina e beta-2 e setas de saída comandadas por acidose.
O laudo enxerga só a faixa estreita da direita. Um deslocamento pequeno para fora do reservatório da esquerda dobra a concentração que o laboratório mede sem que nenhum potássio tenha entrado no corpo — e é por isso que insulina, beta-2 agonista e acidose mudam o número em minutos, enquanto o rim leva horas.

A ordem fixa: estabilizar, redistribuir, remover

O guia hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia organiza o tratamento em três blocos, e essa é a espinha da resposta: medidas de proteção da membrana miocárdica (gluconato de cálcio); medidas de redistribuição do potássio extracelular para o intracelular (solução de glicose com insulina, beta-2 adrenérgicos e bicarbonato de sódio); e medidas de remoção do potássio corporal (furosemida, resinas e ligantes de troca iônica, e diálise). O mesmo documento acrescenta a frase que decide a última linha da vinheta: a hipercalemia é condição extremamente grave que pode levar ao óbito, portanto a diálise deve ser instituída rapidamente quando não houver resposta às medidas clínicas.

O cálcio é o degrau mais mal compreendido do conjunto. Ele não abaixa o potássio — nem um décimo. Ele restaura a diferença entre o potencial de repouso e o limiar de despolarização do miócito, comprando minutos enquanto o resto trabalha. Por isso a indicação dele não é o número isolado: é a alteração eletrocardiográfica. E por isso o efeito dele é curto: quem dá cálcio e não dá o resto vai ver o traçado piorar de novo em menos de uma hora.

A insulina é o carro-chefe da redistribuição, e a dose está em revisão aberta. As recomendações consagradas — a da American Heart Association e a da National Kidney Foundation — mandam 10 unidades de insulina regular intravenosa acompanhadas de 25 a 50 gramas de glicose, justamente para reduzir o risco de hipoglicemia. Literatura recente sustenta doses menores, de 5 unidades ou 0,1 unidade por quilo, com eficácia comparável e melhor perfil de segurança. Seja qual for a dose escolhida, duas regras não mudam: a glicose entra junto, salvo hiperglicemia franca; e a glicemia é monitorada por pelo menos 6 horas, porque a insulina regular sobrevive à queda do potássio.

O beta-2 agonista é o degrau que o candidato esquece e a prova cobra. Uma revisão de escopo de 2026, que reuniu cinco estudos experimentais com 161 pacientes ao todo, encontrou que a maioria usou salbutamol nebulizado na dose de 10 mg — muito acima da dose de crise asmática —, com reduções do potássio sérico entre 0,62 e 1,636 mEq/L e efeito máximo entre 1 e 4 horas. Os efeitos adversos descritos foram taquicardia, tontura e hiperglicemia leve, todos manejáveis. É medida somável à insulina, por via diferente e mecanismo semelhante, e não substitui nenhuma das outras.

O bicarbonato de sódio é o degrau condicional. O guia da Sociedade Brasileira de Nefrologia o posiciona na acidose com pH sanguíneo abaixo de 7,2, particularmente quando associado a bicarbonato sérico inferior a 15 mEq/L e sem evidência de hipervolemia. Uma advertência prática do mesmo documento vale ouro na enfermaria: ao corrigir a acidose metabólica, o cálcio ionizado pode cair, e — se for preciso repor cálcio — a infusão tem de correr em linha venosa separada, porque as soluções de cálcio e de bicarbonato são incompatíveis entre si.

Fechando o bloco: os três primeiros degraus escondem o potássio, não o eliminam. Enquanto o efeito da insulina e do beta-2 dura, o potássio total do corpo continua o mesmo, e ele volta. Toda vinheta que termina com o paciente 'melhorado' depois de glicoinsulina, sem nenhuma medida de remoção prescrita e sem controle programado, está descrevendo um paciente que vai recair no plantão seguinte.

Remover de verdade: o que existe no SUS e o que entrou em 2025

Há três rotas de saída, e elas competem em velocidade. O rim, acelerado por diurético de alça — indicação legítima que o guia da Sociedade Brasileira de Nefrologia nomeia é justamente hipervolemia e hipercalemia, e ela só funciona se houver diurese e o paciente não estiver hipovolêmico. O intestino, por meio dos quelantes. E a máquina, quando as duas primeiras não bastam.

O quelante clássico é a resina de troca — poliestirenossulfonato de sódio ou de cálcio —, e o ponto que decide questão é o tempo de resposta: horas A dias, com ação restrita ao cólon. Ela não é medida de emergência, e prescrevê-la como se fosse é trocar minutos por dias. Some-se o perfil de efeitos adversos: diarreia, alcalose metabólica, hipernatremia, sobrecarga de ácido clorídrico e necrose colônica; e a ligação não seletiva, que arrasta cálcio e magnésio junto com o potássio. O patiromer, resina de troca de cálcio que também liga magnésio, responde em cerca de 7 horas, igualmente no cólon, e tem hipomagnesemia entre os efeitos adversos.

O que mudou no Brasil: em 12 de março de 2025, na 138ª Reunião Ordinária, o Comitê de Medicamentos da Conitec recomendou por unanimidade a incorporação do ciclossilicato de zircônio sódico para tratamento da hiperpotassemia em pacientes com doença renal crônica nos estágios 4 e 5. A decisão virou a Portaria sectics/MS nº 26, de 12 de maio de 2025, publicada no Diário Oficial da União nº 90, seção 1, página 102, de 15 de maio de 2025, com prazo de até 180 dias para as áreas técnicas efetivarem a oferta. É a primeira vez que um quelante moderno de potássio entra no elenco do SUS, e a justificativa registrada foi habilitar terapias renoprotetoras e postergar a diálise.

O ciclossilicato de zircônio sódico não é resina: é um pó inorgânico não polimérico que liga potássio trocando hidrogênio e sódio, age ao longo de todo o trato digestivo — e não só no cólon — e responde em cerca de 1 hora. A posologia da bula, transcrita no relatório: na fase de correção, para potássio acima de 5,0 mEq/L, 10 g três vezes ao dia em suspensão oral em cerca de 45 mL de água; se o potássio permanecer acima de 5,0 mEq/L ao fim de 48 horas, pode-se acrescentar mais um dia de 10 g três vezes ao dia. Na manutenção, 5 g uma vez ao dia, com titulação até 10 g por dia ou redução para 5 g em dias alternados, sem ultrapassar 10 g diários. O efeito adverso que a prova gosta é o espelho do próprio mecanismo: hipocalemia. Com potássio sérico abaixo de 3,0 mmol/L, o medicamento é descontinuado e o paciente reavaliado.

A diálise fecha a escada, e o gatilho é o mesmo que o capítulo de injúria renal aguda desta apostila já fixou: potássio acima de 6,5 mEq/L refratário às medidas clínicas, ou acima de 5,5 com alteração eletrocardiográfica que não responde — o 'E' do mnemônico AEIOU. O erro simétrico existe: adiar diálise indicada esperando resposta ao diurético, e indicar diálise pelo número isolado num paciente que ainda não recebeu a escada inteira.

Uma palavra sobre o que não remover: o bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Suspender inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina ou antagonista mineralocorticoide reduz a hipercalemia e aumenta o risco de morte cardiovascular. A conduta contemporânea é tratar o potássio para manter o bloqueio, e não abandonar o bloqueio para poupar o potássio — foi exatamente esse o argumento econômico que sustentou a incorporação do quelante novo no SUS.

Hipocalemia: o magnésio primeiro, e a ampola que mata

Hipocalemia é potássio abaixo de 3,5 mEq/L. O erro-mãe aqui é simétrico ao da hipercalemia: ler o número como estoque. Como 98% do potássio é intracelular, uma calemia de 3,0 pode significar déficit corporal grande num paciente que vomita há uma semana, ou deslocamento puro para dentro da célula num paciente que acabou de receber insulina, beta-2 em dose alta ou bicarbonato. No primeiro caso repõe-se muito; no segundo, repor demais produz hipercalemia de rebote quando o efeito passa.

O magnésio vem antes, e essa é a regra que separa quem entendeu. A hipomagnesemia mantém a hipocalemia refratária porque libera a secreção renal de potássio pelos canais da célula principal do ducto coletor: enquanto o magnésio estiver baixo, o potássio reposto sai pela urina. Repor potássio sem checar magnésio é encher balde furado — e é o cenário clássico do alcoolista, do desnutrido, do usuário crônico de diurético e de quem está em uso de inibidor de bomba de prótons.

A aritmética da ampola é conta de prova e conta de plantão. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista, no componente Básico, cloreto de potássio 191 mg/mL (19,1%) equivalente a 2,56 mEq/mL, solução injetável. Confira: 191 mg divididos pela massa molar do cloreto de potássio, 74,55 g/mol, dão 2,562 mmol por mililitro — os 2,56 mEq/mL da lista. Portanto cada mililitro carrega 2,56 mEq, e uma ampola de 10 mL carrega 25,6 mEq. A mesma lista traz bicarbonato de sódio 84 mg/mL (8,4%) equivalente a 1 mEq/mL — 84 divididos por 84,01 dão exatamente 1 mmol por mililitro —, cloreto de sódio 20% equivalente a 3,4 mEq/mL e cloreto de sódio 0,9% equivalente a 0,154 mEq/mL. Insulina humana regular 100 UI/mL, sulfato de salbutamol e furosemida também estão no elenco.

E aqui entra a trava de segurança que o Brasil escreveu por conta própria. O cloreto de potássio concentrado injetável figura, ao lado do fosfato de potássio injetável, na lista de medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar do Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos. A recomendação é explícita e vai além da prescrição: recolher as ampolas de cloreto de potássio concentrado dos estoques das unidades assistenciais, e identificar as ampolas com etiquetas de alerta ressaltando que o medicamento pode ser fatal se administrado sem diluir. Note uma coisa que quase ninguém percebe: a bandeja da hipercalemia carrega três itens da mesma lista — o cloreto de potássio concentrado, a insulina em qualquer via e a glicose hipertônica com concentração igual ou maior que 20%.

Da regra de segurança sai a regra de prescrição, e ela é a resposta certa de várias questões: potássio endovenoso é sempre diluído, nunca em bolus e nunca em push; a via periférica limita a concentração porque a solução concentrada é esclerosante e dolorosa; velocidades mais altas exigem acesso central e monitoração eletrocardiográfica contínua; e a via oral é a preferida sempre que o paciente tolera, porque é a mais segura e quase tão rápida. A hipocalemia grave, com arritmia, paralisia ou digitálico em uso, é a exceção que justifica velocidade maior — em ambiente monitorado, e não na enfermaria comum.

Achar a causa sem pedir exame caro: pressão, gasometria e potássio urinário

Três eixos resolvem quase toda vinheta de hipocalemia. Primeiro, a pressão arterial: hipocalemia com hipertensão puxa para excesso de mineralocorticoide — hiperaldosteronismo primário, hipertensão renovascular, Cushing, uso de alcaçuz —, um território que o capítulo de hipertensão secundária cobre; hipocalemia com pressão normal ou baixa puxa para perda gastrointestinal, diurético, acidose tubular renal e as tubulopatias de Bartter e Gitelman. Segundo, o estado ácido-base: alcalose metabólica aponta vômito, sonda gástrica, diurético e hiperaldosteronismo; acidose metabólica aponta diarreia e acidose tubular renal tipos 1 e 2. Terceiro, o potássio urinário: baixo significa que o rim está poupando e a perda é extrarrenal ou o problema é aporte; alto significa perda renal.

O mesmo raciocínio funciona invertido na hipercalemia. Comece pela filtração glomerular, porque rim que urina e filtra dificilmente deixa o potássio subir sozinho; siga pela lista de medicamentos, que é a causa mais frequente no paciente ambulatorial — poupadores de potássio (espironolactona, amilorida, triantereno), inibidores da enzima conversora, bloqueadores do receptor de angiotensina, anti-inflamatórios não esteroidais, trimetoprima, ciclosporina, betabloqueadores e penicilina G potássica; e termine no eixo da aldosterona, onde mora a acidose tubular renal tipo 4 do diabético, que junta hipercalemia com acidose de ânion-gap normal e taxa de filtração desproporcionalmente preservada.

Não esqueça a categoria que não é nem excreção nem ingestão: a liberação. Rabdomiólise, síndrome de lise tumoral, hemólise maciça, grande queimado, síndrome de esmagamento e hipertermia maligna descarregam potássio intracelular de uma vez, e nesses cenários o potássio sobe mais rápido do que qualquer quelante age. Nas duas primeiras, o capítulo de injúria renal aguda desta apostila e o de emergências oncológicas trazem o pacote completo; aqui basta a regra de sequenciamento: quando o mecanismo é liberação continuada, redistribuir compra pouco tempo, e a decisão de diálise entra cedo.

Por fim, o eixo que atravessa os dois distúrbios: a acidose empurra potássio para fora da célula e a alcalose puxa para dentro. É por isso que o paciente em cetoacidose diabética chega com potássio 'normal' escondendo depleção corporal profunda — assunto do capítulo de cetoacidose, que traz os cortes de reposição —, e é por isso que a expansão com salina em volume alto, ao produzir acidose hiperclorêmica, sobe o potássio medido sem que nenhum potássio tenha sido infundido.

04

Da calemia à conduta: gatilhos, escada e velocidade

O fluxo abaixo percorre a decisão na ordem em que ela precisa ser tomada: confirmar que o número é real, ver o traçado, tratar o que ameaça a vida agora e só então procurar a causa. Os cartões fixam as três faixas de gravidade. A primeira tabela é o bloco mais recortado pela banca — a escada da hipercalemia grave, com o que cada degrau faz e, principalmente, o que ele não faz. As duas tabelas seguintes organizam os quelantes e a farmácia real do SUS, com a aritmética das apresentações.

  1. 1PASSO 0 — O NÚMERO É REAL? Hemólise, garrote apertado com punho cerrado, agulha fina, amostra demorada, leucocitose ou trombocitose extremas produzem pseudo-hipercalemia; leucocitose extrema em amostra parada produz pseudo-hipocalemia. Potássio dosado de veia que recebe soro com potássio é o resultado da bolsa. Na dúvida com paciente estável, recolha de novo — sem garrote e com agulha calibrosa.
  2. 2NÃO ESPERE O LABORATÓRIO. A gasometria entrega o potássio em minutos e correlaciona-se bem com o eletrodo do laboratório (r = 0,905 num estudo com 67 pacientes de emergência), lendo em média cerca de 0,13 mmol/L a MENOS. Diferença sem significado clínico; quarenta minutos de espera, não.
  3. 3ELETROCARDIOGRAMA IMEDIATO. Alteração no traçado é o gatilho da emergência. Mas guarde os dois lados: de 344 pacientes com potássio maior ou igual a 5,5 mmol/L, apenas 189 (55%) tinham qualquer alteração — traçado normal NÃO afasta hipercalemia perigosa.
  4. 4DEGRAU 1 — ESTABILIZAR. Gluconato de cálcio quando há alteração eletrocardiográfica. Ele NÃO abaixa o potássio: restaura a diferença entre potencial de repouso e limiar, e o efeito é curto. Quem dá só cálcio vê o traçado voltar a piorar.
  5. 5DEGRAU 2 — REDISTRIBUIR COM INSULINA. Insulina regular intravenosa com glicose junto — 10 unidades com 25 a 50 g de glicose pela régua consagrada; 5 unidades ou 0,1 U/kg pela literatura recente. Glicemia monitorada por pelo menos 6 horas: a insulina dura mais que o efeito sobre o potássio.
  6. 6DEGRAU 2 (CONTINUA) — BETA-2 SOMA. Salbutamol nebulizado em dose alta, tipicamente 10 mg — bem acima da dose de crise asmática. Redução observada de 0,62 a 1,636 mEq/L, com pico entre 1 e 4 horas. Taquicardia, tremor e hiperglicemia leve são esperados e manejáveis.
  7. 7DEGRAU 2 (CONDICIONAL) — BICARBONATO. Só na acidose: pH abaixo de 7,2, particularmente com bicarbonato sérico abaixo de 15 mEq/L e sem hipervolemia. Se for repor cálcio junto, LINHA VENOSA SEPARADA — cálcio e bicarbonato são incompatíveis.
  8. 8DEGRAU 3 — REMOVER, PORQUE OS ANTERIORES SÓ ESCONDEM. Furosemida se há diurese e o paciente não está hipovolêmico. Quelante: resina de troca leva HORAS A DIAS e não é medida de emergência; o ciclossilicato de zircônio sódico responde em cerca de 1 hora e age em todo o trato digestivo.
  9. 9DEGRAU 4 — DIÁLISE. Potássio acima de 6,5 mEq/L refratário às medidas clínicas, ou acima de 5,5 com alteração eletrocardiográfica que não responde — o 'E' do AEIOU. Quando o mecanismo é liberação continuada (rabdomiólise, lise tumoral, esmagamento), a decisão entra cedo.
  10. 10DEPOIS DE ESTABILIZAR, ACHE A FONTE — E NÃO DESLIGUE A PROTEÇÃO. Reveja a lista de medicamentos, o aporte e o eixo da aldosterona. Suspender inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina ou antagonista mineralocorticoide baixa o potássio e sobe a mortalidade cardiovascular: trate o potássio para MANTER o bloqueio.
  11. 11HIPOCALEMIA — MAGNÉSIO PRIMEIRO. Enquanto o magnésio estiver baixo, o potássio reposto sai pela urina. Depois: via oral sempre que possível; endovenoso sempre DILUÍDO, nunca em bolus; concentração alta e velocidade alta exigem acesso central e monitoração contínua.
  12. 12HIPOCALEMIA — ACHE A CAUSA EM TRÊS EIXOS. Pressão arterial (alta puxa para mineralocorticoide; normal ou baixa, para perda digestiva, diurético, acidose tubular e tubulopatias), estado ácido-base (alcalose contra acidose) e potássio urinário (baixo = perda extrarrenal; alto = perda renal).

Leve: 5,0 a 5,5 mEq/L

Faixa em que a conduta é ambulatorial e etiológica: revisar a lista de medicamentos, ajustar a dieta e reavaliar. Não se suspende o bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona por um valor nesta faixa — o risco cardiovascular de suspender supera o do potássio.

Moderada: 5,5 a 6,0 mEq/L

Faixa em que o eletrocardiograma deixa de ser opcional e o paciente passa a precisar de vigilância ativa. É também a faixa em que se decide entre quelante crônico e retirada do fármaco causador — e em que a conduta contemporânea prefere tratar o potássio a suspender o bloqueio.

Grave: acima de 6,0 mEq/L

Faixa de emergência. Com alteração no traçado, cálcio agora e a escada inteira em paralelo. Sem alteração no traçado, a escada continua indicada — o eletrocardiograma normal não afasta o risco: só 55% dos pacientes com potássio alto têm alguma alteração eletrocardiográfica.

Hipercalemia grave: a escada, o que cada degrau faz e o que ele não faz

DegrauQuando entraO que faz — e o que NÃO fazTempo
1. Gluconato de cálcioAlteração eletrocardiográfica. É o traçado que indica, não o número isoladoProtege a membrana do miócito restaurando a diferença entre potencial de repouso e limiar. NÃO abaixa o potássio em nadaInício em minutos; efeito curto — exige que o resto da escada corra em paralelo
2a. Insulina regular com glicoseToda hipercalemia grave. Glicose junto, salvo hiperglicemia francaEmpurra potássio para dentro da célula. NÃO remove potássio do corpo — o efeito passa e o potássio voltaGlicemia monitorada por pelo menos 6 horas: a insulina dura mais que a queda do potássio
2b. Salbutamol nebulizado, dose alta (tipicamente 10 mg)Junto com a insulina; cuidado com taquiarritmia e isquemia ativaMesmo destino, outra via. Redução observada de 0,62 a 1,636 mEq/L. Soma ao efeito da insulina; NÃO o substituiPico entre 1 e 4 horas
2c. Bicarbonato de sódioCondicional: pH < 7,2, particularmente com bicarbonato sérico < 15 mEq/L, sem hipervolemiaCorrige a acidemia que mantém o potássio fora da célula. Fora da acidose, não é medida de redistribuição eficazSe houver reposição de cálcio, LINHA SEPARADA — cálcio e bicarbonato são incompatíveis
3a. FurosemidaSe há diurese e o paciente NÃO está hipovolêmicoRemove potássio pela urina. Não substitui diálise e nunca justifica adiar uma diálise já indicadaRápida, mas dependente de rim que responda
3b. Quelante intestinalDepois de estabilizar; também no manejo crônicoRemove potássio pelo intestino. Resina de troca NÃO serve para a emergênciaResina de troca: horas a dias (cólon). Patiromer: cerca de 7 horas (cólon). Ciclossilicato de zircônio sódico: cerca de 1 hora (todo o trato digestivo)
4. DiálisePotássio > 6,5 mEq/L refratário às medidas clínicas, ou > 5,5 com alteração eletrocardiográfica que não respondeÚnica medida que remove potássio de forma rápida e previsível independentemente de rim e de intestinoA Sociedade Brasileira de Nefrologia é explícita: instituir RAPIDAMENTE quando não houver resposta às medidas clínicas

Quelantes de potássio: por que a resina não serve para a emergência

FármacoMecanismoTempo de resposta e sítioEfeitos adversos e cuidadosNo SUS
Poliestirenossulfonato de sódio ou de cálcio (resina de troca)Resina de troca sódio-potássio, administrada com sorbitol. Liga sem seletividade potássio, cálcio e magnésioHoras a dias. Age no cólonDiarreia, alcalose metabólica, hipernatremia, sobrecarga de ácido clorídrico, necrose colônica. Administrar pelo menos 3 h ANTES de outros medicamentosNão consta do elenco da Rename 2024
PatiromerResina de troca cálcio-potássio; também liga magnésioCerca de 7 horas. Age no cólonConstipação, diarreia, flatulência, hipomagnesemia. Administrar pelo menos 3 h DEPOIS de outros medicamentosNão incorporado
Ciclossilicato de zircônio sódicoPó inorgânico não polimérico; liga potássio trocando hidrogênio e sódioCerca de 1 hora. Age em todo o trato digestivoConstipação, diarreia, edema; pode elevar o pH gástrico e interferir em medicamentos pH-dependentes. HIPOCALEMIA: abaixo de 3,0 mmol/L, descontinuar e reavaliarIncorporado ao SUS pela Portaria SECTICS/MS nº 26, de 12/05/2025 (DOU de 15/05/2025), para doença renal crônica estágios 4 e 5

O que existe na farmácia do SUS, com a concentração exata que a questão converte

Apresentação (Rename 2024, componente Básico)Equivalência declaradaConfere?Onde entra no capítulo
Cloreto de potássio 191 mg/mL (19,1%), solução injetável2,56 mEq/mLSim: 191 ÷ 74,55 g/mol = 2,562 mmol/mL. Uma ampola de 10 mL carrega 25,6 mEqReposição na hipocalemia — sempre diluído, nunca em bolus
Bicarbonato de sódio 84 mg/mL (8,4%), solução injetável1 mEq/mLSim: 84 ÷ 84,01 g/mol = 1,00 mmol/mLDegrau condicional da hipercalemia, só na acidose
Insulina humana regular 100 UI/mL, solução injetávelDegrau 2: redistribuição, sempre com glicose
Sulfato de salbutamolDegrau 2: nebulização em dose alta, somável à insulina
FurosemidaDegrau 3: remoção renal, se há diurese e não há hipovolemia
Gluconato de cálcio a 10%Não consta do elenco da Rename 2024 — ao contrário do sulfato de magnésio, da epinefrina e da atropina, que constamDegrau 1: estabilização de membrana

A classificação numérica que o relatório da Conitec adota é: normopotassemia 3,5 a 5,0 mEq/L; leve 5,0 a 5,5; moderada 5,5 a 6,0; grave acima de 6,0. Vale registrar que o próprio documento não se mantém coerente com ela: a justificativa da recomendação final fala em 'prevalência de hipercalemia grave (K > 5 mEq/L)' — corte que, pela tabela do mesmo relatório, define hipercalemia LEVE. Para prova, a régua citável é a da tabela.

O escopo da incorporação do ciclossilicato de zircônio sódico aparece de três formas dentro do mesmo relatório: o título fala em 'hiperpotassemia grave'; a discussão da 138ª Reunião registra que a tecnologia 'será utilizada para o tratamento da hipercalemia moderada'; e a Portaria SECTICS/MS nº 26 incorpora para 'o tratamento da hiperpotassemia em pacientes com doença renal crônica estágios 4 e 5', sem qualificativo de gravidade. O texto que vale juridicamente é o da Portaria — e é ele que a questão vai reproduzir.

Um detalhe do mesmo relatório que muda a leitura do impacto: a população elegível foi calculada apenas para o estágio 4 (taxa de filtração glomerular entre 15 e 29 mL/min/1,73 m², prevalência de 0,1%), assumindo que 3,0% desses pacientes teriam potássio maior ou igual a 6,0 mmol/L — enquanto a incorporação vale para os estágios 4 E 5, e sem limiar de potássio. Modelo e decisão não cobrem exatamente a mesma população.

O eletrocardiograma responde a duas perguntas diferentes e só acerta uma. Ele NÃO rastreia hipercalemia (55% de sensibilidade aparente numa coorte de 344 pacientes) e NÃO estima a calemia (as faixas clássicas se sobrepõem entre 7,0 e 7,5 mEq/L). Ele decide URGÊNCIA em quem já tem o número — e o achado que mais se associou a evento adverso de curto prazo foi o alargamento do QRS com bradicardia ou ritmo juncional, não a onda T apiculada.

Existe piso, e não só teto, também aqui: o quelante que trata hipercalemia produz hipocalemia. Com o ciclossilicato de zircônio sódico, potássio abaixo de 3,0 mmol/L manda descontinuar e reavaliar; e a titulação de dose existe justamente para prevenir hipocalemia moderada ou grave.

Cálcio e bicarbonato não correm na mesma linha venosa — as soluções são incompatíveis. E a correção da acidose metabólica pode derrubar o cálcio ionizado, de modo que os dois problemas aparecem juntos com frequência na mesma prescrição.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Solução balanceada no paciente sob risco de hipercalemia: os 4 mEq/L da bolsa ou a acidose da salina?

Contraindicar — protocolo nacional do SAMU 192 para síndrome do esmagamento

O protocolo manda iniciar reanimação volêmica precoce e vigorosa com soro fisiológico a até 1.500 mL/hora antes da liberação do membro, reduzindo para 500 mL/hora depois do desencarceramento, e registra entre as observações que a lesão traumática do músculo libera mioglobina e hiperpotassemia, acrescentando textualmente: 'O uso de RL está contraindicado devido a maior presença de potássio'. O raciocínio é o da composição — a solução de Ringer com lactato carrega 4 mEq/L de potássio, e o protocolo evita acrescentar potássio a quem já está liberando potássio do músculo.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, protocolo AT23 (Síndrome do esmagamento), elaboração agosto/2014, revisão outubro/2014

Preferir o balanceado — ensaios e metanálises em quem tem rim sob risco

A metanálise reuniu 11 ensaios randomizados e 1.717 pacientes de transplante renal e não encontrou diferença no potássio pós-operatório entre balanceado e salina — diferença média de 0,15 mmol/L a MENOS com o balanceado (IC 95% -0,46 a 0,16, certeza moderada) —, enquanto o pH e o bicarbonato foram mais baixos e o cloreto mais alto no grupo salina, com menos disfunção tardia do enxerto no grupo balanceado. A carta que discute o mecanismo é explícita: como 98% do potássio corporal é intracelular, a acidose induzida pela hipercloremia da salina, que inibe a troca sódio-hidrogênio e aumenta o efluxo de potássio, pesa mais que o potássio contido na bolsa; ela reporta ainda o ensaio BEST-Fluids, com 807 pacientes, em que a disfunção tardia do enxerto ocorreu em cerca de 30% do grupo balanceado contra 40% do grupo salina (risco relativo ajustado 0,74; IC 95% 0,66 a 0,84).

Chang T, Shih MC, Wu YL, Wu TT, Yang JT, Wu CY. Comparative efficacy of balanced crystalloids versus 0,9% saline on delayed graft function and perioperative outcomes in kidney transplantation: a meta-analysis of randomised controlled trials. British Journal of Anaesthesia. 2024;133(6):1173-1182; e Tontu F. Fluid Selection in Renal Transplant Patients: Considerations for Hyperkalemia Management (carta). Turkish Journal of Anaesthesiology and Reanimation. 2025;53(3):138-140

Na prova

As duas posições não descrevem a mesma coisa: uma raciocina pela composição da bolsa, a outra mede o potássio do paciente no fim. A alternativa correta em prova brasileira contemporânea reconhece que a carga de cloreto da salina desloca potássio para fora da célula e que, medido, o potássio do grupo balanceado é semelhante ou menor. Alternativa que afirma 'contraindicar Ringer com lactato porque contém potássio' raciocina só pelo rótulo — é o distrator. Cuidado com o escopo: a evidência aqui vem de transplante renal e de perioperatório, não de ensaio no pré-hospitalar do esmagamento; e no paciente ANÚRICO ou em programa dialítico, em que nenhum potássio sai, a preocupação com a carga da bolsa volta a fazer sentido. Se o enunciado citar nominalmente um protocolo do SAMU, ele quer a letra do protocolo; se descrever o mecanismo, quer a fisiologia.

Insulina na hipercalemia: 10 unidades fixas ou dose reduzida?

Dez unidades com 25 a 50 g de glicose — a régua das sociedades

As recomendações consagradas prescrevem 10 unidades de insulina regular intravenosa acompanhadas de 25 a 50 gramas de glicose intravenosa, justamente para reduzir o risco e a incidência de hipoglicemia. É a dose que aparece na maioria dos protocolos institucionais e a que o candidato deve reconhecer como a resposta esperada.

Recomendações da American Heart Association e da National Kidney Foundation, descritas em Kelley D, Piccuirro S, Gandhi P, Kim H. Intravenous Regular Insulin for Treatment of Hyperkalemia in Overweight Patients. Pharmacotherapy. 2025;45(12):794-800

Cinco unidades ou 0,1 U/kg — sinal de equivalência com melhor segurança

De 699 pacientes rastreados, 81 receberam 5 unidades e 81 receberam 10 unidades de insulina regular intravenosa. Não houve diferença no efeito de redução do potássio — 0,5 mmol/L (intervalo interquartil 0,1 a 1,1) contra 0,5 mmol/L (0,2 a 1,0); p = 0,65 — nem nos desfechos secundários (hipoglicemia em 6 horas, tempo de internação, falha de tratamento). Os próprios autores registram, porém, que em duas análises de subgrupo — pacientes que não receberam nenhuma outra terapia aguda de redução de potássio e pacientes com depuração de creatinina entre 30 e 60 mL/min — a redução foi significativamente MAIOR com 10 unidades. E concluem que estudos controlados são necessários para confirmar o achado.

Kelley D, Piccuirro S, Gandhi P, Kim H. Intravenous Regular Insulin for Treatment of Hyperkalemia in Overweight Patients (coorte retrospectiva). Pharmacotherapy. 2025;45(12):794-800

Na prova

Nenhuma banca brasileira vai cobrar hoje a dose reduzida como gabarito isolado: a régua consagrada continua sendo 10 unidades de insulina regular com 25 a 50 gramas de glicose, e é ela que a alternativa correta traz. O que a discussão muda na questão é a ÊNFASE — os enunciados testam se o candidato sabe que a glicose entra junto e que a glicemia precisa de vigilância por horas, porque a insulina regular sobrevive à queda do potássio. Alternativa que prescreve insulina SEM glicose em paciente normoglicêmico está errada em qualquer régua. E alternativa que afirma que 5 unidades são comprovadamente equivalentes a 10 extrapola: o estudo que sustenta essa leitura é retrospectivo, pequeno e feito em pacientes com sobrepeso.

Bicarbonato de sódio: medida de redistribuição ou apenas correção de acidose?

No bloco de redistribuição, com gatilho gasométrico próprio

O guia lista o bicarbonato de sódio entre as medidas de redistribuição do potássio extracelular para o intracelular, ao lado da solução de glicose com insulina e dos beta-2 adrenérgicos. Em outro item do mesmo documento, fixa o gatilho da administração de bicarbonato: pH sanguíneo abaixo de 7,2, particularmente quando associado a bicarbonato sérico inferior a 15 mEq/L e sem evidência de hipervolemia — e alerta que a correção da acidose pode derrubar o cálcio ionizado, exigindo linha venosa separada se houver reposição de cálcio.

Younes-Ibrahim M, Rocha E, Reis T, Colares VS, Lima EQ, Andrade LC, et al. Guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia. Jornal Brasileiro de Nefrologia. 2025;47(3):e20240239

Só com acidose metabólica presente — recomendações de especialistas do México (2026)

O documento de recomendações organiza os fármacos por mecanismo e qualifica o bicarbonato desde a definição: 'transporte de potássio para dentro da célula: insulina e glicose, agonistas beta-2 adrenérgicos, bicarbonato de sódio (SE houver acidose metabólica)'. No manejo crônico, coloca o bicarbonato oral e o diurético de alça explicitamente como alternativas MENOS eficazes a longo prazo, reservando ao ciclossilicato de zircônio sódico o papel de promover a excreção de potássio sem exigir a suspensão do bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona.

Méndez-Durán A, Ivey-Miranda JB, Mendoza-Zavala GH, Álvarez-Sangabriel A, Sánchez-Guerrero DC, Díaz-García JD, et al. Comprehensive Management of Hyperkalaemia in Patients with Chronic Kidney Disease and Cardiovascular Conditions: Expert Recommendations from Mexico. Cardiac Failure Review. 2026;12:e10

Na prova

A pista está no enunciado: se a vinheta traz gasometria com pH abaixo de 7,2 e bicarbonato baixo, o bicarbonato entra e a alternativa que o inclui está certa; se a vinheta não traz acidose, incluir bicarbonato entre as medidas iniciais é o distrator. O erro que a banca explora é listar bicarbonato ao lado de insulina e beta-2 como se os três tivessem a mesma indicação — os dois primeiros valem para toda hipercalemia grave, o terceiro é condicional. Repare também que os dois documentos não se contradizem quanto ao MECANISMO: ambos colocam o bicarbonato no bloco de redistribuição; divergem sobre quando ele merece estar na prescrição.

06

Caso resolvido

Homem de 66 anos, diabético e hipertenso, com doença renal crônica estágio 4 (taxa de filtração glomerular estimada de 22 mL/min/1,73 m²), em uso de losartana 100 mg/dia e espironolactona 25 mg/dia, chega ao pronto-socorro com fraqueza nas pernas há dois dias e sensação de 'coração falhando'. Tomou por conta própria ibuprofeno para dor lombar na última semana. Ao exame: pressão arterial 138 x 84 mmHg, frequência cardíaca 44 bpm, consciente, sem sinais de congestão, sem sinais de hipovolemia. Gasometria venosa de chegada: potássio 7,1 mmol/L, pH 7,26, bicarbonato 16 mEq/L. Eletrocardiograma: bradicardia, onda P de amplitude reduzida e QRS de 138 ms. Creatinina 3,4 mg/dL (basal 2,9 mg/dL). Diurese preservada, referida como habitual.
achado
Hipercalemia GRAVE pela classificação numérica — 7,1 mmol/L está bem acima de 6,0 — e, mais importante, com alteração eletrocardiográfica. E não é uma alteração qualquer: bradicardia com QRS alargado e onda P minguando é justamente o conjunto que se associou a evento adverso de curto prazo, ao contrário da onda T apiculada isolada. Isso tira o caso do território da investigação: o traçado autoriza tratar agora.
o número é real
Aqui a checagem se resolve pela concordância, não pela repetição. O potássio veio da gasometria, que entrega o resultado em minutos e correlaciona-se bem com o eletrodo do laboratório, lendo em média um pouco MENOS — ou seja, o valor verdadeiro tende a ser igual ou maior. E a clínica combina: fraqueza, bradicardia, traçado alterado, acidose, queda da filtração e três fármacos que retêm potássio. Não há dissociação; não se perde tempo recolhendo.
degrau 1 — estabilizar
Gluconato de cálcio agora, porque há alteração eletrocardiográfica. Deixe claro na resposta o que ele faz: protege a membrana do miócito e compra minutos. Ele NÃO abaixa o potássio — e por isso não substitui, nem adia, nenhum dos degraus seguintes, que correm em paralelo.
degrau 2 — redistribuir
Insulina regular intravenosa com glicose junto (10 unidades com 25 a 50 g pela régua consagrada) e salbutamol nebulizado em dose alta, tipicamente 10 mg, somando por outra via — redução esperada entre 0,62 e 1,636 mEq/L, com pico entre 1 e 4 horas. Glicemia monitorada por pelo menos 6 horas. E aqui o bicarbonato ENTRA: pH de 7,26 ainda não está abaixo de 7,2, então ele é discutível pela régua da Sociedade Brasileira de Nefrologia; se o pH cair abaixo de 7,2 com bicarbonato sérico abaixo de 15, ele passa a ter gatilho. Se for repor cálcio junto, linha venosa separada.
degrau 3 — remover
Este é o degrau que a maioria esquece e que separa a alternativa completa. O paciente tem diurese e não está hipovolêmico: furosemida está indicada. Suspender IMEDIATAMENTE o ibuprofeno e a espironolactona, que são as duas alavancas farmacológicas do quadro. Quelante entra na sequência — e, se for resina de troca, sabendo que ela leva horas a dias e não conta como medida de emergência.
degrau 4 — a linha da diálise
Ele está na PORTA do gatilho, e a distinção é o que a questão cobra: o critério do AEIOU é potássio acima de 6,5 mEq/L REFRATÁRIO às medidas clínicas, ou acima de 5,5 com alteração eletrocardiográfica que não responde — refratariedade faz parte do critério, e ele ainda não recebeu a escada. A conduta correta não é 'dialisar já', nem 'esperar 24 horas': é acionar a nefrologia AGORA, enquanto a escada corre, e dialisar se as medidas clínicas não responderem. O guia da Sociedade Brasileira de Nefrologia é explícito nos dois sentidos — instituir a diálise rapidamente na ausência de resposta, e não adiar diálise indicada esperando o diurético funcionar.
o dia seguinte
Estabilizado o paciente, a decisão de médio prazo é o que a prova moderna cobra: NÃO abandonar o bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona de forma definitiva. A losartana sai enquanto a creatinina sobe e o potássio está alto, e volta programada; a espironolactona é reavaliada com critério; e este é exatamente o perfil — doença renal crônica estágio 4 — para o qual o ciclossilicato de zircônio sódico foi incorporado ao SUS pela Portaria SECTICS/MS nº 26, de 12 de maio de 2025, com a finalidade declarada de habilitar terapia renoprotetora e postergar a diálise.
o que NÃO fazer
Não prescrever apenas glicoinsulina e reavaliar em 24 horas — o potássio volta. Não prescrever resina de troca como medida isolada de emergência. Não dar gluconato de cálcio e considerar o problema resolvido. Não trocar solução balanceada por salina 'porque o balanceado tem potássio': se houver necessidade de volume, a carga de cloreto da salina piora a acidose que está mantendo o potássio fora da célula. E não suspender o bloqueio para sempre — a hipercalemia se trata, a proteção cardiorrenal se preserva.
07

Agora feche você

Mulher de 58 anos, hipertensa, em uso de hidroclorotiazida 25 mg/dia, procura o pronto-socorro com fraqueza generalizada e cãibras há quatro dias. Refere vômitos diários há uma semana, atribuídos a uma gastroenterite, e ingestão alimentar mínima nesse período. Bebe de forma pesada há anos. Ao exame: pressão arterial 104 x 66 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, mucosas secas, força muscular globalmente reduzida, sem déficit focal. Eletrocardiograma: ritmo sinusal, QT longo com onda U proeminente, extrassístoles ventriculares isoladas. Laboratório: potássio 2,3 mEq/L, magnésio 1,2 mg/dL, sódio 133 mEq/L, cloro 92 mEq/L, bicarbonato 33 mEq/L, creatinina 0,9 mg/dL. Não usa digital.
o que já sei
Hipocalemia grave (2,3 mEq/L) com repercussão eletrocardiográfica — QT longo, onda U proeminente e extrassistolia ventricular —, num quadro que reúne DUAS vias de perda ao mesmo tempo: o vômito de repetição, que perde ácido clorídrico e potássio e produz alcalose metabólica hipoclorêmica, e o tiazídico, que perde potássio pelo rim. O bicarbonato de 33 e o cloro de 92 confirmam a alcalose hipoclorêmica; o quadro não é de deslocamento puro, é de depleção corporal real.
o achado que a maioria pula
Magnésio de 1,2 mg/dL. A hipomagnesemia libera a secreção renal de potássio, e enquanto ela persistir o potássio reposto sai pela urina — a calemia sobe pouco e volta a cair. O contexto reforça: alcoolismo crônico, ingestão alimentar mínima e uso prolongado de tiazídico são a tríade clássica de depleção de magnésio. Repor potássio sem repor magnésio, neste caso, é encher balde furado.
a conta da ampola
A apresentação do elenco básico da Rename 2024 é cloreto de potássio 191 mg/mL (19,1%), declarada como 2,56 mEq/mL — e a conta fecha: 191 dividido por 74,55 g/mol dá 2,562 mmol por mililitro. Portanto cada mililitro entrega 2,56 mEq e uma ampola de 10 mL entrega 25,6 mEq. Saber isso é o que permite converter uma prescrição em miliequivalentes e conferir se a concentração final da bolsa é segura para a via escolhida.
a trava de segurança
O cloreto de potássio concentrado injetável está na lista brasileira de medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar, com recomendação de recolher as ampolas dos estoques das unidades assistenciais e etiquetá-las com alerta de que o medicamento pode ser FATAL se administrado sem diluir. Diluir sempre, nunca em bolus; preferir a via oral quando o paciente tolera; e reservar concentração ou velocidade altas ao acesso central com monitoração eletrocardiográfica contínua.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Achar que o gluconato de cálcio abaixa o potássio Ele não abaixa nada. O cálcio restaura a diferença entre o potencial de repouso e o limiar de despolarização do miócito e compra minutos — é antiarrítmico, não anti-hipercalêmico. Duas consequências caem em prova: a indicação dele é a ALTERAÇÃO ELETROCARDIOGRÁFICA, não o número isolado; e quem prescreve só cálcio e manda dosar de novo em duas horas vai encontrar o mesmo potássio e um traçado pior.
  2. 2Prescrever resina de troca como medida de emergência O poliestirenossulfonato responde em HORAS A DIAS e age no cólon. Numa vinheta com potássio de 7,2 e QRS alargado, escolher resina é trocar minutos por dias. Ela tem lugar — depois de estabilizar, e no manejo crônico —, mas nunca como o primeiro ou o único passo. O contraste com o ciclossilicato de zircônio sódico, que responde em cerca de 1 hora e age em todo o trato digestivo, é exatamente o que a banca usa para separar quem decorou de quem entendeu.
  3. 3Parar na glicoinsulina e chamar isso de tratamento Insulina, beta-2 e bicarbonato ESCONDEM o potássio dentro da célula; o potássio corporal total não mudou um miliequivalente. Quando o efeito passa, ele volta. Toda conduta completa tem um degrau de REMOÇÃO prescrito — diurético, quelante ou diálise — e um controle programado em intervalo curto. Alternativa que termina em 'glicoinsulina e reavaliar em 24 horas' está descrevendo um paciente que recai no plantão seguinte.
  4. 4Tratar o número sem checar se ele é real Hemólise, garrote apertado com punho cerrado, agulha fina, amostra que demorou a ser processada, leucocitose ou trombocitose extremas: todas produzem pseudo-hipercalemia. O sinal que trai é a dissociação — potássio de 7 num paciente sem doença renal, sem droga que retenha potássio, sem sintoma e com traçado limpo. E o inverso existe: leucocitose extrema com a amostra parada em temperatura ambiente produz pseudo-HIPOcalemia.
  5. 5Ler eletrocardiograma normal como ausência de risco De 344 pacientes com potássio maior ou igual a 5,5 mmol/L e traçado feito na janela de 3 horas, apenas 189 — 55% — tinham qualquer alteração. Onda T apiculada apareceu em 84 pacientes, ou seja, em 24,4% do total de hipercalêmicos, e não é ela que mais se associa a evento adverso: são o alargamento do QRS, a bradicardia e o ritmo juncional. Traçado limpo não afasta hipercalemia perigosa e não autoriza esperar.
  6. 6Suspender o bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona como primeira medida Suspender inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina ou antagonista mineralocorticoide realmente baixa o potássio — e aumenta o risco de morte cardiovascular. A conduta contemporânea inverte a ordem: trata-se o potássio (dieta, diurético, quelante) para MANTER o bloqueio. Foi essa a justificativa registrada para a incorporação do ciclossilicato de zircônio sódico ao SUS: habilitar terapia renoprotetora e postergar a diálise.
  7. 7Repor potássio sem olhar o magnésio A hipomagnesemia libera a secreção renal de potássio: enquanto o magnésio estiver baixo, o potássio reposto sai pela urina e a calemia não sobe. É o cenário do alcoolista, do desnutrido, do usuário crônico de diurético e de quem usa inibidor de bomba de prótons. Hipocalemia que não corrige apesar de reposição adequada é hipomagnesemia até prova em contrário — e a questão costuma esconder o magnésio no meio do laboratório.
  8. 8Tratar cloreto de potássio endovenoso como soro comum O cloreto de potássio concentrado injetável está na lista brasileira de medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar, com recomendação de RECOLHER as ampolas dos estoques das unidades assistenciais e identificá-las com etiqueta de alerta informando que o medicamento pode ser FATAL se administrado sem diluir. Na prescrição: sempre diluído, nunca em bolus, via oral preferida quando o paciente tolera, e concentração ou velocidade altas apenas com acesso central e monitoração eletrocardiográfica contínua.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na hipercalemia grave com alterações eletrocardiográficas, o gluconato de cálcio EV é a primeira medida, pois estabiliza a membrana miocárdica em minutos (não reduz o potássio, mas protege o coração). Resina de troca remove potássio pelo trato gastrointestinal, mas tem ação lenta. Furosemida aumenta a excreção renal, porém é insuficiente na disfunção renal e ação lenta. Bicarbonato e insulina/glicose deslocam potássio para o intracelular (ação intermediária), mas não protegem imediatamente a membrana. Hemodiálise é definitiva, mas leva tempo para ser instalada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números na ordem em que a questão os usa. Faixa normal: 3,5 a 5,0 mEq/L. Hipercalemia leve 5,0 a 5,5; moderada 5,5 a 6,0; grave acima de 6,0. Distribuição: 98% do potássio corporal é intracelular. Prevalência global em adultos 6,3% (IC 95% 5,8 a 6,8), incidência 2,8 casos por 100 pessoas-ano; 14,6% na doença renal crônica não dialítica e 33,3% na dialítica; 25% a 41% em brasileiros com doença renal crônica em acompanhamento nefrológico. Eletrocardiograma: de 344 hipercalêmicos, 189 (55%) com alteração e 155 (45%) sem; entre os 189, alteração de onda P em 98 (52%) e T apiculada em 84 (45%) — ou seja, T apiculada em 24,4% do total. Escada: cálcio (protege, não abaixa) → insulina 10 U com 25 a 50 g de glicose (ou 5 U / 0,1 U/kg) + salbutamol nebulizado 10 mg (queda de 0,62 a 1,636 mEq/L, pico em 1 a 4 h) + bicarbonato se pH < 7,2 e bicarbonato sérico < 15 → furosemida, quelante, diálise. Quelantes: resina horas a dias; patiromer cerca de 7 h; ciclossilicato de zircônio sódico cerca de 1 h, correção 10 g três vezes ao dia e manutenção 5 g/dia (máximo 10 g/dia), suspender se potássio < 3,0 mmol/L. Diálise: potássio > 6,5 refratário, ou > 5,5 com alteração de eletrocardiograma. SUS: Portaria SECTICS/MS nº 26, de 12/05/2025 (DOU de 15/05/2025), doença renal crônica estágios 4 e 5. Rename 2024: cloreto de potássio 19,1% = 2,56 mEq/mL; bicarbonato 8,4% = 1 mEq/mL.

em 30 dias

Reconstrua o capítulo por cinco perguntas, sem consultar. Primeira: 'por que o número mente?' — diga onde mora 98% do potássio, nomeie os dois balanços que governam a calemia e liste as causas de pseudo-hipercalemia e de pseudo-hipocalemia. Segunda: 'o traçado decide o quê?' — escreva a sequência clássica das faixas, mostre onde elas se sobrepõem, diga qual proporção de hipercalêmicos tem alteração eletrocardiográfica e qual achado se associa a evento adverso. Terceira: 'qual é a ordem?' — escreva os quatro degraus e, ao lado de cada um, o que ele NÃO faz; marque quais escondem o potássio e quais o removem. Quarta: 'o que existe no SUS?' — cite a concentração exata do cloreto de potássio e do bicarbonato da Rename, refaça a conversão de mg/mL para mEq/mL e diga o que foi incorporado em 2025, para qual estágio e por qual portaria. Quinta: 'como acho a causa?' — desenhe os três eixos da hipocalemia (pressão, ácido-base, potássio urinário) e os três da hipercalemia (filtração, medicamentos, eixo da aldosterona), sem esquecer a categoria da liberação celular maciça. Termine resolvendo de novo o caso com um dado trocado: se aquele mesmo paciente estivesse ANÚRICO em programa de hemodiálise, o que sairia da escada e o que passaria a decidir sozinho.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 66 anos, com doença renal crônica avançada e em uso de losartana, espironolactona e anti-inflamatório, chega bradicárdico e fraco, com potássio de 7,1 mmol/L na gasometria e QRS alargado no eletrocardiograma. Conduza: diga o que o traçado autoriza fazer agora, prescreva a escada inteira na ordem, nomeie o que cada degrau faz e o que ele NÃO faz, defina em que ponto a diálise deixa de ser opção e vira indicação, e explique o que você faz com os anti-hipertensivos dele depois que o potássio normalizar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Distúrbios do potássio — Preparatório para provas | OsceLabs