Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

AVC hemorrágico e hemorragia subaracnóidea

Escalas, controle inicial e indicações neurocirúrgicas

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 45 anos, previamente hígida, procura a emergência por cefaleia holocraniana de forte intensidade, de início súbito ('a pior da vida'), que atingiu o pico em segundos, há 2 horas, associada a um episódio de vômito. Ao exame: PA 150/88 mmHg, FC 84 bpm, rigidez de nuca, sem déficit focal, Glasgow 15. A TC de crânio sem contraste, realizada 2 horas após o início, é normal. Qual é a conduta MAIS adequada para confirmar ou excluir a principal hipótese diagnóstica?

02

Como esse tema cai

Este capítulo começa depois da tomografia. A rota que leva até ela — cefaleia em trovoada, tomografia sem contraste, punção lombar em busca de xantocromia quando a imagem é normal — é a espinha do capítulo de cefaleias secundárias desta mesma apostila, que traz a curva de sensibilidade da tomografia hora a hora. Aquela régua vale e não se repete aqui.

A régua pressórica da hemorragia também tem dono: o capítulo de Crise hipertensiva, na apostila de Cardiologia, compara a diretriz brasileira de 2025, o protocolo do Ministério e a diretriz americana alvo por alvo. Este capítulo acrescenta a essa comparação uma terceira régua que costuma passar despercebida, a do próprio Ministério da Saúde para o AVC, e depois segue adiante.

O que sobra, e é o que este capítulo desenvolve, é a parte que a prova cobra em número e que o acervo brasileiro de questões quase não toca: como se gradua o paciente depois do diagnóstico. São quatro escalas, cada uma medindo uma coisa diferente. O escore ICH gradua a hemorragia intraparenquimatosa e prevê mortalidade. Hunt-Hess e a escala da federação mundial graduam a clínica da hemorragia subaracnóidea. A escala de Fisher modificada gradua o sangue na tomografia e prevê vasoespasmo. Confundir o que cada uma mede é o erro central do tema.

Três decisões dependem dessa graduação, e são elas que fecham o capítulo. A primeira é aritmética: o ponto de volume do escore ICH e o limiar cirúrgico dos trinta mililitros vêm de uma conta feita à mão na tomografia, e um milímetro num único eixo muda o resultado. A segunda é anatômica: entre as hemorragias intraparenquimatosas há uma que é emergência cirúrgica por definição, e não é a mais comum. A terceira é logística — e é onde a norma brasileira mostra uma fresta, porque o prazo que ela garante para o neurocirurgião é quatro vezes o que garante para o neurologista.

03

O que muda decisão

Duas doenças com um nome só

A Linha de Cuidados em AVC do Ministério da Saúde separa o capítulo do AVC hemorrágico em dois: hemorragia intraparenquimatosa e hemorragia subaracnóidea espontânea. A separação não é organizacional, é clínica — são doenças com causa, evolução, escala e desfecho diferentes, que só compartilham a tomografia de entrada.

Na hemorragia intraparenquimatosa a topografia entrega a causa. Sangramento profundo, em putâmen, tálamo, ponte ou cerebelo, é vasculopatia hipertensiva até prova em contrário. Sangramento lobar em idoso, junto ao córtex, levanta angiopatia amiloide. Sangramento em paciente jovem e normotenso, sem causa aparente, pede estudo vascular: a Linha recomenda considerar angiografia cerebral em pacientes jovens, normotensos e clinicamente estáveis, sem causa clara, e ressonância tardia quando a angiografia é normal e há suspeita de cavernoma ou malformação arteriovenosa.

Na hemorragia subaracnóidea espontânea a causa mais comum é a ruptura de aneurisma, e o que mata não é o sangramento inicial isolado. A própria Linha nomeia os dois determinantes de desfecho ruim: o ressangramento e o vasoespasmo cerebral. São dois relógios distintos, com prevenção distinta, e a confusão entre eles é a armadilha mais rentável do tema.

Vale fixar a assimetria de permissividade que separa o hemorrágico do isquêmico. O texto do Ministério é explícito: nas hemorragias intraparenquimatosas, ao contrário do AVC isquêmico, não há permissividade com níveis pressóricos muito elevados, e o tratamento anti-hipertensivo deve ser mais agressivo, pelo maior risco de ressangramento precoce. Alternativa que ofereça hipertensão permissiva ou penumbra em paciente com sangue na tomografia está oferecendo o manejo do vizinho.

O escore ICH: cinco itens, e só um deles vale dois pontos

O escore ICH nasceu em 2001, de uma coorte de 152 pacientes, para prever mortalidade em trinta dias na hemorragia intraparenquimatosa. São cinco itens. A escala de coma de Glasgow entra em três faixas: 3 a 4 vale 2 pontos, 5 a 12 vale 1, 13 a 15 vale 0. Os outros quatro itens são binários e valem 1 ponto cada: idade de 80 anos ou mais, origem infratentorial, volume de 30 mililitros ou mais e presença de hemorragia intraventricular. O total vai de 0 a 6.

O teto de 6 não prova nada sobre a distribuição dos pesos: qualquer arranjo que reparta um 2 e quatro 1 entre cinco itens soma 6. O que discrimina é o extremo de uma variável só. Um paciente de 40 anos, com hematoma supratentorial de 5 mililitros, sem sangue no ventrículo, mas em coma com Glasgow 3, soma 2 pontos — e nenhum outro item isolado consegue chegar a 2. É a escala de coma, e apenas ela, que carrega o peso duplo.

A contagem dos perfis possíveis confirma. Com um item de três níveis e quatro binários, existem 3 × 2⁴ = 48 combinações de paciente. Se o peso duplo pertencesse a um item binário, e todos os cinco fossem binários, os perfis seriam 2⁵ = 32. O número 48 só fecha com o item de três níveis sendo o da escala de coma. Distribuídos por pontuação, esses 48 perfis dão 1, 5, 11, 14, 11, 5 e 1 — simétricos, com o pico em 3.

Daí sai um fato que muda a leitura da tabela de mortalidade. A pontuação 6 corresponde a exatamente 1 dos 48 perfis, e exige a conjunção completa: Glasgow 3 ou 4, oitenta anos ou mais, origem infratentorial, trinta mililitros ou mais e sangue no ventrículo. Na coorte de derivação, nenhum paciente pontuou 6. O 100% de mortalidade que as tabelas publicam nessa linha é extrapolação, não observação — ao contrário do 100% da pontuação 5, que veio de 6 pacientes, todos falecidos. O que a coorte observou de fato foi que os 26 pacientes com pontuação 0 sobreviveram e que a mortalidade global em trinta dias foi de 45%.

A exigência de trinta mililitros num sangramento infratentorial é a parte anatomicamente improvável dessa conjunção, e explica a célula vazia melhor que qualquer estatística: a fossa posterior não comporta esse volume sem que o paciente morra antes de chegar à tomografia.

A conta do volume, e o milímetro que decide o ponto

O volume que o escore ICH pede não vem do laudo: é calculado à mão pelo método ABC/2. O A é o maior diâmetro do hematoma no corte em que ele é maior; o B é o diâmetro perpendicular a esse, no mesmo corte; o C não é um diâmetro, e é aí que se erra — é a extensão no eixo craniocaudal, obtida multiplicando o número de cortes em que o sangue aparece pela espessura de cada corte. Com as três medidas em centímetros, o produto dividido por dois dá o volume em mililitros.

A fórmula aproxima o volume de um elipsoide. O elipsoide de eixos A, B e C tem volume πABC/6, e π/6 vale 0,5236; a fórmula usa 0,5. A razão entre as duas é 3/π, ou 0,9549. Em outras palavras, o ABC/2 entrega 95,49% do volume do elipsoide correspondente e o subestima em 4,51%.

Esse desvio é irrelevante longe do limiar e decisivo em cima dele. No ponto exato em que o escore ICH corta, um ABC/2 de 30 mililitros corresponde a um elipsoide de 60π/6, isto é, 10π, ou 31,42 mililitros. Há portanto uma janela de 1,42 mililitro em que o hematoma tem volume elipsoidal acima de trinta e ainda assim lê abaixo de trinta na conta de cabeceira, perdendo o ponto.

A prova não costuma pedir a janela; pede a conta, e a põe em cima da borda. Um hematoma que mede 5,0 por 4,0 centímetros no corte de maior área e aparece em 6 cortes de 5 milímetros tem C igual a 3,0 centímetros e volume de 5 × 4 × 3 dividido por 2, exatamente 30 mililitros — pontua. O mesmo hematoma com 2,9 centímetros de extensão craniocaudal dá 29 mililitros e não pontua. Um milímetro num único eixo vale um ponto no escore, e nas faixas centrais um ponto do escore ICH é a diferença entre 26% e 72% de mortalidade em trinta dias.

Dois esquemas do mesmo hematoma lado a lado, cada um com as três medidas do método ABC dividido por dois. À esquerda, C de 3,0 cm resulta em 30 mL e pontua no escore ICH; à direita, C de 2,9 cm resulta em 29 mL e não pontua. Uma régua na base liga os dois resultados a mortalidades de 72% e 26% em trinta dias.
Um milímetro no eixo craniocaudal move o volume de 30 para 29 mL, tira um ponto do escore ICH e, nas faixas centrais, separa 26% de 72% de mortalidade em trinta dias.

A mesma conta reaparece no limiar cirúrgico. O critério de descompressão do Ministério para o hematoma lobar supratentorial é volume acima de trinta mililitros e distância menor que um centímetro do córtex — dois números que só existem depois de medir.

Graduar a hemorragia subaracnóidea: duas escalas para o mesmo paciente

A hemorragia subaracnóidea tem duas graduações clínicas em uso simultâneo, e elas medem a mesma coisa por caminhos diferentes. A de Hunt e Hess, de 1968, é descritiva: o grau I é o paciente assintomático ou com cefaleia mínima e leve rigidez de nuca; o II tem cefaleia moderada a intensa e rigidez de nuca, sem déficit neurológico além de paralisia de nervo craniano; o III está sonolento, confuso ou com déficit focal leve; o IV está em estupor, com hemiparesia moderada a grave e possível rigidez de descerebração precoce; o V está em coma profundo, descerebrado, moribundo. A mortalidade sobe com o grau, de 1% a 3% no grau I até 70% a 77% no grau V.

Hunt e Hess trazem uma regra que quase não se ensina e que é exatamente o tipo de detalhe que decide questão: acresce-se um grau na presença de doença sistêmica grave — hipertensão, diabetes, aterosclerose importante, doença pulmonar crônica — ou de vasoespasmo importante à arteriografia. O paciente clinicamente enquadrado em II que é hipertenso de longa data é graduado como III. A modificação de Hunt e Kosnik, de 1974, acrescentou ainda os graus 0 e 1a e formalizou essa regra.

A escala da Federação Mundial de Sociedades de Neurocirurgia, publicada em 1988, resolve o problema de reprodutibilidade da anterior ancorando-se em dois eixos objetivos: a escala de coma de Glasgow e a presença de déficit motor maior. O grau I é Glasgow 15 sem déficit; o II é Glasgow 13 ou 14 sem déficit; o III é Glasgow 13 ou 14 com déficit; o IV é Glasgow 7 a 12, com ou sem déficit; o V é Glasgow 3 a 6, com ou sem déficit.

Vale conferir se essa escala cobre mesmo toda a faixa, porque escala que deixa buraco é fonte clássica de questão ambígua. No eixo do Glasgow, a cobertura é perfeita: a escala vai de 3 a 15, treze valores; o grau I toma 1, os graus II e III dividem 2, o grau IV toma 6 e o grau V toma 4, e 1 + 2 + 6 + 4 fecha em 13. Nenhum valor de Glasgow fica de fora nem cai em dois graus.

O buraco aparece quando se conta o outro eixo junto. Cruzando os treze valores de Glasgow com as duas possibilidades de déficit motor, existem 26 combinações de paciente. Os cinco graus cobrem 25 delas: 1 no grau I, 2 no II, 2 no III, 12 no IV e 8 no V. A combinação que sobra é uma só, e é clinicamente possível — Glasgow 15 com déficit motor maior. O grau I exige déficit ausente e os graus II e III só aceitam Glasgow 13 ou 14; o paciente lúcido com hemiparesia por aneurisma roto não encontra linha na tabela. Este capítulo registra a lacuna e não a preenche: qualquer número que se atribuísse a esse paciente seria convenção de serviço, não texto da escala.

Graduar o sangue: o que a escala de Fisher prevê, e onde ela não separa

Hunt-Hess e a escala da federação mundial graduam o paciente. A escala de Fisher gradua a tomografia, e o desfecho que ela tenta prever é outro: vasoespasmo sintomático, também chamado déficit neurológico isquêmico tardio. Trocar uma pela outra é o erro conceitual mais comum do tema.

A escala original, de 1980, gradua pela espessura do sangue: o grau 1 não tem hemorragia subaracnóidea identificada; o grau 2 tem camadas difusas ou verticais com menos de 1 milímetro de espessura; o grau 3 tem coágulo localizado ou espessura vertical maior que 1 milímetro; o grau 4 tem hemorragia intracerebral ou intraventricular. Note o limite entre os graus 2 e 3: um é definido por menos de 1 milímetro e o outro por mais de 1 milímetro, de modo que a espessura de exatamente 1 milímetro não pertence a nenhum dos dois. É um valor só, e a tomografia raramente mede com essa precisão — mas é o tipo de borda que uma banca desatenta transcreve e transforma em questão sem resposta.

A escala de Fisher modificada, de 2006, abandona a espessura medida em milímetros e gradua pela combinação de dois achados — sangue cisternal espesso e presença de hemorragia intraventricular. Ela foi construída justamente porque a escala original tinha um comportamento estranho: o risco de vasoespasmo subia do grau 1 ao 3 e caía no grau 4.

Os números da coorte de derivação mostram o problema e o conserto, e também o limite do conserto. Em 1.355 pacientes, dos quais 451, ou 33%, desenvolveram vasoespasmo sintomático, as razões de chance da escala original, tomando o grau 1 como referência, foram 1,3 no grau 2, 2,2 no grau 3 e 1,7 no grau 4. A queda de 2,2 para 1,7 é a inversão. Na escala modificada, tomando os graus 0 e 1 como referência, as razões foram 1,6 no grau 2, 1,6 no grau 3 e 2,2 no grau 4.

A modificada corrigiu a inversão: a sequência 1,6 — 1,6 — 2,2 não decresce em nenhum degrau. Mas ela não é estritamente crescente, e o material que a apresenta como escala em que o risco aumenta progressivamente a cada grau está descrevendo algo que a coorte de derivação não mostrou. Os graus 2 e 3 carregam exatamente a mesma razão de chance. O que a escala separa bem é o grau 4 do resto; o que ela não separa é o grau 2 do grau 3. É honesto usá-la como escala de três degraus, não de cinco.

Há ainda um segundo cuidado com a inversão da escala original: ela é achado de coorte, não lei. Uma série escocesa de 609 pacientes consecutivos avaliados entre 2010 e 2013 encontrou correlação positiva em todos os graus da escala original, com déficit isquêmico tardio em 4,9%, 12,3%, 14,9% e 32% dos graus 1 a 4 — explicitamente contrária à literatura publicada. Quem afirma a inversão como fato consagrado está citando uma coorte e ignorando outra.

Os três relógios da hemorragia subaracnóidea

Confirmada a hemorragia subaracnóidea, o Ministério manda proceder o mais brevemente possível a uma angiografia cerebral seletiva para documentar e estudar a anatomia do aneurisma, admitindo angiotomografia ou angiorressonância quando a angiografia não é viável em tempo hábil. A partir daí correm três relógios com prevenções diferentes.

O primeiro é o ressangramento, e é o mais precoce. O que o previne é a exclusão do aneurisma da circulação: clipagem cirúrgica ou tratamento endovascular, o mais precocemente possível. A Linha é explícita ao registrar que aneurismas envoltos, revestidos, parcialmente clipados ou embolizados têm risco aumentado de ressangramento, e que a obliteração completa é o ideal. Repouso absoluto e controle pressórico entram como medidas de suporte, não como tratamento.

O segundo é o vasoespasmo, que aparece dias depois. O que o previne é o nimodipino oral, 60 miligramas de quatro em quatro horas, iniciado na admissão e mantido, somado a evitar hipovolemia. O ponto que a prova explora: o nimodipino não previne ressangramento e não é prescrito para baixar a pressão. É neuroprotetor contra isquemia tardia. Oferecer nimodipino a quem acabou de sangrar e ainda tem aneurisma aberto, como se fosse o tratamento do problema, é trocar o relógio.

O terceiro é a hidrocefalia, que não tem hora marcada. A Linha manda proceder ventriculostomia com monitorização da pressão intracraniana intraventricular nos casos de hidrocefalia aguda sem hematoma a ser drenado — hemorragias intraventriculares ou de tronco cerebral. Um paciente que rebaixa sem sangue novo na tomografia pode estar em vasoespasmo, se estiver na janela, ou em hidrocefalia, a qualquer momento; são condutas diferentes.

Para a hemorragia intraparenquimatosa, o gatilho de monitoração da pressão intracraniana é escrito em número: Glasgow abaixo de 9 ou piora rápida de pelo menos 2 pontos na mesma escala. Também são candidatos os hematomas muito volumosos — supratentorial acima de 10 mililitros e infratentorial acima de 3 mililitros — ou com hemoventrículo, quando há necessidade de sedação. O objetivo é manter a pressão intracraniana abaixo de 20 milímetros de mercúrio com pressão de perfusão cerebral acima de 60.

Qual hemorragia é operação

A maioria das hemorragias intraparenquimatosas é tratada clinicamente, e é isso que o acervo de questões brasileiro cobra com frequência: hematoma putaminal em hipertenso mal aderente, manejo de suporte, controle pressórico, sem cirurgia. Existe porém uma hemorragia em que a cirurgia é a conduta, e ela tem endereço anatômico.

O critério do Ministério para considerar a descompressão cirúrgica é uma lista de quatro situações. A primeira, e a única em que o texto manda operar o mais breve possível, é a hemorragia cerebelar que vem piorando o quadro neurológico ou que cursa com compressão do tronco cerebral ou hidrocefalia por obstrução ventricular. As outras três são hematomas lobares supratentoriais acima de trinta mililitros e a menos de um centímetro do córtex, hemorragia intracraniana associada a lesão estrutural, e pacientes jovens com hemorragias lobares moderadas ou grandes em deterioração clínica.

A assimetria é o que interessa. No supratentorial, o limiar é de volume e de distância do córtex, e a decisão admite discussão. No cerebelar, o gatilho não é volume — é deterioração, compressão de tronco ou hidrocefalia —, e o prazo é o mais breve possível. Uma fossa posterior pequena transforma um hematoma modesto em compressão de tronco, e o paciente que rebaixa ali não tem a folga que teria no hemisfério. Alternativa que ofereça observação clínica e controle pressórico para hemorragia cerebelar com rebaixamento está aplicando a regra do compartimento errado.

A ventriculostomia entra quando há hidrocefalia aguda e não há hematoma a drenar. São indicações que convivem: o mesmo paciente pode precisar de derivação ventricular e de descompressão, e o que decide é o que está causando a piora.

Onde esse paciente pode ser operado: a régua que paga o hospital

Decidir que a hemorragia é cirúrgica resolve metade do problema. A outra metade é onde, e essa resposta não está em diretriz clínica — está na norma que habilita e paga os serviços. A Portaria GM/MS nº 665, de 2012, com a redação da Portaria GM/MS nº 800, de 2015, classifica os Centros de Atendimento de Urgência aos Pacientes com AVC em Tipo I, II e III, e lista o que cada um precisa ter.

O Tipo I é o piso, e já é exigente: atendimento de urgência 24 horas, tomografia de crânio nas 24 horas do dia, equipe treinada coordenada por neurologista, protocolos escritos, leitos monitorados, unidade de tratamento intensivo, laboratório em tempo integral e tratamento hemoterápico para possíveis complicações hemorrágicas.

Dois incisos do mesmo artigo carregam prazos, e é a distância entre eles que este capítulo quer que fique gravada. A cobertura de atendimento neurológico deve estar disponível em até 30 minutos da admissão do paciente, admitido plantão presencial, sobreaviso à distância ou telemedicina. A equipe neurocirúrgica deve estar disponível 24 horas por dia, própria ou referenciada, em até duas horas.

A norma que financia o atendimento ao AVC garante, portanto, quatro vezes mais tempo para o neurocirurgião do que para o neurologista. Isso é coerente com a doença mais frequente da rede, o AVC isquêmico, em que o relógio é o da trombólise e quem decide é o neurologista. E é justamente onde a hemorragia fica desamparada: o paciente com hematoma cerebelar em deterioração, para quem o texto clínico do próprio Ministério manda operar o mais breve possível, está num serviço cuja obrigação normativa é ter neurocirurgia em até duas horas — e, se for referenciada, com transporte pela frente.

Os tipos II e III sobem o patamar em leitos, não em neurocirurgia. O Tipo II acrescenta a Unidade de Cuidado Agudo ao AVC, com no mínimo cinco leitos, para a fase aguda de até 72 horas de internação. O Tipo III acrescenta a Unidade de Cuidado Integral, com no mínimo dez leitos, para acompanhar o paciente até quinze dias de internação, e nela o texto nomeia o hemorrágico ao lado do isquêmico e do ataque isquêmico transitório. Enunciado que descreva um serviço com U-AVC de cinco leitos está descrevendo Tipo II; com dez leitos e ambulatório especializado, Tipo III.

04

As quatro escalas e as duas contas

Quatro escalas convivem neste tema e cada uma mede uma coisa. A tabela abaixo é a que resolve a maior parte das questões: basta saber o que cada escala gradua e o que ela prevê. Depois vêm as duas contas que a prova costuma pôr em cima da borda.

corte de maior áreaA 5,0B 4,0A x B no mesmo corteeixo craniocaudalC 3,06 cortes x 5 mm = 3,0 cm5,0 x 4,0 x 3,0 / 2 = 30 mL · com C 2,9 = 29 mL

ABC/2: onde um milímetro vale um ponto

O C não é medido no corte axial: é o número de cortes em que o sangue aparece multiplicado pela espessura de cada corte. Com 5,0 por 4,0 centímetros e 6 cortes de 5 milímetros, o volume é exatamente 30 mililitros e o ponto de volume do escore ICH é somado. Com 2,9 centímetros de extensão craniocaudal, o mesmo hematoma dá 29 mililitros e o ponto se perde.

perfis por pontuação (total 48)15111411510123456a barra em destaque é o perfil único que nunca apareceu na coorte

Escore ICH: a célula que ninguém preencheu

Existem 48 perfis possíveis de paciente, porque um item tem três níveis e quatro são binários. Se todos fossem binários, seriam 32 — é por isso que a contagem prova que o peso duplo é o da escala de coma. Desses 48 perfis, exatamente 1 chega a 6 pontos, e na coorte de derivação nenhum paciente o alcançou: a mortalidade de 100% nessa linha é extrapolada. A de 5 pontos não é, veio de 6 pacientes.

Trinta minutos e duas horas

No mesmo artigo da norma que habilita o centro de AVC, a cobertura neurológica é devida em até 30 minutos da admissão e a equipe neurocirúrgica em até duas horas, própria ou referenciada. Para o hematoma cerebelar em deterioração, cujo texto clínico manda operar o mais breve possível, o prazo garantido é o maior dos dois.

Quatro escalas: o que cada uma gradua e o que prevê

EscalaO que graduaComoO que prevê
Escore ICHHemorragia intraparenquimatosaGlasgow (0, 1 ou 2 pontos), idade ≥ 80, origem infratentorial, volume ≥ 30 mL e hemorragia intraventricular (1 ponto cada); total 0 a 6Mortalidade em 30 dias
Hunt e HessHemorragia subaracnóidea, pela clínicaGraus I a V descritivos, de cefaleia mínima a coma descerebrado; acresce um grau se houver doença sistêmica grave ou vasoespasmo importante à arteriografiaMortalidade e risco cirúrgico
Federação Mundial (WFNS)Hemorragia subaracnóidea, por Glasgow e déficit motorI: Glasgow 15 sem déficit; II: 13-14 sem déficit; III: 13-14 com déficit; IV: 7-12; V: 3-6 (os dois últimos com ou sem déficit)Gravidade, com melhor reprodutibilidade que Hunt-Hess
Fisher modificadaO sangue na tomografia de entradaCombinação de sangue cisternal espesso e hemorragia intraventricular, graus 0 a 4Vasoespasmo sintomático (isquemia cerebral tardia)

Escore ICH: pontuação e mortalidade em 30 dias na coorte de derivação

PontuaçãoPerfis possíveis (de 48)Mortalidade em 30 diasOrigem do número
010%Observada: 26 pacientes, todos sobreviveram
1513%Observada
21126%Observada
31472%Observada
41194%Observada
55100%Observada: 6 pacientes, todos morreram
61100%Extrapolada: nenhum paciente da coorte pontuou 6

As duas partições que não fecham

EscalaComo se conta a coberturaResultadoCélula que sobra
WFNS, eixo do Glasgow isolado13 valores de Glasgow, de 3 a 151 + 2 + 6 + 4 = 13: cobertura completaNenhuma
WFNS, cruzando Glasgow e déficit motor13 valores x 2 possibilidades de déficit = 26 combinações1 + 2 + 2 + 12 + 8 = 25 de 26Glasgow 15 com déficit motor maior
Fisher original, graus 2 e 3Espessura vertical do sangue em milímetrosGrau 2 é menor que 1 mm; grau 3 é maior que 1 mmEspessura de exatamente 1 mm
Escore ICH, faixa máxima48 perfis possíveis de pacienteApenas 1 perfil chega a 6 pontosA mortalidade da pontuação 6 não foi observada na coorte

Fisher original e modificada: razões de chance de vasoespasmo na mesma coorte

GrauFisher original (ref.: grau 1)Fisher modificada (ref.: graus 0-1)Leitura
21,31,6Ambas sobem em relação à referência
32,21,6A original atinge aqui seu pico; a modificada empata com o grau 2
41,72,2A original cai — é a inversão; a modificada sobe e separa
ConclusãoNão é monotônicaNão decresce, mas não é estritamente crescenteA modificada separa o grau 4 do resto, não o grau 2 do grau 3

Quando a hemorragia intraparenquimatosa é cirúrgica, segundo o Ministério

SituaçãoGatilhoPrazo
Hemorragia cerebelarPiora do quadro neurológico, compressão do tronco cerebral ou hidrocefalia por obstrução ventricularOperar o mais breve possível
Hematoma lobar supratentorialVolume acima de 30 mL e a menos de 1 cm do córtexConsiderar descompressão
Hemorragia com lesão estrutural associadaA própria lesãoConsiderar descompressão
Paciente jovem com hemorragia lobarHemorragia moderada ou grande, em deterioração clínicaConsiderar descompressão
Hidrocefalia aguda sem hematoma a drenarHemorragia intraventricular ou de tronco cerebralVentriculostomia com monitoração da pressão intracraniana

A escala de coma de Glasgow aparece em três escalas deste capítulo com cortes diferentes: no escore ICH em 3-4, 5-12 e 13-15; na escala da federação mundial em 15, 13-14, 7-12 e 3-6; e como gatilho de monitoração da pressão intracraniana abaixo de 9. Os cortes não coincidem e não devem ser transportados de uma para a outra.

O limiar de 30 mililitros aparece duas vezes com sentidos distintos: como ponto do escore ICH, que é prognóstico, e como critério cirúrgico do hematoma lobar, que é decisão — e neste segundo caso vem acompanhado da exigência de estar a menos de 1 cm do córtex.

Os volumes que disparam monitoração da pressão intracraniana são muito menores que os cirúrgicos e diferentes entre os compartimentos: acima de 10 mL no supratentorial e acima de 3 mL no infratentorial.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Até onde baixar a pressão na hemorragia intraparenquimatosa — e a terceira régua, que é do próprio Ministério

Linha de Cuidados em AVC do Ministério — reduções menores, alvo de 160 por 90

O anexo aprovado pela portaria que habilita os centros de AVC organiza o controle pressórico em três faixas. Com sistólica acima de 200 ou pressão arterial média acima de 150, redução agressiva com medicação endovenosa contínua e monitorização preferencialmente invasiva. Com sistólica acima de 180 ou média acima de 130 e possibilidade de hipertensão intracraniana, monitorar a pressão intracraniana e reduzir mantendo pressão de perfusão cerebral igual ou maior que 60. Com sistólica acima de 180 ou média acima de 130 sem evidências de hipertensão intracraniana, reduções menores, com média de 110 ou 160 por 90, e reexame clínico a cada 15 minutos.

Ministério da Saúde, Linha de Cuidados em AVC, item 10.4, anexo aprovado pela Portaria GM/MS nº 665, de 12 de abril de 2012.

Protocolo do Ministério para hipertensão, 2025 — abaixo de 180, com piso em 140

A sistólica deve ser reduzida para menos de 180, mas não menos de 140, na fase hiperaguda das primeiras 24 horas; com sistólica acima de 220, a redução deve ser gradual. É o documento que transforma em piso explícito o valor que a diretriz das sociedades usa como alvo.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Conitec/Ministério da Saúde, 2025, item 1.1.1.2.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025 — abaixo de 140 no quadro leve a moderado

No hemorrágico de gravidade leve a moderada com sistólica entre 150 e 220, reduzir a pressão para menos de 140 com medicamentos intravenosos, com força fraca e certeza moderada. Com sistólica acima de 220, o alvo passa a ser sistólica abaixo de 180, com infusão contínua e monitoramento frequente, aí com recomendação forte.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, capítulo 11, tabela de recomendações.

Na prova

A comparação completa entre a diretriz de 2025, o protocolo do Ministério e a diretriz americana está no capítulo de Crise hipertensiva, na apostila de Cardiologia, e não se repete aqui. O que este capítulo acrescenta é a existência de uma terceira régua brasileira, mais antiga e ainda formalmente aprovada, cujos números são outros: ela quebra em 200, e não em 220, e propõe 160 por 90 onde as demais falam em 140 ou 180. Como identificar o recorte: enunciado que descreva gravidade leve a moderada com sistólica entre 150 e 220 e cite a diretriz das sociedades está no mundo do alvo abaixo de 140; enunciado que mencione expressamente um piso está no mundo do protocolo do Ministério; enunciado que cite nominalmente a Linha de Cuidados em AVC é o único que pode estar no mundo do 160 por 90. Duas observações de leitura fecham o ponto. A primeira: as três faixas da Linha não são mutuamente exclusivas — um paciente sem hipertensão intracraniana com sistólica de 201 para cima satisfaz ao mesmo tempo a primeira e a terceira, que pedem condutas opostas, e a leitura que resolve é a de ordem, em que a primeira faixa aplicável vence. A segunda: a palavra que separa as faixas é acima de, não a partir de, de modo que sistólica de exatamente 220 permanece na faixa que mira 140, e não na que mira 180.

Qual escala de sangue prevê vasoespasmo, e se a escala original realmente se inverte

A escala original se inverte, e por isso foi modificada

Na coorte de derivação da escala modificada, com 1.355 pacientes e 451 casos de vasoespasmo sintomático, as razões de chance da escala original em relação ao grau 1 foram 1,3 no grau 2, 2,2 no grau 3 e 1,7 no grau 4. O risco atinge o pico no grau 3 e cai no grau 4, o que motivou a construção de uma escala que contabilizasse sangue cisternal espesso e hemorragia intraventricular. Após ajuste para fatores de confusão, a escala modificada permaneceu estatisticamente significativa e a original não.

Frontera JA e cols. Prediction of symptomatic vasospasm after subarachnoid hemorrhage: the modified Fisher scale. Neurosurgery. 2006;59(1):21-27.

A inversão não se reproduziu numa série consecutiva maior em tempo real

Em 609 pacientes consecutivos referidos ao serviço regional de neurocirurgia do oeste da Escócia entre 2010 e 2013, com cada tomografia de admissão graduada de forma independente por dois avaliadores, a escala original mostrou correlação positiva em todos os graus, com déficit isquêmico neurológico tardio em 4,9%, 12,3%, 14,9% e 32% nos graus 1 a 4 — resultado descrito pelos próprios autores como contrário à literatura publicada. A escala modificada teve concordância entre avaliadores mais alta, e ambas se correlacionaram com desfecho e mortalidade.

Martin SC e cols. The Fisher and modified Fisher scales as predictors of delayed ischaemic neurological deficit. Congress of Neurological Surgeons, série de 609 pacientes, 2010-2013.

Na prova

O ponto de concordância é o que a prova mais cobra e não depende da divergência: a escala de Fisher, original ou modificada, gradua sangue na tomografia e prevê vasoespasmo sintomático, enquanto Hunt-Hess e a escala da federação mundial graduam a clínica. Enunciado que peça a escala de graduação da hemorragia subaracnóidea sem dizer qual desfecho quer é ambíguo, e o desfecho citado é que desempata. Quanto à inversão, a régua para identificar o recorte é a fonte: questão construída a partir do artigo de derivação de 2006 trata a queda do grau 3 para o grau 4 como fato, e é assim que a maioria do material didático a repete. O que não se deve fazer é afirmar a inversão como propriedade universal da escala. E há um cuidado com a própria escala modificada: no artigo que a derivou, os graus 2 e 3 têm a mesma razão de chance, de modo que material que a descreva como escala em que o risco cresce a cada grau está afirmando mais do que os dados sustentam.

06

Caso resolvido

Homem de 72 anos, hipertenso de longa data e sem adesão ao tratamento, é trazido ao pronto-socorro 40 minutos após início súbito de hemiplegia esquerda e cefaleia intensa. Ao exame: Glasgow 6 (abertura ocular ausente, sem resposta verbal, retirada à dor), pupilas isocóricas, pressão 205 por 118. A tomografia sem contraste mostra hematoma espontâneo em putâmen direito que mede 5,0 por 4,0 centímetros no corte de maior área e aparece em 6 cortes de 5 milímetros de espessura, com inundação ventricular. O plantonista pergunta qual é o escore ICH e o que fazer.
Calcule o volume antes de qualquer outra coisa
O C não está no corte axial. São 6 cortes de 5 milímetros, portanto 3,0 centímetros de extensão craniocaudal. O volume é 5,0 vezes 4,0 vezes 3,0 dividido por 2, exatamente 30 mililitros. Como o corte do escore é em 30 mililitros ou mais, o ponto é somado — por um milímetro de margem no eixo craniocaudal.
Monte o escore item por item
Glasgow 6 cai na faixa de 5 a 12, que vale 1 ponto. Volume de 30 mililitros, 1 ponto. Hemorragia intraventricular presente, 1 ponto. Origem supratentorial, 0. Idade de 72 anos, abaixo de 80, 0. O escore ICH é 3, faixa cuja mortalidade observada em 30 dias na coorte de derivação foi de 72%.
Note o que o escore não decide
O escore ICH é prognóstico, não é indicação de conduta. Ele não manda operar nem deixar de operar, e um escore alto não autoriza limitar suporte por si só. Serve para comunicar gravidade, estratificar e comparar — e é por isso que a pergunta seguinte precisa ser feita separadamente.
Pergunte se este hematoma é cirúrgico
Pelo critério do Ministério, não. É supratentorial e profundo, em putâmen, não lobar a menos de um centímetro do córtex; não é cerebelar; não há lesão estrutural descrita; o paciente não é jovem. A conduta é clínica, com suporte, controle pressórico e avaliação neurocirúrgica — que aqui existe para acompanhar, não necessariamente para operar.
Acione a monitoração pelo número certo
Glasgow 6 está abaixo de 9, o que já é gatilho de monitoração da pressão intracraniana pelo texto do Ministério, e há hemoventrículo. O objetivo é manter a pressão intracraniana abaixo de 20 milímetros de mercúrio com pressão de perfusão cerebral acima de 60. A intubação, se indicada, se decide por insuficiência respiratória ou risco de aspiração, e não por um valor isolado de Glasgow.
Trate a pressão pela régua que o enunciado citar
Com sistólica de 205 e gravidade que não é leve, as réguas divergem, e o capítulo de Crise hipertensiva desenvolve a comparação. Vale registrar que 205 fica abaixo de 220, portanto ainda na faixa em que a diretriz brasileira de 2025 mira menos de 140, e acima de 200, portanto já na faixa de redução agressiva da Linha de Cuidados do Ministério. O que não varia entre os documentos é a proibição de queda abrupta e a escolha de droga endovenosa titulável.
07

Agora feche você

Mulher de 54 anos, hipertensa e tabagista, chega ao pronto-socorro com cefaleia explosiva iniciada há 5 horas durante esforço, acompanhada de vômitos. Está sonolenta e confusa, com discreta paresia do membro superior direito; Glasgow 13. A tomografia sem contraste mostra sangue espesso nas cisternas da base e sangue nos ventrículos laterais. A angiotomografia identifica aneurisma sacular de artéria comunicante anterior. O residente pergunta como graduar a paciente e o que priorizar nas próximas horas.
Gradue a clínica pelas duas escalas, e some a regra esquecida
Enquadre primeiro pela descrição de Hunt e Hess: sonolência, confusão e déficit focal leve correspondem a um grau. Depois aplique a regra de acrescer um grau na presença de doença sistêmica grave e verifique se o antecedente descrito a aciona. Em paralelo, enquadre pela escala da federação mundial usando o Glasgow e a presença de déficit motor, e note que as duas escalas não precisam dar o mesmo número.
Gradue o sangue, que é outra pergunta
Sangue cisternal espesso e sangue intraventricular: localize essa combinação na escala de Fisher modificada e diga qual grau ela produz. Antes de responder o que ela prevê, decida se o desfecho previsto é mortalidade ou vasoespasmo sintomático.
Ordene os três relógios
Liste o que previne ressangramento, o que previne vasoespasmo e o que trata hidrocefalia, e diga qual dos três é o mais urgente nas próximas horas nesta paciente, que já tem aneurisma identificado e ainda aberto.
Escolha a droga certa para o relógio certo
Diga qual é a dose e o intervalo do nimodipino oral segundo o texto do Ministério, e depois responda a pergunta que derruba: se ele é iniciado para prevenir ressangramento, para baixar a pressão ou para outra coisa.
Verifique onde ela está
Se o serviço é um Centro de Atendimento de Urgência Tipo I, diga em quanto tempo a norma garante cobertura neurológica e em quanto tempo garante equipe neurocirúrgica, e o que isso significa para o cronograma da exclusão do aneurisma.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Trocar a escala que gradua a clínica pela que gradua o sangue Hunt-Hess e a escala da federação mundial graduam o paciente e falam de mortalidade e risco cirúrgico. Fisher e Fisher modificada graduam a tomografia e falam de vasoespasmo. Enunciado que descreva sangue cisternal espesso e peça a graduação está pedindo Fisher; enunciado que descreva sonolência e déficit está pedindo Hunt-Hess. Responder com a escala certa para o desfecho errado é o erro mais frequente do tema.
  2. 2Medir o C do ABC/2 no corte axial O A e o B são medidos no corte de maior área, perpendiculares entre si. O C é o eixo craniocaudal, e sai do número de cortes em que o sangue aparece multiplicado pela espessura do corte. Quem mede um terceiro diâmetro no plano axial subestima ou superestima o volume sem perceber, e no limiar de 30 mililitros isso vale um ponto do escore e pode valer a indicação cirúrgica do hematoma lobar.
  3. 3Tratar o 100% da pontuação 6 do escore ICH como número observado Na coorte de derivação, com 152 pacientes, ninguém pontuou 6 — a mortalidade dessa linha é extrapolação. O 100% da pontuação 5, esse sim, veio de 6 pacientes, todos falecidos. A distinção importa porque a pontuação 6 exige a conjunção de cinco condições, entre elas trinta mililitros de sangue em território infratentorial, que raramente chega vivo à tomografia.
  4. 4Dizer que na escala de Fisher modificada o risco cresce a cada grau No artigo que a derivou, os graus 2 e 3 têm a mesma razão de chance de vasoespasmo, 1,6, e só o grau 4 se destaca, com 2,2. A escala não decresce em nenhum degrau, o que já é uma vantagem sobre a original, mas não é estritamente crescente. Descrevê-la como progressiva grau a grau é afirmar mais do que os dados mostram.
  5. 5Aplicar a regra do hematoma supratentorial à hemorragia cerebelar No supratentorial lobar, o gatilho cirúrgico é volume acima de trinta mililitros e distância menor que um centímetro do córtex. No cerebelar, o gatilho não é volume: é piora do quadro neurológico, compressão do tronco cerebral ou hidrocefalia por obstrução ventricular, e o texto manda operar o mais breve possível. Oferecer observação e controle pressórico para hemorragia cerebelar que rebaixa é aplicar a regra do compartimento errado.
  6. 6Achar que o nimodipino previne ressangramento ou serve para baixar a pressão O nimodipino oral, 60 miligramas de quatro em quatro horas, previne isquemia cerebral tardia por vasoespasmo, cujo relógio corre dias depois do sangramento. O que previne ressangramento é excluir o aneurisma da circulação, por clipagem ou tratamento endovascular, o mais precocemente possível. Prescrever nimodipino e considerar o problema resolvido é deixar o relógio mais urgente correndo.
  7. 7Ler acima de 220 como a partir de 220 A régua que separa as duas faixas pressóricas do AVC hemorrágico na diretriz brasileira usa acima de 220, e a faixa de baixo é descrita como entre 150 e 220. Sistólica de exatamente 220 pertence à faixa de baixo, aquela que mira menos de 140, e não à de cima. Quem lê o limite como inclusivo na faixa superior troca o alvo em todo enunciado construído em cima da borda.
  8. 8Transportar o corte de Glasgow de uma escala para outra O mesmo Glasgow aparece com cortes diferentes em três lugares deste capítulo: 3-4, 5-12 e 13-15 no escore ICH; 15, 13-14, 7-12 e 3-6 na escala da federação mundial; e abaixo de 9 como gatilho de monitoração da pressão intracraniana. Um paciente com Glasgow 13 vale 0 ponto no escore ICH e é grau II ou III na escala da federação mundial. Os cortes não se transportam.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: cefaleia em trovoada com rigidez de nuca sugere hemorragia subaracnóidea; a TC tem alta sensibilidade nas primeiras 6h, mas TC normal NÃO exclui o diagnóstico, sendo mandatória a punção lombar procurando hemácias e xantocromia (angio-TC é alternativa complementar). Dar alta é erro grave (risco de ressangramento aneurismático). EEG não investiga HSA. Triptano é contraindicado enquanto não excluída causa estrutural/hemorrágica. Esperar 48h retarda perigosamente o diagnóstico de aneurisma potencialmente fatal.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua o escore ICH de memória: os cinco itens, qual deles tem três níveis, quantos pontos vale cada um e o total máximo. Depois diga por que a contagem de 48 perfis prova que o peso duplo é o da escala de coma, e o que aconteceria com essa contagem se todos os itens fossem binários. Feche recitando a conta do ABC/2 com a definição correta do C e refazendo o exemplo de 5,0 por 4,0 por 3,0 centímetros, inclusive o que muda com 2,9.

em 30 dias

Percorra o capítulo inteiro num caso: gradue uma hemorragia subaracnóidea pelas duas escalas clínicas, aplicando a regra de acrescer um grau, e gradue o sangue pela escala de Fisher modificada dizendo qual desfecho ela prevê e onde ela deixa de separar. Em seguida ordene os três relógios com a prevenção de cada um e a dose do nimodipino. Termine com as duas listas que decidem destino: as cinco situações em que a hemorragia intraparenquimatosa é cirúrgica, com o gatilho e o prazo de cada uma, e os dois prazos do artigo 5º da norma de habilitação — trinta minutos para o neurologista, duas horas para o neurocirurgião.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Numa estação de sala de emergência com sangue na tomografia, o avaliador pontua uma sequência dita em voz alta. Primeiro, nomear qual das duas hemorragias é: intraparenquimatosa ou subaracnóidea, com a topografia e o que ela sugere de causa. Segundo, graduar com a escala certa para a doença certa, e dizer o que aquela escala prevê — mortalidade, se for escore ICH ou Hunt-Hess; vasoespasmo, se for Fisher modificada. Terceiro, medir: pedir os eixos e calcular o volume à mão, dizendo o número, porque é ele que decide o ponto e pode decidir a cirurgia. Quarto, separar o que é prognóstico do que é conduta, sem deixar o escore alto virar limitação de suporte por si só. Quinto, anunciar a pergunta cirúrgica em voz alta e responder pelo compartimento: hemorragia cerebelar que rebaixa vai para descompressão o mais breve possível; hematoma profundo supratentorial segue clínico. Por fim, dizer onde o paciente está e o que isso implica de tempo — se o serviço garante neurocirurgia em até duas horas, o acionamento é imediato e o transporte entra no plano desde já. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

AVC hemorrágico e hemorragia subaracnóidea — Preparatório para provas | OsceLabs