Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

Medicina do sono: o cochilo que restaura, o ronco que para e o Epworth contado duas vezes

Sonolência, apneia e critérios de aptidão para dirigir

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 35 anos, obesa (IMC 38), refere sonolência diurna excessiva, cefaleia matinal e o parceiro relata roncos altos com pausas respiratórias durante o sono. Ao exame: PA 148x92 mmHg, orofaringe com Mallampati IV. Qual é o exame padrão-ouro para confirmar o diagnóstico suspeitado?

02

Como esse tema cai

O capítulo cobre as três queixas de sono que aparecem em prova com nome próprio: insônia crônica, apneia obstrutiva do sono no adulto e na criança, e narcolepsia. O eixo é a triagem: qual pergunta separa as três antes de qualquer exame, qual exame confirma cada uma, qual número gradua, e o que a norma brasileira obriga a fazer quando o paciente dirige para viver.

Fica de fora o que já tem dono. A sonolência do paciente com doença pulmonar crônica, a oxigenoterapia domiciliar e a cessação do tabagismo são da apostila de Pneumologia. A insônia como sintoma de episódio depressivo ou de transtorno de ansiedade — e o desmame do benzodiazepínico prescrito por ela — é da apostila de Psiquiatria: aqui interessa a insônia que se sustenta sozinha depois que o transtorno de humor foi tratado. A execução da cirurgia de amígdala e adenoide, a otoscopia e a audiometria pós-operatória são da apostila de Otorrinolaringologia. E a sonolência do idoso polimedicado é da apostila de Geriatria.

As fontes se dividem em dois tipos, e a diferença resolve metade das questões. Documentos clínicos dizem o que é a doença e o que trata: a classificação internacional dos distúrbios do sono, o manual de estagiamento do sono, a diretriz pediátrica e o ensaio que a testou. Um documento administrativo diz quem não pode dirigir enquanto não investiga: a resolução federal de trânsito. Ela não define doença nem prescreve tratamento, e não está errada por isso — o papel dela é outro. Confundir os dois papéis é o erro que faz o candidato procurar na clínica um número que só existe na norma, e vice-versa.

A norma federal, aliás, entrega de graça o achado mais útil do capítulo: ela escreve o mesmo ponto de corte da escala de sonolência de dois modos incompatíveis em itens vizinhos, e um paciente com pontuação exata de 12 cai no vão entre as duas redações.

03

O que muda decisão

Três queixas que já vêm separadas no primeiro parágrafo

Sonolência não é cansaço. Cansaço é a sensação de esforço aumentado com vontade de repousar; sonolência é a propensão a adormecer quando a pessoa não quer. A distinção parece acadêmica e não é: quem dorme em situação passiva e acorda melhor tem doença do sono, e quem repousa sem dormir e não melhora costuma ter doença de outro sistema — anemia, hipotireoidismo, depressão, insuficiência cardíaca. O primeiro filtro é esse.

Confirmada a sonolência, três perguntas resolvem a triagem, e o enunciado quase sempre entrega as respostas em ordem. A primeira: o cochilo restaura? Cochilo curto que devolve a lucidez por duas ou três horas é assinatura de narcolepsia; cochilo que não restaura nada é assinatura de sono fragmentado, que é o que a apneia produz. A segunda: alguém presenciou a respiração parar? Ronco alto com pausas testemunhadas e engasgo de retomada é o pacote da apneia obstrutiva, e vale mais que qualquer questionário. A terceira: havia oportunidade de dormir? Insônia exige que a pessoa tivesse tempo e ambiente para dormir e ainda assim não conseguisse; quem dorme quatro horas porque trabalha em três turnos tem privação, não insônia.

A escala de sonolência de Epworth mede a propensão ao sono, não a gravidade da doença. São oito situações do cotidiano, cada uma pontuada de zero a três conforme a chance de cochilar naquela circunstância, com total possível de vinte e quatro pontos. A norma federal de trânsito reproduz as oito situações na íntegra: ler sentado, assistir televisão, ficar sentado em lugar público, viajar uma hora como passageiro sem parar, deitar-se para descansar à tarde, conversar sentado, ficar sentado calmamente após o almoço sem álcool e parar alguns minutos no trânsito ao volante.

Repare no que a escala não faz. Ela não distingue apneia de narcolepsia, porque as duas pontuam alto. Ela não gradua a apneia, porque a correlação entre pontuação e índice de eventos por hora é fraca. E ela depende da autodeclaração de quem tem interesse no resultado — o motorista profissional que sabe que a pontuação alta atrasa a habilitação tende a marcar zero em tudo. Por isso a norma soma parâmetros objetivos ao lado do questionário, e por isso o exame físico continua valendo mais que o papel.

A régua que o trânsito escreveu, e a linha em que ela se contradiz

A Resolução CONTRAN nº 927, de 2022, é a norma brasileira que fixa números para o rastreio da apneia obstrutiva do sono, e ela vale num recorte estreito: condutores nas categorias C, D e E, e apenas na renovação, na adição e na mudança de categoria. Motorista de carro comum não passa por essa avaliação; quem tira a primeira habilitação nessas categorias também não, porque a norma fala de renovação, adição e mudança. O Anexo X é curto e vale ler pela numeração, porque a prova pergunta pelos números.

São quatro parâmetros objetivos, cada um com corte próprio. Hipertensão arterial sistêmica: pressão sistólica maior que 130 mmHg e diastólica maior que 85 mmHg. Índice de massa corporal maior que 30 kg/m². Perímetro cervical medido na altura da cartilagem cricoide: mais de 45 cm em homens e mais de 38 cm em mulheres. Classificação de Mallampati modificado em classe 3 ou 4. O parâmetro subjetivo é um só: a pontuação na escala de sonolência.

Duas coisas nesse conjunto costumam passar batido. A primeira é a conjunção e no critério de pressão: a norma exige as duas medidas acima do corte ao mesmo tempo, de modo que um candidato com 150 por 82 mmHg não preenche esse indício, embora seja hipertenso pela régua clínica. A segunda é que 130 por 85 mmHg não é o limiar de diagnóstico de hipertensão — é mais baixo. O número foi tomado de emprestado do conjunto de critérios metabólicos, e serve como marcador de risco para apneia, não como diagnóstico de doença cardiovascular. Quem lê a norma como se fosse diretriz de hipertensão erra nos dois sentidos.

A regra de decisão está no item 1.3, e é aqui que a norma tropeça em si mesma. O item 1.2.5 fixa o indício subjetivo como escala de sonolência maior que 12. O item seguinte descreve o mesmo candidato como quem apresenta escore maior ou igual a 12, e imprime, entre parênteses, na mesma linha, o símbolo de maior que 12. As duas redações não descrevem o mesmo grupo de pessoas: o candidato com pontuação exata de 12 preenche uma e não preenche a outra. É um vão de uma unidade, dentro do mesmo anexo, a duas linhas de distância.

Fora desse ponto, a mecânica é clara e é o que a prova cobra. Escore acima do corte e/ou dois ou mais indícios objetivos autorizam o médico a, a critério dele, aprovar temporariamente o candidato ou encaminhá-lo para avaliação médica específica e realização de polissonografia. Guarde três consequências. A conjunção é alternativa: um único critério subjetivo basta, sem nenhum objetivo. Um indício objetivo isolado não basta — são precisos dois. E a norma não reprova ninguém: ela abre uma bifurcação entre aprovação temporária e investigação, e deixa a escolha ao julgamento médico.

Vale registrar o que a resolução não faz, porque é fonte de alternativa errada. Ela não define apneia obstrutiva do sono, não fixa índice de eventos por hora, não diz quando indicar pressão positiva e não determina afastamento do trabalho. É um filtro de habilitação com quatro medidas de consultório e um questionário — e é por ser barato que ele alcança o motorista profissional que nunca procuraria um serviço de sono.

O que a polissonografia mede, e as duas contas do mesmo evento

A polissonografia de noite inteira em laboratório registra, ao mesmo tempo, o eletroencefalograma, os movimentos oculares, o tônus muscular do queixo, o fluxo aéreo, o esforço respiratório do tórax e do abdome, a oximetria e o eletrocardiograma. Dessa colheita saem duas coisas diferentes: a arquitetura do sono, que diz em que estágios a pessoa passou a noite, e os eventos respiratórios, que dizem quantas vezes a respiração falhou.

Apneia é a interrupção do fluxo aéreo por pelo menos dez segundos. Ela é obstrutiva quando o esforço respiratório persiste — o tórax e o abdome continuam se movendo contra uma via aérea fechada — e central quando o esforço cessa junto com o fluxo, porque o comando deixou de ser emitido. Hipopneia é a redução parcial do fluxo, também por pelo menos dez segundos, acompanhada de queda da saturação ou de despertar. A soma de apneias e hipopneias dividida pelas horas de sono é o índice de apneia e hipopneia, que gradua a doença no adulto: leve de 5 a 15 eventos por hora, moderada acima de 15 até 30, e grave acima de 30.

Curva de fluxo aereo com um trecho de amplitude reduzida, alinhada a uma curva de saturacao que desce e cruza apenas a mais alta de duas linhas tracejadas, com uma marca vertical de despertar logo depois.
O mesmo evento, contado ou não conforme a régua. A queda de saturação cruza a linha mais alta e para antes da mais baixa: pela contagem recomendada, que aceita a queda menor ou o despertar marcado ao lado, o evento entra na soma; pela contagem aceitável, que exige a queda maior, ele não entra. Nada mudou no paciente.

O detalhe que faz diferença está na palavra hipopneia. O manual de estagiamento oferece duas regras para contar o mesmo evento. A regra recomendada aceita a hipopneia quando há queda de saturação de pelo menos 3% ou um despertar associado ao evento. A regra aceitável exige queda de pelo menos 4% e ignora o despertar. Como toda hipopneia que dessatura 4% também dessatura 3%, mas nem toda que dessatura 3% chega a 4%, a regra recomendada conta sempre um número maior ou igual de eventos.

A consequência é aritmética e é a que a prova explora. O mesmo registro, do mesmo paciente, na mesma noite, produz dois índices diferentes conforme a regra usada — e o índice é o que decide a classe de gravidade e, com ela, o acesso ao tratamento. Um exame relido com a outra régua pode mover o paciente de leve para moderado sem que nada tenha mudado nele. Por isso o laudo precisa dizer qual regra foi aplicada, e por isso comparar dois exames de laboratórios diferentes sem checar esse detalhe é comparar coisas distintas.

Dois lembretes fecham a seção. O índice não mede sintoma: existe gente com trinta e cinco eventos por hora e pouca queixa, e gente com doze eventos e sonolência incapacitante. E o exame domiciliar simplificado, que registra menos canais, serve para confirmar a suspeita alta em adulto sem comorbidade relevante, mas não afasta a doença quando vem normal em paciente muito sintomático — nesse caso o exame de laboratório continua indicado.

Insônia: a doença que se define pelo dia

O transtorno de insônia crônica não se define pela noite ruim, e sim por um conjunto de três exigências que precisam coexistir. Primeiro, a queixa: dificuldade para iniciar o sono, para mantê-lo ou despertar precoce com incapacidade de voltar a dormir. Segundo, a oportunidade adequada — tempo suficiente na cama e ambiente que permita dormir. Terceiro, a repercussão diurna: fadiga, prejuízo de atenção, irritabilidade, queda de desempenho, sonolência ou preocupação com o próprio sono.

A esses três itens somam-se dois relógios: pelo menos três noites por semana, por pelo menos três meses. Abaixo de três meses o quadro é insônia de curta duração, que costuma ter fator precipitante identificável e tende a se resolver com ele. Essa contagem importa porque muda a conduta: insônia de dias, ligada a um evento, aceita medida de suporte e reavaliação; insônia de meses pede tratamento estruturado.

A oportunidade adequada é o critério que mais separa a resposta certa da errada. Quem tem cinco horas na cama por escolha de rotina não tem insônia, tem privação de sono, e a conduta é ampliar a janela, não prescrever hipnótico. Quem trabalha em turnos alternados tem transtorno do ritmo circadiano, e o tratamento passa por luz, horário e cochilo programado. Quem dorme mal porque a perna incomoda e melhora ao movimentar tem síndrome das pernas inquietas, e a investigação começa pela ferritina.

O tratamento de primeira linha do adulto com insônia crônica é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, e não o medicamento. Ela reúne restrição de tempo na cama, controle de estímulos, higiene do sono e reestruturação das crenças sobre dormir, e a diretriz de sociedade a coloca acima da farmacoterapia. O medicamento entra como recurso de curto prazo, associado, quando o sofrimento é grande e a terapia ainda não produziu efeito.

No Brasil, a escolha do medicamento esbarra numa régua que não é clínica. Benzodiazepínicos e hipnóticos aparentados estão sob controle especial da norma federal de substâncias sujeitas a receituário próprio, o que significa notificação de receita, quantidade limitada por prescrição e rastreabilidade. É uma trava administrativa, e ela é a razão prática de o desmame do benzodiazepínico ser um tema recorrente: o remédio que se prescreve por duas semanas frequentemente ainda está sendo renovado dois anos depois.

A fronteira com a psiquiatria é a que mais se cobra em conduta. Insônia que começa junto com humor deprimido, anedonia e desesperança é sintoma do episódio depressivo, e o alvo do tratamento é a depressão. Insônia que persiste depois de o humor ter melhorado, ou que precede o transtorno por meses, é doença própria e recebe tratamento próprio. Prescrever indutor do sono para quem tem depressão não tratada resolve a queixa da noite e deixa a doença andando.

Narcolepsia: o cochilo que restaura e a emoção que derruba

A narcolepsia é a doença do controle do sono de movimentos oculares rápidos, e quase toda a semiologia dela é a intrusão desse estágio na vigília. A sonolência é diária, com mais de três meses de evolução, e tem uma marca que a diferencia de todas as outras: o cochilo é curto e restaurador, e devolve à pessoa duas a três horas de lucidez antes que a sonolência volte. O paciente com apneia cochila e acorda tão mal quanto deitou.

A cataplexia é o sinal que fecha o diagnóstico quando está presente, e é o que a prova mais pede que se reconheça. É perda súbita e bilateral do tônus muscular desencadeada por emoção — quase sempre riso ou surpresa agradável —, com queda da mandíbula, fala arrastada, flexão dos joelhos ou queda ao chão, duração de segundos a menos de um minuto, consciência preservada durante todo o episódio e recuperação completa e espontânea.

Três diagnósticos concorrem, e cada um cai por um detalhe. A síncope não tem gatilho emocional específico de riso, cursa com perda de consciência e costuma ter pródromo autonômico. A crise atônica cursa com perda de consciência, pode ter liberação esfincteriana, mordedura de língua e confusão pós-evento, e não é desencadeada por emoção agradável. O ataque isquêmico transitório produz déficit focal com topografia vascular, não perda simétrica e global do tônus. Consciência preservada com gatilho emocional e recuperação total é cataplexia até prova em contrário.

Completam o quadro a paralisia do sono — incapacidade transitória de mover-se ao adormecer ou ao despertar — e as alucinações hipnagógicas, vívidas, no limiar do sono. Nenhuma das duas é específica: aparecem em pessoas saudáveis privadas de sono. Elas somam, mas não decidem.

A confirmação segue uma sequência que a prova gosta de embaralhar. Primeiro a polissonografia noturna, que serve para dois fins: afastar outra causa de sonolência, sobretudo a apneia, e documentar sono suficiente na noite anterior. Depois, no dia seguinte, o teste das múltiplas latências do sono, com cinco oportunidades de cochilo espaçadas ao longo do dia. O resultado compatível tem latência média de sono igual ou menor que 8 minutos e pelo menos dois períodos de sono de movimentos oculares rápidos nos cochilos; um período desses ocorrido logo no início da noite anterior pode substituir um dos dois.

O teste é frágil, e é por aí que se derruba a alternativa. Ele não vale se o paciente vinha privado de sono — daí a exigência de actigrafia ou diário nas duas semanas anteriores —, nem se estiver em uso de fármaco que suprime o sono de movimentos oculares rápidos, como muitos antidepressivos, que precisam ser suspensos com antecedência, nem se a noite anterior tiver revelado apneia significativa não tratada. Um teste feito em condições ruins produz resultado que parece narcolepsia e não é.

A dosagem de orexina-A no líquor encerra a discussão quando disponível: valor igual ou menor que 110 pg/mL, ou menos de um terço do valor médio de referência, define a narcolepsia tipo 1, aquela com deficiência de orexina, que é a forma associada à cataplexia. A narcolepsia tipo 2 tem os mesmos achados do teste de latências sem cataplexia e com orexina normal. O alelo do antígeno leucocitário humano DQB1*06:02 está presente na quase totalidade dos casos com cataplexia, mas também em parcela expressiva da população geral: serve para afastar, não para confirmar.

A criança que ronca fica agitada, não sonolenta

A apneia obstrutiva do sono da criança é outra doença, com outra causa, outra apresentação e outro tratamento. A causa dominante não é a obesidade e sim a hipertrofia adenoamigdaliana, que estreita a via aérea justamente na idade em que esse tecido tem seu pico de volume, entre os 2 e os 8 anos. Por isso o quadro tem faixa etária característica e por isso ele responde a uma operação.

A apresentação diurna inverte a expectativa do adulto. A criança com sono fragmentado raramente fica sonolenta: fica agitada, desatenta e irritada, e a queixa costuma chegar pela escola, não pela família. Some-se o pacote noturno — ronco alto em todas as noites, fora de infecção respiratória, pausas presenciadas, esforço inspiratório com hiperextensão do pescoço, sudorese e sono agitado — e o pacote diurno de respirador bucal: boca aberta, voz hiponasal, halitose, mastigação lenta.

Dois achados merecem destaque porque são os que a prova usa como pista. O primeiro é a enurese secundária: a criança que já tinha controle esfincteriano volta a urinar na cama. O segundo é a repercussão sobre o crescimento, com apetite reduzido, dificuldade de mastigar sólidos e ganho ponderal aquém do esperado. A diretriz de sociedade recomenda perguntar ativamente ao acompanhante por um conjunto que pode melhorar depois da cirurgia: atraso de crescimento, mau desempenho escolar, enurese, asma e problemas de comportamento.

O ponto de corte do exame também muda com a idade. No adulto, cinco eventos por hora abrem a doença; na criança, o limiar é bem mais baixo, e um índice de eventos obstrutivos acima de 1 por hora já é anormal. Ler o exame da criança com a régua do adulto é o erro que transforma apneia moderada em exame normal — um índice de 9 eventos por hora, que seria doença leve no adulto, é quadro relevante em criança de cinco anos.

Nem toda criança precisa do exame antes de operar, e essa é a lista que se decora. A diretriz manda encaminhar para polissonografia antes da cirurgia a criança menor de 2 anos e aquela com obesidade, síndrome de Down, anomalia craniofacial, doença neuromuscular, doença falciforme ou mucopolissacaridose. Fora desses grupos, o exame é recomendado quando a indicação cirúrgica é incerta ou quando há discordância entre o exame físico e a gravidade relatada. Nas demais, o diagnóstico clínico basta para indicar a operação.

A adenotonsilectomia é o tratamento de primeira linha da criança com apneia obstrutiva e hipertrofia adenoamigdaliana, e é isso que a prova espera como resposta. Mas o assunto tem um contrapeso honesto que vale conhecer. O ensaio randomizado que comparou cirurgia precoce com espera vigiada em 464 crianças de 5 a 9 anos com apneia sem dessaturação prolongada não encontrou diferença no desfecho primário — um teste formal de atenção e função executiva — depois de sete meses. Encontrou vantagem da cirurgia em desfechos secundários: os achados da polissonografia, o comportamento relatado por cuidadores e professores e os sintomas de apneia. E encontrou que parcela substancial do grupo em espera normalizou o exame sozinha.

A leitura correta desse par não é escolher um lado, é entender o que cada um mede. A diretriz responde à pergunta clínica sobre o que fazer com a criança sintomática que tem o tecido aumentado; o ensaio responde a uma pergunta mais estreita, sobre um desfecho cognitivo específico, num intervalo de sete meses, numa faixa etária e num grau de doença determinados. Em questão de conduta, a resposta esperada continua sendo a cirurgia — e o que o ensaio acrescenta é honestidade na conversa com a família, não hesitação na indicação.

O tratamento muda de mão conforme a doença

Na apneia obstrutiva do adulto, o tratamento que sustenta a melhora é a pressão positiva contínua nas vias aéreas, indicada na doença moderada e grave e na leve sintomática ou com repercussão cardiovascular. Ela não é remédio nem cirurgia: é uma tala pneumática que mantém a via aérea aberta enquanto o aparelho está ligado, o que explica a característica mais importante do tratamento — o efeito dura exatamente o tempo de uso, e adesão é parte da prescrição, não detalhe de conforto.

Em torno dela orbitam medidas que somam e não substituem: redução de peso, que é o único tratamento capaz de reduzir a gravidade da doença de forma sustentada; terapia posicional para quem tem eventos concentrados em decúbito dorsal; tratamento da obstrução nasal; suspensão de álcool à noite e de sedativos, que relaxam a musculatura faríngea e prolongam os eventos. O aparelho intraoral de avanço mandibular é alternativa em doença leve a moderada e em quem não tolera a pressão positiva. A cirurgia de via aérea no adulto é seletiva e depende do sítio de obstrução, ao contrário do que ocorre na criança.

Duas prescrições merecem alerta explícito. Prescrever hipnótico para quem ronca com pausas presenciadas piora a doença que está causando a queixa. E prescrever oxigênio isolado para o paciente que dessatura à noite por apneia trata o número da oximetria e deixa a obstrução intacta — o oxigênio corrige a saturação sem abrir a via aérea, e pode prolongar os eventos.

Na narcolepsia, o tratamento tem duas frentes e elas não se confundem. A sonolência responde a estimulantes ou promotores da vigília; a cataplexia responde a fármacos que suprimem o sono de movimentos oculares rápidos. No Brasil, os estimulantes usados nessa indicação estão sob receituário de controle especial, o que significa notificação própria e limite de quantidade por prescrição. Junto com o medicamento entram medidas comportamentais que a prova valoriza: cochilos programados, horários regulares e ampliação do tempo de sono noturno.

E há a conduta que atravessa as três doenças e costuma ser o item de maior peso na estação prática: a segurança ao volante. O paciente que já cochilou dirigindo recebe orientação de não dirigir até que a sonolência esteja controlada, e essa orientação é dada no primeiro atendimento, antes de qualquer exame. Não é providência burocrática nem espera pelo laudo: é a única medida do dia que impede um desfecho irreversível enquanto a investigação corre.

Vale fechar com a distinção entre as duas réguas do capítulo. A régua clínica decide o que o paciente tem e o que se faz por ele: o exame, a classe de gravidade, o aparelho, a cirurgia. A régua administrativa decide o que o serviço é obrigado a fazer antes de renovar uma habilitação profissional: quatro medidas de consultório, um questionário e uma bifurcação entre aprovar temporariamente e investigar. Elas não se contradizem porque não respondem à mesma pergunta — e a questão de prova que mistura as duas é a que se resolve percebendo qual das duas o enunciado está usando.

O que o enunciado entrega antes de perguntar

Homem de meia-idade, sobrepeso, ronco alto, pausas presenciadas pela companheira, boca seca e cefaleia ao acordar, despertares para urinar e sonolência que piora em situação passiva: apneia obstrutiva do sono. Se o enunciado acrescenta profissão que envolve dirigir, a pergunta seguinte quase sempre é sobre segurança ou sobre a norma de habilitação, não sobre fisiopatologia.

Adulto jovem, sonolência diária de anos, cochilos curtos e restauradores, episódios de perda de tônus desencadeados por riso com consciência preservada, paralisia ao adormecer e alucinações no limiar do sono: narcolepsia com cataplexia. A resposta pedida costuma ser a sequência de exames — noturno primeiro, latências múltiplas depois — ou a exclusão da crise epiléptica.

Pessoa que deita às 23h, apaga a luz, fica duas horas acordada, dorme mal, acorda às 6h e passa o dia irritada e sem concentração, há meses, sem turno e sem ruído: insônia crônica. A resposta esperada é terapia cognitivo-comportamental como primeira linha, com o medicamento em papel coadjuvante.

Criança de 3 a 8 anos, ronco em todas as noites, pausas vistas pela mãe, respiração de boca aberta, enurese que voltou, agitação e queda do rendimento escolar, amígdalas grandes à oroscopia: apneia obstrutiva por hipertrofia adenoamigdaliana. A conduta esperada é a cirurgia, e a pergunta escondida costuma ser se aquela criança precisa de exame antes — o que se decide pela idade e pelas comorbidades da lista, não pelo tamanho da amígdala.

04

Esquemas e tabelas

A sequência vale para o adulto com sonolência diurna excessiva ou queixa de sono na primeira avaliação, e depois se ramifica para a criança. Cada passo só faz sentido depois do anterior: a natureza da queixa antes do exame, o exame antes do número, o número antes do aparelho.

  1. 1Separe sonolência de cansaço antes de qualquer coisa. Adormecer involuntariamente em situação passiva é sonolência; repousar sem dormir e não melhorar é outra doença.
  2. 2Pergunte se o cochilo restaura e por quanto tempo. Restaurador e curto aponta narcolepsia; não restaurador aponta fragmentação do sono.
  3. 3Pergunte a alguém que dorme com o paciente sobre ronco, pausas e engasgo. Relato de terceiro vale mais que qualquer questionário nessa queixa.
  4. 4Aplique a escala de sonolência sabendo o que ela mede: propensão a adormecer, não gravidade da doença nem tipo de doença.
  5. 5No exame físico, meça o que a norma mede — peso, altura, perímetro cervical na altura da cricoide, pressão arterial — e olhe a orofaringe classificando a via aérea.
  6. 6Investigue ativamente cataplexia com a palavra certa: pergunte se já perdeu a força ao rir ou ao se assustar, com a pessoa acordada durante o episódio.
  7. 7Antes de rotular insônia, confirme a oportunidade de dormir e afaste turno, privação voluntária, pernas inquietas e depressão em curso.
  8. 8Peça polissonografia noturna para confirmar apneia e para preceder o teste de latências múltiplas quando a suspeita for narcolepsia; nunca peça o teste diurno isolado.
  9. 9Ao ler o laudo, confira qual regra de hipopneia foi aplicada antes de comparar índices ou decidir gravidade.
  10. 10Na criança, use o limiar pediátrico e não o do adulto, e verifique se ela pertence a algum dos grupos que exigem exame antes da cirurgia.
  11. 11Oriente segurança ao volante no primeiro atendimento de qualquer paciente com sonolência, antes de exame, laudo e tratamento.
  12. 12No condutor das categorias C, D e E em renovação, adição ou mudança, aplique a régua administrativa e registre-a separadamente da conduta clínica.

Primeiro degrau: sonolência ou cansaço

A pessoa adormece quando não quer, ou apenas repousa sem dormir? Sonolência com adormecimento involuntário abre a investigação de sono. Cansaço sem adormecer manda procurar anemia, hipotireoidismo, depressão e insuficiência cardíaca antes de pedir polissonografia.

Segundo degrau: o cochilo restaura?

Cochilo curto que devolve lucidez por duas ou três horas aponta narcolepsia. Cochilo que não restaura nada aponta sono fragmentado, e a causa mais comum de fragmentação é a apneia obstrutiva. A pergunta custa dez segundos e separa as duas doenças antes de qualquer exame.

Terceiro degrau: houve oportunidade de dormir?

Insônia exige tempo e ambiente adequados e ainda assim sono ruim, três noites por semana, por três meses, com repercussão diurna. Janela curta por rotina é privação de sono; horário deslocado por turno é transtorno de ritmo. Nenhuma das duas se trata com hipnótico.

Quarto degrau: quem é a criança, quem é o adulto

Na criança a causa é o tecido adenoamigdaliano, a apresentação é agitação e não sonolência, o limiar do exame é bem mais baixo e o tratamento de primeira linha é cirúrgico. No adulto a causa é anatômica e metabólica, a apresentação é sonolência e o tratamento sustenta a via aérea com pressão positiva.

As três doenças, lado a lado

DoençaO que o enunciado descreveExame que confirmaPrimeira linha
Apneia obstrutiva do adultoRonco alto, pausas presenciadas, sono não reparador, cefaleia matinal, noctúriaPolissonografia ou exame domiciliar quando a suspeita é alta e não há comorbidade relevantePressão positiva contínua na doença moderada e grave, com perda de peso e controle de fatores
Apneia obstrutiva da criançaRonco todas as noites, pausas, respiração bucal, enurese secundária, agitação e queda escolarPolissonografia com limiar pediátrico; obrigatória antes da cirurgia nos grupos de riscoAdenotonsilectomia, com corticoide nasal e tratamento da rinite enquanto aguarda
Insônia crônicaDificuldade de iniciar ou manter o sono com oportunidade adequada, três noites por semana, três mesesNenhum exame confirma; a polissonografia serve para afastar outra doençaTerapia cognitivo-comportamental para insônia, com medicamento como coadjuvante de curto prazo
NarcolepsiaSonolência diária, cochilo curto e restaurador, cataplexia por riso, paralisia do sono, alucinação ao adormecerPolissonografia noturna seguida do teste das múltiplas latências; orexina no líquor confirma o tipo 1Medida comportamental com cochilo programado mais fármaco para sonolência e para cataplexia

Os cinco indícios da norma federal de trânsito, e o que cada um exige

ParâmetroPonto de corteNaturezaDetalhe que derruba a resposta
Pressão arterialSistólica maior que 130 mmHg e diastólica maior que 85 mmHgObjetivoExige as duas medidas acima do corte; 150 por 82 mmHg não preenche
Índice de massa corporalMaior que 30 kg/m²ObjetivoÉ o limiar de obesidade, e não o de sobrepeso
Perímetro cervicalHomens acima de 45 cm; mulheres acima de 38 cmObjetivoMedido na altura da cartilagem cricoide, e o corte muda com o sexo
Mallampati modificadoClasse 3 ou 4ObjetivoClasse 2 não conta, por mais larga que seja a base da língua na descrição
Escala de sonolênciaMaior que 12 em um item, maior ou igual a 12 no item seguinteSubjetivoSozinho já basta para acionar a regra; o valor exato de 12 cai no vão entre as duas redações

A regra de decisão da norma é alternativa e não cumulativa: pontuação acima do corte na escala e ou dois ou mais indícios objetivos. Um indício objetivo isolado não aciona nada; um subjetivo isolado aciona.

A norma não reprova. Ela autoriza o médico a aprovar temporariamente ou a encaminhar para avaliação específica com polissonografia — a decisão fica com o julgamento clínico, e o texto diz isso com todas as letras.

O limiar pediátrico e o limiar do adulto não são versões suaves um do outro. Um índice de nove eventos por hora é doença leve no adulto e quadro relevante numa criança de cinco anos, com indicação cirúrgica.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual pontuação da escala de sonolência aciona a investigação do condutor

Acima de 12. O item que lista os indícios de distúrbio do sono fixa a escala de sonolência com o sinal de maior que 12, sem incluir o próprio valor 12. Por essa redação, o candidato que soma exatamente 12 pontos não apresenta o indício subjetivo e só entra na regra se tiver dois ou mais indícios objetivos.

Resolução CONTRAN nº 927, de 28 de março de 2022, Anexo X, item 1.2.5.

Igual ou acima de 12. O item seguinte, que descreve a conduta, define o candidato alcançado como aquele que apresenta escore maior ou igual a 12 — e imprime, na mesma linha e entre parênteses, o símbolo de maior que 12. Por essa redação, 12 pontos já bastam para autorizar aprovação temporária ou encaminhamento para polissonografia.

Resolução CONTRAN nº 927, de 28 de março de 2022, Anexo X, item 1.3.

Na prova

A divergência mora dentro do mesmo anexo, a duas linhas de distância, e a segunda redação se contradiz sozinha ao escrever por extenso maior ou igual e por símbolo maior que. O que a prova pede não é escolher entre 12 e 13: é reconhecer que o critério subjetivo isolado já aciona a regra, sem nenhum indício objetivo, e que a regra abre uma bifurcação entre aprovar temporariamente e investigar. Enunciado que trouxer pontuação claramente acima de 12 está pedindo isso; enunciado que trouxer exatamente 12 está pedindo cautela, e nenhuma alternativa que afirme reprovação será correta.

Como contar uma hipopneia e, com ela, graduar a doença

Regra recomendada: queda de saturação de pelo menos 3% ou despertar associado ao evento. É a contagem preferencial do manual de estagiamento e a que produz o índice mais alto, porque aceita eventos que fragmentam o sono sem dessaturar muito.

AASM Manual for the Scoring of Sleep and Associated Events, regra recomendada de hipopneia.

Regra aceitável: queda de saturação de pelo menos 4%, desconsiderando o despertar. É a contagem alternativa prevista no mesmo manual, historicamente adotada por fontes pagadoras, e produz índice igual ou menor no mesmo registro.

AASM Manual for the Scoring of Sleep and Associated Events, regra aceitável de hipopneia.

Na prova

As duas contagens convivem no mesmo manual, e nenhuma é erro. O que se cobra é a consequência: o mesmo exame produz dois índices, e o índice é o que define a classe de gravidade e o acesso ao tratamento. Enunciado que apresente um exame relido com outra régua está perguntando se o candidato entende que a doença não mudou — mudou a contagem. E laudo que não informa a regra aplicada não permite comparar dois exames.

Operar a criança com apneia obstrutiva ou esperar

Operar. A diretriz pediátrica de sociedade recomenda a adenotonsilectomia como tratamento de primeira linha da criança com apneia obstrutiva do sono e hipertrofia adenoamigdaliana, e a atualização da diretriz cirúrgica organiza quem precisa de exame antes e quais comorbidades melhoram depois.

American Academy of Pediatrics, Diagnosis and Management of Childhood Obstructive Sleep Apnea Syndrome, 2012; e Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update), 2019.

Não há benefício demonstrado no desfecho cognitivo. O ensaio randomizado que comparou cirurgia precoce com espera vigiada em 464 crianças de 5 a 9 anos com apneia sem dessaturação prolongada não mostrou diferença no desfecho primário de atenção e função executiva em sete meses, com ganho apenas em desfechos secundários e normalização espontânea do exame em parte expressiva do grupo que esperou.

A Randomized Trial of Adenotonsillectomy for Childhood Sleep Apnea, New England Journal of Medicine, 2013.

Na prova

Em questão de conduta a resposta esperada é a cirurgia: as diretrizes não foram revogadas pelo ensaio, e o ensaio testou um desfecho cognitivo específico, num intervalo curto, numa faixa etária e num grau de doença determinados. O que o ensaio muda é a conversa com a família, não a indicação. Enunciado que descreva criança de 5 a 9 anos sem dessaturação profunda e pergunte sobre o que se pode prometer aos pais está pedindo essa honestidade; enunciado que pergunte o tratamento de primeira linha está pedindo a diretriz.

06

Caso resolvido

Homem de 52 anos, motorista de ônibus interestadual, comparece à clínica credenciada para renovar a habilitação na categoria D. Refere ronco alto de longa data, confirmado pela esposa, que também descreve pausas na respiração seguidas de engasgo. Nega dificuldade para iniciar o sono e diz que dorme sete horas por noite, mas acorda cansado. Já cochilou parado no trânsito. Ao exame: pressão arterial de 148 por 82 mmHg, peso 96 kg, altura 1,74 m, perímetro cervical de 44 cm medido na altura da cricoide, orofaringe com classificação de Mallampati modificado classe 3. A escala de sonolência aplicada soma 15 pontos.
primeiro, resolva a aritmética da norma antes da clínica
Índice de massa corporal de 31,7 kg/m² — acima de 30, indício presente. Mallampati classe 3 — indício presente. Perímetro cervical de 44 cm em homem — abaixo do corte de 45, indício ausente. Pressão de 148 por 82 mmHg — a norma exige sistólica acima de 130 e diastólica acima de 85, e a diastólica não alcança: indício ausente. Resultado: dois indícios objetivos.
segundo, some o parâmetro subjetivo e veja que ele já bastaria
A escala soma 15 pontos, acima do corte nas duas redações do anexo. A regra é alternativa: escore acima do corte e ou dois ou mais indícios objetivos. Este candidato preenche os dois caminhos ao mesmo tempo, e qualquer um deles isoladamente já teria sido suficiente.
terceiro, diga o que a norma autoriza, sem inventar o que ela não diz
A critério médico, o candidato pode ser aprovado temporariamente ou encaminhado para avaliação médica específica e realização de polissonografia. A norma não reprova, não fixa índice de eventos por hora, não indica pressão positiva e não determina afastamento. Alternativa que afirme inaptidão definitiva contraria o texto.
quarto, separe a régua administrativa da conduta clínica
Independentemente do que a norma exige, a clínica aponta apneia obstrutiva do sono: ronco alto, pausas presenciadas, sono não reparador com tempo adequado na cama e sonolência em situação passiva. A investigação é a polissonografia, e o tratamento provável na doença moderada ou grave é a pressão positiva contínua, com redução de peso e controle dos fatores.
quinto, dê hoje a orientação que não pode esperar o exame
O paciente já cochilou parado no trânsito e dirige transporte de passageiros. A orientação de não dirigir até o controle da sonolência é dada agora, no primeiro atendimento, antes do exame e do laudo. É a medida que impede o desfecho irreversível durante as semanas de investigação.
sexto, não erre a prescrição que parece gentil
Ele acorda cansado e dorme mal — e a tentação é prescrever algo para o sono. Hipnótico relaxa a musculatura faríngea, prolonga os eventos e aprofunda a dessaturação. O que trata o sono fragmentado deste paciente é abrir a via aérea, não induzir sono mais profundo.
07

Agora feche você

Menino de 6 anos é levado pela mãe à unidade básica por queixa da escola: agitação, desatenção e queda do rendimento no último semestre. Perguntada sobre o sono, a mãe relata ronco alto em todas as noites há mais de dois anos, audível de outro cômodo, com pausas que terminam em engasgo, sono agitado com o pescoço estendido e sudorese. Voltou a urinar na cama há oito meses, depois de dois anos de controle. Mantém boca aberta durante o dia, voz anasalada e mastigação lenta. À oroscopia, amígdalas ocupando grande parte da orofaringe. Peso e estatura abaixo do esperado para a idade. Não tem obesidade, síndrome de Down, anomalia craniofacial, doença neuromuscular, doença falciforme nem mucopolissacaridose.
Passo 1
Nomeie o diagnóstico e liste os quatro elementos do relato noturno que o sustentam, dizendo por que a ausência de sonolência diurna não afasta o quadro nesta idade.
Passo 2
Explique o que a enurese que retorna após controle esfincteriano acrescenta ao caso e cite outras três comorbidades que a diretriz manda perguntar ao acompanhante por poderem melhorar depois do tratamento.
Passo 3
Decida se esta criança precisa de polissonografia antes da cirurgia e justifique com a lista de grupos que exigem o exame prévio, dizendo também em que duas situações o exame é recomendado fora desses grupos.
Passo 4
Suponha que o exame tenha sido feito e tenha resultado em índice de eventos obstrutivos de 9 por hora. Diga como esse número é lido na criança e por que ele seria lido de outra forma num adulto.
Passo 5
Defina o tratamento de primeira linha, o que se faz enquanto a cirurgia não acontece, e o que o ensaio randomizado que comparou cirurgia precoce com espera vigiada permite e não permite prometer à mãe.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a escala de sonolência como medida de gravidade A escala mede propensão a adormecer em oito situações do cotidiano, com máximo de vinte e quatro pontos. Ela não distingue apneia de narcolepsia, porque as duas pontuam alto, e a correlação com o índice de eventos por hora é fraca. Pontuação alta abre investigação; ela não gradua doença nem escolhe tratamento.
  2. 2Somar um indício objetivo isolado e achar que a norma já se aplica A regra federal exige escore da escala acima do corte, isoladamente, ou pelo menos dois indícios objetivos. Um perímetro cervical aumentado sozinho, ou um índice de massa corporal acima de 30 sozinho, não aciona nada. Alternativa que mande investigar por um único achado objetivo contraria o texto da norma.
  3. 3Ler o critério de pressão da norma como diagnóstico de hipertensão O texto exige sistólica acima de 130 e diastólica acima de 85 mmHg, ao mesmo tempo, e esses números são mais baixos que o limiar diagnóstico de hipertensão. Paciente com 150 por 82 mmHg é hipertenso pela régua clínica e não preenche o indício da norma; paciente com 132 por 86 mmHg preenche o indício e não tem, por isso, diagnóstico de hipertensão.
  4. 4Comparar dois índices de apneia sem checar a regra de hipopneia A contagem recomendada aceita queda de saturação de 3% ou despertar; a aceitável exige 4% e ignora o despertar. O mesmo registro produz índices diferentes conforme a régua. Melhora ou piora entre dois exames de laboratórios distintos pode ser apenas troca de contagem.
  5. 5Pedir teste das múltiplas latências sem a noite anterior O teste diurno só é interpretável depois de polissonografia noturna que afaste outra causa de sonolência e documente sono suficiente. Privação de sono, apneia não tratada e uso de fármaco que suprime o sono de movimentos oculares rápidos produzem resultado que imita narcolepsia. Teste isolado não fecha diagnóstico.
  6. 6Confundir cataplexia com crise epiléptica A cataplexia tem gatilho emocional, quase sempre riso ou surpresa agradável, dura menos de um minuto, cursa com consciência preservada e recuperação completa, sem liberação esfincteriana, mordedura de língua ou confusão pós-evento. Perda de consciência ou confusão depois do episódio manda procurar outra explicação.
  7. 7Prescrever hipnótico para quem ronca com pausas presenciadas Sedativos relaxam a musculatura faríngea, prolongam os eventos obstrutivos e aprofundam a dessaturação. A queixa de sono ruim nesse paciente vem da fragmentação causada pela apneia, e o remédio que induz sono agrava a causa enquanto melhora a percepção do sintoma.
  8. 8Chamar de insônia quem não teve oportunidade de dormir O critério exige tempo e ambiente adequados para o sono. Quem passa cinco horas na cama por rotina tem privação; quem trabalha em turnos alternados tem transtorno do ritmo circadiano; quem tem desconforto nas pernas que melhora ao movimentar tem outra doença, e a investigação começa pela ferritina. Nenhuma das três se trata com indutor do sono.
  9. 9Aplicar o limiar do adulto à polissonografia da criança No adulto a doença começa em cinco eventos por hora; na criança, um índice de eventos obstrutivos acima de um por hora já é anormal. Um exame com nove eventos por hora é quadro leve no adulto e relevante em criança pequena, com indicação de tratamento.
  10. 10Esperar sonolência na criança que ronca A criança com sono fragmentado costuma ficar agitada, desatenta e irritada, e a queixa chega pela escola. Enurese que retorna após controle esfincteriano e ganho ponderal insuficiente completam o pacote. Descartar apneia porque a criança não dorme durante o dia é usar o sinal do adulto na idade errada.
  11. 11Mandar todas as crianças para polissonografia antes de operar O exame prévio é exigido para menores de dois anos e para quem tem obesidade, síndrome de Down, anomalia craniofacial, doença neuromuscular, doença falciforme ou mucopolissacaridose, e é recomendado quando a indicação é incerta ou quando exame físico e gravidade relatada discordam. Fora disso, o diagnóstico clínico basta, e exigir exame atrasa o tratamento.
  12. 12Deixar a orientação sobre dirigir para depois do laudo A conduta de não dirigir até o controle da sonolência é dada no primeiro atendimento, antes de exame e de tratamento. É a única medida que protege o paciente e terceiros durante as semanas que a investigação leva, e em estação prática ela costuma ter peso alto no roteiro de avaliação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é típico de apneia obstrutiva do sono; o padrão-ouro diagnóstico é a polissonografia de noite inteira, que quantifica o índice de apneia-hipopneia. A oximetria noturna isolada tem baixa sensibilidade/especificidade e serve apenas como triagem. A espirometria avalia obstrução das vias inferiores, não o sono. A tomografia de vias aéreas não estabelece o diagnóstico funcional. A gasometria diurna pode ser normal e não confirma a apneia.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as três perguntas que separam insônia, apneia e narcolepsia, e diga qual resposta aponta para cada uma. Em seguida, liste os cinco indícios da norma federal de trânsito com seus pontos de corte, marcando qual deles é subjetivo e por que ele basta sozinho. Feche dizendo a diferença entre a regra recomendada e a regra aceitável de hipopneia, e o que muda no índice.

em 30 dias

Refaça de cabeça a sequência diagnóstica da narcolepsia, do primeiro exame ao último, dizendo o que cada etapa afasta e quais três condições invalidam o teste de latências múltiplas. Depois reconstrua o par pediátrico: a lista de crianças que precisam de exame antes de operar e o que o ensaio randomizado encontrou e não encontrou. Termine explicando, em voz alta, por que a régua administrativa de habilitação e a régua clínica de gravidade não se contradizem, apesar de darem respostas diferentes sobre o mesmo paciente.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um homem de 48 anos, motorista de caminhão, senta e diz que já cochilou ao volante em viagem longa e que a esposa conta que ele para de respirar dormindo. Ele veio porque a renovação da habilitação está próxima. Conduza a consulta: separe as três doenças que explicam sonolência, decida o exame e diga a ele o que muda hoje, antes de qualquer resultado. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Medicina do sono: o cochilo que restaura, o ronco que para e o Epworth contado duas vezes — Preparatório para provas | OsceLabs