PediatriaNeurologia Pediátrica

Crise febril na infância

Crise febril simples e complexa: manejo e orientação familiar

A crise febril simples é benigna e a prova cobra exatamente o que NÃO se faz nela: nem punção lombar de rotina, nem eletroencefalograma, nem neuroimagem, nem anticonvulsivante de manutenção. O que precisa estar decorado é a fronteira entre simples e complexa, a régua da punção lombar por idade e a dose do benzodiazepínico por via.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 18 meses, previamente hígido, apresenta crise convulsiva tônico-clônica generalizada de 2 minutos de duração no contexto de febre de 39,2 °C por infecção de vias aéreas superiores. Recuperou a consciência completamente após a crise, exame neurológico normal, sem sinais meníngeos. É o primeiro episódio. Qual é a conduta mais apropriada?

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Como esse tema cai

Este capítulo é sobre contenção. A crise febril simples é o evento convulsivo mais comum da infância, atinge de 2% a 5% das crianças até os 5 anos e é benigna — e a prova cobra justamente a disciplina de não transformá-la em investigação. Punção lombar de rotina, eletroencefalograma, tomografia, hemograma, eletrólitos, anticonvulsivante de manutenção: cada um desses aparece como distrator, e cada um está errado na criança neurologicamente hígida, vacinada e com crise simples. O gabarito quase sempre é a alternativa mais econômica, e é ela que o candidato ansioso descarta primeiro.

A régua tem duas partes de origens diferentes, e elas não se sobrepõem. Do lado brasileiro, o quadro de procedimentos do AIDPI Criança é o documento do Ministério da Saúde que menciona a convulsão: ele a coloca entre os sinais gerais de perigo — a pergunta é se houve convulsão ou movimentos anormais nas últimas 72 horas — e manda referir urgentemente ao hospital, depois da primeira dose de antibiótico. É um instrumento de triagem para a atenção primária, feito para quem não tem retaguarda de observação, e por isso não separa crise simples de complexa. Do lado internacional, a diretriz da Academia Americana de Pediatria de 2011 é a peça que diz o que investigar e, principalmente, o que não investigar depois que a criança está estável e diante do médico. As duas não se contradizem: elas respondem a perguntas distintas, feitas em lugares distintos, e a vinheta entrega qual das duas está em jogo pelo cenário.

Três coisas precisam estar decoradas para o capítulo render. Primeiro, os três critérios que separam crise simples de complexa — duração, tipo e recorrência em 24 horas —, que são categoria e não gradação: basta um critério para a crise ser complexa. Segundo, a régua da punção lombar por idade, que mudou e cujo motivo da mudança é ele próprio cobrável. Terceiro, a conduta da crise em curso: a partir de quanto tempo se medica, qual benzodiazepínico por qual via, quantas doses e qual o degrau seguinte. O resto do capítulo — recorrência, risco de epilepsia, antitérmico, orientação aos pais — é o material das questões de conversa com a família, que caem mais do que se imagina porque separam quem entendeu o prognóstico de quem decorou conduta.

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O que muda decisão

O que é crise febril — e o que a definição exclui

Como usar este capítulo: confirme que o evento ocorre na faixa etária e no contexto febril corretos, classifique-o como simples ou complexo e trate a crise prolongada pelo relógio. Punção lombar, neuroimagem e EEG dependem de sinais adicionais; a orientação familiar encerra a consulta.

Crise febril é a crise convulsiva acompanhada de febre, sem infecção do sistema nervoso central, que ocorre em lactentes e crianças de 6 a 60 meses de idade. A diretriz americana escreve a febre como temperatura igual ou maior que 38 °C por qualquer método de aferição. No Brasil, a referência de aferição é outra e convém tê-la separada na cabeça: o documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria fixa febre como temperatura axilar acima de 37,3 °C, e o quadro do AIDPI opera com temperatura igual ou maior que 37,5 °C ou o simples 'quente ao toque' relatado pela mãe. São réguas de sítios diferentes, não posições rivais.

A definição vive das exclusões, e é nelas que a prova mexe. Não é crise febril a crise que acontece na vigência de infecção do sistema nervoso central — meningite, encefalite. Não é crise febril a crise causada por distúrbio metabólico agudo, e a hipoglicemia e os distúrbios do sódio são os nomes que aparecem no enunciado. Não é crise febril a criança que já teve crise afebril prévia: nesse caso, o que se está vendo é epilepsia com crise desencadeada por febre, e a conduta muda inteiramente. E a diretriz americana acrescenta um recorte que muitos esquecem — ela vale para a criança neurologicamente hígida, e não se aplica a quem tem lesão neurológica prévia ou anormalidade conhecida do sistema nervoso central.

A faixa etária tem dois limites e os dois são de conteúdo, não burocráticos. Abaixo de 6 meses, a crise com febre é suspeita de infecção do sistema nervoso central até prova em contrário, porque a janela de idade da crise febril ainda não abriu e porque o lactente pequeno com meningite é justamente o que menos exibe sinal clássico. Acima de 5 anos, a primeira crise com febre não se rotula de crise febril: investiga-se. O pico de incidência fica entre 12 e 18 meses.

A crise febril é, na esmagadora maioria das vezes, um evento de infecção viral banal. A febre que a desencadeia costuma vir de uma virose respiratória alta, de uma gastroenterite ou, no lactente, do exantema súbito, que é causa clássica de febre alta seguida de crise no segundo semestre de vida — o quadro exantemático em si tem capítulo próprio na apostila de Infectologia Pediátrica e não se repete aqui. Vale também um adendo do calendário: crise febril pode ocorrer no contexto da febre pós-vacinal, sobretudo com a tríplice viral entre o quinto e o décimo segundo dia e com vacinas de componente pertussis no dia da aplicação; o manejo é o mesmo da crise febril de qualquer outra origem, e o esquema vacinal segue normalmente, conforme o capítulo do calendário nacional de vacinação.

Um último ponto de vocabulário que a banca gosta de explorar. Convulsão febril e crise febril são o mesmo evento; convulsão febril benigna é como parte da literatura brasileira chama a forma simples. O que não se confunde com crise febril é o calafrio com tremor intenso — o rigor — que acompanha a subida da temperatura e que a família descreve como 'tremedeira': não há perda de consciência, a criança responde ao chamado, e o quadro cessa quando se aquece a criança. No semáforo do NICE, aliás, o rigor é achado da faixa âmbar, não da vermelha.

Simples ou complexa: os três critérios que decidem tudo

A separação entre crise febril simples e complexa vem de 1976, do trabalho de Nelson e Ellenberg com os dados do National Collaborative Perinatal Project, e sobreviveu intacta porque prediz o que interessa. Crise febril simples é a crise generalizada, com duração menor que 15 minutos e que não se repete em 24 horas. Crise febril complexa é a que tem qualquer um destes: início focal, duração de 15 minutos ou mais, ou recorrência dentro de 24 horas. O texto brasileiro acrescenta um quarto marcador equivalente — a alteração neurológica pós-ictal, tipicamente a paralisia de Todd, aquele déficit motor transitório num hemicorpo depois da crise.

Isto é categoria, não gradação: basta um critério para a crise ser complexa, e não existe crise 'um pouco complexa'. Uma crise generalizada de 4 minutos que se repete oito horas depois, no mesmo episódio febril, é complexa — pela recorrência, ainda que ambas tenham sido curtas e generalizadas. Uma crise que começa com desvio do olhar e abalos de um lado só, e depois generaliza, é complexa — pelo início focal, ainda que tenha durado 2 minutos. Cerca de 70% a 75% das crises febris são simples.

A consequência prática da classificação é direta: a diretriz americana de 2011 se declara aplicável somente à crise simples, e diz isso na primeira página. A criança com crise complexa sai do algoritmo da não investigação. Ela não vai automaticamente para punção lombar, tomografia e eletroencefalograma, mas passa a ser avaliada individualmente, e os gatilhos que a literatura brasileira lista para exame de imagem são objetivos: anormalidade neurológica focal, estado de mal, sinais de hipertensão intracraniana, suspeita de trauma craniano e suspeita de malformação estrutural.

Há um subgrupo dentro da complexa que ganhou nome próprio: o estado de mal epiléptico febril, a crise febril prolongada que se estende muito além dos 15 minutos. Ele responde por cerca de 5% de todas as crises febris e é o cenário com o pior prognóstico do capítulo — é dele que vem quase todo o risco de epilepsia que se atribui à crise febril, e é ele que justifica a pressa em interromper a crise em curso.

Uma armadilha frequente de enunciado: o tempo que a família relata não é o tempo da crise. Pais superestimam a duração de maneira sistemática, e a vinheta bem construída dá pistas objetivas — o horário do chamado da ambulância, o tempo até a chegada ao serviço, o registro de enfermagem. Quando o enunciado diz 'a mãe refere cerca de meia hora', mas a criança chegou acordando e já responsiva, a leitura da banca costuma ser a de crise breve com pós-ictal, não a de estado de mal.

A crise em curso: o relógio manda medicar aos 5 minutos

A maioria absoluta das crises febris cessa sozinha em menos de 5 minutos, e nesse intervalo não se dá medicamento: o que se faz é proteger. Colocar a criança em decúbito lateral, afastar objetos, proteger a cabeça, afrouxar a roupa, não conter os movimentos, não pôr nada na boca e cronometrar. Aspirar secreção e ofertar oxigênio se houver dessaturação. Verificar glicemia capilar, porque a hipoglicemia é a causa metabólica que se resolve na hora e que muda o diagnóstico.

Passados 5 minutos de crise contínua, medica-se. Esse é o corte prático de todo o manejo e ele não depende de a crise ser febril ou não. A primeira escolha é um benzodiazepínico, e a via é ditada pelo acesso: com acesso venoso, diazepam endovenoso de 0,2 a 0,4 mg/kg por dose, em doses baixas consecutivas; sem acesso venoso, diazepam retal 0,5 mg/kg, midazolam bucal 0,5 mg/kg ou midazolam intranasal de 0,2 a 0,5 mg/kg. O quadro do AIDPI, que é o documento para quem vai referir a criança, escreve a mesma coisa em versão única: diazepam por via endovenosa ou retal, de 0,3 a 0,5 mg/kg por dose, antes de referi-la, conforme prescrição médica.

São duas doses de benzodiazepínico, não mais. A repetição se faz cerca de 5 minutos depois da primeira se a crise persistir. Insistir numa terceira dose é o erro que troca uma crise não controlada por uma criança apneica — a depressão respiratória é o efeito adverso que importa, e a literatura brasileira registra parada respiratória em cerca de 6% dos casos tratados em contexto de estado de mal. Persistindo a crise depois de duas doses, muda-se de classe: fenitoína ou fenobarbital, 15 a 20 mg/kg por via endovenosa em infusão lenta, com monitorização, porque a infusão rápida traz risco cardiorrespiratório.

O corte de tempo do estado de mal epiléptico tem duas leituras vivas, e vale conhecer as duas. A definição clássica, que a literatura brasileira sobre crise febril ainda usa e que nomeia o estado de mal epiléptico febril, é a crise que ultrapassa 30 minutos. A Liga Internacional contra a Epilepsia reorganizou o conceito em 2015 em torno de dois pontos operacionais: t1, o momento a partir do qual a crise deve ser tratada como atividade contínua, fixado em 5 minutos para a crise convulsiva; e t2, o momento a partir do qual há risco de consequências neuronais de longo prazo, fixado em 30 minutos. Os 30 minutos não sumiram — mudaram de função. Eles deixaram de ser o gatilho do tratamento e passaram a ser o marcador de dano.

Duas condutas que não entram. Não se usa antitérmico para interromper a crise em curso: a criança convulsionando não recebe medicamento por via oral nem retal com esse fim, e a febre se trata depois, pelo desconforto. E não se usa banho frio, álcool ou compressa gelada — o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria restringe os métodos físicos aos casos de hipertermia, definida por temperatura central igual ou maior que 40 °C acompanhada de alteração do sistema nervoso central, que é outro problema.

Punção lombar: a régua que mudou, e por que a idade importa

A punção lombar é o exame em que a régua se moveu de verdade, e o motivo da mudança é conteúdo cobrável. Até 1996, o parâmetro de prática da Academia Americana de Pediatria mandava considerar fortemente a punção em toda criança abaixo de 12 meses com primeira crise febril, e considerar entre 12 e 18 meses. A justificativa era epidemiológica: nessa faixa etária a meningite bacteriana era comum e o exame físico do lactente é pobre. Em 2011, a mesma sociedade reescreveu a recomendação e derrubou a punção de rotina.

A régua de 2011 tem três linhas. A punção lombar deve ser feita em qualquer criança que se apresente com crise e febre e tenha sinais ou sintomas meníngeos — rigidez de nuca, sinais de Kernig ou de Brudzinski — ou cuja história e exame sugiram meningite ou infecção intracraniana; esta é recomendação forte. A punção lombar é opção no lactente de 6 a 12 meses quando a criança é considerada deficiente em vacinação contra Haemophilus influenzae tipo b ou contra pneumococo, ou quando não se consegue determinar a situação vacinal. E a punção lombar é opção na criança pré-tratada com antibiótico, porque o antibiótico mascara os sinais e sintomas da meningite sem necessariamente erradicá-la. Fora dessas três situações, a criança bem, com esquema vacinal completo e crise febril simples, não é puncionada.

O que mudou entre um documento e outro não foi a fisiopatologia, foi a epidemiologia. A vacinação ampla contra Hib e contra pneumococo retirou de cena os dois agentes que mais causavam meningite bacteriana nessa faixa etária, e os dados que sustentam a recomendação atual vêm de populações com alta cobertura vacinal. Para criança não vacinada ou parcialmente vacinada, a evidência é escassa — e é exatamente por isso que a punção continua sendo opção nesse grupo. A régua depende da cobertura vacinal, não da idade em si: no Brasil, num serviço com criança de esquema em dia, a régua atual se aplica; diante de caderneta atrasada ou desconhecida, a punção volta à mesa.

A idade importa por uma razão clínica que o NICE escreve com todas as letras: os sinais clássicos de meningite — rigidez de nuca, abaulamento de fontanela, choro agudo — faltam com frequência no lactente com meningite bacteriana. O quadro do lactente é pobre e inespecífico, e é por isso que a decisão não pode se apoiar só na ausência de sinal meníngeo. A diretriz americana acrescenta o outro lado do argumento: cerca de 25% das crianças pequenas com meningite têm crise como sinal de apresentação, mas parte delas está obnubilada ou comatosa quando o médico as avalia, e a maioria das restantes exibe sinal clínico evidente — crise focal, crises repetidas, exantema petequial ou rigidez de nuca. Ou seja, a meningite que se apresenta como crise raramente se apresenta como crise isolada em criança que volta ao normal.

A literatura brasileira mantém uma régua mais conservadora, escalonada por idade: abaixo de 12 meses, considerar fortemente a punção em toda crise febril; entre 12 e 18 meses, considerar, especialmente se houver características de crise complexa, estado pós-ictal prolongado, uso recente de antibiótico ou comprometimento do estado geral; acima de 18 meses, puncionar apenas diante de sinais sugestivos de meningite, como petéquias, rigidez de nuca ou alteração do nível de consciência. A mesma revisão registra a série de 839 crianças puncionadas em que apenas 5 tiveram cultura positiva, todas abaixo de 12 meses.

Dois detalhes operacionais fecham o assunto. Tomada a decisão de puncionar, colhem-se junto hemocultura e glicemia sérica — a hemocultura aumenta a chance de identificar a bactéria, e a glicemia sérica é indispensável para interpretar a hipoglicorraquia do líquor, que é característica da meningite bacteriana. E há um gatilho temporal pouco lembrado: a crise que ocorre dois ou mais dias depois do início da febre destoa do padrão da crise febril típica, que costuma acontecer no primeiro dia e frequentemente na subida da temperatura, e por isso pesa a favor de puncionar.

Os exames que não se pedem — e o que se pede pela febre

Depois da crise febril simples em criança neurologicamente hígida, três recomendações da diretriz americana são categóricas e todas as três são negativas, todas com nível de recomendação forte. Não se faz eletroencefalograma. Não se pedem, com o único fim de identificar a causa da crise, eletrólitos séricos, cálcio, fósforo, magnésio, glicemia ou hemograma. E não se faz neuroimagem na avaliação de rotina.

Cada uma tem uma justificativa que é ela própria material de questão. O eletroencefalograma não prediz nada aqui: não há evidência de que o traçado feito no momento da apresentação, ou no mês seguinte, preveja recorrência de crise febril ou desenvolvimento de epilepsia nos dois anos seguintes, e não há evidência de que qualquer conduta baseada nesse exame mude o desfecho. O hemograma não ajuda porque a incidência de bacteremia em crianças menores de 24 meses é a mesma com ou sem crise febril — a crise não acrescenta risco de bacteremia. Os eletrólitos não ajudam porque a alteração relevante seria identificável pela anamnese e pelo exame; vale registrar, porém, o dado que a diretriz destaca em seguida: crianças com crise febril têm, como grupo, sódio sérico relativamente baixo, e por isso deve-se evitar hiper-hidratação com fluidos hipotônicos. A neuroimagem não ajuda porque a tomografia expõe a criança a radiação e a ressonância costuma exigir sedação, enquanto a chance de encontrar anormalidade estrutural clinicamente importante nessa população é baixa.

O que se investiga, então? A febre. A frase que resume a diretriz inteira é essa: o médico que avalia a criança depois de uma crise febril simples deve dirigir sua atenção para identificar a causa da febre. O exame que se pede é o exame que se pediria naquela criança febril se ela não tivesse convulsionado — nem um a mais, nem um a menos. Se há otite, examina-se o ouvido; se há sinal de infecção urinária no lactente, colhe-se urina; se há sinal respiratório, decide-se pela radiografia como se decidiria em qualquer criança com aquele quadro.

O caso da febre sem foco aparente é o que exige mais cuidado, e ele tem lógica própria, tratada em capítulo específico da apostila de Emergências Pediátricas. O que interessa aqui é a fronteira: a crise febril não é, por si, motivo para escalar a investigação da febre sem foco. Ela não muda a estratificação por idade nem o limiar de exames desse outro algoritmo. O que muda a conduta é a criança estar mal, ter sinal de gravidade ou ser muito jovem — não o fato de ter convulsionado e voltado ao normal.

A glicemia capilar é a exceção prática que convive com a recomendação negativa, e não a contradiz. Ela não se pede 'para investigar a crise febril'; ela se faz durante a crise, à beira do leito, porque a hipoglicemia é causa tratável de crise convulsiva e a demora custa caro. Medir glicemia no atendimento de uma criança convulsionando é conduta de emergência, não é parte da investigação etiológica da crise febril.

Antitérmico: alívio sim, prevenção não

A pergunta é clássica e todas as fontes convergem: antitérmico não previne recorrência de crise febril. O documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria é o que traz o número — uma metanálise de três estudos, somando 540 crianças de 6 a 72 meses com crise febril prévia, não encontrou diferença estatisticamente significante na taxa de crises febris entre quem recebeu antipirético profilático e quem recebeu placebo, com odds ratio de 0,9 e intervalo de confiança de 95% entre 0,57 e 1,43. A conclusão é escrita como recomendação com nível de evidência I e força de recomendação E, ou seja, evidência boa contra a prática. O NICE diz a mesma coisa em uma frase: agentes antipiréticos não previnem convulsões febris e não devem ser usados com esse propósito.

O porquê ajuda a fixar. A crise febril não é desencadeada pelo valor absoluto da temperatura, e sim pela suscetibilidade individual da criança àquela variação — tanto que a crise costuma acontecer nas primeiras horas do quadro febril, muitas vezes durante a subida térmica, antes de a família sequer perceber a febre. Baixar dois décimos de grau depois não desfaz o gatilho. É também por isso que febre baixa no momento da crise é fator de risco para recorrência, e não fator de tranquilidade: quanto menor o limiar da criança, mais fácil ela repetir.

Isso não significa deixar a criança desconfortável. A régua brasileira é clara sobre quando dar antitérmico: quando a febre está associada a desconforto evidente — choro intenso, irritabilidade, redução da atividade, redução do apetite, distúrbio do sono. O documento é explícito ao dizer que não se deve 'engessar' os pais a um valor numérico. No Brasil estão recomendados paracetamol, dipirona e ibuprofeno; o ácido acetilsalicílico não se usa em criança, pelo risco de síndrome de Reye. Uso alternado ou associado de antitérmicos não se indica, porque confunde a família, aumenta o risco de superdosagem e não traz benefício sobre a monoterapia. O NICE acrescenta a mesma orientação por outro caminho: usar apenas enquanto a criança parecer desconfortável, considerar trocar de agente se o desconforto não ceder, não dar os dois ao mesmo tempo, e só considerar alternar se o desconforto persistir ou recorrer antes da próxima dose.

Duas condutas de higiene térmica completam o quadro e são distratores frequentes. Banho frio e compressa gelada não se usam — os métodos físicos ficam reservados à hipertermia com temperatura central igual ou maior que 40 °C e alteração do sistema nervoso central. E a criança febril não deve ser nem desagasalhada em excesso nem excessivamente agasalhada.

Um último ponto de fronteira, do lado da vacinação: o antitérmico dado 'preventivamente' antes ou no momento da aplicação de vacina também não se indica de rotina — além de não prevenir a crise, há estudo mostrando redução da resposta de anticorpos a vários antígenos vacinais. O detalhe pertence ao capítulo do calendário nacional de vacinação, mas convém saber que ele existe, porque a vinheta que junta vacina, febre e crise costuma esconder essa alternativa.

Recorrência: um terço volta, e dá para dizer quem

O principal risco associado à crise febril simples não é neurológico, é a repetição. A diretriz americana diz que o risco de recorrência é de um terço das crianças, e a literatura brasileira detalha a curva: 30% a 40% recorrem, sendo a probabilidade de uma segunda crise de cerca de 32%, de uma terceira de 15% e das seguintes de 7%. Ou seja, a maior parte de quem repete repete uma vez.

Os fatores de risco para recorrência são quatro e formam um bloco que vale decorar: idade de início abaixo de 18 meses, história familiar positiva de crise febril, febre de baixa intensidade no momento da crise e curto intervalo entre o início da febre e a crise. Quando a primeira crise ocorre antes de 1 ano de idade, o risco de recorrência sobe para cerca de 50%.

A estratificação pelo número de fatores é o que transforma isso em conversa útil com a família. Sem nenhum fator de risco, a recorrência fica em torno de 10%. Com um ou dois fatores, sobe para 25% a 50%. Com três ou mais, vai de 50% a 100%. É essa gradação que a banca usa quando pede 'qual o risco de novo episódio' numa vinheta que descreveu, de propósito, a idade da criança, o irmão que também teve crise febril e a temperatura de 38,2 °C no momento do evento.

Note que o tipo da crise não entra na conta da recorrência. Uma crise complexa não recorre mais que uma simples pelo fato de ter sido complexa — o que a complexidade prediz é outra coisa, o risco de epilepsia. Confundir os dois prognósticos é um dos erros de raciocínio mais comuns do capítulo.

Há ainda um recado prático embutido no perfil de risco: a criança que tem crise com febre baixa e logo no começo do quadro febril é a que mais provavelmente terá outra crise antes que alguém consiga medicar a febre. Essa é a criança cujos pais precisam sair da consulta sabendo exatamente o que fazer numa crise em casa — não sabendo a que temperatura dar antitérmico.

Epilepsia depois: o número que tranquiliza e o que não tranquiliza

Depois de crise febril simples, o risco de desenvolver epilepsia é de 1% a 2%, contra 0,5% a 0,9% na população geral. A diferença existe, mas é pequena — a formulação da diretriz americana é que o risco de epilepsia após crise febril simples se mostrou apenas discretamente maior que o da população geral. É esse par de números que sustenta a frase que se diz aos pais, e é ele que a prova quer ver reconhecido: a crise febril simples não é o começo de uma epilepsia.

Depois de crise febril complexa a conversa é outra: o risco vai de 2% a 10%, dependendo de quantos fatores de risco estão presentes. Os fatores que compõem esse risco são idade precoce, duração prolongada, anormalidade do neurodesenvolvimento, eletroencefalograma alterado e história familiar de epilepsia.

A gradação por tipo de crise, no estudo britânico clássico, mostra onde mora o risco: 1% depois de crise simples, 4% depois de crises múltiplas, 6% depois de crises prolongadas e 29% depois de crises focais. A crise focal é, isolada, o marcador mais pesado do capítulo inteiro. E no seguimento de Rochester, contando episódios de crise complexa, o risco sobe de 6,8% com um episódio para 17% a 22% com dois e 49% com três.

O ponto que fecha o argumento contra tratar é causal, não estatístico: não há dado sugerindo que tratamento profilático reduza o risco de epilepsia, porque a epilepsia que se desenvolve nesse grupo decorre provavelmente de predisposição genética, e não de dano cerebral causado pela crise. Tratar a crise febril para 'proteger o cérebro' é uma inversão de causa e efeito.

O restante do prognóstico é francamente bom, e a prova cobra isso em questão de comunicação. Crianças com crise febril simples não mostram aumento de mortalidade, de hemiplegia nem de déficit cognitivo. A literatura brasileira registra que não há diferença de desempenho escolar entre crianças tratadas e não tratadas, o que remove o último argumento a favor de medicar.

Profilaxia: por que a contínua foi abandonada

A diretriz americana de manejo de longo prazo, de 2008, chegou a uma conclusão de uma linha: nem terapia anticonvulsivante contínua nem intermitente se indica para a criança com uma ou mais crises febris simples. O raciocínio é de balanço — as terapias existem e funcionam, mas a toxicidade potencial dos medicamentos supera o risco mínimo associado a esses eventos benignos e autolimitados. É a decisão que define o capítulo: um evento com prognóstico excelente não justifica exposição crônica a anticonvulsivante.

As drogas que 'funcionam' e mesmo assim não se usam merecem ser conhecidas, porque aparecem nas alternativas. Do lado da profilaxia contínua, fenobarbital de 3 a 5 mg/kg/dia em duas tomadas e ácido valproico de 15 a 60 mg/kg/dia, preferencialmente entre 20 e 40 mg/kg/dia — este com cautela abaixo de 2 anos. Os efeitos adversos do fenobarbital são exatamente o que se quer evitar numa criança de 18 meses: distúrbio do sono, hiperatividade, irritabilidade e letargia. Carbamazepina e fenitoína não previnem crise febril e nunca entram nessa indicação — é um distrator recorrente.

Do lado da profilaxia intermitente, dada apenas nos dias de febre, os esquemas descritos são diazepam 0,5 mg/kg na primeira dose e depois 0,2 mg/kg a cada 12 horas enquanto durar a febre e por 48 a 72 horas após, por via oral ou retal, e clobazam 2,5 mg abaixo de 10 kg ou 5 mg acima de 10 kg a cada 12 horas. A eficácia é real: em pacientes de alto risco, a profilaxia com diazepam reduz a recorrência de 75% a 100% para 10% a 15%, e a profilaxia como um todo corta a recorrência em cerca de um terço. Os efeitos adversos são sonolência e letargia — e é aqui que mora o problema clínico, porque sedar a criança nos dias de febre é justamente o que atrapalha a percepção de que ela está piorando por outro motivo.

A literatura brasileira mantém uma janela estreita em que se discute profilaxia, e é útil saber quais casos são: dois ou mais fatores de risco de recorrência, crises com duração acima de 15 a 20 minutos, dois ou mais episódios prévios e intervalos curtos entre crises — duas em 12 horas, três ou mais em 6 meses, quatro ou mais em um ano. Quando indicada, a contínua tem duração mínima de 12 meses, podendo se estender até os 5 anos, com retirada gradual em 3 a 6 meses.

A intervenção que todas as fontes recomendam é a mesma, e não é medicamentosa: educar a família. Explicar o curso benigno, ensinar o que fazer durante o episódio, dimensionar o risco frente aos efeitos adversos da medicação. O que reduz ida ao pronto-socorro e ansiedade familiar é a conversa, não o comprimido.

A conversa com os pais: o que fazer, o que nunca fazer, quando voltar

A orientação familiar é conteúdo de prova, e costuma vir em questão de conduta com alternativas que misturam mito e prática. O que se ensina para a crise em casa: manter a calma e olhar o relógio; deitar a criança de lado, em superfície plana e segura; afastar objetos e proteger a cabeça; afrouxar a roupa no pescoço; não conter os movimentos nem tentar segurar os braços e as pernas; permanecer ao lado até a crise passar; e, terminada a crise, manter a criança de lado até que recupere a consciência.

O que nunca se faz é a pergunta clássica, e há um único desfecho: não se coloca nada na boca da criança durante a crise. Nem colher, nem dedo, nem pano, nem qualquer objeto para 'evitar que engula a língua'. A língua não é engolida; o que o objeto na boca produz é trauma dentário, laceração, obstrução de via aérea e mordedura de quem tenta. Também não se dá água, remédio nem alimento pela boca durante a crise, não se joga água fria, não se sacode a criança e não se tenta reanimar quem está respirando.

Quando levar ao serviço de saúde durante a crise: se a crise durar mais de 5 minutos, se houver uma segunda crise no mesmo episódio, se a criança não recuperar a consciência entre as crises, se houver dificuldade respiratória ou cianose, ou se a família tiver alguma dúvida sobre o que está vendo. E é conveniente dizer isso de maneira que a família não hesite: a orientação padrão do NICE, para pais que cuidam de criança febril em casa, encabeça com 'a criança teve uma crise' a lista de motivos para procurar ajuda de novo.

O restante da lista do NICE completa a alta e vale como roteiro: procurar novamente se surgir exantema que não desaparece à digitopressão, se os pais sentirem que a criança está pior que antes, se estiverem mais preocupados que antes, se a febre durar 5 dias ou mais, ou se a família estiver angustiada e sem condições de cuidar. A mesma orientação ensina a checar a criança durante a noite, a oferecer líquidos com frequência — leite materno no lactente amamentado — e a reconhecer sinais de desidratação: fontanela deprimida, boca seca, olhos fundos, ausência de lágrimas e aspecto geral ruim.

Duas frases fecham a conversa e são as que a família leva para casa. A primeira: crise febril simples não causa lesão cerebral, não causa atraso de desenvolvimento e não deixa sequela. A segunda: pode acontecer de novo, e a chance depende do perfil da criança — se acontecer, o roteiro é este que acabamos de combinar. Uma família que sabe o roteiro chega ao serviço com a criança segura e com a duração cronometrada, o que é, em termos práticos, o dado clínico mais valioso do episódio.

Criança pequena deitada de lado no chão, com a cabeça apoiada sobre um pano dobrado, um braço à frente e os joelhos levemente fletidos, enquanto a mão de um adulto repousa sobre o ombro sem conter os movimentos.
Posição durante a crise: criança de lado, cabeça protegida e apoiada, roupa afrouxada, espaço livre ao redor. Não se contêm os movimentos e nada se coloca na boca.

Quando não é crise febril: os sinais que mandam investigar o sistema nervoso central

A crise febril é diagnóstico de exclusão em um único ponto: é preciso ter descartado infecção do sistema nervoso central. O semáforo de risco do NICE é o instrumento mais prático para isso, porque organiza os achados em três faixas. Na faixa vermelha entram, entre outros: idade abaixo de 3 meses com temperatura igual ou maior que 38 °C; exantema que não desaparece à digitopressão; abaulamento de fontanela; rigidez de nuca; estado de mal epiléptico; sinais neurológicos focais; crises focais; palidez, pele mosqueada, acinzentada ou azulada; ausência de resposta a estímulos sociais; não acordar ou não permanecer acordada; choro fraco, agudo ou contínuo; gemência; taquipneia acima de 60 incursões por minuto; e tiragem moderada ou grave.

A faixa âmbar reúne o intermediário: palidez relatada pelos pais, resposta social diminuída, sem sorriso, acordar apenas com estímulo prolongado, atividade reduzida, batimento de asa de nariz, taquipneia por faixa etária, saturação de oxigênio igual ou menor que 95% em ar ambiente, estertores, taquicardia por faixa etária, enchimento capilar de 3 segundos ou mais, mucosas secas, dificuldade de alimentação no lactente, diurese reduzida, turgor diminuído, idade de 3 a 6 meses com temperatura igual ou maior que 39 °C, febre por 5 dias ou mais, rigores, edema de membro ou articulação e recusa de apoiar o membro. A faixa verde é a ausência de qualquer achado âmbar ou vermelho.

O mesmo documento faz a ligação direta entre achado e diagnóstico, e ela vale memorizar em três linhas. Rigidez de nuca, abaulamento de fontanela, redução do nível de consciência e estado de mal epiléptico convulsivo apontam meningite bacteriana. Sinais neurológicos focais, crises focais e redução do nível de consciência apontam encefalite herpética. Exantema que não desaparece à digitopressão, sobretudo com criança de aspecto ruim, lesões maiores que 2 mm, enchimento capilar de 3 segundos ou mais e rigidez de nuca, aponta doença meningocócica.

O corte de idade merece ênfase própria: crise com febre abaixo de 6 meses não é crise febril até prova em contrário, e no menor de 3 meses a própria febre já é achado de faixa vermelha, com ou sem crise. É a combinação mais perigosa do capítulo, porque é a idade em que o exame físico menos ajuda.

Do lado brasileiro, o quadro do AIDPI resolve isso com uma régua ainda mais direta, feita para a atenção primária. A pergunta 'a criança apresentou convulsões ou movimentos anormais há menos de 72 horas?' está entre os sinais gerais de perigo, junto de não conseguir beber ou mamar, vomitar tudo o que ingere, estar letárgica ou inconsciente, ter enchimento capilar maior que 2 segundos e apresentar batimento de asa do nariz ou gemência. Qualquer sinal geral de perigo em criança com febre classifica como doença febril muito grave — e o mesmo faz a rigidez de nuca, as petéquias e o abaulamento de fontanela. A conduta correspondente é dar a primeira dose do antibiótico recomendado, tratar a criança para evitar hipoglicemia, dar antitérmico se a temperatura for igual ou maior que 38,0 °C e referir urgentemente ao hospital. E, se a criança estiver convulsionando na hora, dar diazepam endovenoso ou retal, de 0,3 a 0,5 mg/kg por dose, antes de referi-la.

Fora do sistema nervoso central, há causas que se apresentam como crise com febre e não são crise febril: hipoglicemia, distúrbios do sódio, intoxicação exógena com febre concomitante, e o trauma craniano que a família não relata espontaneamente. E há a criança que já era epiléptica e cuja crise foi apenas desencadeada pela febre — pela definição, essa criança está fora do diagnóstico desde o começo, e o histórico de crise afebril prévia é a pergunta que resolve o ponto na anamnese.

04

Classificar a crise, medir o risco e agir

Duas decisões correm em paralelo no atendimento e não se misturam. A primeira é categórica: a crise foi simples ou complexa? Basta um critério para ser complexa, e é isso que a tabela principal resolve. A segunda é ordinal: quão doente está esta criança febril? Aí vale o semáforo do NICE, que é escala de verdade — verde, âmbar e vermelho —, e é ele que aparece nos cards. As demais tabelas trazem, em ordem, a conduta da crise em curso com dose por via, a régua da punção lombar, os exames que não se pedem e os números de prognóstico.

  1. 1Durante a crise: proteja. Decúbito lateral, cabeça apoiada, roupa afrouxada, nada na boca, sem conter os movimentos. Cronometre e cheque a glicemia capilar.
  2. 2Aos 5 minutos de crise contínua, medique. Com acesso venoso, diazepam 0,2 a 0,4 mg/kg/dose; sem acesso, diazepam retal 0,5 mg/kg, midazolam bucal 0,5 mg/kg ou midazolam intranasal 0,2 a 0,5 mg/kg.
  3. 3Repita o benzodiazepínico uma única vez, cerca de 5 minutos depois. Persistindo, passe a fenitoína ou fenobarbital 15 a 20 mg/kg endovenoso lento, com monitorização.
  4. 4Cessada a crise, classifique: generalizada, menor que 15 minutos e sem recorrência em 24 horas é simples; foco, 15 minutos ou mais, recorrência em 24 horas ou déficit pós-ictal é complexa.
  5. 5Aplique o semáforo de risco à criança febril e procure ativamente sinal de infecção do sistema nervoso central: rigidez de nuca, abaulamento de fontanela, petéquias, nível de consciência, sinal neurológico focal.
  6. 6Decida a punção lombar: obrigatória com sinal meníngeo ou suspeita de infecção intracraniana; opção entre 6 e 12 meses com vacinação contra Hib ou pneumococo deficiente ou desconhecida; opção em quem vinha usando antibiótico. Puncionando, colha junto hemocultura e glicemia sérica.
  7. 7Na crise simples com criança hígida e vacinada, não peça eletroencefalograma, neuroimagem, eletrólitos, cálcio, fósforo, magnésio, glicemia ou hemograma para investigar a crise. Investigue a FEBRE, como faria em qualquer criança febril.
  8. 8Trate a febre pelo desconforto, não pelo número — e diga à família que o antitérmico não previne nova crise.
  9. 9Antes da alta, ensine o roteiro da crise em casa, dimensione o risco de recorrência pelos fatores presentes e combine quando retornar imediatamente.

Verde — baixo risco

Cor de pele, lábios e língua normais. Responde normalmente a estímulos sociais, contente ou sorrindo, permanece acordada ou acorda rapidamente, choro normal ou não chora. Sem achado respiratório. Pele e olhos normais, mucosas úmidas. Nenhum achado das colunas âmbar ou vermelha. É a criança da crise febril simples típica: convulsionou, voltou ao normal e está bem diante de você. Conduta dirigida à causa da febre, sem exame para investigar a crise.

Âmbar — risco intermediário

Palidez relatada pelos pais. Não responde normalmente a estímulos sociais, sem sorriso, acorda só com estímulo prolongado, atividade reduzida. Batimento de asa do nariz, taquipneia acima de 50 por minuto dos 6 aos 12 meses ou acima de 40 acima de 12 meses, saturação igual ou menor que 95% em ar ambiente, estertores. Taquicardia por faixa etária, enchimento capilar de 3 segundos ou mais, mucosas secas, alimentação ruim no lactente, diurese reduzida, turgor diminuído. Ainda: 3 a 6 meses com temperatura igual ou maior que 39 °C, febre por 5 dias ou mais, rigores, edema de membro ou articulação, recusa de apoiar o membro.

Vermelho — alto risco

Pele, lábios ou língua pálidos, mosqueados, acinzentados ou azulados. Sem resposta a estímulos sociais, parece doente ao profissional de saúde, não acorda ou não permanece acordada, choro fraco, agudo ou contínuo. Gemência, taquipneia acima de 60 por minuto, tiragem moderada ou grave. E os achados que nomeiam o perigo neste capítulo: idade abaixo de 3 meses com temperatura igual ou maior que 38 °C, exantema que não desaparece à digitopressão, abaulamento de fontanela, rigidez de nuca, estado de mal epiléptico, sinais neurológicos focais e crises focais. Aqui não se está mais diante de crise febril benigna até prova em contrário.

CritérioCrise febril SIMPLESCrise febril COMPLEXA
DuraçãoMenor que 15 minutos15 minutos ou mais
TipoGeneralizada, sem início focalFocal, ou com início focal antes de generalizar
Recorrência em 24 horasNão recorre no mesmo período de 24 horasRecorre dentro de 24 horas
Estado pós-ictalSonolência breve, com recuperação completa e espontâneaDéficit neurológico pós-ictal, tipicamente paralisia de Todd
Como se lêPrecisa dos três critérios ao mesmo tempoBasta UM critério — é categoria, não gradação
Frequência70% a 75% das crises febris9% a 35% das crises febris; o estado de mal epiléptico febril, acima de 30 minutos, responde por cerca de 5% do total
Investigação neurodiagnósticaSem eletroencefalograma, sem neuroimagem, sem exames de sangue de rotina; a investigação se dirige à causa da febreFora do algoritmo de não investigação; avaliação individualizada — a diretriz da AAP declara não se aplicar a ela
Risco de epilepsia1% a 2% (população geral: 0,5% a 0,9%)2% a 10%, conforme o número de fatores de risco; 29% quando a crise é focal
Risco de recorrência30% a 40% — o mesmo da complexa; a recorrência depende do perfil da criança, não do tipo da crise30% a 40% — igual

Conduta na crise em curso: quando medicar, o que dar, por qual via e em que dose

MomentoCondutaDroga, via e dose
Do início até 5 minutosNão medicar. Proteger: decúbito lateral, cabeça apoiada, roupa afrouxada, sem contenção, nada na boca. Cronometrar. Glicemia capilar. Oxigênio se houver dessaturaçãoNenhuma droga anticonvulsivante
A partir de 5 minutos, COM acesso venosoPrimeira dose de benzodiazepínicoDiazepam endovenoso, 0,2 a 0,4 mg/kg por dose, em doses baixas consecutivas
A partir de 5 minutos, SEM acesso venosoPrimeira dose de benzodiazepínico por via alternativaDiazepam retal 0,5 mg/kg; ou midazolam bucal 0,5 mg/kg; ou midazolam intranasal 0,2 a 0,5 mg/kg
Na atenção primária, criança que vai ser referidaDose única antes de referir, conforme prescrição médicaDiazepam endovenoso ou retal, 0,3 a 0,5 mg/kg por dose (quadro do AIDPI)
Cerca de 5 minutos depois da primeira doseSegunda e última dose de benzodiazepínicoRepetir a mesma droga e dose. Atenção à depressão respiratória — parada respiratória em cerca de 6% no contexto de estado de mal
Crise que persiste após duas dosesTrocar de classe, com monitorização cardiorrespiratóriaFenitoína ou fenobarbital, 15 a 20 mg/kg endovenoso em infusão LENTA (infusão rápida traz risco de parada cardiorrespiratória)
Corte de tempo do estado de malDuas leituras convivemDefinição clássica, usada para nomear o estado de mal epiléptico febril: mais de 30 minutos. ILAE 2015: t1 de 5 minutos na crise convulsiva (a partir daí, tratar como atividade contínua) e t2 de 30 minutos (a partir daí, risco de consequências de longo prazo)
O que NÃO se faz na criseNada por via oral, nada de resfriamento agressivoSem antitérmico para 'cortar' a crise; sem banho frio, álcool ou compressa gelada — métodos físicos só na hipertermia com temperatura central igual ou maior que 40 °C e alteração do sistema nervoso central

Punção lombar: obrigatória, opção e dispensada

SituaçãoCondutaOrigem da régua
Sinais ou sintomas meníngeos (rigidez de nuca, Kernig, Brudzinski), ou história e exame sugerindo meningite ou infecção intracranianaPunção lombar DEVE ser feita — recomendação forteAAP 2011, Action Statement 1a
Lactente de 6 a 12 meses com vacinação contra Haemophilus influenzae tipo b ou pneumococo deficiente, ou com situação vacinal indeterminadaPunção lombar é OPÇÃOAAP 2011, Action Statement 1b
Criança pré-tratada com antibiótico (antibiótico sistêmico por qualquer via nos dias anteriores à crise)Punção lombar é OPÇÃO — o antibiótico mascara os sinais sem necessariamente erradicar a meningiteAAP 2011, Action Statement 1c
Crise que ocorre dois ou mais dias após o início da febreConsiderar — foge do padrão da crise febril típica, que ocorre no primeiro dia e frequentemente na subida térmicaStatPearls, capítulo Febrile Seizure
Criança bem, neurologicamente hígida, vacinação completa, crise febril simples, sem sinal meníngeoNÃO puncionar de rotinaAAP 2011 — os dados atuais não sustentam punção de rotina em criança bem e completamente vacinada
Abaixo de 12 meses (régua brasileira mais conservadora)Considerar FORTEMENTE em toda crise febrilResidência Pediátrica / SBP, 2018
Entre 12 e 18 meses (régua brasileira mais conservadora)Considerar, sobretudo com crise complexa, pós-ictal prolongado, antibiótico recente ou estado geral comprometidoResidência Pediátrica / SBP, 2018
Acima de 18 meses (régua brasileira mais conservadora)Puncionar apenas com sinais sugestivos de meningite: petéquias, rigidez de nuca, alteração do nível de consciênciaResidência Pediátrica / SBP, 2018
Decidida a punçãoColher junto hemocultura e glicemia sérica — a primeira aumenta a chance de identificar a bactéria; a segunda permite interpretar a hipoglicorraquiaAAP 2011

O que NÃO se pede na crise febril simples — e por quê

ExameRecomendaçãoPor que não ajuda
EletroencefalogramaNão se faz na criança neurologicamente hígida com crise febril simples — recomendação FORTEO traçado, feito na apresentação ou no mês seguinte, não prediz recorrência de crise febril nem epilepsia nos 2 anos seguintes; nenhuma conduta baseada nele muda o desfecho
Eletrólitos, cálcio, fósforo, magnésioNão se pedem de rotina com o fim de identificar a causa da crise — recomendação FORTEA alteração relevante seria identificável por anamnese e exame físico. Observação prática: crianças com crise febril têm sódio sérico relativamente baixo como grupo, e por isso deve-se evitar hiper-hidratação com fluidos hipotônicos
HemogramaNão se pede de rotina com esse fim — recomendação FORTEA incidência de bacteremia em menores de 24 meses é a MESMA com ou sem crise febril; a crise não acrescenta risco
Glicemia sérica de rotinaNão se pede de rotina com esse fim — recomendação FORTEDiferente da glicemia capilar à beira do leito durante a crise, que é conduta de emergência e continua indicada
Tomografia e ressonânciaNão se faz neuroimagem na avaliação de rotina — recomendação FORTETomografia expõe a radiação com possível aumento de risco oncológico futuro; ressonância costuma exigir sedação e tem custo alto; a chance de achado estrutural clinicamente importante nessa população é baixa
Exames dirigidos à FEBREEstes SIM, conforme o quadroA atenção do médico deve se dirigir a identificar a causa da febre. Pede-se o que se pediria naquela criança febril se ela não tivesse convulsionado

Prognóstico: recorrência e epilepsia em números

DesfechoNúmeroO que o modifica
Incidência de crise febril2% a 5% das crianças até os 5 anos; pico entre 12 e 18 mesesVaria por população: 7% a 8% no Japão, 2% a 4% na Europa e nos Estados Unidos
Recorrência global30% a 40% — cerca de um terçoSegunda crise em 32%; terceira em 15%; seguintes em 7%
Recorrência quando a 1ª crise ocorre antes de 1 anoCerca de 50%Idade precoce é o fator mais pesado
Fatores de risco de recorrênciaQuatro: início antes de 18 meses; história familiar de crise febril; febre de baixa intensidade no momento da crise; curto intervalo entre início da febre e a criseO tipo da crise (simples ou complexa) NÃO entra nesta conta
Recorrência por número de fatoresNenhum fator: cerca de 10%. Um ou dois: 25% a 50%. Três ou mais: 50% a 100%É a gradação usada na conversa com a família
Epilepsia após crise febril SIMPLES1% a 2%População geral: 0,5% a 0,9%. Risco apenas discretamente maior
Epilepsia após crise febril COMPLEXA2% a 10%Fatores: idade precoce, duração prolongada, anormalidade do neurodesenvolvimento, EEG alterado, história familiar de epilepsia
Epilepsia por tipo de crise (estudo britânico)Simples 1%; múltiplas 4%; prolongadas 6%; FOCAIS 29%A focalidade é o marcador isolado mais pesado
Epilepsia por número de episódios complexos (Rochester)Um episódio 6,8%; dois 17% a 22%; três 49%Acúmulo de episódios complexos
Outros desfechos da crise simplesSem aumento de mortalidade, de hemiplegia ou de déficit cognitivo; sem diferença de desempenho escolar entre tratados e não tratadosÉ o argumento contra medicar

Simples ou complexa é categoria, não gradação: basta UM dos três critérios (foco, 15 minutos ou mais, recorrência em 24 horas) para a crise ser complexa.

O relógio manda aos 5 minutos, e são DUAS doses de benzodiazepínico — a terceira troca crise não controlada por apneia. Persistindo, muda-se de classe.

Os 30 minutos do estado de mal não sumiram: deixaram de ser o gatilho do tratamento (agora 5 minutos, t1) e passaram a marcar o risco de consequência de longo prazo (t2).

Antitérmico não previne recorrência — evidência I, força de recomendação E. Ele entra pelo desconforto da criança, não por um número no termômetro.

A recorrência depende do PERFIL da criança (idade, história familiar, febre baixa, intervalo curto); o risco de epilepsia depende do TIPO da crise (focal, prolongada, repetida). Não se trocam.

Crise com febre abaixo de 6 meses ou acima de 5 anos não se rotula de crise febril — investiga-se.

Puncionou? Colha hemocultura e glicemia sérica junto, sempre.

Nada na boca durante a crise. A língua não é engolida; o objeto na boca é que causa trauma e obstrução.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Punção lombar por faixa etária depois de crise febril

Punção lombar por idade — o parâmetro de prática de 1996 e a régua brasileira que o mantém

O parâmetro de prática da Academia Americana de Pediatria de 1996 orientava considerar fortemente a punção lombar em toda criança abaixo de 12 meses com primeira crise febril, e considerá-la entre 12 e 18 meses. A literatura brasileira sobre crise febril continua descrevendo essa régua escalonada: abaixo de 12 meses, considerar fortemente em toda crise febril; entre 12 e 18 meses, considerar, especialmente diante de crise complexa, estado pós-ictal prolongado, uso recente de antibiótico ou comprometimento do estado geral; acima de 18 meses, puncionar apenas com sinais sugestivos de meningite. A sustentação é a pobreza do quadro clínico de meningite no lactente, e a mesma revisão registra a série de 839 crianças puncionadas em que as 5 culturas positivas encontradas estavam todas abaixo de 12 meses.

American Academy of Pediatrics, Practice parameter: the neurodiagnostic evaluation of a child with a first simple febrile seizure, Pediatrics 1996, conforme descrito na diretriz de 2011; Machado MR, Carmo ALS, Antoniuk SA, Residência Pediátrica (SBP), 2018

Punção lombar por situação vacinal e por quadro clínico — a diretriz da AAP de 2011

A revisão de 2011 abandonou o critério puramente etário. A punção lombar passou a ser obrigatória apenas diante de sinais ou sintomas meníngeos, ou de história e exame que sugiram meningite ou infecção intracraniana. Ela permanece como opção em duas situações: no lactente de 6 a 12 meses considerado deficiente em vacinação contra Haemophilus influenzae tipo b ou pneumococo, ou com situação vacinal indeterminada; e na criança pré-tratada com antibiótico. O documento é explícito ao dizer que os dados atuais deixaram de sustentar a punção de rotina na criança com bom aspecto e completamente vacinada com crise febril simples. A causa da mudança é epidemiológica e está escrita: a vacinação ampla contra os dois agentes que mais causavam meningite bacteriana nessa idade. O próprio documento delimita o alcance da nova régua ao registrar que os estudos recentes vieram de populações com alta cobertura vacinal e que faltam dados para crianças não vacinadas ou parcialmente vacinadas.

American Academy of Pediatrics, Subcommittee on Febrile Seizures, Pediatrics 2011;127(2):389-394, Action Statements 1a, 1b e 1c

Na prova

O eixo aqui é a data e a caderneta, não a instituição. Enunciado que descreva a situação vacinal da criança — 'esquema vacinal em dia', 'caderneta atualizada', 'vacinação incompleta', 'não sabe informar as vacinas' — está construído sobre a régua de 2011, em que a vacinação é a variável de decisão; enunciado que só informe a idade e nada diga sobre vacinas costuma estar construído sobre a régua etária de 12 e 18 meses. Cenário também entrega: pronto-socorro pediátrico com criança bem e caderneta em dia empurra para a régua atual; unidade básica sem retaguarda, criança de aspecto ruim ou caderneta desconhecida empurra para o critério conservador. Duas âncoras não mudam entre os dois corpos e resolvem a maioria das questões: sinal meníngeo ou suspeita de infecção intracraniana obriga a punção em qualquer idade, e uso recente de antibiótico é gatilho nos dois documentos. Registre os anos: 1996, 2011 e o texto brasileiro de 2018. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Profilaxia medicamentosa depois de crise febril

Nem contínua nem intermitente — a diretriz de manejo de longo prazo da AAP, de 2008

A conclusão do documento é que, considerados riscos e benefícios das terapias eficazes, nem a terapia anticonvulsivante contínua nem a intermitente se indicam para a criança com uma ou mais crises febris simples: a toxicidade potencial desses medicamentos supera o risco mínimo associado a eventos benignos e autolimitados. O argumento se completa com o prognóstico: à exceção da alta taxa de recorrência, não se identificaram efeitos de longo prazo da crise febril simples, e o risco de epilepsia é muito baixo, ainda que discretamente maior que o da população geral. Não há dado sugerindo que tratamento profilático reduza esse risco, porque a epilepsia decorre provavelmente de predisposição genética e não de dano estrutural causado pela crise.

American Academy of Pediatrics, Febrile Seizures: Clinical Practice Guideline for the Long-term Management of the Child With Simple Febrile Seizures, Pediatrics 2008;121(6):1281-1286

Profilaxia intermitente em janela estreita — a descrição da literatura brasileira

A revisão brasileira mantém indicações delimitadas para profilaxia: dois ou mais fatores de risco de recorrência, crises com duração acima de 15 a 20 minutos, dois ou mais episódios prévios e intervalos curtos entre crises (duas em 12 horas, três ou mais em 6 meses, quatro ou mais em um ano). Registra que a profilaxia reduz a recorrência em cerca de um terço e que, em pacientes de alto risco, o diazepam intermitente reduz o risco de recorrência de 75% a 100% para 10% a 15%. Os esquemas intermitentes descritos são diazepam 0,5 mg/kg na primeira dose e 0,2 mg/kg a cada 12 horas durante a febre e por 48 a 72 horas após, por via oral ou retal, e clobazam 2,5 mg abaixo de 10 kg ou 5 mg acima de 10 kg a cada 12 horas. Os contínuos são fenobarbital 3 a 5 mg/kg/dia e ácido valproico 15 a 60 mg/kg/dia, por no mínimo 12 meses, com retirada gradual em 3 a 6 meses. O mesmo texto sublinha que a intervenção principal é a orientação da família e que se deve evitar farmacoterapia desnecessária, e que carbamazepina e fenitoína não têm eficácia nessa indicação.

Machado MR, Carmo ALS, Antoniuk SA, Crise febril na Infância, Residência Pediátrica (SBP), 2018;8(supl. 1):11-16

Na prova

As alternativas denunciam o mundo da questão. Enunciado que descreva uma criança com UMA crise febril simples e ofereça fenobarbital ou valproato de manutenção está no corpo de 2008, em que a conduta é não medicar — e essa alternativa existe para ser descartada. Enunciado que descreva crise prolongada, episódios repetidos em intervalo curto ou vários fatores de risco, e que mencione diazepam ou clobazam apenas nos dias de febre, está tocando a janela estreita da profilaxia intermitente. Duas âncoras valem nos dois corpos e resolvem quase tudo: carbamazepina e fenitoína não previnem crise febril, e nenhuma profilaxia reduz o risco de epilepsia futura — qualquer alternativa que justifique o tratamento como proteção contra epilepsia está errada nos dois mundos. Registre as datas: a diretriz americana de manejo de longo prazo é de 2008 e a descrição brasileira é de 2018.

O que fazer na porta com a criança que convulsionou e está febril

Convulsão nas últimas 72 horas é sinal geral de perigo, com antibiótico e referência — o quadro do AIDPI, do Ministério da Saúde

O quadro de procedimentos do AIDPI Criança inclui, entre os sinais gerais de perigo, a pergunta sobre convulsões ou movimentos anormais há menos de 72 horas, ao lado de não conseguir beber ou mamar, vomitar tudo o que ingere, letargia ou inconsciência, enchimento capilar maior que 2 segundos e batimento de asa do nariz ou gemência. Qualquer sinal geral de perigo em criança com febre classifica como DOENÇA FEBRIL MUITO GRAVE, o mesmo valendo para rigidez de nuca, petéquias e abaulamento de fontanela. A conduta é dar a primeira dose do antibiótico recomendado, tratar a criança para evitar hipoglicemia, dar antitérmico se a temperatura for igual ou maior que 38,0 °C e referir urgentemente ao hospital; se a criança estiver convulsionando, dar diazepam endovenoso ou retal de 0,3 a 0,5 mg/kg por dose antes de referi-la. O quadro não separa crise simples de complexa, e essa ausência de distinção é deliberada: trata-se de instrumento de triagem para a atenção primária, aplicado com frequência por profissional sem retaguarda de observação e sem exame complementar.

Brasil, Ministério da Saúde / OPAS / UNICEF, Manual de Quadros de Procedimentos: AIDPI Criança — 2 meses a 5 anos, 2017

Criança bem e vacinada com crise simples não recebe exame nem antibiótico — a diretriz da AAP de 2011

A diretriz americana parte de outro pressuposto: a criança já foi avaliada por médico, dentro de 12 horas do evento, e está neurologicamente hígida e com bom aspecto. Nesse cenário, a orientação é dirigir a atenção à causa da febre e não realizar eletroencefalograma, exames de sangue de rotina nem neuroimagem, reservando a punção lombar aos casos com sinal meníngeo, à faixa de 6 a 12 meses com vacinação deficiente ou desconhecida e a quem vinha usando antibiótico. Antibiótico empírico não faz parte da conduta da crise febril simples: a decisão sobre antimicrobiano segue o foco da febre, não o fato de ter havido crise. O documento sustenta essa posição em dados de populações com alta cobertura vacinal contra Hib e pneumococo e no achado de que a meningite que se apresenta com crise raramente se apresenta sem outro sinal clínico evidente.

American Academy of Pediatrics, Subcommittee on Febrile Seizures, Pediatrics 2011;127(2):389-394

Na prova

Os dois documentos respondem a perguntas diferentes, e o cenário do enunciado diz qual está em jogo. Unidade básica de saúde, equipe de saúde da família, agente comunitário, vocabulário de 'classificar' e 'referir urgentemente', criança de 2 meses a 5 anos: o corpo é o do AIDPI, em que convulsão nas últimas 72 horas é sinal geral de perigo e a conduta é antibiótico mais referência. Pronto-socorro ou enfermaria pediátrica, criança já estável, exame neurológico normal, caderneta em dia, discussão sobre quais exames pedir: o corpo é o da diretriz americana, em que a conduta é investigar a febre e não a crise. Duas pistas ajudam: alternativa que fale em 'referir urgentemente ao hospital' após a primeira dose de antibiótico é vocabulário do quadro brasileiro; alternativa que liste eletroencefalograma, tomografia e painel laboratorial é o distrator construído para ser descartado nos dois mundos. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

A partir de quantos minutos a crise é estado de mal epiléptico

Mais de 30 minutos — a definição clássica, que nomeia o estado de mal epiléptico febril

A literatura brasileira sobre crise febril define o estado de mal epiléptico febril como a crise com duração superior a 30 minutos e registra que ele corresponde a cerca de 5% de todas as crises febris. Capítulos de referência internacionais de consulta rápida usam o mesmo corte para nomear o febrile status epilepticus, subgrupo raro e com pior prognóstico. O corte de 30 minutos é o que define a entidade epidemiológica e é ele que aparece nos estudos de prognóstico do tema.

Machado MR, Carmo ALS, Antoniuk SA, Residência Pediátrica (SBP), 2018; Smith DK, Sadler KP, Benedum M, Febrile Seizure, StatPearls (NCBI Bookshelf)

Cinco minutos — os dois pontos operacionais da ILAE, de 2015

A força-tarefa da Liga Internacional contra a Epilepsia reorganizou a definição em torno de dois momentos. O ponto t1 é aquele a partir do qual a crise deve ser considerada atividade contínua e tratada como tal, e foi fixado em 5 minutos para a crise convulsiva. O ponto t2 é aquele a partir do qual há risco de consequências de longo prazo, incluindo morte neuronal e alteração de redes neuronais, e foi fixado em 30 minutos. O corte de tratamento desceu de 30 para 5 minutos justamente para não esperar o dano acontecer antes de agir.

Trinka E, Cock H, Hesdorffer D, et al., A definition and classification of status epilepticus — Report of the ILAE Task Force on Classification of Status Epilepticus, Epilepsia 2015;56(10):1515-1523

Na prova

Os dois números convivem porque servem a finalidades distintas, e o enunciado quase sempre revela qual delas está sendo cobrada. Pergunta sobre CONDUTA — 'a partir de quando administrar benzodiazepínico', 'quando iniciar o tratamento da crise em curso' — está no corpo de 2015, em que o gatilho é 5 minutos. Pergunta sobre CLASSIFICAÇÃO ou EPIDEMIOLOGIA — 'como se define estado de mal epiléptico febril', 'que percentual das crises febris' — está no corpo clássico, em que a entidade se define acima de 30 minutos. Vocabulário denuncia: menção a t1 e t2, a 'atividade contínua' ou a 'consequências de longo prazo' aponta o documento de 2015; a expressão 'estado de mal epiléptico febril' com percentual associado aponta a literatura clássica do tema. Registre os anos: o corte de 30 minutos é a definição anterior, e a reorganização é de 2015.

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Caso resolvido

Menino de 16 meses é levado ao pronto-socorro pelos pais. Há cerca de 3 horas iniciou febre, e há 40 minutos, enquanto estava no colo, ficou subitamente rígido, com abalos simétricos dos quatro membros, olhar revirado e lábios arroxeados. O pai cronometrou pelo celular: 2 minutos e 20 segundos. Depois ficou 'molinho e sonolento' por uns 10 minutos e acordou chorando, reconhecendo a mãe. Não houve novo episódio. A caderneta está em dia, com todas as doses de pentavalente e pneumocócica. Nega crise prévia, febril ou afebril, e nega doença neurológica. Desenvolvimento normal. Ao exame, agora: ativo, chorando quando examinado e consolável no colo, corado, hidratado, temperatura axilar 38,6 °C, frequência cardíaca 138 bpm, frequência respiratória 32 irpm, saturação 98% em ar ambiente, enchimento capilar 2 segundos. Fontanela fechada, sem rigidez de nuca, sem petéquias. Neurológico sem déficit focal. Orofaringe hiperemiada com hipertrofia amigdaliana e hiperemia de membrana timpânica à direita. Ausculta pulmonar limpa. Glicemia capilar 92 mg/dL.
achado
Crise convulsiva acompanhada de febre em criança de 16 meses, dentro da faixa de 6 a 60 meses, sem crise afebril prévia, sem doença neurológica conhecida e com desenvolvimento normal. A definição de crise febril está satisfeita, desde que se afaste infecção do sistema nervoso central.
classificação
Crise generalizada, com 2 minutos e 20 segundos de duração e episódio único nas últimas 24 horas: os três critérios de crise febril SIMPLES estão presentes ao mesmo tempo. O período de sonolência de 10 minutos com recuperação completa é pós-ictal esperado, e não déficit neurológico focal — não é paralisia de Todd.
estratificação de risco
Aplicado o semáforo: nenhum achado da coluna vermelha (sem exantema que não desaparece à digitopressão, sem abaulamento de fontanela, sem rigidez de nuca, sem sinal focal, sem estado de mal, idade acima de 3 meses) e nenhum da coluna âmbar (responde socialmente, consolável, sem taquipneia por faixa etária, saturação normal, enchimento capilar de 2 segundos, mucosas úmidas). Criança de faixa VERDE.
punção lombar
Não indicada. Não há sinal ou sintoma meníngeo nem quadro que sugira infecção intracraniana; a criança tem 16 meses, portanto fora da faixa de 6 a 12 meses em que a vacinação deficiente abriria a opção; o esquema vacinal está completo para Hib e pneumococo; e não houve uso de antibiótico prévio que pudesse mascarar meningite. Nenhuma das três portas da régua de 2011 se abre.
exames
Nenhum exame para investigar a crise: sem eletroencefalograma, sem tomografia, sem eletrólitos, cálcio, fósforo, magnésio ou hemograma. A glicemia capilar já foi medida durante o atendimento e está normal, o que é conduta de emergência e não investigação etiológica da crise. A atenção se dirige à causa da FEBRE — e ela está no exame físico: hiperemia de orofaringe e de membrana timpânica direita.
conduta
Tratar o foco identificado conforme o quadro (avaliação da otite média aguda e da faringoamigdalite segue seus próprios critérios) e tratar a febre pelo desconforto, com paracetamol, dipirona ou ibuprofeno em monoterapia. Nada de anticonvulsivante: a crise já cessou espontaneamente em menos de 5 minutos e não há indicação de benzodiazepínico nem de qualquer profilaxia.
prognóstico e orientação
Risco de recorrência: a criança tem um fator de risco claro (início antes de 18 meses, aos 16 meses) e não há história familiar relatada, febre no momento da crise foi alta e o intervalo febre-crise foi de cerca de 3 horas. Com um fator, a recorrência fica na faixa de 25% a 50%. Risco de epilepsia futura: 1% a 2%, contra 0,5% a 0,9% da população geral. Orientar o roteiro da crise em casa, dizer explicitamente que antitérmico não previne nova crise e combinar retorno imediato se houver nova crise, crise com mais de 5 minutos, exantema que não desaparece à digitopressão, piora do estado geral ou febre por 5 dias ou mais.
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Agora feche você

Lactente de 9 meses chega ao pronto-socorro trazido pelo SAMU, convulsionando. A mãe conta que a febre começou ontem à noite e que hoje pela manhã a criança teve um episódio de abalos do braço e da perna esquerdos, com desvio do olhar para a esquerda, que durou 'uns 3 minutos' e cedeu sozinho; ela não procurou serviço. Há cerca de 12 minutos iniciou este segundo episódio, agora com abalos generalizados, que persiste. A criança recebeu duas doses de amoxicilina ontem, sobradas de um tratamento anterior, por conta própria. A caderneta mostra apenas a BCG e a hepatite B do nascimento — a mãe informa que não conseguiu levar às demais consultas. Ao exame: convulsionando, sialorreia, cianose perioral, temperatura axilar 39,2 °C, saturação 89% em ar ambiente, frequência cardíaca 176 bpm, enchimento capilar 3 segundos, fontanela anterior tensa e abaulada. Sem acesso venoso até o momento. Glicemia capilar 78 mg/dL.
achado
Crise em curso há 12 minutos em lactente de 9 meses, precedida por um primeiro episódio FOCAL há algumas horas no mesmo dia. Fontanela abaulada, saturação de 89%, enchimento capilar de 3 segundos, vacinação incompleta para Hib e pneumococo e uso de antibiótico por conta própria nas últimas 24 horas.
classificação
Crise febril COMPLEXA por três critérios simultâneos, quando bastaria um: início focal no primeiro episódio, recorrência dentro de 24 horas e duração já superior a 15 minutos neste segundo episódio. Pelo semáforo de risco, criança de faixa VERMELHA — abaulamento de fontanela e crise focal são achados dessa coluna, e há ainda dessaturação e enchimento capilar prolongado.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Puncionar todo lactente abaixo de 18 meses com crise febril Atrai porque foi a régua ensinada por quinze anos e porque parece prudente. Mas a punção de rotina caiu em 2011, e o motivo é epidemiológico: com vacinação ampla contra Hib e pneumococo, a criança com bom aspecto e esquema completo não se pune. O que reabre a porta é sinal meníngeo, faixa de 6 a 12 meses com vacinação deficiente ou desconhecida, ou uso recente de antibiótico — e é a caderneta, não a idade isolada, que decide.
  2. 2Pedir eletroencefalograma para 'ver se vai virar epilepsia' É a alternativa que soa mais científica e é recomendação forte contra. Não há evidência de que o traçado, feito na apresentação ou no mês seguinte, preveja recorrência de crise febril ou epilepsia nos dois anos seguintes, e não há evidência de que qualquer conduta baseada nele mude o desfecho. O exame só entrega ansiedade aos pais e custo.
  3. 3Prescrever antitérmico de horário para prevenir nova crise É o conselho mais dado e o mais errado do capítulo. Metanálise de três estudos com 540 crianças de 6 a 72 meses com crise febril prévia não mostrou diferença entre antipirético profilático e placebo (OR 0,9; IC95% 0,57 a 1,43) — nível de evidência I, força de recomendação E. O antitérmico entra pelo desconforto da criança. A crise, aliás, costuma acontecer na subida da temperatura, antes de a família perceber a febre.
  4. 4Chamar de complexa a crise porque durou 'quase 15 minutos' ou porque a febre estava muito alta Complexa é categoria fechada: foco, 15 minutos ou mais, ou recorrência em 24 horas — mais o déficit pós-ictal. Intensidade da febre não entra na definição, e a diretriz é explícita ao dizer que a magnitude da temperatura não tem valor prognóstico. Aliás, febre BAIXA no momento da crise é que é fator de risco para recorrência, o oposto da intuição.
  5. 5Confundir os dois prognósticos: usar o tipo da crise para estimar recorrência A recorrência depende do perfil da criança — idade abaixo de 18 meses, história familiar, febre baixa na crise, intervalo curto entre febre e crise —, e fica em 30% a 40% independentemente de a crise ter sido simples ou complexa. O tipo da crise prediz outra coisa: o risco de epilepsia, que vai de 1% na simples a 29% quando a crise é focal. Trocar um pelo outro é o erro de raciocínio mais comum do tema.
  6. 6Insistir na terceira dose de benzodiazepínico A tentação é continuar com o que 'quase funcionou'. São duas doses, e a terceira troca uma crise não controlada por uma criança apneica — a depressão respiratória é o efeito adverso que mata aqui. Persistindo após duas doses, muda-se de classe: fenitoína ou fenobarbital 15 a 20 mg/kg endovenoso LENTO, porque a infusão rápida traz risco de parada cardiorrespiratória.
  7. 7Esperar 30 minutos para começar a tratar a crise em curso Confunde-se o número que DEFINE o estado de mal com o número que MANDA tratar. O gatilho de tratamento é 5 minutos — o ponto t1 da definição de 2015. Os 30 minutos passaram a marcar o momento a partir do qual há risco de consequência neuronal de longo prazo. Quem espera os 30 minutos está esperando o dano para depois agir.
  8. 8Iniciar fenobarbital de manutenção após a segunda crise febril simples Parece cuidado e é o oposto. Nem terapia contínua nem intermitente se indica para a criança com uma ou mais crises febris simples: a toxicidade supera o risco mínimo de um evento benigno e autolimitado. E nenhuma profilaxia reduz o risco de epilepsia futura, porque a epilepsia desse grupo decorre de predisposição genética, não de dano causado pela crise. Carbamazepina e fenitoína, além de tudo, não previnem crise febril.
  9. 9Colocar algo na boca da criança durante a crise É o mito mais persistente da orientação familiar, e a questão de conduta pergunta exatamente isso. A língua não é engolida. O objeto na boca causa trauma dentário, laceração, obstrução de via aérea e mordedura de quem tenta. Também não se dá água nem remédio pela boca durante a crise, não se joga água fria e não se contêm os movimentos.
  10. 10Tratar como crise febril a crise com febre em criança abaixo de 6 meses Fora da faixa de 6 a 60 meses não se aplica o rótulo. Abaixo de 6 meses, a crise com febre é suspeita de infecção do sistema nervoso central até prova em contrário — e, no menor de 3 meses, a própria febre já é achado de faixa vermelha. É a combinação mais perigosa do tema, porque é a idade em que os sinais clássicos de meningite mais faltam.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de crise febril simples (generalizada, curta <15 min, única em 24h, criança 6 meses-5 anos, com recuperação completa e exame normal). A conduta é orientar os pais quanto à benignidade e tratar a febre; não há indicação de neuroimagem, EEG ou punção lombar de rotina. Anticonvulsivante de manutenção (fenobarbital, valproato) não é indicado em crise febril simples, pois os riscos superam benefícios. TC de urgência não se justifica sem sinais focais/trauma. Punção lombar só se houver suspeita de meningite (sinais meníngeos, toxemia, ou lactente muito jovem), não em todos os casos.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Definição: crise com febre em criança de 6 a 60 meses, sem infecção do sistema nervoso central; exclui distúrbio metabólico agudo, crise afebril prévia e criança com lesão neurológica conhecida. Febre: 38 °C por qualquer método na régua americana; axilar acima de 37,3 °C na régua brasileira. SIMPLES precisa dos três ao mesmo tempo — generalizada, menos de 15 minutos, sem recorrência em 24 horas; COMPLEXA basta um — focal, 15 minutos ou mais, recorrência em 24 horas, ou déficit pós-ictal (Todd). Crise em curso: proteger até 5 minutos, medicar a partir dos 5. Com veia, diazepam 0,2 a 0,4 mg/kg/dose; sem veia, diazepam retal 0,5 mg/kg, midazolam bucal 0,5 mg/kg ou intranasal 0,2 a 0,5 mg/kg; no AIDPI, diazepam EV ou retal 0,3 a 0,5 mg/kg antes de referir. Duas doses no máximo; depois fenitoína ou fenobarbital 15 a 20 mg/kg EV lento. Estado de mal: t1 de 5 minutos (tratar) e t2 de 30 minutos (dano); a entidade 'estado de mal epiléptico febril' se define acima de 30 minutos e é 5% das crises. Punção lombar: obrigatória com sinal meníngeo ou suspeita de infecção intracraniana; opção entre 6 e 12 meses com vacinação anti-Hib ou antipneumocócica deficiente ou desconhecida; opção em quem usou antibiótico. Puncionou, colhe hemocultura e glicemia sérica. NÃO se pede na crise simples: EEG, neuroimagem, eletrólitos, cálcio, fósforo, magnésio, glicemia sérica e hemograma — investiga-se a FEBRE. Antitérmico não previne recorrência (OR 0,9; IC95% 0,57-1,43; evidência I, força E).

em 30 dias

Prognóstico e conversa. Incidência 2% a 5% até os 5 anos, pico entre 12 e 18 meses. Recorrência 30% a 40%: segunda crise 32%, terceira 15%, seguintes 7%; cerca de 50% quando a primeira crise ocorre antes de 1 ano. Quatro fatores de recorrência: início abaixo de 18 meses, história familiar de crise febril, febre baixa no momento da crise, intervalo curto entre febre e crise — sem fatores 10%, com um ou dois 25% a 50%, com três ou mais 50% a 100%. Epilepsia: 1% a 2% após crise simples contra 0,5% a 0,9% na população geral; 2% a 10% após complexa; por tipo, simples 1%, múltiplas 4%, prolongadas 6%, focais 29%. Nenhuma profilaxia reduz esse risco (predisposição genética, não dano). Profilaxia: nem contínua nem intermitente se indica após crise febril simples; carbamazepina e fenitoína não previnem crise febril. Orientação aos pais: deitar de lado, proteger e apoiar a cabeça, afrouxar a roupa, não conter, NADA na boca, cronometrar; voltar imediatamente se a crise passar de 5 minutos, se houver segunda crise, se não recuperar a consciência entre elas, se houver dificuldade respiratória ou cianose, se surgir exantema que não desaparece à digitopressão, se piorar o estado geral ou se a febre durar 5 dias ou mais. Quando NÃO é crise febril: idade fora de 6 a 60 meses, rigidez de nuca, abaulamento de fontanela, petéquias, rebaixamento de consciência, sinal neurológico focal, crise focal, estado de mal — e, no quadro do AIDPI, convulsão nas últimas 72 horas já é sinal geral de perigo, com antibiótico e referência urgente.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 16 meses trazido ao pronto-socorro após crise convulsiva generalizada de cerca de 2 minutos, em vigência de febre de 38,6 °C iniciada há 3 horas; recuperou-se completamente, está ativo e consolável, com caderneta vacinal em dia e hiperemia de orofaringe e de membrana timpânica direita ao exame — pronto-socorro pediátrico — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Crise febril simples e complexa – Crise febril na infância — Preparatório para provas | OsceLabs