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Trombose venosa cerebral: anticoagular o infarto que já sangrou

Trombose venosa cerebral no adulto: anticoagulação plena mesmo com hemorragia, escolha e duração do anticoagulante oral e a craniectomia

Diagnóstico e anticoagulação mesmo diante de hemorragia

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 35 anos internou com trombose de seio sagital superior sem lesão do parênquima, recebeu heparina de baixo peso molecular terapêutica e está clinicamente estável no oitavo dia, deambulando, sem cefaleia. A equipe vai programar a anticoagulação oral. Segundo o desenho do único ensaio randomizado publicado nessa doença, qual é o momento adequado para a troca?

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Como esse tema cai

A trombose venosa cerebral é reconhecida em dois lugares desta apostila e tratada em nenhum. O capítulo de cefaleias secundárias a lista entre as causas que obrigam exclusão e ensina o contexto que a denuncia; o de hipertensão intracraniana de curso lento manda excluí-la antes da agulha e informa, de passagem, que ela é tratada com anticoagulação. Nenhum dos dois diz com o quê, por quanto tempo, nem o que fazer quando a tomografia mostra sangue. É essa lacuna que este capítulo fecha.

O eixo é uma decisão que contraria o reflexo formado no restante da neurologia vascular: diante de sangue intracraniano na imagem, anticoagular. A doença não é uma artéria entupida que provoca isquemia branca; é uma via de drenagem obstruída que aumenta a pressão venosa até o capilar romper. O sangue é parte do mecanismo, não sinal de que o tratamento errou. Recusar heparina porque a tomografia sangrou perpetua a obstrução que está produzindo o sangramento.

Três documentos sustentam o texto. A diretriz europeia de dois mil e dezessete, endossada pela academia europeia de neurologia, é a mais completa em recomendações formais com grau declarado. A diretriz alemã de consenso, revisada em dois mil e vinte e três e publicada em tradução abreviada no ano seguinte, incorpora os ensaios que a europeia não teve. E uma revisão da Academia Brasileira de Neurologia, de dois mil e vinte e dois, traz a epidemiologia, o ensaio da anticoagulação oral e as séries cirúrgicas com números.

Fora do recorte ficam a apresentação puerperal como problema obstétrico, o diagnóstico diferencial completo da cefaleia de alarme e a leitura do líquor — todos já cobertos pelos vizinhos. Aqui entram o reconhecimento sindrômico mínimo, o exame que confirma, a anticoagulação da fase aguda, a passagem para a via oral, o que não se faz por edema, a crise convulsiva precoce, a cirurgia que salva e o que muda na vida reprodutiva depois da alta.

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O que muda decisão

A dor não tem cara própria, e é o contexto que a entrega

A cefaleia é o sintoma mais frequente da trombose venosa cerebral e aparece em quase nove de cada dez pacientes. Isso soa útil até se perceber o que vem junto: ela não tem característica que a distinga. Pode ser difusa, progressiva e forte, o padrão mais comum; pode ser unilateral; pode ser súbita e chegar ao pico em segundos, imitando a cefaleia de trovoada da hemorragia subaracnóidea; e pode reproduzir migrânea com aura, cefaleia em salvas ou hemicrania contínua. Nenhuma descrição da dor confirma nem afasta o diagnóstico.

O que sobra como pista é a companhia e o terreno. Depois da dor, os achados mais frequentes são crise convulsiva, em quase quatro de cada dez, e déficit motor, em pouco menos que isso. A combinação de cefaleia com crise convulsiva em adulto jovem previamente hígido é rara em qualquer outro diagnóstico e comum neste. Alteração do estado mental e outros déficits focais completam o quadro. Uma cefaleia nova que persiste, sozinha, também conta — apenas ela sustenta um risco menor.

O terreno é onde o raciocínio se fecha. A doença predomina em mulheres jovens e responde por menos de um por cento de todos os acidentes vasculares cerebrais. Os fatores de risco se dividem em permanentes, como as trombofilias hereditárias, e transitórios, e são os transitórios que aparecem no atendimento: puerpério, uso de contraceptivo hormonal combinado, infecção, desidratação, neoplasia. Infecção por coronavírus e trombocitopenia trombótica imune induzida por vacina entraram nessa lista depois da pandemia.

Na prática, a pergunta que muda o desfecho não é qual é o padrão da dor, e sim há quanto tempo esta mulher está em puerpério ou há quanto tempo usa o anticoncepcional. Cefaleia nova, progressiva, que piora ao deitar, ao tossir e ao esforço, em mulher no primeiro mês depois do parto, já é trombose venosa cerebral até que a imagem venosa diga o contrário — e a crise convulsiva focal que sobrevém, longe de apontar para epilepsia, fecha o raciocínio.

Onde o trombo se instala decide o que o paciente mostra

Os seios laterais são o território mais atingido: o seio transverso responde por perto de metade a três quartos dos casos, e o sigmoide por cerca de quatro em dez. O seio sagital superior vem logo atrás, em torno de metade. O sistema venoso profundo é envolvido em pouco mais de um décimo, e as veias corticais isoladas, numa fração menor e muito variável entre as séries. Um mesmo paciente costuma ter mais de um segmento ocluído.

A topografia explica três apresentações distintas que costumam confundir. A oclusão de seio, sem lesão do parênquima, produz hipertensão intracraniana isolada: cefaleia, papiledema, obscurecimentos visuais, paralisia do sexto nervo — quadro idêntico ao da hipertensão intracraniana idiopática, e por isso o exame que precede a punção nesses casos precisa incluir estudo venoso. A trombose de veia cortical produz déficit focal e crise convulsiva com lesão parenquimatosa que não respeita território arterial. E a trombose do sistema venoso profundo produz rebaixamento de consciência com poucos sinais focais, o subtipo de pior prognóstico.

É essa terceira apresentação que engana mais. Um adulto jovem que rebaixa sem hemiplegia clara, sem febre, sem rigidez de nuca, com tomografia pobre, não parece uma doença vascular. Parece intoxicação, encefalite, causa metabólica. O sistema venoso profundo drena tálamos e gânglios da base; o edema bilateral desse território numa tomografia mal janelada passa por normal.

A lesão que aparece na imagem, quando aparece, não obedece à divisão arterial que o estudante decorou. Uma área de edema que cruza limites de território, com transformação hemorrágica desproporcional ao tamanho, próxima à convexidade ou ao seio, é o achado que deve fazer o médico pedir a fase venosa em vez de arquivar o caso como isquemia. A conduta correta é pedir o estudo venoso na mesma sessão, antes que o paciente saia da máquina.

Vista lateral do encéfalo com o seio sagital superior na borda de cima, o seio transverso para trás, o seio sigmoide descendo em curva, vasos profundos centrais e veias corticais finas.
O segmento venoso ocluído decide a apresentação: seio isolado produz pressão intracraniana alta, veia cortical produz déficit focal e crise, e o sistema profundo rebaixa a consciência.

A hemorragia é parte da doença, não erro do tratamento

Hemorragia intracraniana está presente em três a quatro de cada dez pacientes, no momento do diagnóstico e antes de qualquer anticoagulante. Essa frequência é o dado que reorganiza tudo o que vem depois. A obstrução da drenagem eleva a pressão dentro do leito venoso; o capilar, submetido a um gradiente que não suporta, extravasa. O infarto venoso nasce hemorrágico com frequência, ao contrário do infarto arterial, em que o sangue costuma ser complicação tardia ou consequência do trombolítico.

A conclusão prática está escrita nas três fontes com a mesma direção e forças diferentes. A revisão brasileira afirma que o manejo se baseia em anticoagulação mesmo na maioria dos pacientes com lesões hemorrágicas. A diretriz europeia recomenda tratar o adulto com heparina em dose terapêutica e acrescenta, na própria recomendação, que ela também se aplica a quem tem hemorragia intracerebral no início — com qualidade de evidência moderada e força forte, o par mais alto de todo o documento. A diretriz alemã escreve a mesma coisa com verbo de obrigação e consenso unânime.

Convém notar o que essa convergência significa e o que não significa. Significa que a presença de sangue na tomografia não é, por si, contraindicação: quem segura a heparina por causa dela está mantendo aberto o mecanismo que produz mais sangramento. Não significa que hemorragia seja irrelevante — ela é fator independente de mau desfecho na coorte internacional que definiu o prognóstico, ao lado de sexo masculino, idade mais avançada, escala de coma baixa na admissão, trombose do sistema profundo, infecção do sistema nervoso central e neoplasia.

O que a hemorragia muda, portanto, não é a indicação de anticoagular; é a vigilância. Ela seleciona o paciente que precisa de leito monitorado, exame neurológico seriado e imagem de controle diante de qualquer piora — e é ela, junto com o edema, que sustenta a decisão cirúrgica descrita adiante. O médico anticoagula e observa de perto; não escolhe entre as duas coisas.

O exame que confirma, e o marcador que falha justo em quem só tem dor

A confirmação é por imagem venosa. A diretriz europeia coloca a venografia por ressonância e a venografia por tomografia como alternativas confiáveis à angiografia por subtração digital, e ainda como alternativas confiáveis entre si — três recomendações separadas, todas fracas, todas com a mesma conclusão prática. Na urgência brasileira isso se traduz em uma frase: peça a fase venosa do exame que o serviço tem disponível agora, e não adie a confirmação esperando o exame ideal.

A ressonância com estudo venoso é preferível quando o paciente está estável e o serviço a oferece, porque enxerga também o parênquima e a idade do trombo. A tomografia com fase venosa resolve na emergência e é a que costuma existir de madrugada. A angiografia digital deixou de ser primeira escolha e permanece útil quando as anteriores são inconclusivas ou quando já se cogita tratamento endovascular.

O dímero está no documento europeu com uma recomendação de dosagem antes da neuroimagem, mas ela vem com duas exclusões escritas: não vale para quem tem cefaleia isolada, e não vale quando os sintomas duram mais de uma semana antes do teste. As duas exclusões cobrem exatamente as duas apresentações em que o médico mais gostaria de um exame de triagem — a dor sozinha e a dor arrastada. Nesses dois cenários, um marcador negativo não autoriza parar.

Há ainda o que não se pede na fase aguda. A diretriz europeia recomenda não rastrear trombofilia de rotina para reduzir morte, melhorar desfecho funcional ou prevenir recorrência, e não rastrear neoplasia oculta de rotina. O rastreio de trombofilia fica reservado a quem tem probabilidade pré-teste alta de carregar uma forma grave: história pessoal ou familiar de trombose venosa, idade jovem, ausência de fator de risco transitório ou permanente identificável. E, quando for pedido, que seja depois — o resultado não muda a conduta das primeiras horas.

Heparina em dose plena, e quando a fracionada não é a escolha

A fase aguda se trata com heparina em dose terapêutica, não profilática. Essa é a única recomendação da diretriz europeia sobre trombose venosa cerebral que reúne qualidade de evidência moderada com força forte; todas as outras são fracas. A alemã a classifica como recomendação forte com consenso unânime. Nenhuma das duas condiciona a indicação à ausência de sangue na imagem.

Entre as duas heparinas, a preferência é pela de baixo peso molecular. A europeia sugere heparina de baixo peso molecular em vez da não fracionada, com qualidade baixa e força fraca, e escreve as exceções na própria recomendação: não se aplica a quem tem contraindicação, como insuficiência renal, nem a situações em que se pode precisar reverter rapidamente o efeito, como o paciente que vai à neurocirurgia. A alemã diz o mesmo e é ainda mais explícita: a não fracionada deve ter preferência antes de intervenção cirúrgica ou endovascular e quando há contraindicação à de baixo peso.

Essa exceção é a que decide a prescrição do paciente grave. Quem chega com lesão hemorrágica volumosa, desvio de linha média e consciência caindo é justamente o candidato a craniectomia nas próximas horas. Prescrever heparina de baixo peso a ele significa entrar no centro cirúrgico com um anticoagulante que não se desliga em minutos. A não fracionada, em infusão contínua, normaliza a coagulação em uma a duas horas depois de parada — e é por isso que ela é a escolha de quem provavelmente vai operar.

Há a decisão inversa, igualmente escrita. O paciente estável, oligossintomático, com cefaleia isolada e sem sinal de sangramento, pode ser conduzido como quem já está em manutenção, em enfermaria comum ou até em regime ambulatorial, segundo o documento alemão. Uma criança é caso à parte: a recomendação europeia da fase aguda declara que não pode ser dada para crianças. Nem toda trombose venosa cerebral é doença de terapia intensiva, e nem todo protocolo de adulto se transporta para o menor.

O resumo que nega a duração escrita no corpo do documento

O resumo da diretriz europeia contém a frase de que não foi possível formular recomendações, por qualidade muito baixa de evidência, a respeito de quatro assuntos — e o primeiro deles é a duração da anticoagulação depois da fase aguda. Quem lê o resumo sai convencido de que o documento é silencioso nesse ponto e vai procurar o número em outro lugar.

O corpo do mesmo documento, no tópico dedicado à duração, escreve uma recomendação com todas as letras: usar anticoagulante oral, antagonista da vitamina K, por três a doze meses depois do episódio, para prevenir recorrência e outros eventos tromboembólicos venosos. A qualidade da evidência declarada é muito baixa e a força é fraca — mas recomendação fraca é recomendação. Está no mesmo documento, sob o mesmo cabeçalho de tópico, com o número e a droga.

A informação adicional que acompanha essa recomendação é o que a torna operacional. Pacientes com trombose venosa recorrente, ou com condição pró-trombótica associada de alto risco trombótico, podem precisar de anticoagulação permanente; nesses casos, valem as recomendações específicas de prevenção de recorrência do tromboembolismo venoso, e não a faixa de três a doze meses. Ou seja, o número serve ao episódio provocado por fator transitório, que é o cenário mais comum.

Para quem trata, o efeito prático de descobrir a discrepância é simples: a faixa existe, é defensável e coincide com a que a diretriz alemã escreve. O que muda dentro dela é o fator de risco. Puerpério e contraceptivo são transitórios e puxam para a extremidade curta; trombofilia grave, neoplasia ativa ou episódio recorrente empurram para a longa ou para o uso indefinido. O médico decide a duração pelo fator que causou, não pelo resumo que leu.

Da heparina ao comprimido: o ensaio randomizou depois do quinto dia

O único ensaio clínico randomizado publicado que comparou anticoagulante oral direto com antagonista da vitamina K nesta doença testou dabigatrana contra varfarina com alvo de razão normalizada internacional entre dois e três. Foram cento e vinte pacientes, com dose de cento e cinquenta miligramas duas vezes ao dia no braço do direto, e seguimento de vinte e cinco semanas. Nenhum dos dois grupos teve recorrência de tromboembolismo venoso; houve uma hemorragia maior no braço da dabigatrana e duas no da varfarina.

O desenho é o que resolve a aparente briga entre as diretrizes. Os pacientes foram randomizados depois de cinco a quinze dias de tratamento agudo com heparina não fracionada ou de baixo peso, e apenas quando já estavam clinicamente estáveis. O ensaio nunca testou anticoagulante oral direto na fase aguda; testou a substituição da heparina pelo comprimido, já passada a fase crítica. Foram excluídos, entre outros, quem tinha infecção do sistema nervoso central, trauma craniano maior, hemorragia maior nos seis meses anteriores, neoplasia e depuração de creatinina abaixo de trinta mililitros por minuto.

Com esse desenho em mãos, as duas frases que pareciam se contradizer voltam a caber juntas. A europeia recomenda não usar os orais diretos no tratamento desta doença, sublinhando a fase aguda, e foi escrita antes do ensaio. A alemã, revisada depois dele, registra que não há estudos randomizados na fase aguda e que por isso nenhuma recomendação pode ser feita para esse momento — mas passa a preferir o oral direto ao antagonista da vitamina K na manutenção, com a melhor evidência recaindo sobre a dabigatrana no adulto.

Na prática brasileira, isso significa heparina primeiro, sempre; troca para via oral quando o paciente estabilizou, tipicamente na segunda semana; e, na escolha do comprimido, um oral direto ou um antagonista da vitamina K conforme a disponibilidade, a função renal e a capacidade de monitorar a razão normalizada. O erro grave não é escolher o comprimido errado — é começar por ele.

O que não se faz pelo edema, e o que se reserva a quem piora

O edema cerebral aparece na imagem em metade dos pacientes e provoca uma sequência de reflexos que os documentos desautorizam um a um. Corticoide não deve ser usado para prevenir morte ou melhorar desfecho funcional na fase aguda, com uma exceção escrita: doença de Behçet e outras doenças inflamatórias, como o lúpus, em que a inflamação subjacente é o alvo. Acetazolamida também não, com uma abertura análoga — pode ser considerada na hipertensão intracraniana isolada com cefaleia grave ou visão ameaçada.

A punção lombar terapêutica ficou sem recomendação específica: a diretriz europeia declara que nenhuma pode ser feita quanto ao seu efeito no desfecho, e registra que pode ser considerada em quem tem sinais de hipertensão intracraniana, por efeito potencial sobre a perda visual e a dor, quando o perfil de segurança for aceitável. É alívio sintomático de exceção, não etapa do tratamento.

A derivação liquórica isolada é o erro mais tentador do quadro grave. A recomendação europeia é de não usar derivação de rotina, sem outro tratamento cirúrgico, no paciente com herniação iminente por lesão do parênquima. A razão é mecânica: quem está herniando por uma massa hemorrágica e por edema não é comprimido por hidrocefalia, e drenar líquor não devolve espaço ao hemisfério. Para hidrocefalia associada, nenhuma recomendação pôde ser feita em qualquer direção.

A trombólise dirigida e a trombectomia venosa ficaram, nos dois documentos, no lugar de resgate individual. O ensaio randomizado que comparou tratamento endovascular com anticoagulação em pacientes de alto risco foi interrompido antes do fim e não mostrou benefício. Em infarto hemorrágico volumoso, o trombolítico pode aumentar o sangramento e acelerar a herniação. A porta que resta é estreita e está escrita: recanalização endovascular, em centro com neurointervenção, para quem deteriora sob anticoagulação adequada. Quem tem risco baixo de mau desfecho não deve receber trombólise.

A crise convulsiva precoce e o antiepiléptico que se justifica

Crise convulsiva ocorre em quase quatro de cada dez pacientes e muitas vezes é o que traz o doente ao pronto-socorro. Ela costuma ser focal, com generalização secundária, e acompanha a lesão do parênquima que a hipertensão venosa produziu. É o sintoma que mais rapidamente reclassifica uma cefaleia arrastada em emergência neurológica.

A recomendação europeia é precisa quanto a quem recebe antiepiléptico: pacientes com trombose venosa cerebral aguda, com lesão supratentorial e que já tiveram crise, para prevenir recorrência precoce das crises. São três condições simultâneas — a doença aguda, a lesão no compartimento supratentorial e a crise já ocorrida. Quem não teve crise não entra; quem teve crise mas não tem lesão supratentorial também não está coberto pela frase.

O que a mesma recomendação não faz é prometer prevenção de crises tardias. O documento declara que nenhuma recomendação pode ser feita para a prevenção de crises remotas, por qualidade muito baixa de evidência. Isso tem consequência concreta na alta: o antiepiléptico iniciado na internação não é, por definição, tratamento vitalício, e a decisão de manter ou retirar depois de meses é individual, tomada com o neurologista que acompanhar, e não herdada da prescrição da emergência.

Enquanto o paciente está internado, a crise tem ainda um papel de monitorização. Crise nova em quem já estava anticoagulado, ou crise que se repete apesar da droga, é sinal de que a lesão está crescendo — e manda repetir a imagem antes de simplesmente subir a dose do antiepiléptico. O que muda o desfecho nessa hora é reconhecer a piora estrutural, não o ajuste farmacológico.

A craniectomia decide a sobrevida, e o sinal que a antecipa

A principal causa de morte na fase aguda é a herniação transtentorial, provocada por uma lesão hemorrágica grande ou por edema difuso. Cerca de um em cada sete pacientes morre ou permanece incapacitado. Não existe ensaio randomizado de craniectomia descompressiva nesta doença; o que existe são séries e revisões, e elas apontam todas na mesma direção.

Uma série de doze pacientes com consciência rebaixada e pupilas dilatadas ou sinais radiológicos de herniação, com desvio de linha média mediano em torno de doze milímetros, separou os que foram operados dos que não foram: todos os não operados morreram, e sete dos oito operados sobreviveram, seis deles sem incapacidade no seguimento. Uma série de treze casos operados após paralisia do terceiro nervo ou queda da escala de coma teve bom desfecho em onze. Uma revisão de sessenta e nove casos registrou desfecho desfavorável em pouco mais de um sexto. Em uma coorte de cinquenta e oito pacientes com trombose hemorrágica, mais da metade teve bom desfecho em seis meses.

Diante desse conjunto, a diretriz europeia faz o movimento incomum de emitir recomendação forte sobre evidência baixa: recomenda cirurgia descompressiva para pacientes com trombose venosa cerebral aguda e lesão do parênquima com herniação iminente, para prevenir a morte. A alemã escreve a mesma indicação com verbo de dever, reconhecendo no próprio texto que o nível de evidência global é baixo. A justificativa é o comparador: o desfecho de quem não opera nesse cenário é a morte.

O que o médico faz com isso, na madrugada, é vigiar os sinais que antecedem a indicação. Queda de dois pontos na escala de coma, anisocoria nova, pupila que dilata e para de responder, desvio de linha média que cresce entre duas imagens. Nenhum deles é limiar automático, e o desvio isolado não opera ninguém. Diante de qualquer um, a conduta é acionar a neurocirurgia enquanto a anticoagulação continua — e trocar para heparina não fracionada, se ela já não estiver correndo.

Depois da alta: o estrogênio sai, a gravidez fica

A trombose venosa cerebral atinge sobretudo mulheres em idade fértil, e é isso que torna as decisões da alta tão consequentes quanto as da emergência. Três perguntas voltam sempre: pode continuar o anticoncepcional, pode engravidar de novo, e o que fazer se engravidar.

A primeira tem a mesma resposta nos dois documentos, com forças diferentes. A diretriz europeia diz que mulheres em idade fértil com trombose venosa cerebral prévia devem ser informadas dos riscos da contracepção hormonal combinada e aconselhadas contra o seu uso — recomendação fraca, evidência muito baixa. A alemã usa verbo de obrigação: mulheres com trombose prévia ligada ao uso de contraceptivo combinado ou à gestação devem deixar de continuar ou de reiniciar a combinação de estrogênio com progestagênio, e acrescenta a razão e a condição — risco aumentado de recorrência quando a anticoagulação não está mais em curso. A conversa da alta é oferecer método sem estrogênio antes que a paciente saia do hospital.

A segunda pergunta tem resposta contraintuitiva e escrita: não contraindicar gestações futuras apenas com base na história de trombose venosa cerebral. O que se recomenda é informar os riscos absolutos e relativos de eventos trombóticos venosos e de abortamento nas gestações seguintes. Dizer a uma mulher de trinta anos que ela não pode mais engravidar é ultrapassar o que os documentos autorizam.

A terceira é a que combina as duas. Na trombose aguda durante a gestação ou o puerpério, o anticoagulante é a heparina de baixo peso subcutânea. E, para quem já teve o episódio e engravida depois, os dois documentos recomendam profilaxia com heparina de baixo peso — a europeia ao longo da gestação e do puerpério, sem fixar prazo; a alemã escrevendo o número que falta na outra: durante toda a gestação e por pelo menos seis semanas depois do parto. Quem receber essa paciente no pré-natal precisa ter esse plano por escrito desde a primeira consulta.

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O que cada documento fixa, e com que força

As três fontes concordam no essencial e divergem na força e no detalhe. A tabela reúne as decisões com o valor que cada documento escreve; a coluna da direita diz onde o número deixa de ser informação e vira conduta. Onde a diretriz europeia declara grau, ele vem reproduzido: quase tudo nesta doença é recomendação fraca sobre evidência baixa, e as duas exceções — anticoagulação aguda e craniectomia — são justamente as que salvam vida.

Onde o trombo se aloja

O seio sagital superior corre na linha média, e os laterais descem de cada lado até o sigmoide. Transverso e sigmoide são os territórios mais atingidos; o sagital superior vem logo atrás. Mais de um segmento costuma estar ocluído no mesmo paciente, e a oclusão de seio sem lesão do parênquima produz hipertensão intracraniana isolada.

O infarto que nasce com sangue

A obstrução da drenagem eleva a pressão no leito venoso até o capilar extravasar. O edema aparece primeiro e o sangue vem dentro dele, sem respeitar limite de território arterial. Três a quatro em cada dez pacientes já têm hemorragia no diagnóstico, antes de qualquer anticoagulante — por isso ela é achado da doença, não efeito adverso do tratamento.

A linha do tempo do anticoagulante

Bloco cheio à esquerda: heparina em dose terapêutica, começando no diagnóstico e independente de haver sangue. Faixa tracejada: a janela de troca, entre o quinto e o décimo quinto dia, e apenas com o paciente estável. Bloco vazado à direita: o anticoagulante oral, mantido de três a doze meses conforme o fator que causou o episódio.

Quando a cirurgia entra

Massa hemorrágica com edema empurrando a linha média para o lado oposto: é esse conjunto, somado à consciência que cai ou à pupila que dilata, que indica a craniectomia. O retalho retirado devolve espaço ao hemisfério. Derivação liquórica isolada não resolve esse mecanismo, porque quem hernia por massa não está sendo comprimido por hidrocefalia.

DecisãoO que o documento fixaOnde muda a conduta
Anticoagulação na fase agudaHeparina em dose terapêutica; aplica-se também a quem tem hemorragia intracerebral no início (ESO 2017: evidência moderada, força forte)Sangue na tomografia não segura a heparina; segurar mantém a obstrução que produz o sangramento
Tipo de heparinaHBPM preferida à HNF (ESO 2017: evidência baixa, força fraca). HNF preferida antes de intervenção cirúrgica ou endovascular e se houver contraindicação à HBPM (S2k 2023)Candidato a craniectomia nas próximas horas recebe HNF: o efeito cessa em 1 a 2 horas após parar a infusão
Anticoagulação em criançaA recomendação de heparina da fase aguda declara que nenhuma pode ser dada para crianças (ESO 2017)Protocolo de adulto não se transporta; a decisão pediátrica é individual e com hematologia
Anticoagulante oral diretoNão recomendado para o tratamento, sobretudo na fase aguda (ESO 2017). Preferido ao AVK na manutenção, melhor evidência com dabigatrana (S2k 2023)Nunca como droga inicial; entra na troca, depois da estabilização clínica
Duração do oral3 a 12 meses (ESO 2017, corpo do documento: evidência muito baixa, força fraca; S2k 2023: mesma faixa)Fator transitório puxa para a extremidade curta; trombose recorrente ou trombofilia de alto risco pode exigir uso indefinido
Momento da troca para via oralRE-SPECT CVT randomizou 5 a 15 dias após o início da heparina, só em pacientes clinicamente estáveisA troca tem janela: nem no primeiro dia nem depois de semanas de internação sem critério
Dímero-DSugerido antes da neuroimagem, exceto na cefaleia isolada e quando os sintomas duram mais de 1 semana (ESO 2017)Resultado negativo não autoriza parar justamente nas duas apresentações mais difíceis
CorticoideNão usar para prevenir morte ou melhorar desfecho; exceção para Behçet e outras doenças inflamatórias (ESO 2017)Edema venoso não é indicação de corticoide; a exceção é a doença de base, não o edema
Derivação liquórica isoladaNão usar de rotina, sem outro tratamento cirúrgico, na herniação iminente por lesão do parênquima (ESO 2017)Quem hernia por massa não é comprimido por hidrocefalia; drenar líquor não devolve espaço
Craniectomia descompressivaRecomendada na lesão do parênquima com herniação iminente, para prevenir morte (ESO 2017: evidência baixa, força FORTE; S2k 2023: deve ser feita)É a única cirurgia com indicação formal; o comparador nas séries é a morte
Tratamento endovascularSem benefício no ensaio TO-ACT; considerar caso a caso em centro de neurointervenção para quem deteriora sob anticoagulação adequada (S2k 2023)Não é escalonamento automático; em infarto hemorrágico volumoso pode aumentar o sangramento
AntiepilépticoIndicado em lesão supratentorial com crise já ocorrida, para prevenir recorrência precoce; sem recomendação para crises tardias (ESO 2017)Não é profilaxia universal nem tratamento vitalício definido na alta
Contracepção depoisAconselhar contra a combinada (ESO 2017); deve-se deixar de continuar ou reiniciar estrogênio-progestagênio (S2k 2023)Método sem estrogênio combinado sai prescrito da internação
Gestação futuraNão contraindicar apenas pela história; informar riscos de evento trombótico e de abortamento (ESO 2017)A resposta à paciente é sim, com plano — não é proibição
Profilaxia em gestação posteriorHBPM sc ao longo da gestação e do puerpério (ESO 2017); durante a gestação e por pelo menos 6 semanas pós-parto (S2k 2023)O prazo que falta na europeia está escrito na alemã e é o que se prescreve
Rastreio de trombofiliaNão de rotina; reservado a alta probabilidade pré-teste de trombofilia grave (ESO 2017)Não atrasa nem modifica a conduta das primeiras horas

Os graus entre parênteses na tabela são os que a diretriz europeia imprime junto de cada recomendação, no formato qualidade de evidência mais força. A anticoagulação aguda é a única com qualidade moderada; a craniectomia é o caso raro de força forte sobre qualidade baixa, e o próprio texto justifica pelo comparador.

A frase sobre hemorragia não é interpretação: ela está dentro da recomendação europeia de anticoagulação, como oração acrescentada, e reaparece na alemã como cláusula de indiferença ao sangramento. Duas redações independentes, mesma direção.

A faixa de três a doze meses aparece no corpo da diretriz europeia e no documento alemão. O resumo da europeia afirma que não foi possível recomendar sobre duração — quem cita apenas o resumo relata o documento pela metade.

As séries de craniectomia vêm de países diferentes, inclusive de renda média, com desfechos favoráveis entre pouco mais da metade e mais de três quartos dos operados. Nenhuma é randomizada, e todas comparam com um desfecho natural que, nas séries com grupo não operado, foi a morte.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Existe recomendação sobre a duração da anticoagulação oral depois da fase aguda

O resumo declara que não foi possível formular recomendações, por qualidade muito baixa de evidência, sobre quatro assuntos, e nomeia em primeiro lugar a duração da anticoagulação depois da fase aguda — ao lado de trombólise ou trombectomia, punção lombar terapêutica e prevenção de crises tardias.

ESO 2017, resumo do documento

O corpo recomenda anticoagulante oral, antagonista da vitamina K, por três a doze meses depois do episódio, para prevenir recorrência da trombose venosa cerebral e outros eventos tromboembólicos venosos. Qualidade de evidência muito baixa, força fraca — mas com número, droga e finalidade escritos.

ESO 2017, seção 'Duration of anticoagulation', recomendação do corpo

Fixa a mesma faixa de três a doze meses para a anticoagulação oral depois da fase aguda, agora com anticoagulante oral direto em vez do antagonista da vitamina K, com a finalidade de favorecer a recanalização e prevenir recorrência cerebral e extracerebral.

Diretriz alemã S2k, revisão de 2023

Na prova

A divergência é interna ao mesmo documento: resumo contra corpo. Enunciado que pede a duração está cobrando o corpo, e a faixa defensável é de três a doze meses — coincidente nos dois documentos. Enunciado que afirma inexistir recomendação europeia sobre duração está reproduzindo o resumo e ignorando a seção específica. Note que não há aqui duas autoridades discordando: há um documento que se descreve mal.

Anticoagulante oral direto pode ou não ser usado na trombose venosa cerebral

Recomenda não usar os orais diretos, inibidores do fator Xa ou da trombina, para o tratamento da trombose venosa cerebral, sublinhando a fase aguda. Qualidade muito baixa, força fraca. O documento é anterior ao único ensaio randomizado da questão.

ESO 2017, seção 'New oral anticoagulants'

Registra que não há estudos randomizados sobre uso na fase aguda e que, por isso, nenhuma recomendação pode ser feita para esse momento — deve-se aguardar a estabilização sob heparina. Para a manutenção, recomenda preferir o oral direto ao antagonista da vitamina K, com a melhor evidência para a dabigatrana no adulto.

Diretriz alemã S2k, revisão de 2023

O único ensaio randomizado publicado incluiu cento e vinte pacientes já clinicamente estáveis e randomizou entre cinco e quinze dias depois do início do tratamento agudo com heparina. Sem recorrência de tromboembolismo em nenhum dos braços; uma hemorragia maior com dabigatrana e duas com varfarina; amostra insuficiente para demonstrar não inferioridade ou superioridade.

Revisão da Academia Brasileira de Neurologia, 2022, descrição do ensaio RE-SPECT CVT

Na prova

Enunciado que pede a droga da fase aguda tem resposta única e antiga: heparina, sem oral direto. Enunciado que pede a manutenção depende da geração do documento — e a leitura honesta é que as duas posições não se cruzam, porque o ensaio nunca testou a fase aguda e a europeia é anterior a ele. Diferença de compartimento e de data, não de julgamento clínico. Quem trata a frase europeia como proibição eterna do oral direto amplia o que o documento diz.

Que força a cirurgia descompressiva merece quando a evidência é de séries, não de ensaio

Recomenda cirurgia descompressiva para pacientes com trombose venosa cerebral aguda e lesão do parênquima com herniação iminente, para prevenir a morte. Qualidade de evidência baixa e força forte — combinação que o documento usa apenas aqui e na anticoagulação aguda.

ESO 2017, seção 'Decompressive surgery'

Escreve que, apesar do nível global de evidência baixo, a descompressão cirúrgica deve ser feita em pacientes com lesões do parênquima, edema congestivo ou hemorragia, e encarceramento iminente, para prevenir a morte. Recomendação de grau intermediário, não o grau máximo.

Diretriz alemã S2k, revisão de 2023

No mesmo cenário de herniação iminente por lesão do parênquima, sugere não usar derivação liquórica de rotina sem outro tratamento cirúrgico. E declara que, para hidrocefalia associada, nenhuma recomendação pôde ser feita em qualquer direção.

ESO 2017, seção 'Shunt'

Na prova

As duas primeiras posições mandam operar e discordam apenas no grau atribuído à mesma evidência de séries — isso é calibração de método, não conduta oposta. A terceira é a que separa quem estudou: no paciente que hernia por massa, a resposta defensável é craniectomia, e derivação isolada é justamente o que se sugere não fazer. Enunciado que oferece as duas cirurgias lado a lado está cobrando esse par.

06

Caso resolvido

Mulher de 29 anos, no décimo dia de pós-parto de cesariana, chega à emergência com cefaleia holocraniana progressiva há cinco dias, que piora ao deitar, ao tossir e ao acordar, associada a náuseas e episódios de visão turva sem alívio com analgésico comum. Há duas horas apresentou crise convulsiva focal em membro superior direito com generalização secundária. À admissão: consciente, orientada, sem déficit motor residual, sem rigidez de nuca, afebril, pressão arterial de 118 por 76 mmHg. Fundoscopia com papiledema bilateral. Tomografia de crânio sem contraste mostra área de hiperdensidade cortical parassagital esquerda de cerca de 2 cm, com halo hipodenso ao redor que não corresponde a território arterial.
Leia o terreno antes da dor
Décimo dia de puerpério é fator de risco transitório clássico, e a cefaleia que piora ao deitar e ao tossir aponta para hipertensão intracraniana. A descrição da dor, sozinha, não decidiria nada — ela não tem característica própria nesta doença. O que fecha o raciocínio é a companhia: crise convulsiva focal em adulta jovem previamente hígida, papiledema bilateral e uma lesão que não respeita território arterial.
Peça a fase venosa, não outra tomografia simples
A hiperdensidade cortical com halo de edema desproporcional é a assinatura do infarto venoso hemorrágico. O exame que confirma é a venografia por ressonância ou por tomografia — as duas são aceitas como alternativas confiáveis à angiografia digital, e a escolha é a que o serviço tem agora. Dosar dímero-D aqui não muda nada: os sintomas já passaram de cinco dias e o marcador não serve para descartar em cefaleia arrastada.
Anticoagule, apesar do sangue
Confirmada a trombose de seio, a conduta é heparina em dose terapêutica. A hemorragia visível na tomografia não contraindica: a recomendação europeia diz explicitamente que se aplica a quem tem hemorragia intracerebral no início, com evidência moderada e força forte, e a alemã manda tratar independentemente de haver hemorragia. Como a paciente está estável, sem desvio de linha média e sem previsão cirúrgica, a heparina de baixo peso molecular é a preferida.
Trate a crise que já ocorreu, não a que pode vir
Há lesão supratentorial e houve crise: é exatamente a condição em que se recomenda antiepiléptico, para prevenir recorrência precoce. Não se inicia antiepiléptico em quem tem a doença sem crise, e a recomendação não se estende à prevenção de crises tardias — a decisão de manter ou retirar a droga meses depois é do seguimento neurológico, não da emergência.
Não trate o edema com o que não funciona
O papiledema e o halo de edema não indicam corticoide, que não deve ser usado para prevenir morte ou melhorar desfecho, nem acetazolamida com essa finalidade. Punção lombar de alívio ficou sem recomendação específica e só se cogita em hipertensão intracraniana com dor grave ou visão ameaçada. O tratamento do edema aqui é tratar a trombose.
Vigie o que antecede a cirurgia
A lesão hemorrágica é fator independente de mau desfecho. Exame neurológico seriado e leito monitorado nas primeiras horas; queda da escala de coma, anisocoria nova ou desvio de linha média que cresce entre imagens acionam a neurocirurgia. Se a craniectomia entrar em cena, a heparina de baixo peso é trocada por não fracionada, cujo efeito cessa em uma a duas horas depois de parada a infusão.
Programe a alta desde a internação
A troca para anticoagulante oral acontece quando a paciente estiver clinicamente estável, na janela entre o quinto e o décimo quinto dia — a mesma em que o ensaio randomizou. A duração é de três a doze meses, e o fator causal é transitório, o que puxa para a extremidade curta da faixa. Sai da internação com método contraceptivo sem estrogênio combinado e com a informação de que uma gestação futura não está proibida, mas exigirá profilaxia com heparina de baixo peso durante toda a gravidez e por pelo menos seis semanas depois do parto.
07

Agora feche você

Homem de 44 anos com trombose extensa de seio sagital superior e transverso direito, confirmada por venografia, iniciada há três dias, em uso de heparina de baixo peso molecular em dose terapêutica desde a admissão. Havia lesão hemorrágica frontal direita de 3 cm ao diagnóstico. Na madrugada do terceiro dia, a enfermagem chama: o paciente, que estava sonolento mas despertável e orientado, agora abre os olhos apenas à dor e não obedece a comandos; a pupila direita está com 5 mm e responde mal à luz. Tomografia de controle mostra crescimento da lesão hemorrágica e desvio de linha média de 11 mm.
O que o quadro representa
Queda da escala de coma somada a anisocoria nova e a desvio de linha média que cresceu entre duas imagens é herniação em curso por efeito de massa — a principal causa de morte na fase aguda desta doença.
O que NÃO fazer
Suspender a anticoagulação por causa do crescimento da hemorragia, passar derivação liquórica isolada ou indicar trombólise dirigida como resgate. Nenhuma das três tem apoio nos documentos neste cenário, e a segunda é explicitamente desaconselhada.
A cirurgia
O ajuste do anticoagulante
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Onde a banca derruba

  1. 1Segurar a heparina porque a tomografia mostrou sangue É o erro que mata nesta doença. A hemorragia está presente em três a quatro de cada dez pacientes já no diagnóstico, antes de qualquer anticoagulante, porque o sangue vem da pressão venosa elevada. A recomendação europeia da fase aguda diz, na própria frase, que se aplica também a quem tem hemorragia intracerebral no início; a alemã repete a indiferença ao sangramento com consenso unânime. Suspender o anticoagulante mantém a obstrução que está produzindo o sangramento.
  2. 2Tratar a tomografia sem contraste normal como exclusão A tomografia simples pode ser inteiramente normal na trombose venosa cerebral, sobretudo na apresentação de hipertensão intracraniana isolada, em que não há lesão do parênquima. O que confirma é o estudo venoso — venografia por ressonância ou por tomografia, ambas aceitas como alternativas confiáveis à angiografia digital. Se a suspeita clínica está de pé, pedir a fase venosa é obrigatório, e o exame simples normal não encerra o caso.
  3. 3Usar o dímero-D para descartar em quem só tem dor de cabeça A recomendação de dosar o marcador antes da neuroimagem traz duas exclusões escritas dentro dela: não vale na cefaleia isolada e não vale quando os sintomas já duram mais de uma semana. São exatamente as duas situações em que o médico mais desejaria um exame de triagem. Nesses cenários, resultado negativo não autoriza parar a investigação.
  4. 4Escalonar para trombólise quando o paciente não melhora rápido O ensaio randomizado que comparou tratamento endovascular com anticoagulação em pacientes de alto risco foi interrompido precocemente e não mostrou benefício, e a diretriz europeia não conseguiu emitir recomendação sobre trombólise. Em infarto hemorrágico volumoso, o trombolítico pode aumentar o sangramento e acelerar a herniação. A porta escrita é estreita: recanalização endovascular em centro especializado, para quem deteriora sob anticoagulação já adequada.
  5. 5Passar derivação liquórica no paciente que está herniando A sugestão europeia é de não usar derivação de rotina, sem outro tratamento cirúrgico, na herniação iminente por lesão do parênquima. O mecanismo explica: quem tem massa hemorrágica e edema não é comprimido por hidrocefalia, e drenar líquor não devolve espaço ao hemisfério. A cirurgia com indicação formal nesse cenário é a craniectomia descompressiva.
  6. 6Prescrever corticoide pelo edema venoso A recomendação é de não usar corticoide na fase aguda para prevenir morte ou melhorar desfecho funcional. A exceção escrita é a doença inflamatória de base — Behçet, lúpus e afins —, em que o alvo é a inflamação, não o edema. O mesmo vale para a acetazolamida, que não entra para melhorar desfecho e só pode ser considerada na hipertensão intracraniana isolada com dor grave ou visão ameaçada.
  7. 7Começar pelo comprimido em vez da heparina O ensaio que sustenta o anticoagulante oral direto randomizou pacientes já estáveis, entre cinco e quinze dias depois do início da heparina. Nunca testou a fase aguda, e a diretriz alemã registra que nenhuma recomendação pode ser feita para esse momento. A sequência correta é heparina primeiro, estabilização, e só então a troca para a via oral.
  8. 8Manter heparina de baixo peso em quem vai operar A preferência pela heparina de baixo peso vem com exceções na própria recomendação: não se aplica quando há contraindicação, como insuficiência renal, nem quando se pode precisar reverter rapidamente o efeito. A diretriz alemã explicita que a não fracionada tem preferência antes de intervenção cirúrgica ou endovascular. Quem tem massa hemorrágica e consciência caindo é candidato a craniectomia, e a infusão contínua permite normalizar a coagulação em uma a duas horas.
  9. 9Deixar a paciente sair com o anticoncepcional combinado O contraceptivo combinado é fator de risco transitório clássico e, mantido, é fator de recorrência quando a anticoagulação termina. A diretriz europeia manda informar os riscos e aconselhar contra o uso; a alemã escreve que a mulher deve deixar de continuar ou reiniciar a combinação de estrogênio com progestagênio. A troca por método sem estrogênio faz parte da alta, não da consulta seguinte.
  10. 10Contraindicar gestação futura pela história do episódio A recomendação escrita é a oposta: não contraindicar gestações futuras apenas com base na história de trombose venosa cerebral, e informar os riscos absolutos e relativos de evento trombótico e de abortamento. O que a história prévia gera é indicação de profilaxia com heparina de baixo peso na gestação seguinte, mantida por pelo menos seis semanas depois do parto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O ensaio randomizado que comparou dabigatrana com varfarina incluiu cento e vinte pacientes já clinicamente estáveis e os randomizou entre cinco e quinze dias depois do início do tratamento agudo com heparina não fracionada ou de baixo peso. Esse desenho define a janela usual de troca e explica por que nenhuma das diretrizes recomenda anticoagulante oral direto na fase aguda: ele nunca foi testado ali. Iniciar o oral no dia do diagnóstico ignora essa sequência. Manter heparina parenteral por meses não tem apoio. Recanalização documentada não é condição para a troca, e o prazo de seis semanas não corresponde a nenhuma recomendação.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Cefaleia sem cara própria em terreno pró-trombótico — puerpério, contraceptivo combinado, trombofilia, infecção, desidratação, neoplasia —, sobretudo se vier com crise convulsiva ou déficit focal, obriga estudo venoso; tomografia simples normal não exclui. Confirmado o diagnóstico, o tratamento é heparina em dose terapêutica mesmo com hemorragia na imagem, com a não fracionada preferida em quem pode ir à cirurgia. Corticoide, acetazolamida e derivação isolada não entram; a craniectomia entra quando há lesão do parênquima com herniação iminente. A troca para o oral acontece entre o quinto e o décimo quinto dia, com o paciente estável, e o oral se mantém por três a doze meses.

em 30 dias

A frase que contraria o reflexo: sangue na tomografia não contraindica anticoagular na trombose venosa cerebral — ele é achado da doença em três a quatro de cada dez pacientes, e a recomendação de heparina traz essa cláusula escrita dentro de si. As duas outras que se perdem primeiro: a duração de três a doze meses está no corpo da diretriz europeia, embora o resumo do mesmo documento afirme que não houve recomendação sobre duração; e, no paciente que hernia, a cirurgia é a craniectomia, não a derivação liquórica, que é justamente o que se sugere não fazer nesse cenário.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Puérpera com cefaleia progressiva de cinco dias e crise convulsiva focal na emergência — decidir o exame que confirma, prescrever a anticoagulação diante de hemorragia na imagem e programar a troca para a via oral. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trombose venosa cerebral no adulto – Trombose venosa cerebral: anticoagular o infarto que já sangrou — Preparatório para provas | OsceLabs