Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

Trauma raquimedular

Imobilização, indicação cirúrgica e tempo de intervenção

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 45 anos, vítima de acidente automobilístico há 30 minutos, apresenta lesão medular completa em nível T4 confirmada ao exame. Após reanimação inicial, encontra-se com PA 90/60 mmHg e FC 55 bpm. Ao exame neurológico detalhado observa-se paralisia flácida, arreflexia e ausência do reflexo bulbocavernoso abaixo da lesão. A equipe questiona se já é possível determinar em definitivo a extensão do prognóstico neurológico. Qual a interpretação correta deste achado semiológico?

02

Como esse tema cai

O vão que este capítulo preenche é medido, e a medida é literal. Nos 898 capítulos do acervo, nenhum traz a palavra raquimedular no tema. A apostila de Trauma tem nove capítulos — atendimento inicial, tórax, choque hemorrágico, crânio, abdome fechado, via aérea, pelve, abdome penetrante e pescoço — e nenhum é da coluna. Esta apostila tem sete capítulos e nenhum é medular. O único capítulo do acervo cujo tema contém a palavra medular é o de emergências oncológicas, e ali a compressão é metastática, não traumática.

É de lá que vem a primeira cessão. Compressão medular maligna — a que se apresenta como dor nas costas que piora deitado, em paciente com câncer conhecido, e que se trata com corticoide e radioterapia — pertence ao capítulo de emergências oncológicas e não se repete aqui. A síndrome de cauda equina por hérnia de disco, com anestesia em sela e retenção urinária sem trauma, é do capítulo de lombalgia e hérnia de disco. A comparação entre os quatro tipos de choque, com o neurogênico como um deles, é do capítulo de classificação dos choques. E o colar cervical como etapa da via aérea, com a manobra que não estende o pescoço, é do capítulo de manejo de via aérea no trauma.

O que fica é a fase aguda do trauma da coluna, da rua ao centro cirúrgico: o que decide restringir o movimento da coluna, o que decide tomografar, o que decide operar, o que decide o prazo, e o exame neurológico que transforma um monte de achados numa letra. É também o capítulo em que dois documentos brasileiros, escritos para a mesma decisão e a poucos quilômetros um do outro, trazem listas diferentes de critérios — e onde a divergência entre eles vale mais que a memorização de qualquer uma das duas listas.

Uma advertência de leitura, porque ela organiza tudo o que vem: neste tema o número maior é o que menos decide sozinho. O escore motor vai a cem pontos e não separa lesão completa de incompleta; quem separa é um sim ou não colhido nos últimos segmentos sacrais. Quem estuda pela soma erra a letra, e é pela letra que a prova pergunta.

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O que muda decisão

O número que ninguém tem, e os dois que não fecham

A frase que abre qualquer discussão epidemiológica do tema está escrita, com todas as letras, num artigo brasileiro de 2008: "a incidência de lesão medular traumática no Brasil é desconhecida, pois esta condição não é sujeita à notificação". Não é modéstia de autor. É a consequência de o agravo não constar da lista de notificação compulsória, o que deixa o país sem numerador e obriga todo mundo a estimar.

As estimativas existem, e é aí que a coisa fica instrutiva. O mesmo artigo de 2008 escreve duas: "estima-se que ocorram a cada ano no país mais de 10.000 novos casos" e "o índice médio esteja por volta de 71 novos casos por milhão de habitantes", contra "por volta de 40 novos casos por um milhão de habitantes" na maioria dos outros países. Um protocolo clínico estadual de 2025, citando uma série de 2010, é mais preciso e escreve "942 casos novos por mês e 11.304 casos novos por ano".

Os dois números vêm da mesma literatura e não fecham. Onze mil trezentos e quatro casos divididos pela população do censo de 2010, de 190.755.799 pessoas, dão 59,3 por milhão ao ano; divididos pela população do censo de 2022, de 203.080.756, dão 55,7. O denominador menor é o que produz a taxa maior, então 59,3 é o teto desse caminho — e o teto fica abaixo do piso do outro caminho, que é 71. Para chegar a 71 por milhão seriam necessários 13.544 casos em 2010 ou 14.419 em 2022, um quinto a mais do que o absoluto que o próprio protocolo publica.

O terceiro caminho não restringe nada. A média internacional de 40 por milhão daria 7.630 casos em 2010 e 8.123 em 2022, abaixo dos dois anteriores; ela só repete, em outra unidade, o que os dois já diziam — que o Brasil está acima da média mundial. Serve de referência, não de conferência. O que se leva para a prova é a ordem de grandeza, algo entre dez e quinze mil casos por ano, e a frase sobre a ausência de notificação, que é o que explica por que os números discordam.

As causas também discordam, e vale ver por quê. A série paulista de 2008 encontrou quedas em 40%, acidentes automobilísticos em 25% e queda de laje em 23%; a estimativa nacional de 2010 traz acidentes de trânsito em 41,7%, arma de fogo em 26,9%, queda de altura em 14,8% e mergulho em água rasa em 9,3%. Isso não é erro de um dos dois: é rótulo de coluna. Uma coluna diz "causas nesta série de um hospital"; a outra diz "causas nesta estimativa nacional". Denominadores diferentes produzem primeiros colocados diferentes, e quem tenta reconciliá-los como se fossem a mesma tabela vai concluir que alguém errou.

E, no que muda conduta, os dois concordam sem exceção: predomínio masculino esmagador (86% na série, 80,6% na estimativa), adulto jovem, trauma contuso de alta energia como mecanismo dominante, e a necessidade de separar o segmento cervical do toracolombar porque eles não se examinam nem se imobilizam do mesmo jeito. A divergência está inteira nos números memorizáveis; a concordância está inteira no que se faz com o doente.

A régua que decide o colar — e o preço que ela cobra

Duas listas brasileiras decidem a mesma coisa, e não são a mesma lista. O protocolo de restrição de movimento de coluna de um serviço municipal de atendimento móvel, de 2023, agrupa os critérios em dois is — instável na avaliação primária, idade acima de 65 anos — e seis dês: déficit do nível de consciência, déficit sensitivo ou motor, dor, deformidade, distração e dinâmica do trauma. O fluxograma do protocolo estadual de 2025 usa cinco critérios para a decisão de tomografar a coluna cervical: dor, déficit, distração, intoxicação e limitação de amplitude de movimento.

As diferenças não são cosméticas. Idade acima de 65 anos é critério isolado e suficiente numa lista e não aparece na outra. Intoxicação é item próprio numa e fica subsumida em déficit do nível de consciência na outra. E há um item que existe só na lista pré-hospitalar, porque só faz sentido na rua: dinâmica do trauma, isto é, o mecanismo. Quem decorou uma das duas listas e encontra a outra no enunciado vai procurar um critério que não está lá.

Há também uma regra que as duas assinam e que a prova adora: em trauma penetrante isolado não se restringe a coluna. A vítima de ferimento por arma branca ou por projétil, sem trauma contuso associado, é transportada confortavelmente na maca, sem dispositivo de restrição. A justificativa é aritmética antes de ser fisiológica: a lesão instável que a restrição pretende proteger praticamente não ocorre nesse mecanismo, e o dispositivo atrasa o que de fato mata, que é o sangramento.

O nome do procedimento mudou, e a mudança carrega a evidência. Saiu "imobilização" e entrou restrição de movimento de coluna, porque, nas palavras do protocolo, "o uso da prancha rígida não reduz a movimentação da coluna vertebral". No mesmo movimento, o colete de extricação foi aposentado: "não é mais indicado, pois leva tempo para ser colocado e produz a falsa sensação de imobilização". Duas frases que valem por um capítulo inteiro de raciocínio: o dispositivo que não faz o que promete não é neutro, é custo puro.

E o custo está declarado, com números. O mesmo documento escreve que "as lesões cervicais são relativamente raras (2,0 a 4,0%) e que daqueles pacientes com uma fratura de coluna cervical, somente 20,0% terão lesão medular". Multiplicando os dois: três em cada cem traumatizados contusos têm fratura cervical, e um em cada cinco desses tem lesão medular — seis em cada mil. Restringir todo mundo que preenche critério significa restringir 994 pessoas sem lesão medular para não perder as seis que a têm.

É o lugar clássico em que o fator esconde a fração. "Um em cada cinco" soa altíssimo e é verdade; o que a frase não diz é que esse um em cinco se aplica a um subgrupo que já é de três em cem. E a restrição não é inócua: o protocolo lista dor, lesão por pressão, broncoaspiração, dificuldade de manejo da via aérea, mais exames radiológicos, mais tempo de internação e aumento da pressão intracraniana de cerca de 4,5 mmHg. Esse último número é o que transforma o colar de gesto inócuo em decisão com contrapartida no doente com traumatismo de crânio associado.

A letra, o número e a metade

O exame neurológico do trauma raquimedular tem um formato fixo, e é esse formato que a prova cobra. Dez grupos musculares de cada lado, graduados de zero a cinco: flexores do cotovelo, extensores do punho, extensores do cotovelo, flexores dos dedos, abdutores dos dedos, flexores do quadril, extensores do joelho, dorsiflexores do tornozelo, extensores do hálux e flexores plantares. Dez grupos, dois lados, cinco pontos cada: o escore motor total vai a cem.

Pilha de dez blocos de grupos musculares com seta descendente à esquerda e ascendente à direita; abaixo, um bloco tracejado separado, com uma chave de cem pontos para a pilha e uma chave de sim ou não para o bloco de fora.
O exame se escreve de cima para baixo e se confere de baixo para cima: a soma dos dez grupos musculares dá cem pontos, mas quem separa lesão completa de incompleta é o bloco de fora da pilha, que não entra nessa soma.

A escala de deficiência tem cinco graus, e cada um se decide num lugar diferente. O grau A é a lesão completa: nenhuma função sensitiva ou motora preservada nos segmentos sacrais mais baixos. O grau B é sensitivo incompleto: há sensibilidade abaixo do nível neurológico, inclusive nos segmentos sacrais, e não há função motora. O grau C é motor incompleto com mais da metade dos músculos-chave abaixo do nível neurológico com força menor que três. O grau D é motor incompleto com pelo menos metade desses músculos em força três ou mais. O grau E é o exame normal.

A fronteira entre os dois graus motores incompletos é uma conta, e vale segui-la em três pontos de uma mesma rampa. Num doente com dez músculos-chave abaixo do nível: quatro deles em força três ou mais dá grau C; cinco dá grau D; seis dá grau D. O músculo que sobe de força dois para força três move o escore motor total em um ponto em cem e vira a letra. Não há nada de biológico acontecendo em quatro vírgula cinco músculos; o corte da classificação está exatamente onde a reta cruza a metade, e a letra muda porque a conta cruzou o meio, não porque a medula mudou de estado.

Daí sai o contraponto mais útil do capítulo: o maior número do tema é o que menos decide sozinho. O escore motor vai a cem e não responde a pergunta que a prova faz primeiro, que é se a lesão é completa ou incompleta. Quem responde é a preservação sacral — sensibilidade nos últimos segmentos sacrais ou contração anal voluntária. Um sim ou não, colhido no lugar mais desconfortável do exame, decide o que uma soma de cem pontos não decide; e um doente com escore motor alto pode ser classificado como lesão completa se esse sim ou não for não.

Sobra uma discordância aparente que não é erro, é rótulo de coluna. Os cem pontos contam vinte músculos-chave, dez de cada lado, sempre os mesmos. A regra da metade conta apenas os músculos-chave abaixo do nível neurológico, e esse número muda com o nível: numa lesão cervical alta são quase todos, numa lesão torácica baixa são poucos. As duas contas usam a expressão músculos-chave e não usam o mesmo denominador. Quem lê como se fosse a mesma tabela conclui que a metade de cem é cinquenta pontos — e não é nada disso.

Por isso o exame se escreve numa direção e se confere na outra. Escreve-se de cima para baixo, do cotovelo ao pé, porque é assim que se acha o nível. Confere-se de baixo para cima, começando pelos segmentos sacrais, porque é ali que está a chave que separa completa de incompleta, e essa chave fica fora da pilha que soma cem.

O mesmo movimento parando em três lugares

O trauma de coluna não muda com a idade; o que muda é a coluna que ele encontra. A mesma extensão do pescoço que num adulto jovem produz uma luxação no meio da coluna cervical, numa criança para lá em cima, na junção com o crânio, e numa pessoa idosa não quebra osso nenhum. Três paradas do mesmo movimento, com imagem, exame e conduta diferentes em cada uma — e a prova costuma dar a idade no primeiro período do enunciado justamente porque ela já anuncia o padrão.

Três painéis lado a lado com a mesma cabeça em extensão; a seta do impacto para na junção com o crânio na criança, numa luxação no meio do pescoço no adulto jovem e no centro da medula na pessoa idosa.
O mesmo movimento de extensão do pescoço para em três lugares diferentes conforme a idade: no alto na criança, no meio da coluna cervical no adulto jovem, e no centro do cordão nervoso na pessoa idosa com canal já estreito.

A criança pequena tem a cabeça grande em relação ao corpo e as articulações entre o crânio e as primeiras vértebras mais horizontalizadas, o que troca a rotação por deslizamento. O protocolo estadual registra que a instabilidade occipitocervical é "duas vezes mais frequente em crianças que adultos, por ser a atlanto-occipital mais horizontalizada". A mesma medida radiológica muda de corte com a idade: a distância do topo do odontoide à base do crânio é anormal acima de 10 mm em crianças e acima de 5 mm em adultos. Um valor de 7 mm é normal numa criança e patológico num adulto, com a mesma régua e o mesmo aparelho.

É também na criança que aparece a entidade que mais atrapalha o raciocínio de quem confia na imagem: a lesão medular sem alteração radiológica, chamada pela sigla SCIWORA. O protocolo estadual escreve que ela "representa uma entidade comum no Brasil e há pouca evidência científica que norteie seu tratamento". A coluna elástica da criança se distende e volta ao lugar; a medula, que não é elástica, não volta. Tomografia normal com déficit presente não encerra a investigação — manda pedir ressonância.

O adulto jovem quebra no meio do pescoço. É o segmento subaxial, com fratura-luxação por trauma de alta energia, e é o padrão que a classificação morfológica moderna descreve por tipo de lesão óssea e ligamentar somado a um modificador neurológico: intacto, déficit transitório, sintomas radiculares, lesão medular incompleta, lesão medular completa, ou não examinável. Repare que a classificação da imagem já carrega um campo para o exame — a própria régua reconhece que não se basta.

A pessoa idosa não precisa quebrar nada. Basta a extensão do pescoço sobre um canal já estreitado pelos anos: é a síndrome centromedular traumática, que o protocolo descreve como decorrente de "um trauma em hiperextensão em uma coluna predisponente, canal cervical estreito". A tomografia pode não mostrar fratura nenhuma, e o doente chega com as mãos piores que as pernas.

Um dado amarra os três painéis e é o tipo de número que a prova gosta. A fratura da transição entre o pescoço e o tórax corresponde a 5% das fraturas da coluna vertebral, e 80% delas vêm com lesão neurológica. Multiplicando, quatro em cada cem fraturas de coluna são dessa transição e trazem déficit. O oitenta por cento assusta sozinho e engana: ele se aplica a uma fatia de uma em vinte. É o mesmo mecanismo aritmético do colar, invertido — ali o fator grande escondia um denominador pequeno; aqui ele avisa que a fratura mais rara é justamente a que mais frequentemente vem acompanhada.

Duas réguas que não competem: a que decide operar e a que decide quando

Duas perguntas cirúrgicas chegam juntas e saem de instrumentos diferentes: se opera, e quando opera. Confundi-las é o erro mais cobrado do tema, e é fácil de cometer porque as duas respostas vêm do mesmo doente e da mesma pasta de exames. Vale desenhá-las como duas réguas empilhadas, com a certeza de que os traços de uma não coincidem com os da outra.

Duas réguas empilhadas com pontilhados cruzados entre elas; a de cima aponta para a palavra operação e a de baixo para um relógio, com quatro janelas de tempo alinhadas à régua de baixo.
Duas réguas para o mesmo doente: a de cima lê a imagem e termina em operar ou não operar; a de baixo lê o exame neurológico e termina no relógio. Os pontilhados não se correspondem, e é aí que a prova monta o distrator.

A régua que decide se opera lê a imagem. Ela pergunta se há instabilidade da coluna e se há medula comprimida, e responde com operar ou não operar. É a régua da morfologia: o traço da fratura, a integridade dos ligamentos, o alinhamento, a redução do canal. Um doente sem déficit nenhum pode ter indicação cirúrgica plena, porque a instabilidade sozinha basta.

A régua que decide quando lê o exame neurológico e, sobretudo, a trajetória dele. O protocolo estadual escreve os prazos como indicadores de qualidade, e é a lista mais clara que existe em português: déficit completo ou parcial com compressão na tomografia, ou doente sem déficit que passa a ter déficit dentro do hospital, operam em até 24 horas, chamado ali de urgência absoluta; doente sem déficit neurológico opera em até 4 dias, urgência relativa. Para o ferimento por projétil de arma de fogo o mesmo documento abre uma terceira janela: "se o déficit é estável aguardamos 10 a 14 dias para realizar o procedimento; se o déficit está em piora a indicação é de tratamento na urgência".

A diretriz internacional de 2024 sustenta a janela das 24 horas com força: "recomendamos que a cirurgia precoce seja oferecida como opção para pacientes adultos com lesão medular aguda, independentemente do nível", com qualidade de evidência moderada e recomendação forte, e com precoce definido como descompressão em até 24 horas. No mesmo documento, a pergunta seguinte — se valeria operar ainda mais cedo — recebe um não-resposta honesto: uma recomendação para cirurgia ultraprecoce não pôde ser feita, por amostras pequenas e por cada estudo definir ultraprecoce de um jeito.

O ponto que a prova cobra é que os pontilhados entre as duas réguas não se correspondem. Compressão sem déficit tem indicação e vai para o relógio lento. Déficit sem compressão não tem o que descomprimir, e o relógio fica sem o que cronometrar — o tratamento ali é hemodinâmico e de suporte, não cirúrgico. E quem começa sem déficit e piora dentro do hospital troca de relógio sem trocar de indicação: a operação já estava indicada; o que mudou foi o prazo. Enunciado que descreve piora progressiva está pedindo o relógio, não a indicação.

O choque que não taquicardiza e o déficit que apaga o sinal

Duas palavras parecidas nomeiam coisas diferentes, e a prova sabe disso. Choque medular é fenômeno neurológico: a perda transitória de toda atividade reflexa abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia, que se resolve em dias e cujo fim é anunciado pelo retorno dos reflexos mais baixos. Choque neurogênico é fenômeno circulatório: a perda do tônus simpático nas lesões acima do sexto segmento torácico, que produz hipotensão com bradicardia e pele quente e seca, porque falta a vasoconstrição e falta a aceleração cardíaca compensatória. Um é reflexo, o outro é pressão; um se resolve sozinho, o outro se trata.

E aqui mora a armadilha mais cara do tema. A bradicardia com hipotensão num politraumatizado é bonita de reconhecer e péssima de confiar. A diretriz de 2024 escreve que a hipotensão nesses doentes "pode resultar de hemorragia concomitante e choque neurogênico" e que, "qualquer que seja a causa, a hipotensão é provavelmente deletéria". A frequência cardíaca baixa não exclui sangramento; ela apenas remove o sinal pelo qual o sangramento costuma se anunciar. Diante de hipotensão em quem tem lesão medular alta, procura-se hemorragia com a mesma agressividade de sempre, e a explicação neurogênica é diagnóstico de exclusão, não de primeira leitura.

O mecanismo se repete de forma ainda mais cruel um andar abaixo. Uma lesão com nível sensitivo torácico abole a dor abdominal. O doente com uma víscera rota não refere dor, não faz defesa e não tem descompressão dolorosa, porque a via que levaria essa informação foi interrompida pelo próprio trauma que motiva toda a atenção. O déficit apaga exatamente o sinal que diagnosticaria a emergência abdominal — e por isso, no doente com lesão medular, a decisão sobre o abdome se toma por imagem e por mecanismo, nunca por exame físico. É a mesma lógica pela qual o protocolo estadual manda reconstruir a coluna toracolombar a partir da tomografia de tórax, abdome e pelve que já foi feita: quando o exame clínico não pode falar, a imagem assume.

A pressão é o outro tratamento agudo, e é onde os dois documentos divergem em número sem divergir em conduta. O protocolo estadual de 2025 escreve "manter PAM entre 85 e 90 mmHg nos primeiros 7 dias do trauma" e "correção agressiva da hipotensão, evitando pressão sistólica abaixo de 90". A diretriz internacional de 2024 sugere elevar a pressão arterial média "para pelo menos 75 a 80 e não mais que 90 a 95", por 3 a 7 dias, e rotula as duas recomendações com qualidade de evidência muito baixa e força fraca.

As duas faixas não se contradizem: a faixa estreita mora dentro da larga. Três pontos mostram como isso funciona na prática. Uma pressão média de 80 está dentro da faixa nova e abaixo da antiga; 87 está dentro das duas; 93 está dentro da nova e acima da antiga. O que mudou de um documento para o outro não foi a fisiologia, foi a largura do intervalo — e a largura é a confiança. Nada acontece com a medula ao cruzar 84,9 mmHg; o corte estreito é uma escolha de protocolo, e o documento internacional é honesto ao dizer que a evidência por trás dele é muito baixa. O que muda conduta é o mesmo nos dois: monitorizar, não deixar hipotenso, manter por vários dias, em unidade de terapia intensiva.

O mais brando é o que carrega a consequência mais pesada

A hierarquia intuitiva do trauma diz que quanto pior a imagem, pior o doente. No trauma raquimedular ela se inverte num ponto específico, e é justamente esse ponto que a prova escolhe. A síndrome centromedular traumática nasce do mecanismo mais banal que existe: uma queda da própria altura, uma batida de carro em baixa velocidade, o pescoço que estende por um instante numa coluna que já tinha o canal estreitado pela idade. Frequentemente não há fratura, não há luxação, e a tomografia sai limpa.

O déficit, porém, é o que mais custa ao doente. A definição internacional é literal: lesão medular incompleta da região central do cordão cervical, que se apresenta com comprometimento maior nos membros superiores do que nos inferiores. O doente anda e não abotoa a camisa. Recupera a marcha e não recupera a preensão. Na conta do que uma pessoa perde, a mão pesa mais que a perna, e é a mão que fica.

E é exatamente aqui que a diretriz é mais fraca. Para a fratura-luxação instável a recomendação é forte; para a síndrome centromedular sem instabilidade, a redação de 2017 é "sugerimos que a cirurgia precoce seja considerada como opção terapêutica em pacientes adultos com síndrome centromedular traumática", com qualidade de evidência baixa. Sugerir e considerar são as palavras do consenso frouxo. Ou seja: onde a imagem assusta, o caminho é consensual; onde a imagem tranquiliza, o caminho é incerto e o prognóstico funcional é o que mais dói.

A mesma inversão vale para a criança com lesão medular sem alteração radiológica. Imagem normal, déficit real, e um documento oficial brasileiro admitindo que há "pouca evidência científica que norteie seu tratamento". Quem lê a tomografia limpa como alta está lendo o exame que não faz o diagnóstico. Nos dois casos — o idoso e a criança — a régua da imagem devolve um resultado tranquilizador e a régua do exame neurológico devolve o oposto; e é a segunda que governa a internação, a monitorização da pressão e o pedido de ressonância.

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As três réguas, lado a lado

Três tabelas cobrem a maior parte dos enunciados: a que separa o que cada régua lê e o que cada régua decide, a que fecha a escala de deficiência mostrando onde cada letra se decide, e a que reúne os prazos cirúrgicos publicados em português. A ordem de leitura importa mais que a memorização: mecanismo e idade primeiro, exame neurológico depois, imagem por último — a imagem confirma e classifica, mas não é ela que descobre o déficit.

  1. 1Ler o mecanismo antes de tudo. Trauma penetrante isolado não recebe restrição de movimento de coluna; trauma contuso entra na régua dos critérios.
  2. 2Aplicar a régua da restrição. Instabilidade na avaliação primária ou idade acima de 65 anos já indicam; senão, procurar déficit de consciência, déficit sensitivo ou motor, dor, deformidade, distração e a dinâmica do trauma.
  3. 3Fazer o exame neurológico completo depois da estabilização, não antes. Dez grupos musculares de cada lado, graduados de zero a cinco, e o nível sensitivo.
  4. 4Conferir a preservação sacral antes de dizer a letra. Sensibilidade nos últimos segmentos sacrais ou contração anal voluntária separam lesão completa de incompleta, e nenhum escore substitui esse passo.
  5. 5Contar os músculos-chave abaixo do nível para separar os dois graus motores incompletos: mais da metade abaixo de força três é o grau C; metade ou mais em força três ou acima é o grau D.
  6. 6Pedir tomografia da coluna cervical em quem está consciente e sintomático; se não houver tomógrafo, radiografia em três incidências complementada por tomografia das áreas suspeitas.
  7. 7Pedir ressonância quando houver déficit com tomografia normal — é o cenário da lesão medular sem alteração radiológica e o da síndrome centromedular.
  8. 8Separar as duas perguntas cirúrgicas. A imagem responde se opera; o exame neurológico e a sua trajetória respondem quando.
  9. 9Manter a pressão arterial média elevada por vários dias em unidade de terapia intensiva, e procurar hemorragia em todo hipotenso, inclusive no bradicárdico.

Três réguas, três entradas, três saídas

RéguaO que ela lêO que ela decideO que ela não decide
Restrição de movimento de colunaMecanismo, idade, consciência, dor, deformidade, déficit, distraçãoSe o doente é transportado e avaliado com restriçãoNão diz se há fratura nem se há lesão medular
Indicação cirúrgicaTomografia e ressonância: instabilidade e compressão da medulaSe operaNão define o prazo, nem o prognóstico neurológico
Relógio cirúrgicoExame neurológico e a trajetória dele nas primeiras horasQuando opera: agora, em 24 horas, em 4 dias, em 10 a 14 diasNão cria indicação onde a imagem não mostrou compressão nem instabilidade
Escala de deficiênciaDez grupos musculares por lado e a preservação sacralA letra, o prognóstico e a linguagem comum entre equipesNão indica cirurgia nem define o prazo

A escala de deficiência: onde cada grau se decide

GrauCritérioOnde se olhaPegadinha frequente
CompletaNenhuma função sensitiva ou motora nos segmentos sacrais mais baixosSensibilidade perianal e contração anal voluntáriaEscore motor alto não impede esta classificação
Sensitivo incompletoSensibilidade preservada abaixo do nível, inclusive sacral, sem função motoraNível sensitivo e segmentos sacraisConfundir com o grau seguinte por achar movimento reflexo
Motor incompleto, piorMais da metade dos músculos-chave abaixo do nível com força menor que trêsContagem dos músculos abaixo do nível neurológicoUsar metade de cem pontos como se fosse a metade dos músculos
Motor incompleto, melhorPelo menos metade dos músculos-chave abaixo do nível com força três ou maisMesma contagem, do outro lado da metadeUm único músculo que sobe de dois para três muda a letra
NormalSensibilidade e força normais em todos os segmentosExame completoReflexos anormais isolados não impedem esta classificação

Os relógios do mesmo bisturi

SituaçãoPrazo publicadoOrigem
Déficit completo ou parcial com compressão na tomografiaAté 24 horas, urgência absolutaProtocolo clínico estadual, 2025
Sem déficit que passa a ter déficit no hospitalAté 24 horas, urgência absolutaProtocolo clínico estadual, 2025
Sem déficit neurológicoAté 4 dias, urgência relativaProtocolo clínico estadual, 2025
Ferimento por projétil com déficit estávelDe 10 a 14 diasProtocolo clínico estadual, 2025
Ferimento por projétil com déficit em pioraUrgênciaProtocolo clínico estadual, 2025
Lesão medular aguda, qualquer nívelCirurgia precoce, definida como até 24 horas, oferecida como opçãoDiretriz internacional, 2024, recomendação forte
Cirurgia mais precoce que 24 horasSem recomendação possívelDiretriz internacional, 2024

Os prazos da tabela dos relógios foram publicados como indicadores de qualidade assistencial, não como recomendação com grau de evidência: o documento estadual mede a proporção de doentes operados dentro de cada janela. Já a janela das 24 horas da diretriz internacional tem recomendação forte com qualidade de evidência moderada — a única do tema com esse par.

A régua da restrição de movimento de coluna e a régua da tomografia cervical usam listas parecidas e diferentes. Idade acima de 65 anos aparece só na primeira; limitação de amplitude de movimento aparece só na segunda. Enunciado que dá a idade como único achado positivo está testando a primeira lista.

As recomendações sobre pressão arterial média das duas fontes têm força e qualidade declaradas de forma muito diferente: o documento internacional rotula as suas como fracas e de qualidade muito baixa, e o documento estadual apresenta a sua sem graduação, numa lista de terapia aguda cujas recomendações estão marcadas como classe três.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Alvo e duração da pressão arterial média na fase aguda

Manter a pressão arterial média entre 85 e 90 mmHg nos primeiros 7 dias do trauma, com correção agressiva da hipotensão e sem deixar a sistólica abaixo de 90.

Protocolo clínico estadual de traumatismo raquimedular, versão 2025 (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais)

Sugerir a elevação da pressão arterial média para pelo menos 75 a 80 mmHg e não mais que 90 a 95 mmHg, por 3 a 7 dias, com qualidade de evidência muito baixa e força de recomendação fraca.

Diretriz de prática clínica sobre momento da cirurgia e manejo hemodinâmico da lesão medular aguda, Global Spine Journal, 2024

Na prova

A banca que quer um número único e memorizável cobra a faixa estreita de 85 a 90 mmHg por 7 dias, e o enunciado costuma vir com um doente já internado e uma pressão média oscilando. A banca que quer raciocínio dá uma pressão média de 80 ou de 93 e pergunta se está adequada — nesse caso o recorte é o intervalo largo, e a resposta reconhece que a faixa estreita mora dentro da larga. Sinal de qual recorte está em jogo: se o enunciado cita grau de evidência ou força de recomendação, está pedindo o documento internacional.

Corticoide na lesão medular traumática aguda

Entre as intervenções estudadas, a de maior impacto clínico até então seria a aplicação do glicocorticoide metilprednisolona — posição de revisão narrativa brasileira de 2009, que descreve o corticoide como a medida com melhor resultado documentado.

Del Bel EA, Silva CA, Mladinic M. O trauma raquimedular. Coluna/Columna. 2009;8(4)

A terapia aguda do traumatismo raquimedular consiste em monitorização cardíaca, hemodinâmica e respiratória, correção da hipotensão, manutenção da pressão arterial média, mobilização em bloco, mudança de decúbito e profilaxias — lista na qual o corticoide não figura em nenhum item.

Protocolo clínico estadual de traumatismo raquimedular, versão 2025 (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais)

Na prova

O recorte se identifica pelo ano do cenário e pelo vocabulário. Enunciado que descreve um serviço com protocolo escrito e pergunta "qual conduta faz parte do manejo agudo" está usando a lista moderna, e ali o corticoide não entra. Enunciado que pergunta sobre a história do tratamento, sobre janela de oito horas ou sobre os ensaios clássicos está pedindo a posição antiga. O que nunca se faz é responder pela lembrança de um único artigo: a pista está em qual documento o enunciado descreve.

Qual lista de critérios decide restringir o movimento da coluna

Dois critérios de instabilidade e idade — instável na avaliação primária e idade acima de 65 anos — somados a seis critérios clínicos: déficit do nível de consciência, déficit sensitivo ou motor, dor, deformidade, distração e dinâmica do trauma.

Protocolo de restrição de movimento de coluna vertebral do serviço de atendimento móvel de urgência de Belo Horizonte, 2023

Cinco critérios no fluxograma de decisão da suspeita de trauma raquimedular cervical: dor, déficit, distração, intoxicação e limitação de amplitude de movimento, aplicados conforme a escala de coma seja igual ou menor que 15.

Protocolo clínico estadual de traumatismo raquimedular, versão 2025 (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais)

Na prova

As duas listas decidem coisas diferentes, e é isso que identifica o recorte: a lista pré-hospitalar decide o transporte e inclui o mecanismo e a idade, que só existem na cena; a lista hospitalar decide a tomografia e inclui intoxicação e limitação de amplitude, que só se avaliam com o doente parado. Enunciado ambientado na rua, com a equipe da ambulância, pede a primeira; enunciado na sala de emergência, com o doente já monitorizado, pede a segunda. Idade isolada como único achado só decide na primeira.

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Caso resolvido

Homem de 24 anos é trazido pela ambulância 40 minutos após mergulhar em água rasa numa represa. Chega com restrição de movimento de coluna, consciente, escala de coma 15, queixando-se de não sentir nem mover as pernas. Pressão arterial 82 por 48 mmHg, frequência cardíaca 48 bpm, frequência respiratória 22 irpm, saturação 96% em ar ambiente, extremidades quentes e secas. Ao exame: força preservada em flexores do cotovelo e extensores do punho, ausente nos flexores dos dedos e em todos os grupos dos membros inferiores; nível sensitivo em mamilos; sem sensibilidade perianal e sem contração anal voluntária. A tomografia mostra fratura-luxação no meio da coluna cervical com redução importante do canal.
o mecanismo, antes do número
Mergulho em água rasa é carga axial com flexão sobre o pescoço de um adulto jovem, e o segmento que quebra nesse mecanismo é o subaxial, no meio da coluna cervical. A imagem confirmou exatamente o que o mecanismo previa, e isso importa porque no idoso o mesmo trauma teria produzido lesão central sem fratura.
a pressão que engana
Hipotensão com bradicardia e extremidades quentes em lesão acima do sexto segmento torácico é o quadro do choque neurogênico. Mas reconhecer o padrão não encerra a busca: hipotensão em politraumatizado continua sendo hemorragia até prova em contrário, e a frequência baixa apenas removeu o sinal que anunciaria o sangramento. Procura-se foco hemorrágico em paralelo, por imagem.
o abdome que não vai doer
O nível sensitivo em mamilos corresponde ao quarto segmento torácico. Todo o abdome está abaixo dele, então dor, defesa e descompressão dolorosa deixaram de existir como informação. A avaliação abdominal aqui é por imagem e por mecanismo, e um exame físico normal não vale como argumento.
a letra, conferida de baixo para cima
Antes de somar qualquer coisa, confere-se a preservação sacral: não há sensibilidade perianal e não há contração anal voluntária. Isso fecha a classificação em lesão completa independentemente da força preservada nos membros superiores. O escore motor deste doente é alto para os padrões de uma tetraplegia e não muda a letra.
a régua que decide operar
A tomografia mostra fratura-luxação com redução importante do canal: há instabilidade e há compressão. A indicação cirúrgica está posta pela imagem, e ela estaria posta mesmo que o exame neurológico fosse normal.
a régua que decide o relógio
Déficit neurológico presente somado a compressão documentada é a situação que o protocolo estadual chama de urgência absoluta: descompressão em até 24 horas. A diretriz internacional de 2024 sustenta a mesma janela com recomendação forte. Enquanto a cirurgia não acontece, mantém-se a pressão arterial média elevada e o doente em unidade de terapia intensiva.
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Agora feche você

Mulher de 74 anos, hipertensa, cai da própria altura no banheiro e bate o queixo na pia. Chega ao pronto-socorro andando com apoio, escala de coma 15, pressão 148 por 86 mmHg e frequência cardíaca 78 bpm. Queixa-se de dor no pescoço e de que "as mãos ficaram bobas": não consegue abotoar a blusa nem segurar o copo. Ao exame, força reduzida e simétrica nos grupos das mãos, força melhor nos membros inferiores, marcha possível com apoio. A tomografia de coluna cervical não mostra fratura nem luxação, apenas redução difusa do canal por alterações degenerativas.
Passo 1
Nomeie o mecanismo pelo que a vinheta descreve — o queixo que bate — e diga o que ele faz com o pescoço.
Passo 2
Explique por que a distribuição do déficit, com mãos piores que pernas, aponta para uma região específica do cordão cervical, e nomeie a síndrome.
Passo 3
Diga por que a tomografia sem fratura não permite alta, e qual exame é o passo seguinte.
Passo 4
Compare esta paciente com o mergulhador do caso anterior quanto à força da recomendação cirúrgica, e diga qual dos dois tem a conduta mais consensual.
Passo 5
Aponte, entre as três réguas do capítulo, qual devolveu resultado tranquilizador e qual devolveu o oposto, e diga qual das duas governa a internação.
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Onde a banca derruba

  1. 1Choque medular e choque neurogênico não são a mesma coisa O primeiro é a arreflexia transitória abaixo da lesão, fenômeno neurológico que se resolve em dias. O segundo é hipotensão com bradicardia por perda do tônus simpático, fenômeno circulatório que se trata. Enunciado que descreve flacidez e ausência de reflexos sem falar de pressão está falando do primeiro.
  2. 2Bradicardia não autoriza parar de procurar hemorragia A frequência baixa remove o sinal pelo qual o sangramento se anuncia, não o sangramento. Hipotensão em quem tem lesão medular alta continua sendo hemorragia até prova em contrário, e a explicação neurogênica é diagnóstico de exclusão.
  3. 3O nível sensitivo apaga o abdome Sem dor, sem defesa e sem descompressão dolorosa, o exame físico abdominal perde valor no doente com lesão medular torácica. A decisão passa a ser por mecanismo e por imagem.
  4. 4Trauma penetrante isolado não recebe restrição de coluna O dispositivo atrasa o tratamento do que mata nesse mecanismo, que é o sangramento, e protege contra uma instabilidade que praticamente não ocorre ali.
  5. 5Tomografia normal com déficit não encerra a investigação É o cenário da lesão medular sem alteração radiológica na criança e o da síndrome centromedular no idoso. O passo seguinte é a ressonância, não a alta.
  6. 6Prancha rígida não é sinônimo de imobilização O nome mudou para restrição de movimento de coluna porque a prancha não reduz a movimentação da coluna. Ela serve para transferir o doente, e o tempo sobre ela é dano acumulado.
  7. 7A letra da escala não é o escore motor Cem pontos de força não separam lesão completa de incompleta. Quem separa é a preservação sacral, e a metade que separa os dois graus motores incompletos é metade dos músculos abaixo do nível, não metade dos cem pontos.
  8. 8Priapismo é sinal de lesão medular, não de doença urológica Ereção persistente e indolor em politraumatizado com hipotensão e bradicardia é a mesma perda de tônus simpático que produz o choque neurogênico, e aparece em enunciado justamente para ser reconhecida como neurológica.
  9. 9Idade avançada é critério isolado numa das listas Na régua pré-hospitalar, mais de 65 anos indica restrição mesmo sem dor, sem déficit e sem deformidade. Quem só decorou a lista hospitalar vai procurar outro achado positivo que o enunciado não deu.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a arreflexia flácida com ausência do reflexo bulbocavernoso na fase aguda caracteriza o CHOQUE MEDULAR (spinal shock) — supressão transitória da atividade reflexa abaixo da lesão. O prognóstico definitivo (distinguir lesão completa de incompleta) só é confiável APÓS o término do choque medular, sinalizado pelo retorno do reflexo bulbocavernoso; durante a arreflexia, a extensão real da lesão não pode ser definida. Erra: justamente porque há choque medular ativo, a arreflexia não permite afirmar lesão completa definitiva. Erra: choque medular (fenômeno neurológico reflexo) não se confunde com choque neurogênico (fenômeno hemodinâmico); volume não restaura os reflexos. Erra: disreflexia autonômica é complicação tardia (crônica) de lesões acima de T6, com hipertensão paroxística — não se aplica à fase aguda hipotensa. Erra: o mecanismo traumático e o nível sensitivo bem definido apontam lesão medular, não neuropatia periférica.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Três réguas, três entradas. A restrição de movimento de coluna se decide pelo mecanismo, pela idade e pelo exame na cena. A indicação cirúrgica se decide pela imagem: instabilidade e compressão. O relógio se decide pelo exame neurológico e pela sua trajetória — até 24 horas com déficit e compressão, até 4 dias sem déficit, urgência para quem piora. E a letra se decide primeiro nos segmentos sacrais: sem preservação sacral a lesão é completa, por mais alto que esteja o escore motor.

em 30 dias

A metade que separa os dois graus motores incompletos é metade dos músculos-chave abaixo do nível neurológico, e não metade dos cem pontos do escore motor: quatro de dez em força três ou mais dá o grau pior, cinco de dez já dá o melhor, e o músculo que sobe de dois para três move um ponto em cem e vira a letra. Guarde junto os dois números do colar — três em cem traumatizados contusos têm fratura cervical e um em cinco desses tem lesão medular, ou seja seis em mil — e a inversão da síndrome centromedular, em que o mecanismo mais banal produz o déficit que mais custa e a recomendação mais fraca.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um homem de 24 anos chega à sala de emergência 40 minutos depois de mergulhar numa represa. Está acordado, falando, e repete que não sente as pernas. A pressão está baixa, o coração está lento e as mãos dele estão quentes. Você tem uma tomografia para pedir, um abdome que não vai doer mesmo se estiver sangrando e duas perguntas diferentes para responder ao neurocirurgião: se opera e quando. Conduza o atendimento sem trocar uma pergunta pela outra. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trauma raquimedular — Preparatório para provas | OsceLabs