Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

Hipertensão intracraniana de curso lento: quatro relógios e a tomografia que volta normal

Pressão intracraniana, investigação e limites dos exames

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 34 anos procura o pronto-atendimento com quadro de cefaleia holocraniana progressiva há 3 semanas, pior ao deitar e ao acordar, associada a episódios de visão borrada transitória (obscurecimentos visuais). Nega febre. É obesa (IMC 36 kg/m²) e usa isotretinoína há 2 meses para acne. Ao exame: PA 124x78 mmHg, FC 76 bpm, sem déficits focais; fundoscopia revela papiledema bilateral. TC de crânio sem contraste é normal. A punção lombar mostra pressão de abertura de 32 cmH2O com líquor de composição normal. Qual é a conduta inicial mais apropriada?

02

Como esse tema cai

O capítulo cobre a hipertensão intracraniana de instalação lenta: o hematoma subdural crônico do adulto e do idoso, a hidrocefalia de pressão normal, a hipertensão intracraniana idiopática e a hidrocefalia do lactente com macrocefalia. São os quatro quadros que chegam pela porta ambulatorial ou pela unidade básica, com semanas ou meses de história, e não pela sala vermelha.

Não cobre a hipertensão intracraniana aguda do traumatismo cranioencefálico, que tem capítulo próprio na apostila de trauma, com o hematoma extradural, o subdural agudo, a escala de coma e as medidas de neuroproteção. Também não cobre a hemorragia subaracnóidea nem a hidrocefalia aguda que a acompanha, que estão no capítulo de acidente vascular hemorrágico, e não cobre a cefaleia com bandeira vermelha em geral, que está no capítulo de cefaleias secundárias.

A fronteira útil é o relógio, não a doença. Quando a história é de horas e o paciente rebaixa, a pergunta é de trauma. Quando a história é de semanas ou meses e o que mudou foi a marcha, a memória, a visão ou o perímetro da cabeça, a pergunta é desta lista.

As doses e os limiares aqui vêm de revisões e séries brasileiras publicadas em periódicos indexados. Onde elas divergem entre si, o capítulo mostra a divergência em vez de escolher um número e calar o resto.

03

O que muda decisão

O eixo que chega pela resposta e quase nunca pelo enunciado

Nas questões de prova do acervo, o conjunto formado por hematoma subdural crônico, hidrocefalia, hidrocefalia de pressão normal, hipertensão intracraniana idiopática, derivação ventricular, trepanação, prova de retirada liquórica e pressão de abertura aparece em setenta e nove questões. Em doze delas o termo está na alternativa correta. E em onze dessas doze — quase todas — ele aparece só na alternativa correta, nunca no enunciado.

Isso muda o modo de estudar. Não adianta procurar a palavra: ela não vem. O que vem é um perfil e um relógio. Idoso anticoagulado, três semanas de confusão e desequilíbrio. Idoso com marcha magnética de oito meses e urgência urinária. Mulher jovem com obesidade, cefaleia de seis semanas e obscurecimentos visuais. Lactente com fontanela tensa e perímetro cefálico cruzando canais.

Os quatro têm em comum a mesma física — o crânio é uma caixa fechada e o conteúdo cresceu — e nada mais. Um é sangue liquefeito entre membranas, outro é líquido que circula mal com pressão medida normal, o terceiro é pressão alta sem massa nenhuma, o quarto é líquido represado num crânio que ainda pode crescer.

Duas velocidades para a mesma pressão, e o que muda entre elas

A hipertensão intracraniana aguda avisa pelo nível de consciência. A lenta avisa por qualquer outra coisa: marcha, cognição, campo visual, perímetro cefálico, incontinência. É por isso que a lenta chega ao clínico geral, ao geriatra, ao oftalmologista e ao pediatra antes de chegar ao neurocirurgião — e é por isso que a prova a esconde dentro de vinhetas de demência, de cefaleia e de puericultura.

A consequência prática é que a tomografia normal não afasta nada. Na hipertensão intracraniana idiopática, a definição exige exatamente isso: parênquima normal, sem hidrocefalia, sem massa. Na hidrocefalia de pressão normal, a tomografia mostra ventrículo grande, achado esperado no idoso e por isso lido como atrofia. No subdural crônico, a coleção pode estar isodensa na fase em que o sangue já se liquefez, e a leitura desatenta encontra apenas apagamento de sulcos.

A segunda consequência é que o exame que decide muda de um para outro. Em dois deles a decisão vem da imagem; nos outros dois, vem de uma punção lombar cujo objetivo não é diagnosticar infecção, mas medir uma coluna de líquido ou retirar volume e ver o que acontece com a marcha.

O hematoma que dispensa o trauma para existir

A série de cento e setenta e seis pacientes operados em serviço de neurocirurgia de São Paulo mostra o perfil. Cento e vinte e seis homens para cinquenta mulheres, proporção de dois e meio para um. A idade vai de seis meses a noventa e sete anos, com média de cinquenta e nove. E o dado que interessa: o trauma foi identificado como causa em cinquenta e dois por cento dos pacientes. Em quase metade, não havia trauma nenhum na história.

Quando havia, o intervalo médio entre o trauma e o diagnóstico por imagem foi de vinte e cinco dias. Não é o traumatismo que o paciente lembra: é a queda banal de três semanas antes, muitas vezes esquecida pelo próprio e recuperada apenas quando o médico insiste com o acompanhante.

A apresentação se divide por idade dentro da mesma série. Oitenta e cinco pacientes eram idosos, e neles a alteração da consciência apareceu em sessenta e três por cento. Noventa e um não eram idosos, e neles a cefaleia dominou, com quarenta e quatro por cento. A divisão fecha: oitenta e cinco mais noventa e um dá cento e setenta e seis, e os percentuais somam cem exatos. A lateralidade também fecha — quarenta e um por cento à direita, quarenta e três à esquerda, dezesseis bilateral.

Desenho de corte coronal do crânio com coleção em crescente sobre um hemisfério cerebral e desvio discreto da linha média.
Coleção crônica sobre o hemisfério, em lâmina larga e fina. É essa forma espalhada, e não um volume compacto, que explica por que o paciente muda de comportamento antes de rebaixar.

O anticoagulante que não matou e o exame que matou

A série de cento e sessenta e um pacientes operados no hospital universitário de Campinas foi desenhada para responder a uma pergunta de coagulação, e a resposta contraria a intuição da vinheta. O uso de anticoagulante oral ou de antiagregante plaquetário foi encontrado em três vírgula dois por cento dos pacientes — o piso da faixa que a literatura citada no próprio artigo descreve, de dois a vinte e quatro por cento. E a frase que fecha o achado é direta: a mortalidade nos pacientes em uso de anticoagulantes foi semelhante à daqueles que não usavam.

O que separou quem morreu de quem sobreviveu não foi o remédio, foi o número. Pacientes com razão normalizada internacional acima de um vírgula vinte e cinco tiveram razão de chances de morte de dezoito vírgula dois, com intervalo de confiança de três vírgula oito a oitenta e sete vírgula quatro. Plaquetas abaixo de cento e cinquenta mil deram razão de chances de sete vírgula cinco, de dois a vinte e oito. A mortalidade pós-operatória global foi de nove vírgula três por cento, e a recidiva que exigiu reoperação, de doze por cento.

A leitura clínica é que a exposição que a prova nomeia — está em uso de varfarina — não é a que prediz. O que prediz é o resultado do exame, e o mesmo paciente pode ter a droga e a coagulação compensada, ou não ter droga nenhuma e ter coagulopatia hepática. Por isso a conduta correta na vinheta do idoso anticoagulado inclui reverter a anticoagulação antes da drenagem, e não apenas suspender o comprimido.

O intervalo de confiança do primeiro achado merece atenção honesta: vai de três vírgula oito a oitenta e sete vírgula quatro. Ele exclui o um, então o efeito existe; mas sua largura diz que a série é pequena para esse desfecho e que o valor pontual de dezoito não deve ser decorado como se fosse uma constante.

O resumo que contradiz a própria tabela, e os dois pacientes que sumiram

O mesmo artigo carrega dois problemas internos que ensinam a ler série cirúrgica. O primeiro é de rótulo. O resumo afirma predomínio da faixa etária na quinta década, citando mediana de cinquenta e sete anos. A tabela de distribuição por décadas, duas páginas adiante, traz doze, seis, onze, dezesseis, doze, trinta e dois, vinte e nove, trinta e dois, nove e dois pacientes, que somam os cento e sessenta e um declarados. A quinta década tem doze pacientes. As décadas mais numerosas são a sexta e a oitava, com trinta e dois cada. E o paciente do meio da distribuição, o octogésimo primeiro, cai na sexta década — que é justamente onde uma mediana de cinquenta e sete anos deveria cair. O resumo nomeia a década com doze pacientes, quase três vezes menos do que a que sua própria mediana aponta.

O segundo é de denominador, e só aparece quando se refaz a conta. O resumo diz que setenta e seis por cento tinham antecedente de traumatismo cranioencefálico; a discussão, na mesma casuística, diz setenta e quatro vírgula oito por cento. Nenhum dos dois valores é produzível sobre cento e sessenta e um: cento e vinte pacientes dariam setenta e quatro vírgula cinco por cento e cento e vinte e um dariam setenta e cinco vírgula dois. O setenta e seis do resumo reconcilia se for cento e vinte e dois sobre cento e sessenta e um, isto é setenta e cinco vírgula oito, arredondado ao inteiro. O setenta e quatro vírgula oito da discussão exige outro denominador.

E há um segundo percentual, independente do primeiro, que aponta para o mesmo lugar. O artigo diz que dezesseis pacientes, dez vírgula um por cento, precisaram de uma reoperação. Dezesseis sobre cento e sessenta e um dá nove vírgula nove, não dez vírgula um. Procurando o denominador que reproduz os dois valores impressos ao mesmo tempo, ele existe e é cento e cinquenta e nove — dois pacientes a menos do que o total declarado. É o que se espera de casuística com dados faltantes em duas variáveis, e é o tipo de desvio que nenhuma soma denuncia, porque cada percentual, isolado, parece plausível.

A tríade que raramente vem inteira

A hidrocefalia de pressão normal é definida por alteração da marcha, deterioração mental e incontinência ou urgência urinária, com ventriculomegalia e pressão liquórica normal. A revisão brasileira de imagem abre exatamente reconhecendo que a apresentação pode ser atípica, incompleta ou imitada por outras doenças — e é essa frase, e não a tríade, que descreve o paciente real.

A ordem importa mais do que a lista. A marcha é o primeiro sintoma e o que mais responde à retirada de líquido; a cognição responde menos e a incontinência por último. O paciente cuja demência começou antes da alteração de marcha é o que menos se beneficia da derivação, e essa inversão é a pista que a vinheta esconde na frase sobre o que a família notou primeiro.

O quadro compete com as demências degenerativas, e é isso que o coloca entre as causas tratáveis. A diferença é que aqui o teste diagnóstico e o terapêutico são o mesmo procedimento: retira-se líquido e observa-se a marcha antes e depois, com instrumento cronometrado para quantificar.

As estimativas populacionais vêm de levantamentos da Alemanha, Noruega, Suécia e Japão: incidência anual entre um vírgula oito e cinco vírgula cinco casos por cem mil habitantes e prevalência entre zero vírgula dois e dois vírgula nove por cento entre os maiores de sessenta e cinco anos. As duas pontas dessas faixas não descrevem a mesma doença. Assumindo que cerca de nove por cento da população tenha sessenta e cinco anos ou mais, a ponta baixa fecha: uma prevalência de zero vírgula dois por cento com incidência de um vírgula oito por cem mil implica duração média de cerca de dez anos, plausível. A ponta alta não fecha: dois vírgula nove por cento com cinco vírgula cinco por cem mil exigiria duração média de quase cinquenta anos numa doença que começa depois dos sessenta.

Cinco volumes para a mesma punção

A prova de retirada liquórica não tem um volume. Tem cinco, e todos aparecem na literatura brasileira sobre o assunto. A descrição clássica testa marcha e cognição antes e depois da drenagem de quarenta a cinquenta mililitros. A prova repetida faz punções em três dias consecutivos, retirando de trinta a quarenta mililitros de cada vez. A drenagem lombar externa contínua mantém o cateter por três a cinco dias, com o mínimo de cento e cinquenta mililitros por dia. A primeira versão do protocolo de Campinas retirava cinquenta mililitros; a segunda, em uso desde mil novecentos e noventa e seis, retira de cinquenta a cem, drenando por três horas ou até atingir o teto de cem.

A revisão mais recente do mesmo periódico descreve a drenagem externa por uma taxa, e não por um volume: dez mililitros por hora, escolhida por ser semelhante ao que uma válvula de pressão média deixa passar. Dez mililitros por hora ao longo de um dia dão duzentos e quarenta, acima do mínimo de cento e cinquenta que a outra fonte fixa — as duas réguas não se contradizem no ponto em que se cruzam, elas divergem acima dele.

O que muda com o volume é o desempenho do teste, e aqui os números são francos sobre a fragilidade. A punção única tem sensibilidade de vinte e seis a sessenta e um por cento e valor preditivo positivo de setenta e três a cem. A drenagem contínua sobe a sensibilidade para cinquenta a cem, com especificidade de sessenta a cem e valor preditivo positivo de oitenta a cem. E o serviço de Campinas relata, na própria experiência, valor preditivo positivo de cem por cento para a punção única.

Desenho de punção lombar em decúbito lateral com coluna de vidro graduada acoplada à agulha e líquido transparente em parte da coluna.
Medida da coluna de líquido no momento da punção, com o paciente em decúbito lateral e sem sedativo. A altura dessa coluna é o critério, e a escala em que ela é lida é a fonte do erro mais comum deste tema.

O teste negativo que não exclui, e o denominador de três

A frase que resolve a maioria das questões sobre a prova de retirada liquórica é esta: um teste negativo não exclui a possibilidade de tratamento. A punção única tem valor preditivo positivo alto e sensibilidade baixa; portanto responder bem à punção é forte argumento a favor da derivação, e responder mal não é argumento contra.

A revisão mais recente quantifica: cerca de metade dos pacientes com resposta negativa ao teste se beneficiou da cirurgia mesmo assim, o que caracteriza taxa alta de falsos negativos. E cita um estudo de classe três em que mais de oitenta por cento dos pacientes com drenagem externa positiva responderam à derivação. A frase seguinte, porém, é a que precisa ser lida com lupa: um paciente com teste negativo, de um total de três, também respondeu à derivação. O braço negativo daquele estudo tem três pacientes. A afirmação sobre falso negativo, ali, repousa sobre um denominador que caberia numa consulta.

Do lado do que se ganha, a conta é modesta e explícita. O valor preditivo positivo dos dados clínicos e tomográficos isolados não passa de sessenta e cinco por cento, e o protocolo de Campinas acrescentou vinte e quatro por cento sobre isso. Vinte e oito dos trinta e seis operados, setenta e oito por cento, melhoraram; e onze deles, trinta por cento, tiveram complicação pós-operatória — principalmente coleção subdural.

A resposta à derivação, quando indicada, é boa e decrescente: benefício em noventa por cento aos seis meses e oitenta aos doze.

O ângulo escrito de três jeitos no mesmo artigo

A imagem da hidrocefalia de pressão normal tem duas medidas lineares que a prova cobra. A primeira é o índice de Evans, razão entre a maior largura dos cornos frontais e o maior diâmetro interno do crânio no mesmo nível, considerado alterado acima de zero vírgula três. A segunda é o ângulo formado entre os ventrículos laterais no corte coronal, o ângulo do corpo caloso.

O ângulo aparece três vezes na mesma revisão, com três formulações diferentes. No resumo e no resumo em português, é típico da hidrocefalia quando fica entre quarenta e noventa graus. Na lista transcrita dos critérios de consenso, o item é escrito como ângulo de quarenta graus ou mais — só o piso, sem teto. E na legenda da figura, ângulo menor que noventa graus é típico da hidrocefalia, enquanto ângulo maior que noventa sugere atrofia, como no Alzheimer e na demência com corpos de Lewy.

Lidas juntas, as três formulações não descrevem o mesmo conjunto de pacientes. Um ângulo de cento e vinte graus satisfaz o item da lista, que só exige quarenta ou mais, e é excluído pela legenda da figura, que o classifica como atrofia. O critério, lido ao pé da letra, admite os pacientes que a figura ao lado exclui. Quem decora a versão da lista erra a questão que descreve ventrículo grande com ângulo aberto — que é a apresentação da atrofia, e não da hidrocefalia.

O mesmo artigo carrega a marca tipográfica dessa costura. O símbolo de grau aparece três vezes no texto, e a marca de ordinal masculino aparece nove; as três ocorrências do símbolo correto caem justamente nos trechos em que o artigo transcreve o critério do consenso, e a marca de ordinal aparece na prosa que os próprios autores escreveram. É a assinatura de dois teclados no mesmo arquivo.

A hidrocefalia que se mede com fita métrica

No lactente, a caixa ainda não está fechada. As suturas abertas absorvem parte do volume, e por isso o primeiro sinal não é rebaixamento nem papiledema: é o perímetro cefálico cruzando canais na curva da caderneta, acompanhado de fontanela tensa ou abaulada, irritabilidade, vômitos e recusa alimentar. O olhar em sol poente e a separação das suturas chegam depois.

Isso muda o exame de escolha. Enquanto a fontanela anterior está aberta, existe uma janela acústica: a ultrassonografia transfontanela mostra os ventrículos sem radiação, sem sedação e à beira do leito, e é o exame que a atenção primária deve solicitar com prioridade diante de macrocefalia progressiva. A tomografia entra depois, ou quando a janela já fechou.

O tratamento é a derivação do líquido para outra cavidade, tipicamente o peritônio, ou a abertura endoscópica de uma via alternativa no terceiro ventrículo. A série brasileira de mil novecentos e setenta e dois explica por que a rota peritoneal venceu a venosa: as derivações para o sangue produziam microembolia e fibrose pulmonares, e as peritoneais sem válvula ocluíam na ponta distal. A válvula unidirecional resolveu a oclusão ao manter o cateter sempre cheio.

Fita métrica de pano envolvendo a cabeça de um bebê deitado, segurada pela mão de um adulto.
Medida do perímetro cefálico no ponto mais amplo do crânio. É a medida que muda primeiro no lactente, semanas antes de qualquer sinal de pressão que o exame neurológico consiga mostrar.

A cura que fabrica a doença vizinha

Três documentos independentes, separados por décadas e escritos por especialidades diferentes, chegam ao mesmo efeito adverso sem se citarem. A série pediátrica de mil novecentos e setenta e dois acompanhou setenta e nove crianças com hidrocefalia; de sessenta e cinco com evolução conhecida, cinquenta e nove estavam bem, cinco morreram e uma passava mal, com sofrimento grave de tronco encefálico causado por coleção subdural bilateral instalada depois da derivação. Os autores registram que, nas duas crianças em que a coleção apareceu, a válvula usada era de pressão baixa.

A série adulta de hidrocefalia de pressão normal, quatro décadas depois, relata trinta por cento de complicações pós-operatórias, principalmente coleção subdural. E a revisão de dois mil e vinte e dois, ao listar as complicações da drenagem lombar externa usada apenas para selecionar candidatos, nomeia meningite, inflamação de raiz e, de novo, coleção subdural — sem que tenha havido cirurgia definitiva.

A convergência fecha o capítulo sobre si mesmo: tirar líquido demais produz o quadro vizinho da lista. O cérebro atrófico, afastado da tabela interna do crânio quando a pressão cai depressa, estica as veias que cruzam esse espaço; e o que estava sendo tratado como hidrocefalia volta como hematoma subdural. É a razão pela qual a válvula de pressão baixa foi abandonada como escolha automática, e a razão pela qual todo paciente derivado que piora semanas depois merece imagem antes de se atribuir a piora à doença de base.

A pressão que forkou por um fator de dez

A hipertensão intracraniana idiopática afeta tipicamente mulheres com obesidade em idade fértil. A dor de cabeça é o sintoma mais comum, acompanhada de obscurecimentos visuais transitórios, zumbido pulsátil e diplopia horizontal por paresia do sexto nervo. Ao diagnóstico, mais de oitenta por cento têm alguma alteração visual, e cerca de dez por cento ficam com perda permanente.

O critério que define a doença é uma coluna de líquido medida na punção lombar. E é aqui que o número forkou. A revisão brasileira de dois mil e vinte e dois imprime, na tabela de critérios, pressão de abertura elevada acima de duzentos e cinquenta centímetros de líquor no adulto e duzentos e oitenta centímetros na criança. Duzentos e cinquenta centímetros de coluna de água são dois metros e meio: nenhum manômetro de punção lombar tem essa altura e nenhum paciente vivo tem essa pressão.

O valor correto está na escala que a série antiga do mesmo periódico usava sem hesitar. Naqueles relatos, as pressões medidas nos pacientes são de setenta, oitenta, cem, cento e setenta, cento e noventa, duzentos, duzentos e vinte e duzentos e cinquenta milímetros de água, e a meta terapêutica declarada é baixar a pressão para cento e oitenta. O critério é duzentos e cinquenta milímetros de água, o mesmo que vinte e cinco centímetros — e não duzentos e cinquenta centímetros.

A mesma linha da tabela moderna carrega ainda a assinatura do erro: a unidade aparece grafada de duas maneiras diferentes na mesma frase, uma delas com o algarismo zero ocupando o lugar da letra o. O artigo antigo, digitalizado de papel, comete a mesma troca dezesseis vezes contra uma única grafia correta. A unidade que a prova cobra é aquela em que um manômetro de punção lombar cabe na sala.

Quatro sinais, três exigidos, e a conta que fecha em pouco menos da metade

Quando o papiledema não está presente, o critério diagnóstico oferece uma saída: aceitar o diagnóstico se estiverem presentes três dos quatro achados indiretos de hipertensão intracraniana na neuroimagem — sela túrcica vazia, achatamento da porção posterior do globo ocular, distensão do espaço subaracnóideo perióptico com ou sem tortuosidade do nervo, e estenose de seio venoso transverso.

A revisão oftalmológica brasileira publica as frequências individuais de quatro desses achados: achatamento da esclera posterior em oitenta por cento, sela vazia em setenta, alargamento do espaço subaracnóideo perióptico em quarenta e cinco e deslocamento vertical do nervo óptico em quarenta. Tratando esses quatro sinais como independentes — hipótese declarada, e certamente falsa, porque eles compartilham a mesma causa —, a probabilidade de um paciente ter pelo menos três deles é de quarenta e quatro por cento. Os quatro juntos aparecem em pouco mais de dez.

A conclusão é modesta e útil: a saída sem papiledema é estreita por construção. Como os sinais são correlacionados, a fração real é maior, mas o critério continua exigindo uma combinação que a maioria dos exames isolados não entrega. Na prova, isso significa que a vinheta quase sempre traz o papiledema — e que a versão sem ele vem com os achados de imagem escritos por extenso no enunciado.

Há ainda um contraponto sobre incidência. A revisão oftalmológica de dois mil e oito registra um caso por cem mil habitantes ao ano na população geral; a revisão de cefaleia de dois mil e vinte e dois cita quatro vírgula sete no Reino Unido, com crescimento declarado de cento e oito por cento em catorze anos. Esse crescimento implica base anterior de dois vírgula três — já mais do que o dobro do número brasileiro publicado três anos depois. São países diferentes, e a comparação não denuncia erro em nenhum dos dois; mostra que a frase incidência crescente não tem valor único para decorar.

04

Do relógio ao exame, e de cada exame à sua decisão

A sequência abaixo resolve a maioria das vinhetas deste tema sem manômetro e sem tomógrafo, porque o que separa os quatro quadros é a combinação entre quem é o paciente, quanto tempo faz e o que mudou primeiro.

  1. 1Confirme que a história é de semanas ou meses, e não de horas. História de horas com rebaixamento é trauma agudo, e sai deste capítulo.
  2. 2Pergunte o que mudou primeiro. Marcha e cognição no idoso apontam para hidrocefalia de pressão normal ou coleção subdural crônica; dor de cabeça e visão na mulher jovem apontam para hipertensão intracraniana idiopática; perímetro cefálico no lactente aponta para hidrocefalia.
  3. 3No idoso, procure a queda esquecida e o uso de anticoagulante. Trauma banal há três a quatro semanas, mesmo negado pelo paciente e lembrado pelo acompanhante, muda a hipótese para coleção subdural.
  4. 4Peça a imagem que corresponde à janela do paciente. Ultrassonografia transfontanela enquanto a fontanela está aberta; tomografia sem contraste no adulto; ressonância com venografia quando a suspeita é de hipertensão intracraniana idiopática.
  5. 5Diante de coleção subdural crônica sintomática, encaminhe para drenagem cirúrgica e corrija a coagulação antes. Reverter a anticoagulação faz parte da conduta, e não apenas suspender a droga.
  6. 6Diante de ventrículo grande com marcha alterada, meça o índice de Evans e o ângulo entre os ventrículos no corte coronal antes de chamar de atrofia.
  7. 7Confirme a hidrocefalia de pressão normal pela resposta à retirada de líquido, avaliando marcha antes e depois. Teste positivo indica derivação; teste negativo não exclui.
  8. 8Diante de dor de cabeça com papiledema em mulher jovem com obesidade, exclua massa e trombose venosa por imagem antes de puncionar.
  9. 9Só então meça a pressão de abertura, em decúbito lateral, sem sedativo e sem tratamento redutor de pressão em curso.
  10. 10Some peso ao plano terapêutico da hipertensão intracraniana idiopática. A perda de peso é a única medida que modifica a doença; o remédio protege a visão.
  11. 11Depois de qualquer derivação, trate piora tardia como imagem obrigatória. A coleção subdural é a complicação esperada de retirar líquido demais.

Primeiro relógio: semanas no idoso

Confusão flutuante, cefaleia e desequilíbrio de marcha em três a quatro semanas, em idoso hipertenso e frequentemente anticoagulado, com queda banal esquecida. Tomografia sem contraste, correção da coagulação e drenagem por trepanação.

Segundo relógio: meses na marcha

Marcha alargada e presa ao chão há meses, depois lentificação cognitiva e urgência urinária, nessa ordem. Ventrículo desproporcional à atrofia, prova de retirada liquórica com avaliação da marcha antes e depois, derivação se houver resposta.

Terceiro relógio: semanas na visão

Mulher jovem com obesidade, dor de cabeça de semanas pior ao acordar, obscurecimentos visuais transitórios e zumbido pulsátil, com papiledema. Imagem com venografia primeiro, punção com medida da coluna depois, peso e inibidor da anidrase carbônica como tratamento.

Quarto relógio: dias na fita métrica

Lactente com perímetro cefálico cruzando canais, fontanela tensa, irritabilidade, vômitos e recusa alimentar. Ultrassonografia transfontanela com prioridade enquanto a janela existe, e encaminhamento para derivação.

Cinco volumes para a mesma punção

VolumeO que a fonte diz que ele significaQuem escreve
Trinta a quarenta mililitros por punçãoRetirada repetida em três dias consecutivos, quando a punção única deu negativaRevisão de avaliação diagnóstica, dois mil e nove
Quarenta a cinquenta mililitrosDescrição clássica da prova de retirada liquórica, com teste de marcha e cognição antes e depoisMesma revisão, citando a série escandinava original
Cinquenta mililitrosPrimeira versão do protocolo do serviço de Campinas, em uso até mil novecentos e noventa e cincoMesma revisão, casuística própria
Cinquenta a cem mililitrosSegunda versão do mesmo serviço, drenando por três horas ou até o teto de cemMesma revisão, casuística própria
Cento e cinquenta mililitros por dia, por três a cinco diasMínimo diário da drenagem lombar externa contínua, o método de melhor sensibilidadeRevisão de imagem, dois mil e quinze
Dez mililitros por horaA mesma drenagem descrita por taxa, escolhida por imitar uma válvula de pressão médiaRevisão narrativa, dois mil e vinte e dois

Quatro quadros, quatro decisões

Quem chegaO que decide o diagnósticoO que decide a conduta
Idoso, semanas de confusão e desequilíbrio, queda esquecidaTomografia de crânio sem contrasteEstado da coagulação: reverter antes de drenar, porque o exame prediz melhor que a droga
Idoso, meses de marcha alterada, depois cognição e urgênciaVentrículo desproporcional à atrofia, com índice e ângulo medidosResposta da marcha à retirada de líquido; teste negativo não exclui a cirurgia
Mulher jovem com obesidade, semanas de cefaleia e papiledemaImagem normal com venografia, depois pressão de abertura na punçãoPerda de peso como medida que modifica a doença; remédio para proteger a visão
Lactente com perímetro cefálico cruzando canaisUltrassonografia transfontanela enquanto a fontanela está abertaDerivação do líquido, com atenção à coleção subdural que a própria derivação pode produzir

O antecedente de anticoagulação orienta a suspeita, mas não é ele que prediz a mortalidade cirúrgica na série brasileira: quem usava e quem não usava morreram na mesma proporção, e o que separou foi a razão normalizada internacional acima de um vírgula vinte e cinco e a plaquetopenia.

A prova de retirada liquórica gradua, não decide sozinha. Valor preditivo positivo alto com sensibilidade baixa significa que a resposta positiva confirma e a negativa não afasta — e cerca de metade dos que responderam mal ainda assim se beneficiou da derivação.

A pressão de abertura da hipertensão intracraniana idiopática é medida em milímetros de água, e o limiar do adulto equivale a vinte e cinco centímetros. Tabela que imprime o limiar em centímetros está deslocada por um fator de dez, e a leitura correta é a que cabe num manômetro de sala de exame.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto líquido retirar na prova diagnóstica da hidrocefalia de pressão normal

Quarenta a cinquenta mililitros numa punção única, com teste de marcha e cognição antes e depois, é a descrição clássica; quando negativa, repete-se em três dias consecutivos com trinta a quarenta mililitros de cada vez.

Revisão de avaliação diagnóstica e preditiva, Dementia & Neuropsychologia, dois mil e nove

Cinquenta a cem mililitros numa sessão de até três horas é o protocolo do próprio serviço que assina a revisão, adotado desde mil novecentos e noventa e seis porque a versão de cinquenta mililitros tinha rendimento insuficiente.

Mesma revisão, descrevendo a casuística própria do serviço de Campinas

A drenagem contínua de pelo menos cento e cinquenta mililitros por dia, por três a cinco dias, é o único método que simula o efeito da cirurgia definitiva, com sensibilidade de cinquenta a cem por cento.

Revisão de neuroimagem na hidrocefalia de pressão normal, Dementia & Neuropsychologia, dois mil e quinze

Na prova

O avaliador brasileiro raramente cobra o volume exato: cobra a lógica do teste. A vinheta descreve marcha que melhorou depois da punção e pergunta a conduta, ou descreve teste negativo e pergunta se a cirurgia está afastada. Quando o volume aparece no enunciado, ele costuma ser o da drenagem contínua, porque é o número redondo que os consensos citam. Guarde a hierarquia — punção única, punção repetida, drenagem contínua — e não uma cifra isolada.

Em que unidade se lê o limiar de pressão de abertura da hipertensão intracraniana idiopática

A tabela de critérios diagnósticos modificados imprime pressão de abertura elevada como duzentos e cinquenta centímetros de líquor no adulto e duzentos e oitenta centímetros na criança, com duas grafias diferentes da unidade na mesma linha.

Revisão de manejo da hipertensão intracraniana idiopática, Arquivos de Neuro-Psiquiatria, dois mil e vinte e dois

A série clínica antiga do mesmo periódico mede as pressões dos próprios pacientes em milímetros de água, com valores entre setenta e duzentos e cinquenta, e adota como meta terapêutica baixar a pressão para cento e oitenta.

Relato de casos de pseudotumor cerebral, Arquivos de Neuro-Psiquiatria, série antiga

Na prova

Nenhuma banca vai perguntar qual das duas grafias está certa. Ela vai dar uma pressão de abertura no enunciado e esperar que o candidato reconheça se está acima ou abaixo do limiar. O jeito de nunca errar é converter mentalmente para centímetros de água: o limiar do adulto é vinte e cinco, o da criança é vinte e oito. Enunciado que traz pressão em milímetros de mercúrio está falando de outra coisa.

Quanto peso perder na hipertensão intracraniana idiopática

A quantidade exata de redução de peso necessária para a remissão não está estabelecida; todo paciente com índice de massa corporal igual ou maior que trinta deve receber orientação de controle de peso, com equipe multiprofissional quando necessário.

Revisão de manejo, Arquivos de Neuro-Psiquiatria, dois mil e vinte e dois

Como o ganho de cinco a quinze por cento do peso é fator de risco para desenvolver a doença, é razoável orientar a perda de pelo menos quinze por cento — o mesmo documento transforma o topo da faixa de risco no piso da meta terapêutica.

Mesma revisão, parágrafo seguinte do mesmo tópico

Na prova

A alternativa correta em português quase sempre diz perda de peso associada ao tratamento medicamentoso, sem número. Quando o número aparece, é o de quinze por cento. O que a banca testa é a hierarquia: a perda de peso é a única medida que modifica o curso da doença, e o remédio existe para proteger a visão enquanto o peso não cai. Marcar remédio isolado como conduta completa é o erro clássico.

Se o antecedente de trauma piora ou melhora o prognóstico do hematoma subdural crônico

Pacientes com história prévia de traumatismo cranioencefálico apresentaram mortalidade pós-operatória significativamente menor, sugerindo que os hematomas espontâneos têm pior prognóstico.

Série de cento e sessenta e um pacientes operados, Arquivos de Neuro-Psiquiatria, dois mil e três

O traumatismo craniano é apontado como a causa mais frequente da coleção, presente em cerca de metade dos casos, com intervalo médio de vinte e cinco dias entre o trauma e o diagnóstico por imagem.

Série de cento e setenta e seis pacientes operados, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, dois mil e quinze

Na prova

As duas posições não se contradizem: uma fala de frequência da causa, a outra de prognóstico depois de operado. O avaliador cobra a primeira — trauma leve e esquecido semanas antes é a história típica. A segunda serve para não cair na armadilha inversa: ausência de trauma não torna o caso mais benigno, e sim menos explicado, o que costuma significar coagulopatia, hepatopatia ou etilismo por trás.

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Caso resolvido

Mulher de setenta e oito anos, hipertensa, em uso de varfarina por fibrilação atrial, é trazida pela filha por quadro insidioso de cefaleia holocraniana e confusão mental progressiva há cerca de três semanas, com discreta fraqueza no membro superior direito e duas quedas recentes. A filha nega trauma, mas lembra que a mãe escorregou no banheiro há cerca de um mês e não se queixou de nada na ocasião. Ao exame, está sonolenta mas desperta ao chamado, orientada em pessoa e desorientada no tempo, com força discretamente reduzida à direita e sem sinais meníngeos.
Primeiro: leia o relógio antes da doença
Três semanas de instalação em idosa colocam o caso na família lenta. Isso já afasta o traumatismo agudo e a hemorragia subaracnóidea, cujas histórias são de horas, e coloca coleção subdural crônica e causas tratáveis de declínio cognitivo no topo.
Segundo: recupere o trauma que o paciente não conta
O escorregão de um mês antes, sem queixa na ocasião, é exatamente o antecedente que a série brasileira descreve, com intervalo médio de cerca de vinte e cinco dias entre o trauma e o diagnóstico por imagem. Trauma negado pelo paciente e lembrado pelo acompanhante conta como trauma.
Terceiro: peça a imagem certa
Tomografia de crânio sem contraste com urgência. A coleção pode estar isodensa nessa fase, e o sinal indireto a procurar é apagamento de sulcos com desvio de linha média desproporcional ao que a densidade sugere.
Quarto: trate a coagulação como parte da conduta
Reverter a anticoagulação, e não apenas suspender a varfarina. A série de cento e sessenta e um pacientes mostrou razão de chances de morte de dezoito vírgula dois para razão normalizada internacional acima de um vírgula vinte e cinco, enquanto o uso do anticoagulante, isoladamente, não alterou a mortalidade.
Quinto: encaminhe para drenagem
Coleção sintomática com déficit focal e rebaixamento é indicação cirúrgica. A operação mais utilizada nas séries brasileiras é a trepanação com dois orifícios associada a sistema de drenagem fechado, com alta efetividade e baixo índice de complicações.
Sexto: combine o seguimento
A recidiva que exige reoperação ficou em torno de doze por cento na casuística de Campinas. Piora tardia depois da alta pede nova imagem, e não ajuste de sintomático.
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Agora feche você

Mulher de trinta e quatro anos, com índice de massa corporal de trinta e oito, procura a unidade com cefaleia holocraniana progressiva há seis semanas, pior pela manhã e ao fazer esforço, associada a episódios de escurecimento visual que duram poucos segundos e a um zumbido que ela descreve como acompanhando o batimento do coração. Nega febre, nega déficit motor e nega uso de medicação nova. Ao exame neurológico, a única alteração é limitação da abdução do olho esquerdo, com diplopia ao olhar para aquele lado.
Primeiro
Diga quais quatro elementos da história compõem o perfil clássico desta doença e por que a idade e o índice de massa corporal fazem parte do diagnóstico, e não apenas do contexto.
Segundo
Explique por que a limitação da abdução ocular não descaracteriza o quadro como neurologicamente normal, e diga qual nervo está envolvido e por que ele é o mais vulnerável.
Terceiro
Diga qual exame precede a punção lombar e o que exatamente ele precisa excluir, nomeando a condição que produz quadro idêntico e exige tratamento oposto.
Quarto
Descreva as condições em que a pressão de abertura precisa ser medida para valer, e diga qual é o limiar do adulto em centímetros de água.
Quinto
Monte o plano terapêutico em duas frentes, dizendo qual delas modifica o curso da doença e qual protege a visão enquanto a primeira não faz efeito.
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Onde a banca derruba

  1. 1Achar que tomografia normal afasta pressão alta Na hipertensão intracraniana idiopática, parênquima normal sem hidrocefalia e sem massa é parte da definição, não argumento contra. A imagem serve para excluir causa secundária, e a pressão só aparece na punção.
  2. 2Ler ventrículo grande no idoso como atrofia Ventriculomegalia desproporcional ao grau de atrofia, com cornos frontais arredondados e ângulo entre os ventrículos fechado no corte coronal, aponta para hidrocefalia. Ângulo aberto acima de noventa graus é que sugere doença degenerativa.
  3. 3Excluir cirurgia porque a punção deu negativa A prova de retirada liquórica tem valor preditivo positivo alto e sensibilidade baixa. Cerca de metade dos pacientes com resposta negativa ainda se beneficiou da derivação, e a própria revisão chama isso de taxa alta de falsos negativos.
  4. 4Suspender o anticoagulante e mandar para a cirurgia Suspender não é reverter. A conduta na coleção subdural crônica do idoso anticoagulado inclui reversão ativa da anticoagulação antes da drenagem, porque o que prediz mortalidade é o exame de coagulação alterado, não a presença da droga na receita.
  5. 5Esperar rebaixamento para pensar em coleção subdural Em série brasileira, entre os pacientes não idosos a queixa dominante foi cefaleia, e não alteração de consciência. Nos idosos, a alteração de consciência veio em cerca de dois terços — o que também significa que um terço chegou sem ela.
  6. 6Descartar a hipótese porque não há trauma na história Em quase metade dos casos de uma série de cento e setenta e seis pacientes não havia trauma identificado. E quando havia, o intervalo médio até o diagnóstico foi de cerca de vinte e cinco dias — tempo suficiente para o paciente ter esquecido a queda.
  7. 7Pedir tomografia no lactente com fontanela aberta Enquanto a fontanela anterior está aberta existe janela acústica, e a ultrassonografia transfontanela mostra os ventrículos sem radiação e sem sedação. É o exame prioritário diante de macrocefalia progressiva na atenção primária.
  8. 8Tratar o papiledema como sinal obrigatório O papiledema está presente na grande maioria dos casos confirmados, mas a doença pode se apresentar sem ele. Nesses casos o critério exige três de quatro achados indiretos na neuroimagem, uma combinação que a maioria dos exames isolados não entrega.
  9. 9Puncionar antes de excluir trombose venosa A imagem que precede a punção na suspeita de hipertensão intracraniana idiopática inclui estudo venoso, porque a trombose venosa cerebral produz o mesmo quadro e tem tratamento oposto. Em série oftalmológica, ela foi detectada em até um terço dos casos investigados.
  10. 10Prescrever remédio e considerar o tratamento completo O inibidor da anidrase carbônica protege a visão; a perda de peso é a única medida descrita como capaz de modificar a doença. Conduta que não inclui o manejo do peso está incompleta, e é assim que a alternativa errada costuma ser montada.
  11. 11Atribuir a piora tardia depois da derivação à doença de base Coleção subdural é a complicação esperada de retirar líquido demais, descrita tanto na série pediátrica de derivação quanto na casuística adulta de hidrocefalia de pressão normal. Paciente derivado que piora semanas depois merece imagem antes de qualquer outra hipótese.
  12. 12Confundir a ordem dos sintomas na hidrocefalia de pressão normal A marcha vem primeiro e é o que mais responde ao tratamento; a cognição vem depois e responde menos. Quando a vinheta descreve demência instalada antes da alteração de marcha, a chance de resposta à derivação é justamente a menor.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é hipertensão intracraniana idiopática (pseudotumor cerebral): mulher jovem, obesa, uso de isotretinoína (retinoide, fator precipitante), papiledema, pressão de abertura elevada com líquor e neuroimagem normais. Conduta: retirar o agente causal, acetazolamida (reduz produção liquórica) e perda de peso. Corticoide/anticoagulação não é o tratamento e a anticoagulação seria de trombose venosa (afastada pela imagem). DVP/fenestração é reservada a casos refratários com perda visual progressiva, não de primeira linha. Triptano/propranolol tratam enxaqueca, diagnóstico incorreto aqui. Arteriografia/nimodipino se aplicam a vasoespasmo/HSA, ausente neste caso.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os quatro quadros deste capítulo e, ao lado de cada um, três coisas: quem é o paciente típico, quanto tempo de história e qual exame decide. Depois marque, em cada linha, o que precisa ser corrigido antes da cirurgia — coagulação no subdural crônico, causa secundária na hipertensão idiopática, janela acústica no lactente. Termine escrevendo por extenso o limiar de pressão de abertura do adulto em centímetros de água e conferindo se você escreveu vinte e cinco.

em 30 dias

Reconstrua a escada dos cinco volumes da prova de retirada liquórica na ordem crescente, dizendo quem escreve cada um, e explique em uma frase por que a sensibilidade sobe quando o volume sobe. Depois reconstrua a convergência que fecha o capítulo: nomeie as três fontes independentes que descrevem coleção subdural como complicação de retirar líquido, e diga por que o cérebro atrófico é o que corre mais risco. Por fim, refaça a conta dos quatro sinais de imagem e diga por que exigir três deles é mais restritivo do que parece.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma senhora de setenta e oito anos chega ao ambulatório trazida pela filha, que conta que a mãe está confusa e desequilibrada há três semanas. Ela usa anticoagulante por arritmia e teve uma queda no banheiro no mês passado, sem se queixar na hora. Converse com a filha, examine a paciente e decida o que pedir primeiro — e o que precisa ser corrigido antes de qualquer cirurgia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hipertensão intracraniana de curso lento: quatro relógios e a tomografia que volta normal — Preparatório para provas | OsceLabs