Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

Cefaleias primárias: migrânea, tensional e em salvas

Diagnóstico clínico, gravidade e indicação de profilaxia

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 24 anos procura atendimento com cefaleia recorrente, unilateral, pulsátil, de intensidade moderada a forte, que piora com esforço físico e vem acompanhada de náuseas e intolerância à luz e ao som. As crises duram cerca de um dia e a incapacitam para o trabalho. Ao exame neurológico: sem alterações; PA 118x76 mmHg, FC 72 bpm. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Cefaleia primária não tem exame que confirme. O diagnóstico sai inteiro da anamnese, e a neuroimagem serve para outra coisa: excluir causa secundária em quem tem sinal de alerta. Por isso a sequência que a prova cobra é sempre a mesma — primeiro o filtro de gravidade, depois o nome pelo critério, depois a droga da crise e a decisão de entrar com profilaxia.

A régua operacional brasileira para quem atende na atenção primária é o Resumo Clínico – Cefaleia e o Protocolo 1 – Cefaleia do TelessaúdeRS-UFRGS, este aprovado pela Resolução CIB/RS nº 174/2015: são eles que dizem quem vai para a emergência, quem vai para a imagem e quem vai para o neurologista. A profilaxia da migrânea episódica tem documento próprio de sociedade brasileira, o consenso da SBCe de 2022, publicado em duas partes. A nomenclatura e os cortes numéricos são da ICHD-3, de 2018.

Dois pontos derrubam mais gente do que o nome da dor. O primeiro é a cefaleia por uso excessivo de medicação: ela é secundária, mas nasce dentro do tratamento de uma cefaleia primária, e a conduta é retirar o analgésico, não aumentar a dose. O segundo é a cefaleia em salvas, que é rara na estatística e frequente na prova, porque o quadro é inconfundível e o tratamento da crise não se parece com nada do resto do capítulo.

03

O que muda decisão

Antes do nome, o filtro: quem sai da sala e quem vai para a imagem

Cefaleia é primária quando não há outra condição por trás da dor, e secundária quando a dor é consequência de outra doença. Como as primárias são muito mais prevalentes, o erro caro não é confundir migrânea com tensional — é chamar de primária uma dor que é secundária. O filtro vem antes de qualquer critério diagnóstico.

O documento brasileiro separa duas listas com finalidades diferentes. A primeira indica manejo em serviço de urgência/emergência, e basta um item: início súbito com dor descrita como a pior da vida; intensidade muito forte em pouco tempo após o início; evolução insidiosa e progressiva com ápice em poucos dias; estado de mal migranoso (crise de migrânea com duração maior que 72 horas, refratária ao tratamento); cefaleia iniciada após trauma de crânio recente; suspeita de meningite; paciente com HIV/aids com padrão novo de cefaleia ou imagem com lesão expansiva compatível com toxoplasmose; padrão novo em pessoa com neoplasia recente ou atual, ou com discrasia sanguínea; padrão novo em pessoa com mais de 50 anos, com dor à palpação e edema da artéria temporal superficial, mialgias e/ou VHS elevado; edema de papila na fundoscopia; sinais neurológicos focais; crise hipertensiva com confusão mental; suspeita de glaucoma (pupila fixa em midríase média e olho vermelho).

A segunda lista indica neuroimagem — ressonância ou tomografia de crânio sem contraste — quando disponível na atenção primária: padrão novo ou mudança recente no padrão da cefaleia; início depois dos 50 anos; evolução insidiosa e progressiva com ápice em poucas semanas ou meses; dor que acorda durante o sono; dor desencadeada por esforço, coito, tosse, atividade física ou manobra de Valsalva. Repare que a idade de corte aparece nas duas listas com papéis distintos: acima de 50 anos com artéria temporal dolorosa e VHS alto é emergência (arterite temporal), enquanto início de cefaleia depois dos 50 anos, sem esses achados, é indicação de imagem ambulatorial.

O exame físico dessa consulta é dirigido: aferir pressão arterial e temperatura; palpar musculatura cervical e crânio; palpar o trajeto da artéria temporal superficial em quem tem mais de 50 anos; palpar a articulação temporomandibular; e fazer exame neurológico com estado mental, pares cranianos, força, sensibilidade, reflexos e sinais de irritação meníngea. A fundoscopia entra por causa do edema de papila. Do outro lado, a NICE é explícita em não encaminhar para neuroimagem quem já tem diagnóstico de cefaleia tipo tensão, migrânea, salvas ou uso excessivo de medicação apenas para tranquilizar o paciente (recomendação 1.3.3): imagem sem sinal de alerta não tranquiliza ninguém e ainda produz achado incidental.

Migrânea sem aura: cinco crises, quatro a 72 horas e as listas de dois em dois

Os critérios 1.1 da ICHD-3 pedem, para migrânea sem aura: pelo menos cinco crises; crises com duração de 4 a 72 horas sem tratamento ou com tratamento sem sucesso; pelo menos duas de quatro características — localização unilateral, caráter pulsátil, intensidade moderada ou forte, agravada por ou levando a evitar atividade física rotineira (caminhar, subir escada); e, durante a dor, pelo menos um de dois itens — náusea e/ou vômito, ou fotofobia e fonofobia. E que não seja mais bem explicada por outro diagnóstico da própria classificação.

Duas armadilhas nascem aí. A primeira é o número cinco: quem preenche tudo mas teve menos de cinco crises não é migrânea, é migrânea provável (1.5.1) — a classificação exige repetição porque uma ou duas crises isoladas podem ser sintomáticas. A segunda é o item D: fotofobia e fonofobia contam juntas como um único item. Ter só fotofobia, sem fonofobia e sem náusea, não fecha o critério.

Em menores de 18 anos, a duração aceita é de 2 a 72 horas, e a dor é mais frequentemente bilateral do que no adulto — a unilateralidade costuma aparecer no fim da adolescência. Cefaleia occipital em criança é rara e obriga cautela diagnóstica. Se o paciente adormece durante a crise e acorda sem dor, a duração conta até o momento de acordar.

Quando a cefaleia passa a ocorrer em 15 ou mais dias por mês por mais de três meses, em alguém que já teve pelo menos cinco crises de migrânea, e em pelo menos 8 desses dias por mês a dor preenche critérios de migrânea (ou foi aliviada por triptano ou derivado do ergot), o diagnóstico vira migrânea crônica (1.3). Nessa situação o diagnóstico de cefaleia tipo tensão fica excluído, mesmo que parte dos dias tenha dor com cara de tensional — a regra da classificação é que, havendo qualquer característica de migrânea, o rótulo é migrânea crônica.

Aura: o que é reversível, quanto dura e o que mudou na ICHD-3

A aura é um fenômeno neurológico focal, totalmente reversível, que pode ser visual, sensitivo, de fala/linguagem, motor, de tronco encefálico ou retiniano. Os critérios 1.2 da ICHD-3 pedem pelo menos duas crises e pelo menos três de seis características: pelo menos um sintoma se instala gradualmente ao longo de cinco minutos ou mais; dois ou mais sintomas ocorrem em sucessão; cada sintoma dura de 5 a 60 minutos; pelo menos um sintoma é unilateral; pelo menos um sintoma é positivo (cintilações, formigamento); e a aura é acompanhada, ou seguida em até 60 minutos, de cefaleia.

Duas notas fecham as contas. Quando ocorrem três sintomas de aura em sucessão, a duração máxima aceitável passa a ser 3 × 60 minutos; e sintomas motores podem durar até 72 horas. Afasia conta sempre como sintoma unilateral; disartria pode ou não contar.

O que essa lista faz, na prática, é separar aura de ataque isquêmico transitório. A aura marcha: começa pequena, cresce em minutos, tem sintoma positivo antes do negativo (a cintilação antes do escotoma, o formigamento antes do adormecimento) e termina dando lugar à dor. O AIT começa cheio, é predominantemente negativo (perda de força, perda de visão) e não vem seguido de cefaleia com cara de migrânea. Foi exatamente por causa desse diagnóstico diferencial que a versão definitiva da ICHD-3 adotou os critérios que estavam no apêndice da edição anterior — o teste de campo mostrou que eles distinguiam melhor aura de AIT.

Duas consequências práticas. A primeira é etária: quadro de cefaleia que se inicia depois dos 50 anos entra na lista brasileira de indicação de neuroimagem ambulatorial, e sintoma neurológico focal de aparecimento novo nessa faixa é para investigar antes de rotular como aura. A segunda é terapêutica: migrânea hemiplégica, migrânea com aura de tronco encefálico, aura prolongada e infarto migranoso entram, no documento brasileiro da atenção primária, na lista de indicações de profilaxia por si sós — independentemente da frequência das crises.

Cefaleia tipo tensão: o diagnóstico que se define pelo que a dor não tem

A cefaleia tipo tensão é o espelho da migrânea. Os critérios pedem duração de 30 minutos a 7 dias e pelo menos duas de quatro características: localização bilateral, caráter em pressão ou aperto (não pulsátil), intensidade leve ou moderada, e não agravada por atividade física rotineira. E exigem os dois itens do critério D: ausência de náusea ou vômito, e no máximo uma entre fotofobia e fonofobia.

O critério D é o que decide a maioria das questões. Se há náusea ou vômito, ou se há fotofobia e fonofobia juntas, não é tipo tensão. E se a mesma pessoa preenche tanto critérios de migrânea provável quanto de cefaleia tipo tensão, a regra da classificação manda codificar como tipo tensão — diagnóstico definido sempre vence diagnóstico provável.

A frequência subdivide o quadro em três, e é uma classificação ordinal com corte numérico próprio: infrequente é menos de 1 dia por mês em média (menos de 12 dias por ano), com pelo menos 10 episódios; frequente é 1 a 14 dias por mês em média por mais de 3 meses (12 a menos de 180 dias por ano); e crônica é 15 ou mais dias por mês em média por mais de 3 meses (180 dias ou mais por ano). Na forma crônica a duração pode ser de horas a dias, ou contínua, e o critério D afrouxa um pouco: aceita-se no máximo um entre fotofobia, fonofobia ou náusea leve, mas não náusea moderada/intensa nem vômito.

O corte de 15 dias por mês vale nas duas doenças — é ele que separa episódico de crônico tanto na tipo tensão quanto na migrânea. O que decide qual das duas é o conteúdo dos dias: havendo pelo menos 8 dias por mês com características de migrânea, o diagnóstico é migrânea crônica; não havendo, é cefaleia tipo tensão crônica.

Cefaleia em salvas: 15 a 180 minutos, um lado só, e o paciente que não consegue deitar

Os critérios 3.1 da ICHD-3 pedem pelo menos cinco crises de dor forte ou muito forte, unilateral, orbitária, supraorbitária e/ou temporal, durando de 15 a 180 minutos quando não tratada; frequência entre uma crise a cada dois dias e oito crises por dia; e, junto da dor, pelo menos um dos dois blocos seguintes — pelo menos um sinal autonômico ipsilateral (hiperemia conjuntival e/ou lacrimejamento, congestão nasal e/ou rinorreia, edema palpebral, sudorese frontal e facial, miose e/ou ptose) ou uma sensação de inquietude/agitação.

A inquietude é o detalhe clínico que mais separa salvas de migrânea na beira do leito. Na crise de migrânea o paciente procura o escuro e o silêncio e fica parado, porque movimento piora; na crise de salvas ele não consegue ficar deitado e anda pelo quarto. A dor é sempre do mesmo lado dentro de um mesmo surto. Começa tipicamente entre 20 e 40 anos e acomete homens cerca de três vezes mais que mulheres. Durante o surto, álcool, histamina e nitroglicerina desencadeiam crises — fora do surto, não.

A forma episódica (3.1.1) exige pelo menos dois surtos durando de 7 dias a 1 ano quando não tratados, separados por períodos de remissão sem dor de 3 meses ou mais; os surtos costumam durar de 2 semanas a 3 meses. A forma crônica (3.1.2) é a que ocorre sem remissão, ou com remissões de menos de 3 meses, por pelo menos 1 ano — e responde por 10% a 15% dos casos.

Do lado brasileiro, o Resumo Clínico do TelessaúdeRS sugere que a cefaleia trigêmino-autonômica seja avaliada em conjunto com o neurologista, e o Protocolo 1 – Cefaleia coloca no gatilho de encaminhamento à neurologia exatamente as cefaleias que não se caracterizam como migrânea ou tipo tensão. Ou seja: na régua da atenção primária, o papel de quem recebe esse paciente é reconhecer o quadro, afastar cefaleia secundária e encaminhar — não titular verapamil sozinho.

Rosto adulto em crise unilateral: do lado direito, pálpebra caída, pupila contraída, olho vermelho, lacrimejamento e rinorreia; o lado esquerdo está normal.
Sinais autonômicos ipsilaterais da crise de cefaleia em salvas: ptose, miose, hiperemia conjuntival, lacrimejamento, edema palpebral e rinorreia — sempre do mesmo lado da dor.

A crise: o que dar, em que dose e o que nunca dar

O documento brasileiro da atenção primária escalona o tratamento abortivo pela intensidade da crise. Dor leve a moderada: analgésico simples ou anti-inflamatório. Dor forte: analgesia endovenosa, ergóticos e, preferencialmente, triptanos. As doses estão na tabela do bloco seguinte. Duas regras valem para migrânea e para tipo tensão: opioide não está indicado no tratamento da cefaleia, e quanto mais cedo na crise a medicação for tomada, melhor a resposta.

Os triptanos têm travas próprias, e elas caem em prova. Não usar em cardiopatia isquêmica, angina de Prinzmetal, hipertensão não controlada e migrânea vertebrobasilar. Não combinar com ergotamina ou derivados — o intervalo mínimo entre um e outro é de 24 horas. E há uma regra contraintuitiva: quem não sentiu nenhum alívio com a primeira dose não deve repetir a dose na mesma crise; a segunda dose serve para recorrência da dor, não para falha primária.

A NICE parte de outro ponto: a recomendação 1.3.10 oferece de saída a combinação de triptano oral com anti-inflamatório, ou triptano oral com paracetamol, para a crise de migrânea, e reserva a monoterapia (triptano, AINE, AAS 900 mg ou paracetamol) para quem prefere tomar uma droga só. Recomenda ainda considerar antiemético mesmo sem náusea, e proíbe ergot e opioide na crise de migrânea. Quando a via oral falha, sugere metoclopramida ou proclorperazina não orais, com AINE ou triptano associado.

Na cefaleia em salvas, o tratamento da crise é outro mundo. A NICE recomenda oxigênio e/ou triptano subcutâneo ou nasal (recomendações 1.3.35 e 1.3.37) e, quando o oxigênio é usado, especifica: oxigênio a 100% em fluxo de pelo menos 12 litros por minuto, com máscara não reinalante e bolsa reservatório, com previsão de oxigênio domiciliar e ambulatorial. E há uma proibição inteira na recomendação 1.3.38: não oferecer paracetamol, anti-inflamatório, opioide, ergot nem triptano por via oral na crise de salvas. O motivo é farmacocinético — uma crise que dura 15 a 180 minutos acaba antes de o comprimido agir.

Entre essas duas réguas está a nacional, e é ela que a banca brasileira tende a cobrar quando o cenário é a urgência. O Protocolo Nacional para Diagnóstico e Manejo das Cefaleias nas Unidades de Urgência do Brasil, da Academia Brasileira de Neurologia com a Sociedade Brasileira de Cefaleia (2018), prescreve para a crise de salvas oxigênio a 100% em máscara sem recirculação, com fluxo de 10 a 12 litros por minuto durante 20 minutos, ou sumatriptano 6 mg por via subcutânea se disponível — com a ressalva de evitar o sumatriptano em quem já usou algum vasoconstritor. O documento nacional é o único dos três que dá a duração da oferta de oxigênio, e é categórico sobre o que não serve: analgésicos comuns e opioides são ineficazes e não devem ser utilizados.

O mesmo protocolo nacional escreve a escada da migrânea na urgência, com dose e relógio, e é a única das três réguas que faz isso. Na crise com menos de 72 horas: antiemético parenteral se houver vômitos ou uso prévio de medicação — dimenidrato 30 mg por via intravenosa diluído em 100 mL de soro fisiológico, ou 50 mg por via intramuscular; jejum com reposição de fluidos se houver desidratação; dipirona 1 grama por via intravenosa diluída em água destilada; cetoprofeno 100 mg por via intravenosa diluído em soro fisiológico, ou 100 mg por via intramuscular; e reavaliação em 1 hora, prescrevendo sumatriptano 6 mg por via subcutânea se não houver melhora, repetível em 2 horas. Passadas 2 horas de observação sem melhora, o encaminhamento é ao hospital terciário pela central de regulação. No estado migranoso — dor há mais de 72 horas — soma-se dexametasona 10 mg por via intravenosa lenta e, se não houver resposta, clorpromazina de 0,1 a 0,25 mg/kg por via intramuscular, repetível a cada hora até no máximo três doses. A regra de segurança vem junto e cai em prova: diante de hipotensão ou de sintoma extrapiramidal, a dose não se repete. E a proibição do opioide, que o documento da atenção primária já trazia, o protocolo nacional repete para a crise de enxaqueca.

Profilaxia: quando entra, com o quê e por quanto tempo

A decisão de entrar com profilaxia é o item mais cobrado do tema, e o documento brasileiro lista as indicações: cefaleia que interfere significativamente no dia a dia apesar do tratamento abortivo; crises frequentes, definidas como mais de uma por semana; uso excessivo de medicação; medicação abortiva inefetiva, contraindicada ou com efeitos adversos intoleráveis; preferência do paciente; e presença de formas incomuns de migrânea, potencialmente graves — hemiplégica, com aura de tronco, com aura prolongada ou infarto migranoso. O objetivo é reduzir frequência e intensidade das crises e aumentar a eficácia do abortivo, não abolir a dor.

Na cefaleia tipo tensão, o profilático é antidepressivo tricíclico em dose baixa. Na migrânea, o consenso da SBCe de 2022 classificou como nível A — estabelecidos como eficazes — o propranolol (40 a 240 mg/dia, em 2 a 3 tomadas), o metoprolol (50 a 200 mg/dia), a amitriptilina (10 a 150 mg/dia, em tomada única), o topiramato (50 a 200 mg/dia, em 2 tomadas) e o ácido valproico/divalproato de sódio (250 a 1.000 mg/dia). Os anticorpos anti-CGRP também receberam nível A (erenumabe 70 a 140 mg/mês, galcanezumabe 240 mg no primeiro mês e 120 mg/mês depois, fremanezumabe 225 mg/mês ou 675 mg a cada 12 semanas, todos subcutâneos). Na parte II do consenso, entre anti-hipertensivos, antidepressivos duais e bloqueadores de canal de cálcio, só a candesartana chegou a eficaz estabelecida; flunarizina, venlafaxina, duloxetina e pizotifeno ficaram como provavelmente eficazes.

O tempo é regra, não estilo. Iniciado o profilático, reavalia-se em 30 dias: sem melhora substancial, troca-se de classe; com melhora parcial, mantém-se por cerca de 3 meses antes de tentar outra medicação. A NICE revisa a necessidade de manter a profilaxia entre 3 e 6 meses depois do início. E o consenso da SBCe é explícito sobre associação: monoterapia é a regra inicial, e só se começa politerapia depois de ter tentado pelo menos duas drogas com recomendação nível A e/ou B, em doses adequadas, por no mínimo 6 semanas cada.

Encaminhamento à neurologia tem critério numérico no protocolo brasileiro: migrânea ou cefaleia tipo tensão refratária ao manejo profilático na atenção primária, entendida como tentativa com duas classes diferentes de medicamento no caso da migrânea, ou com tricíclico no caso da tipo tensão, por um período mínimo de 3 meses. Encaminha-se também quem precisa de imagem indisponível na unidade e quem tem cefaleia que não se caracteriza como migrânea nem como tipo tensão.

Um ponto de segurança fecha a seção: estrogênio e aura não combinam. O documento brasileiro contraindica contraceptivo com estrogênio pelo aumento do risco de AVC, e a NICE, na recomendação 1.3.30, orienta não oferecer rotineiramente contraceptivo hormonal combinado a mulheres e adolescentes com migrânea com aura — sem qualificar por idade. Na migrânea menstrual pura sem aura, o documento brasileiro admite contraceptivo oral combinado de baixa dose em uso contínuo como profilaxia, desde que a mulher tenha menos de 35 anos.

Cefaleia por uso excessivo de medicação: a secundária que nasce do tratamento

Os critérios 8.2 da ICHD-3 são curtos: cefaleia ocorrendo em 15 ou mais dias por mês em pessoa que já tinha uma cefaleia prévia, com uso regular por mais de 3 meses de uma ou mais drogas tomadas para tratar a crise. O que muda entre os subtipos é o limiar de dias por mês, e ele não é o mesmo para todas as classes: ergotamina, triptano, opioide e analgésico combinado (formulações que juntam duas ou mais classes com efeito analgésico) fecham o critério com 10 ou mais dias por mês; analgésico simples — paracetamol, AAS e outros anti-inflamatórios — exige 15 ou mais dias por mês. Quem mistura classes sem exceder nenhuma isoladamente também fecha o diagnóstico, quando a soma chega a 10 ou mais dias por mês.

Na prática do consultório, o sinal de alerta vem antes da contagem formal: analgésico duas ou mais vezes por semana já obriga a levantar a hipótese. O uso excessivo produz efeito rebote, cronifica a dor e muda as características do quadro — a cefaleia deixa de se parecer com a primária que motivou o analgésico, e é por isso que o paciente chega dizendo que a medicação parou de funcionar.

O tratamento é retirar. O documento brasileiro orienta iniciar um profilático e suspender de maneira abrupta qualquer analgésico por um tempo determinado, em geral uma semana, podendo deixar um anti-inflamatório em esquema fixo nesse período; em dor muito forte, pode ser necessário corticoide durante a suspensão, com o exemplo de prednisona 60 mg/dia por 7 dias. A NICE vai na mesma direção com prazos maiores: parar todas as medicações de crise em uso excessivo por pelo menos 1 mês, de forma abrupta e não gradual (1.3.43), avisando que a dor vai piorar antes de melhorar; considerar profilático para a cefaleia primária de base (1.3.45); não internar de rotina (1.3.46); e revisar diagnóstico e conduta 4 a 8 semanas depois do início da retirada (1.3.48). Internação e encaminhamento ficam para quem usa opioide forte, tem comorbidade relevante ou já falhou em tentativas repetidas de retirada.

Vale registrar uma incoerência interna do documento brasileiro nesse ponto. Ao descrever o anti-inflamatório fixo durante a retirada, o texto escreve ibuprofeno 500 mg de 8 em 8 horas por 7 dias; a Tabela 1 do mesmo documento lista as apresentações de ibuprofeno como comprimidos de 200, 300 e 600 mg, e fixa a dose máxima diária em 2.400 mg. O esquema praticável, coerente com a própria tabela e com o que existe em farmácia no Brasil, é 600 mg de 8 em 8 horas — 1.800 mg/dia, dentro do teto.

04

Da queixa ao nome, e do nome à receita

O roteiro abaixo é o que transforma uma queixa de dor de cabeça em conduta. Ele roda na ordem: gravidade primeiro, nome depois, tratamento por último — e a frequência mensal, que aparece nos três cartões, é o que decide se o caso é episódico ou crônico e se entra profilaxia.

  1. 1Procure sinal de alerta de emergência: um item basta para tirar o paciente da sala e mandar para o serviço de urgência.
  2. 2Procure indicação de neuroimagem ambulatorial: padrão novo, início após os 50 anos, progressão em semanas a meses, dor que acorda ou dor desencadeada por Valsalva/esforço/tosse/coito.
  3. 3Conte crises e dias de dor por mês, e pergunte quantos dias por mês o paciente usa analgésico — as duas contagens decidem crônico versus episódico e uso excessivo.
  4. 4Aplique o critério: duração da crise, localização, caráter, intensidade, efeito da atividade física e sintomas associados dão o nome (migrânea, tipo tensão ou salvas).
  5. 5Trate a crise pela intensidade, com a droga certa para o diagnóstico — e nunca com opioide.
  6. 6Decida a profilaxia pelas indicações, reavalie em 30 dias, mantenha 3 meses se houve melhora parcial, e encaminhe se a refratariedade preencher o critério do protocolo.

Episódica infrequente — menos de 1 dia de dor por mês

Menos de 12 dias de dor por ano, com pelo menos 10 episódios (ICHD-3, 2.1). Tratamento é só da crise; profilaxia não tem indicação por frequência.

Episódica frequente — 1 a 14 dias de dor por mês

De 12 a menos de 180 dias por ano, por mais de 3 meses (ICHD-3, 2.2). Mais de uma crise por semana já é indicação de profilaxia no documento brasileiro.

Crônica — 15 ou mais dias de dor por mês

180 dias ou mais por ano, por mais de 3 meses. Com 8 ou mais dias/mês de características migranosas, o nome é migrânea crônica (1.3); sem elas, cefaleia tipo tensão crônica (2.3).

CaracterísticaMigrânea sem auraCefaleia tipo tensãoCefaleia em salvas
Nº mínimo de crises/episódios5 crises10 episódios5 crises
Duração da crise sem tratamento4 a 72 horas (2 a 72 h em menores de 18 anos)30 minutos a 7 dias15 a 180 minutos
LocalizaçãoUni ou bilateralBilateralEstritamente unilateral: orbitária, supraorbitária e/ou temporal
Caráter da dorPulsátilPressão ou aperto, não pulsátilForte a excruciante, contínua
IntensidadeModerada ou forteLeve ou moderadaForte ou muito forte
Atividade física rotineiraAgrava, ou leva a evitarNão agravaNão é o eixo do critério; o paciente fica agitado, não parado
Sintomas associadosNáusea e/ou vômito, ou fotofobia e fonofobia juntasSem náusea/vômito; no máximo uma entre foto e fonofobiaSinais autonômicos ipsilaterais e/ou inquietude
Frequência típicaVariável; 15 ou mais dias/mês define a forma crônicaMenos de 1, 1 a 14, ou 15 ou mais dias/mêsDe 1 crise a cada dois dias até 8 crises por dia

Tratamento da crise na atenção primária — doses do documento brasileiro (TelessaúdeRS, 2016)

FármacoDose por tomadaViaIntervalo para 2ª doseDose máxima diáriaIntensidade
Paracetamol750 a 1.000 mgVO4 a 6 h4.000 mgLeve/moderada
Dipirona500 a 1.000 mgVO4 a 6 h3.000 mgLeve/moderada
Dipirona1.000 mgIV4 a 6 h3.000 mgModerada/forte
AAS500 a 1.000 mgVO4 h4.000 mgLeve/moderada
Ibuprofeno600 a 1.200 mgVO4 a 6 h2.400 mgLeve/moderada
Diclofenaco de sódio50 a 100 mgVO4 a 6 h150 mgLeve/moderada
Ergotamina ou di-hidroergotamina1 a 2 mgVO30 a 60 min6 mgModerada/forte
Sumatriptano25, 50 ou 100 mgVO2 h200 mgModerada/forte
Naratriptano2,5 mgVO24 h2,5 mgModerada/forte

Profilaxia da migrânea episódica — fármacos de nível A no consenso da SBCe (2022)

FármacoFaixa de doseTomadas por diaNível de recomendação
Propranolol40 a 240 mg/dia2 a 3A — estabelecido como eficaz
Metoprolol (succinato ou tartarato)50 a 200 mg/dia1 a 2A — estabelecido como eficaz
Amitriptilina10 a 150 mg/dia1 (à noite)A — estabelecido como eficaz
Topiramato50 a 200 mg/dia2A — estabelecido como eficaz
Ácido valproico250 a 1.000 mg/dia2 a 3A — estabelecido como eficaz
Divalproato de sódio250 a 1.000 mg/dia1 (liberação prolongada) ou 2A — estabelecido como eficaz
CandesartanaÚnico anti-hipertensivo com eficácia estabelecida na parte II do consensoA — estabelecido como eficaz

Cefaleia por uso excessivo de medicação — limiar por classe (ICHD-3, item 8.2)

Classe usada para tratar a criseDias de uso por mêsPor quanto tempo
Ergotamina10 ou maisMais de 3 meses
Triptano (qualquer formulação)10 ou maisMais de 3 meses
Opioide10 ou maisMais de 3 meses
Analgésico combinado (duas ou mais classes na mesma fórmula)10 ou maisMais de 3 meses
Paracetamol isolado15 ou maisMais de 3 meses
AAS e outros anti-inflamatórios15 ou maisMais de 3 meses
Combinação de classes, sem exceder nenhuma isoladamente10 ou mais (somados)Mais de 3 meses

Travas do triptano: contraindicado em cardiopatia isquêmica, angina de Prinzmetal, hipertensão não controlada e migrânea vertebrobasilar; intervalo mínimo de 24 horas em relação a ergotamina e derivados; e quem não teve nenhum alívio com a primeira dose não repete a dose na mesma crise.

Opioide não entra no tratamento de nenhuma das três cefaleias primárias — o documento brasileiro o exclui da migrânea e da tipo tensão, e a NICE o exclui também da crise de salvas, junto com paracetamol, anti-inflamatório, ergot e triptano oral (recomendação 1.3.38).

Ao descrever o anti-inflamatório fixo durante a retirada do analgésico, o documento brasileiro escreve ibuprofeno 500 mg de 8 em 8 horas; a Tabela 1 do próprio documento lista apresentações de 200, 300 e 600 mg e teto de 2.400 mg/dia. O esquema coerente é 600 mg de 8 em 8 horas.

Critério de encaminhamento à neurologia no protocolo brasileiro: falha de duas classes diferentes de profilático na migrânea, ou de tricíclico na cefaleia tipo tensão, por no mínimo 3 meses; necessidade de imagem indisponível na unidade; ou cefaleia que não se caracteriza como migrânea nem como tipo tensão.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Gabapentina na profilaxia da migrânea

Está na lista de profiláticos da atenção primária brasileira

A Tabela 2 do Resumo Clínico traz gabapentina com dose inicial de 300 mg e dose-alvo de 900 a 1.800 mg/dia em 3 tomadas, ao lado de amitriptilina, ácido valproico, topiramato e propranolol.

TelessaúdeRS-UFRGS, Resumo Clínico – Cefaleia, 2016

Nível C na sociedade brasileira: possivelmente eficaz

O consenso classifica gabapentina 900 a 3.600 mg/dia como nível C, com base em 2 estudos classe II (um positivo e um negativo), 2 classe III e 1 classe IV — abaixo dos fármacos de nível A da mesma tabela.

Consenso SBCe para profilaxia da migrânea episódica, parte I, 2022

Recomendação negativa explícita no documento britânico

A recomendação 1.3.20 diz para não oferecer gabapentina na profilaxia da migrânea; as opções recomendadas são propranolol, topiramato e amitriptilina (1.3.18).

NICE CG150, recomendação de 2015 mantida na atualização de 2025

Na prova

A causa da diferença é a data e o tipo de documento: o material brasileiro de atenção primária é de 2016 e monta uma lista prática de opções disponíveis, enquanto os dois outros documentos aplicam grade de evidência e classificam a mesma droga como fraca ou negativa. Enunciado que cita nominalmente a NICE ou um consenso de sociedade está pedindo a leitura por nível de evidência; enunciado de UBS que apresenta a gabapentina entre alternativas plausíveis de profilaxia costuma estar reproduzindo a lista do material de atenção primária. O distrator denuncia o recorte: se as alternativas trazem propranolol, topiramato e amitriptilina juntos, a questão está montada sobre a grade de evidência.

Como se trata a crise de migrânea de saída

Escalonamento por intensidade da crise

Dor leve a moderada: analgésico simples ou anti-inflamatório. Dor forte: analgesia endovenosa, ergóticos e, preferencialmente, triptanos. O triptano aparece como degrau, não como primeira linha.

TelessaúdeRS-UFRGS, Resumo Clínico – Cefaleia, Quadro 4 e Tabela 1, 2016

Combinação de triptano com anti-inflamatório desde o início

A recomendação 1.3.10 oferece terapia combinada de triptano oral com AINE, ou triptano oral com paracetamol, para a crise de migrânea; monoterapia com triptano, AINE, AAS 900 mg ou paracetamol fica reservada a quem prefere tomar uma droga só (1.3.11).

NICE CG150, atualização de 2025

Na prova

A distância aqui é de custo e de porta de entrada: o triptano é caro e de acesso irregular na rede básica brasileira, e o documento nacional é escrito para quem prescreve com o que a unidade tem. Cenário de UBS, primeira consulta, paciente sem tratamento prévio, tende a cobrar o escalonamento por intensidade; menção nominal à NICE, ambulatório de cefaleia ou alternativas que combinam duas drogas na mesma opção apontam para o corpo internacional. Repare que os dois documentos concordam no que proíbem: opioide fora, em qualquer cenário.

Quantas características a aura precisa preencher

Pelo menos duas de três características (edição anterior da classificação)

O material brasileiro reproduz a redação anterior: pelo menos duas crises, e pelo menos dois de três itens — sintomas visuais homônimos e/ou sensitivos unilaterais; instalação gradual em cinco minutos e/ou sintomas em sucessão; cada sintoma durando de 5 a 60 minutos.

TelessaúdeRS-UFRGS, Resumo Clínico – Cefaleia, 2016, que cita a Classificação Internacional de Cefaleias 3ª ed. de 2014

Pelo menos três de seis características (ICHD-3 definitiva)

Pelo menos duas crises e pelo menos três de seis: instalação gradual em cinco minutos ou mais; dois ou mais sintomas em sucessão; cada sintoma durando de 5 a 60 minutos; pelo menos um sintoma unilateral; pelo menos um sintoma positivo; aura acompanhada ou seguida de cefaleia em até 60 minutos.

ICHD-3, Cephalalgia 2018;38(1):1-211, item 1.2

Na prova

A causa está registrada na própria classificação: o teste de campo comparou a redação do corpo do texto da edição beta com a do apêndice e mostrou que a segunda distinguia melhor aura de ataque isquêmico transitório — por isso ela foi adotada na versão definitiva de 2018. Questão que pede contagem de itens está usando a ICHD-3 vigente; material de atenção primária impresso antes de 2018 ainda circula com a contagem antiga, o que explica gabaritos divergentes em simulados velhos. Quando o enunciado descreve o caso em vez de pedir o número, os dois textos levam ao mesmo diagnóstico.

O que a atenção primária faz diante de uma crise de cefaleia em salvas

Reconhecer, afastar causa secundária e encaminhar

A cefaleia trigêmino-autonômica deve ser avaliada em conjunto com o neurologista, e o protocolo de encaminhamento coloca entre os gatilhos de referência as cefaleias que não se caracterizam como migrânea ou tipo tensão.

TelessaúdeRS-UFRGS, Resumo Clínico – Cefaleia e Protocolo 1 – Cefaleia (Resolução CIB/RS nº 174/2015, revisto em 2016)

Abortar a crise com oxigênio e triptano não oral

Oxigênio e/ou triptano subcutâneo ou nasal (1.3.35); quando se usa oxigênio, 100% em fluxo de pelo menos 12 litros por minuto, com máscara não reinalante e bolsa reservatório, com provisão de oxigênio domiciliar e ambulatorial (1.3.36); verapamil como profilaxia durante o surto, com orientação especializada e monitorização eletrocardiográfica (1.3.39).

NICE CG150, atualização de 2025

Na prova

É divergência de exequibilidade, não de mérito: oxigênio domiciliar e ambulatorial e triptano injetável não são recursos de unidade básica, e o documento brasileiro escreve para esse cenário. Vinheta ambientada em UBS ou em consulta de rotina tende a cobrar o reconhecimento do quadro e o encaminhamento; vinheta de pronto-socorro, emergência ou ambulatório especializado, ou que já entrega o diagnóstico pronto, tende a cobrar o oxigênio a 100%. Um distrator com paracetamol, dipirona ou triptano oral na crise de salvas denuncia o recorte internacional, porque a recomendação 1.3.38 os proíbe nominalmente.

Dose-alvo do ácido valproico na profilaxia da migrânea

Dose-alvo de 1.500 mg/dia

A Tabela 2 traz ácido valproico com dose inicial de 250 mg e dose-alvo diária de 1.500 mg, em 2 a 3 tomadas.

TelessaúdeRS-UFRGS, Resumo Clínico – Cefaleia, 2016

Faixa de 250 a 1.000 mg/dia

A Tabela 2 do consenso fixa a faixa em 250 a 1.000 mg/dia para ácido valproico e para divalproato de sódio, coerente com os ensaios que o próprio texto revisa — os estudos principais usaram valproato 1.000 mg/dia e divalproato de 500 a 1.000 mg/dia.

Consenso SBCe para profilaxia da migrânea episódica, parte I, 2022

Na prova

Dois documentos brasileiros, seis anos de distância, e a diferença é rastreável: o teto do consenso de 2022 é o teto dos ensaios de migrânea que ele próprio revisa, enquanto o número mais alto do material de 2016 se aproxima da faixa antiepiléptica da droga. A tabela de profilaxia deste material traz 250 a 1.000 mg/dia porque é a faixa amarrada aos estudos da indicação. Questão que pede dose exata de valproato para migrânea é rara justamente por causa dessa distância; quando aparece, costuma nomear o documento no enunciado — e é o nome do documento que define a faixa cobrada.

06

Caso resolvido

Mulher de 29 anos procura a unidade básica por dor de cabeça. Conta que desde os 19 anos tem crises; nos últimos seis meses são cerca de seis por mês. A dor começa devagar, instala-se em uma das têmporas — quase sempre a esquerda —, é latejante, forte, dura de 8 a 24 horas quando não toma nada, e piora quando ela sobe a escada de casa. Durante a crise tem náusea, fecha a cortina e pede para desligarem a televisão. Duas ou três vezes por mês toma um comprimido combinado de dipirona com cafeína que compra na farmácia. Nunca teve alteração visual antes da dor. Entre as crises fica bem. Nega trauma, febre, perda de peso e uso de drogas. Exame: PA 116x74 mmHg, temperatura axilar 36,4 °C, artérias temporais sem dor à palpação, fundo de olho sem edema de papila, exame neurológico normal.
Filtro de gravidade
Nenhum item das duas listas do documento brasileiro está presente: não há início súbito, não há progressão em semanas, a dor não acorda a paciente, não é desencadeada por Valsalva, não houve mudança de padrão, a idade é menor que 50 anos, o exame neurológico e a fundoscopia são normais. Não há indicação de emergência nem de neuroimagem. Pedir tomografia aqui só produziria achado incidental.
Critério diagnóstico
Crises repetidas (bem mais de cinco), duração de 8 a 24 horas — dentro da janela de 4 a 72 horas —, três das quatro características (unilateral, pulsátil, forte, agravada por atividade física rotineira) e o critério D preenchido por náusea. É migrânea sem aura (ICHD-3, 1.1). A ausência de sintoma neurológico precedendo a dor descarta aura.
Contagem que decide o resto
Seis dias de dor por mês: episódica frequente, longe do corte de 15 dias/mês que definiria migrânea crônica. Uso de analgésico duas a três vezes por mês, muito abaixo dos limiares de uso excessivo — 10 dias/mês para analgésico combinado. Não há cefaleia por uso excessivo de medicação.
Tratamento da crise
Crise forte, que impede as atividades: pelo documento brasileiro, cabe anti-inflamatório em dose plena tomado logo no início da dor, com triptano oral como degrau seguinte se a resposta for insuficiente — sumatriptano 50 a 100 mg VO, repetível após 2 horas, máximo de 200 mg/dia, respeitando as contraindicações cardiovasculares. Opioide está fora.
Indicação de profilaxia
Seis crises por mês é mais de uma por semana, uma das indicações listadas. Entra profilático em monoterapia, com escolha guiada por comorbidade: propranolol 40 a 240 mg/dia, amitriptilina 10 a 150 mg/dia ou topiramato 50 a 200 mg/dia, todos nível A no consenso da SBCe de 2022.
Seguimento e alta programada
Diário de cefaleia, reavaliação em 30 dias: sem melhora substancial, troca-se a classe; com melhora parcial, mantém-se por cerca de 3 meses. Encaminhamento à neurologia só se falharem duas classes diferentes de profilático por pelo menos 3 meses. Orientação obrigatória: limitar analgésico, porque é o tratamento da crise que produz a cronificação.
07

Agora feche você

Homem de 36 anos, tabagista, chega ao pronto-socorro às 3h da manhã pela terceira noite seguida. Descreve dor atrás do olho direito, de início rápido, insuportável, que dura cerca de uma hora e some sozinha. Nas crises o olho direito lacrimeja, fica vermelho, a pálpebra cai e a narina do mesmo lado escorre. Ele não consegue ficar deitado: anda pela sala até passar. Já teve o mesmo quadro há dois anos, todas as noites por umas seis semanas, e depois ficou dois anos sem nada. Nesses dois anos não sentiu dor alguma. Nega náusea, vômito e fotofobia. Exame neurológico entre as crises normal, sem edema de papila, sem déficit focal, sem febre, sem rigidez de nuca.
Achado
Dor estritamente unilateral, periorbitária, forte, com duração de cerca de 60 minutos — dentro da faixa de 15 a 180 minutos —, em salvas noturnas diárias, com lacrimejamento, hiperemia conjuntival, ptose e rinorreia ipsilaterais, e agitação durante a crise. Surtos separados por remissão de dois anos, muito acima dos 3 meses exigidos.
Diagnóstico
Cefaleia em salvas episódica (ICHD-3, 3.1.1). A inquietude e a duração curta afastam migrânea; a ausência de náusea e a intensidade excruciante afastam cefaleia tipo tensão.
Conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir tomografia para tranquilizar quem já tem diagnóstico de cefaleia primária Atrai porque parece cuidado. Mas a indicação de imagem tem lista fechada — padrão novo, início após os 50 anos, progressão em semanas a meses, dor que acorda, dor por Valsalva/esforço/tosse/coito — e a NICE é expressa em não encaminhar para neuroimagem só para tranquilizar quem já tem diagnóstico de tipo tensão, migrânea, salvas ou uso excessivo de medicação. Sem sinal de alerta, o exame não muda conduta e produz achado incidental.
  2. 2Aceitar só fotofobia para fechar migrânea O critério D da migrânea sem aura tem dois itens, e o segundo é fotofobia e fonofobia — as duas, juntas, contam como um item só. Fotofobia isolada, sem fonofobia e sem náusea ou vômito, não fecha o critério. O erro é comum porque a fotofobia é o sintoma que o paciente relata espontaneamente.
  3. 3Repetir o triptano quando a primeira dose não fez nada Parece lógico subir a dose diante de dor mantida. A regra é o contrário: quem não sentiu nenhum alívio com a primeira dose não deve tomar a segunda na mesma crise. A segunda dose existe para recorrência da dor depois de resposta, não para falha primária. E entre triptano e ergotamina o intervalo mínimo é de 24 horas.
  4. 4Tratar a crise de salvas como se fosse crise de migrânea Analgésico oral, anti-inflamatório, ergot ou triptano em comprimido não têm papel na crise de salvas — a recomendação 1.3.38 da NICE os exclui nominalmente. Uma crise que dura de 15 a 180 minutos acaba antes de o comprimido agir; o que funciona é oxigênio a 100% com pelo menos 12 L/min em máscara não reinalante com reservatório, ou triptano por via subcutânea ou nasal.
  5. 5Aumentar o analgésico do paciente que diz que a medicação parou de funcionar É a descrição clássica da cefaleia por uso excessivo de medicação, e a conduta é retirar, não reforçar. Analgésico duas ou mais vezes por semana já obriga a levantar a hipótese; o critério formal exige 15 ou mais dias/mês para analgésico simples e 10 ou mais dias/mês para triptano, ergot, opioide e analgésico combinado, por mais de 3 meses. Trata-se com suspensão abrupta e profilático.
  6. 6Prescrever contraceptivo hormonal combinado para mulher com migrânea com aura A armadilha vem embutida em vinheta de planejamento reprodutivo, onde a cefaleia é detalhe da história. A NICE orienta não oferecer rotineiramente contraceptivo hormonal combinado a mulheres e adolescentes com migrânea com aura, sem qualificar por idade, e o documento brasileiro contraindica estrogênio pelo aumento do risco de AVC. A janela em que o material brasileiro admite combinado é outra: migrânea menstrual pura sem aura, em mulher com menos de 35 anos.
  7. 7Chamar de migrânea crônica todo mundo com 15 ou mais dias de dor por mês O corte de 15 dias/mês por mais de 3 meses vale para as duas formas crônicas. O que decide o nome é o conteúdo dos dias: precisa haver pelo menos 8 dias por mês com características de migrânea (ou aliviados por triptano ou ergot) em quem já teve pelo menos cinco crises. Sem isso, o rótulo é cefaleia tipo tensão crônica.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Cefaleia unilateral, pulsátil, moderada a forte, que piora com esforço, com náuseas, fotofobia e fonofobia, durando horas a um dia e incapacitante, preenche critérios de enxaqueca. A cefaleia tensional é bilateral, em aperto, sem náuseas/fotofobia marcantes e não pulsátil. A cefaleia em salvas é estritamente unilateral periorbitária, curta (15–180 min), com lacrimejamento/rinorreia e agitação. Hemorragia subaracnóidea dá cefaleia súbita e explosiva ('a pior da vida'), não recorrente/crônica. Arterite temporal ocorre em idosos, com claudicação de mandíbula e VHS elevada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as três listas numéricas: migrânea sem aura (5 crises, 4 a 72 h, 2 de 4 características, 1 de 2 sintomas associados); tipo tensão (30 min a 7 dias, 2 de 4, sem náusea e no máximo uma entre foto e fonofobia); salvas (5 crises, 15 a 180 min, de 1 a cada dois dias até 8 por dia, autonômicos ipsilaterais ou inquietude). Depois diga em voz alta os dois cortes que mudam tudo: 15 dias/mês separa episódico de crônico, e 8 dias/mês com cara de migrânea decide entre migrânea crônica e tipo tensão crônica.

em 30 dias

Refaça o caminho da conduta sem olhar: as duas listas de sinal de alerta (emergência e imagem); as seis indicações de profilaxia; os cinco fármacos de nível A da SBCe com as faixas de dose; a regra de reavaliar em 30 dias e manter 3 meses; o critério de encaminhamento por refratariedade (duas classes na migrânea, tricíclico na tipo tensão, mínimo 3 meses); e os limiares de uso excessivo, 10 dias/mês para triptano, ergot, opioide e combinado contra 15 dias/mês para analgésico simples. Fecha revisando por que a crise de salvas não se trata com comprimido.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 31 anos chega à unidade básica dizendo que a dor de cabeça piorou muito nos últimos quatro meses. Antes eram duas crises por mês; agora tem dor quase todo dia e toma analgésico combinado quase diariamente para conseguir trabalhar. Descreve as dores antigas como latejantes, de um lado só, com náusea e incômodo com luz; as de agora são mais fracas, difusas e constantes. Nega febre, trauma, perda de peso e alteração visual. Conduza a consulta: separe o que é primário do que é secundário, conte os dias de dor e os dias de analgésico, feche o diagnóstico e proponha o plano. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cefaleias primárias: migrânea, tensional e em salvas — Preparatório para provas | OsceLabs