Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

Cefaleias secundárias e sinais de alarme (red flags)

Red flags, escolha do exame e decisões que não podem esperar

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 58 anos, hipertensa, procura o pronto-socorro relatando cefaleia holocraniana de início súbito e intensidade máxima instalada em segundos ("a pior dor de cabeça da vida"), há 3 horas, acompanhada de vômitos e rigidez de nuca. Ao exame: PA 178/102 mmHg, FC 88 bpm, Glasgow 15, sem déficit focal, rigidez de nuca presente. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?

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Como esse tema cai

Cefaleia secundária é minoria. Justamente por isso ela é o que a prova cobra: a vinheta descreve uma dor de cabeça comum, esconde um detalhe na história ou no exame, e pergunta o que fazer. Quem lê a dor procurando o nome da cefaleia primária erra; quem lê procurando a bandeira acerta. Este capítulo é sobre a segunda leitura — reconhecer que a dor não é primária, e saber que exame cada bandeira pede.

A régua brasileira de urgência é o Protocolo Nacional para Diagnóstico e Manejo das Cefaleias nas Unidades de Urgência do Brasil, de 2018, escrito em conjunto pelo Departamento Científico de Cefaleia da Academia Brasileira de Neurologia e pela Sociedade Brasileira de Cefaleia: dele vêm o mnemônico SNOOP e os quatro cenários que organizam o atendimento. A lista internacional expandida é o SNNOOP10, de 2019, com 15 bandeiras; a versão em português dessa lista, publicada nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria em 2025, é o mnemônico "não É primária". Os critérios diagnósticos de cada secundária são da ICHD-3.

Três eixos sustentam o capítulo. O primeiro é a cefaleia em trovoada, onde a hora do relógio muda o exame: a sensibilidade da tomografia para hemorragia subaracnóidea cai com o tempo desde o início da dor, e é essa curva que decide se uma tomografia normal encerra o caso ou obriga a punção lombar. O segundo são as secundárias que matam ou cegam — hemorragia subaracnóidea, meningite, trombose venosa cerebral, arterite de células gigantes, dissecção arterial, glaucoma agudo, tumor —, cada uma com um gatilho de reconhecimento próprio. O terceiro é a cefaleia por uso excessivo de medicação, a secundária mais prevalente no Brasil e a que mais escapa, porque nasce dentro do tratamento de uma cefaleia primária.

O que este capítulo não faz é repetir o vizinho. Critérios de migrânea, cefaleia tipo tensão e cefaleia em salvas, tratamento da crise e escolha do profilático estão em Cefaleias primárias: migrânea, tensional e em salvas. Meningite bacteriana, do caso suspeito ao antibiótico, está em Meningites bacteriana e viral; a trombólise do AVC isquêmico e a contraindicação de suspeita de hemorragia subaracnóidea mesmo com tomografia normal estão em AVC isquêmico agudo; a tomografia do traumatismo cranioencefálico está em Trauma cranioencefálico; e o glaucoma agudo de ângulo fechado, com pressão intraocular e conduta oftalmológica, está em Olho vermelho.

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O que muda decisão

O que faz uma cefaleia ser secundária — e por que a ICHD-3 mudou a regra

O protocolo brasileiro define secundária em duas condições: que a doença em questão seja sabidamente capaz de causar cefaleia, e que a cefaleia tenha se desenvolvido em relação temporal com essa doença. A ICHD-3 escreve isso como critério geral, com quatro provas possíveis de causalidade, das quais bastam duas: a dor apareceu em relação temporal com a doença; a dor piorou junto com a piora da doença e/ou melhorou junto com a melhora; a dor tem as características típicas daquela causa; ou há outra evidência de causalidade.

A mudança que importa está na leitura desse conjunto. Nas edições anteriores, a atribuição só se fechava depois que a doença de base fosse resolvida e a dor sumisse — o que joga o diagnóstico para depois, e é inútil na urgência. Na ICHD-3, o item de melhora paralela é apenas uma das quatro provas, o que permite diagnosticar a secundária já no primeiro encontro com o paciente. Na prática, o médico não precisa esperar o desfecho para agir.

Vale saber quem é frequente. O artigo dos Arquivos de Neuro-Psiquiatria que adapta o SNNOOP10 registra dois estudos brasileiros: um transversal, em que o uso excessivo de medicação foi a causa mais prevalente de cefaleia secundária, com 16,6% dos casos; e um multicêntrico, longitudinal e observacional, com prevalência de 14,7% de cefaleias secundárias, novamente com o uso excessivo de medicação em primeiro lugar, em 7,1%. Ou seja: a secundária mais comum não é a que mata — é a que o próprio tratamento produziu.

As instruções de uso da classificação trazem duas regras que resolvem muita questão. A primeira: quando uma cefaleia nova aparece pela primeira vez em relação temporal estreita com uma doença sabidamente capaz de causar dor, ela é codificada como secundária — e isso continua valendo mesmo que a dor tenha todas as características de uma cefaleia primária, migrânea, tipo tensão ou salvas inclusive. A segunda: quando uma cefaleia primária preexistente se torna crônica, ou piora de forma significativa, em relação temporal com essa doença, dão-se os dois diagnósticos. "Piora significativa" tem número — em geral, aumento de duas vezes ou mais na frequência e/ou na intensidade. É por isso que o enunciado que diz "paciente com migrânea há vinte anos, que nas últimas três semanas passou a ter uma dor diferente" não está descrevendo migrânea: está descrevendo mudança de padrão, que é bandeira.

Uma terceira instrução do mesmo texto vale ouro no diferencial vascular. O último critério de quase todo diagnóstico da classificação é "não ser mais bem explicado por outro diagnóstico da ICHD-3", e ele serve também para escolher entre causas: o exemplo dado é o de uma cefaleia em relação temporal com AVC isquêmico agudo, que pode ser consequência não do infarto, mas da causa do infarto — por exemplo, uma dissecção arterial. Achar a doença não encerra a pergunta; é preciso perguntar o que causou a doença.

SNOOP, SNNOOP10 e "NÃO É PRIMÁRIA": a mesma triagem em três réguas

O Quadro 1 do protocolo brasileiro é curto e é o que se cobra em prova nacional. S de systemic: sinais sistêmicos como toxemia, rigidez de nuca, rash cutâneo, portador de neoplasia ou HIV, usuário de imunossupressor. N de neurologic: déficit neurológico focal, edema de papila, convulsão. O de older: cefaleia que iniciou após os 50 anos. O de onset: cefaleia de início súbito, ou a primeira cefaleia da vida. P de pattern: mudança de padrão de uma cefaleia prévia, ou cefaleia progressiva em intensidade, frequência ou duração, ou cefaleia refratária.

O SNNOOP10 é a mesma ideia esticada para 15 bandeiras: sintomas sistêmicos incluindo febre; história de neoplasia; déficit ou disfunção neurológica, incluindo rebaixamento de consciência; início súbito ou abrupto; idade avançada (início após os 65 anos); mudança de padrão ou cefaleia de início recente; cefaleia postural; desencadeada por espirro, tosse ou exercício; papiledema; cefaleia progressiva e apresentações atípicas; gestação ou puerpério; olho doloroso com sinais autonômicos; início pós-traumático; doença do sistema imune, como HIV; e uso excessivo de analgésico ou droga nova no início da dor. As dez últimas começam com P em inglês — daí o "P10".

A versão em português dessas 15 bandeiras é o mnemônico "não É primária", proposto nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria em 2025 pelo agrupamento semântico dos itens originais: Nova cefaleia, Abrupta, Ortostatismo, Exame neurológico alterado, Prenhez, Relação sexual, Idade avançada, Malignidade, Atividade física, Rash cutâneo, Infecção HIV/aids. Cada letra carrega uma ou mais bandeiras do SNNOOP10 — e uma bandeira única pode ter sido partida em duas letras, como a de espirro, tosse e exercício, que virou relação sexual de um lado e atividade física do outro. O artigo lista, para cada letra, as etiologias que ela sugere. É adaptação de uso clínico, ainda sem validação formal — o próprio texto diz isso —, mas é a redação brasileira mais recente da lista.

A bandeira não fecha diagnóstico: ela muda a probabilidade a priori e dispara um exame. O erro de raciocínio mais comum é o inverso do esperado — não é deixar de conhecer as bandeiras, é conhecê-las e mesmo assim seguir o roteiro da cefaleia primária porque a dor "parece" migrânea. A ICHD-3 registra o custo disso no comentário da hemorragia subaracnóidea: o erro diagnóstico inicial ocorre em um quarto a metade dos pacientes, e o diagnóstico errado mais comum é migrânea.

Cefaleia em trovoada: a hora do relógio decide o exame

Trovoada tem definição numérica, e ela é a mesma nos dois documentos. A ICHD-3, no item 4.4, exige dor forte de início abrupto, atingindo intensidade máxima em menos de 1 minuto e durando pelo menos 5 minutos. O protocolo brasileiro escreve a mesma coisa no cenário de cefaleia aguda emergente: instalação súbita, com intensidade máxima da dor em menos de 1 minuto. Repare que a definição é sobre a velocidade da subida, não sobre a intensidade absoluta — "a pior dor da vida" é descrição de paciente; "pico em menos de um minuto" é critério.

A causa a excluir primeiro é a hemorragia subaracnóidea, e o motivo é o desfecho: a ICHD-3 registra mortalidade de 40% a 50%, com 10% a 20% dos pacientes morrendo antes de chegar ao hospital e metade dos sobreviventes com sequela incapacitante. Oitenta por cento das hemorragias subaracnóideas espontâneas vêm de ruptura de aneurisma sacular. E a dor pode ser apenas moderada, sem nenhum sinal associado — o que dá o diagnóstico é o início abrupto, não a intensidade.

Mas trovoada não é sinônimo de hemorragia. A própria ICHD-3 lista, como causas obrigatórias de exclusão: hemorragia intracerebral, trombose venosa cerebral, malformação vascular não rota (na maioria aneurisma), dissecção arterial intra ou extracraniana, síndrome de vasoconstrição cerebral reversível e apoplexia hipofisária; e ainda meningite, cisto coloide do terceiro ventrículo, hipotensão intracraniana espontânea e sinusite aguda, sobretudo com barotrauma. A trovoada primária (4.4) é diagnóstico de último recurso, feito só depois que todas as causas orgânicas foram demonstravelmente excluídas — o que exige imagem normal do encéfalo e dos vasos, e/ou liquor normal.

A tomografia de crânio sem contraste é o primeiro exame, e a sensibilidade dela depende do tempo desde o início da dor. A ICHD-3 imprime a curva: perto de 99% nas primeiras 6 horas, 98% em 12 horas, 93% em 24 horas, caindo para 50% em 7 dias. Traduzida em erro, a mesma curva diz: cerca de uma hemorragia perdida a cada 100 pacientes tomografados em 6 horas; uma a cada 50 em 12 horas; uma a cada 14 em 24 horas; e uma a cada 2 em uma semana. É por isso que a pergunta "há quantas horas começou?" vale mais, nessa vinheta, do que qualquer característica da dor.

Quando a tomografia não é diagnóstica, a punção lombar é essencial, e ela tem janela própria. A ICHD-3 é explícita: a xantocromia está presente em todos os casos de hemorragia subaracnóidea aneurismática quando o liquor é colhido entre 12 horas e 2 semanas do início dos sintomas e analisado por espectrofotometria. Antes de 12 horas a hemoglobina ainda não se degradou o bastante; depois de 2 semanas o pigmento já sumiu. A ressonância não é o exame inicial da hemorragia subaracnóidea — mas as sequências FLAIR e eco-gradiente T2 podem ajudar quando a tomografia é normal e o liquor, alterado.

Linha do tempo em horas desde o início da dor, com barras que encolhem da esquerda para a direita; à esquerda, a silhueta de uma tomografia de crânio; à direita, uma agulha de punção lombar e um tubo com líquido amarelado.
A sensibilidade da tomografia sem contraste para hemorragia subaracnóidea cai com as horas desde o início da dor; a punção lombar, com a xantocromia, cobre justamente a faixa em que a imagem já falha.

Tomografia normal que encerra e tomografia normal que não encerra

O ensino clássico manda puncionar todo paciente com suspeita de hemorragia subaracnóidea e tomografia negativa. O estudo que abalou essa regra é uma coorte prospectiva canadense de 2011, com 3.132 pacientes atendidos em emergência por cefaleia — 240 deles (7,7%) com hemorragia subaracnóidea. A sensibilidade global da tomografia foi de 92,9% (IC 95% 89,0-95,5) e a especificidade, de 100%. No subgrupo dos 953 pacientes tomografados em até 6 horas do início da dor, a tomografia identificou as 121 hemorragias, todas: sensibilidade de 100% (IC 95% 97,0-100).

Faça a conta que o artigo não faz. Na coorte inteira, a tomografia detectou 92,9% das 240 hemorragias, ou seja 223, e deixou passar 17. Como a especificidade foi de 100%, o número de tomografias negativas é 3.132 menos 223, isto é 2.909. Puncionar todo esse grupo significa fazer 2.909 punções lombares para encontrar 17 hemorragias — cerca de uma hemorragia a cada 171 punções. No subgrupo das 6 horas, o rendimento é outro: 832 tomografias negativas e nenhuma hemorragia entre elas.

É daí que sai a chamada regra das 6 horas: tomografia de terceira geração, feita em até 6 horas do início da dor e laudada por radiologista qualificado, exclui hemorragia subaracnóidea sem punção. As duas condições da frase são o que a prova cobra — o prazo e a qualificação de quem lauda. Fora dessa janela, tomografia normal não encerra: a punção lombar volta a ser obrigatória, e a análise que interessa é a xantocromia.

Existe ainda uma regra de decisão que age antes da imagem, a Ottawa SAH Rule, derivada em 2.131 adultos com cefaleia de pico em até 1 hora e exame neurológico normal, dos quais 132 (6,2%) tinham hemorragia subaracnóidea. A regra investiga quem tiver qualquer um de seis itens: idade de 40 anos ou mais; dor ou rigidez cervical; perda de consciência presenciada; início durante esforço; cefaleia em trovoada, isto é, dor de pico instantâneo; e limitação da flexão cervical ao exame. O desempenho é assimétrico de propósito: sensibilidade de 100% (IC 95% 97,2-100) e especificidade de apenas 15,3% (IC 95% 13,8-16,9). Aplicada àquela coorte, ela dispensaria a investigação de cerca de 306 dos 1.999 pacientes sem hemorragia — sobrariam cerca de 1.825 investigados para 132 hemorragias, quase 14 investigações por diagnóstico. É uma regra para não perder caso, não para economizar exame.

Uma linha para o vizinho vascular: a suspeita de hemorragia subaracnóidea, mesmo com tomografia normal, é contraindicação absoluta à trombólise no AVC isquêmico agudo — o detalhe está no capítulo de AVC. E outra para a punção: em quem tem rebaixamento de consciência, déficit focal, papiledema, imunossupressão, doença prévia do sistema nervoso central ou convulsão recente, a imagem vem antes da agulha; a lista completa e a discussão de quando o antibiótico não espera estão no capítulo de meningites.

As secundárias que matam ou cegam, cada uma pelo seu gatilho

Meningite entra pela febre. O protocolo brasileiro separa o cenário de cefaleia aguda emergente em com febre e sem febre justamente por isso: com febre, o leque é infecção sistêmica (resfriado, dengue, gripe, sinusite) ou infecção do sistema nervoso central (meningite, encefalite, abscesso, empiema). A ICHD-3 diz que a cefaleia é o sintoma mais comum e pode ser o primeiro dessas infecções, e que a suspeita se levanta sempre que a dor vem com febre, alteração do estado mental incluindo redução da vigília, déficit focal ou crise convulsiva generalizada. O restante — definição de caso suspeito, ordem hemocultura-punção-antibiótico, esquema empírico — está no capítulo de meningites.

Trombose venosa cerebral entra pelo contexto, não pela dor. A ICHD-3 é categórica: a cefaleia da trombose venosa não tem característica própria. Está presente em 80% a 90% dos casos e costuma ser o sintoma inaugural; é mais frequentemente difusa, progressiva e forte, mas pode ser unilateral e súbita, inclusive em trovoada, e chega a imitar migrânea com e sem aura, cefaleia em salvas, hemicrania contínua e cefaleia por baixa pressão liquórica. Em mais de 90% dos casos ela vem acompanhada de sinal focal, crise convulsiva, sinal de hipertensão intracraniana, encefalopatia subaguda ou síndrome do seio cavernoso. Por não ter cara, o que a denuncia é a condição pró-trombótica de fundo — puerpério, gestação, anticoncepcional combinado, trombofilia, desidratação, neoplasia. O diagnóstico é por imagem com estudo venoso (ressonância com T2* mais angiorressonância, ou tomografia mais angiotomografia; angiografia intra-arterial nos casos duvidosos), e o tratamento começa cedo: heparina seguida de pelo menos 6 meses de anticoagulação oral, além do tratamento da causa.

Arterite de células gigantes entra pela idade e pelo relógio da visão. A ICHD-3 orienta que qualquer cefaleia recente e persistente em paciente com mais de 60 anos deve levantar a hipótese e disparar investigação. Os acompanhantes que mais valem são dor à palpação do couro cabeludo e claudicação de mandíbula — os dois entram no próprio critério diagnóstico —, e episódios recentes e repetidos de amaurose fugaz junto com cefaleia são altamente sugestivos e obrigam investigação urgente. O risco maior é a cegueira por neuropatia óptica isquêmica anterior, que o corticoide imediato previne; o intervalo entre a perda visual de um olho e a do outro é habitualmente menor que 1 semana. Outro dado do próprio critério: a dor melhora significativamente ou desaparece em até 3 dias de corticoide em dose alta.

Por isso o corticoide não espera a biópsia. A diretriz de 2021 do American College of Rheumatology com a Vasculitis Foundation recomenda obter a biópsia da artéria temporal em até 2 semanas do início do corticoide oral — e explica: as alterações histológicas são mais prováveis nesse prazo, embora já tenham sido detectadas bem depois. A biópsia é preferencialmente unilateral e de segmento longo, maior que 1 cm, porque a doença é focal e segmentar — a ICHD-3 chama isso de lesões salteadas e lembra que o material precisa de cortes seriados. Sem manifestação isquêmica craniana, a diretriz prefere corticoide oral em dose alta (prednisona 1 mg/kg até 80 mg/dia); com ameaça de perda visual, prefere pulso intravenoso (metilprednisolona 500 a 1.000 mg ao dia por 3 a 5 dias).

Dissecção de carótida ou de vertebral entra pela dor cervical e pelos sinais de vizinhança. A cefaleia, com ou sem cervicalgia, pode ser a única manifestação: é de longe o sintoma mais frequente da dissecção, em 55% a 100% dos casos, e o sintoma inaugural mais frequente, em 33% a 86%. Costuma ser unilateral e ipsilateral à artéria dissecada, forte e prolongada — em média 4 dias —, com início súbito, às vezes em trovoada, e imita migrânea, cefaleia em salvas e trovoada primária. Três achados são altamente sugestivos de dissecção de carótida: síndrome de Horner dolorosa, zumbido doloroso de início súbito e paralisia dolorosa do décimo segundo nervo craniano. O ponto que decide a conduta é o tempo: a dor costuma preceder os sinais isquêmicos, e é essa antecedência que abre a janela para prevenir o AVC. Investiga-se com ressonância cervical com supressão de gordura, ultrassom com Doppler, angiorressonância e/ou angiotomografia — e é comum precisar de mais de um exame, porque qualquer um deles pode vir normal.

O glaucoma agudo de ângulo fechado entra pelo olho: dor ocular e periorbitária de início abrupto, borramento visual, hiperemia e edema conjuntival, náusea e vômito. A ICHD-3 registra que, acima de 30 mmHg de pressão intraocular, o risco de perda visual permanente sobe de forma dramática — o que faz do diagnóstico precoce uma emergência. O quadro completo, com midríase média fixa e córnea fosca, está no capítulo de olho vermelho.

Hipertensão intracraniana idiopática e tumor: as duas caras da dor que progride

O terceiro cenário do protocolo brasileiro — cefaleia crônica progressiva — é o mais raro e o de reconhecimento obrigatório: dor diária de intensidade progressiva, holocraniana, pior ao acordar pela manhã e durante atividade física, tosse ou manobra de Valsalva. O documento nomeia as hipóteses: hipertensão liquórica e neoplasia intracraniana em primeiro plano, e ainda hematoma subdural crônico, abscesso cerebral, cefaleia pós-traumática, hipertensão intracraniana idiopática e meningites crônicas, associadas ou não a HIV/aids. E dá prazo: guia de referência à central de regulação, com avaliação por neurologista em hospital terciário agendada em no máximo 15 dias.

A hipertensão intracraniana idiopática tem critério com número. A ICHD-3 exige, além do diagnóstico da síndrome, pressão liquórica acima de 250 mm de liquor — em criança obesa, acima de 280 mm —, medida sem tratamento redutor de pressão intracraniana, em decúbito lateral e sem sedativo. Cuidado com a unidade: 250 mm de liquor equivalem a 25 cmH₂O, e a grandeza não é milímetro de mercúrio. A dor deve vir acompanhada de zumbido pulsátil e/ou papiledema, e o quadro típico é mulher obesa em idade fértil. A própria classificação avisa que o alívio da dor após a retirada de liquor apoia mas não fecha o diagnóstico: sensibilidade de 72% e especificidade de 77%.

Dois cuidados da mesma seção caem em prova. O primeiro é que a hipertensão intracraniana idiopática imita migrânea crônica e cefaleia tipo tensão crônica, e frequentemente coexiste com elas — por isso a classificação recomenda cautela em diagnosticá-la em quem não tem papiledema. O segundo é o inverso: em quem não tem papiledema, nem paralisia do sexto par, nem os sinais radiológicos característicos, é preciso excluir cefaleia por uso excessivo de medicação antes de rotular o caso. Os sinais radiológicos compatíveis são sela túrcica vazia, distensão do espaço subaracnóideo perióptico, achatamento da esclera posterior, protrusão da papila do nervo óptico no vítreo e estenose do seio venoso transverso.

Tumor intracraniano tem três desmentidos úteis. Primeiro, dor de cabeça não é sintoma obrigatório: a prevalência de cefaleia em portadores de tumor intracraniano varia de 32% a 71%. Segundo, quando existe, quase nunca vem sozinha — a cefaleia isolada ocorre em 2% a 16% dos pacientes, e déficits neurológicos e crises convulsivas são comuns. Terceiro, a chamada tríade clássica não é tríade: a ICHD-3 diz que dor forte, pior pela manhã e com náusea e vômito são sintomas sugestivos, mais prováveis no contexto de hipertensão intracraniana e nos tumores de fossa posterior, mas não formam um conjunto clássico. O que a classificação chama de característica-chave é a progressão. E o critério pede pelo menos uma de quatro características: progressiva; pior pela manhã e/ou em decúbito; agravada por manobras tipo Valsalva; acompanhada de náusea e/ou vômito.

Achado de imagem também tem lista. O protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS traz um quadro com o que, na tomografia ou na ressonância, indica encaminhamento à neurocirurgia: lesão com efeito expansivo, incluindo tumor, cisto ou malformação; lesão sugestiva de tumor cerebral, independentemente do tamanho; aneurisma cerebral ou outra malformação vascular; hidrocefalia, qualquer que seja a causa; e malformação de Chiari. Quem tem história atual ou prévia de câncer merece limiar baixo para investigar — a ICHD-3 recomenda isso explicitamente.

Cefaleia por uso excessivo de medicação: a secundária mais comum, e a mais esquecida

Os critérios 8.2 da ICHD-3 têm três linhas. Cefaleia em 15 ou mais dias por mês, em paciente que já tinha uma cefaleia prévia; uso regular, por mais de 3 meses, de uma ou mais drogas tomadas para tratar a crise; e não ser mais bem explicada por outro diagnóstico da classificação. O limiar de dias por mês muda com a classe: 10 ou mais dias por mês para ergotamina, triptano, opioide e analgésico combinado; 15 ou mais dias por mês para analgésico simples — paracetamol, AAS e outros anti-inflamatórios.

Traduzido em calendário, o número fica mais fácil de perguntar ao paciente: 10 dias por mês é tomar remédio a cada três dias; 15 dias por mês é dia sim, dia não. E o limiar prático vem antes: analgésico duas ou mais vezes por semana já dá oito a nove dias por mês, encostado no corte das classes mais perigosas. A própria ICHD-3 avisa que esses números vêm de opinião de especialistas, não de evidência formal — o que explica por que documentos diferentes escrevem "mais de 10" ou "10 ou mais" sem que a conduta mude.

Três regras de codificação decidem questão. Quem preenche critério para mais de uma classe recebe mais de um código — quem abusa de triptano e de anti-inflamatório recebe os dois. A exceção é o analgésico combinado: quem abusa de uma fórmula com duas ou mais classes na mesma cápsula é codificado como uso excessivo de analgésico combinado, e não por cada componente. E quem usa várias classes sem exceder nenhuma isoladamente, mas cuja soma configura excesso, tem código próprio — uso excessivo de múltiplas classes não individualmente excedidas. A prova gosta desse terceiro: o paciente que jura não tomar nada demais, porque conta cada caixa separadamente.

O peso epidemiológico justifica a atenção. A ICHD-3 registra que, em muitos países, mais da metade das pessoas com cefaleia em 15 ou mais dias por mês tem cefaleia por uso excessivo de medicação, e que a maioria melhora com a suspensão do medicamento em excesso — inclusive voltando a responder ao profilático. No Brasil, como visto, ela lidera as causas de cefaleia secundária nos dois estudos citados pelo artigo dos Arquivos de Neuro-Psiquiatria.

A conduta é retirar, não reforçar. O protocolo brasileiro de urgência, no cenário de cefaleia crônica não progressiva, escreve a frase inteira: analgésicos devem ser abolidos, porque o uso diário piora o quadro das cefaleias crônicas; o paciente recebe medidas educativas — sono regular, evitar bebida alcoólica, controle de estresse, lazer — e é encaminhado ao neurologista em nível secundário, com a unidade básica seguindo a contrarreferência. O mesmo documento lista, entre os fatores de risco para cronificação da migrânea, o consumo de analgésicos acima daqueles limiares, os transtornos psiquiátricos (pânico, depressão, ansiedade), o uso excessivo de cafeína, a obesidade e os transtornos da articulação temporomandibular.

As secundárias benignas que confundem: sinusal, cervicogênica e pós-punção

"Cefaleia sinusal" é, na maioria das vezes, migrânea. A ICHD-3 é direta: migrânea e cefaleia tipo tensão são confundidas com cefaleia atribuída à rinossinusite aguda por causa da localização parecida e, no caso da migrânea, dos sintomas autonômicos nasais que a acompanham com frequência. O que diferencia é a presença ou ausência de secreção nasal purulenta e dos demais achados diagnósticos de rinossinusite aguda. E há uma advertência sobre imagem: achado radiológico de rinossinusite que combina com a descrição da dor não basta para fechar o diagnóstico. Os critérios pedem evidência clínica, endoscópica e/ou de imagem de rinossinusite aguda, mais duas provas de causalidade — entre elas, dor exacerbada pela pressão sobre os seios paranasais e, na rinossinusite unilateral, dor localizada e ipsilateral.

A cefaleia cervicogênica tem critério que separa suspeita de prova. As pistas clínicas são dor sempre do mesmo lado, provocação da dor típica por pressão digital na musculatura cervical e pelo movimento da cabeça, e irradiação de trás para frente — mas a própria classificação avisa que essas características não são exclusivas dela e não estabelecem causalidade. Duas das quatro provas do critério C são exigidas, e as duas fortes são objetivas: amplitude de movimento cervical reduzida com piora significativa da cefaleia por manobras provocativas, e abolição da dor após bloqueio diagnóstico de uma estrutura cervical ou de sua inervação. Achado de imagem na coluna cervical alta é comum em quem não tem cefaleia nenhuma — sugere, não prova.

A cefaleia pós-punção dural é a secundária mais previsível de todas, porque tem hora marcada. O critério 7.2.1 exige que a dor apareça em até 5 dias da punção dural, e a descrição é de cefaleia ortostática — piora ao sentar ou levantar, melhora ao deitar —, acompanhada com frequência de rigidez de nuca e sintomas auditivos subjetivos. Remite espontaneamente em até 2 semanas, ou depois do selamento do vazamento com tampão sanguíneo epidural autólogo. Os fatores de risco independentes são sexo feminino, idade entre 31 e 50 anos, episódio prévio de cefaleia pós-punção e orientação do bisel da agulha perpendicular ao eixo longo da coluna.

Ela pertence a uma família maior: a cefaleia por baixa pressão liquórica, cujo critério aceita pressão liquórica abaixo de 60 mm de liquor ou evidência de vazamento na imagem. A hipotensão intracraniana espontânea é a irmã sem punção — cefaleia ortostática sem procedimento prévio, por fístula liquórica espinhal, e é uma das causas de trovoada listadas pela classificação. Aqui o cuidado é com a direção da postura: cefaleia que piora deitado e melhora de pé aponta para o outro lado, o da pressão alta — tumor e hipertensão intracraniana.

Gestante, imunossuprimido e idoso: quando a mesma dor muda de significado

Gestação e puerpério são bandeira por si sós no SNNOOP10. O artigo dos Arquivos de Neuro-Psiquiatria registra um estudo retrospectivo de 2015 em que, entre 140 gestantes com cefaleia aguda, 35% tinham cefaleia secundária — as causas mais prevalentes foram os distúrbios hipertensivos, a leucoencefalopatia posterior reversível, a síndrome de vasoconstrição cerebral reversível e a hipertensão arterial aguda; e ainda entram trombose venosa cerebral, AVC isquêmico, hemorragia subaracnóidea e dissecção arterial. O problema clínico está no fato de que o quadro secundário pode ser idêntico ao primário. Cefaleia em gestante com pressão alta é pré-eclâmpsia até prova em contrário, e o manejo dessa hipótese está no capítulo de Pré-eclâmpsia.

Imunossupressão muda a lista de suspeitos e o limiar de imagem. O S do SNOOP brasileiro já inclui nominalmente portador de neoplasia ou de HIV e usuário de imunossupressor entre os sinais sistêmicos, e o quadro de sinais de alerta do protocolo de encaminhamento traz uma linha própria: paciente com HIV/aids com padrão novo de cefaleia, ou com exame de imagem mostrando lesão expansiva compatível com toxoplasmose, é manejo em serviço de emergência. A ICHD-3, no capítulo das infecções, lembra que o estado imunológico influencia tanto a suscetibilidade quanto o perfil clínico e laboratorial — o que significa que febre e rigidez de nuca podem faltar.

No idoso, a bandeira é a própria idade. O SNOOP brasileiro corta em 50 anos; o SNNOOP10 corta em 65; a ICHD-3, no comentário da arterite de células gigantes, escreve que qualquer cefaleia recente e persistente acima dos 60 anos deve sugerir a doença. O sentido é o mesmo por trás dos três números: cefaleia que começa tarde tem probabilidade maior de ser secundária. O artigo brasileiro quantifica: pacientes idosos têm 12 vezes mais chance de ter causa subjacente grave e apresentação atípica do que adultos jovens. As hipóteses que a idade traz são AVC, lesão intracraniana e arterite temporal — e, com história de queda ou anticoagulação, hematoma subdural crônico.

Um último dado que atravessa os três contextos: cefaleia acompanha o AVC com mais frequência do que se costuma lembrar. O mesmo artigo cita um estudo prospectivo com 240 pacientes em que a cefaleia esteve presente em 64,5% dos AVC hemorrágicos e em 32% dos isquêmicos, e registra que 16% a 65% dos ataques isquêmicos transitórios cursam com dor de cabeça. Cefaleia com déficit focal não é migrânea com aura até que a rota de AVC seja descartada — e essa rota, com janela e escala, está no capítulo de AVC isquêmico agudo.

O que não fazer: imagem em cefaleia primária típica, sem bandeira

O protocolo brasileiro de urgência escreve o "não" no primeiro cenário. Diante de cefaleia tipo tensão episódica, o médico da unidade de urgência orienta paciente e familiares quanto à baixa gravidade do quadro e à ausência de necessidade de encaminhamento a especialista ou de exames complementares; prescreve analgésico ou anti-inflamatório e orienta seguimento na unidade básica. É uma recomendação de conduta, não de economia: sem bandeira, o exame não muda o que vai ser feito.

O custo de tomografar por precaução é duplo. Primeiro, o achado incidental — a imagem encontra alterações que não explicam a dor e que abrem uma nova investigação. Segundo, o falso conforto: a ICHD-3 mostra que a tomografia normal significa coisas muito diferentes conforme a hora, e um exame negativo fora da janela pode tranquilizar quem não deveria estar tranquilo. Imagem sem indicação não substitui a triagem por bandeiras; ela desloca a atenção.

A indicação ambulatorial de neuroimagem, no protocolo de encaminhamento brasileiro, tem lista fechada: padrão novo ou mudança recente no padrão da cefaleia; início da cefaleia em pessoa com mais de 50 anos; evolução insidiosa e progressiva com ápice em poucas semanas ou meses; dor que acorda durante o sono; e dor desencadeada por esforço, coito, tosse, atividade física ou manobra de Valsalva. Fora dessas condições — e fora das situações de emergência —, o exame não está indicado na atenção primária.

Vale distinguir dois usos da palavra "imagem" que a prova mistura. A imagem da urgência é a tomografia de crânio sem contraste, feita para achar sangue, efeito de massa e hidrocefalia agora. A imagem da investigação ambulatorial pode ser ressonância, e serve para achar lesão estrutural, sinais de hipertensão intracraniana e trombose venosa, quando indicada. Alternativa que oferece ressonância como primeiro exame de uma trovoada aguda está trocando as duas — e a ICHD-3 diz, com todas as letras, que a ressonância não é o exame inicial da hemorragia subaracnóidea.

04

Da bandeira ao exame

A triagem roda em três perguntas, sempre na mesma ordem: existe bandeira? qual bandeira? que exame ela pede? A hora do início da dor entra na terceira pergunta e é o que decide se a tomografia normal encerra o caso. Os cartões abaixo mostram a curva de sensibilidade da tomografia por tempo desde o início da dor, e as tabelas fecham a correspondência entre bandeira, hipótese e exame.

  1. 1Datar a dor: quando começou, em quanto tempo chegou ao pico, e se é a primeira vez ou mudou de padrão. Pico em menos de 1 minuto é trovoada e muda tudo.
  2. 2Rodar a triagem por bandeiras — SNOOP no formato brasileiro, ou as 15 do SNNOOP10 se o enunciado pedir a lista expandida. Uma bandeira basta para tirar o caso do trilho da cefaleia primária.
  3. 3Fazer o exame que a bandeira pede: febre e rigidez de nuca pedem liquor; trovoada pede tomografia sem contraste; déficit focal, papiledema ou convulsão pedem imagem antes de qualquer punção; idade acima de 50 anos com couro cabeludo doloroso pede provas inflamatórias e corticoide imediato.
  4. 4Na trovoada, cruzar a tomografia com o relógio: negativa em até 6 horas, laudada por radiologista qualificado, encerra a hipótese de hemorragia subaracnóidea; negativa fora dessa janela, obriga punção lombar com pesquisa de xantocromia entre 12 horas e 2 semanas do início.
  5. 5Não havendo bandeira, não pedir imagem para tranquilizar: aplicar os critérios da cefaleia primária, tratar a crise e programar seguimento.
  6. 6Contar os dias de dor e os dias de analgésico por mês antes de fechar qualquer diagnóstico crônico — 15 ou mais dias de dor com uso regular por mais de 3 meses fecha uso excessivo de medicação, e a conduta é retirar.

Tomografia em até 6 horas do início da dor

Sensibilidade perto de 99% pela ICHD-3; na coorte de 953 pacientes tomografados nessa janela, as 121 hemorragias foram todas identificadas — sensibilidade de 100% (IC 95% 97,0-100). Exame negativo, laudado por radiologista qualificado, encerra a hipótese sem punção.

Tomografia em 24 horas

Sensibilidade de 93% pela ICHD-3 — uma hemorragia perdida a cada 14 pacientes tomografados. Tomografia normal aqui não encerra nada: a punção lombar volta a ser obrigatória, e o que se procura é xantocromia.

Tomografia no sétimo dia

Sensibilidade de 50% pela ICHD-3 — cara ou coroa. Nessa altura o exame que decide é o liquor, e mesmo ele tem prazo: a xantocromia está presente em todos os casos aneurismáticos quando o liquor é colhido entre 12 horas e 2 semanas do início e analisado por espectrofotometria.

BandeiraO que ela sugereExame que responde
Início súbito, pico em menos de 1 minutoHemorragia subaracnóidea; vasoconstrição cerebral reversível; dissecção arterial; trombose venosa; apoplexia hipofisáriaTomografia de crânio sem contraste imediata; punção lombar com xantocromia se a tomografia for normal fora da janela de 6 horas
Febre, rigidez de nuca, rashMeningite, encefalite, abscesso; infecção sistêmicaLiquor, com imagem antes da punção nas situações de risco; hemocultura
Déficit focal, convulsão, rebaixamento de consciênciaAVC isquêmico ou hemorrágico; lesão expansiva; trombose venosaNeuroimagem de urgência; estudo venoso quando o contexto for pró-trombótico
PapiledemaHipertensão intracraniana de qualquer causa; hipertensão intracraniana idiopáticaImagem com estudo venoso; punção lombar com medida da pressão de abertura depois da imagem
Início após os 50 anos (SNOOP brasileiro)Arterite de células gigantes; neoplasia; AVC; hematoma subduralProvas inflamatórias e corticoide imediato na suspeita de arterite; neuroimagem
Dor progressiva, pior pela manhã ou em decúbito, agravada por ValsalvaNeoplasia intracraniana; hipertensão liquórica; hematoma subdural crônicoNeuroimagem eletiva com prioridade; encaminhamento com prazo
Cefaleia postural (piora em pé, melhora deitado)Baixa pressão liquórica: pós-punção dural ou hipotensão intracraniana espontâneaAnamnese do procedimento; imagem de encéfalo e de coluna procurando vazamento
Gestação ou puerpérioDistúrbio hipertensivo; leucoencefalopatia posterior reversível; vasoconstrição cerebral reversível; trombose venosaPressão arterial e proteinúria; neuroimagem com estudo venoso quando houver bandeira neurológica
Imunossupressão, HIV, neoplasia ativaInfecção oportunista; metástase; toxoplasmose cerebralNeuroimagem antes do liquor; sorologias e liquor conforme a hipótese
Uso de analgésico em 10 ou mais dias por mêsCefaleia por uso excessivo de medicaçãoNenhum exame: o diagnóstico é o diário de cefaleia e a contagem de dias

As três réguas de bandeiras, lado a lado

RéguaDocumentoQuantas bandeirasCorte de idade
SNOOPProtocolo Nacional de Cefaleias nas Unidades de Urgência (ABN/SBCe, 2018)5 letras: sistêmico, neurológico, idade, início, padrãoInício após os 50 anos
SNNOOP10Do TP et al., Neurology, 201915 bandeirasInício após os 65 anos
NÃO É PRIMÁRIALeone DCMG et al., Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2025Frase de 12 letras, com item atribuído a 11 delas, cobrindo as 15 bandeiras do SNNOOP10Idade avançada; a tabela do artigo imprime "mais de 50 anos" na coluna do SNNOOP10 (ver nota)

Sensibilidade da tomografia sem contraste para hemorragia subaracnóidea, por tempo desde o início da dor (ICHD-3, item 6.2.2)

Tempo desde o início da dorSensibilidadeFalsos negativos, na proporção
Primeiras 6 horasPerto de 99%Cerca de 1 hemorragia perdida a cada 100 tomografias
12 horas98%Cerca de 1 a cada 50
24 horas93%Cerca de 1 a cada 14
7 dias50%1 a cada 2

Cefaleia por uso excessivo de medicação — limiar por classe e código da ICHD-3 (item 8.2)

Classe usada para tratar a criseCódigoDias de uso por mêsEquivalente no calendário
Ergotamina8.2.110 ou maisUm dia a cada três
Triptano8.2.210 ou maisUm dia a cada três
Analgésico simples: paracetamol, AAS, outros anti-inflamatórios8.2.315 ou maisDia sim, dia não
Opioide8.2.410 ou maisUm dia a cada três
Analgésico combinado (duas ou mais classes na mesma fórmula)8.2.510 ou maisUm dia a cada três
Múltiplas classes, nenhuma individualmente excedida8.2.610 ou mais, somadosUm dia a cada três

Arterite de células gigantes na urgência — o que a diretriz de 2021 do American College of Rheumatology recomenda

SituaçãoConduta recomendada
Suspeita de arterite, sem isquemia cranianaCorticoide oral em dose alta: prednisona 1 mg/kg até 80 mg/dia, em esquema diário — e não em dias alternados
Arterite recém-diagnosticada com ameaça de perda visualPulso intravenoso: metilprednisolona 500 a 1.000 mg ao dia por 3 a 5 dias
Confirmação histológicaBiópsia unilateral da artéria temporal, segmento maior que 1 cm, obtida em até 2 semanas do início do corticoide oral
Biópsia negativa com suspeita mantidaImagem vascular não invasiva dos grandes vasos, somada à avaliação clínica

Unidade da pressão liquórica: o critério da hipertensão intracraniana idiopática é pressão acima de 250 mm de liquor, o mesmo que 25 cmH₂O — não é milímetro de mercúrio. Do outro lado da mesma escala, a baixa pressão liquórica começa abaixo de 60 mm de liquor, ou 6 cmH₂O. Já a pressão intraocular do glaucoma agudo é medida em mmHg, e o limiar a partir do qual o risco de perda visual permanente sobe de forma dramática é 30 mmHg.

A regra das 6 horas tem duas condições na mesma frase: tomografia de terceira geração feita em até 6 horas do início da dor E laudada por radiologista qualificado. Alternativa que dispensa a punção com tomografia feita em 10 horas, ou que omite a qualificação do laudo, está fora da regra.

A xantocromia tem janela nos dois sentidos: entre 12 horas e 2 semanas do início dos sintomas, com análise espectrofotométrica. Puncionar cedo demais também engana.

O corte de idade muda com o documento: 50 anos no SNOOP brasileiro, 65 anos no SNNOOP10 e "acima de 60 anos" no comentário da ICHD-3 sobre arterite de células gigantes. O enunciado costuma dizer qual régua está usando; quando não diz, a régua brasileira é a de 50 anos.

Cefaleia isolada é apresentação minoritária de tumor intracraniano: a prevalência de cefaleia entre portadores de tumor vai de 32% a 71%, mas dor de cabeça sem nenhum outro sinal ocorre em apenas 2% a 16% dos pacientes.

Dois descuidos do artigo dos Arquivos de Neuro-Psiquiatria que adapta a lista para o português ficam registrados, para quem for consultá-lo. Primeiro: a coluna SNNOOP10 da Tabela 2 escreve a bandeira de idade como "older age (> 50 years)", enquanto a redação original dos mesmos autores da lista, e a reprodução dela na revisão de 2026 de García-Azorín e colaboradores no The Journal of Headache and Pain, dizem "onset after 65 years" — o número da lista internacional é 65, e o de 50 é o da régua brasileira de urgência. Segundo: a frase "NÃO É PRIMÁRIA" tem doze letras, e a Tabela 2 atribui item a onze delas — o A final fica sem bandeira correspondente.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A partir de que idade a cefaleia nova é bandeira

Depois dos 50 anos — régua brasileira de urgência

O Quadro 1 do protocolo nacional escreve o O de older como cefaleia que iniciou após os 50 anos. O mesmo corte aparece na lista de indicação de neuroimagem ambulatorial do protocolo de encaminhamento brasileiro: início da cefaleia em pessoa com mais de 50 anos.

Protocolo Nacional para Diagnóstico e Manejo das Cefaleias nas Unidades de Urgência do Brasil (ABN/SBCe, 2018) e TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolo 1 — Cefaleia (2021)

Depois dos 65 anos — lista internacional expandida

A redação original da bandeira de idade no SNNOOP10 é older age (onset after 65 years). É essa a redação depositada pelos autores junto com o artigo e reproduzida na tabela de bandeiras por categoria de cefaleia secundária de uma revisão de 2026 do The Journal of Headache and Pain.

Do TP et al., Red and orange flags for secondary headaches in clinical practice: SNNOOP10 list, Neurology 2019;92(3):134-144

Acima dos 60 anos — quando a hipótese é arterite

O comentário do item 6.4.1 da classificação diz que qualquer cefaleia recente e persistente em paciente com mais de 60 anos deve sugerir arterite de células gigantes e levar a investigação apropriada.

ICHD-3, item 6.4.1, Cephalalgia 2018;38(1):1-211

Na prova

Os três números respondem a perguntas diferentes, e é isso que o enunciado denuncia. Cinquenta anos é limiar de triagem escrito para a porta de entrada brasileira, onde o objetivo é não deixar passar; 65 anos é limiar de lista internacional, calibrado para reduzir falso-positivo em população de baixo risco; 60 anos é limiar de hipótese específica, e vem colado a couro cabeludo doloroso, claudicação de mandíbula e amaurose. Questão que cita nominalmente o protocolo brasileiro, a atenção primária ou a urgência do SUS usa 50. Questão que cita SNNOOP10 ou que pede a contagem de bandeiras usa 65. Quando a vinheta traz um paciente de 62 anos com dor temporal e VHS elevada — que o documento brasileiro chama de VSG —, o número da bandeira é irrelevante: a alternativa correta é começar corticoide, não discutir o corte etário.

Punção lombar depois de tomografia normal na suspeita de hemorragia subaracnóidea

Sempre puncionar — o ensino tradicional

A conduta clássica manda que todo paciente com suspeita de hemorragia subaracnóidea e tomografia inicial negativa seja submetido a punção lombar. O próprio artigo que a questiona abre nomeando essa regra como o ensino tradicional.

Perry JJ et al., BMJ 2011;343:d4277, introdução

Dispensar a punção se a tomografia foi feita em até 6 horas

Na coorte de 953 pacientes tomografados em até 6 horas do início da dor, as 121 hemorragias subaracnóideas foram todas identificadas pela tomografia — sensibilidade de 100% (IC 95% 97,0-100), com especificidade e valor preditivo negativo também de 100%. A conclusão do estudo condiciona o achado a tomógrafo de terceira geração e a laudo por radiologista qualificado.

Perry JJ et al., Sensitivity of computed tomography performed within six hours of onset of headache, BMJ 2011;343:d4277

Na prova

A distância entre as duas posições é de tecnologia e de tempo: a regra clássica nasceu com tomógrafos e cortes piores, e continua correta fora da janela de 6 horas — na mesma coorte, a sensibilidade global foi de 92,9%. O detalhe que decide a questão está sempre no enunciado, e é a hora: se a vinheta datar a dor em menos de 6 horas e disser que a tomografia foi normal, está pedindo a regra nova; se a dor começou ontem, na semana passada, ou se o enunciado não data, está pedindo a punção. Alternativa que dispensa a punção sem citar o intervalo, ou que cita 12 ou 24 horas como se fosse a mesma coisa, está errada por extrapolação.

Em quanto tempo a dor precisa chegar ao pico para ser trovoada

Menos de 1 minuto — a definição da classificação

O critério 4.4 exige dor forte de início abrupto, atingindo intensidade máxima em menos de 1 minuto e durando pelo menos 5 minutos. O protocolo brasileiro de urgência repete o mesmo número ao definir o cenário de cefaleia aguda emergente sem febre.

ICHD-3, item 4.4, e Protocolo Nacional de Cefaleias nas Unidades de Urgência do Brasil (ABN/SBCe, 2018)

Até 1 hora — o critério de inclusão da regra de decisão

A coorte que derivou e validou a Ottawa SAH Rule incluiu 2.131 adultos com cefaleia que atingiu o pico em até 1 hora, e não em até 1 minuto; dentro dela, o item chamado thunderclap headache designa o subgrupo com dor de pico instantâneo. A regra só se aplica a pacientes com essas características.

Perry JJ et al., Clinical decision rules to rule out subarachnoid hemorrhage for acute headache, JAMA 2013;310(12):1248-1255

Na prova

Não é contradição, é escopo: um documento define uma entidade clínica e o outro define quem entra num estudo. A confusão aparece quando o enunciado descreve dor que chegou ao máximo em vinte minutos e a banca quer saber se é trovoada — pela classificação, não é; pelo critério de inclusão da regra canadense, entra na população estudada. Quando o enunciado quiser o critério diagnóstico, ele usa a palavra trovoada ou pergunta a definição, e a resposta é 1 minuto. Quando quiser aplicar a regra de Ottawa, ele descreve a coorte: dor de pico em até 1 hora e exame neurológico normal. E, em qualquer das duas leituras, dor que sobe em minutos e é a primeira da vida continua sendo bandeira.

Qual exame confirma arterite de células gigantes

Biópsia da artéria temporal em primeiro lugar

A diretriz recomenda biópsia da artéria temporal em vez de ultrassom da artéria temporal para o diagnóstico, e em vez de ressonância das artérias cranianas. O argumento é operacional e está escrito no próprio documento: fora da Europa, a experiência com o ultrassom é menor, o método é operador-dependente e os sinais inflamatórios desaparecem rápido com o corticoide.

Maz M et al., 2021 American College of Rheumatology/Vasculitis Foundation Guideline for the Management of Giant Cell Arteritis and Takayasu Arteritis, recomendações 4 e 5

Ultrassom como exame de primeira linha

As recomendações europeias de 2018 sobre uso de imagem nas vasculites de grandes vasos colocam o ultrassom como ferramenta diagnóstica de primeira linha na arterite de células gigantes; biópsia e exames de imagem adicionais são considerados redundantes em quem tem imagem positiva e alta probabilidade clínica, e desnecessários quando o ultrassom é negativo e a probabilidade pré-teste é baixa. O registro espanhol ARTESER mostra o ultrassom deslocando a biópsia na prática depois dessa publicação.

De Miguel E et al., RMD Open 2022;8(2), sobre as recomendações EULAR de 2018 para uso de imagem em vasculites de grandes vasos

Na prova

A divergência é de disponibilidade e de treinamento, não de fisiopatologia — e os dois lados concordam no que importa para a prova brasileira: o corticoide começa antes de qualquer exame confirmatório, e a biópsia continua informativa se obtida em até 2 semanas do início do corticoide. Enunciado que pergunta o padrão-ouro histológico ou que cita a diretriz americana quer biópsia. Enunciado que descreve o sinal do halo ao ultrassom, ou que cita as recomendações europeias, quer imagem. Alternativa que manda aguardar o resultado da biópsia para iniciar o corticoide está errada nas duas réguas, porque o desfecho que se previne é cegueira irreversível.

06

Caso resolvido

Homem de 46 anos chega ao pronto-socorro às 14h30 dizendo que, às 13h, enquanto levantava uma caixa, sentiu uma dor de cabeça que "explodiu" na nuca e chegou ao máximo em segundos. A dor manteve-se forte, difusa, sem melhorar com dipirona tomada em casa. Vomitou duas vezes. Nunca teve dor de cabeça parecida; refere cefaleias ocasionais leves, que passam com analgésico comum. Nega febre, trauma, uso de anticoagulante e drogas. Fuma. Ao exame: consciente e orientado, PA 168x96 mmHg, FC 88 bpm, temperatura axilar 36,6 °C, sem déficit focal, fundo de olho sem papiledema, discreta resistência à flexão cervical.
Datar a dor
Início há 1 hora e 30 minutos, com pico em segundos. Isso preenche a definição de trovoada: intensidade máxima em menos de 1 minuto. O paciente está dentro da janela de 6 horas — o dado mais importante da vinheta não é a intensidade da dor, é a hora do relógio.
Contar as bandeiras
Início súbito e primeira cefaleia com essas características (O de onset); rigidez à flexão cervical (S de systemic, no formato brasileiro); início durante esforço. Pela Ottawa SAH Rule, o paciente tem idade de 40 anos ou mais, dor cervical, início durante esforço, trovoada e limitação de flexão cervical — cinco dos seis itens. Investigação obrigatória.
Escolher o exame
Tomografia de crânio sem contraste, imediata. Não é caso de ressonância como primeiro exame — a classificação diz que a ressonância não é o exame inicial da hemorragia subaracnóidea. Não é caso de tratar como crise de migrânea e reavaliar: o erro diagnóstico inicial na hemorragia subaracnóidea ocorre em um quarto a metade dos pacientes, e o rótulo errado mais comum é justamente migrânea.
Ler o resultado com o relógio na mão
Se a tomografia mostrar sangue, o caso vira neurointervenção: identificar aneurisma roto, que responde por 80% das hemorragias subaracnóideas espontâneas. Se vier normal, o paciente foi tomografado 1h30 após o início da dor, com laudo de radiologista qualificado — dentro da janela em que as 121 hemorragias da coorte canadense foram todas identificadas. Nessa situação, a punção lombar não é obrigatória.
Se a mesma vinheta tivesse trocado a hora
Se o paciente tivesse procurado o serviço no dia seguinte, com 24 horas de dor, a mesma tomografia normal significaria sensibilidade de 93% — uma hemorragia perdida a cada 14 exames — e a punção lombar passaria a ser obrigatória, procurando xantocromia, dentro da janela de 12 horas a 2 semanas do início dos sintomas.
O que não encerra o caso
Tomografia normal dentro da janela afasta hemorragia subaracnóidea, não afasta as outras causas de trovoada. Permanecem em aberto vasoconstrição cerebral reversível, dissecção arterial, trombose venosa e apoplexia hipofisária — a classificação só admite o rótulo de trovoada primária depois de imagem normal do encéfalo E dos vasos, e/ou liquor normal. Idade mais jovem e trovoada recorrente predizem síndrome de vasoconstrição cerebral reversível, e o artigo brasileiro que adapta a lista de bandeiras registra que ela pode ser tão comum quanto a hemorragia subaracnóidea na emergência: até 94% dos casos se apresentam como trovoada, segundo a revisão sistemática que ele cita.
07

Agora feche você

Mulher de 31 anos, com índice de massa corporal de 36 kg/m², procura o ambulatório por dor de cabeça diária há quatro meses, holocraniana, que piora ao acordar e quando ela tosse. Nos últimos dois meses passou a ouvir um ruído "como um batimento" no ouvido direito e teve três episódios de escurecimento visual de poucos segundos, ao levantar-se. Usa anticoncepcional combinado. Toma paracetamol com cafeína em cerca de 8 dias por mês. Ao exame: PA 124x78 mmHg, sem febre, sem rigidez de nuca, força e sensibilidade normais, sem dismetria; à fundoscopia, bordas do disco óptico borradas nos dois olhos. Campo visual de confrontação com alargamento da mancha cega.
Bandeiras presentes
Papiledema à fundoscopia; cefaleia nova, diária e progressiva; piora com decúbito e com Valsalva; zumbido pulsátil; obscurecimentos visuais transitórios. Papiledema é bandeira isolada suficiente — está no N do SNOOP brasileiro e na lista do SNNOOP10 —, e obriga investigar a causa do aumento da pressão intracraniana.
Hipóteses que a bandeira abre
Hipertensão intracraniana idiopática é a hipótese principal pelo perfil: mulher obesa em idade fértil, com papiledema e zumbido pulsátil. Mas trombose venosa cerebral entra obrigatoriamente no diferencial, e o contexto reforça — anticoncepcional combinado é condição pró-trombótica, e a cefaleia da trombose venosa não tem característica própria, podendo ser progressiva e vir com sinais de hipertensão intracraniana.
Conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Aceitar tomografia normal como fim de linha, sem olhar a hora É o erro mais caro do capítulo. A sensibilidade da tomografia para hemorragia subaracnóidea é perto de 99% nas primeiras 6 horas, 98% em 12 horas, 93% em 24 horas e 50% em 7 dias. Fora da janela de 6 horas, tomografia normal em paciente com trovoada obriga punção lombar com pesquisa de xantocromia. A alternativa que dispensa a punção sem datar a dor está errada por omissão do dado que decide.
  2. 2Chamar de trovoada uma dor forte que demorou a subir A definição não é sobre intensidade, é sobre velocidade: pico em menos de 1 minuto, com duração de pelo menos 5 minutos. "A pior dor da vida" é descrição de paciente e aparece também em migrânea. O contrário também engana: a hemorragia subaracnóidea pode cursar com dor apenas moderada e sem nenhum sinal associado — o que faz o diagnóstico é o início abrupto.
  3. 3Esperar o resultado da biópsia para começar o corticoide na suspeita de arterite Parece rigor diagnóstico e custa visão. A diretriz americana de 2021 recomenda obter a biópsia da artéria temporal em até 2 semanas do início do corticoide oral, o que só faz sentido porque o corticoide vem primeiro. Com ameaça de perda visual, a preferência é pulso intravenoso de metilprednisolona, 500 a 1.000 mg ao dia por 3 a 5 dias. O intervalo entre a perda visual de um olho e a do outro é habitualmente menor que uma semana.
  4. 4Puncionar antes de imaginar quem tem papiledema, déficit focal ou rebaixamento de consciência Papiledema não é achado para anotar e seguir em frente: é bandeira que obriga imagem antes de qualquer punção lombar. A lista de situações em que a imagem precede a agulha, e a discussão de por que o antibiótico da meningite não espera pela tomografia, estão no capítulo de meningites — mas a regra de sequência vale para qualquer suspeita de hipertensão intracraniana.
  5. 5Descartar trombose venosa cerebral porque a dor "não tem cara de" Ela não tem cara nenhuma. A classificação diz que a cefaleia da trombose venosa não tem característica específica, imita migrânea com e sem aura, cefaleia em salvas, hemicrania contínua e cefaleia por baixa pressão liquórica, e pode ser inclusive em trovoada. Está presente em 80% a 90% dos casos e é o sintoma inaugural mais frequente. O que a denuncia é o contexto pró-trombótico — puerpério, anticoncepcional combinado, trombofilia, desidratação, neoplasia — e a persistência da dor nova.
  6. 6Aumentar o analgésico de quem diz que a medicação parou de funcionar É a descrição da cefaleia por uso excessivo de medicação, a causa mais prevalente de cefaleia secundária nos dois estudos brasileiros citados nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria. O critério exige dor em 15 ou mais dias por mês e uso regular por mais de 3 meses; o limiar de dias é 10 por mês para triptano, ergotamina, opioide e analgésico combinado, e 15 por mês para analgésico simples. O protocolo brasileiro de urgência é explícito: analgésicos devem ser abolidos, porque o uso diário piora o quadro.
  7. 7Somar as caixas separadas e concluir que não há excesso A ICHD-3 tem código próprio para isso — uso excessivo de medicação atribuído a múltiplas classes não individualmente excedidas. O paciente que toma triptano em 6 dias e anti-inflamatório em 7 dias por mês não excede nenhum limiar isolado, mas soma 13 dias e fecha o diagnóstico. Do outro lado, quem abusa de um analgésico combinado é codificado pela fórmula, e não por cada componente dela.
  8. 8Pedir tomografia para tranquilizar quem tem cefaleia primária típica e nenhuma bandeira O protocolo brasileiro de urgência orienta, na cefaleia tipo tensão episódica, informar paciente e família sobre a baixa gravidade e a ausência de necessidade de encaminhamento a especialista ou de exames complementares. A indicação ambulatorial de neuroimagem tem lista fechada: padrão novo ou mudança recente, início após os 50 anos, evolução progressiva com ápice em semanas a meses, dor que acorda durante o sono, e dor desencadeada por esforço, coito, tosse, atividade física ou Valsalva.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a cefaleia em trovoada ("thunderclap") — dor de intensidade máxima em segundos a 1 minuto, descrita como a pior da vida — associada a rigidez de nuca e vômitos é o quadro clássico de hemorragia subaracnóidea (habitualmente por ruptura de aneurisma), um sinal de alarme que impõe TC de crânio e, se negativa, punção lombar. A enxaqueca tem instalação gradual (minutos a horas), é recorrente e não cursa com rigidez de nuca nem início em trovoada. A cefaleia tensional é de intensidade leve a moderada, em pressão/aperto, sem sinais meníngeos. A cefaleia em salvas é estritamente unilateral periorbitária com sinais autonômicos (lacrimejamento, rinorreia), não holocraniana com meningismo. A arterite temporal ocorre em maiores de 50 anos, mas com cefaleia subaguda temporal, claudicação mandibular e VHS elevado, não em trovoada.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as cinco letras do SNOOP brasileiro com o conteúdo de cada uma, e diga em seguida os três números da trovoada: pico em menos de 1 minuto para definir; 6 horas para a tomografia encerrar; 12 horas a 2 semanas para a xantocromia valer. Depois recite a curva de sensibilidade da tomografia — 99% em 6 horas, 98% em 12, 93% em 24, 50% em 7 dias — e traduza cada uma em falsos negativos. Fecha dizendo os limiares do uso excessivo de medicação: 10 dias por mês para triptano, ergotamina, opioide e analgésico combinado; 15 para analgésico simples; e cefaleia em 15 ou mais dias por mês por mais de 3 meses.

em 30 dias

Refaça a tabela bandeira → hipótese → exame sem olhar, começando por trovoada, febre, déficit focal, papiledema, idade acima de 50 anos, dor progressiva, dor postural, gestação e imunossupressão. Depois responda em voz alta: por que a tomografia normal em 3 horas encerra e em 30 horas não; por que o corticoide da arterite não espera a biópsia e qual é o prazo dela; por que se pede imagem com estudo venoso antes da punção em quem tem papiledema; e quais são os três códigos de uso excessivo que a prova mistura — analgésico combinado, múltiplas classes não individualmente excedidas, e analgésico simples. Reconstrua ainda os quatro cenários do protocolo brasileiro de urgência — aguda recorrente, crônica não progressiva, crônica progressiva, aguda emergente com e sem febre — dizendo, para cada um, o diagnóstico etiológico típico e o destino do paciente. Fecha listando o que este capítulo remete: critérios e tratamento das primárias, meningite, AVC, trauma de crânio e glaucoma agudo.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 68 anos chega à unidade de urgência com dor de cabeça há três semanas, contínua, na têmpora direita, que piora ao pentear o cabelo. Conta que sente cansaço nos músculos da mandíbula quando mastiga carne e que emagreceu 4 kg. Hoje, pela manhã, teve um episódio de perda de visão do olho direito que durou cerca de dois minutos e voltou ao normal. Nunca teve enxaqueca. Conduza o atendimento: identifique as bandeiras, decida quais exames pedir e em que ordem, e defina o que precisa ser iniciado antes de qualquer resultado. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cefaleias secundárias e sinais de alarme (red flags) — Preparatório para provas | OsceLabs