Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

Doença de Parkinson e parkinsonismos

Doença de Parkinson e síndromes parkinsonianas

Critérios diagnósticos, sinais de alerta e tratamento vigente

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 72 anos apresenta, há 3 anos, tremor de repouso na mão direita que melhora com o movimento, associado a lentidão dos movimentos, rigidez muscular e diminuição do balanço do braço ao caminhar. Ao exame: rigidez em roda denteada, bradicinesia e marcha com passos curtos; PA 132x80 mmHg, FC 74 bpm. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do diagnóstico e do tratamento da doença de Parkinson no adulto e da separação entre ela e os outros parkinsonismos. A régua brasileira mudou de endereço em 1º de agosto de 2025: a Portaria Conjunta SAES/sectics nº 16 aprovou um novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas e revogou o de 2017. Quem estudou pela versão antiga vai errar em três pontos concretos — a rivastigmina passou a existir no SUS para a demência da doença de Parkinson, a selegilina saiu, e o protocolo agora reproduz na íntegra os critérios diagnósticos da Movement Disorder Society.

A prova cobra três decisões, nesta ordem. A primeira é se aquele parkinsonismo é doença de Parkinson: e isso, no protocolo brasileiro, é uma contagem explícita de critérios de suporte contra sinais de alerta, não uma impressão clínica. A segunda é com o que começar, e a variável que decide não é a gravidade — é a idade. A terceira é onde o paciente retira cada medicamento, porque a levodopa e os agonistas dopaminérgicos estão em componentes de financiamento diferentes, com fluxos administrativos diferentes.

Duas fronteiras ficam fora daqui. A demência com corpos de Lewy, a convenção de um ano que a separa da demência da doença de Parkinson e o diferencial entre as demências degenerativas são território do capítulo de demências. O parkinsonismo que nasce da cascata de prescrição — o antiemético que produz o tremor e o antiparkinsoniano que se acrescenta em cima — é território do capítulo de polifarmácia no idoso. Aqui o parkinsonismo medicamentoso entra por outra porta: a de critério de exclusão diagnóstica.

03

O que muda decisão

Parkinsonismo é a síndrome; doença de Parkinson é uma das causas

O protocolo define parkinsonismo de forma fechada: bradicinesia em combinação com tremor de repouso ou rigidez. A bradicinesia é obrigatória; os outros dois são alternativos. Isso tem uma consequência que a prova explora: instabilidade postural não entra na definição. Ela não é o quarto sinal cardinal do diagnóstico — e queda recorrente, mais de uma por ano, nos primeiros três anos de doença, é justamente um sinal de alerta contra o diagnóstico de doença de Parkinson.

O outro traço que a definição não diz mas o protocolo cobra por exclusão é a assimetria. Entre os sinais de alerta está, com todas as letras, o parkinsonismo simétrico bilateral. Quem começa dos dois lados ao mesmo tempo, com a mesma intensidade, está pontuando contra o diagnóstico. Na prática, a doença de Parkinson começa numa mão e leva anos para alcançar a outra, e o lado de início segue sendo o pior mesmo depois de anos de tratamento.

O peso epidemiológico brasileiro está em dois estudos de base populacional que o protocolo cita. Em Bambuí, em Minas Gerais, a prevalência estimada de doença de Parkinson entre maiores de 64 anos foi de 3,3%. Em Caeté, também em Minas, num estudo de indivíduos de 75 anos ou mais, a prevalência de parkinsonismo foi de 10.656 por 100.000 e a de doença de Parkinson, de 3.100 por 100.000 — ou seja, menos de um terço dos parkinsonismos do idoso brasileiro, 29%, é doença de Parkinson. Os outros dois terços são parkinsonismo medicamentoso, vascular, atípico ou associado a outra degeneração.

A incidência global em pessoas de 40 anos ou mais é de 37,55 por 100.000 pessoas-ano em mulheres e 61,21 em homens, e sobe de forma acentuada com a idade: entre os maiores de 80 anos chega a 103,48 nas mulheres e 258,47 nos homens. Ser homem é fator de risco, assim como exposição ocupacional a pesticidas e inseticidas, com razão de chances de 2,2 (IC 95% 1,1 a 4,3) para doença de Parkinson de início tardio.

Sobre a história natural, o protocolo dá dois números úteis: a taxa de morte dos neurônios dopaminérgicos da substância negra é de cerca de 10% ao ano, e o tempo médio entre o diagnóstico e a morte é estimado em quinze anos. Ele também separa a doença em três subtipos por comportamento evolutivo: predominância motora leve, com boa resposta dopaminérgica e progressão lenta, em 49% a 53% dos pacientes; subtipo intermediário em 35% a 39%; e subtipo maligno difuso, com sintomas motores e não motores precoces, má resposta ao tratamento e progressão rápida, em 9% a 16%.

Os sintomas não motores não são um apêndice: hiposmia, constipação, transtorno comportamental do sono REM, disautonomia leve, depressão e ansiedade costumam preceder o quadro motor em anos. E a ausência deles pesa contra o diagnóstico — a ausência de qualquer característica não motora comum apesar de cinco anos de doença é, ela própria, um sinal de alerta.

As duas mãos de um paciente idoso pousadas sobre as coxas: a direita em postura de tremor de repouso, com polegar e indicador em pinça, e a esquerda relaxada e aberta.
A assimetria é diagnóstica. O parkinsonismo simétrico bilateral é um sinal de alerta contra a doença de Parkinson no protocolo brasileiro.

O diagnóstico do protocolo: contar critérios, não impressões

Não existe exame ou teste que feche o diagnóstico — o protocolo é explícito nisso, e o diagnóstico permanece clínico. O que o protocolo brasileiro faz é adotar integralmente os critérios da Movement Disorder Society de 2015 e transformá-los numa contagem com regra fixa.

O ponto de partida é sempre o mesmo: sem parkinsonismo, não se prossegue. Havendo parkinsonismo, checam-se três grupos. Os critérios de exclusão, se presentes, encerram o assunto — não há contrapeso possível. Os critérios de suporte somam a favor. Os sinais de alerta somam contra, e podem ser neutralizados por critérios de suporte numa proporção de um para um.

Os critérios de suporte são quatro e todos são achados que a consulta produz: resposta dramática à terapia dopaminérgica; presença de discinesias induzidas pela levodopa; tremor de repouso em membros; perda olfatória documentada ou denervação simpática cardíaca à cintilografia. Repare que dois deles só aparecem depois de tratar — o que significa que a certeza diagnóstica na doença de Parkinson cresce com o tempo de seguimento, não com o pedido de exame.

A regra de contagem é o que a prova cobra. Diagnóstico estabelecido exige ausência de critérios de exclusão, presença de pelo menos dois critérios de suporte e ausência de qualquer sinal de alerta. Diagnóstico provável exige ausência de critérios de exclusão e permite sinais de alerta desde que contrabalançados: um sinal de alerta pede pelo menos um critério de suporte; dois sinais de alerta pedem dois critérios de suporte. Mais de dois sinais de alerta não são admitidos nessa categoria — com três, o paciente não é classificado como doença de Parkinson provável, e a investigação passa a ser de outro diagnóstico.

Duas consequências práticas. Primeira: um paciente com bradicinesia, rigidez e tremor de repouso, sem nada de alarmante, ainda não é doença de Parkinson estabelecida se só tiver o tremor como critério de suporte — falta o segundo. Segunda: o diagnóstico pode subir de categoria na consulta seguinte, quando a resposta à levodopa aparecer e virar o segundo critério de suporte.

Quando o sinal de alerta muda o diagnóstico

Os sinais de alerta não são um aviso genérico de gravidade: cada um aponta para uma doença concreta, e é por isso que valem a memorização. Progressão rápida da marcha, com cadeira de rodas nos primeiros cinco anos, e quedas recorrentes nos primeiros três anos apontam para paralisia supranuclear progressiva. Disfunção bulbar precoce — disfonia grave, disartria ininteligível ou disfagia que exige alimentação por sonda nos primeiros cinco anos — e estridor inspiratório diurno ou noturno apontam para atrofia de múltiplos sistemas, assim como a insuficiência autonômica grave nos primeiros cinco anos.

A definição de hipotensão ortostática que o protocolo usa é numérica e vale decorar: queda de pelo menos 30 mmHg na sistólica ou 15 mmHg na diastólica dentro de três minutos em pé, na ausência de desidratação, medicamento ou outra doença que explique. Repare que é mais exigente que o corte de 20 mmHg da definição geral de hipotensão ortostática — aqui o que se quer marcar é insuficiência autonômica grave, não postural leve.

Sintomas parkinsonianos restritos aos membros inferiores por mais de três anos é critério de exclusão, e o quadro que ele descreve é o parkinsonismo vascular, com marcha comprometida e membros superiores preservados. Perda sensorial cortical, apraxia ideomotora de membro ou afasia, também critérios de exclusão, descrevem a degeneração corticobasal. Paralisia supranuclear do olhar vertical para baixo, ou lentificação das sácades verticais para baixo, é critério de exclusão e é o achado que sela paralisia supranuclear progressiva.

Dois critérios de exclusão merecem atenção porque são administráveis pelo próprio médico. O primeiro é tratamento com bloqueadores dopaminérgicos ou depletores de dopamina em doses e por tempo suficientes para causar parkinsonismo induzido por medicamento — o que significa que a lista de medicamentos em uso é parte do exame diagnóstico, e não um detalhe. O segundo é a ausência de resposta observável a altas doses de levodopa em paciente com sintomas parkinsonianos pelo menos moderados: só vale como critério se a dose testada tiver sido alta de verdade.

O restante dos critérios de exclusão fecha o cerco: anormalidade cerebelar inequívoca; demência frontotemporal variante comportamental ou afasia primária progressiva nos primeiros cinco anos da síndrome; neuroimagem funcional normal do sistema dopaminérgico pré-sináptico; e documentação de uma condição alternativa conhecida por produzir parkinsonismo e plausivelmente ligada aos sintomas.

Quando a demência entra em cena antes do parkinsonismo ou junto com ele, a discussão deixa de ser esta e passa a ser a do diferencial entre as demências degenerativas, com sua própria convenção temporal — assunto do capítulo de demências e comprometimento cognitivo.

Com o que começar: a idade decide

O protocolo resolve o velho debate sobre o momento de iniciar de forma prática: o tratamento sintomático deve começar assim que o diagnóstico é confirmado, e é obrigatório quando já há incapacidade funcional. Não se espera piorar para tratar.

Para a monoterapia inicial, o protocolo nomeia levodopa associada a carbidopa ou a benserazida, o agonista dopaminérgico pramipexol e o inibidor da MAO-B rasagilina. A regra de escolha é etária e está escrita: em pacientes com mais de 70 anos, com múltiplas comorbidades ou com déficit cognitivo, levodopa/carbidopa ou levodopa/benserazida são as opções de escolha. Nos mais jovens, recomenda-se começar por agonista dopaminérgico, porque o risco de complicações motoras com levodopa é maior nessa faixa — mas se os sintomas não forem controlados com dose adequada de agonista, a levodopa deve ser acrescentada logo.

A razão de a idade decidir é aritmética. As complicações motoras atingem cerca de 80% dos pacientes jovens e 44% dos mais velhos após cinco anos de tratamento. Adiar a levodopa compra tempo para quem tem trinta anos de doença pela frente; para quem tem oitenta anos e déficit cognitivo, o agonista traz alucinação, sonolência e transtorno do controle de impulsos sem ganho proporcional. E há um limite conhecido para o adiamento: mesmo começando por agonista, a maioria dos pacientes precisa de levodopa depois de dois anos de sintomas.

As doses do protocolo. Levodopa + benserazida começa em 200/50 mg por dia, dividida em pelo menos duas administrações, e a dose média eficaz para a maioria dos pacientes é de 600 a 750 mg por dia de levodopa — ou seja, três comprimidos de 200/50 mg para chegar aos 600 mg. Levodopa + carbidopa começa em 250/25 mg por dia, também em pelo menos duas tomadas. O teto de levodopa é de 2.000 mg por dia nas duas associações. Pramipexol começa em 0,375 mg/dia divididos em três tomadas, com aumentos a cada 5 a 7 dias em incrementos de 0,75 mg até o máximo de 4,5 mg/dia. Rasagilina é 1 mg por dia, dose única, sem titulação.

O horário da levodopa é conteúdo de prova. O protocolo recomenda administrá-la pelo menos uma hora antes ou depois das refeições, ou reduzir a ingestão proteica, porque a proteína da dieta compete com o transporte da levodopa e atrasa o início do efeito. O intervalo habitual entre as doses é de três a cinco horas.

Os anticolinérgicos — triexifenidil e biperideno — e a amantadina existem no protocolo, mas o texto é claro em rebaixá-los: por prejuízo cognitivo, alucinações, boca seca, visão turva e retenção urinária, o triexifenidil deixou de ser alternativa de primeira escolha, e os estudos da amantadina em fase inicial são pouco conclusivos. O consenso da Academia Brasileira de Neurologia é da mesma direção e acrescenta a régua de partida: começar a levodopa com as menores doses possíveis, com nível A de evidência.

As complicações motoras e o que existe para cada uma

Com o tempo, a resposta à levodopa deixa de ser plana. O protocolo nomeia as duas formas mais frequentes de flutuação: o encurtamento da duração do efeito, chamado de wearing off, em que o paciente sente a dose acabar antes da próxima; e a interrupção súbita da ação, o fenômeno on-off, em que a resposta desaparece sem aviso e sem relação clara com o horário. A discinesia de pico de dose é a terceira complicação, e vem do excesso momentâneo, não da falta.

Para flutuações motoras, em associação com a levodopa, os três medicamentos mais eficazes segundo o protocolo são pramipexol, rasagilina e entacapona. Para discinesias, a amantadina. O consenso da Academia Brasileira de Neurologia dá nível A para agonistas dopaminérgicos, inibidores da COMT e inibidores da MAO-B na redução do tempo off, e nível B para a amantadina na discinesia — probavelmente eficaz, não comprovadamente.

A entacapona tem uma posologia própria que a prova gosta: um comprimido de 200 mg com cada dose de levodopa, e não em horários fixos independentes. O teto é de 200 mg dez vezes ao dia, isto é, 2 g. Ela costuma exigir redução concomitante da levodopa, porque prolonga a exposição e pode precipitar discinesia e alucinação. Colore a urina de alaranjado, causa diarreia em cerca de 5% dos casos — frequentemente não responsiva a antidiarreicos — e pede monitorização da função hepática a cada duas semanas nos primeiros seis meses.

O agonista dopaminérgico tem um efeito adverso que precisa ser perguntado ativamente porque o paciente não conta: mais de 40% dos pacientes em uso de agonistas, especialmente pramipexol, apresentam transtornos do controle de impulsos — jogo patológico, comportamento sexual e alimentar anormal, compulsão para compras e hobbismo. Junto com alucinações e alterações cognitivas, são a principal causa de interrupção da classe.

Quando o tratamento medicamentoso otimizado não controla, entra a cirurgia: estimulador cerebral profundo no núcleo subtalâmico ou no globo pálido interno, com o objetivo de reduzir a intensidade dos períodos off, aumentar o tempo on e reduzir as discinesias. Para tremor refratário, o alvo é o núcleo ventral intermédio do tálamo. Os critérios de elegibilidade são fechados: diagnóstico estabelecido, complicações motoras incapacitantes não controladas, sintomas responsivos à levodopa, e cinco anos de evolução — este último justamente para reduzir a chance de se estar operando um parkinsonismo atípico, em que a cirurgia não está indicada. A exceção aos dois últimos critérios é o tremor incapacitante não responsivo ao tratamento medicamentoso.

Os critérios de exclusão cirúrgica também caem: parkinsonismo-plus, atrofia cerebral significativa ou microangiopatia importante na imagem, déficit cognitivo relevante, demência, depressão maior, doença psiquiátrica grave não controlada e sintomas psicóticos. E há um alerta que o protocolo faz questão de registrar: usar entacapona com o intuito de induzir discinesia e assim qualificar o paciente para a cirurgia não é indicado nem recomendado. Sintomas axiais que não respondem à levodopa — marcha, instabilidade postural, freezing do período on, distúrbios da fala — também não responderão à cirurgia.

Psicose e demência: as duas condições especiais do protocolo

A psicose da doença de Parkinson fica mais frequente conforme a doença avança e é causa relevante de institucionalização e de internação. O primeiro passo do protocolo não é prescrever: é retirar. Anticolinérgicos, amantadina, inibidores da MAO-B, agonistas dopaminérgicos e inibidores da COMT devem ser reduzidos ou interrompidos antes de se pensar em antipsicótico.

Se os sintomas persistirem ou forem graves, a regra brasileira é restritiva. Antipsicóticos de primeira geração com alta afinidade por D2 — haloperidol, clorpromazina, levomepromazina — são contraindicados, porque exacerbam o parkinsonismo de forma intensa. E o protocolo vai além do óbvio: risperidona, olanzapina, ziprasidona e aripiprazol, apesar de segunda geração, também pioram o parkinsonismo e oferecem risco ao paciente com doença de Parkinson. A quetiapina, nos estudos controlados citados, não se mostrou superior ao placebo no controle dos sintomas psicóticos nesta doença. Sobra a clozapina, que é o tratamento de escolha para a psicose da doença de Parkinson no protocolo brasileiro, com eventos adversos motores semelhantes aos do placebo.

O preço da clozapina é hematológico e organiza a prescrição. A dose inicial é de 12,5 mg/dia, com no máximo dois aumentos de 12,5 mg por semana, sem ultrapassar 50 mg/dia; a dose média efetiva fica entre 25 e 37,5 mg/dia e a máxima absoluta é de 100 mg/dia. A incidência anual de agranulocitose é de 1,3%, e o controle é hemograma semanal nas primeiras 18 semanas e mensal depois. Suspende-se com leucócitos abaixo de 3.000/mm³ ou neutrófilos abaixo de 1.500/mm³ nas primeiras 18 semanas, e abaixo de 2.500/mm³ ou 1.000/mm³ respectivamente depois desse período.

A demência associada à doença de Parkinson afeta cerca de 30% dos pacientes, cerca de seis vezes mais que a população geral. O diagnóstico, no protocolo, tem sete requisitos cumulativos: diagnóstico de doença de Parkinson pelos critérios da MDS; início da doença de Parkinson pelo menos um ano antes dos sintomas de demência; escore anormal no miniexame do estado mental pelas notas de corte brasileiras por escolaridade; comprometimento das atividades de vida diária pela perda cognitiva; e ausência de depressão maior, de delírio e de outras condições clínicas que justifiquem a perda cognitiva.

Para essa condição existe uma novidade recente: a rivastigmina foi incorporada ao SUS em 21 de junho de 2024 e é o único inibidor da colinesterase aprovado para demência leve a moderada na doença de Parkinson. A base é um único ensaio clínico randomizado. Nele, o miniexame do estado mental melhorou 0,8 ponto com rivastigmina e piorou 0,2 ponto com placebo — diferença média de 1,0 ponto numa escala de 30, com p = 0,03 —, e a ADAS-Cog mostrou diferença média de 2,90 pontos a favor da rivastigmina, com p < 0,001. A Conitec classificou a certeza da evidência como baixa para os desfechos de eficácia e moderada para os de segurança.

A segurança pesa na conversa com a família. Eventos adversos ocorreram em 83,7% dos tratados contra 70,9% do placebo, e a descontinuação por eventos adversos foi de 17,1% contra 7,8% — uma diferença de 9,3 pontos percentuais, o que significa que a cada onze pacientes tratados um abandona o tratamento por efeito adverso além do que já abandonaria com placebo. Náusea e vômito são os mais comuns, e o protocolo manda interromper temporariamente a rivastigmina se houver reação gastrintestinal ou piora dos sintomas extrapiramidais, o tremor incluído. Antes de iniciar, é obrigatório excluir doença sistêmica, depressão e efeito adverso de medicamento — em especial dos anticolinérgicos, dos antidepressivos tricíclicos e dos benzodiazepínicos, que devem ser interrompidos.

Onde o paciente retira cada medicamento

O tratamento da doença de Parkinson no SUS está partido entre dois componentes da Assistência Farmacêutica, e isso muda o fluxo do paciente. Pela Rename 2024, levodopa + benserazida e levodopa + carbidopa estão no Componente Básico — a farmácia da unidade básica, com receita comum. O cloridrato de biperideno, 2 mg e 4 mg de liberação prolongada, também é do Básico.

Todo o resto é Componente Especializado: pramipexol, rasagilina, entacapona, amantadina, triexifenidil, clozapina e rivastigmina. O Especializado exige processo administrativo — laudo para solicitação de medicamento, renovação periódica, autorização de procedimento ambulatorial com o CID G20 — e é dispensado em farmácia de componente especializado, não na unidade básica. A assimetria mais fácil de errar está dentro da mesma classe: biperideno é Básico e triexifenidil é Especializado, embora ambos sejam anticolinérgicos antiparkinsonianos.

O tamanho real desse fluxo aparece nos dados do próprio Ministério: em 2023 havia 59.248 usuários retirando medicamentos do Componente Especializado com o código G20, com mediana de idade de 69 anos e intervalo interquartil de 61 a 76 anos — praticamente estável desde 2015, quando eram 54.108. Somando os usuários por fármaco naquele ano chega-se a 87.079 registros, o que dá em média 1,47 medicamento do Componente Especializado por usuário: a polimedicação é a norma, não a exceção.

A distribuição por fármaco em 2023 diz quem é quem na prática brasileira: pramipexol com 41.949 usuários, amantadina com 20.443, rasagilina com 10.673, entacapona com 10.637, selegilina com 2.685, clozapina com 595 e triexifenidila com apenas 97. A bromocriptina, que ainda aparecia com 115 usuários em 2015, chegou a zero em 2022. A clozapina saiu de zero em 2017 para 595 usuários em 2023, acompanhando a consolidação dela como única opção para a psicose.

Sobre acesso, o consenso da Academia Brasileira de Neurologia registra o que não existe na rede pública brasileira e existe nas diretrizes internacionais: pramipexol de liberação prolongada, safinamida e rotigotina transdérmica. A causa é de disponibilidade e de incorporação, não de evidência — são opções com estudos favoráveis que não passaram pelo processo brasileiro de incorporação.

04

A contagem que fecha o diagnóstico

O protocolo brasileiro de 2025 não pede impressão clínica: pede uma contagem. Bradicinesia é o portão; critérios de exclusão encerram; critérios de suporte somam a favor; sinais de alerta somam contra e são neutralizáveis um a um. Os quatro cenários abaixo cobrem tudo o que a regra permite.

  1. 1Confirme parkinsonismo: bradicinesia obrigatória, mais tremor de repouso ou rigidez. Sem bradicinesia, o algoritmo não começa.
  2. 2Procure critérios de exclusão. Qualquer um presente encerra o diagnóstico de doença de Parkinson — não há contrapeso.
  3. 3Conte os critérios de suporte presentes (são quatro possíveis).
  4. 4Conte os sinais de alerta presentes (são dez possíveis).
  5. 5Aplique a regra: nenhum alerta e dois ou mais suportes é doença de Parkinson estabelecida; um alerta com um suporte, ou dois alertas com dois suportes, é doença de Parkinson provável; três ou mais alertas não são admitidos na categoria.

Nenhum sinal de alerta e dois critérios de suporte: doença de Parkinson estabelecida

O grau máximo de certeza que o protocolo permite. Exige também ausência de qualquer critério de exclusão. Como dois dos quatro critérios de suporte só aparecem depois de tratar — a resposta dramática à terapia dopaminérgica e a discinesia induzida pela levodopa —, muitos pacientes só alcançam esta categoria no seguimento.

Um sinal de alerta contrabalançado por um critério de suporte: doença de Parkinson provável

A regra é de um para um. Um único sinal de alerta não derruba o diagnóstico, desde que haja pelo menos um critério de suporte para compensá-lo. Continua valendo a exigência de ausência total de critérios de exclusão.

Dois sinais de alerta exigem dois critérios de suporte: ainda doença de Parkinson provável

O teto da categoria. Dois sinais de alerta são admitidos, mas o preço sobe na mesma proporção: precisam de dois critérios de suporte. Um paciente com dois alertas e apenas um suporte não fecha doença de Parkinson provável.

Três ou mais sinais de alerta: a categoria não admite

Não existe compensação a partir do terceiro sinal de alerta, por mais critérios de suporte que existam. O paciente sai do diagnóstico de doença de Parkinson e a investigação vira a de um parkinsonismo atípico, vascular ou secundário.

GrupoItensEfeito na conclusão
Definição de parkinsonismoBradicinesia obrigatória, associada a tremor de repouso ou a rigidezSem ela não se aplica nenhum dos outros grupos
Critérios de suporte (4)Resposta dramática à terapia dopaminérgica; discinesia induzida por levodopa; tremor de repouso em membros; perda olfatória ou denervação simpática cardíaca à cintilografiaSomam a favor; dois são exigidos para o diagnóstico estabelecido
Critérios de exclusão (9)Anormalidade cerebelar inequívoca; paralisia supranuclear do olhar vertical para baixo; demência frontotemporal comportamental ou afasia primária progressiva nos primeiros 5 anos; sintomas restritos aos membros inferiores por mais de 3 anos; uso de bloqueador ou depletor dopaminérgico em dose e tempo suficientes; ausência de resposta a altas doses de levodopa; perda sensorial cortical, apraxia ideomotora ou afasia; neuroimagem funcional pré-sináptica normal; condição alternativa documentadaQualquer um encerra o diagnóstico; não há contrapeso
Sinais de alerta (10)Cadeira de rodas em até 5 anos; ausência total de progressão em 5 anos ou mais; disfunção bulbar precoce; estridor inspiratório; insuficiência autonômica grave nos primeiros 5 anos; quedas recorrentes nos primeiros 3 anos; anterocolo distônico ou contraturas nos primeiros 10 anos; ausência de qualquer sintoma não motor apesar de 5 anos de doença; sinais piramidais inexplicáveis; parkinsonismo simétrico bilateralSomam contra; neutralizáveis um a um por critérios de suporte, no máximo dois

Cada sinal desfavorável e o diagnóstico que ele sugere

AchadoCategoria no protocoloPara onde aponta
Quedas recorrentes nos primeiros 3 anos; cadeira de rodas em até 5 anosSinal de alertaParalisia supranuclear progressiva
Paralisia supranuclear do olhar vertical para baixo ou sácades verticais lentificadasCritério de exclusãoParalisia supranuclear progressiva
Insuficiência autonômica grave nos primeiros 5 anos; estridor inspiratório; disfunção bulbar precoceSinal de alertaAtrofia de múltiplos sistemas
Perda sensorial cortical, apraxia ideomotora de membro ou afasiaCritério de exclusãoDegeneração corticobasal
Sintomas parkinsonianos restritos aos membros inferiores por mais de 3 anosCritério de exclusãoParkinsonismo vascular
Uso de bloqueador ou depletor dopaminérgico em dose e tempo suficientes; parkinsonismo simétrico bilateralExclusão e sinal de alerta, respectivamenteParkinsonismo induzido por medicamento
Anormalidade cerebelar inequívocaCritério de exclusãoAtaxias e formas cerebelares de atrofia de múltiplos sistemas

Onde o paciente retira cada medicamento (Rename 2024)

MedicamentoCódigo ATCComponente de financiamentoConsequência prática
Levodopa + benserazida e levodopa + carbidopaN04BA02BásicoFarmácia da unidade básica, receita comum
Cloridrato de biperideno 2 mg e 4 mg de liberação prolongadaN04AA02BásicoFarmácia da unidade básica
Cloridrato de triexifenidil 5 mgN04AA01EspecializadoMesma classe do biperideno, fluxo administrativo diferente
Dicloridrato de pramipexol 0,125, 0,25 e 1 mgN04BC05EspecializadoLaudo e autorização, com CID G20
Mesilato de rasagilina 1 mgN04BD02EspecializadoLaudo e autorização, com CID G20
Entacapona 200 mgN04BX02EspecializadoLaudo e autorização, com CID G20
Cloridrato de amantadina 100 mgN04BB01EspecializadoLaudo e autorização, com CID G20
Clozapina 25 e 100 mgN05AH02EspecializadoExige hemograma seriado para dispensação continuada
Rivastigmina cápsulas, solução oral e adesivoN06DA03EspecializadoIncorporada em 21 de junho de 2024 para demência na doença de Parkinson

As apresentações de levodopa + benserazida e o tempo de cada uma

ApresentaçãoInício de açãoDuraçãoQuando é útil
Comprimido padrão (100/25 e 200/50 mg)20 a 40 minutos2 a 4 horasUso de rotina
Cápsula30 a 60 minutos3 a 6 horasIntervalos mais longos entre as tomadas
Dispersível para diluição em água10 a 20 minutos0,5 a 1 horaDisfagia ou sonda de alimentação enteral; o início é o mais rápido e a duração, a mais curta

O protocolo de 2025 anuncia cinco medicamentos para a monoterapia inicial e em seguida nomeia quatro: levodopa + carbidopa, levodopa + benserazida, pramipexol e rasagilina. O quinto era a selegilina, que o parágrafo seguinte já declara descontinuada no Brasil — o número ficou da versão anterior do texto.

A amantadina aparece com dois tetos diferentes no mesmo protocolo: a seção sobre discinesias fala em 300 mg de uma a três vezes ao dia, enquanto o quadro de posologia estabelece 100 mg de 12 em 12 horas com máximo de 400 mg por dia em doses divididas. Enquanto a divergência não se resolve, o teto do quadro de posologia é o único número que fecha com as apresentações disponíveis, que são comprimidos de 100 mg.

A frequência de demência aparece em três valores nos documentos oficiais: 25% a 40% na introdução do protocolo, 25% a 30% na seção específica sobre demência do mesmo protocolo, e cerca de 30% no relatório da Conitec que embasou a incorporação da rivastigmina — este último foi o valor usado para calcular o impacto orçamentário.

A definição de hipotensão ortostática usada como sinal de alerta (queda de 30 mmHg na sistólica ou 15 mmHg na diastólica em até 3 minutos em pé) é mais exigente que o corte de 20 mmHg da definição geral de hipotensão postural. Os números têm sentidos diferentes: aqui se está caracterizando insuficiência autonômica grave, não hipotensão postural.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantos sinais definem a doença de Parkinson

Definição operacional da MDS, reproduzida pelo protocolo brasileiro de 2025

Parkinsonismo é bradicinesia obrigatória associada a tremor de repouso ou a rigidez — três elementos, dois deles alternativos. Instabilidade postural não entra na definição, e queda recorrente nos primeiros três anos é sinal de alerta contra o diagnóstico.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de agosto de 2025, Quadro 1 (que cita Postuma et al., Mov Disord 2015).

Tétrade clássica dos manuais, ainda usada em documentos oficiais brasileiros

Os sintomas clássicos da doença são bradicinesia, rigidez, tremor de repouso e instabilidade postural — quatro sinais cardinais, todos somados. É a formulação que aparece na descrição da condição clínica do relatório da Conitec de 2024 sobre a rivastigmina.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 902, junho de 2024, seção de introdução.

Na prova

A causa é de construto e de data: a tétrade é descritiva do quadro avançado e vem dos manuais, enquanto a definição da MDS é operacional e serve para decidir se um paciente entra ou não no diagnóstico. Enunciado que pede os sinais cardinais da doença costuma trabalhar com a tétrade; enunciado que cita critérios diagnósticos, protocolo do Ministério da Saúde ou a Movement Disorder Society trabalha com a definição operacional. As alternativas denunciam o recorte: se uma delas descreve queda precoce ou instabilidade postural como argumento a favor do diagnóstico, o enunciado está no mundo dos manuais; se aparece a expressão sinal de alerta, ou red flag, está no mundo dos critérios.

Rasagilina em monoterapia inicial

Endereço da incorporação de 2017: adjuvante à levodopa, com complicações motoras

A decisão de incorporar o mesilato de rasagilina ao SUS foi expressamente para uso em combinação com levodopa no tratamento de pacientes com doença de Parkinson com complicações motoras. Esse foi o escopo avaliado e o escopo autorizado.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 280 (2017), Registro de Deliberação nº 262/2017; Portaria SCTIE/MS nº 27, de 2 de agosto de 2017, DOU nº 148 de 3 de agosto de 2017, seção 1, p. 114.

Protocolo de 2025: monoterapia na fase inicial e uso na fase avançada

O protocolo vigente lista a rasagilina entre os medicamentos que podem ser usados em monoterapia no tratamento inicial da doença, e o quadro de esquemas de administração a marca tanto para a fase inicial quanto para a avançada, na dose de 1 mg ao dia.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de agosto de 2025, seções 6.2.2 e 6.6 (Quadro 5).

Na prova

A causa é de endereço de incorporação: a portaria de 2017 fixou uma indicação estreita e o protocolo de 2025 ampliou o uso sem uma nova portaria de incorporação para monoterapia. Enunciado que menciona a portaria de incorporação, o relatório da Conitec ou a expressão terapia adjuvante trabalha com o escopo de 2017; enunciado que cita o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas vigente trabalha com o escopo ampliado. Um distrator que ofereça rasagilina isolada em paciente sem complicações motoras só faz sentido no mundo do protocolo de 2025.

Selegilina: na lista de medicamentos essenciais, fora do SUS

Rename 2024: selegilina 5 mg consta como medicamento essencial

O cloridrato de selegilina 5 mg comprimido está relacionado na Rename 2024, no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, com código ATC N04BD01.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024.

Conitec 2025: excluída do SUS por ausência de registro sanitário ativo

A selegilina foi excluída do tratamento da doença de Parkinson no SUS. A justificativa principal é a ausência de registro sanitário ativo na Anvisa — a petição de cancelamento foi protocolada em 12 de dezembro de 2022 e, em consulta de maio de 2025, todos os registros estavam inativos. Somam-se a queda de usuários entre 2015 e 2023 e a existência da rasagilina como equivalente terapêutico já incorporado. O protocolo vigente orienta que quem estava em selegilina com resposta adequada passe a usar rasagilina, sem necessidade de redução gradual de dose.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 1041, setembro de 2025; Portaria SECTICS/MS nº 76, de 30 de setembro de 2025; PCDT 2025, seção 6.8.

Na prova

A causa é de data e de disponibilidade: a Rename vigente é a de 2024 e a exclusão veio em setembro de 2025, de modo que os dois documentos coexistem com informações opostas. Enunciado que se apoia na Rename ou em lista de medicamentos essenciais reflete a situação de 2024; enunciado que fala em condutas atuais, em substituição terapêutica ou em medicamento indisponível reflete a decisão de 2025. Alternativa que ofereça troca de selegilina por rasagilina denuncia o recorte mais recente.

06

Caso resolvido

Homem de 74 anos chega à unidade básica trazido pela filha, que percebeu há cerca de dois anos que ele ficou mais lento e que o braço direito não balança mais quando ele caminha. Ele conta que a mão direita treme quando está parada, assistindo televisão, e que o tremor some quando pega o copo. Está mais calado, com a voz mais baixa e o rosto menos expressivo. Refere constipação desde antes disso e diz que perdeu o olfato há uns quatro anos. A esposa relata que ele grita e se debate dormindo, como se encenasse sonhos, há mais de cinco anos. Nunca usou antipsicótico, metoclopramida ou flunarizina. Ao exame: bradicinesia clara no movimento repetitivo dos dedos à direita, rigidez em roda denteada no punho direito, tremor de repouso no membro superior direito, marcha com passos curtos e sem balanço do braço direito. Não caiu nenhuma vez. Sem alteração do olhar vertical, sem sinais cerebelares ou piramidais, sem incontinência ou hipotensão postural. Cognição preservada, mora sozinho e administra as próprias contas.
achado
Bradicinesia associada a tremor de repouso e a rigidez, tudo à direita: parkinsonismo confirmado, e assimétrico.
critérios de exclusão
Nenhum. Não há anormalidade cerebelar, paralisia supranuclear do olhar, perda sensorial cortical, sintomas restritos aos membros inferiores nem uso de bloqueador dopaminérgico.
critérios de suporte
Dois estão presentes já na primeira consulta: tremor de repouso em membro e perda olfatória. Os outros dois — resposta dramática à terapia dopaminérgica e discinesia induzida por levodopa — dependem de tratar para aparecer.
sinais de alerta
Nenhum. Não houve queda, não há disfunção bulbar, estridor, disautonomia grave, sinais piramidais nem simetria. E os sintomas não motores estão presentes de sobra: hiposmia, constipação e transtorno comportamental do sono REM, que precedem o quadro motor em anos.
conclusão diagnóstica
Doença de Parkinson estabelecida: ausência de critérios de exclusão, dois critérios de suporte e nenhum sinal de alerta.
conduta
Iniciar tratamento sintomático agora, sem esperar piorar. Com 74 anos, levodopa/benserazida ou levodopa/carbidopa são as opções de escolha do protocolo — em pacientes acima de 70 anos, com múltiplas comorbidades ou com déficit cognitivo, a levodopa vem antes do agonista dopaminérgico. Começar com 200/50 mg por dia divididos em pelo menos duas tomadas, pelo menos uma hora antes ou depois das refeições, com aumento progressivo conforme a resposta em direção à faixa média eficaz de 600 a 750 mg de levodopa por dia. Retira na farmácia da própria unidade básica: levodopa é Componente Básico.
seguimento
Reavaliar em algumas semanas. Uma resposta dramática ao tratamento acrescenta um terceiro critério de suporte e consolida o diagnóstico. A ausência de resposta a doses altas de levodopa, ao contrário, é critério de exclusão — e obrigaria a reabrir o diagnóstico.
07

Agora feche você

Mulher de 66 anos, encaminhada da unidade básica com hipótese de doença de Parkinson feita há dezoito meses. Os sintomas começaram há dois anos e meio, de forma parecida nos dois lados: lentidão, rigidez e voz arrastada, sem tremor. Nos últimos doze meses caiu seis vezes, sempre para trás, sem tontura prévia. O marido relata que ela ronca com um som agudo, estridente, que aparece também durante o dia quando ela respira fundo. Ela desmaiou duas vezes ao se levantar, e a aferição mostra pressão de 132 x 84 mmHg deitada e 96 x 66 mmHg após dois minutos em pé, sem desidratação e sem anti-hipertensivo em uso. Refere urgência e perda urinária há um ano, que não é de esforço. Está em levodopa/benserazida 200/50 mg três vezes ao dia há oito meses, com dose já otimizada, e nem ela nem o marido percebem diferença entre estar e não estar medicada. Ao exame: bradicinesia e rigidez simétricas, sem tremor de repouso, movimentação ocular vertical normal, sem sinais piramidais ou cerebelares. Nunca usou bloqueador dopaminérgico. Olfato preservado.
achado
Parkinsonismo simétrico, sem tremor de repouso, com quedas recorrentes desde o segundo ano, estridor inspiratório diurno e noturno, hipotensão ortostática de 36 mmHg de sistólica em dois minutos e incontinência urinária de urgência — tudo dentro dos primeiros cinco anos de doença.
contagem
Critérios de suporte: nenhum. Não há tremor de repouso, não há hiposmia, não houve resposta à terapia dopaminérgica e não há discinesia induzida por levodopa. Sinais de alerta: quedas recorrentes nos primeiros três anos, insuficiência autonômica grave nos primeiros cinco anos, estridor inspiratório e parkinsonismo simétrico bilateral — quatro.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Concluir que não há resposta à levodopa antes de ter dado dose suficiente O critério de exclusão é a ausência de resposta observável a altas doses de levodopa, não a qualquer dose. Um paciente em 200/50 mg por dia que não melhorou não testou nada: a faixa média eficaz é de 600 a 750 mg de levodopa por dia, e o teto do protocolo é de 2.000 mg. A armadilha atrai porque o raciocínio parece rigoroso — o candidato lembra do critério e o aplica —, mas aplicá-lo cedo demais transforma um paciente subtratado em um falso parkinsonismo atípico, e o custo é abandonar o único tratamento que funcionaria.
  2. 2Ler instabilidade postural precoce como confirmação do diagnóstico A tétrade dos manuais coloca instabilidade postural entre os sinais cardinais, e por isso queda precoce soa como argumento a favor. No protocolo brasileiro vigente é o contrário: quedas recorrentes, mais de uma por ano, nos primeiros três anos de doença são sinal de alerta, e apontam para paralisia supranuclear progressiva. Na doença de Parkinson a instabilidade postural aparece tarde, não cedo.
  3. 3Trocar haloperidol por risperidona e achar que o problema está resolvido A contraindicação dos antipsicóticos de primeira geração é bem conhecida, e o candidato costuma resolver a alucinação do parkinsoniano migrando para um de segunda geração. O protocolo fecha essa saída com nome e sobrenome: risperidona, olanzapina, ziprasidona e aripiprazol também exacerbam o parkinsonismo, e a quetiapina não superou o placebo nos estudos controlados nesta doença. A única com evidência de eficácia sem piora motora é a clozapina — que vem com hemograma semanal por dezoito semanas e 1,3% de agranulocitose ao ano. E, antes de qualquer antipsicótico, o passo é retirar: anticolinérgico, amantadina, inibidor da MAO-B, agonista dopaminérgico e inibidor da COMT saem primeiro.
  4. 4Suspender biperideno ou triexifenidil de uma vez Como são medicamentos que o próprio protocolo rebaixa a segunda linha, a tentação é cortá-los na hora em que se percebe o efeito anticolinérgico. Os dois têm advertência explícita de que não devem ser interrompidos abruptamente, pelo risco de efeito rebote e piora do parkinsonismo. A amantadina tem a mesma regra, com retirada gradual em uma a duas semanas. Quem gerencia carga anticolinérgica no idoso encontra esses fármacos por outro caminho, tratado no capítulo de polifarmácia e prescrição segura — mas a regra de retirada é esta.
  5. 5Tratar o parkinsonismo do bloqueador dopaminérgico como se fosse a doença Do ponto de vista diagnóstico, uso de bloqueador ou depletor dopaminérgico em dose e por tempo suficientes não é um fator de confusão a ponderar: é critério de exclusão, e encerra o diagnóstico. Dois detalhes ajudam a reconhecer o quadro: ele costuma ser simétrico — e parkinsonismo simétrico bilateral é, por si só, sinal de alerta — e a lista de culpados inclui antieméticos e antivertiginosos que ninguém considera psicotrópico. A dinâmica de prescrição que produz esse erro, e o que fazer com ela, é assunto do capítulo de polifarmácia no idoso.
  6. 6Tomar a levodopa junto com o almoço É a orientação que mais se perde entre a receita e a casa do paciente, e ela custa efeito. A levodopa é um aminoácido e compete com as proteínas da dieta no transporte intestinal e na barreira hematoencefálica; o protocolo manda administrá-la pelo menos uma hora antes ou depois das refeições, ou reduzir a ingestão proteica. Um paciente que reclama que o remédio parou de funcionar depois do almoço pode não estar em wearing off — pode estar tomando o comprimido com o prato.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Tremor de repouso assimétrico que melhora com o movimento, bradicinesia, rigidez em roda denteada e alteração da marcha compõem a tríade clássica da doença de Parkinson. O tremor essencial é postural/de ação (piora com o movimento), bilateral, sem bradicinesia/rigidez. A doença de Alzheimer é primariamente demência, sem parkinsonismo inicial. A ELA cursa com fraqueza, fasciculações e sinais de neurônio motor, sem tremor de repouso. A ataxia cerebelar causa incoordenação e tremor de intenção, não de repouso.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite a definição de parkinsonismo (bradicinesia obrigatória mais tremor de repouso ou rigidez), os quatro critérios de suporte e a regra de contagem: nenhum alerta e dois suportes é estabelecida; um alerta pede um suporte, dois alertas pedem dois suportes, três alertas não são admitidos. Depois diga em voz alta qual medicamento é do Componente Básico e qual é do Especializado.

em 30 dias

Reconstrua o protocolo inteiro a partir de dois pacientes: um de 74 anos com parkinsonismo assimétrico e hiposmia, e um de 66 anos com parkinsonismo simétrico, quedas precoces e estridor. Para o primeiro, chegue à dose inicial e à faixa média eficaz de levodopa; para o segundo, liste os quatro sinais de alerta e diga por que o estimulador cerebral profundo está contraindicado. Feche revendo as três mudanças de 2024 e 2025: rivastigmina incorporada, selegilina excluída, protocolo novo.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 71 anos vem à consulta acompanhado da esposa por lentidão progressiva há dois anos e tremor da mão esquerda quando está parado. Ela conta que ele demora a se levantar da cadeira, que a letra dele diminuiu e que ele já não vira na cama sozinho. Está em uso de metoclopramida há três meses por queixa de má digestão, e o quadro começou antes disso. Colha a história, examine e decida se este parkinsonismo preenche os critérios do protocolo brasileiro para doença de Parkinson — e o que fazer com a prescrição em curso. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença de Parkinson e síndromes parkinsonianas – Doença de Parkinson e parkinsonismos — Preparatório para provas | OsceLabs