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PediatriaNeonatologia

Encefalopatia hipóxico-isquêmica e asfixia perinatal

Três réguas nacionais chamam de asfixia coisas diferentes, e nenhuma delas usa o mesmo minuto do Apgar. Dois documentos da mesma sociedade, publicados com três meses de intervalo, imprimem tabelas diferentes para a mesma decisão — uma com quatro colunas, outra com duas. O critério brasileiro transformou um degrau condicional do protocolo original numa lista de alternativas, afrouxou o excesso de base em uma unidade, perdeu no caminho o piso de peso, e mandou fazer a ressonância numa janela que cruza com a evidência que ele mesmo cita em um único dia.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido a termo (39 semanas), do sexo masculino, nascido de parto vaginal complicado por descolamento prematuro de placenta. Ao nascimento apresentou-se hipotônico, sem esforço respiratório e bradicárdico. Apgar 2 no 1º minuto e 4 no 5º minuto. Necessitou de ventilação com pressão positiva e massagem cardíaca na sala de parto. Gasometria de cordão: pH 6,92 (VR >7,20), BE -16 mEq/L (VR > -12). Com 1 hora de vida, ao exame neurológico: letárgico, hipotonia global, reflexo de Moro incompleto, sucção débil, pupilas mióticas com reação lenta. Peso 3.250 g. Com base no quadro, qual é a conduta prioritária a ser instituída nas próximas horas?

02

Como esse tema cai

Este capítulo começa onde o de reanimação neonatal termina: na admissão da unidade neonatal, com o recém-nascido já ventilado, já aquecido e já pesado. O que se faz do clampeamento ao décimo minuto — passos iniciais, ventilação com pressão positiva, massagem, adrenalina, quando interromper — pertence àquele capítulo e não é reaberto aqui. Vale só repetir a fronteira que ele mesmo escreve: a hipotermia terapêutica não se inicia na sala de parto, e a decisão sobre ela é tomada nas primeiras seis horas de vida, já na unidade neonatal. É essa decisão, e só ela, que este capítulo desmonta.

O que fica de fora do outro lado também é grande. A criança de três anos com hemiparesia espástica e história de sofrimento perinatal tem capítulo próprio em Neurologia Pediátrica, e a discussão de detecção precoce, de instrumentos motores padronizados e de janela de neuroplasticidade é de lá. O prazo ampliado de observação para abrir protocolo de morte encefálica quando a causa primária do coma é hipóxico-isquêmica é do adulto e está na apostila de emergência. E o desconforto respiratório do recém-nascido — membrana hialina, taquipneia transitória, aspiração de mecônio — tem capítulo próprio nesta apostila, onde a asfixia aparece como fator de risco e não como diagnóstico.

O que sobra é um objeto estreito e muito cobrado: como um documento decide que aquele recém-nascido teve asfixia, como decide que ele tem encefalopatia moderada ou grave, e o que exatamente ele manda fazer nas 72 horas seguintes. As três perguntas têm resposta escrita em documento brasileiro, e é justamente por isso que dão questão: os documentos existem, são acessíveis, e discordam entre si em pontos que mudam a conduta à beira do leito.

A estratégia do capítulo é comparar textos, não opinar. Cada vão é mostrado com o que cada documento escreve, com a aritmética refeita e com o recém-nascido concreto que cai no meio. Quando duas fontes se opõem sem que exista árbitro nacional, as duas posições ficam registradas com quem as sustenta, e o que se ensina é a farejar qual delas o enunciado está usando.

03

O que muda decisão

Três réguas para a mesma palavra, e nenhuma marca o mesmo minuto

A palavra asfixia aparece em três instrumentos nacionais diferentes, e cada um a define com um relógio próprio. O primeiro é a classificação internacional de doenças, usada para codificar a declaração de nascido vivo e a de óbito. Nela, a asfixia grave ao nascer vem com índice de Apgar de 0 a 3 no primeiro minuto — a antiga asfixia branca, com pulso abaixo de 100, respiração ausente ou dificultosa, palidez e ausência de tônus. A asfixia leve ou moderada é a de Apgar de 4 a 7 no primeiro minuto, a asfixia azul, em que a respiração normal não se estabelece no primeiro minuto mas a frequência cardíaca já está em 100 ou mais.

O segundo instrumento é o Manual de Vigilância do Óbito Infantil e Fetal do Ministério da Saúde, cujo glossário separa três faixas: sofrimento fetal ou asfixia ao nascer quando o Apgar é menor que 7, asfixia moderada entre 6 e 4, e asfixia grave menor que 4. As duas réguas federais parecem dizer a mesma coisa e não dizem. Um recém-nascido com Apgar exatamente 7 no primeiro minuto cai dentro da faixa de 4 a 7 da classificação de doenças e é codificado como asfixia leve ou moderada; e fica fora do corte do manual, que exige menor que 7. O mesmo número, no mesmo minuto, entra num sistema e não entra no outro.

O terceiro instrumento é o documento de hipotermia terapêutica da sociedade de pediatria, e ele muda o relógio inteiro. Ali, o item de Apgar que conta como evidência de asfixia perinatal é o escore de 5 ou menos no décimo minuto, ao lado da gasometria, do evento agudo perinatal e da necessidade de ventilação com pressão positiva além do décimo minuto. Nenhum dos dois instrumentos federais menciona o décimo minuto, e o documento de sociedade não menciona o primeiro.

O vão fica visível em dois recém-nascidos. O primeiro nasce com Apgar 2 no primeiro minuto, responde à ventilação e chega a 8 no quinto: é asfixia grave na codificação e não preenche o item de Apgar do documento de hipotermia, porque no décimo minuto já está bem. O segundo nasce com Apgar 6 no primeiro minuto, portanto asfixia leve ou moderada na codificação, e permanece em 4 no décimo: preenche o item da sociedade. A criança que o sistema de informação chama de grave não é a mesma que a régua de tratamento chama de asfixiada. O erro que o aluno marca é usar o Apgar do primeiro minuto para decidir hipotermia, porque é o Apgar que ele memorizou.

O manual federal ainda fecha uma porta que passa despercebida. Ao reproduzir a classificação de Wigglesworth expandida adaptada ao Brasil, ele define o grupo da morte intraparto por asfixia, anóxia, sofrimento fetal agudo ou trauma e escreve, dentro da própria definição, que recém-nascidos abaixo de 1.000 gramas podem sofrer asfixia durante o nascimento mas não devem ser registrados nesse grupo — vão para o de imaturidade e prematuridade. Existe, portanto, um peso abaixo do qual a asfixia intraparto é formalmente vedada como causa classificada, ainda que tenha ocorrido.

O degrau que sumiu entre a gasometria e o resto

O documento brasileiro escreve a evidência de asfixia perinatal como uma lista de quatro itens ligados pela palavra ou: gasometria de cordão ou da primeira hora com pH abaixo de 7,0 ou excesso de base de menos 15 ou menor; ou história de evento agudo perinatal; ou Apgar de 5 ou menos no décimo minuto; ou necessidade de ventilação com pressão positiva além do décimo minuto. Lida ao pé da letra, qualquer um dos quatro basta.

O protocolo da rede que originou a tabela reproduzida logo abaixo, nesse mesmo documento, não escreve assim. Ele separa o Passo A em duas vias, e a via depende da gasometria. A via A1 vale quando há gasometria com acidemia profunda: pH de 7,0 ou menos, ou déficit de base de 16 ou mais. A via A2 só se abre em três situações — gasometria indisponível, pH entre 7,01 e 7,15, ou déficit de base entre 10 e 15,9 — e, quando se abre, exige duas coisas somadas: evento agudo perinatal e um entre Apgar de 5 ou menos no décimo minuto ou ventilação iniciada ao nascer e mantida por pelo menos dez minutos.

Duas transformações aconteceram na travessia. O e virou ou: no texto original o evento agudo sozinho nunca qualifica ninguém, e o Apgar do décimo minuto sozinho também não; no nacional, cada um é bilhete completo. E o degrau condicional desapareceu: na origem os itens clínicos só entram quando a gasometria falta ou fica na faixa intermediária; no texto nacional entram sempre, inclusive quando a gasometria é tranquilizadora.

O recém-nascido que mora nesse vão é comum. Trinta e oito semanas, descolamento prematuro de placenta documentado, ventilação com pressão positiva por doze minutos, gasometria de cordão com pH de 7,26 e excesso de base de menos 4. Pela lista brasileira ele tem dois dos quatro itens e o critério está preenchido. Pelo protocolo original, o pH está acima de 7,15 e o déficit de base abaixo de 10 — a via A2 nem chega a abrir, e ele é inelegível. A gasometria que tranquiliza no texto de fora não tranquiliza no de dentro, porque ali ela deixou de ser porteira.

O manual de setembro, do mesmo departamento, dá uma pista de que a leitura condicional era a pretendida: escreve que, a depender do resultado da gasometria, fatores adicionais como Apgar, suporte ventilatório e evento perinatal agudo podem ser necessários. É a frase mais próxima do degrau original em documento brasileiro — e está no texto que remete ao outro para os critérios detalhados, não no que os lista.

Menos quinze, menos dezesseis, e a faixa que fica no meio

O corte de excesso de base tem três valores escritos em textos brasileiros. O documento de 2012, do mesmo relator, escreve menor que menos 16. A revisão publicada no Jornal de Pediatria em 2015, com o mesmo autor entre os assinantes, escreve abaixo de menos 16. O documento de junho de 2020 escreve menor ou igual a menos 15. Entre a primeira versão e a última, a fronteira andou uma unidade para o lado de dentro, e ganhou o sinal de igual.

A unidade parece pequena e não é, porque ela cai exatamente onde o protocolo original coloca a zona de dúvida. Na via A1, o que qualifica sozinho é déficit de base de 16 ou mais. A faixa de 10 a 15,9 não qualifica sozinha: é justamente ela que obriga a abrir a via A2, com evento agudo e mais um item. Ou seja, o valor que o documento brasileiro de 2020 transformou em bilhete direto — menos 15 — é o topo da faixa que o protocolo de origem tratou como insuficiente.

Refaça a conta com um recém-nascido. Trinta e nove semanas, gasometria da primeira hora com pH de 7,22 e excesso de base de menos 15,2. Pelo texto brasileiro de 2020, o item da gasometria está preenchido, ponto final. Pelo texto brasileiro de 2012 e pela revisão de 2015, não está — falta ainda mais de meia unidade. Pelo protocolo original, não só não está preenchido como esse valor específico é o gatilho para exigir mais: sem evento agudo perinatal documentado, ele não entra.

A prova gosta desse ponto por um motivo prático: o enunciado costuma dar o excesso de base com uma casa decimal, e a casa decimal só importa se o candidato souber que existem cortes concorrentes. Diante de menos 15,2, a resposta muda conforme a régua nomeada — a sociedade brasileira de 2020 quer menos 15, o ensaio quer 16. O erro que o aluno marca é decorar um número e aplicá-lo a qualquer enunciado. Some a isso um detalhe de notação: os textos brasileiros escrevem excesso de base com sinal negativo e o protocolo de origem escreve déficit de base com sinal positivo, de modo que alternativa oferecendo déficit de base de menos 16 mistura as duas convenções.

Duas tabelas para a mesma decisão, e elas não têm o mesmo tamanho

O documento de junho de 2020 escreve que existem várias tabelas de escore para indicar hipotermia e que a mais utilizada é a de Sarnat e Sarnat, remetendo à Tabela 1. O cabeçalho impresso da Tabela 1 diz outra coisa: critérios para definição de encefalopatia moderada e grave segundo Shankaran e colaboradores. Não é briga de crédito: as duas tabelas existem e são diferentes. A de Sarnat original estadia em três graus e inclui uma linha de eletrencefalograma; a reproduzida ali tem duas colunas, moderada e grave, e nenhuma linha de eletrencefalograma.

Três meses depois, o manual de orientação do mesmo departamento imprime o Quadro 1 com o título de escore de Sarnat modificado e com quatro colunas: normal, estágio I leve, estágio II moderado e estágio III grave. As categorias são as mesmas seis nos dois — nível de consciência, atividade espontânea, postura, tônus, reflexos primitivos e sistema autonômico —, mas a régua de positividade não é.

Duas grades de caixas de marcação lado a lado: a da esquerda tem quatro colunas, as duas mais à direita em traço firme e as duas mais à esquerda em traço pontilhado; a da direita tem apenas duas colunas em traço firme e é mais estreita, deixando um espaço vazio ao lado.
A mesma decisão, duas tabelas. A de setembro tem quatro colunas e conta apenas os sinais que caem nas duas mais graves; a de junho tem duas colunas e manda contar categorias com alterações. O recém-nascido cujos sinais ficam todos no grau leve ocupa uma coluna que existe numa tabela e não existe na outra.

O documento de junho manda que o recém-nascido apresente pelo menos três categorias com alterações. O manual de setembro manda que existam ao menos três sinais nas categorias moderado ou grave, e acrescenta uma regra de desempate que só ele tem: quando os sinais se distribuem igualmente entre dois níveis, a designação segue o nível mais alto da primeira categoria, o nível de consciência. A diferença entre as duas frases é o que fazer com o sinal leve. Na tabela de quatro colunas, o achado de estágio I é uma alteração em relação ao normal e não conta para elegibilidade; na tabela de duas colunas não existe coluna de estágio I, e quem lê a palavra alterações contra o quadro de quatro colunas conta o grau leve e chega a três.

O recém-nascido órfão dessa fronteira é o hiperalerta. Estágio I é hiperalerta, atividade espontânea normal ou diminuída, leve flexão distal de punho e dedos, tônus em flexão, sucção fraca, Moro normal ou incompleto, midríase leve, taquicardia e taquipneia. São seis categorias alteradas em relação ao normal e zero sinal nas colunas de moderado ou grave. Pelo manual de setembro, ele não é elegível. Pela palavra escrita em junho, um leitor desatento o inclui com folga.

Um segundo detalhe mora na própria tabela: ela tem seis categorias e nove linhas, porque reflexos primitivos se desdobra em sucção e Moro, e sistema autonômico, em pupilas, frequência cardíaca e respiração. A regra conta categorias, não linhas. Quem conta linhas troca uma exigência de três em seis por uma de três em nove e passa a incluir recém-nascido que a régua deixa de fora.

A convulsão que tem bilhete lá fora e não tem linha aqui

O Passo B do protocolo original define exame neurológico anormal como a presença de encefalopatia moderada ou grave, e escreve o que isso significa em uma frase com duas saídas: convulsão ou alteração em pelo menos três das seis categorias da tabela. A convulsão isolada é bilhete completo, sem precisar de nenhuma categoria.

Nenhum dos dois documentos brasileiros tem linha de convulsão na tabela. O de junho lista, no parágrafo imediatamente anterior à Tabela 1, o que deve ser avaliado a cada hora — presença de convulsão, nível de consciência, atividade espontânea, postura, tônus, reflexos e sistema autonômico — e em seguida manda contar três categorias na tabela que não a contém. O de setembro imprime as mesmas seis categorias no Quadro 1, também sem convulsão, e manda contar três sinais nas colunas de moderado ou grave.

O recém-nascido que cai nesse buraco é o que convulsiona e pouco mais. Trinta e oito semanas, evento agudo perinatal, e às quatro horas de vida um episódio de movimentos clônicos de membro superior direito com desvio ocular, revertendo em dois minutos; fora isso, letárgico apenas de forma intermitente, tônus quase normal, sucção presente, Moro completo, pupilas fotorreagentes. Pelo protocolo original, a convulsão sozinha fecha o Passo B. Pelas duas tabelas brasileiras, ele soma uma categoria alterada e não chega a três.

O manual de setembro fornece, sem se propor a isso, o número que torna esse vão maior: a asfixia perinatal é a principal causa de crises convulsivas no recém-nascido, com 40% a 60% da etiologia no nascido a termo, e cerca de 80% das crises dentro da unidade neonatal — inclusive estados de mal — são completamente subclínicas. Refaça a conta pelo que ela significa: se o instrumento de decisão é o exame de beira de leito, quatro em cada cinco crises não estão disponíveis para serem contadas. A régua que dá bilhete à convulsão isolada só funciona com monitorização eletrográfica.

O mesmo manual acrescenta que três dos seis principais ensaios de eficácia usaram alteração no traçado de amplitude integrada como critério de inclusão obrigatório, e que traçado normal nas primeiras seis horas, com sinais clínicos de encefalopatia moderada ou grave, não exclui lesão. Ele indica o método justamente para o exame limítrofe entre leve e moderado. A afirmação de que a decisão independe do eletrencefalograma vale para o quadro inequívoco, e é frágil exatamente na faixa em que o candidato é testado.

A janela de seis horas, e o exame que se repete de hora em hora

A justificativa das seis horas é fisiológica e vem escrita nos dois documentos. A lesão hipóxico-isquêmica tem duas fases separadas por um período de latência: a fase aguda, de necrose neuronal por privação de oxigênio e energia, e a fase tardia, de apoptose, que dura vários dias e responde pelo desfecho de neurodesenvolvimento. Entre elas, um intervalo que não dura mais que seis horas. Resfriar dentro da latência é o que inibe a fase tardia; fora dela, o alvo já não está lá.

Daí decorre uma exigência operacional que a prova cobra e o candidato esquece: o recém-nascido deve ser avaliado a cada hora nas primeiras seis horas de vida pelo neonatologista, com registro em prontuário. Um exame normal na primeira hora não fecha a porta, e o manual de setembro explica por quê — em recém-nascidos com asfixia o grau de encefalopatia pode evoluir rapidamente. O erro que o aluno marca é dar alta da vigilância porque o exame das duas horas estava bom.

A gasometria tem relógio próprio e mais curto: os dois documentos exigem amostra de cordão umbilical ou colhida dentro da primeira hora de vida. Passada a primeira hora, a acidose já começou a se corrigir com a normalização da ventilação e da perfusão, e o número perde o sentido de retrato do insulto. Enunciado que oferece gasometria colhida com três horas de vida oferece um dado que a régua não aceita, por mais convincente que pareça.

Existe uma janela tardia, e ela é motivo de confusão previsível. O protocolo de rede que este capítulo usa como referência é precisamente o da hipotermia iniciada entre 6 e 24 horas, com 96 horas de duração e alvo de 33,5 graus. O manual brasileiro de setembro o menciona, chama o resultado de sugestivo de possível eficácia após análise estatística sofisticada, e conclui que a extensão do efeito neuroprotetor iniciado tardiamente ainda é incerta, mantendo a recomendação de maior evidência em iniciar nas primeiras seis horas e tratar por 72. O relatório clínico americano de 2026 é mais permissivo e registra benefício no tratamento iniciado depois das seis horas, desde que comece dentro das primeiras 24.

Duas durações convivem, portanto, e não são intercambiáveis: 72 horas para o resfriamento iniciado até a sexta hora, e 96 horas no protocolo de início tardio. Alternativa que oferece 96 horas para um recém-nascido admitido com três horas de vida trocou um esquema pelo outro.

Trinta e três e meio é um ponto, não uma faixa

Os dois documentos brasileiros escrevem a temperatura como um valor único: ajustar a temperatura do recém-nascido em 33,5 graus. Não há faixa de tolerância declarada para cima. Para baixo há um limite, e ele é duro: o manual de setembro escreve que resfriar abaixo de 33,0 graus, ou manter a hipotermia por mais de 72 horas, pode aumentar efeitos colaterais e esteve associado a maior mortalidade em ensaios randomizados. O documento de junho transforma o mesmo número em regra de interrupção — hipotermia sustentada com temperatura esofágica ou retal menor que 33 graus, sem resposta às medidas de aquecimento, manda parar o protocolo.

A margem de trabalho, portanto, é de meio grau para baixo e de nada declarado para cima. E o manual de setembro fecha também esse lado: não há evidência de que resfriar acima da temperatura preconizada, ou por menos de 72 horas, traga qualquer benefício. Sub-resfriar e super-resfriar são erros simétricos, e é por isso que o método de escolha é o sistema servo-controlado com aferição contínua por termômetro retal ou esofágico.

A régua internacional vigente não escreve um ponto, escreve uma faixa: o relatório clínico de 2026 fixa 33,5 a 34,5 graus. Repare onde as duas se encaixam. O piso da faixa americana é exatamente o ponto brasileiro, e todo o resto da faixa fica acima dele. Um recém-nascido mantido em 34,0 graus está no meio da faixa lá fora e meio grau acima do alvo aqui — o que, pelo texto brasileiro, é sub-resfriamento sem benefício demonstrado. É um vão que só aparece quando o enunciado dá a temperatura medida em vez da temperatura prescrita.

A bradicardia é a consequência esperada e tem dois pisos escritos. O documento de junho diz que frequência entre 80 e 100 batimentos é comum e não necessita tratamento. O manual de setembro repete a faixa e desce mais: aceita até 70 batimentos, desde que não haja repercussão hemodinâmica, como hipotensão. Enunciado que oferece 74 batimentos com pressão arterial média preservada testa exatamente essa diferença, e tratar a bradicardia nesse cenário é o erro.

Para a pressão, o manual de setembro dá a única faixa numérica que existe: pressão arterial média na faixa crítica de 40 a 60 milímetros de mercúrio, com a ressalva honesta de que a pressão ideal para esse recém-nascido não foi estabelecida. Se a ecocardiografia mostra contração adequada com hipovolemia, cabe expansão com soro fisiológico de 10 a 20 mililitros por quilo, e o mesmo parágrafo avisa que expansões repetidas pioram o edema cerebral. Contratilidade inadequada, ou hipotensão persistente sem hipovolemia, pede inotrópico.

Seis horas ou quinze: o reaquecimento que trocou de duração sem trocar de destino

O destino do reaquecimento é o mesmo nos dois textos: subir de 33,5 até 36,5 graus, portanto 3,0 graus de percurso. O que mudou foi a velocidade. O documento de 2012 escreve um valor único, 0,5 grau por hora. Os documentos de 2020 escrevem uma faixa, 0,2 a 0,5 grau por hora.

Refaça a divisão. A 0,5 grau por hora, três graus levam exatamente seis horas. A 0,2 grau por hora, os mesmos três graus levam quinze horas. A mesma sociedade, com oito anos de diferença, passou de um reaquecimento de seis horas para um que pode durar duas vezes e meia isso — sem que nenhum dos textos diga o que faz escolher uma ponta ou a outra da faixa. E a diferença não é administrativa: o manual de setembro registra que as crises convulsivas são particularmente frequentes no primeiro dia de vida e durante o reaquecimento. Estender o reaquecimento estende justamente a janela de maior risco de crise.

Some as pontas para saber quando o colchão sai. O resfriamento começa até a sexta hora e dura 72 horas, portanto termina entre 72 e 78 horas de vida; some o reaquecimento de 6 a 15 horas e o recém-nascido está normotérmico entre 78 e 93 horas. Noventa e três horas são três dias e vinte e uma horas. Em qualquer combinação das pontas, o colchão sai durante o quarto dia de vida. Guarde esse número, porque ele reaparece na seção da ressonância.

Se surgir crise convulsiva durante o resfriamento ou o reaquecimento, os dois documentos prescrevem o mesmo: fenobarbital, ataque de 20 miligramas por quilo por via endovenosa e manutenção de 5 miligramas por quilo por dia em duas doses — ou seja, 2,5 miligramas por quilo a cada doze horas. Para um recém-nascido de 3,2 quilos, são 64 miligramas de ataque e 8 miligramas de doze em doze horas. O fenobarbital trata crise documentada; nenhum documento brasileiro o prescreve profilaticamente, e oferecê-lo antes da primeira crise é erro clássico de alternativa.

O reaquecimento é também quando o monitor não pode piscar: o documento de junho pede sinais vitais continuamente ou, no mínimo, a cada 30 minutos, e só depois de alcançados os 36,5 graus o colchão é retirado e o recém-nascido volta para a incubadora.

As contraindicações que saíram do papel, e a prescrição que ficou

O documento de 2012 tinha uma seção de contraindicação com dois itens objetivos e mensuráveis: idade gestacional menor que 35 semanas e 0/7 dias e peso de nascimento menor que 1.800 gramas. O documento de junho de 2020 tem seção de contraindicação com um item só, e ele é de outra natureza: recém-nascidos em condição de pré-óbito, ou com malformações complexas ou anormalidades genéticas, nos quais já exista conduta de cuidados paliativos discutida com os pais. A idade gestacional sobreviveu na introdução, como igual ou maior que 35 semanas. O piso de peso desapareceu do texto inteiro.

Não desapareceu da evidência. A revisão brasileira de 2015 mantém peso ao nascer acima de 1.800 gramas entre os critérios, e o ensaio multicêntrico de 2021 usou peso igual ou maior que 1,8 quilo como elegibilidade. O recém-nascido que cai no vão é o pequeno para a idade gestacional: 37 semanas, 1.650 gramas, evento agudo perinatal, encefalopatia moderada. Pela idade gestacional ele entra; pelo peso, estaria fora em 2012 e está fora dos ensaios, e o texto vigente não diz nada sobre ele.

Dentro do próprio documento de junho há uma tensão sobre hipertensão pulmonar que vale ler duas vezes. Nas considerações importantes está escrito que hipertensão pulmonar e uso de óxido nítrico inalatório não são contraindicações ao uso da hipotermia. Na lista de quando interromper está escrito, entre as indicações de reaquecer, hipertensão pulmonar persistente com hipoxemia apesar do tratamento adequado. Não é contraindicação para começar e é motivo para parar — e o documento não escreve onde fica a fronteira. O manual de setembro puxa a corda para o outro lado: o tratamento com óxido nítrico é preconizado e não contraindica a manutenção da hipotermia, e, como não há evidência de eficácia em resfriar por menos de 72 horas, a interrupção deve ser exceção, somente quando todo o arsenal já foi utilizado e há risco iminente de vida.

A prescrição básica esconde uma aritmética que a prova adora. O documento de junho pede aporte hídrico de 50 a 60 mililitros por quilo por dia com velocidade de infusão de glicose de 5 miligramas por quilo por minuto; o manual de setembro desce o piso para 40. A concentração de glicose sai da divisão: a 60 mililitros por quilo por dia a solução tem de ser de 12%; a 50, de 14,4%; a 40, de 18%. Só a ponta mais generosa fica abaixo do limite habitual de 12,5% para veia periférica — e é por isso que o mesmo documento prescreve cateteres em artéria e veia umbilicais. Restringir líquido para proteger o cérebro empurra a glicose para uma concentração que exige acesso central.

Três condutas negativas fecham a seção. Bicarbonato de sódio não se repõe: o manual de setembro registra que não há benefício e que o uso se relaciona a maior mortalidade, por comprometimento da perfusão coronariana, alcalose que inibe a liberação tecidual de oxigênio, hipernatremia, acidose intracelular paradoxal e piora do edema cerebral. Antibiótico de rotina não se faz: o insulto hipóxico-isquêmico isolado não é considerado risco infeccioso. E ventilação mecânica não é obrigatória para resfriar — pressão positiva contínua nasal é aceitável, e a indicação de suporte segue a condição respiratória.

O quarto dia, onde as três janelas da ressonância se cruzam

A ressonância magnética de crânio é o método de escolha para avaliar a lesão, e sobre o dia de fazê-la existem três frases brasileiras. O documento de junho apresenta primeiro a evidência que cita: em recém-nascidos submetidos a hipotermia, o exame realizado entre 2 e 4 dias de vida identifica corretamente as lesões. Em seguida escreve a própria recomendação, e ela não é a mesma: pela dificuldade técnica de fazer ressonância durante a fase de resfriamento, recomenda-se realizá-la no 4º ou 5º dia de vida. O manual de setembro escreve uma terceira: melhor valor prognóstico quando realizada entre o 4º e o 14º dia.

Sobreponha as três. A evidência vai de 2 a 4; a recomendação do primeiro documento vai de 4 a 5; a do segundo vai de 4 a 14. O único dia que pertence às três é o quarto. Não é coincidência aritmética, é consequência da máquina: como se calculou na seção do reaquecimento, o colchão sai entre 78 e 93 horas de vida, ou seja, durante o quarto dia. A recomendação foi desenhada pelo momento em que o recém-nascido fica fisicamente disponível, e o documento diz isso com todas as letras ao justificar pela dificuldade técnica.

O ultrassom de crânio ocupa outro papel e não substitui a ressonância. É amplamente disponível, feito à beira do leito, sem efeito colateral, e pode ser repetido depois do reaquecimento; associado ao Doppler, permite calcular o índice de resistência, cuja anormalidade precoce se correlacionou a lesão neurológica — mas com menor poder prognóstico justamente em quem recebeu hipotermia.

O traçado de amplitude integrada também muda de valor com o tratamento. Em recém-nascidos não resfriados, as alterações eletrográficas têm maior valor preditivo de morte ou atraso quando persistem até 24 a 36 horas de vida. Em resfriados, o padrão tem maior valor preditivo quando persiste anormal até 48 a 72 horas. O tratamento empurra o relógio prognóstico para frente, e concluir prognóstico às 24 horas em quem está resfriando é ler a régua errada.

Fecha o quadro o acometimento fora do cérebro, que é multissistêmico e cai como pergunta de órgão-alvo. A lesão renal aguda ocorre em até 56% dos casos, com oligúria e elevação de ureia e creatinina — necrose tubular aguda por redistribuição de fluxo, e o manual pede sondagem vesical de demora na oligúria e alerta para não postergar diálise peritoneal na oligoanúria persistente. A hiponatremia é frequente e dilucional, por secreção aumentada de hormônio antidiurético, injúria renal e redução das perdas insensíveis durante o resfriamento. E há uma complicação de pele rara e autolimitada que rende pegadinha: a necrose gordurosa subcutânea, com nódulos indolores em dorso, membros e nádegas, cuja complicação sistêmica mais grave é a hipercalcemia.

04

As réguas do tema, lado a lado

Três quadros resolvem a maior parte das questões: qual documento chama o quê de asfixia e em que minuto, como o critério de gasometria se organiza em degraus no texto original e em lista no brasileiro, e o que mudou de número entre as três versões nacionais.

O minuto muda o dono da palavra

A classificação de doenças ancora asfixia no primeiro minuto; o manual federal de vigilância usa cortes próprios; o documento de hipotermia usa o décimo minuto. Antes de responder, veja qual relógio o enunciado nomeou.

Duas horas que não se misturam

Gasometria só vale se de cordão ou colhida na primeira hora. O exame neurológico se repete de hora em hora até a sexta. Uma janela fecha em 60 minutos, a outra em 6 horas.

Categoria não é linha

A tabela tem seis categorias e nove linhas. A régua manda contar três categorias com alteração. Contar linhas troca três em seis por três em nove e inclui quem a régua exclui.

Três graus, e o colchão sai no quarto dia

De 33,5 a 36,5 são 3,0 graus. A 0,5 por hora, seis horas; a 0,2, quinze. Somado às 72 horas de resfriamento iniciado até a sexta hora, o reaquecimento termina no quarto dia de vida.

O que cada documento chama de asfixia, e em que minuto

DocumentoComo defineQual minuto do ApgarPara que serve
Classificação de doenças, categoria P21Grave: Apgar 0 a 3. Leve ou moderada: Apgar 4 a 7Primeiro minutoCodificar nascimento e óbito nos sistemas de informação
Manual de Vigilância do Óbito Infantil e Fetal (Ministério da Saúde, 2ª ed., 2009)Asfixia ao nascer: Apgar menor que 7. Moderada: entre 6 e 4. Grave: menor que 4O glossário ancora nos primeiros minutos de vidaInvestigar e classificar evitabilidade do óbito
Documento de hipotermia da sociedade de pediatria (junho de 2020)Um entre: pH abaixo de 7,0; excesso de base de menos 15 ou menor; evento agudo perinatal; Apgar de 5 ou menos; ventilação com pressão positiva além do décimo minutoDécimo minutoDecidir elegibilidade para hipotermia terapêutica
Protocolo da rede de pesquisa neonatal (versão 1.2, 2008)Via com gasometria: pH de 7,0 ou menos, ou déficit de base de 16 ou mais. Via sem gasometria ou intermediária: evento agudo e mais um itemDécimo minuto, dentro da segunda viaElegibilidade em ensaio clínico

O critério de gasometria: degrau no original, lista no nacional

Resultado da gasometria de cordão ou da 1ª horaO que o protocolo original exigeO que o texto brasileiro exige
pH de 7,0 ou menos, ou déficit de base de 16 ou maisNada mais — a via direta está abertaNada mais — item preenchido
pH entre 7,01 e 7,15, ou déficit de base entre 10 e 15,9Evento agudo perinatal E (Apgar de 5 ou menos no 10º minuto OU ventilação por pelo menos 10 minutos)Excesso de base de menos 15 já preenche sozinho; abaixo disso, qualquer um dos outros três itens também preenche
Gasometria indisponívelMesma exigência somada da via intermediáriaQualquer um dos três itens clínicos preenche
pH acima de 7,15 e déficit de base abaixo de 10Inelegível — nenhuma das duas vias abreQualquer um dos três itens clínicos preenche

O que mudou entre as três versões brasileiras

ItemDocumento de 2012Documento nº 4, junho de 2020Manual nº 8, setembro de 2020
Excesso de baseMenor que menos 16Menor ou igual a menos 15Remete ao documento nº 4
Idade gestacionalContraindica abaixo de 35 semanas e 0/7 diasIgual ou maior que 35 semanas, na introduçãoSegue o documento nº 4
Peso ao nascerContraindica abaixo de 1.800 gramasNão aparece no textoNão aparece no texto
Reaquecimento0,5 grau por hora0,2 a 0,5 grau por hora0,2 a 0,5 grau por hora
Aporte hídrico inicial50 mL/kg/dia50 a 60 mL/kg/dia40 a 60 mL/kg/dia
Alimentação durante o resfriamentoJejumEnteral mínima, 10 a 20 mL/kg/diaSegura no hemodinamicamente estável; os ensaios pivotais mantiveram jejum
Tabela de encefalopatiaSem tabela; lista os domíniosDuas colunas, creditada a Shankaran, chamada de Sarnat no textoQuatro colunas, chamada de Sarnat modificado
Regra de positividadeNão escreveAo menos três categorias com alteraçõesAo menos três sinais nas colunas moderado ou grave
Bradicardia tolerada80 a 100 batimentos80 a 100 batimentosAté 70 batimentos sem repercussão

Excesso de base e déficit de base são a mesma grandeza com sinal trocado: excesso de base de menos 16 equivale a déficit de base de 16. Os textos brasileiros usam a primeira convenção e o protocolo de origem, a segunda.

As seis categorias da tabela de encefalopatia são nível de consciência, atividade espontânea, postura, tônus, reflexos primitivos e sistema autonômico. Reflexos primitivos se desdobra em sucção e Moro; sistema autonômico, em pupilas, frequência cardíaca e respiração. São nove linhas para seis categorias.

O tempo total de resfriamento é de 72 horas no esquema iniciado até a sexta hora, e de 96 horas no protocolo de início tardio entre 6 e 24 horas. Trocar as duas durações é o erro de leitura mais comum quando o enunciado menciona início tardio.

Os números de temperatura do capítulo: alvo de 33,5 graus; interrupção se menor que 33,0 sustentada; faixa de 33,5 a 34,5 no relatório clínico americano de 2026; reaquecimento até 36,5 graus.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Idade gestacional mínima para indicar hipotermia terapêutica

Trinta e cinco semanas completas

O documento brasileiro afirma que, na atualização do programa de reanimação neonatal, há recomendação formal de uso de hipotermia terapêutica no tratamento precoce do recém-nascido com idade gestacional igual ou maior que 35 semanas e diagnóstico de encefalopatia hipóxico-isquêmica. A versão de 2012 do mesmo texto contraindicava expressamente abaixo de 35 semanas e 0/7 dias, e a revisão brasileira de 2015 registra idade gestacional acima de 35 semanas.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 4 do Departamento Científico de Neonatologia, junho de 2020, introdução e indicação; documento de 20/01/2012, seção de contraindicação; Silveira RC e Procianoy RS, Jornal de Pediatria, 2015

Trinta e seis semanas completas

O relatório clínico americano de fevereiro de 2026 recomenda hipotermia para recém-nascidos de 36 semanas e 0/7 dias ou mais com encefalopatia moderada a grave, e não recomenda o tratamento abaixo de 36 semanas. Para os nascidos com 35 semanas, escreve que os estudos não demonstraram benefício nem dano conclusivos e que o clínico pode, em casos selecionados, decidir com a família. Os dois grandes ensaios usados como referência recrutaram a partir de 36 semanas.

American Academy of Pediatrics, Therapeutic Hypothermia for Neonatal Hypoxic-Ischemic Encephalopathy: Clinical Report, Pediatrics, fevereiro de 2026; protocolo da rede de pesquisa neonatal versão 1.2, 2008; ensaio multicêntrico de 2021 na Lancet Global Health

Na prova

A pista está em quem o enunciado nomeia. Enunciado que cita a sociedade brasileira, o programa de reanimação neonatal ou um serviço público do país trabalha com 35 semanas. Enunciado que cita o relatório clínico americano, ou que descreve um recém-nascido de 35 semanas e pergunta se há indicação formal, está no território em que a régua de fora não recomenda e deixa a decisão individualizada. Um detalhe ajuda a lembrar de que lado o país está: as diretrizes brasileiras de reanimação se dividem em duas faixas, abaixo e a partir de 34 semanas — o algoritmo de sala de parto cobre desde as 34, e a escada de neuroproteção só começa uma semana depois.

Hipotermia terapêutica em país de renda média

Deixar de fazer pode ser omissão

O documento brasileiro encerra afirmando que, diante das evidências acumuladas há mais de uma década, pode-se considerar omissão não instituir a hipotermia terapêutica a pacientes asfixiados, e que o procedimento não depende de arsenal sofisticado, podendo ser realizado na maior parte das unidades de cuidado intensivo neonatais do país. O mesmo texto, porém, descreve a hipotermia passiva com berço desligado e medidas de resfriamento como modalidade em que é difícil controlar e manter a temperatura, e escreve que todos os esforços devem ser empreendidos para uso da tecnologia correta.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 4, junho de 2020, seções Modo de Fazer e considerações finais

Não deve ser oferecida em países de renda baixa e média

O ensaio multicêntrico publicado em 2021 randomizou 408 recém-nascidos de 36 semanas ou mais e 1,8 quilo ou mais, admitidos em até 6 horas com encefalopatia moderada ou grave, em sete unidades terciárias da Índia, do Sri Lanka e de Bangladesh, para resfriamento de corpo inteiro a 33,5 graus por 72 horas com dispositivo servo-controlado ou cuidado usual. O desfecho combinado de morte ou incapacidade moderada a grave aos 18 a 22 meses não diferiu, com risco relativo de 1,06 e intervalo de 95% de 0,87 a 1,30. A mortalidade isolada foi maior no grupo resfriado, com risco relativo de 1,35 e intervalo de 1,04 a 1,76. Os autores concluem que a hipotermia não deve ser oferecida como tratamento da encefalopatia neonatal nesses países, mesmo quando há unidade de terapia intensiva neonatal terciária disponível.

Thayyil S, Pant S, Montaldo P, et al. HELIX. The Lancet Global Health. 2021;9(9):e1273-e1285

Na prova

As duas posições não se anulam por decreto, e o capítulo não escolhe entre elas: o documento brasileiro é de junho de 2020 e o ensaio saiu em agosto de 2021, um ano depois, e o Brasil não integrou o estudo nem pertence à mesma faixa de renda dos três países que o fizeram. O que a prova cobra é reconhecer o recorte. Enunciado que fala em conduta padrão no país, em documento de sociedade brasileira ou em responsabilidade profissional pede a indicação formal. Enunciado que descreve o ensaio, que cita países de renda baixa e média, ou que oferece números de mortalidade com intervalo de confiança está pedindo a leitura do ensaio. Vale ter a aritmética pronta: 84 mortes em 198 são 42,4%, contra 63 em 201, ou 31,3% — uma diferença de 11,1 pontos percentuais, ou seja, uma morte adicional a cada nove recém-nascidos resfriados naquele cenário.

Alimentar ou manter jejum durante as 72 horas de resfriamento

Jejum, como nos ensaios

A versão de 2012 do documento brasileiro prescreve jejum, com nutrição por via venosa. O manual de setembro de 2020 registra que os grandes ensaios clínicos que forneceram a evidência de eficácia mantiveram jejum durante o resfriamento, e explica o racional: a soma de peristaltismo diminuído, fluxo sanguíneo gastrintestinal prejudicado e substrato intraluminal alimenta a cascata pró-inflamatória que leva à necrose intestinal.

Sociedade Brasileira de Pediatria, documento de 20/01/2012, prescrição básica; Manual de Orientação nº 8, setembro de 2020, seção de nutrição e alimentação

Nutrição enteral mínima com leite materno

O documento de junho de 2020 prescreve nutrição enteral mínima ou trófica com leite materno da própria mãe ou leite humano, de 10 a 20 mililitros por quilo por dia, iniciada logo após a estabilização, afirmando que é segura e traz efeitos benéficos sobre morbidade gastrintestinal e tolerância alimentar; ressalva que volumes acima de 20 mililitros por quilo por dia podem não ser seguros porque a perfusão do trato gastrintestinal pode estar diminuída durante a hipotermia. O manual de setembro acompanha, acrescentando que a enterocolite não é comumente observada na população resfriada e limitando a segurança descrita ao recém-nascido hemodinamicamente estável.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 4, junho de 2020, prescrição básica; Manual de Orientação nº 8, setembro de 2020, seção de nutrição e alimentação

Na prova

A divergência é entre o que os ensaios fizeram e o que os documentos brasileiros passaram a recomendar depois deles, e a chave de leitura é a estabilidade hemodinâmica. Enunciado que descreve recém-nascido em droga vasoativa, com hipotensão ou com sinais de má perfusão está no terreno em que nenhum dos textos autoriza alimentar. Enunciado que descreve recém-nascido resfriado e estável, e oferece leite materno em volume trófico, está usando a recomendação brasileira vigente — e a alternativa que proíbe qualquer aporte enteral pela simples presença do colchão está aplicando o protocolo de 2012.

06

Caso resolvido

Recém-nascido do sexo masculino, 37 semanas e 2 dias por data da última menstruação confiável, 1.680 gramas, parto vaginal em maternidade de referência após descolamento prematuro de placenta com desacelerações tardias no traçado. Nasce hipotônico e sem esforço respiratório, recebe ventilação com pressão positiva por máscara e depois por cânula traqueal, com melhora da frequência cardíaca aos 4 minutos e retorno da respiração espontânea aos 9. Apgar 2 no primeiro minuto, 5 no quinto e 7 no décimo. Gasometria arterial colhida aos 40 minutos de vida: pH 7,19; excesso de base de menos 15,4. Chega à unidade neonatal com 1 hora e 20 minutos de vida, em pressão positiva contínua nasal, com saturação de 95%. Ao exame das 2 horas: letárgico, atividade espontânea diminuída, tônus com hipotonia generalizada, sucção fraca, Moro incompleto, pupilas mióticas, frequência cardíaca de 118 e respiração regular. Não houve crise convulsiva. A equipe pergunta se ele entra em hipotermia terapêutica.
Fechar a janela do relógio antes de olhar o número
Duas janelas correm em paralelo e ambas estão cumpridas. A gasometria foi colhida aos 40 minutos, dentro da primeira hora de vida, e por isso é aceita pelos dois documentos. O exame neurológico está sendo feito às 2 horas, dentro das 6 horas, e a regra manda repeti-lo de hora em hora até a sexta hora — de modo que um exame duvidoso agora não encerra a avaliação. Gasometria colhida depois da primeira hora seria dado inútil para a decisão, por mais alarmante que fosse.
Testar o critério de asfixia pela régua brasileira
Pelo documento vigente da sociedade, basta um dos quatro itens. Ele tem pelo menos dois: excesso de base de menos 15,4, que satisfaz o corte de menos 15 ou menor, e história de evento agudo perinatal documentado. O Apgar do décimo minuto é 7, portanto o item de Apgar não conta, e a ventilação com pressão positiva cessou antes do décimo minuto, portanto o quarto item também não. Dois itens preenchidos bastam, e sobram.
Conferir o que o protocolo de origem diria — e por que a resposta muda
Pelo protocolo da rede de pesquisa, o pH de 7,19 está acima de 7,15 e o déficit de base de 15,4 está dentro da faixa intermediária de 10 a 15,9. Nenhuma das duas vias se abre pelo caminho direto; a via intermediária exigiria evento agudo somado a Apgar de 5 ou menos no décimo minuto ou ventilação mantida por dez minutos, e ele não tem nenhum dos dois. O mesmo recém-nascido é elegível no Brasil e inelegível no texto de origem. A resposta de prova segue a régua que o enunciado nomear.
Contar as categorias, não as linhas
Nível de consciência letárgico, atividade espontânea diminuída, tônus hipotônico, reflexos primitivos com sucção fraca e Moro incompleto, e pupilas mióticas no sistema autonômico. São cinco categorias com sinais nas colunas de moderado — a única categoria sem alteração declarada é a postura. A exigência é de três; ele preenche com folga. Note que frequência cardíaca de 118 e respiração regular são normais, e ainda assim o sistema autonômico conta, porque a miose já o coloca na coluna de moderado.
Enfrentar o peso, que o texto vigente não menciona
Ele tem 1.680 gramas, abaixo do piso de 1.800 gramas que o documento de 2012 listava como contraindicação, que a revisão brasileira de 2015 mantém e que o ensaio multicêntrico de 2021 usou como elegibilidade. O texto de junho de 2020 não repete esse piso em lugar nenhum: sua única contraindicação é condição de pré-óbito, malformação complexa ou anormalidade genética com cuidados paliativos já pactuados. Pela idade gestacional de 37 semanas ele entra; pelo peso, estaria fora de tudo que gerou a evidência. É o vão em estado puro, e a decisão à beira do leito precisa ser explicitamente registrada e discutida com a família, porque o documento vigente não a resolve.
Escrever a prescrição com os números certos
Alvo de 33,5 graus medidos por termômetro esofágico ou retal, por 72 horas, iniciado antes das 6 horas de vida, preferencialmente em sistema servo-controlado. Aporte hídrico restrito, velocidade de infusão de glicose de 5 miligramas por quilo por minuto por cateter umbilical, analgesia opioide em dose baixa, plaquetas mantidas acima de 50 mil, e monitorização eletrográfica desde o início do resfriamento. Ao fim das 72 horas, reaquecer a 0,2 a 0,5 grau por hora até 36,5 graus, com sinais vitais a cada 30 minutos — é durante o reaquecimento que as crises mais aparecem. Ressonância no quarto dia, o único que pertence às três janelas escritas.
07

Agora feche você

Recém-nascido do sexo feminino, 39 semanas, 3.240 gramas, cesariana de urgência por bradicardia fetal sustentada. Nasce em apneia, recebe ventilação com pressão positiva e responde bem; Apgar 3 no primeiro minuto, 7 no quinto. Gasometria de cordão: pH 7,27; excesso de base de menos 3,8. Admitida na unidade neonatal com 50 minutos de vida em ar ambiente. Ao exame das 3 horas: hiperalerta e irritável, respondendo a mínimos estímulos, atividade espontânea presente, leve flexão distal de punho e dedos, tônus em flexão, sucção fraca, Moro incompleto, midríase leve, frequência cardíaca de 172 e respiração de 68 por minuto. Não houve crise convulsiva. O plantonista quer iniciar resfriamento porque, segundo ele, há seis categorias alteradas.
Item de asfixia
Percorra os quatro itens do critério brasileiro e diga quantos ela preenche. Considere o pH de 7,27, o excesso de base de menos 3,8, o Apgar do décimo minuto que o enunciado não informou, e o tempo de ventilação com pressão positiva que ele também não informou. Escreva qual informação você precisaria pedir para fechar o critério, e por que a gasometria, do jeito que está, não o fecha.
Estágio da encefalopatia
Distribua os seis achados nas colunas do quadro de quatro colunas: hiperalerta que responde a mínimos estímulos, atividade espontânea presente, leve flexão distal de punho e dedos, tônus em flexão, sucção fraca com Moro incompleto, midríase leve com taquicardia e taquipneia. Diga em qual coluna cai cada categoria e qual é o nível predominante.
Desmontar o argumento do plantonista
Ele contou seis categorias alteradas em relação ao normal. Explique por que a régua escrita no manual de orientação não conta assim, transcrevendo mentalmente a frase que exige três sinais em colunas específicas. Diga quantos sinais ela tem nessas colunas.
A conduta, e a régua de fora
Defina a conduta para as próximas horas, incluindo o que fazer com o exame neurológico até a sexta hora e o que a monitorização eletrográfica acrescentaria neste caso específico. Depois, diga o que o relatório clínico americano de 2026 escreve sobre resfriar encefalopatia leve fora de protocolo de pesquisa.
A pergunta da família
A mãe pergunta se a filha terá paralisia cerebral. Responda em duas frases, sem prometer e sem assustar, e diga que exame de imagem e que acompanhamento você programa — lembrando qual é a janela de melhor valor prognóstico da ressonância e por que o traçado eletrográfico tem relógios prognósticos diferentes em quem foi e em quem não foi resfriado.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Usar o Apgar do primeiro minuto para decidir hipotermia O Apgar do primeiro minuto é o que ancora a classificação de doenças e o que o candidato memorizou na graduação. O item de Apgar do critério de elegibilidade é outro: escore de 5 ou menos no décimo minuto. Vinheta que entrega Apgar 2 no primeiro minuto e 8 no quinto está oferecendo asfixia grave na codificação e nenhum item de Apgar para hipotermia.
  2. 2Ler os quatro itens de asfixia como se fossem cumulativos O texto brasileiro liga os quatro itens pela palavra ou, e um só basta. É o protocolo de origem que exige combinações, e só na via aberta pela gasometria intermediária ou ausente. Alternativa que diz ser necessário preencher gasometria e Apgar e evento agudo está aplicando ao texto nacional uma exigência que ele não faz.
  3. 3Iniciar ou justificar hipotermia pela sala de parto Não se desliga a fonte de calor radiante nem se inicia resfriamento na sala de parto. Durante a reanimação o alvo é normotermia, e a hipertermia acima de 38 graus agrava a lesão do asfixiado. A decisão sobre hipotermia é tomada nas primeiras 6 horas, já na unidade neonatal, e a avaliação neurológica que a sustenta é feita de hora em hora até a sexta hora.
  4. 4Contar linhas da tabela em vez de categorias A tabela tem nove linhas e seis categorias, porque reflexos primitivos e sistema autonômico se desdobram. A régua manda três categorias com alteração, ou três sinais nas colunas de moderado e grave, conforme o documento. Contar linhas afrouxa a exigência de metade para um terço e inclui recém-nascido inelegível.
  5. 5Tratar a bradicardia do resfriamento Frequência entre 80 e 100 batimentos é esperada durante o resfriamento e não pede tratamento; o manual de orientação aceita até 70, desde que sem repercussão hemodinâmica. O que se trata é hipotensão, com inotrópico, e não o número da frequência cardíaca isolado.
  6. 6Prescrever fenobarbital antes da primeira crise O fenobarbital aparece nos dois documentos como tratamento de crise convulsiva instalada, com ataque de 20 miligramas por quilo e manutenção de 5 miligramas por quilo por dia em duas doses. Nenhum texto brasileiro o prescreve profilaticamente ao asfixiado, e a alternativa que o oferece antes de qualquer crise está inventando indicação.
  7. 7Corrigir a acidose com bicarbonato A acidose do recém-nascido asfixiado tende a melhorar espontaneamente com normalização da ventilação e da perfusão. Repor bicarbonato não tem benefício demonstrado e se associa a maior mortalidade, com piora do edema cerebral, hipernatremia, hiperosmolaridade e acidose intracelular paradoxal. Vinheta com pH baixo e alternativa de bicarbonato em bolus é armadilha frequente.
  8. 8Trocar 72 horas por 96 Setenta e duas horas é a duração do resfriamento iniciado até a sexta hora. Noventa e seis horas é a duração do protocolo de início tardio, entre 6 e 24 horas de vida, cuja extensão do efeito ainda é considerada incerta em documento brasileiro. Enunciado que descreve admissão precoce e alternativa que oferece 96 horas está trocando os dois esquemas.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o RN é a termo, com evidência de asfixia perinatal (evento sentinela — DPP, Apgar baixo prolongado, necessidade de reanimação, pH de cordão <7,0 e BE < -12) e encefalopatia moderada ao exame (letargia, hipotonia, reflexos alterados). Preenche os critérios A+B+C para hipotermia terapêutica, que deve ser iniciada idealmente até 6 horas de vida, mantendo 33,5–34,5 °C por 72 h — única intervenção com redução comprovada de morte e sequela neurológica. Fenobarbital profilático não é indicado; só se tratam crises documentadas. Exsanguineotransfusão trata hiperbilirrubinemia/isoimunização, não asfixia. Bicarbonato em bolus não corrige a causa e associa-se a piora (hipernatremia, hemorragia intraventricular); a acidose se resolve com ventilação/perfusão adequadas. Aguardar EEG atrasaria a hipotermia, cuja eficácia é tempo-dependente (janela de 6 h) — não se deve postergar.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória uma linha do tempo do nascimento até 96 horas e marque cinco pontos: a hora limite da gasometria, a hora limite para iniciar o resfriamento, o fim das 72 horas, as duas pontas do reaquecimento, e o dia da ressonância. Ao lado, some as pontas e confirme por que o colchão sai no quarto dia. Depois desenhe duas tabelas vazias, uma com quatro colunas e outra com duas, escreva as seis categorias em ambas e a regra de positividade de cada documento embaixo — e marque com um traço a coluna que existe numa e não existe na outra. Por fim, escreva os três cortes de excesso de base em ordem, com o ano de cada um, e a faixa intermediária de 10 a 15,9 no meio deles.

em 30 dias

Refaça as três aritméticas sem consultar: reaquecimento de 3,0 graus a 0,5 e a 0,2 por hora; concentração de glicose necessária para uma velocidade de infusão de 5 miligramas por quilo por minuto a 40, 50 e 60 mililitros por quilo por dia; e a diferença de mortalidade do ensaio de 2021, de 84 em 198 contra 63 em 201, até chegar ao número de recém-nascidos resfriados por morte adicional. Em seguida, liste em três colunas as três definições nacionais de asfixia com o minuto do Apgar de cada uma e escreva ao lado o recém-nascido que entra numa e não entra na outra. Feche revisando as quatro situações de interrupção do documento de junho contra a frase do manual de setembro que restringe a interrupção a caráter de exceção, e diga qual das quatro é a que os dois textos tratam de modo oposto.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é chamado à unidade neonatal para avaliar um recém-nascido a termo admitido há uma hora após parto complicado por descolamento prematuro de placenta. Faça a coleta dirigida ao que decide: idade gestacional e peso ao nascer, evento agudo perinatal documentado, Apgar do primeiro, do quinto e do décimo minutos, tempo total de ventilação com pressão positiva, e se há gasometria de cordão ou colhida dentro da primeira hora, com pH e excesso de base. Em seguida faça o exame neurológico percorrendo as seis categorias na ordem — nível de consciência, atividade espontânea, postura, tônus, reflexos primitivos com sucção e Moro, e sistema autonômico com pupilas, frequência cardíaca e respiração — e registre em qual coluna cai cada uma, anotando a hora do exame. Pergunte se houve movimento anormal desde o nascimento e explique à equipe por que a ausência de crise ao exame não afasta crise. Ao final, diga em voz alta se o critério de asfixia está preenchido e por qual item, quantas categorias sustentam a encefalopatia, quanto tempo resta da janela de seis horas, e o que você quer reavaliado na próxima hora. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Encefalopatia hipóxico-isquêmica e asfixia perinatal — Preparatório para provas | OsceLabs