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Esclerose múltipla e miastenia gravis: excluir a infecção ou tratá-la junto

Diferenciar surto, exacerbação e crise antes de tratar

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos apresenta, há 2 dias, diplopia binocular e ptose flutuantes que pioram ao fim do dia. Ao exame: PA 118x74 mmHg, FC 80 bpm; ptose bilateral que aumenta com o olhar sustentado para cima, fatigabilidade da musculatura proximal dos membros e voz anasalada após conversa prolongada, com reflexos e sensibilidade normais. O anti-receptor de acetilcolina é positivo. Foi iniciada piridostigmina. Antes de programar tratamento imunomodulador e eventual timectomia, qual exame de imagem é imprescindível?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da piora aguda em duas doenças neuroimunes que o Sistema Único de Saúde regula por protocolo próprio: a esclerose múltipla e a miastenia gravis. O eixo é um só, e é onde as duas se cruzam na porta do pronto-socorro — o paciente com diagnóstico já feito que chega pior do que estava, quase sempre depois de uma infecção. Nas duas doenças a infecção é o dado que decide; nas duas ela decide em sentido contrário.

Na esclerose múltipla, febre ou infecção desqualificam o episódio como surto e desaconselham o corticoide em alta dose até que a infecção esteja afastada. Na miastenia gravis, a infecção é o precipitante clássico da crise, e o tratamento da crise corre junto com o da infecção, não depois dele. O mesmo antecedente, portanto, muda o verbo: numa doença ele exclui, na outra ele explica.

A régua brasileira são dois protocolos clínicos federais. O da miastenia gravis foi aprovado pela Portaria Conjunta número onze, de vinte e três de maio de dois mil e vinte e dois, e substituiu norma de dois mil e quinze. O da esclerose múltipla foi aprovado pela Portaria Conjunta da secretaria de atenção especializada com a secretaria de ciência e tecnologia número oito, de doze de setembro de dois mil e vinte e quatro, e substituiu a versão de janeiro de dois mil e vinte e dois. Cada um define, duas vezes e de modos que não coincidem, exatamente o evento agudo que ele existe para governar.

Ficam de fora o diagnóstico diferencial da fraqueza ascendente aguda com líquor de proteína alta, que é da síndrome de Guillain-Barré, e a investigação da massa de mediastino anterior, com a indicação cirúrgica do timo e a análise de subgrupo da timectomia, que pertence à cirurgia torácica. Aqui o timo entra por uma linha só: a imagem que o protocolo manda pedir antes de qualquer operação em quem tem miastenia.

03

O que muda decisão

A mesma febre, dois verbos

Duas mulheres jovens chegam na mesma noite. A primeira tem esclerose múltipla remitente-recorrente, está estável há meses e conta que a perna esquerda voltou a arrastar há dois dias. Tem disúria e febre baixa. A segunda tem miastenia gravis em uso de piridostigmina, teve infecção respiratória na semana passada e agora engasga com líquido, tosse fraco e cansa para falar frases inteiras. As duas pioraram depois de uma infecção. As condutas são opostas em quase tudo.

Na primeira, a infecção urinária é o próprio argumento contra chamar aquilo de surto. O protocolo federal da esclerose múltipla escreve que se considera surto o evento típico de inflamação desmielinizante aguda na ausência de infecção ou febre, e repete a ideia adiante em outra chave, dizendo que o surto só se diagnostica depois de excluída a infecção, principalmente do trato urinário e do trato respiratório. Tratar a infecção e reavaliar é conduta, não adiamento: a piora que some quando a temperatura baixa era condução nervosa deprimida pelo calor, não lesão nova.

Na segunda, a infecção é exatamente o precipitante que o protocolo da miastenia lista em primeiro lugar entre os fatores a reconhecer e tratar na crise, ao lado de distúrbio hidroeletrolítico, estresse emocional, gestação, cirurgia, exercício extenuante, medicamento que age sobre a transmissão neuromuscular e tratamento irregular. Aqui não se espera a infecção resolver para depois tratar a fraqueza. O que ameaça a vida é a musculatura orofaríngea que já não protege a via aérea e o diafragma que já não ventila, e o suporte entra junto com o antibiótico.

A regra prática que sai daí é curta. Diante de piora aguda em doença neuroimune conhecida, a primeira pergunta não é qual imunomodulador ajustar: é se há infecção. Na esclerose múltipla, achar infecção muda o diagnóstico do episódio. Na miastenia gravis, achar infecção confirma o mecanismo e apressa o suporte.

Vale nomear o fenômeno que explica a primeira cena, porque ele não tem nome nos dois protocolos e é o que separa a piora falsa da verdadeira. O calor reduz a margem de segurança da condução em axônio já desmielinizado: uma fibra que conduzia com folga passa a bloquear quando a temperatura sobe, e o sintoma antigo reaparece sem que exista lesão nova. Por isso a piora térmica é reversível com a temperatura, aparece em território já conhecido do paciente e não vem acompanhada de sinal neurológico inédito. Febre, exercício intenso, banho quente e dia quente produzem o mesmo efeito, e nenhum deles é surto.

O surto que o protocolo define duas vezes

O protocolo da esclerose múltipla precisa da palavra surto em duas funções distintas: para fechar o diagnóstico da doença, que se apoia em disseminação no tempo, e para autorizar o tratamento do episódio agudo. Escreve a definição em cada uma delas, e as duas redações não são a mesma.

Na seção diagnóstica, apoiada nos critérios de McDonald, o surto é o evento típico de inflamação desmielinizante aguda com duração de pelo menos vinte e quatro horas, na ausência de infecção ou febre, documentado por exame neurológico feito na mesma época da manifestação. Na seção do tratamento, o surto passa a ser o surgimento de sintomas novos ou a piora dos existentes com duração superior a vinte e quatro horas, na ausência de febre, infecção ou qualquer outra causa, e depois de um período estável de pelo menos um mês.

As diferenças não são estilísticas. A primeira redação inclui o episódio que dura exatamente vinte e quatro horas; a segunda o exclui. A segunda acrescenta duas exigências que a primeira não faz: um mês de estabilidade antes e a negativa de qualquer outra causa, e não só de febre e infecção. Um paciente com déficit de vinte e quatro horas cravadas, três semanas depois do episódio anterior, é portador de surto pela seção que diagnostica a doença e não é pela seção que autoriza o corticoide.

Há ainda uma terceira redação, no anexo em que o mesmo documento descreve os desfechos dos estudos que revisou: sintomas neurológicos novos ou em agravamento, instalados em dias ou semanas, com duração de pelo menos vinte e quatro horas na ausência de febre. Aqui a infecção desapareceu da cláusula e sobrou a febre. Quem estuda pela definição do anexo perde justamente a exclusão que a clínica mais usa, porque infecção urinária sem febre existe e é comum na doença que cursa com bexiga neurogênica.

Diante de piora, o que resolve é medir três coisas antes de nomear: há quanto tempo o sintoma está lá, quanto tempo o paciente ficou estável antes dele, e o que mais poderia explicá-lo. Nenhuma das três é exame de imagem.

Também vale reparar em que companhia cada redação aparece, porque isso explica a incoerência sem desculpá-la. A definição da seção diagnóstica existe para contar eventos ao longo de anos e demonstrar disseminação no tempo; ela precisa ser generosa, porque episódios antigos costumam chegar por relato. A definição da seção de tratamento existe para autorizar dose alta de corticoide num paciente concreto; ela precisa ser restritiva, porque a decisão tem risco. Cada uma serve bem ao próprio propósito. O problema aparece quando as duas são lidas como se fossem uma.

Excluir infecção antes do corticoide, e por dois motivos que não se confundem

A exclusão de infecção aparece duas vezes no protocolo da esclerose múltipla, e é fácil ler as duas como repetição. Não são. A primeira vez ela é parte da definição: com infecção, aquilo não é surto, e o problema é de diagnóstico do episódio. A segunda vez ela é condição de segurança para a droga: o texto registra que o corticoide em alta dose reduz a resistência imunitária e que é preciso excluir infecção, principalmente do trato urinário, antes de iniciar a pulsoterapia, além de orientar o paciente a informar qualquer sinal de infecção durante o tratamento.

A distinção importa na beira do leito porque muda o que fazer quando a infecção é encontrada tarde. Se o argumento fosse só diagnóstico, achar bacteriúria no meio da pulsoterapia significaria apenas ter errado o rótulo. Como o segundo argumento é farmacológico, achar infecção com o corticoide já correndo é evento de segurança: trata-se a infecção, reavalia-se a indicação e vigia-se a piora.

Vale a pena separar também o que a exclusão de infecção não faz. Ela não substitui a diferenciação entre recaída e progressão, que o protocolo pede na mesma frase. Sintoma que piora devagar e sem platô, em paciente que vinha em declínio contínuo, não vira surto por estar afebril: é progressão, e progressão não responde a pulso de corticoide.

Por fim, o corticoide da esclerose múltipla acelera a recuperação do episódio; ele não é tratamento de manutenção nem substitui o modificador de curso. Quem pulsa a cada queixa acaba tratando pseudopiora térmica com dose alta repetida, some com o registro da atividade real da doença e adia a decisão que de fato muda o curso, que é revisar a linha de tratamento.

A pulsoterapia que se conta em frascos

A posologia do surto no protocolo brasileiro é uma linha só: metilprednisolona intravenosa, um grama por dia, durante três a cinco dias. A duração exata fica com o médico assistente, que individualiza levando em conta os eventos adversos e o controle deles. Não há esquema de retirada obrigatório escrito, e não há corticoide oral de continuidade prescrito como regra.

A apresentação padronizada é pó para solução injetável de quinhentos miligramas. A dose diária, portanto, são dois frascos, e o esquema completo consome de seis a dez frascos. Essa aritmética simples é o que costuma separar a prescrição correta da prescrição impossível de aviar na unidade, e é também o que explica por que a decisão entre três e cinco dias tem consequência logística e não apenas clínica.

A plasmaférese existe no protocolo como terapia adjuvante para exacerbação nas formas recorrentes, e o próprio texto declara a fragilidade do que a sustenta: um único ensaio de fase um e um único ensaio de fase dois. Isso a coloca como recurso do episódio grave que não respondeu, e não como alternativa de primeira escolha ao corticoide.

Duas consequências práticas fecham a seção. A primeira é que o paciente com surto e infecção ativa não fica sem conduta: recebe o tratamento da infecção, é reavaliado, e a pulsoterapia entra depois, se o déficit persistir e a causa alternativa tiver caído. A segunda é que o registro do episódio importa mais do que parece — o número de surtos com resolução incompleta no ano anterior é um dos critérios que classificam a doença como altamente ativa e abrem o degrau seguinte de tratamento.

A crise miastênica também tem duas definições, e a distância entre elas é uma intubação

O protocolo da miastenia gravis abre dizendo que a crise miastênica é definida por insuficiência respiratória associada a fraqueza muscular grave. Adiante, na seção que ensina a tratá-la, escreve que a crise é o episódio de rápida deterioração da força muscular suficiente para causar insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica.

Entre uma redação e outra cabe um paciente inteiro: aquele que ventila mal, retém gás carbônico, cansa, e ainda assim é conduzido sem tubo. Pela abertura do documento ele está em crise. Pela seção de tratamento ele ainda não está. E o rótulo não é decorativo, porque é ele que aciona a admissão em terapia intensiva, a suspensão do sintomático e a indicação de plasmaférese ou imunoglobulina.

O documento oferece, sem chamar atenção para isso, a saída para o impasse. Ao descrever a graduação de gravidade, registra que o uso de sonda nasogástrica sem intubação já coloca o paciente na classe quatro-b. Ou seja: a incapacidade de proteger a via aérea, medida pela deglutição, gradua o doente antes que o ventilador entre. Quem espera o critério estrito da segunda definição está esperando a complicação para nomear o quadro que a antecede.

A leitura que sobra é clínica e não terminológica. A crise da miastenia é falência de bomba respiratória, e falência de bomba se anuncia por dados de exame, não por gasometria tardia: fala entrecortada, tosse fraca, engasgo com líquido, incapacidade de contar em voz alta numa expiração, uso de musculatura acessória e queda progressiva da capacidade vital. Rebaixamento e hipoxemia são achados de quem já perdeu a janela.

Convém insistir num ponto que a oximetria atrapalha. Na falência neuromuscular, a troca alveolar está preservada: o pulmão continua oxigenando, o que falha é o fole que o ventila. A saturação, por isso, cai tarde, e um valor confortável em ar ambiente não afasta nada. O mesmo vale para a gasometria, que só mostra retenção quando a musculatura já não compensa. Quem espera esses dois números para decidir está usando marcadores que, nesta doença, chegam depois da decisão.

O remédio que se suspende justamente quando a fraqueza é máxima

O tratamento sintomático da miastenia gravis é a piridostigmina, que prolonga a permanência da acetilcolina na fenda. A maioria dos adultos precisa de sessenta a cento e vinte miligramas a cada quatro a seis horas, e o protocolo fixa teto de setecentos e vinte miligramas por dia, justificado pelo risco de crise colinérgica.

O contraintuitivo aparece no quadro de tratamento da crise. Entre as medidas específicas está a avaliação da suspensão do anticolinesterásico, por vinte e quatro a setenta e duas horas, em duas situações: no paciente que já está em ventilação mecânica e para o diagnóstico diferencial com crise colinérgica. Quem entende a droga como quem entende insulina — piorou, aumenta — faz exatamente o contrário do protocolo.

As duas razões são distintas e valem separadas. No paciente ventilado, o anticolinesterásico deixou de ser necessário para sustentar a ventilação, que a máquina já faz, e continua produzindo secreção brônquica abundante, que atrapalha. Na dúvida entre crise miastênica e crise colinérgica, a suspensão é o próprio teste: se a força melhora sem a droga, o excesso era dela.

Há ainda a situação inversa, também escrita: no paciente que chega em crise sem diagnóstico prévio de miastenia, o protocolo prevê iniciar o anticolinesterásico na fase inicial do tratamento. A mesma droga entra em quem nunca a usou e sai de quem já a usava em excesso. O que decide não é a gravidade, é o que o paciente vinha tomando.

A crise colinérgica se reconhece pelo que sobra além da fraqueza: miose, salivação e secreção brônquica aumentadas, cólica, diarreia, bradicardia e fasciculação. A crise miastênica não produz esse cortejo. Diante de um paciente fraco, encharcado de secreção e bradicárdico, subir a dose é apostar contra o exame.

O corticoide que pode produzir a crise que veio tratar

A prednisona é peça central do tratamento modificador da miastenia gravis, e o protocolo brasileiro descreve como introduzi-la com uma cautela que raramente é ensinada. Recomenda iniciar com doses baixas, de quinze a vinte miligramas por dia, com aumento gradual até o máximo de um miligrama por quilo por dia.

E registra explicitamente o motivo. Começar direto com um miligrama por quilo é possível, mas exige atenção à possibilidade de piora clínica transitória, capaz de desencadear a própria crise miastênica. Por isso, escreve o documento, muitos neurologistas iniciam em dias alternados, com dose inicial de dez miligramas e aumento de dez miligramas a cada três dias, até setenta e cinco centésimos de miligrama por quilo na forma ocular, ou até cem miligramas, ou um e meio miligrama por quilo, em dias alternados, na forma generalizada.

A consequência prática é uma inversão de reflexo. Na esclerose múltipla, o corticoide em alta dose é o tratamento do episódio agudo e entra rápido. Na miastenia gravis, o corticoide é tratamento de manutenção e entra devagar, porque a subida rápida pode empurrar o paciente para a ventilação. Levar o hábito de uma doença para a outra produz erro nos dois sentidos: pulsar quem precisava de escalonamento lento, e escalonar devagar quem precisava de pulso.

O escalonamento lento tem preço, e o protocolo o compensa com poupadores. A azatioprina começa com cinquenta miligramas por dia e sobe até dois a três miligramas por quilo por dia, com hemograma e transaminases a cada três meses; deve ser suspensa se os leucócitos caírem a dois mil e quinhentos por milímetro cúbico. O objetivo declarado da associação é justamente reduzir a dose de prednisona, não somar efeito.

Há uma consequência de calendário que costuma escapar. Enquanto a prednisona sobe em degraus de dias alternados e o imunossupressor leva semanas a meses para agir, o paciente permanece dependente do sintomático e vulnerável a qualquer precipitante. É nesse intervalo que a infecção banal, o antibiótico escolhido sem conferência e a cirurgia eletiva mal programada produzem crise. Escalonar devagar é correto, e exige combinar o que fazer se a fraqueza aumentar antes de a escada terminar.

A lista que se lê antes de prescrever, e não depois de piorar

O protocolo da miastenia gravis fecha com um quadro de medicamentos que podem desencadear ou piorar a doença, e é a página mais útil para quem não é neurologista, porque quase tudo ali é prescrição de rotina de outra especialidade.

Entre os antibióticos estão os aminoglicosídeos — gentamicina, neomicina, tobramicina —, as fluoroquinolonas — ciprofloxacino, levofloxacino, norfloxacino — e os macrolídeos — azitromicina, claritromicina, eritromicina. Entre os cardiovasculares, os betabloqueadores atenolol, labetalol, metoprolol e propranolol, além de procainamida e quinidina. No grupo restante, anticorpos monoclonais contra a morte celular programada tipo um, toxina botulínica, cloroquina, hidroxicloroquina, magnésio, penicilamina, quinina, fenitoína, morfina e barbitúricos. Somam-se os anestésicos e os bloqueadores neuromusculares.

A leitura clínica é direta e desconfortável: a infecção respiratória que precipita a crise costuma ser tratada com macrolídeo ou quinolona, e a infecção urinária, com quinolona. O antibiótico escolhido por hábito pode aprofundar a fraqueza que motivou a consulta. Isso não proíbe tratar infecção em quem tem miastenia; obriga a escolher a classe olhando o quadro, e a vigiar a ventilação depois de prescrever.

O mesmo raciocínio vale para a enxaqueca tratada com betabloqueador, para a arritmia tratada com propranolol e para a doença reumatológica em uso de hidroxicloroquina. Nenhum desses é veneno; todos são candidatos a explicar uma piora que, sem a lista em mãos, seria atribuída à doença.

E há a ponta anestésica, que o protocolo trata na seção perioperatória: a azatioprina interfere no efeito da succinilcolina, e os bloqueadores não despolarizantes exigem cuidado próprio. Quem opera um paciente com miastenia precisa que a equipe de anestesia saiba do diagnóstico antes da sala, não na indução.

O sulfato de magnésio que a obstetrícia manda dar e a neurologia manda evitar

A colisão mais nítida entre normas brasileiras neste tema está na gestante. O protocolo da miastenia gravis escreve que o sulfato de magnésio deve ser evitado, mesmo na pré-eclâmpsia e na eclâmpsia, em função do seu efeito bloqueador neuromuscular. A régua obstétrica, por sua vez, faz do sulfato de magnésio a droga de eleição para prevenir e tratar a convulsão eclâmptica, e a recomenda a partir de patamar pressórico definido.

As duas frases não se anulam porque descrevem riscos diferentes na mesma paciente. O magnésio compete com o cálcio na liberação pré-sináptica de acetilcolina; numa junção neuromuscular já com receptores reduzidos, ele pode ser a gota que leva à insuficiência ventilatória. Do outro lado, a eclâmpsia não tratada mata. O que a colisão exige não é escolher um lado de antemão, e sim reconhecer que a gestante com miastenia gravis e pré-eclâmpsia grave é caso de decisão conjunta entre obstetrícia, neurologia e terapia intensiva, com anticonvulsivante alternativo considerado e ventilação disponível se o magnésio for usado assim mesmo.

A gestação, por si, já é fator precipitante listado. O protocolo registra que a gravidez e o puerpério podem cursar com exacerbações, inclusive crise, de comportamento variável e imprevisível, e que o risco é maior nos primeiros anos após o diagnóstico e nas pacientes cuja doença ainda não está controlada. A via de parto segue indicação obstétrica; a anestesia local ou regional costuma ser segura, respeitados os medicamentos proscritos.

Há ainda o recém-nascido. Cerca de um em cada dez filhos de mãe com miastenia apresenta a forma neonatal transitória, por passagem de anticorpo materno pela placenta. O início pode não ser imediato — horas ou dias depois do nascimento —, o quadro dura de duas semanas a alguns meses e a recuperação espontânea costuma ocorrer em torno de quatro semanas. Por isso o protocolo manda manter o neonato em monitorização por pelo menos quarenta e oito horas e avisar os pais da possibilidade. O diagnóstico nele é clínico: não se exige dosagem de anticorpo nem eletroneuromiografia no recém-nascido.

O anticorpo que muda a cirurgia e muda o comprimido

Na maioria dos pacientes, cerca de oito e meio em cada dez, a miastenia gravis é causada por anticorpo contra o receptor de acetilcolina. Em torno de um e meio em cada dez, esses anticorpos não são encontrados, e o paciente é classificado como soronegativo. Nesse grupo, o anticorpo contra a tirosinoquinase músculo-específica é o mais frequente, presente em cerca de metade deles.

A distinção não é acadêmica, porque muda duas condutas ao mesmo tempo. Na miastenia por anticorpo contra a tirosinoquinase músculo-específica, o protocolo escreve que a timectomia não está indicada e que os anticolinesterásicos não são efetivos, podendo até piorar a doença. Prescrever piridostigmina de rotina nesse subtipo é a receita de uma piora que será lida como progressão da doença.

O quadro clínico ajuda a suspeitar antes do resultado do anticorpo. Esse subtipo costuma acometer musculatura bulbar, língua, face, pescoço e cinturas escapulares, com atrofia, e leva à insuficiência respiratória com mais frequência. Fraqueza bulbar desproporcional à ocular, em paciente que não melhora com o sintomático, é o retrato.

Existe ainda o grupo das síndromes miastênicas congênitas, que não são autoimunes. Nelas não há benefício de corticoide, imunossupressor, plasmaférese, imunoglobulina ou timectomia, e o tratamento inicial é o anticolinesterásico — exceto em subtipos raros, como a síndrome do canal lento, a deficiência de acetilcolinesterase da placa motora e a deficiência da proteína associada ao receptor, nos quais a piridostigmina está contraindicada. A ausência de resposta, ou a piora, com o anticolinesterásico é um dos sinais que apontam para esses subtipos, confirmados por análise genética.

Quanto ao timo, o protocolo entra por uma linha só, e ela é operacional: antes de qualquer procedimento cirúrgico, além de exames de rotina, eletrocardiograma e radiografia de tórax, indica-se avaliação das funções cardíaca e pulmonar e o estudo estrutural do tórax por tomografia computadorizada, procurando timoma e possível compressão traqueal. A radiografia normal não substitui esse pedido.

Junção neuromuscular ampliada: terminal nervoso com vesículas, fenda sináptica e membrana muscular pregueada, com anticorpos em forma de ípsilon ancorados nos receptores.
O alvo do anticorpo dentro da junção neuromuscular muda o subtipo da doença e, com ele, a indicação de timectomia e a resposta ao anticolinesterásico.

O critério de entrada que o parágrafo seguinte afrouxa

O protocolo da miastenia gravis diz, na seção de critérios de inclusão, que entram os pacientes com manifestações clínicas compatíveis e pelo menos um exame complementar confirmatório. A frase imediatamente seguinte admite quem não tem nenhum: para o paciente com quadro clínico compatível e resultados negativos tanto de anticorpo quanto de eletroneuromiografia, preconiza-se prova terapêutica com piridostigmina por três meses, para avaliação de resposta e confirmação diagnóstica.

O critério e a exceção estão a poucas linhas de distância, e a exceção não é rara: é justamente o subgrupo soronegativo, que não é pequeno. Na prática, isso significa que a soronegatividade não fecha a porta do protocolo — atrasa a confirmação em um trimestre e a transfere para a resposta clínica.

Vale saber o que cada exame mede antes de pedir. O protocolo determina priorizar a dosagem sérica do anticorpo contra o receptor de acetilcolina. Na eletroneuromiografia, o teste de escolha para suspeita de disfunção da junção neuromuscular é a estimulação nervosa repetitiva, e o estudo é considerado positivo quando se registra decremento do potencial de ação muscular composto maior que dez por cento entre o primeiro e o quarto ou quinto estímulo. A sensibilidade varia conforme o segmento anatômico examinado, o que explica exame normal em doença ocular pura.

O acompanhamento tem periodicidade escrita: reavaliação clínica e laboratorial pelo menos a cada três meses, com graduação por classificação de gravidade e escala quantitativa. Para quem usa prednisona, glicemia trimestral, avaliação oftalmológica e densitometria óssea periódica; para quem usa azatioprina, hemograma e transaminases trimestrais.

Uma última observação sobre a idade dessas réguas, porque ela explica o que falta nelas. A busca de evidência que sustenta o protocolo da miastenia gravis foi encerrada em vinte e nove de agosto de dois mil e dezenove numa base e em dezoito de outubro de dois mil e dezoito em outra, quase quatro anos antes da portaria que o aprovou. Terapias mais recentes para a doença refratária não estão ali porque não podiam estar; o texto é honesto ao dizer que, para a doença refratária, não há guia terapêutico claro e de consenso.

04

Da piora ao rótulo, e de cada rótulo à sua conduta

A sequência abaixo resolve a maioria das situações agudas destas duas doenças sem exame de imagem novo e sem dosagem urgente de anticorpo, porque o que decide está na história, no relógio e no exame da ventilação.

  1. 1Confirme qual é a doença de base e o que o paciente vinha tomando. A mesma piora tem conduta oposta na esclerose múltipla e na miastenia gravis, e a suspensão ou o aumento do sintomático depende de o paciente já usá-lo.
  2. 2Procure infecção ativa, com atenção ao trato urinário e ao respiratório. Este é o passo que muda o diagnóstico do episódio numa doença e confirma o mecanismo na outra.
  3. 3Na esclerose múltipla, meça o tempo do sintoma e o tempo de estabilidade anterior. Menos de vinte e quatro horas, ou menos de um mês de estabilidade, ou causa alternativa presente: não é surto pela régua do tratamento.
  4. 4Se a piora sumir quando a febre baixar ou a infecção for tratada, era pseudopiora térmica. Não pulse, registre o episódio como intercorrência e reavalie a adesão ao modificador de curso.
  5. 5Confirmado o surto e afastada a infecção, prescreva metilprednisolona intravenosa, um grama por dia, por três a cinco dias, e informe o paciente sobre sinais de infecção durante o tratamento.
  6. 6Na miastenia gravis, examine a bomba respiratória antes de qualquer exame: fala entrecortada, tosse fraca, engasgo com líquido, uso de musculatura acessória, capacidade vital em queda.
  7. 7Deglutição comprometida a ponto de exigir sonda, mesmo sem intubação, já gradua o paciente como grave. Não espere a gasometria alterar para tratar como crise.
  8. 8Admita em terapia intensiva, monitorize a função respiratória, garanta via aérea quando indicado e inicie plasmaférese ou imunoglobulina humana.
  9. 9Reveja o anticolinesterásico em vez de aumentá-lo: no paciente ventilado, e na dúvida com crise colinérgica, avalie suspender por vinte e quatro a setenta e duas horas. Em quem chega em crise sem diagnóstico prévio, ele entra.
  10. 10Liste e trate os precipitantes: infecção, distúrbio hidroeletrolítico, cirurgia recente, gestação, exercício extenuante, tratamento irregular e, sobretudo, medicamento novo.
  11. 11Confira a prescrição inteira contra a lista de medicamentos que pioram a doença, incluindo o antibiótico que você acabou de escolher e o antiarrítmico ou betabloqueador de uso crônico.

Piora com febre na esclerose múltipla

Sintoma antigo que reaparece ou piora enquanto a temperatura sobe, e regride quando ela cede. Não preenche a definição de surto, que exige ausência de febre e de infecção. Trate a causa da febre, reavalie depois e registre o episódio.

Surto pela régua do tratamento

Sintoma novo ou piora do existente com duração maior que vinte e quatro horas, depois de pelo menos um mês estável, sem febre, sem infecção e sem outra causa. Metilprednisolona intravenosa, um grama por dia, por três a cinco dias.

Crise miastênica

Deterioração rápida da força com falência da bomba respiratória: tosse fraca, engasgo, fala entrecortada, capacidade vital em queda. Terapia intensiva, suporte ventilatório, plasmaférese ou imunoglobulina, e revisão do anticolinesterásico.

Crise colinérgica

Fraqueza acompanhada de miose, salivação e secreção brônquica abundantes, cólica, diarreia, bradicardia e fasciculação, em quem vinha em dose alta do sintomático. A suspensão do anticolinesterásico por vinte e quatro a setenta e duas horas é o próprio teste.

A mesma piora, lida nas duas doenças

Pergunta na portaEsclerose múltiplaMiastenia gravis
Há infecção ou febre?Se há, o episódio não é surto pela definição, e a pulsoterapia esperaSe há, é o precipitante mais comum da crise, e o suporte não espera
Quanto tempo de sintoma?Mais de vinte e quatro horas, depois de um mês estável, pela régua do tratamentoDeterioração rápida; o que gradua é a ventilação e a deglutição, não a duração
O que se mede primeiro?Tempo do déficit, tempo de estabilidade e causas alternativasFala, tosse, deglutição, musculatura acessória e capacidade vital
CorticoideMetilprednisolona intravenosa, um grama por dia, três a cinco diasPrednisona de manutenção, escalonada devagar: a subida rápida pode desencadear a crise
SintomáticoNão háPiridostigmina, sessenta a cento e vinte miligramas a cada quatro a seis horas, teto de setecentos e vinte por dia
Recurso do episódio gravePlasmaférese adjuvante, com base declarada em dois ensaios isoladosPlasmaférese ou imunoglobulina humana, em terapia intensiva

A exclusão de infecção na esclerose múltipla vale por dois motivos que não se substituem: ela desfaz o rótulo de surto e protege o paciente do corticoide em alta dose. Achar a infecção com o pulso já correndo continua sendo problema, ainda que o rótulo estivesse certo.

Na miastenia gravis, aumentar o sintomático diante de piora é o reflexo mais comum e um dos mais perigosos. O teto diário existe por causa da crise colinérgica, e a suspensão temporária é medida prevista no tratamento da crise.

A tomografia de tórax na miastenia gravis não é rastreamento de rotina descrito no protocolo: ela aparece como exigência antes de procedimento cirúrgico, procurando timoma e compressão traqueal. Radiografia normal não a dispensa.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto tempo o sintoma precisa durar para o episódio ser surto de esclerose múltipla

Surto é o evento típico de inflamação desmielinizante aguda com duração de pelo menos vinte e quatro horas, na ausência de infecção ou febre, documentado por exame neurológico feito na mesma época da manifestação.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Múltipla, seção de diagnóstico, apoiada nos critérios de McDonald

Surto é o surgimento de sintomas novos ou a piora dos existentes com duração superior a vinte e quatro horas, na ausência de febre, infecção ou qualquer outra causa, após período estável de pelo menos um mês.

Mesmo protocolo, item do tratamento do surto

Surto é o sintoma neurológico novo ou em agravamento, instalado em dias ou semanas, com duração de pelo menos vinte e quatro horas na ausência de febre — sem menção a infecção.

Mesmo protocolo, anexo de desfechos dos estudos revisados

Na prova

O enunciado costuma trazer um déficit com duração explícita e um antecedente de estabilidade. Quando o número é folgado — dias, uma semana —, a duração não é o ponto e o que se cobra é a exclusão de febre e infecção. Quando o número é exatamente vinte e quatro horas, ou quando o intervalo desde o episódio anterior é menor que um mês, o recorte é a definição estrita da seção de tratamento. Guarde as duas redações e a diferença entre elas, não uma só.

O que caracteriza crise miastênica

Crise miastênica é insuficiência respiratória associada a fraqueza muscular grave.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Miastenia Gravis, seção do conceito geral da doença

Crise miastênica é o episódio de rápida deterioração da força muscular suficiente para causar insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica.

Mesmo protocolo, item do tratamento da crise miastênica

O uso de sonda nasogástrica sem intubação já classifica o paciente no degrau de gravidade quatro-b, o que gradua o doente antes de qualquer ventilador.

Mesmo protocolo, descrição dos degraus de gravidade

Na prova

Quando o enunciado descreve dispneia, disfagia e tosse fraca sem dizer que houve intubação, está cobrando a definição ampla e a conduta de suporte imediato. Quando descreve o paciente já em ventilação mecânica, o ponto costuma ser outro: a suspensão do anticolinesterásico e a escolha entre plasmaférese e imunoglobulina. Repare em qual das duas informações o texto faz questão de dar.

Sulfato de magnésio na gestante com pré-eclâmpsia grave e miastenia gravis

O sulfato de magnésio deve ser evitado, mesmo na pré-eclâmpsia e na eclâmpsia, por seu efeito bloqueador neuromuscular.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Miastenia Gravis, seção de gestação e puerpério

O sulfato de magnésio é a droga de eleição para prevenir e tratar a convulsão eclâmptica, indicado a partir de patamar pressórico definido.

Régua obstétrica brasileira das síndromes hipertensivas da gestação

Na prova

O enunciado que junta gestação, pressão alta e miastenia está cobrando o conflito, não a rotina. Se a informação sobre a miastenia aparece de passagem no antecedente, ela é o dado que muda a resposta. Se o quadro é de eclâmpsia instalada, o recorte passa a ser o risco de morte por convulsão e a necessidade de suporte ventilatório disponível.

Quem entra no protocolo da miastenia gravis sem exame confirmatório

Entram no protocolo os pacientes com manifestações clínicas compatíveis e pelo menos um exame complementar confirmatório.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Miastenia Gravis, critérios de inclusão

Para o paciente com quadro compatível e resultados negativos de anticorpo e de eletroneuromiografia, preconiza-se prova terapêutica com piridostigmina por três meses, para avaliação de resposta e confirmação diagnóstica.

Mesmo protocolo, frase seguinte aos critérios de inclusão

Na prova

Quando o enunciado descreve clínica típica com anticorpo e eletroneuromiografia negativos, a resposta esperada não é abandonar o diagnóstico nem repetir os exames: é a prova terapêutica. Quando descreve fraqueza bulbar desproporcional que não melhora com o sintomático, o recorte muda e o alvo passa a ser o subtipo por anticorpo contra a tirosinoquinase músculo-específica.

06

Caso resolvido

Mulher de trinta e oito anos, com esclerose múltipla remitente-recorrente diagnosticada há seis anos, em uso regular de betainterferona, procura a unidade de pronto atendimento relatando que a perna direita voltou a ficar pesada e que tropeça no degrau de casa há dois dias. Conta que teve o último episódio parecido há cerca de dois anos, e que desde então estava bem. Refere ardência ao urinar há quatro dias e sensação de calor no fim da tarde. Ao exame, temperatura axilar de trinta e sete graus e nove décimos, marcha com discreta ceifagem à direita, força grau quatro em dorsiflexão do pé direito, reflexos vivos e sinal de Babinski à direita já conhecido de avaliações anteriores. Urina tipo um com leucocitúria e nitrito positivo.
Primeiro: leia o antecedente antes do déficit
Doença desmielinizante conhecida, estável, e um sintoma antigo que reaparece. A pergunta não é qual é a doença: é se este episódio é um surto novo ou a piora térmica de uma lesão velha. Essa distinção governa toda a conduta.
Segundo: procure infecção antes de qualquer outra coisa
Há disúria, febre baixa e urina com leucocitúria e nitrito. O protocolo brasileiro escreve que se considera surto o evento na ausência de infecção ou febre, e que o surto só se diagnostica depois de excluída a infecção, principalmente urinária e respiratória. Com infecção documentada, o rótulo de surto não se sustenta agora.
Terceiro: aplique também a régua do tratamento
Mesmo que a infecção não existisse, a definição do item de tratamento exige duração superior a vinte e quatro horas, ausência de qualquer outra causa e período estável de pelo menos um mês. Os dois dias e os dois anos estáveis fecham; a causa alternativa presente derruba.
Quarto: não pulse agora, e diga por que
Além de o episódio não preencher a definição, o corticoide em alta dose reduz a resistência imunitária, e o protocolo manda excluir infecção, principalmente urinária, antes da pulsoterapia. Prescrever metilprednisolona nesta consulta acumularia erro de rótulo e risco de segurança.
Quinto: trate a infecção e marque a reavaliação
Antibiótico conforme a régua da infecção urinária, hidratação, controle da temperatura e retorno programado em poucos dias. Se o déficit acompanhar a queda da febre e regredir, o episódio era piora térmica e se registra como intercorrência.
Sexto: defina o gatilho que muda a conduta
Se, tratada a infecção e normalizada a temperatura, o déficit persistir além de vinte e quatro horas sem outra causa, aí sim o episódio passa a preencher a definição de surto, e a metilprednisolona intravenosa entra na dose de um grama por dia por três a cinco dias.
Sétimo: use o episódio para revisar o tratamento de fundo
Registre a intercorrência com a data e a resolução. O número de surtos incapacitantes com resolução incompleta no ano anterior é um dos critérios que classificam a doença como altamente ativa; inflar esse registro com pioras térmicas distorce a decisão futura sobre trocar a linha de tratamento.
07

Agora feche você

Mulher de quarenta e quatro anos, com miastenia gravis generalizada diagnosticada há três anos, em uso de piridostigmina e prednisona em dose baixa, é levada ao pronto-socorro pelo marido. Há cinco dias teve febre e tosse produtiva, e iniciou por conta própria um macrolídeo que sobrara em casa. Há dois dias a fala ficou entrecortada, e desde ontem ela engasga com água e não consegue assoar o nariz. Nega dor torácica. Ao exame: consciente e orientada, fala em frases curtas, precisa parar para respirar no meio da frase, tosse fraca, ptose bilateral, saturação de noventa e quatro por cento em ar ambiente, frequência respiratória de vinte e seis incursões por minuto, uso de musculatura acessória, ausculta com estertores em base direita. O marido pergunta se pode dar uma dose extra do remédio dela, porque foi o que a vizinha sugeriu.
Primeiro
Nomeie o quadro sem depender de gasometria e diga quais achados do exame, e não do laboratório, já caracterizam falência da bomba respiratória nesta paciente.
Segundo
Explique por que as duas definições de crise miastênica escritas no protocolo brasileiro não classificam esta paciente do mesmo jeito, e qual delas você usaria para decidir o destino dela agora.
Terceiro
Responda ao marido sobre a dose extra, dizendo qual é o teto diário do sintomático, qual complicação justifica esse teto e em que circunstâncias o protocolo prevê suspender o medicamento em vez de aumentá-lo.
Quarto
Identifique os dois precipitantes presentes na história e diga o que fazer com cada um, incluindo a decisão sobre a classe de antibiótico que a paciente vem tomando.
Quinto
Monte o plano imediato em três frentes — destino, suporte e tratamento específico — nomeando as duas opções de terapia específica que o protocolo coloca lado a lado na crise.
Sexto
Diga o que precisa ser conferido no restante da prescrição crônica dela antes da alta, e por que a resposta muda se o anticorpo dela for contra a tirosinoquinase músculo-específica.
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Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de surto a piora que veio com febre A ausência de febre e de infecção faz parte da definição de surto, e não é detalhe de contexto. Piora que acompanha a temperatura e regride quando ela cede é condução deprimida pelo calor, não lesão nova. Trate a causa e reavalie antes de pulsar.
  2. 2Pulsar sem investigar o trato urinário Além de desfazer o rótulo, a infecção é contraindicação de segurança: o protocolo manda excluí-la, principalmente urinária, antes da metilprednisolona em alta dose, porque o corticoide reduz a resistência imunitária. Bexiga neurogênica torna a infecção urinária frequente e muitas vezes sem febre.
  3. 3Confundir progressão com surto O protocolo pede, na mesma frase da exclusão de infecção, a diferenciação entre recaída e progressão. Piora lenta e contínua, sem platô prévio, em paciente que vinha declinando, não vira surto por estar afebril — e não responde ao pulso.
  4. 4Aumentar a piridostigmina porque o paciente piorou A dose máxima é setecentos e vinte miligramas por dia, justificada pelo risco de crise colinérgica, e o tratamento da crise miastênica prevê avaliar a suspensão do anticolinesterásico por vinte e quatro a setenta e duas horas no paciente ventilado e na dúvida diagnóstica. Subir a dose é o reflexo errado.
  5. 5Esperar a gasometria para chamar de crise A falência da bomba respiratória se anuncia no exame: fala entrecortada, tosse fraca, engasgo com líquido, musculatura acessória e capacidade vital em queda. Hipoxemia e rebaixamento chegam depois. A necessidade de sonda para alimentar, mesmo sem tubo, já coloca o paciente no degrau grave.
  6. 6Começar prednisona em dose plena na miastenia Iniciar direto com um miligrama por quilo pode causar piora clínica transitória e desencadear crise miastênica. O protocolo recomenda começar com quinze a vinte miligramas por dia e subir gradualmente, e registra o esquema em dias alternados que muitos neurologistas usam por essa razão.
  7. 7Escolher o antibiótico sem olhar a lista Aminoglicosídeos, fluoroquinolonas e macrolídeos estão entre os medicamentos que pioram a miastenia gravis — justamente as classes de rotina para infecção respiratória e urinária, que são os precipitantes mais comuns da crise. Tratar a infecção é obrigatório; escolher a classe às cegas, não.
  8. 8Prescrever piridostigmina no subtipo por tirosinoquinase Nesse subtipo os anticolinesterásicos não são efetivos e podem piorar a doença, e a timectomia não está indicada. Fraqueza bulbar desproporcional, com atrofia de língua e face, em paciente que não responde ao sintomático, é o retrato que obriga a pensar nele.
  9. 9Achar que radiografia de tórax normal dispensa a tomografia Antes de procedimento cirúrgico em paciente com miastenia gravis, o protocolo indica estudo estrutural do tórax por tomografia, procurando timoma e possível compressão traqueal, além do eletrocardiograma e da radiografia. A imagem simples normal não substitui esse pedido.
  10. 10Manter sulfato de magnésio por protocolo obstétrico sem sinalizar a miastenia O protocolo da miastenia manda evitar o magnésio mesmo na pré-eclâmpsia e na eclâmpsia, pelo bloqueio neuromuscular. Isso não autoriza deixar a eclâmpsia sem tratamento: obriga decisão conjunta, alternativa considerada e ventilação disponível.
  11. 11Descartar miastenia porque os dois exames vieram negativos O próprio protocolo prevê a prova terapêutica com piridostigmina por três meses quando anticorpo e eletroneuromiografia são negativos em quadro clínico compatível. A soronegatividade adia a confirmação; não fecha a porta.
  12. 12Levar o hábito do corticoide de uma doença para a outra Na esclerose múltipla, o corticoide é tratamento do episódio agudo e entra rápido e em dose alta. Na miastenia gravis, é manutenção e entra devagar, porque a subida rápida pode empurrar o paciente para a ventilação. Trocar os dois reflexos erra nos dois sentidos.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é miastenia gravis (fraqueza flutuante fatigável, ptose, diplopia, disfonia, anti-AChR positivo). A investigação obrigatória inclui imagem torácica (TC/RM) para pesquisar timoma ou hiperplasia tímica, pois altera a indicação de timectomia. RM de órbitas não avalia a junção neuromuscular nem o timo. Cintilografia miocárdica e Doppler de tireoide não têm relação direta (embora doença tireoidiana possa coexistir, não é o exame imprescindível pré-timectomia). Angio-TC cervical investiga doença vascular, irrelevante aqui.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as três redações de surto que o protocolo da esclerose múltipla usa e marque, em cada uma, a duração exigida e o que precisa estar ausente. Depois escreva as duas definições de crise miastênica e diga qual paciente cabe entre elas. Termine anotando, sem consultar, a posologia da pulsoterapia do surto e o teto diário da piridostigmina, e confira se você escreveu um grama por dia por três a cinco dias e setecentos e vinte miligramas.

em 30 dias

Reconstrua a lista de medicamentos que pioram a miastenia gravis agrupada por classe, começando pelos três grupos de antibióticos, e explique em uma frase por que essa lista é perigosa justamente na crise precipitada por infecção. Depois refaça o raciocínio do corticoide nas duas doenças, dizendo em qual ele entra rápido e em alta dose, em qual entra devagar e por quê, e o que acontece se os dois reflexos forem trocados. Por fim, explique por que a soronegatividade não exclui o paciente do protocolo da miastenia e qual é o prazo da prova terapêutica.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mulher de quarenta e quatro anos com miastenia gravis chega ao pronto-socorro acompanhada do marido, cinco dias depois de uma infecção respiratória para a qual ela mesma tomou um antibiótico que tinha em casa. Fala em frases curtas, engasga com água e o marido pergunta se pode dar uma dose a mais do remédio dela. Converse com os dois, examine a ventilação e a deglutição, decida o destino da paciente e explique por que a dose extra não é a resposta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Esclerose múltipla e miastenia gravis: excluir a infecção ou tratá-la junto — Preparatório para provas | OsceLabs