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PediatriaNeonatologia

Sepse neonatal

A hemocultura demora 48 horas e falha em boa parte dos casos, então a decisão de tratar é tomada antes dela, por fator de risco materno e exame físico seriado. A prova cobra o corte de horas, o que torna a profilaxia intraparto adequada e — cada vez mais — em que momento o antibiótico é suspenso.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido a termo, com 12 dias de vida, é levado à UPA por recusa alimentar, hipoatividade e febre de 38,3°C. A mãe relata parto vaginal sem intercorrências. Ao exame, o bebê está hipoativo, com fontanela normotensa e sem sinais localizatórios. Considerando a faixa etária, qual é a conduta mais apropriada?

02

Como esse tema cai

Sepse neonatal é o tema em que a régua do adulto não serve, e vale dizer por quê. O Sepsis-3 define sepse como disfunção orgânica causada por resposta desregulada à infecção, e opera com qSOFA, lactato e pacote de primeira hora. Nenhuma dessas peças funciona num recém-nascido: o qSOFA pontua alteração do estado mental, frequência respiratória e pressão sistólica, três variáveis sem sentido em quem tem seis horas de vida e ainda está terminando a transição cardiorrespiratória; o lactato sobe com o próprio trabalho de parto; e não existe escore de disfunção orgânica validado para o período neonatal. O que existe no Brasil é uma definição epidemiológica por tempo de vida e fator de risco materno, da Anvisa, e uma decisão clínica que é tomada antes de qualquer confirmação.

O eixo do tema é exatamente esse: tratar sem confirmação. A hemocultura é o padrão-ouro e demora — o crescimento que conta é o das primeiras 48 horas de incubação — e ainda assim 38% das meningites neonatais cursam com hemocultura negativa. Então a decisão se toma com fator de risco materno mais exame físico. O preço disso aparece do outro lado: estima-se que entre 11 e 23 recém-nascidos não infectados sejam tratados em unidade neonatal para cada infecção documentada. Por isso a pergunta que a prova mais cobra hoje não é quando começar o antibiótico, e sim quando parar.

Este capítulo cobre a sepse bacteriana precoce e a tardia, do fator de risco à suspensão do antibiótico. O rastreio da gestante para estreptococo do grupo B, com a janela de coleta, é assunto do capítulo de exames do pré-natal; aqui entra a profilaxia intraparto e o que ela muda para o recém-nascido. Sífilis congênita tem capítulo próprio e é diferencial obrigatório diante de hepatoesplenomegalia, lesão cutânea e alteração óssea no recém-nascido — citado aqui, resolvido lá.

03

O que muda decisão

Precoce e tardia: o relógio, e o agente de cada lado

Como usar este capítulo: organize o tema em quatro decisões — quando suspeitar, quais culturas e exames colher, qual esquema empírico escolher conforme o momento de início e quando estreitar ou interromper. As doses e durações vêm depois desse eixo.

A Anvisa define infecção precoce de provável origem materna como aquela cuja evidência diagnóstica — clínica, laboratorial ou microbiológica — ocorre nas primeiras 48 horas de vida, associada a fator de risco materno. Tardia, de provável origem hospitalar, é a que aparece depois das primeiras 48 horas. Esse é o corte brasileiro, o mesmo que o Ministério da Saúde usa no Quadro 10 do guia do recém-nascido, e é ele que vale para notificação. A Academia Americana de Pediatria usa 72 horas completas, critério também adotado pelas redes de pesquisa — Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais, Vermont Oxford e NICHHD. E, especificamente para a doença invasiva por estreptococo do grupo B, a vigilância americana usa outra janela ainda: do nascimento ao 6º dia para a forma precoce.

A divisão não é gradação de gravidade: é hipótese etiológica, e é isso que a torna útil. Precoce significa microbiota que colonizava ou infectava a gestante, chegando ao feto por via ascendente durante o trabalho de parto ou por via hematogênica. Os dois agentes que respondem por cerca de 70% dos casos são o estreptococo do grupo B e a Escherichia coli. No recém-nascido a termo, o estreptococo do grupo B é mais frequente que a E. coli (0,29 contra 0,10 caso por mil nascidos vivos); no prematuro de 22 a 28 semanas a relação se inverte com folga (12,13 contra 1,38 por mil). Listeria monocytogenes é causa clássica e importante, transmitida por via transplacentária antes do trabalho de parto — mas no Brasil é muito rara, e essa raridade tem consequência prática no esquema empírico.

Tardia significa flora da unidade neonatal, e o retrato muda com o país. Em países de média e alta renda, os estafilococos coagulase-negativos são os agentes mais comuns, de 36% a 47% de todos os casos; o segundo gram-positivo mais frequente é o Staphylococcus aureus. Patógenos gram-negativos são relativamente mais comuns em países de baixa e média renda, notadamente Klebsiella, E. coli, Pseudomonas e espécies de Salmonella. A população é outra também: a sepse tardia é doença do prematuro que fica internado. A incidência de pelo menos uma hemocultura positiva depois das 48 horas de vida em prematuro de peso menor ou igual a 1.500 gramas vai de 20% a 35%.

Os números de incidência e mortalidade da forma precoce andam colados à idade gestacional, e a prova gosta deles porque explicam a conduta. A incidência é de 0,5 por mil nascidos vivos no termo, 1 por mil entre 34 e 36 semanas, 6 por mil abaixo de 34 semanas, 20 por mil abaixo de 29 semanas e chega a 32 por mil entre 22 e 24 semanas. A mortalidade acompanha: 1,6% com 37 semanas ou mais, 2% a 3% com 35 semanas ou mais, 30% entre 25 e 28 semanas, 50% entre 22 e 24 semanas. Por peso, 3,5% acima de 1.500 gramas contra 35% abaixo. Na sepse por estreptococo do grupo B, a mortalidade do prematuro é 19,2% contra 2,1% do termo. É esse gradiente que justifica o limiar baixíssimo para tratar um prematuro e o limiar alto para tratar um recém-nascido a termo bem.

Fatores de risco maternos, item por item

A lista que vale no Brasil é a da Anvisa, e ela é fechada: bolsa rota por tempo maior ou igual a 18 horas; cerclagem ou pessário; trabalho de parto em gestação menor que 37 semanas; procedimentos de medicina fetal nas últimas 72 horas; infecção do trato urinário materna sem tratamento ou em tratamento há menos de 72 horas; febre materna nas últimas 48 horas; colonização pelo estreptococo do grupo B em gestante sem quimioprofilaxia intraparto, quando indicada; e corioamnionite. A SBP acrescenta o mesmo conjunto com outra redação. O Ministério da Saúde ainda lista fatores do próprio recém-nascido: Apgar de quinto minuto abaixo de 7, sexo masculino e ser o primeiro gemelar.

Bolsa rota de 18 horas ou mais é o número mais cobrado, e o risco que ele carrega é de cerca de 1% de sepse. Prematuridade é o fator isolado mais importante: o risco de infecção no pré-termo é 8 a 11 vezes o do recém-nascido a termo, por deficiência de imunoglobulinas, do sistema complemento e da capacidade de opsonização e fagocitose. Colonização materna pelo estreptococo do grupo B está presente em 10% a 30% das mulheres; cerca de 50% das colonizadas transmitem a bactéria ao recém-nascido; e, na ausência de profilaxia intraparto quando ela estava indicada, 1% a 2% desses recém-nascidos desenvolvem sepse precoce.

Corioamnionite, ou infecção intra-amniótica, tem duas definições operacionais que convivem, e é bom conhecer as duas porque a prova usa ora uma, ora outra. A da Anvisa: febre materna acima de 38 graus, na ausência de outro foco infeccioso, mais dois ou mais dos seguintes — taquicardia materna acima de 100 bpm, taquicardia fetal acima de 160 bpm, dor ou desconforto uterino persistente, líquido amniótico de odor fétido, leucocitose acima de 15.000. A do ACOG, que a SBP adota para fins de abordagem do recém-nascido: febre materna intraparto de 39 graus ou mais, ou temperatura entre 38 e 38,9 graus que persiste por mais de 30 minutos, associada a pelo menos um de leucocitose materna acima de 15.000, drenagem cervical purulenta ou taquicardia fetal acima de 160 bpm por 10 minutos ou mais. A confirmação verdadeira seria bacteriológica ou histopatológica da placenta, mas isso raramente está disponível na hora do parto, e por isso o critério clínico é aceitável. Com corioamnionite, o risco de sepse sobe para 10% a 15% no recém-nascido a termo e 35% a 50% no pré-termo.

Há um detalhe que decide questão e que muita gente inverte. Nos prematuros de muito baixo peso, os fatores de risco funcionam muito bem: em 97% dos que têm sepse precoce existe alguma combinação de rotura prolongada de membranas, trabalho de parto prematuro ou suspeita de infecção intra-amniótica. Já no recém-nascido a termo e no pré-termo tardio, a utilidade dos fatores de risco para o diagnóstico é menor — o que tem mais valor é a observação clínica seriada nas primeiras 48 horas de vida. Em recém-nascidos com 35 semanas ou mais, o exame físico objetivo, sistematizado e repetido tem maior valor diagnóstico do que fatores de risco e do que exames laboratoriais de triagem.

Profilaxia intraparto: o que a torna adequada

Profilaxia intraparto adequada, para fins de prevenir colonização e infecção precoce do recém-nascido pelo estreptococo do grupo B, é o uso na gestante, durante o trabalho de parto, de penicilina G cristalina, ampicilina ou cefazolina por via endovenosa, na dose correta e por tempo maior ou igual a 4 horas antes do parto. Penicilina G cristalina é a primeira escolha; ampicilina é opção aceitável; cefazolina é a alternativa para alergia leve à penicilina. As duas variáveis são droga e tempo — falhar em qualquer uma torna a profilaxia inadequada, e é essa palavra que muda a conduta com o recém-nascido.

Clindamicina é a exceção que a prova adora. Ela é reservada a gestantes com história de anafilaxia grave à penicilina e não protege o recém-nascido: tem baixa passagem transplacentária e enfrenta cepas resistentes na comunidade, podendo inclusive não proteger a própria mulher de infecção puerperal. Uma gestante que recebeu clindamicina seis horas antes do parto não recebeu profilaxia adequada para o recém-nascido, por mais confortável que o número de horas pareça.

As indicações de profilaxia, na atualização do ACOG de 2020, são: filho de gestação anterior com doença invasiva por estreptococo do grupo B; triagem positiva na gestação atual, exceto em cesárea fora de trabalho de parto com membranas íntegras; bacteriúria assintomática ou infecção urinária por estreptococo do grupo B nesta gestação, mesmo já tratada; e, quando a cultura não foi realizada ou é desconhecida, a presença de pelo menos um de — idade gestacional menor que 37 semanas, rotura de membranas por mais de 18 horas, temperatura materna acima de 38 graus, teste de amplificação de ácido nucleico intraparto positivo, teste negativo acompanhado de fator de risco, ou cultura positiva em gestação anterior. Colonização em gestação prévia sem resultado na gestação atual também indica profilaxia, porque o risco de recolonização é estimado em 50%.

O que a profilaxia adequada muda no recém-nascido é a posição dele no algoritmo. Num recém-nascido de 35 semanas ou mais, sem sinal clínico e sem febre materna intraparto, cuja única questão é a indicação de profilaxia para estreptococo do grupo B: se a profilaxia foi adequada, ele vai para cuidados de rotina; se foi inadequada ou não foi feita, ele entra em observação clínica por 36 a 48 horas a partir do nascimento, sem triagem laboratorial e sem antibiótico empírico — e colhe hemocultura e recebe antibiótico apenas se desenvolver sinais. No prematuro de 34 semanas ou menos nascido de parto induzido, a profilaxia inadequada quando indicada é justamente um dos achados que reclassificam o recém-nascido para alto risco, com hemocultura e antibiótico empírico.

O quadro clínico é inespecífico por natureza — e a hipotermia engana

As manifestações de infecção no recém-nascido são multissistêmicas e inespecíficas, e as mesmas queixas aparecem em causas não infecciosas. A dificuldade respiratória é a mais comum, presente em até 90% dos casos, e varia de taquipneia a insuficiência respiratória grave — mas desconforto respiratório logo após o nascimento também é síndrome do desconforto respiratório, taquipneia transitória e aspiração de mecônio. O maior desafio, e a frase é da própria SBP, é diferenciar sinal de infecção de sinal de instabilidade da transição cardiorrespiratória. Daí a regra que resolve questão: recém-nascido com desconforto respiratório leve a moderado imediatamente após o nascimento pode ser monitorado de perto, sem antibiótico, exceto se os sinais piorarem ou persistirem por mais de 6 horas.

A instabilidade térmica engana por três motivos somados. Primeiro, a temperatura do recém-nascido infectado pode estar normal, elevada ou baixa — temperatura normal não exclui sepse. Segundo, a hipotermia é a apresentação mais frequente no prematuro, justamente a população de maior risco, enquanto a hipertermia predomina no termo; quem espera febre para suspeitar de infecção perde o prematuro. Terceiro, a hipotermia compõe o quadro de choque frio e indica maior gravidade, e ainda por cima produz hipoatividade — ou seja, ela derruba o outro sinal que se ia valorizar. O corte a decorar é hipotermia com temperatura axilar abaixo de 36,5 graus e hipertermia acima de 37,5 graus, conforme o Ministério da Saúde; a Anvisa trabalha com distermia abaixo de 36,0 e acima de 37,5 para fins de notificação.

Antes de chamar qualquer coisa de infecção, os diferenciais banais precisam cair. Hipertermia por incubadora quente, excesso de roupa ou baixa ingesta é comum; na hipertermia de origem séptica, o recém-nascido costuma ter extremidades frias apesar da temperatura elevada. Hipoatividade pode ser sono, mamada recente, manipulação excessiva, sedativo ou a própria hipotermia — e a Anvisa é explícita em pedir que esse dado não seja valorizado isoladamente, e que a criança seja reavaliada repetidas vezes.

O resto do quadro: apneia, que difere da apneia da prematuridade por vir acompanhada de outros sinais — na apneia da prematuridade o recém-nascido está em bom estado, ativo e reagindo a estímulos; manifestações do sistema nervoso central, com hipoatividade, hipotonia, convulsão, irritabilidade e letargia; manifestações gastrointestinais em 35% a 40% dos casos, com recusa alimentar, resíduo gástrico, vômito, distensão abdominal e diarreia; instabilidade hemodinâmica, principalmente na sepse por estreptococo do grupo B; hiperglicemia, especialmente no prematuro séptico; icterícia com elevação de bilirrubina direta em até um terço dos casos, sobretudo por gram-negativos; e sinais de sangramento, que acompanham o choque séptico com coagulação intravascular disseminada. O choque séptico tem números próprios no guia do Ministério da Saúde: frequência cardíaca acima de 160 bpm sustentada, frequência respiratória acima de 60, diurese abaixo de 1 mL/kg/hora, pressão arterial média abaixo de 30 mmHg, enchimento capilar acima de dois segundos, pulsos fracos e reticulado cutâneo.

Existe ainda um sinal que parece frouxo e não é: a impressão de que o recém-nascido não está bem. O Ministério da Saúde o lista entre os sinais clínicos de sepse, e a Anvisa registra que a equipe médica deve sempre valorizar o chamado da enfermagem quando ela diz que trocou a fralda, ofereceu o leite, mudou o leito e a criança não reagiu. A regra operacional que fecha esta seção é do próprio Ministério da Saúde: três ou mais sinais clínicos, ou no mínimo dois sinais associados a fatores de risco maternos, autorizam o diagnóstico de sepse clínica e o início da antibioticoterapia sem o auxílio de exames laboratoriais.

Recém-nascido prematuro em incubadora sendo examinado por mãos enluvadas, com pele reticulada, retração subcostal discreta, cânula nasal, cateter central de inserção periférica no braço e sensor de temperatura no abdome.
O exame físico objetivo, sistematizado e repetido vale mais do que os fatores de risco e do que a triagem laboratorial no recém-nascido de 35 semanas ou mais. Os sinais que importam são discretos: pele reticulada, retração leve, hipoatividade, instabilidade térmica.

Investigação: o que cada exame faz, e o que ele não faz

A hemocultura é o padrão-ouro e tem técnica. Diante da suspeita, antes de iniciar o antibiótico empírico, coletam-se duas amostras de dois sítios diferentes, com volume de 1 mL por amostra, sendo no mínimo uma por punção periférica — a outra pode vir de acesso central no momento da inserção do cateter umbilical. O Ministério da Saúde admite 0,5 a 1 mL em amostra única, e recomenda a punção venosa periférica porque a coleta de veia umbilical tem alto índice de contaminação. O volume não é detalhe burocrático: a bacteremia neonatal costuma ser de baixa densidade, com poucas unidades formadoras de colônia por mililitro, de modo que amostra pequena derruba a sensibilidade de um exame cuja sensibilidade já não passa de 80%. Considera-se agente etiológico o crescimento nas primeiras 48 horas de incubação; crescimento depois disso sugere contaminação, e vale lembrar que 94% das bactérias causadoras de doença crescem em cultura dentro de 48 horas. Pede-se o teste de sensibilidade junto. Se o recém-nascido já estiver em antibiótico, colhe-se no vale, antes da próxima dose.

O hemograma tem hora certa, e não é ao nascer. Uma vez tomada a decisão de iniciar antibiótico, prioriza-se a hemocultura e pode-se aguardar ao menos 6 a 12 horas para solicitar a contagem total e diferencial de leucócitos, porque as alterações de neutrófilos maduros e imaturos exigem uma resposta inflamatória já estabelecida; a Anvisa recomenda coleta preferencialmente entre 12 e 24 horas de vida, pela melhor especificidade. Os achados mais valorizados são leucócitos totais abaixo de 5.000, neutrófilos absolutos abaixo de 2.000 e a relação entre neutrófilos imaturos e neutrófilos totais. O corte a usar é I/T maior ou igual a 0,2, do Ministério da Saúde, cujo valor está no lado negativo: o valor preditivo negativo é de 95% a 100%, ou seja, abaixo de 0,2 é provável que o recém-nascido não esteja infectado. A SBP valoriza I/T acima de 0,3 como o achado mais específico, e o escore hematológico de Rodwell usa cortes que variam com a hora de vida, de 0,16 ao nascimento até 0,12 depois do quarto dia. Esse escore, com pontuação de 3 ou mais, tem sensibilidade de 96% e especificidade de apenas 78%; com 2 ou menos, valor preditivo negativo de 99%. E há um alerta que a prova cobra: pré-eclâmpsia, insuficiência placentária e a própria rotura prematura de membranas alteram o hemograma sem infecção nenhuma, e essas alterações podem persistir até 72 horas de vida.

A proteína C reativa serve para excluir, não para diagnosticar. Ela se eleva 24 horas após o início da infecção, atinge o pico em 2 a 3 dias e retorna ao normal com 5 a 10 dias de tratamento adequado; considera-se anormal acima de 1 mg/dL, ou 10 mg/L, por método quantitativo — os métodos qualitativos e o látex não são validados para essa finalidade. O valor preditivo negativo chega a 98%: proteína C reativa normal na triagem, mantendo-se normal em exames seriados até 2 a 3 dias do início do quadro, reduz a chance de infecção verdadeira a cerca de 2%. Um valor isolado elevado, ao contrário, não indica tratar coisa alguma, porque sobem com rotura prematura de membranas, asfixia perinatal, síndrome do desconforto respiratório, hemorragia intraventricular, aspiração de mecônio, pneumotórax e defeitos de parede abdominal. A procalcitonina é pior ainda como exame isolado: ela aumenta naturalmente nas primeiras 24 a 36 horas após o nascimento. Citocinas e CD64 não são rotina.

A radiografia de tórax entra quando há desconforto respiratório, para separar pneumonia de síndrome do desconforto respiratório, taquipneia transitória e aspiração de mecônio — e importa porque o diagnóstico de pneumonia altera a duração do antibiótico. A urocultura praticamente não rende na sepse precoce; está indicada no recém-nascido sintomático com diagnóstico pré-natal de malformação do trato urinário, e passa a ser útil na infecção tardia.

A punção lombar é o exame com regra própria, e três situações a tornam obrigatória. Primeira: quando a hemocultura confirma a sepse precoce, a punção deve ser realizada, caso ainda não tenha sido feita — é o líquor que define tipo de droga, dose, duração e prognóstico. Segunda: diante de forte suspeita de infecção, sobretudo com manifestação do sistema nervoso central, colhe-se o líquor mesmo que o antibiótico já tenha sido iniciado, porque 38% das meningites cursam com hemocultura negativa. Terceira: a AAP orienta considerar a punção antes do antibiótico empírico nos recém-nascidos de maior risco, especialmente os gravemente doentes. E as travas valem tanto quanto as indicações — não se punciona se a condição clínica do recém-nascido estiver comprometida, e o antibiótico jamais é adiado por causa do procedimento. Se a punção não for possível, tratam-se com doses de meningite. No recém-nascido assintomático com fator de risco, a punção pode ser adiada. Os valores de referência do líquor neonatal são próprios: proteína alta e celularidade que seriam alarmantes fora do período neonatal são normais aqui.

Antibiótico empírico: a dupla, a dose e o intervalo

Na sepse precoce, o esquema é ampicilina ou penicilina G cristalina associada a gentamicina ou amicacina. A lógica é direta: a dupla cobre estreptococo do grupo B, outros estreptococos, enterococo e Listeria; a gentamicina tem ação sinérgica com a ampicilina contra o estreptococo do grupo B e, em geral, é adequada para bacilos gram-negativos entéricos. Mais de 90% dos microrganismos identificados como agentes de sepse precoce em dados nacionais são sensíveis a um desses antibióticos. Alguns serviços brasileiros usam penicilina G cristalina no lugar da ampicilina, e a razão é epidemiológica: como a Listeria é muito rara no Brasil e os prevalentes são o estreptococo do grupo B e a E. coli, o espectro extra da ampicilina rende pouco.

As doses aparecem de duas formas nos documentos, e convém saber as duas. O Ministério da Saúde apresenta a dose diária: ampicilina 200 mg/kg/dia associada a gentamicina 5 mg/kg/dia, com amicacina 20 mg/kg/dia quando o uso continuado de gentamicina na unidade estiver induzindo resistência. A dose elevada de ampicilina existe para cobrir eventual infecção por Streptococcus agalactiae. A SBP apresenta a dose por tomada, e é aí que entram os intervalos: para os betalactâmicos, o intervalo se define por peso de nascimento e dias de vida; para os aminoglicosídeos, por idade gestacional e idade pós-natal. A tabela do bloco de critérios traz as duas réguas.

Na sepse tardia, a primeira opção brasileira é oxacilina com amicacina, e a segunda é vancomicina associada a cefotaxima ou cefepima. A escolha da primeira opção é deliberada: baixa indução de resistência, alta sensibilidade dos bastonetes gram-negativos à amicacina, ampla disponibilidade e baixo custo — e a SBP registra que o esquema tem se mostrado efetivo e seguro. Vancomicina no esquema empírico inicial só se justifica em unidade com alta prevalência de infecção de corrente sanguínea por Staphylococcus aureus resistente à meticilina. Numa unidade em que predominam estafilococos coagulase-negativos, mesmo resistentes à oxacilina, o esquema empírico com vancomicina não está indicado, porque essas infecções têm baixa morbimortalidade e há tempo de trocar com segurança quando o agente for isolado na hemocultura.

Duas travas fecham a seção. O uso empírico de cefalosporinas de terceira e quarta geração deve ser evitado pelo risco de indução de resistência, ficando reservado ao tratamento de meningite, ao recém-nascido com insuficiência renal e às infecções por bactérias resistentes a aminoglicosídeos. E a ceftriaxona é contraindicada em criança recebendo solução parenteral com cálcio — nessa situação, cefotaxima. Aminoglicosídeo pede cautela redobrada quando associado a outras drogas nefro e ototóxicas, como a própria vancomicina, e amicacina, gentamicina e vancomicina têm dosagem de nível sérico com valores de referência definidos.

Quando suspender: o número que mais reduz antibiótico

A resposta é 36 a 48 horas, com hemocultura negativa, recém-nascido bem e triagem sem alterações. A diretriz da SBP de 2025 é explícita ao dizer que a duração ideal da terapia empírica foi reduzida para 36 a 48 horas, e explica de onde vinha o número antigo: o período tradicional de 48 a 72 horas, ainda aplicado em muitos serviços, baseia-se em dados obtidos com técnica manual, em que as culturas eram examinadas diariamente pela turbidez visual do caldo e as placas revistas em 12 horas. Os métodos automatizados atuais detectam continuamente o crescimento bacteriano por produção de gás carbônico ou variação da pressão do gás, e são otimizados para captar níveis muito baixos de bacteremia. O número encolheu porque a tecnologia da hemocultura mudou, não porque alguém ficou mais corajoso.

A regra da AAP para o outro lado é igualmente fechada: a continuidade do tratamento além de 48 horas só se justifica diante de sinais clínicos de infecção associados a hemocultura ou líquor positivos, ou a sinais de localização como pneumonia ou meningite, mesmo sem agente isolado. Nada disso presente, o antibiótico sai.

O motivo de tanta insistência num prazo é que o antibiótico desnecessário não é neutro. Estima-se que entre 11 e 23 recém-nascidos não infectados sejam tratados para cada infecção documentada. O estudo de Cotten e colaboradores relacionou aumento de enterocolite necrosante e morte entre recém-nascidos de extremo baixo peso que receberam antibiótico empírico por tempo maior ou igual a 5 dias. E o uso empírico prolongado e de amplo espectro em recém-nascido sem infecção documentada está associado a maior risco de sepse tardia. Some-se a isso o custo de internar em terapia intensiva, interromper o vínculo entre mãe e filho e prolongar a hospitalização.

O que segura o antibiótico no Brasil tem nome: o rótulo de sepse clínica, ou infecção primária de corrente sanguínea sem confirmação microbiológica. O critério da Anvisa exige pelo menos um sinal clínico sem outra causa reconhecida, mais todos os seguintes — hemograma com três ou mais parâmetros alterados no escore hematológico e proteína C reativa quantitativa seriada elevada, hemocultura negativa ou não realizada, ausência de evidência de infecção em outro sítio, e terapia antimicrobiana instituída e mantida pelo médico assistente. Note que o último item é a própria decisão do médico virando critério diagnóstico. A SBP escreve, com todas as letras, que continuar o tratamento com base em critérios clínicos associados a alterações de hemograma e proteína C reativa seriada, embora ainda muito aplicado nas unidades neonatais do Brasil, deve tornar-se gradativamente uma condição de exceção. Para isso ela pede algo concreto: integração entre a equipe de neonatologia e o laboratório de microbiologia, com liberação de resultados parciais em tempo oportuno.

Quando trata mesmo: duração por sítio, e o que muda na meningite

Confirmado o tratamento, a duração sai do sítio e do agente. Sepse clínica, sem agente isolado: 5 a 7 dias — e a diretriz de 2025 admite 5 dias em infecção não complicada, com hemocultura negativa e proteína C reativa normal entre o quarto e o quinto dia de tratamento. Infecção primária de corrente sanguínea com agente isolado: 7 a 10 dias. Pneumonia sem agente isolado: 5 a 7 dias. Ventriculite e infecção osteoarticular: 4 semanas. Sempre que possível, opta-se por monoterapia de espectro estreito dirigida ao agente, a partir do resultado das culturas e do antibiograma.

Meningite muda três coisas de uma vez: droga, dose e duração. A duração é 14 dias quando o agente é gram-positivo e 21 dias quando é bacilo gram-negativo. A droga muda porque, na suspeita ou confirmação de meningite por gram-negativo, entra cefalosporina de terceira ou quarta geração — cefotaxima nos quadros de sepse precoce e cefepima nos de sepse tardia, na orientação da SBP de 2025. E a dose praticamente dobra: ampicilina passa de 25 para 50 mg/kg por tomada, penicilina G cristalina de 25.000 para 50.000 UI/kg, oxacilina de 25 para 50 mg/kg, e o meropenem vai a 40 mg/kg de 8 em 8 horas. É por isso que, quando a punção lombar não pode ser feita, se trata com dose de meningite: na dúvida, a dose maior cobre os dois cenários.

Vale reter o encadeamento que a prova monta: hemocultura positiva obriga punção lombar se ela ainda não foi feita; o resultado do líquor define a duração; e, para efeito de notificação, líquor alterado colhido antes ou durante o tratamento é considerado meningite mesmo com cultura negativa — e, se o líquor está alterado com cultura negativa e a hemocultura é positiva, o microrganismo da hemocultura pode ser considerado o agente daquela meningite.

Sepse tardia e o cateter do prematuro

Na sepse tardia, o cateter central é o centro da história. A definição epidemiológica de infecção de corrente sanguínea associada a cateter venoso central exige que o recém-nascido esteja em uso do dispositivo por período maior que dois dias de calendário, sendo o primeiro dia o da instalação, e que na data da infecção o cateter estivesse instalado ou tivesse sido removido no dia anterior. Essa definição é o que separa infecção associada ao dispositivo de bacteremia de outra origem, e é ela que alimenta os indicadores das unidades.

A conduta com o cateter segue o agente. Ele deve ser removido o mais breve possível na infecção associada ao dispositivo, especialmente nas causadas por Staphylococcus aureus, bacilos gram-negativos, enterococos e fungos. O estafilococo coagulase-negativo é a exceção conhecida: é o agente com maior sucesso de tratamento sem remoção do cateter. Quando a retirada é adiada — o que acontece com frequência, pela dificuldade de novo acesso venoso —, o recém-nascido precisa de monitoração clínica cuidadosa e de hemoculturas adicionais após no mínimo 24 horas de antibiótico adequado ao perfil de sensibilidade; o cateter sai se houver deterioração clínica, persistência ou recorrência da infecção.

A duração acompanha a decisão sobre o cateter, e essa é a tabela que a prova cobra sem avisar. Infecção por estafilococo coagulase-negativo não associada a cateter, ou com o cateter removido, e boa evolução clínica: 5 a 7 dias; mantido o cateter, 10 a 14 dias. Infecção por Staphylococcus aureus: no mínimo 14 dias, mesmo com o cateter removido, pelo risco de complicação infecciosa à distância. Demais bactérias: 7 a 10 dias com o cateter removido, 10 a 14 dias se mantido.

Há uma armadilha microbiológica que gera tratamento desnecessário. Quando a hemocultura colhida do cateter central é positiva e a colhida de veia periférica é negativa, o cenário mais provável é colonização do cateter, não infecção — e a regra geral é tratar infecção, não colonização nem contaminação: tratar pneumonia e não o aspirado traqueal, tratar bacteremia e não a cultura de ponta de cateter, tratar infecção urinária e não a cultura de cateter uretral.

Prevenção: o que efetivamente derruba a incidência

Na sepse precoce, a estratégia mais efetiva é conhecida e mensurável: a triagem universal das gestantes para colonização por estreptococo do grupo B combinada com a profilaxia intraparto quando indicada. Nos Estados Unidos, a adesão à antibioticoterapia intraparto derrubou a incidência geral de sepse precoce de 3 a 4 casos para aproximadamente 0,8 caso por mil nascidos vivos. Somam-se o diagnóstico e o tratamento oportuno de infecção urinária e bacteriúria assintomática na gestante, quando a contagem for maior ou igual a 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro, o uso criterioso de procedimentos diagnósticos invasivos, e algo que não é clínico e decide o caso: comunicação entre as equipes de obstetrícia e de neonatologia, para que a profilaxia comece cedo o bastante para alcançar as 4 horas antes do parto e para que o pediatra saiba, na sala de parto, o que foi feito e quando.

Na sepse tardia, a prevenção é de unidade, não de paciente. A higiene das mãos vem primeiro, e a SBP pede o que raramente se cobra: treinamento periódico de toda a equipe assistencial e auditoria de adesão aos cinco momentos. Depois vêm o cuidado com o cateter — indicação criteriosa, técnica asséptica na inserção, manutenção protocolada e retirada assim que possível —, o isolamento e a coorte de pacientes com microrganismos multirresistentes, as culturas de vigilância em pacientes cirúrgicos e em situação de surto, e a redução da profilaxia antibiótica cirúrgica.

E há a medida que fecha o círculo: usar menos antibiótico é, ele próprio, prevenção de sepse tardia, já que o uso empírico prolongado e de amplo espectro aumenta o risco de sepse tardia, enterocolite necrosante e morte. O leite materno da própria mãe entra aqui pela mesma porta — é o que permite avançar a dieta enteral no prematuro e, com ela, retirar mais cedo o cateter central, que é o principal fator de risco modificável da sepse tardia nessa população. Prevenir sepse tardia é, em boa medida, encurtar o tempo em que o prematuro precisa de dispositivo.

04

Do fator de risco à decisão de tratar (e de parar)

O fluxo abaixo é o caminho inteiro, da anamnese materna à suspensão do antibiótico. A primeira tabela é a que a prova mais cobra: cada fator de risco materno com o número que o define e o que ele muda na conduta, conforme o recém-nascido esteja assintomático ou com sinal clínico. A segunda traz o esquema empírico com dose por tomada e a régua de intervalo — que é peso e dias de vida para os betalactâmicos e idade gestacional para os aminoglicosídeos. A terceira fecha com a duração por situação, incluindo o prazo de suspensão.

  1. 1Levante os fatores de risco maternos antes de tocar no recém-nascido: tempo de bolsa rota, temperatura materna intraparto, resultado da cultura para estreptococo do grupo B, se a profilaxia estava indicada, com que droga e quantas horas antes do parto, idade gestacional e sinais de infecção intra-amniótica.
  2. 2Examine o recém-nascido. Sinal clínico de doença — desconforto respiratório que piora ou persiste por mais de 6 horas, apneia, instabilidade térmica, hipoatividade, intolerância alimentar, instabilidade hemodinâmica — indica colher hemocultura e iniciar antibiótico empírico, sem esperar exame de triagem.
  3. 3Recém-nascido de 35 semanas ou mais, assintomático, com fator de risco: exame físico objetivo e seriado por 36 a 48 horas, sem triagem laboratorial e sem antibiótico empírico. Hemocultura e antibiótico apenas se surgirem sinais sugestivos e persistentes.
  4. 4Temperatura materna intraparto de 38 graus ou mais, ou suspeita de infecção intra-amniótica: hemocultura e antibiótico empírico, mesmo sem sinal clínico no recém-nascido.
  5. 5Recém-nascido de 34 semanas ou menos: trabalho de parto prematuro, rotura prematura de membranas ou sinal de infecção intra-amniótica indicam hemocultura e antibiótico empírico. Cesárea eletiva por indicação materna com bolsa íntegra não indica avaliação laboratorial nem antibiótico.
  6. 6Antes do antibiótico, colha duas hemoculturas de sítios diferentes, 1 mL cada, ao menos uma periférica. Adie o hemograma e a proteína C reativa para 6 a 24 horas de vida. Radiografia de tórax se houver desconforto respiratório.
  7. 7Inicie ampicilina ou penicilina G cristalina com gentamicina ou amicacina na sepse precoce; oxacilina com amicacina na sepse tardia.
  8. 8Reavalie em 36 a 48 horas. Hemocultura negativa, recém-nascido bem e triagem sem alteração: suspenda. Manter além disso exige hemocultura ou líquor positivos, ou sinal de localização como pneumonia ou meningite.
  9. 9Hemocultura positiva: realize a punção lombar se ela ainda não foi feita, porque é o líquor que define droga, dose e duração — e ajuste o antibiótico ao antibiograma, preferindo monoterapia de menor espectro.
Fator de risco maternoO número que o defineRecém-nascido assintomático com 35 semanas ou maisRecém-nascido com sinal clínico, ou com 34 semanas ou menos
Rotura de membranas prolongada18 horas ou mais. Risco de sepse em torno de 1%.Observação clínica seriada por 36 a 48 horas, sem triagem e sem antibiótico.Hemocultura e antibiótico empírico. Em 34 semanas ou menos, a rotura prematura de membranas por si já indica cultura e tratamento.
Corioamnionite ou infecção intra-amnióticaAnvisa: febre acima de 38 graus sem outro foco mais dois de — taquicardia materna acima de 100, taquicardia fetal acima de 160, dor uterina persistente, líquido fétido, leucocitose acima de 15.000. ACOG: febre de 39 graus ou mais, ou 38 a 38,9 por mais de 30 minutos com um daqueles achados.Hemocultura e antibiótico empírico. É o fator que tira o assintomático da observação.Hemocultura e antibiótico empírico. Risco de sepse de 10% a 15% no termo e de 35% a 50% no pré-termo.
Colonização por estreptococo do grupo B com profilaxia intraparto adequadaPenicilina G cristalina, ampicilina ou cefazolina endovenosa, dose correta, 4 horas ou mais antes do parto.Cuidados de rotina, quando não há outro fator e não há febre materna.Conduzir pelo quadro clínico ou pela idade gestacional; a profilaxia adequada não anula sinal clínico.
Colonização por estreptococo do grupo B com profilaxia inadequada ou ausenteMenos de 4 horas antes do parto, droga fora da lista, ou profilaxia não feita quando indicada. Clindamicina não conta como adequada.Observação clínica por 36 a 48 horas a partir do nascimento; hemocultura e antibiótico se surgirem sinais.Em 34 semanas ou menos nascido de parto induzido, é justamente o achado que reclassifica para alto risco: hemocultura e antibiótico empírico.
Febre materna intraparto38 graus ou mais é o corte que muda a conduta com o recém-nascido. O Ministério da Saúde lista febre acima de 37,5 graus entre os fatores de risco, e a Anvisa considera febre nas 48 horas que antecedem o parto.Hemocultura e antibiótico empírico, mesmo assintomático.Hemocultura e antibiótico empírico.
PrematuridadeTrabalho de parto antes de 37 semanas. Risco 8 a 11 vezes o do recém-nascido a termo.Não se aplica: abaixo de 35 semanas a régua é outra.Trabalho de parto prematuro em 34 semanas ou menos indica hemocultura e antibiótico empírico, com reavaliação em 36 a 48 horas.
Infecção urinária maternaSem tratamento, ou em tratamento há menos de 72 horas.Compõe o risco; conduz-se pela observação clínica seriada.Compõe a decisão de colher cultura e tratar, junto com os demais achados.
Cerclagem ou pessário; procedimento de medicina fetalProcedimento nas últimas 72 horas antes do parto.Compõe o risco; observação clínica seriada.Compõe a decisão de colher cultura e tratar.
Cesárea eletiva por indicação materna, bolsa íntegra, fora de trabalho de partoSem rotura de membranas no momento do nascimento.Cuidados de rotina.Em 34 semanas ou menos, não iniciar antibiótico nem avaliação laboratorial. Se o recém-nascido não melhorar após a estabilização inicial ou tiver instabilidade grave, o antibiótico é razoável, mas não obrigatório.

Antibiótico empírico: dose por tomada e a régua do intervalo

DrogaDose por tomadaO que define o intervaloIntervalo
Ampicilina (sepse)25 mg/kgPeso de nascimento e dias de vidaAbaixo de 1.200 g: 12/12 h. De 1.200 a 2.000 g: 12/12 h até 7 dias, 8/8 h depois. Acima de 2.000 g: 8/8 h até 7 dias, 6/6 h depois.
Ampicilina (meningite)50 mg/kgPeso de nascimento e dias de vidaMesma régua da ampicilina em sepse; o que dobra é a dose, não a frequência.
Penicilina G cristalina (sepse)25.000 UI/kgPeso de nascimento e dias de vidaAté 2.000 g: 12/12 h. Acima de 2.000 g: 8/8 h até 7 dias, 6/6 h depois. Em infecção por Streptococcus agalactiae, 250.000 a 400.000 UI/kg/dia.
Penicilina G cristalina (meningite)50.000 UI/kgPeso de nascimento e dias de vidaAté 2.000 g: 12/12 h. Acima de 2.000 g: 8/8 h até 7 dias, 6/6 h depois.
Gentamicina4 a 5 mg/kgIdade gestacional e idade pós-natal29 semanas ou menos: 5 mg/kg 48/48 h de 0 a 7 dias, 4 mg/kg 36/36 h de 8 a 28 dias, 4 mg/kg 24/24 h a partir de 29 dias. De 30 a 34 semanas: 4,5 mg/kg 36/36 h de 0 a 7 dias, 4 mg/kg 24/24 h depois. 35 semanas ou mais: 4 mg/kg 24/24 h.
Amicacina15 a 18 mg/kgIdade gestacional e idade pós-natal29 semanas ou menos: 18 mg/kg 48/48 h de 0 a 7 dias, 15 mg/kg 36/36 h de 8 a 28 dias, 15 mg/kg 24/24 h a partir de 29 dias. De 30 a 34 semanas: 18 mg/kg 36/36 h de 0 a 7 dias, 15 mg/kg 24/24 h depois. 35 semanas ou mais: 15 mg/kg 24/24 h.
Oxacilina (primeira opção da sepse tardia, com amicacina)25 mg/kg; 50 mg/kg na meningitePeso de nascimento e dias de vidaAbaixo de 1.200 g: 12/12 h. De 1.200 a 2.000 g: 12/12 h até 7 dias, 8/8 h depois. Acima de 2.000 g: 8/8 h até 7 dias, 6/6 h depois.
Vancomicina10 mg/kgPeso de nascimento e dias de vida, com ajuste pelo nível de valeAté 2.000 g: 12/12 h. Acima de 2.000 g: 8/8 h. Vale de referência de 5 a 15 µg/mL.
Cefotaxima (meningite por gram-negativo na sepse precoce)50 mg/kgPeso de nascimento e dias de vidaAbaixo de 1.200 g: 12/12 h. De 1.200 a 2.000 g: 12/12 h até 7 dias, 8/8 h depois. Acima de 2.000 g: 12/12 h até 7 dias, 8/8 h depois.

Duração: de quanto tempo é o tratamento, e quando ele não começa

SituaçãoDuraçãoO detalhe que decide
Hemocultura negativa, recém-nascido bem, triagem sem alteraçãoSuspender em 36 a 48 horasContinuar além disso exige hemocultura ou líquor positivos, ou sinal de localização como pneumonia ou meningite, mesmo sem agente isolado.
Sepse clínica, sem confirmação microbiológica5 a 7 dias5 dias bastam na infecção não complicada, com hemocultura negativa e proteína C reativa normal entre o quarto e o quinto dia de tratamento.
Infecção de corrente sanguínea com agente isolado7 a 10 diasO tempo depende do agente e de o cateter central ter sido ou não removido.
Pneumonia sem agente isolado5 a 7 diasDepende da evolução clínica, da melhora radiológica e da proteína C reativa normal.
Meningite por gram-positivo14 diasA dose passa a ser a de meningite: ampicilina 50 mg/kg por tomada, penicilina G cristalina 50.000 UI/kg.
Meningite por gram-negativo21 diasEntra cefalosporina de terceira ou quarta geração — cefotaxima na sepse precoce, cefepima na tardia.
Corrente sanguínea por estafilococo coagulase-negativo5 a 7 dias com o cateter removido; 10 a 14 dias se mantidoÉ o agente com maior sucesso de tratamento sem remover o cateter.
Corrente sanguínea por Staphylococcus aureusNo mínimo 14 diasVale mesmo com o cateter removido, pelo risco de foco infeccioso à distância.
Ventriculite; infecção osteoarticular4 semanasArtrite e osteomielite podem passar de 21 dias conforme a avaliação ortopédica.

Índice I/T: o corte a usar é 0,2 ou mais, do Ministério da Saúde, e seu valor está no lado negativo — abaixo de 0,2, o valor preditivo negativo é de 95% a 100%. A SBP valoriza I/T acima de 0,3 como achado mais específico, e o escore de Rodwell usa cortes que caem com a hora de vida, de 0,16 ao nascimento a 0,12 depois do quarto dia. Os três números descrevem o mesmo exame com finalidades diferentes: 0,2 para excluir, 0,3 para valorizar, Rodwell para pontuar.

Instabilidade térmica: hipotermia é temperatura axilar abaixo de 36,5 graus e hipertermia acima de 37,5 graus, pelo Ministério da Saúde; a Anvisa usa abaixo de 36,0 e acima de 37,5 para fins de notificação. Temperatura normal não exclui sepse, e a hipotermia é a apresentação mais frequente no prematuro.

Hemograma e proteína C reativa não são exames de sala de parto. As alterações de neutrófilos exigem resposta inflamatória estabelecida, e alterações ligadas a eventos do periparto podem persistir até 72 horas de vida — daí a coleta ser adiada para 6 a 12 horas (SBP) ou 12 a 24 horas de vida (Anvisa). A hemocultura, essa sim, vem antes da primeira dose de antibiótico.

A punção lombar nunca atrasa o antibiótico, e não se realiza com o recém-nascido clinicamente comprometido. Se não for possível puncionar, tratam-se com doses de meningite. Hemocultura positiva obriga a punção, se ela ainda não tiver sido feita.

Hemocultura positiva do cateter central com hemocultura periférica negativa sugere colonização do cateter, não infecção de corrente sanguínea.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O corte de horas que separa sepse precoce de tardia

48 horas completas — Anvisa e Ministério da Saúde

Infecção precoce de provável origem materna é aquela cuja evidência diagnóstica clínica, laboratorial ou microbiológica ocorre nas primeiras 48 horas de vida, associada a fator de risco materno; tardia, de provável origem hospitalar, é a que aparece depois disso. É o corte que vale para notificação e para os indicadores das unidades brasileiras, e o mesmo que o Ministério da Saúde usa ao listar os agentes prováveis de cada período.

Anvisa. Critérios Diagnósticos de Infecção Associada à Assistência à Saúde — Neonatologia, Caderno 3, 2017, capítulo 1; Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 2, 2ª edição, 2014, Quadro 10.

72 horas completas — Academia Americana de Pediatria e redes de pesquisa neonatal

A AAP adota 72 horas completas de vida como limite da forma precoce, critério também usado pela Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais, pela Rede Vermont Oxford e pelo NICHHD. O argumento é operacional: as coortes de pesquisa precisam de janela que acomode a apresentação mais tardia do prematuro, ainda que 60% a 80% dos casos se manifestem nas primeiras 24 horas.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 11 do Departamento de Neonatologia, 15 de junho de 2022, que registra o corte da AAP e das redes.

Do nascimento ao 6º dia — vigilância da doença invasiva por estreptococo do grupo B

Para a doença invasiva por estreptococo do grupo B especificamente, a vigilância americana define forma precoce como o isolamento do agente em sítio estéril do nascimento ao 6º dia de vida, e forma tardia do 7º ao 89º dia. É janela de um agente, não de sepse neonatal em geral — e é de onde vem o número de 7 dias que circula misturado aos outros dois.

American Academy of Pediatrics. Management of Infants at Risk for Group B Streptococcal Disease. Pediatrics, 2019;144(2):e20191881.

Na prova

O vocabulário do enunciado entrega o recorte. Notificação, CCIH, IRAS, indicador de unidade e a expressão provável origem materna pertencem ao corpo da Anvisa, onde o corte é 48 horas. Coorte, rede de pesquisa, Vermont Oxford ou a tradução literal de early-onset sepsis apontam para o corpo americano, onde é 72 horas. Quando o enunciado fala de doença invasiva por estreptococo do grupo B e não de sepse neonatal em geral, a janela discutida é a de vigilância desse agente, que vai até o 6º dia. As alternativas também denunciam: uma lista que traz 48 e 72 horas juntas depende de o enunciado nomear o documento, e uma que traz 7 dias no meio quase sempre está falando de estreptococo do grupo B.

O que fazer com o recém-nascido assintomático que tem fator de risco

Antibiótico empírico para todos os expostos — orientação da AAP até 2018

Até 2018 as diretrizes da AAP recomendavam iniciar antibiótico empírico em todo recém-nascido exposto a corioamnionite materna, independentemente de sintomas, com reavaliação clínica em 48 horas para manter ou suspender. A lógica era a gravidade e a rapidez de evolução da sepse precoce, que tornam o erro de não tratar muito mais caro que o de tratar.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 11, 2022, que registra a orientação anterior da AAP (Polin RA, Committee on Fetus and Newborn, Pediatrics, 2012).

Avaliação clínica seriada, sem triagem e sem antibiótico — AAP a partir de 2018 e SBP em 2022

Para pré-termo tardio ou a termo com fator de risco e sem sintomas, a observação clínica seriada sem triagem infecciosa e sem antibiótico empírico é considerada boa prática. O fundamento é que, em recém-nascidos com 35 semanas ou mais, o exame físico objetivo e repetido tem maior valor diagnóstico que os fatores de risco e que os exames de triagem — os que nascem em boas condições têm até 70% menos risco que os que parecem doentes ao nascer ou adoecem nas primeiras 48 horas. Pesa também o dano do antibiótico desnecessário: mais sepse tardia, mais enterocolite necrosante, mais morte, além de internação em terapia intensiva e interrupção do vínculo entre mãe e filho.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 11, 2022, Recomendação 02 e Figura 2, adaptada de Puopolo KM e colaboradores.

Calculadora de risco de sepse precoce — modelo multivariado proposto pela AAP em 2018

O modelo parte da probabilidade prévia de sepse precoce local e combina o risco estimado com o exame clínico das primeiras 12 horas de vida, produzindo três condutas: hemocultura com antibiótico imediato, hemocultura apenas, ou cuidados de rotina. Foi validado em coorte multicêntrica com mais de 200 mil recém-nascidos de 35 semanas ou mais, com redução do uso de antibiótico nas primeiras 24 horas de vida e do tempo de tratamento, sem mudança na incidência de sepse confirmada. O uso de antibiótico entre 24 e 72 horas não se alterou, o que indica que ele passou a ser dado a quem de fato adoeceu.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 11, 2022, com a descrição do modelo, das variáveis de entrada e da coorte de validação.

Na prova

A menção nominal resolve boa parte: calculadora, modelo multivariado ou probabilidade prévia local apontam para a terceira posição; exame físico seriado e observação por 36 a 48 horas apontam para a segunda; exposto a corioamnionite, tratar e reavaliar em 48 horas descreve a orientação anterior, e enunciados antigos ou que citam 2012 costumam viver nela. O cenário também informa, e a causa tem nome: a estratégia depende da capacidade de observar. A própria SBP registra que, onde não se conhece a prevalência local de sepse, não se investiga a colonização materna e não há rotina de profilaxia intraparto, a calculadora pode acabar levando recém-nascidos de menor risco a receber antibiótico; e a observação seriada exige berçário com equipe capaz de examinar e registrar de forma sistematizada por 36 a 48 horas. Enunciado que descreve maternidade sem essa estrutura está montando um cenário diferente do que descreve unidade com exame seriado protocolado.

Por quanto tempo se mantém o antibiótico empírico quando a hemocultura é negativa

36 a 48 horas — SBP em 2025 e AAP

A duração ideal da terapia empírica foi reduzida para 36 a 48 horas: com hemocultura negativa, recém-nascido bem e triagem sem alteração, o antibiótico é suspenso. Continuar além de 48 horas só se justifica com sinais clínicos associados a hemocultura ou líquor positivos, ou a sinal de localização como pneumonia ou meningite, mesmo sem agente isolado.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Diretriz nº 193 — Diretrizes para uso racional de antibióticos em unidades neonatais, 6 de março de 2025; e Documento Científico nº 11, 2022, Figura 1.

48 a 72 horas — período tradicional, ainda aplicado em muitos serviços

O prazo mais longo continua em uso em muitas unidades. A diretriz de 2025 nomeia a origem do número: ele vem de dados de Pichichero e Todd, obtidos quando as culturas eram avaliadas por exame diário da turbidez visual do caldo e revisão das placas em 12 horas. Os métodos automatizados atuais detectam continuamente o crescimento por produção de gás carbônico ou variação de pressão do gás, e captam bacteremia de nível muito baixo — o que torna o prazo antigo mais longo do que a técnica exige.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Diretriz nº 193, 2025, seção de tratamento empírico.

36 horas com proteína C reativa normal ou em queda — NICE, Reino Unido

A régua britânica acrescenta um exame à decisão: mede-se a proteína C reativa 18 a 24 horas após a apresentação e o antibiótico é interrompido em 36 horas se a hemocultura for negativa, o recém-nascido estiver bem e a proteína C reativa estiver normal ou em queda. Na hemocultura positiva ou na sepse confirmada, o tratamento é de 7 dias, e o esquema empírico de primeira escolha é benzilpenicilina com gentamicina.

National Institute for Health and Care Excellence. Neonatal infection: antibiotics for prevention and treatment, NICE guideline NG195, 2021.

5 a 7 dias sob o rótulo de sepse clínica

Quando o caso é classificado como infecção primária de corrente sanguínea sem confirmação microbiológica, o tratamento vai a 5 a 7 dias mesmo com hemocultura negativa. O critério exige sinal clínico sem outra causa, hemograma com três ou mais parâmetros alterados no escore hematológico, proteína C reativa seriada elevada, ausência de infecção em outro sítio e terapia mantida pelo médico assistente. A SBP registra que essa prática, ainda muito aplicada nas unidades brasileiras, deve tornar-se gradativamente uma condição de exceção dentro das boas práticas de uso racional de antibiótico.

Anvisa. Critérios Diagnósticos de Infecção Associada à Assistência à Saúde — Neonatologia, 2017, critério de IPCSC; SBP, Documento Científico nº 11, 2022, Quadro 4, e Diretriz nº 193, 2025.

Na prova

O enunciado costuma entregar os dois lados no próprio enredo. Quando ele diz que a hemocultura veio negativa, o recém-nascido está bem e a triagem não se alterou, e ainda oferece um prazo curto entre as alternativas, está trabalhando com a régua de 36 a 48 horas. Quando descreve hemograma alterado com proteína C reativa seriada subindo e hemocultura negativa, está montando o quadro de sepse clínica, que é o cenário dos 5 a 7 dias. Menção a proteína C reativa dosada em janela fixa após a apresentação, ou a benzilpenicilina no esquema empírico, é vocabulário britânico. E prova oficial do MEC tende a conduta SUS: a diretriz brasileira vigente já está nos 36 a 48 horas, e o prazo de 48 a 72 horas aparece nos enunciados como prática descrita, não como régua atual.

O esquema empírico da sepse tardia: oxacilina com amicacina ou vancomicina de entrada

Oxacilina com amicacina como primeira opção — SBP

A primeira opção brasileira para infecção tardia de provável origem na unidade neonatal é oxacilina com amicacina; vancomicina associada a cefotaxima ou cefepima fica como segunda opção. As razões são explícitas: baixa indução de resistência, alta sensibilidade dos bastonetes gram-negativos à amicacina, ampla disponibilidade e baixo custo, com efetividade e segurança demonstradas, inclusive quanto ao tempo limitado de uso.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Diretriz nº 193 — Diretrizes para uso racional de antibióticos em unidades neonatais, 2025, seção de tratamento empírico.

Vancomicina no esquema inicial — reservada ao perfil da unidade

Vancomicina empírica de entrada se justifica apenas em unidade de terapia intensiva neonatal com alta prevalência de infecção de corrente sanguínea por Staphylococcus aureus resistente à meticilina. Onde predominam estafilococos coagulase-negativos, mesmo resistentes à oxacilina, o esquema empírico com vancomicina não está indicado: essas infecções são de baixa morbimortalidade, o que dá tempo de trocar com segurança quando o agente aparece na hemocultura.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Diretriz nº 193, 2025, seção de tratamento empírico.

Na prova

Aqui a causa da diferença precisa ficar clara, porque ela não é econômica no sentido de indisponibilidade: vancomicina existe no SUS e é usada. A escolha brasileira de começar por oxacilina com amicacina é decisão de controle de resistência somada ao perfil epidemiológico das unidades — e a própria diretriz condiciona a alternativa à prevalência local de Staphylococcus aureus meticilino-resistente. Por isso o enunciado que fornece a epidemiologia da unidade está pedindo a escolha guiada por perfil local, enquanto o que apenas descreve prematuro com cateter e sinais de sepse tardia numa unidade neonatal brasileira está no terreno do esquema de primeira opção. Um distrator com cefalosporina de terceira geração como escolha empírica denuncia o recorte inverso: as diretrizes brasileiras a reservam para meningite, insuficiência renal e resistência a aminoglicosídeo.

06

Caso resolvido

Recém-nascido de 39 semanas, parto vaginal, peso 3.280 g, Apgar 9 e 10. A mãe tinha cultura vaginal e retal positiva para estreptococo do grupo B, colhida com 36 semanas, e recebeu penicilina G cristalina endovenosa iniciada 2 horas antes do nascimento. Bolsa rota há 6 horas. Temperatura materna intraparto máxima de 36,9 graus, sem outros sinais de infecção intra-amniótica. Com 3 horas de vida, o recém-nascido está em alojamento conjunto, mamando bem, corado, ativo, temperatura axilar de 36,8 graus, frequência respiratória de 46 irpm, sem desconforto respiratório, exame físico inteiramente normal.
achado
Recém-nascido de 39 semanas, assintomático, com exame físico normal, filho de mãe colonizada por estreptococo do grupo B. Bolsa rota de 6 horas e sem febre materna: dos fatores de risco da lista, o único presente é a colonização materna.
interpretação
A profilaxia intraparto foi inadequada. A droga estava certa — penicilina G cristalina endovenosa é a primeira escolha —, mas o tempo não: adequada exige 4 horas ou mais antes do parto, e foram 2. O que qualifica a profilaxia são as duas variáveis juntas, e falhar em uma basta para desqualificá-la.
raciocínio
Num recém-nascido de 35 semanas ou mais, sem sinal clínico e sem temperatura materna intraparto de 38 graus ou mais, a profilaxia inadequada quando indicada não leva a hemocultura nem a antibiótico. Nessa faixa de idade gestacional, o exame físico objetivo e seriado vale mais que o fator de risco e mais que a triagem laboratorial, e recém-nascidos a termo em boas condições ao nascer têm até 70% menos risco que os que parecem doentes ou adoecem nas primeiras 48 horas.
conduta
Observação clínica seriada por 36 a 48 horas a partir do nascimento, com exame físico objetivo e sistematizado repetido, sem triagem infecciosa e sem antibiótico empírico. Hemocultura e antibiótico apenas se surgirem sinais sugestivos e persistentes de infecção. A alta não é dada antes de completar a janela de observação, e a orientação à família inclui o que observar.
o que mudaria a conduta
Temperatura materna intraparto de 38 graus ou mais, ou suspeita de infecção intra-amniótica, levaria a hemocultura e antibiótico empírico mesmo com o recém-nascido assintomático. Qualquer sinal clínico — desconforto respiratório que piore ou persista por mais de 6 horas, apneia, instabilidade térmica, hipoatividade, intolerância alimentar — levaria a colher hemocultura e iniciar ampicilina com gentamicina. E, se este recém-nascido tivesse 33 semanas em vez de 39, a régua seria a do pré-termo.
07

Agora feche você

Recém-nascido de 33 semanas, 1.780 g, nascido de parto vaginal após trabalho de parto prematuro, com bolsa rota de 26 horas. A mãe teve temperatura de 38,4 graus no trabalho de parto, com taquicardia fetal de 172 bpm e leucócitos de 19.200. Cultura para estreptococo do grupo B desconhecida; recebeu ampicilina endovenosa 1 hora antes do parto. Com 4 horas de vida, o recém-nascido apresentou gemência, retração subcostal e temperatura axilar de 35,9 graus. Foram colhidas duas hemoculturas de sítios diferentes, 1 mL cada, e iniciados ampicilina e gentamicina. A radiografia de tórax mostrou padrão compatível com síndrome do desconforto respiratório, sem infiltrado persistente em duas radiografias seriadas. O hemograma colhido com 14 horas de vida veio com 11.200 leucócitos, neutrófilos absolutos de 4.100 e relação I/T de 0,14; a proteína C reativa inicial foi de 0,6 mg/dL e a de 48 horas, 0,4 mg/dL. Com 42 horas de vida, o recém-nascido está em ar ambiente há 12 horas, em temperatura estável de 36,8 graus, aceitando dieta enteral, ativo. As duas hemoculturas permanecem negativas.
achado
Prematuro de 33 semanas com dois fatores de risco maternos fortes — bolsa rota de 26 horas e quadro compatível com infecção intra-amniótica — que apresentou sinais clínicos nas primeiras horas e recebeu tratamento empírico corretamente indicado, após coleta adequada de hemoculturas.
interpretação
Às 42 horas, a triagem inteira aponta para o mesmo lado: hemoculturas negativas às 42 horas de incubação, relação I/T de 0,14 (abaixo do corte de 0,2), sem leucopenia nem neutropenia, proteína C reativa normal e em queda, radiografia seriada sem infiltrado persistente que caracterize pneumonia, e o recém-nascido clinicamente bem, em ar ambiente e aceitando dieta. O desconforto respiratório inicial encontrou explicação na síndrome do desconforto respiratório.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Aplicar Sepsis-3, qSOFA ou o pacote de primeira hora ao recém-nascido Atrai porque a palavra sepse é a mesma e o raciocínio do adulto está fresco. Mas o qSOFA pontua alteração do estado mental, frequência respiratória e pressão sistólica — três variáveis sem sentido em quem tem horas de vida —, o lactato sobe com o próprio trabalho de parto, e não existe escore de disfunção orgânica validado no período neonatal. A régua neonatal é outra: definição por tempo de vida e fator de risco materno, decisão por exame físico seriado, e um prazo curto para reavaliar.
  2. 2Tratar todo recém-nascido assintomático que tem fator de risco Parece prudência, e foi de fato a orientação da AAP até 2018 para os expostos a corioamnionite. Só que em recém-nascido de 35 semanas ou mais, assintomático, o exame físico seriado tem mais valor diagnóstico que o fator de risco e que a triagem laboratorial, e o antibiótico desnecessário aumenta sepse tardia, enterocolite necrosante e morte — sem contar a internação e a separação da mãe. A conduta atual, na ausência de febre materna intraparto de 38 graus ou mais e de suspeita de infecção intra-amniótica, é observar por 36 a 48 horas.
  3. 3Esperar febre — e descartar sepse porque a temperatura está normal ou baixa A hipotermia é a apresentação térmica mais frequente justamente no prematuro, que é quem mais adoece; ela compõe o choque frio, indica maior gravidade e ainda produz hipoatividade, derrubando o outro sinal que se ia valorizar. E temperatura normal não exclui sepse: a instabilidade térmica é altamente preditiva, mas a sua ausência não é tranquilizadora. Hipotermia abaixo de 36,5 graus em recém-nascido com fator de risco é sinal clínico, não desconforto ambiental — depois de descartada a causa ambiental.
  4. 4Colher o hemograma na sala de parto e concluir que está tudo bem O hemograma colhido ao nascimento é o exame certo na hora errada: as alterações de neutrófilos maduros e imaturos exigem resposta inflamatória já estabelecida, e por isso a coleta é adiada para 6 a 12 horas de vida, ou entre 12 e 24 horas na recomendação da Anvisa. O inverso também engana: pré-eclâmpsia, insuficiência placentária e a própria rotura prematura de membranas alteram o hemograma sem infecção, e essas alterações podem persistir até 72 horas de vida. O que não se adia é a hemocultura, que vem antes da primeira dose.
  5. 5Tratar uma proteína C reativa isolada elevada A proteína C reativa serve para excluir, com valor preditivo negativo de 98%, e não para diagnosticar. Ela sobe com rotura prematura de membranas, asfixia, síndrome do desconforto respiratório, hemorragia intraventricular, aspiração de mecônio, pneumotórax e defeitos de parede abdominal — e ainda demora, começando a subir 24 horas depois do início da infecção. Um valor alterado isolado não indica tratamento; o que vale é a série, junto com a cultura e a evolução clínica.
  6. 6Aceitar clindamicina na mãe como profilaxia intraparto adequada O número de horas costuma vir generoso no enunciado, para reforçar a armadilha. Mas clindamicina é reservada a gestantes com história de anafilaxia grave à penicilina e não protege o recém-nascido, por baixa passagem transplacentária e por cepas resistentes na comunidade. Adequada significa penicilina G cristalina, ampicilina ou cefazolina endovenosa, na dose correta, 4 horas ou mais antes do parto — e só isso.
  7. 7Dispensar a punção lombar porque a hemocultura veio negativa 38% das meningites neonatais cursam com hemocultura negativa. Diante de forte suspeita de infecção, especialmente com manifestação do sistema nervoso central, o líquor é colhido mesmo com hemocultura negativa e mesmo que o antibiótico já tenha começado. O erro simétrico também custa caro: hemocultura positiva obriga a punção, se ela ainda não foi feita, porque é o líquor que define droga, dose e duração — 14 dias no gram-positivo, 21 no gram-negativo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Febre em recém-nascido (≤28 dias), especialmente com sinais de alerta como recusa alimentar e hipoatividade, é sempre considerada emergência por alto risco de sepse neonatal e meningite. A conduta obrigatória é internação, coleta de exames completos incluindo pesquisa de sepse (hemograma, hemocultura, urina/urocultura e líquor) e início imediato de antibioticoterapia empírica (tipicamente ampicilina + aminoglicosídeo ou cefotaxima). Manejo ambulatorial, sintomáticos isolados ou antibiótico oral são inaceitáveis nessa faixa etária pelo risco de evolução fatal. Observação domiciliar sem investigação também é inadequada.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a questão os usa. Corte: precoce até 48 horas de vida com fator de risco materno (Anvisa e Ministério da Saúde); 72 horas na AAP e nas redes de pesquisa; do nascimento ao 6º dia na vigilância da doença invasiva por estreptococo do grupo B. Agentes: precoce, estreptococo do grupo B e E. coli, cerca de 70% dos casos; tardia, estafilococos coagulase-negativos, de 36% a 47%, seguidos de S. aureus. Fatores de risco maternos: bolsa rota de 18 horas ou mais; corioamnionite; colonização por estreptococo do grupo B sem profilaxia indicada; febre materna nas 48 horas anteriores ao parto, com 38 graus como o corte que muda a conduta; trabalho de parto antes de 37 semanas; cerclagem ou pessário; procedimento de medicina fetal nas últimas 72 horas; infecção urinária sem tratamento ou em tratamento há menos de 72 horas. Riscos: bolsa rota prolongada, cerca de 1%; corioamnionite, 10% a 15% no termo e 35% a 50% no pré-termo; colonização materna, 10% a 30% das gestantes, 50% transmitem, 1% a 2% adoecem sem profilaxia; prematuridade, risco 8 a 11 vezes maior. Profilaxia adequada: penicilina G cristalina, ampicilina ou cefazolina endovenosa, dose correta, 4 horas ou mais antes do parto — clindamicina não conta. Clínica: dificuldade respiratória em 90%; gastrointestinal em 35% a 40%; hipotermia abaixo de 36,5 e hipertermia acima de 37,5 graus; desconforto leve a moderado pode ser observado, salvo se piorar ou passar de 6 horas; três sinais, ou dois com fator de risco, autorizam tratar sem exame. Investigação: duas hemoculturas de sítios diferentes, 1 mL cada, antes do antibiótico; crescimento nas primeiras 48 horas de incubação; hemograma a partir de 6 a 12 horas de vida; I/T de 0,2 ou mais, com valor preditivo negativo de 95% a 100%; leucócitos abaixo de 5.000; neutrófilos abaixo de 2.000; proteína C reativa anormal acima de 1 mg/dL, sobe 24 horas após o início, pico em 2 a 3 dias, valor preditivo negativo de 98%; 38% das meningites com hemocultura negativa. Tratamento: ampicilina ou penicilina G cristalina com gentamicina ou amicacina na precoce; oxacilina com amicacina na tardia; ampicilina 200 mg/kg/dia e gentamicina 5 mg/kg/dia; suspensão em 36 a 48 horas; sepse clínica 5 a 7 dias; agente isolado 7 a 10 dias; meningite 14 dias no gram-positivo e 21 no gram-negativo.

em 30 dias

A lógica, não os números. Sepse neonatal é o tema em que se decide tratar antes de saber, porque o exame que sabe demora e falha — e depois se decide parar, com prazo curto, porque o antibiótico desnecessário tem preço mensurável em enterocolite necrosante, sepse tardia e morte. Três perguntas resolvem quase toda questão. Primeira: o recém-nascido tem sinal clínico? Se tem, colhe hemocultura e trata, sem esperar triagem. Segunda: se não tem, qual a idade gestacional? Com 35 semanas ou mais, o exame físico seriado por 36 a 48 horas vale mais que o fator de risco e que o laboratório, e só febre materna intraparto de 38 graus ou mais, ou suspeita de infecção intra-amniótica, tira o assintomático da observação. Com 34 semanas ou menos, trabalho de parto prematuro, rotura prematura de membranas ou sinal de infecção intra-amniótica indicam cultura e antibiótico, enquanto cesárea eletiva com bolsa íntegra não indica nem exame nem droga. Terceira: passadas 36 a 48 horas, o que sustenta continuar? Só hemocultura ou líquor positivos, ou sinal de localização. O resto do capítulo é consequência disso: o volume de hemocultura importa porque a bacteremia neonatal é rala; o hemograma espera porque a resposta inflamatória precisa existir; a proteína C reativa exclui e não confirma; a punção lombar entra quando a cultura confirma ou quando o sistema nervoso central fala, e nunca atrasa a primeira dose; e a prevenção da forma tardia é higiene de mãos, menos dias de cateter e menos antibiótico empírico, nessa ordem.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Recém-nascido de 33 semanas e 1.780 g, com 4 horas de vida, filho de mãe com bolsa rota de 26 horas, febre de 38,4 graus no trabalho de parto e taquicardia fetal, apresentando gemência, retração subcostal e temperatura axilar de 35,9 graus na unidade neonatal — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Sepse neonatal — Preparatório para provas | OsceLabs