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PediatriaNeonatologia

Doença da membrana hialina

Desconforto respiratório do recém-nascido: doença da membrana hialina

O desconforto que piora até as 48 horas — e a janela em que o surfactante ainda muda o desfecho

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido do sexo masculino, nascido de parto cesáreo por sofrimento fetal, idade gestacional de 30 semanas, peso 1.350 g, filho de mãe diabética sem uso de corticoide antenatal. Nos primeiros 30 minutos de vida evolui com taquipneia (FR 78 ipm), gemência expiratória, batimento de asa de nariz, tiragem intercostal e subdiafragmática e cianose em ar ambiente, com piora progressiva. À ausculta, murmúrio vesicular difusamente diminuído. A radiografia de tórax mostra infiltrado reticulogranular difuso (padrão em "vidro fosco") com broncogramas aéreos e redução do volume pulmonar. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

A sala de parto não é assunto deste capítulo. O que se faz do clampeamento ao décimo minuto — passos iniciais, minuto de ouro, saturação-alvo por minuto, quando intubar — tem capítulo próprio nesta apostila e não é invadido aqui. O corticoide antenatal também não é daqui: o esquema, a janela de idade gestacional e o ciclo de resgate pertencem aos capítulos de trabalho de parto prematuro e de rotura de membranas, e entram nestas páginas apenas onde mudam a decisão neonatal. Sepse neonatal, icterícia e as complicações tardias do prematuro — hemorragia peri-intraventricular, retinopatia, apneia da prematuridade — também têm cada uma o seu lugar.

O que fica aqui é a doença: o pulmão que não fez surfactante, o desconforto que começa cedo e piora, a radiografia que só se torna típica depois de algumas horas, e a decisão que tem hora marcada. A taquipneia transitória e a síndrome de aspiração do mecônio aparecem como diferenciais, com o traço da história que separa cada uma — não como tema desenvolvido.

O eixo do capítulo é um desencontro de calendários. A doença é definida por critérios que só se completam entre 6 e 24 horas de vida, e o tratamento que muda desfecho tem janela preferencial nas primeiras duas horas. Quem espera fechar o diagnóstico perde a janela; quem trata sem fechar precisa saber quais outras doenças imitam o quadro. Metade das questões difíceis do tema mora nesse intervalo.

A outra metade mora numa divergência de números que não é acadêmica. O guia federal, os documentos de sociedade e as bulas dos dois surfactantes disponíveis discordam sobre o limiar de oxigênio que indica a droga, sobre a dose de partida, sobre o intervalo entre doses e sobre a faixa de saturação que se persegue depois. Nenhum revogou o outro. Saber qual documento o enunciado citou vale mais do que ter preferência por um deles.

03

O que muda decisão

O pulmão que não terminou de se preparar

O surfactante pulmonar é a película que reveste o alvéolo e reduz a tensão superficial na interface ar-líquido. Segundo o guia federal, é composto por cerca de 90% de lipídios e 10% de proteínas, tem a fosfatidilcolina saturada como principal componente tensoativo e quatro apoproteínas — nomeadas de SP-A a SP-D — que determinam sua função e seu metabolismo.

O relógio da produção decide quem adoece. As células epiteliais do tipo dois começam a sintetizá-lo por volta da 20ª semana de gestação, e a produção sobe até atingir o pico em torno da 35ª semana. Por isso o recém-nascido com menos de 35 semanas tem, por definição, deficiência da quantidade total de surfactante. Não é doença adquirida: é uma etapa do desenvolvimento que não teve tempo de terminar.

A consequência mecânica é imediata. Sem surfactante suficiente, a tensão superficial e a força de retração elástica aumentam, o alvéolo colapsa ao fim de cada expiração e formam-se atelectasias progressivas. Caem a complacência pulmonar e a capacidade residual funcional. As áreas colapsadas seguem perfundidas e deixam de ser ventiladas, o que aumenta o curto-circuito intrapulmonar e produz hipoxemia, hipercapnia e acidose.

É aqui que a doença deixa de ser só pulmonar. A hipoxemia com acidose provoca vasoconstrição pulmonar, eleva a pressão nas artérias pulmonares e reabre o desvio pelo canal arterial e pelo forame oval — agora um curto-circuito extrapulmonar, que agrava a hipoxemia que o gerou. O guia federal descreve esse círculo vicioso, e ele explica por que a criança piora sozinha nas primeiras horas sem que nada de novo aconteça.

Há um segundo mecanismo que quase ninguém estuda: a inativação. A membrana alvéolo-capilar do pré-termo é mais permeável, e o líquido e as proteínas que extravasam para dentro do alvéolo inativam o surfactante já presente na superfície. A gravidade depende, portanto, não só de quanto surfactante existe, mas do estado funcional do que existe. É por isso que sangue, mecônio e pus dentro do alvéolo pioram qualquer quadro respiratório neonatal — e por que repor surfactante numa pneumonia congênita rende menos do que repor numa deficiência pura.

Os fatores de risco do guia federal são o material bruto da vinheta: prematuridade abaixo de 28 semanas, sexo masculino, filho de mãe diabética e recém-nascido que sofreu asfixia ao nascimento. O filho de mãe diabética quebra a intuição — costuma ser grande e às vezes nasce perto do termo, e ainda assim tem risco aumentado, porque o hiperinsulinismo fetal atrasa a maturação do sistema surfactante. Vinheta com recém-nascido de 36 semanas, 4.100 g, mãe diabética mal controlada e desconforto precoce não está descrevendo um pulmão úmido por comodidade de peso.

Sequência alveolar que compara surfactante adequado, colapso expiratório por deficiência de surfactante e lesão com membrana hialina e shunt.
Sem surfactante suficiente, a tensão superficial fecha o alvéolo ao fim da expiração. A reabertura repetida lesa o epitélio, favorece extravasamento proteico, inativa mais surfactante e forma a membrana hialina, ampliando atelectasia e shunt.

O relógio da doença: piora até 48 horas, melhora depois de 72

Os sinais de aumento do trabalho respiratório aparecem logo após o nascimento. Segundo o guia federal, intensificam-se progressivamente nas primeiras 24 horas, atingem o pico por volta de 48 horas e melhoram gradativamente depois das 72 horas. Nos casos de má evolução, em vez de melhorar, surgem crises de apneia e deterioração hemodinâmica e metabólica.

Essa curva é o principal instrumento diagnóstico do capítulo, e é gratuita: não custa exame nenhum. A taquipneia transitória começa nas primeiras horas e melhora a partir de 24 a 48 horas, com resolução em dois a três dias. A doença da membrana hialina, no mesmo intervalo em que a taquipneia transitória está melhorando, está piorando. Quando a vinheta descreve um recém-nascido razoável às 2 horas e pior às 12, ela já disse qual é a doença antes de qualquer radiografia.

O quadro clínico é o do esforço: taquipneia, gemência expiratória, batimento de asa do nariz, retrações intercostais e subdiafragmática, cianose. A gemência merece leitura fisiológica e não decorativa — é o fechamento parcial da glote na expiração, tentativa de gerar pressão positiva e manter o alvéolo aberto. É o próprio recém-nascido inventando um CPAP com a laringe. Quando se aplica CPAP e a gemência some, isso não é sorte: é o suporte fazendo, com menos custo energético, o que a criança fazia sozinha.

Um discriminador de exame físico: aqui o murmúrio vesicular costuma estar difusamente diminuído e o tórax é pouco expansível, porque o pulmão está com volume reduzido. Assimetria de ausculta em recém-nascido com desconforto é sinal de algo ocupando espaço de um lado — ar, líquido ou víscera — e aponta para escape de ar, aspiração ou malformação, não para deficiência de surfactante.

Silverman-Andersen: a nota que ninguém termina de explicar

O boletim de Silverman-Andersen é o instrumento que o material brasileiro usa para quantificar a gravidade do desconforto respiratório neonatal. São cinco parâmetros — movimento tóraco-abdominal, retração intercostal, retração xifoide, batimento de asa do nariz e gemência —, cada um de zero a dois, total de zero a dez. Quanto maior, pior: a escala corre no sentido oposto ao do índice de Apgar, e essa inversão sozinha derruba candidato apressado.

O guia federal descreve a régua assim: somatória inferior a 5 indica dificuldade respiratória leve, e nota igual a 10 corresponde ao grau máximo de dispneia. Leia de novo, porque o buraco está no que não foi dito. A escala tem onze notas possíveis. O documento rotula seis delas: as cinco de zero a quatro, todas chamadas de leve, e a nota dez, chamada de máxima. Sobram cinco notas — 5, 6, 7, 8 e 9 — sem rótulo nenhum. São 45% da escala, e não são as pontas: é exatamente a faixa em que se decide escalonar suporte.

A fronteira órfã tem consequência direta. Um recém-nascido com boletim 7 não é leve pelo próprio texto, porque leve é o que está abaixo de cinco; e não é o grau máximo, porque máximo é dez. O documento que criou o corte não diz o que fazer com ele. À beira do leito isso se resolve pela tendência — importa mais se a nota está subindo do que qual é o número. Na prova a saída é outra: quando o enunciado dá um boletim entre 5 e 9, o que ele pede não é a classificação, é a conduta diante de um desconforto que já não é leve.

Há um segundo achado a carregar sem susto. O boletim aparece sete vezes no guia federal e nenhuma vez nas diretrizes de reanimação neonatal de 2022 e de 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria, nem no consenso europeu de 2022. As réguas mais recentes conduzem o caso pela fração inspirada de oxigênio necessária e pela saturação medida, não por escore clínico. O escore segue cobrado no Brasil porque segue no documento federal, e porque funciona sem oxímetro e sem gasometria.

Cinco critérios que só fecham depois do prazo do tratamento

A radiografia típica é descrita pelo guia federal como infiltrado retículo-granular difuso — o clássico vidro moído — distribuído uniformemente nos campos pulmonares, com broncogramas aéreos e aumento de líquido pulmonar. O volume pulmonar é reduzido, e a redução é parte do diagnóstico: pulmão pequeno com padrão granular é deficiência de surfactante; pulmão hiperinsuflado com padrão grosseiro e irregular aponta aspiração de mecônio.

O que quase ninguém estuda são os critérios formais, e é deles que sai a melhor pergunta do tema. O documento manda considerar o diagnóstico quando houver evidências de prematuridade e imaturidade pulmonar; início do desconforto nas primeiras 3 horas de vida; evidências de complacência reduzida, capacidade residual funcional diminuída e trabalho respiratório aumentado; necessidade de oxigênio inalatório e/ou suporte ventilatório, invasivo ou não, por mais de 24 horas para manter os gases normais; e radiografia com velamento retículo-granular difuso e broncogramas aéreos entre 6 e 24 horas de vida.

Agora ponha os relógios lado a lado. O critério radiológico pede imagem colhida entre 6 e 24 horas. O critério funcional pede suporte por mais de 24 horas. E o documento de sociedade vigente diz que o surfactante é indicado no pré-termo com desconforto respiratório, de preferência nas primeiras duas horas de vida, depois da estabilização inicial. A janela do tratamento fecha quatro horas antes de a janela do diagnóstico abrir.

Linha do tempo das primeiras 30 horas com tratamento por surfactante em 0–2 h, início clínico em 0–3 h, critério radiológico em 6–24 h e critério funcional após 24 h.
A janela preferencial do tratamento termina às 2 horas; o critério radiológico só abre às 6 e o funcional exige mais de 24 horas. Os critérios confirmam, não autorizam o início do tratamento.

A inversão vai além do calendário e chega à lógica. O quarto critério define a doença por precisar de suporte por mais de 24 horas — mas todo o tratamento moderno existe para que a criança não precise. Quem recebeu corticoide antenatal, entrou em CPAP na sala de parto, recebeu surfactante na primeira hora e saiu do oxigênio às 20 horas de vida teve a doença tratada com sucesso e, pela letra do critério, não preenche a definição. Tratar bem apaga o critério que nomeia a doença.

Como isso se resolve na prova: o diagnóstico de trabalho é clínico e precoce, e os cinco critérios são de confirmação — não autorizam a primeira dose. Enunciado que pergunta a conduta diante de prematuro com desconforto progressivo não espera que se aguarde a radiografia das 6 horas; enunciado que pergunta quais são os critérios quer a lista federal inteira. E a imagem pode ser pouco expressiva nas primeiras horas: radiografia limpa às 2 horas num prematuro que piora não afasta nada.

Os quatro diferenciais que a vinheta constrói

A taquipneia transitória, ou síndrome do pulmão úmido, decorre do retardo na absorção do líquido pulmonar. O guia federal dá os números: ao fim da gestação o pulmão fetal produz de 4 a 5 mL/kg por hora e chega a conter de 25 a 30 mL/kg; cerca de 70% é reabsorvido antes do nascimento, de 5% a 10% saem na passagem pelo canal de parto e o restante é absorvido nas primeiras horas. Atrapalham essa reabsorção a cesariana eletiva sem trabalho de parto, a asfixia perinatal, o diabetes e a asma maternos e a policitemia.

O trabalho de parto, portanto, é tratamento — e a cesariana eletiva sem trabalho de parto é o traço de história mais repetido do tema. O documento reconhece que o quadro clínico é muito semelhante ao da forma leve da doença da membrana hialina e que o diferencial clínico é difícil. Quem separa é a radiografia: congestão peri-hilar radiada e simétrica, espessamento de cisuras interlobares, hiperinsuflação leve a moderada e, ocasionalmente, discreta cardiomegalia ou derrame pleural. E, sobretudo, a evolução: resolução em dois a três dias.

A síndrome de aspiração do mecônio tem o perfil oposto. Líquido meconial ocorre em 10% a 20% das gestações e de 1% a 2% desses conceptos desenvolvem a síndrome; o grupo de risco é o recém-nascido com mais de 40 semanas e o que sofreu asfixia perinatal — o pós-termo, não o prematuro. A obstrução distal tem padrão valvular, deixa entrar ar e não deixa sair, e o resultado radiológico mistura atelectasias com áreas hiperinsufladas. A mortalidade segue alta, de 35% a 60% entre os que precisam de ventilação mecânica.

A pneumonia congênita é o diferencial perigoso, porque pode ser radiologicamente indistinguível: também produz infiltrado difuso e broncogramas aéreos. O que vira o jogo é a história materna — bolsa rota prolongada, febre, colonização por estreptococo do grupo B sem profilaxia adequada — e o fato de que a mesma criança pode ter as duas coisas. Na dúvida, trata-se a infecção e repõe-se o surfactante; o manejo antimicrobiano é assunto do capítulo de sepse neonatal.

A síndrome de escape de ar é o quarto diferencial e também complicação. O guia federal a define como presença de ar em regiões normalmente não aeradas e a classifica pelo local: enfisema intersticial, pneumotórax, pneumomediastino, pneumopericárdio, pneumoperitônio, enfisema subcutâneo e embolia gasosa. O que se reconhece é o padrão temporal — deterioração súbita, com queda de saturação, bradicardia, palidez e hipotensão, em criança que estava estável, sobretudo logo após procedimento respiratório, com ausculta assimétrica. É pneumotórax até prova em contrário, e o diagnóstico é radiológico.

Fora do pulmão, o guia federal lembra que qualquer coisa que dificulte a oferta de oxigênio ao cérebro se expressa como dificuldade respiratória: cardiopatias congênitas, hipertensão pulmonar persistente, anemia, policitemia, hipovolemia, acidose, hipoglicemia, hipotermia, causas neuromusculares e malformações. Daí a regra que sobrevive à prova: prematuro com desconforto que piora tem membrana hialina até prova em contrário; recém-nascido a termo obriga a percorrer essa lista antes de aceitar diagnóstico pulmonar.

CPAP primeiro: a decisão que vem antes do surfactante

A ordem das intervenções mudou, e quem estudou por material antigo erra por sequência, não por conteúdo. A pressão positiva contínua nas vias aéreas é hoje, nas palavras das diretrizes de 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria, a melhor estratégia inicial de suporte respiratório do prematuro. Mantém abertos os espaços aéreos deficientes em surfactante, garante a capacidade residual funcional e reduz o atelectrauma — e por isso o documento a trata como estratégia de prevenção ou atenuação da própria doença da membrana hialina, não apenas como suporte.

Os números são citáveis. Para cada 20 recém-nascidos entre 24 e 30 semanas que recebem CPAP na primeira hora de vida em vez de serem intubados e ventilados, um a mais sobrevive sem displasia broncopulmonar. Uma metanálise guarda-chuva mostra que iniciar CPAP em sala de parto, comparado à intubação com ou sem surfactante, reduz o risco de morte ou displasia em prematuros de qualquer idade gestacional, com efeito mais evidente abaixo de 28 semanas — risco relativo de 0,78, com intervalo de confiança de 95% entre 0,66 e 0,93 — e quando iniciado com pressão mínima de 5 cmH2O.

A pressão recomendada pelo documento brasileiro para a sala de parto é de 5 a 6 cmH2O. O consenso europeu, na mesma situação, indica 6 a 8 cmH2O. Essa diferença de dois centímetros parece irrelevante até se ler a regra europeia do surfactante, que só vale com pressão de CPAP de ao menos 6 cmH2O. Um prematuro mantido em 5 cmH2O que precisa de 35% de oxigênio está, ao pé da letra, fora da condição em que o limiar foi escrito — e a conduta antes de indicar a droga é subir a pressão até a faixa em que a regra se aplica e só então reavaliar a fração inspirada.

É a armadilha mais elegante do tema, porque a alternativa errada não é absurda: aumentar o oxigênio é intuitivo e aumentar a pressão parece agressivo. Mas oxigênio não recruta alvéolo colapsado. A sequência é otimizar a pressão, reavaliar a necessidade de oxigênio e só então comparar com o limiar — lembrando que pressões acima de 8 cmH2O são raras e pedem atenção hemodinâmica.

Um aviso de fronteira sobre o oxigênio inicial. Com que concentração se começa a ventilação com pressão positiva do prematuro é assunto do capítulo de sala de parto, e mudou entre as duas últimas edições da mesma sociedade. O que interessa aqui é apenas isto: a fração inspirada com que a criança chega à unidade neonatal não é dado natural, é resultado de uma titulação feita segundo a saturação-alvo daquele documento.

Surfactante: três limiares, três doses e dois relógios

O núcleo duro da divergência se organiza em três perguntas: quando indicar, quanto dar e de quanto em quanto tempo repetir. Cada uma tem resposta diferente conforme o documento, e nenhum revogou o outro.

Quando indicar. O guia federal exige que o recém-nascido esteja sob ventilação mecânica, com necessidade de fração inspirada de oxigênio maior ou igual a 0,40 para manter a pressão parcial de oxigênio entre 50 e 70 mmHg ou a saturação entre 86% e 93%, e manda administrar tão logo se faça o diagnóstico. O consenso europeu de 2022 diz outra coisa: tratar quando a fração inspirada ultrapassar 0,30 com pressão de CPAP de ao menos 6 cmH2O, ou quando o ultrassom pulmonar sugerir necessidade, e considerar limiares mais baixos nos muito imaturos. A diferença não é só o número — é o suporte pressuposto: o documento nacional exige criança intubada e ventilada, o europeu descreve criança respirando espontaneamente em CPAP.

Quanto dar. O guia federal manda iniciar com 100 mg/kg de fosfolípides e, na lesão inflamatória extensa — forma grave, pneumonia, aspiração de mecônio —, considerar doses próximas a 150 mg/kg. O consenso europeu registra que a dose inicial de 200 mg/kg de poractante alfa é melhor que a de 100 mg/kg, com vantagem de sobrevida na comparação direta, e a bula do poractante alfa recomenda como dose inicial 2,5 mL/kg de peso ao nascer, equivalentes a 200 mg/kg. O que a bula chama de dose de partida excede em um terço o teto que o documento nacional reserva ao caso mais grave, e é o dobro da dose com que ele manda começar.

A aritmética fecha o quadro. A bula do poractante alfa admite até duas doses de repique de 1,25 mL/kg e fixa o teto total em 5 mL/kg — que, na concentração de 80 mg/mL, dá 400 mg/kg. Os 150 mg/kg reservados ao caso grave pelo documento nacional são 37,5% desse teto. E a bula do beractante puxa para o outro lado: cada dose é de 100 mg/kg, ou 4 mL/kg, até quatro doses nas primeiras 48 horas, e o texto declara que não há informação disponível sobre os efeitos de doses diferentes de 100 mg/kg de fosfolípides. Dois surfactantes de origem animal, a mesma indicação, e a dose que numa bula é rotina na outra é dose sem estudo.

De quanto em quanto tempo. O guia federal recomenda intervalo mínimo de aproximadamente 6 horas e afirma não haver evidência de vantagem acima de quatro doses; a bula do beractante concorda com as duas coisas. A bula do poractante alfa trabalha com intervalos de cerca de 12 horas e teto de três administrações, e o protocolo brasileiro que adota o consenso europeu também usa frequência máxima de 12 horas. Dois relógios para a mesma decisão, e o relógio muda conforme o frasco que existe na unidade.

Sobre a via há convergência recente, e ela é a resposta esperada nas questões de conduta: o consenso europeu recomenda surfactante natural administrado por cateter fino sempre que possível, mantendo a respiração espontânea em CPAP, e o protocolo brasileiro citado o chama de método preferencial. A alternativa é intubar, instilar e extubar rapidamente de volta ao suporte não invasivo. O que ambas evitam é a criança que entra em ventilação mecânica por causa do procedimento e fica lá.

E há uma recusa explícita que é a divergência mais consequente do capítulo. As diretrizes de 2026 da sociedade brasileira afirmam que não há, até o momento, indicação de administração de surfactante na sala de parto, e sustentam a posição com metanálise guarda-chuva segundo a qual o surfactante profilático, comparado ao CPAP com surfactante terapêutico nas primeiras horas de vida em recém-nascidos abaixo de 33 semanas que desenvolvem desconforto, aumenta o risco de morte ou displasia broncopulmonar — risco relativo de 1,12, com intervalo de confiança de 95% entre 1,02 e 1,23. O guia federal, na seção dos prematuros abaixo de 1.000 g, orienta o contrário: instilar a droga na primeira hora de vida, independente do quadro respiratório ou radiológico, desde que a criança tenha sido intubada na sala de parto como parte da reanimação e permaneça em ventilação mecânica.

A segunda dose é mais fácil de indicar que a primeira

Leia os dois limiares do guia federal em sequência e a inversão salta. Para a primeira dose na forma clássica, exige-se ventilação mecânica com fração inspirada maior ou igual a 0,40. Para a nova dose, exige-se que a criança permaneça em ventilação mecânica e mantenha dependência de concentrações de oxigênio acima de 30% — para a mesma faixa de gases. O degrau para repetir é mais baixo que o degrau para começar.

A lógica clínica ajuda a fixar: quem já demonstrou que responde ao surfactante ganhou informação diagnóstica que o candidato à primeira dose ainda não tinha. A consequência para a prova é direta e contraintuitiva: um recém-nascido ventilado com fração inspirada de 0,35 que ainda não recebeu surfactante não preenche o critério do documento nacional; o mesmo recém-nascido, na mesma fração, tendo recebido uma dose seis horas antes, preenche.

Na seção dos menores de 1.000 g o documento acrescenta um degrau intermediário: o primeiro retratamento é indicado com dependência de fração inspirada acima de 0,40, e os tratamentos adicionais, acima de 0,30. São três patamares na mesma população.

Há uma exigência que costuma ser o gabarito escondido das questões de repique: antes de nova dose, o documento manda sempre afastar síndrome de escape de ar, pneumonia congênita, persistência do canal arterial e hipertensão pulmonar. Piora após resposta inicial não é indicação automática de mais surfactante — é indicação de procurar o que mudou. Vinheta com melhora após a primeira dose e piora súbita horas depois, com sopro, pulsos amplos e precórdio hiperdinâmico, descreve canal arterial que reabriu quando a resistência pulmonar caiu.

O mesmo vale para a deterioração imediata. A bula do poractante alfa lista, entre as reações da administração, bradicardia, hipotensão, obstrução da cânula e queda de saturação, e alerta para mudanças agudas na complacência que exigem reavaliar de imediato oxigênio e suporte. Parâmetro adequado há dez minutos passa a ser excessivo — caminho direto para o escape de ar.

Uma conta que reenquadra o tamanho do que se faz. Um recém-nascido de 1.000 g que recebe 200 mg/kg de poractante alfa, na concentração de 80 mg por mililitro, recebe 2,5 mL de líquido instilados na traqueia. O próprio guia federal informa que o pulmão fetal, ao fim da gestação, chega a conter de 25 a 30 mL/kg de líquido. O bolus é da ordem de um décimo do volume que aquele pulmão comportava — entregue de uma vez ou em duas alíquotas, numa via aérea que precisa continuar ventilando. É por isso que a bradicardia transitória durante a instilação é esperada, e por que a distribuição desigual do bolus, que tende a privilegiar o pulmão direito, aparece nos protocolos como fator de risco para escape de ar.

Depois da dose: o oxigênio, o canal e a saturação que ninguém combina

Resolvida a fase aguda, o problema vira o oxigênio, e há uma terceira divergência de números. O guia federal opera com saturação entre 86% e 93% como faixa aceitável ao decidir sobre surfactante, e a mesma faixa reaparece nos fluxogramas de ajuste ventilatório, que tratam saturação acima de 93% ou pressão parcial acima de 70 mmHg como hiperóxia a corrigir. O consenso europeu de 2022 recomenda alvo entre 90% e 94%, com limites de alarme em 89% e 95%. O piso brasileiro está quatro pontos abaixo do europeu.

Os quatro pontos não são preciosismo. O consenso europeu explica de onde vem o alvo: a colaboração que reuniu os grandes ensaios mostrou que mirar a faixa mais baixa, de 85% a 89%, reduz retinopatia grave da prematuridade, mas ao custo de aumentar a mortalidade — risco relativo de 1,17, com intervalo de confiança de 95% entre 1,04 e 1,31 — e de aumentar enterocolite necrosante. Trocar olho por vida foi o que fez o alvo subir. O documento é honesto quanto ao resto: reconhece que o alvo ideal permanece desconhecido, sobretudo acima de 30 semanas.

Note a lacuna que o próprio consenso deixa: o alvo é de 90% a 94%, mas os alarmes são 89% e 95%. Existe uma faixa estreita em que a criança está fora do alvo e nenhum alarme toca — e o documento acrescenta que não há dado científico sustentando a escolha dos limites. Alvo e alarme são réguas diferentes, e o enunciado pode cobrar uma pela outra.

A persistência do canal arterial muda o desenho do caso. O guia federal registra que o surfactante reduz de forma importante a incidência de pneumotórax e de enfisema intersticial e reduz a mortalidade, mas não altera a incidência de displasia broncopulmonar, de persistência do canal arterial, de hemorragia pulmonar, de sepse nem de hemorragia peri-intraventricular. O surfactante compra sobrevivência e evita escape de ar; não compra ausência de doença pulmonar crônica. Alternativa que promete redução de displasia com a droga afirma o que o documento nega — e é o CPAP precoce, não a droga, que os documentos associam a esse desfecho.

Por fim, a prevenção de maior impacto, que não é feita pelo pediatra. O guia federal recomenda que todas as gestantes entre 24 e 34 semanas com risco de parto prematuro sejam consideradas candidatas ao corticoide antenatal, com duas doses de 12 mg de betametasona por via intramuscular a cada 24 horas ou quatro doses de dexametasona por via intramuscular a cada 12 horas, e registra que os efeitos são mais evidentes 24 horas após o início e perduram por sete dias. E acrescenta a frase que resolve a questão mais comum do assunto: como o tratamento por menos de 24 horas também reduz mortalidade neonatal, incidência da síndrome e hemorragia peri-intraventricular, o corticoide deve sempre ser empregado, a menos que o parto imediato seja previsto. Meia dose vale a pena.

04

Decidir com o relógio na mão

O tema tem duas decisões, e elas acontecem em momentos diferentes. A primeira é reconhecer que aquele desconforto é deficiência de surfactante e não outra coisa, e ela se toma pela idade gestacional, pelo momento de início e pela direção da curva. A segunda é indicar a droga, e ela se toma comparando a fração inspirada de oxigênio com um limiar — mas o limiar depende do documento e do suporte em que a criança está.

  1. 11. Que idade gestacional e que hora de vida? Abaixo de 35 semanas com início nas primeiras 3 horas coloca a deficiência de surfactante em primeiro lugar. Pós-termo com líquido meconial aponta aspiração. Termo de cesariana eletiva sem trabalho de parto aponta pulmão úmido.
  2. 22. A curva sobe ou desce? Piora progressiva nas primeiras 24 horas com pico por volta de 48 horas é membrana hialina. Melhora a partir de 24 a 48 horas é taquipneia transitória.
  3. 33. Que suporte a criança está usando, e com que pressão? Se está em CPAP abaixo de 6 cmH2O, ajuste a pressão para a faixa em que a regra do surfactante foi escrita antes de olhar o oxigênio.
  4. 44. Qual é a fração inspirada necessária com a pressão já otimizada? Acima de 0,30 em CPAP de ao menos 6 cmH2O indica surfactante pela régua europeia; 0,40 ou mais em ventilação mecânica indica pela régua federal.
  5. 55. Já se passaram quantas horas? A janela preferencial do documento de sociedade vigente é de duas horas de vida, depois da estabilização inicial. Não espere a radiografia das 6 horas para tratar.
  6. 66. Por que via? Cateter fino mantendo o recém-nascido em CPAP é o método preferencial; intubar, instilar e extubar rápido é a alternativa. Depois da dose, reduza o suporte, porque a complacência muda em minutos.
  7. 77. Se piorar de novo, o que mudou? Afaste escape de ar, pneumonia, canal arterial e hipertensão pulmonar antes de indicar dose adicional.

Comece pela idade gestacional, não pela radiografia

Prematuro com desconforto que começa nas primeiras horas e piora é deficiência de surfactante até prova em contrário. Recém-nascido a termo com desconforto obriga a percorrer a lista de causas não pulmonares antes de aceitar diagnóstico de pulmão.

A direção da curva separa das imitadoras

Entre 12 e 48 horas de vida, a taquipneia transitória está melhorando e a doença da membrana hialina está piorando. Quem estava razoável às 2 horas e está pior às 12 já entregou o diagnóstico.

Otimize a pressão antes de comparar o oxigênio

O limiar europeu de fração inspirada acima de 0,30 vale com pressão de CPAP de ao menos 6 cmH2O. Em pressão menor, a conduta é subir a pressão e reavaliar a necessidade de oxigênio — e só então decidir sobre a droga.

Pergunte qual documento o enunciado citou

Guia federal quer ventilação mecânica com fração inspirada de 0,40 ou mais e dose de 100 mg/kg. Consenso europeu e protocolos que o adotam querem CPAP de 6 cmH2O com fração acima de 0,30 e dose de 200 mg/kg. Enunciado sem documento nomeado costuma esperar a régua europeia, que é a da beira do leito.

Piora depois de melhorar é procurar o que mudou

Antes de repetir a dose, afaste escape de ar, pneumonia congênita, canal arterial e hipertensão pulmonar. Deterioração súbita com ausculta assimétrica é pneumotórax; sopro com pulsos amplos horas depois da melhora é canal arterial.

Quando indicar, quanto dar, de quanto em quanto tempo — quatro documentos

DocumentoLimiar para a primeira doseSuporte pressupostoDose inicialIntervalo e teto
Guia federal do recém-nascido, volume 3Fração inspirada de oxigênio de 0,40 ou maisVentilação mecânica100 mg/kg (até cerca de 150 mg/kg no caso grave)Mínimo de cerca de 6 horas; sem vantagem acima de quatro doses
Consenso europeu, atualização de 2022Fração inspirada acima de 0,30 (ou ultrassom pulmonar sugestivo)CPAP com pressão de ao menos 6 cmH2O200 mg/kg de poractante alfaSegunda e ocasionalmente terceira dose se persistir evidência da doença
Bula do poractante alfaNão fixa limiar; indica no tratamento de resgateInstilação intratraqueal2,5 mL/kg, equivalente a 200 mg/kgRepiques de 1,25 mL/kg a cada cerca de 12 horas; teto total de 5 mL/kg
Bula do beractanteNão fixa limiar; indica na prevenção e no resgateInstilação intratraqueal4 mL/kg, equivalente a 100 mg/kgNão mais que a cada 6 horas; até quatro doses em 48 horas

Os quatro quadros que a vinheta confunde

DoençaQuem é o pacienteInício e evoluçãoRadiografiaVolume pulmonar
Doença da membrana hialinaPré-termo, sobretudo abaixo de 28 semanas; sexo masculino; filho de mãe diabética; asfixia ao nascerInício nas primeiras 3 horas, piora até cerca de 48 horas, melhora após 72 horasRetículo-granular difuso em vidro moído, broncogramas aéreos, entre 6 e 24 horas de vidaReduzido
Taquipneia transitóriaCesariana eletiva sem trabalho de parto; asfixia; mãe diabética ou asmática; policitemiaInício nas primeiras horas, melhora a partir de 24 a 48 horas, resolve em 2 a 3 diasCongestão peri-hilar radiada e simétrica, cisuras espessadas, às vezes cardiomegalia discretaHiperinsuflação leve a moderada
Aspiração de mecônioIdade gestacional acima de 40 semanas; asfixia perinatal; líquido meconialInício precoce e progressivo, com cianose graveAtelectasias alternadas com áreas hiperinsufladasAumentado por aprisionamento de ar
Pneumonia congênitaBolsa rota prolongada, febre materna, colonização materna sem profilaxia adequadaInício precoce; pode acompanhar sinais sistêmicos de infecçãoPode ser indistinguível do padrão retículo-granular com broncogramasVariável

Boletim de Silverman-Andersen: o que o documento rotula e o que ele não rotula

Faixa de pontosRótulo publicadoO que isso significa na leitura da questão
0 a 4Dificuldade respiratória leveCinco das onze notas possíveis; é a única faixa com nome no texto federal
5 a 9Sem rótulo no documentoCinco notas, 45% da escala, justamente a faixa em que se decide escalonar suporte; enunciado que dá esse número quer conduta, não classificação
10Grau máximo de dispneiaUma única nota; é o outro extremo nomeado

Alvo de saturação depois da estabilização: três réguas

FonteFaixaObservação
Guia federal do recém-nascido, volume 386% a 93%Faixa usada para julgar a necessidade de oxigênio ao decidir sobre surfactante e ao ajustar o ventilador; acima de 93% é tratado como hiperóxia
Consenso europeu, atualização de 202290% a 94%Alarmes fixados em 89% e 95%; o próprio documento afirma que não há dado científico sustentando a escolha dos limites de alarme
Diretrizes de 2026 da sociedade brasileira, sala de parto85% a 95% aos 10 minutos de vidaVale para a transição, não para o cuidado subsequente na unidade neonatal

O critério funcional do guia federal exige necessidade de suporte por mais de 24 horas, e a janela preferencial do tratamento é de duas horas. Tratar bem apaga o critério que nomeia a doença: o diagnóstico de trabalho é clínico e precoce, e a lista dos cinco critérios é de confirmação.

O degrau para repetir a dose é mais baixo que o degrau para começar: 0,40 de fração inspirada para a primeira, acima de 0,30 para a nova, no mesmo documento e para a mesma faixa de gases.

Surfactante reduz pneumotórax, enfisema intersticial e mortalidade, e não altera a incidência de displasia broncopulmonar, de canal arterial, de hemorragia pulmonar, de sepse nem de hemorragia peri-intraventricular. Quem reduz displasia nos ensaios citados é o CPAP precoce.

Corticoide antenatal por menos de 24 horas também reduz mortalidade, incidência da doença e hemorragia peri-intraventricular. A frase do documento é explícita: deve sempre ser empregado, a menos que o parto imediato seja previsto.

O boletim de Silverman-Andersen corre no sentido inverso do índice de Apgar: quanto maior a nota, pior o quadro. Confundir a direção das duas escalas é erro clássico de leitura rápida.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Surfactante profilático no prematuro extremo: instilar na primeira hora ou esperar o quadro

Instilar na primeira hora, independente do quadro

Considerar administração do surfactante após estabilização das condições hemodinâmicas caso o recém-nascido tenha sido submetido à intubação traqueal na sala de parto como parte das manobras de reanimação. Procurar instilar a droga na primeira hora de vida, independente do quadro respiratório ou radiológico, desde que permaneça em ventilação mecânica.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 3, 2ª ed., 2014, item 23.5.3 (prematuros com peso de nascimento abaixo de 1.000 g)

Nada de surfactante em sala de parto; profilático piora desfecho

Não há até o momento indicação da administração de surfactante na sala de parto. O surfactante é indicado nos prematuros com desconforto respiratório, de preferência nas primeiras duas horas após o nascimento, depois da estabilização inicial. A posição se apoia em metanálise guarda-chuva segundo a qual o surfactante profilático, comparado ao CPAP com surfactante terapêutico nas primeiras horas em recém-nascidos abaixo de 33 semanas que desenvolvem desconforto, aumenta o risco de morte ou displasia broncopulmonar, com risco relativo de 1,12 e intervalo de confiança de 95% entre 1,02 e 1,23.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Reanimação do recém-nascido menor de 34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026, item 8

Na prova

Os dois documentos estão vigentes e nenhum revogou o outro. Enunciado que nomeia o guia federal, ou que descreve um recém-nascido abaixo de 1.000 g já intubado na sala de parto e mantido em ventilação mecânica, aceita a instilação precoce sem exigir quadro respiratório. Enunciado que nomeia a sociedade brasileira, ou que descreve a criança estabilizada em CPAP, quer surfactante terapêutico e não profilático. O detalhe que reconcilia boa parte dos casos é que o documento federal pressupõe uma criança que já foi intubada por indicação de reanimação — ele não manda intubar para dar a droga.

O limiar de oxigênio que indica a droga — e o suporte que ele pressupõe

0,40 ou mais, em ventilação mecânica

O recém-nascido deve estar sob ventilação mecânica, com necessidade de fração inspirada de oxigênio maior ou igual a 0,40 para manter a pressão parcial de oxigênio entre 50 e 70 mmHg ou a saturação entre 86% e 93%. Deve-se administrar o surfactante tão logo se faça o diagnóstico da doença.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 3, 2ª ed., 2014, item 23.5.2 (indicações)

Acima de 0,30, em CPAP de ao menos 6 cmH2O

Tratar o recém-nascido com doença em piora quando a fração inspirada de oxigênio ultrapassar 0,30 sob pressão de CPAP de 6 cmH2O ou mais, ou quando o ultrassom pulmonar sugerir necessidade de surfactante. Considerar limiares mais baixos nos muito imaturos.

Sweet DG et al. European Consensus Guidelines on the Management of Respiratory Distress Syndrome: 2022 Update. Neonatology 2023;120(1):3-23

A régua europeia já é a régua de beira de leito no serviço público brasileiro

O surfactante de resgate deve ser administrado no início do curso da doença, quando a fração inspirada de oxigênio for maior que 0,30 com pressão de CPAP de 6 cmH2O. Dose inicial de 200 mg/kg para terapia de resgate. Saturação entre 90% e 94%, com limites de alerta em 89% e 95%.

Ebserh. Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Protocolo PRT.UTIPN.001, versão 4

Na prova

A diferença não é apenas de número, é de cenário. O documento federal descreve uma criança intubada e ventilada; o consenso europeu descreve uma criança em respiração espontânea sob pressão contínua. Uma vinheta com fração inspirada de 0,35 em CPAP de 6 cmH2O satisfaz a régua europeia e simplesmente não é contemplada pela federal, que não trata do recém-nascido não intubado. Quando o enunciado traz a pressão de CPAP no texto, ele está sinalizando qual régua quer.

Dose de partida e teto: 100, 150, 200 ou 400 mg/kg

Começar com 100 mg/kg, teto de cerca de 150 mg/kg no grave

Iniciar com dose de 100 mg/kg de fosfolípides. Caso o paciente apresente melhora da função pulmonar, manter essa dose se houver necessidade de novo tratamento. Nas situações em que há lesão inflamatória extensa, considerar o uso de doses maiores, próximas a 150 mg/kg de fosfolípides. Recomenda-se intervalo mínimo entre as doses de aproximadamente 6 horas. Não existem evidências de vantagens no uso de mais de quatro doses.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 3, 2ª ed., 2014, item 23.5.1 (princípios para o uso do surfactante)

200 mg/kg como dose inicial, com teto total de 5 mL/kg

A dose inicial recomendada é de 2,5 mL/kg de peso ao nascer, administrada em uma ou duas alíquotas. Até duas doses de repique de 1,25 mL/kg cada podem ser administradas em intervalos de aproximadamente 12 horas. A dose total máxima recomendada, somando a inicial e até dois repiques, é de 5 mL/kg.

United States Food and Drug Administration. CUROSURF (poractant alfa), Full Prescribing Information, maio de 2021, item 2.2

100 mg/kg por dose, e nenhuma informação sobre outra dose

Cada dose é de 100 mg de fosfolípides por quilo de peso ao nascer, correspondendo a 4 mL/kg. Quatro doses podem ser administradas nas primeiras 48 horas de vida, com intervalo não menor que 6 horas. Não há informação disponível sobre os efeitos de doses diferentes de 100 mg de fosfolípides por quilo, de mais de quatro doses, de intervalos menores que 6 horas ou de administração após 48 horas de vida.

United States Food and Drug Administration. SURVANTA (beractant), Full Prescribing Information, 2019, itens Recommended Dosage e Overdosage

Na prova

Questão que pede dose costuma nomear o documento ou o produto. Se citar o guia federal, a resposta é 100 mg/kg, com a ressalva de doses próximas a 150 mg/kg na lesão inflamatória extensa. Se citar o consenso europeu, protocolo hospitalar ou o produto de origem suína, a resposta é 200 mg/kg. O que não existe é uma dose brasileira única: o teto que o documento nacional reserva ao caso grave é menor que a dose de partida da bula.

Alvo de saturação depois da estabilização: 86 a 93% ou 90 a 94%

86% a 93%

Manter a pressão parcial de oxigênio entre 50 e 70 mmHg ou a saturação entre 86% e 93%. Nos fluxogramas de ajuste ventilatório do mesmo documento, saturação acima de 93% ou pressão parcial acima de 70 mmHg é classificada como hiperóxia e dispara redução de suporte.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 3, 2ª ed., 2014, itens 22.2 e 23.5.2

90% a 94%, com alarmes em 89% e 95%

Em prematuros recebendo oxigênio, o alvo de saturação deve ficar entre 90% e 94%, com limites de alarme em 89% e 95%. Mirar saturações mais baixas, de 85% a 89%, reduz retinopatia grave da prematuridade às custas de aumento de mortalidade, com risco relativo de 1,17 e intervalo de confiança de 95% entre 1,04 e 1,31, e de aumento de enterocolite necrosante. O documento acrescenta que não há dado científico sustentando a escolha dos limites de alarme.

Sweet DG et al. European Consensus Guidelines on the Management of Respiratory Distress Syndrome: 2022 Update. Neonatology 2023;120(1):3-23

Na prova

Enunciado que pede a saturação-alvo precisa dizer de onde fala, porque o piso brasileiro é quatro pontos mais baixo que o europeu, e o teto brasileiro é o ponto em que o europeu ainda considera adequado. Uma criança mantida em 88% está dentro da faixa do documento federal e abaixo do alvo europeu, com o alarme europeu prestes a tocar. Na dúvida sobre qual régua o enunciado usa, observe se ele fala em limites de alarme: alarme em 89% e 95% é assinatura do consenso europeu.

A mesma sociedade em duas edições: com quanto oxigênio se começa a ventilar o prematuro

Começar com 30%

Iniciar a ventilação do prematuro abaixo de 34 semanas com concentração de oxigênio de 30%, titulando a fração inspirada de acordo com a monitoração da saturação pré-ductal. A saturação-alvo era apresentada em três faixas: 70% a 80% até 5 minutos, 80% a 90% entre 5 e 10 minutos e 85% a 95% após 10 minutos.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Reanimação do recém-nascido menor de 34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2022

Começar com 60%

O programa recomenda iniciar a ventilação com pressão positiva do recém-nascido abaixo de 34 semanas com concentração de oxigênio de 60%, titulando a oferta pela saturação pré-ductal; se a saturação estiver fora do alvo, aumentar ou diminuir a concentração em 20% a cada 30 segundos. A saturação-alvo passou a ser apresentada minuto a minuto: 65% a 70% aos 2 minutos, 70% a 75% aos 3, 75% a 80% aos 4, 80% a 85% aos 5 e 85% a 95% aos 10. O documento registra que a força-tarefa neonatal internacional recomendou, em outubro de 2025, fração inspirada de 0,30 ou mais para iniciar a ventilação do prematuro.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Reanimação do recém-nascido menor de 34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026, itens 6.3 e 9.1

Na prova

As duas edições circulam em material de estudo e a mudança é recente, então o enunciado tende a nomear o ano ou a dizer diretrizes vigentes. O ponto que interessa a este capítulo não é decorar o número, e sim entender que a fração inspirada com que a criança chega à unidade neonatal é resultado de uma titulação feita segundo a saturação-alvo daquele documento — e que comparar essa fração com o limiar do surfactante exige saber com que alvo ela foi titulada.

06

Caso resolvido

Recém-nascido do sexo masculino, 29 semanas de idade gestacional, 1.150 g, nascido de parto vaginal após trabalho de parto prematuro em que a mãe recebeu apenas a primeira dose de betametasona, quatro horas antes do nascimento. Chorou fraco, foi colocado em pressão positiva contínua ainda na sala de parto e admitido na unidade neonatal em CPAP de 5 cmH2O com fração inspirada de oxigênio de 0,25. Com 90 minutos de vida apresenta gemência audível sem estetoscópio, batimento de asa do nariz, retração intercostal e subdiafragmática, frequência respiratória de 76 por minuto, e precisa de fração inspirada de 0,35 para manter saturação de 91%. A ausculta mostra murmúrio simétrico e difusamente reduzido. A radiografia de tórax, colhida à admissão, foi descrita como discreta redução de transparência bilateral, sem padrão definido.
passo 1
Situar a doença antes de olhar qualquer número. Pré-termo de 29 semanas, desconforto iniciado na primeira hora de vida e em piora, com murmúrio simétrico e reduzido: é deficiência de surfactante até prova em contrário. A cesariana eletiva sem trabalho de parto, que apontaria taquipneia transitória, não está no caso; o líquido meconial e o pós-termo, que apontariam aspiração, tampouco.
passo 2
Não usar a radiografia para excluir. A imagem foi colhida à admissão, antes das 6 horas de vida, e o próprio documento federal só considera típico o padrão retículo-granular com broncogramas aéreos entre 6 e 24 horas. Radiografia inespecífica nessa hora informa que a imagem ainda não tem idade para ser diagnóstica, e não que a doença não existe.
passo 3
Reconhecer que o corticoide antenatal incompleto não é motivo para descartar benefício nem para mudar a conduta neonatal. O documento federal registra que os efeitos são mais evidentes 24 horas após o início da terapia, e que mesmo o tratamento por menos de 24 horas reduz mortalidade, incidência da doença e hemorragia peri-intraventricular. Quatro horas de intervalo significam menos proteção, não nenhuma.
passo 4
Corrigir a pressão antes de decidir sobre a droga. A criança está em 5 cmH2O e a regra europeia de surfactante foi escrita para pressão de 6 cmH2O ou mais. O passo é subir o CPAP para a faixa recomendada — o documento brasileiro indica 5 a 6 cmH2O na sala de parto e o consenso europeu, 6 a 8 cmH2O na estabilização — e reavaliar a fração inspirada necessária com a pressão já otimizada.
passo 5
Comparar a fração inspirada com o limiar certo, e nomear o documento. Com pressão de 6 cmH2O, uma necessidade de 0,35 ultrapassa o limiar de 0,30 do consenso europeu, adotado pelos protocolos hospitalares brasileiros, e indica surfactante de resgate. Pelo documento federal a criança não preencheria o critério, porque ele exige ventilação mecânica com fração de 0,40 ou mais — mas ele não descreve o cenário do recém-nascido não intubado, o que é lacuna e não proibição.
passo 6
Escolher a via e a hora. A criança tem 90 minutos de vida, dentro da janela preferencial de duas horas que a sociedade brasileira estabelece, e respira espontaneamente. O método preferencial é o cateter fino, mantendo a respiração espontânea em CPAP; a alternativa é intubar, instilar e extubar rapidamente de volta ao suporte não invasivo. O que não se faz é intubar e deixar em ventilação mecânica por causa do procedimento.
passo 7
Antecipar o que muda depois da dose. A complacência sobe em minutos, e o mesmo suporte passa a ser excessivo. Reduzir oxigênio pela saturação-alvo e vigiar deterioração súbita com ausculta assimétrica, que é escape de ar. Se houver melhora seguida de piora horas depois, com sopro e pulsos amplos, procurar canal arterial antes de indicar nova dose.
07

Agora feche você

Dois recém-nascidos chegam à unidade neonatal na mesma madrugada. O primeiro tem 39 semanas, 3.600 g, nasceu de cesariana eletiva sem trabalho de parto, filho de mãe com diabetes gestacional. Com 40 minutos de vida tem frequência respiratória de 84 por minuto, retração intercostal discreta, sem gemência, e mantém saturação de 93% com cateter nasal de baixo fluxo. A radiografia mostra congestão peri-hilar simétrica e cisura interlobar espessada. O segundo tem 27 semanas, 820 g, foi intubado na sala de parto por apneia persistente e permanece em ventilação mecânica; com 50 minutos de vida está com fração inspirada de 0,28 e saturação de 92%, e ainda não fez radiografia.
passo 1
Para o primeiro recém-nascido, nomeie a doença mais provável e aponte os três elementos da história que a sustentam. Explique por que a ausência de gemência e a manutenção de saturação adequada com pouco oxigênio pesam a favor dessa hipótese, e diga qual achado radiológico é o discriminador.
passo 2
Ainda no primeiro caso, diga qual é a evolução esperada nas próximas 48 horas se a hipótese estiver certa, e qual observação clínica, feita nesse intervalo, obrigaria a rever o diagnóstico.
passo 3
Explique por que o diabetes materno aparece como fator de risco nas duas doenças que competem nesse caso, e por que isso torna o peso e a idade gestacional discriminadores fracos.
passo 4
Para o segundo recém-nascido, diga se há indicação de surfactante neste momento pela régua do documento federal, justificando pelo texto do item que trata dos prematuros com peso abaixo de 1.000 g — e note que a fração inspirada de 0,28 não é o que decide aqui.
passo 5
Diga qual é a posição da diretriz de sociedade vigente sobre a mesma conduta no segundo caso e com que argumento numérico ela se sustenta, deixando claro se o desacordo é sobre intubar ou sobre instilar.
passo 6
Feche escrevendo em uma frase o que separa os dois recém-nascidos em termos de mecanismo: um tem um problema de líquido, o outro tem um problema de filme.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Aumentar o oxigênio antes de otimizar a pressão A alternativa mais marcada quando a vinheta traz um prematuro em CPAP de 4 ou 5 cmH2O com fração inspirada subindo. Oxigênio não recruta alvéolo colapsado — pressão recruta. E, do ponto de vista da prova, o limiar europeu de surfactante só vale com pressão de 6 cmH2O ou mais, de modo que decidir sobre a droga com pressão abaixo disso é decidir fora da condição em que a regra foi escrita.
  2. 2Esperar a radiografia das 6 horas para indicar surfactante O critério radiológico do documento federal fala em imagem entre 6 e 24 horas de vida, e o candidato conclui que antes disso não se trata. A janela preferencial do tratamento, segundo a sociedade brasileira, é de duas horas de vida. A lista de cinco critérios confirma a doença; ela não autoriza a primeira dose.
  3. 3Chamar de moderado o boletim de Silverman entre 5 e 9 O documento que descreve o boletim rotula apenas abaixo de 5 como leve e a nota 10 como grau máximo. Não existe rótulo intermediário publicado. Alternativa que atribui classificação a um número dessa faixa está afirmando o que a fonte não disse — e o que o enunciado quer, quando dá esse número, é a conduta diante de um desconforto que já não é leve.
  4. 4Ler o boletim de Silverman no sentido do índice de Apgar As duas escalas neonatais mais cobradas correm em direções opostas. No índice de Apgar, nota alta é criança bem; no boletim de Silverman-Andersen, nota alta é criança em esforço máximo. A leitura invertida transforma um recém-nascido grave em recém-nascido tranquilo com um único deslize de atenção.
  5. 5Afirmar que o surfactante reduz displasia broncopulmonar A frase soa correta e é negada pelo documento federal, que atribui à terapia redução de pneumotórax, de enfisema intersticial e de mortalidade, sem alterar a incidência de displasia broncopulmonar, canal arterial, hemorragia pulmonar, sepse ou hemorragia peri-intraventricular. Quem os documentos associam à redução de displasia é o CPAP precoce, comparado à intubação.
  6. 6Intubar para dar surfactante em sala de parto A conduta era ensinada e hoje é contraindicada pelas diretrizes vigentes: não há indicação de administrar surfactante em sala de parto, e a metanálise citada mostra aumento do risco de morte ou displasia com a estratégia profilática. A leitura fina do documento federal ajuda: ele fala em instilar precocemente no recém-nascido que já foi intubado por indicação de reanimação, e não em intubar para tratar.
  7. 7Repetir a dose diante de piora sem procurar a causa O documento federal manda afastar escape de ar, pneumonia congênita, canal arterial e hipertensão pulmonar antes de administrar nova dose. Melhora inicial seguida de piora horas depois, com sopro e pulsos amplos, é canal arterial que reabriu quando a resistência pulmonar caiu. Queda súbita de saturação com ausculta assimétrica logo após um procedimento é pneumotórax.
  8. 8Manter os mesmos parâmetros de ventilação depois da dose A complacência pulmonar muda em minutos após o surfactante, e a bula alerta para reavaliar imediatamente oxigênio e suporte ventilatório. Parâmetro que estava adequado antes da instilação passa a ser excessivo, e o excesso é justamente o mecanismo do escape de ar que a droga deveria estar evitando.
  9. 9Descartar a doença no recém-nascido grande e quase a termo O filho de mãe diabética entra na lista de risco do documento federal porque o hiperinsulinismo fetal atrasa a maturação do sistema surfactante. Peso elevado e idade gestacional próxima do termo não afastam o diagnóstico — e a mesma mãe diabética também aumenta o risco de taquipneia transitória, o que faz da evolução, e não do peso, o discriminador.
  10. 10Tratar dose de bula e dose de guia como se fossem a mesma régua Marcar 200 mg/kg numa questão que nomeia o guia federal, ou 100 mg/kg numa que nomeia o consenso europeu, é o erro mais fácil do tema. Guarde os dois pares: documento nacional começa com 100 mg/kg e chega a cerca de 150 mg/kg no caso grave, com intervalo de 6 horas; consenso europeu e bula do produto suíno começam com 200 mg/kg, com repique em torno de 12 horas.
  11. 11Dispensar o corticoide antenatal porque o parto é iminente O raciocínio parece econômico e é contrariado pela frase explícita do documento: como o tratamento por menos de 24 horas também reduz mortalidade neonatal, incidência da doença e hemorragia peri-intraventricular, o corticoide deve sempre ser empregado, a menos que o parto imediato seja previsto. Meia dose não é dose perdida.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a combinação de prematuridade (30 semanas), ausência de corticoide antenatal, mãe diabética (fator de risco por atraso da maturação pulmonar), início precoce e progressivo do desconforto respiratório e, sobretudo, o padrão radiográfico reticulogranular difuso em vidro fosco com broncogramas aéreos e volume pulmonar reduzido é o quadro clássico da DMH por deficiência de surfactante. A taquipneia transitória ocorre tipicamente em RN a termo/pré-termo tardio de cesárea, é autolimitada e a radiografia mostra congestão hilar, cissurite e hiperinsuflação (não vidro fosco com hipovolemia). A aspiração meconial acomete RN a termo/pós-termo com líquido meconial e radiografia com infiltrados grosseiros e áreas de hiperinsuflação/atelectasia, não vidro fosco homogêneo. A pneumonia por GBS pode simular DMH radiologicamente, mas costuma cursar com fatores maternos infecciosos, e o conjunto prematuridade extrema + sem corticoide torna a DMH mais provável. A hérnia diafragmática mostra alças intestinais no tórax e desvio do mediastino, ausente aqui.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória a curva temporal da doença — quando começa, quando piora, quando melhora — e ao lado dela a curva da taquipneia transitória, marcando a hora em que as duas se cruzam. Em seguida reconstrua os cinco critérios diagnósticos do documento federal, sublinhe os dois que dependem do relógio e diga por que eles fecham depois que a janela do tratamento fechou. Termine escrevendo os cinco parâmetros do boletim de Silverman-Andersen, os dois cortes publicados e quantas notas da escala ficam sem rótulo.

em 30 dias

Refaça a aritmética das doses. Para um recém-nascido de 900 g, calcule em miligramas e em mililitros o que dá cada uma das quatro réguas: a dose inicial do documento federal, o teto que ele reserva ao caso grave, a dose inicial da bula do produto suíno e o teto total dessa mesma bula, lembrando que a concentração é de 80 mg por mililitro. Diga em quanto por cento a dose de partida da bula excede o teto nacional do caso grave. Depois monte, sem consultar, a tabela dos limiares de indicação com o suporte que cada documento pressupõe, e explique em duas frases por que o degrau para repetir a dose é mais baixo que o degrau para começar.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é chamado à unidade neonatal para avaliar um prematuro de 30 semanas, com duas horas de vida, em pressão positiva contínua, cuja necessidade de oxigênio vem subindo desde a admissão. A enfermeira relata gemência que apareceu na última meia hora. Reconstrua a história perinatal dirigida ao corticoide antenatal, ao motivo do parto e à presença de líquido meconial ou bolsa rota prolongada, examine o padrão do esforço respiratório e a simetria da ausculta, verifique a pressão do suporte antes de olhar a fração inspirada, e conduza a decisão sobre surfactante dizendo em voz alta qual régua você está usando. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Desconforto respiratório do recém-nascido – Doença da membrana hialina — Preparatório para provas | OsceLabs