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Catarata e erros de refração: o número que manda encaminhar não é o que manda operar

Acuidade por idade, presbiopia e critérios de encaminhamento

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 68 anos, aposentado, procura a unidade básica de saúde queixando-se de embaçamento visual progressivo e indolor em ambos os olhos há cerca de dois anos. Relata muito ofuscamento com os faróis dos carros à noite, o que o fez parar de dirigir, e refere que trocou o grau dos óculos três vezes nos últimos 18 meses; nos últimos meses passou a conseguir ler o jornal sem os óculos de perto. É hipertenso, em uso de losartana. Ao exame: acuidade visual 20/100 em ambos os olhos, sem melhora com o teste do orifício estenopeico; reflexo vermelho diminuído e heterogêneo bilateralmente; pupilas fotorreagentes; pressão intraocular normal. Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, o diagnóstico mais provável e a conduta adequada.

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Como esse tema cai

Este capítulo trata das duas causas de baixa de visão que não doem, não deixam o olho vermelho e não têm pressa: o cristalino que ficou opaco e o olho que não foca. São as duas condições que mais aparecem na sala de espera da atenção primária e as duas que menos aparecem como tema de capítulo — e é justamente por isso que a prova gosta delas.

O recém-nascido fica de fora, e não por omissão. O reflexo vermelho, o prazo das primeiras 48 horas, o encaminhamento em até 30 dias, a repetição aos 2, 6 e 9 meses no primeiro ano e aos 12, 18 e 24 no segundo, e as três hipóteses que dão nome à urgência — catarata congênita, glaucoma congênito e retinoblastoma — estão ensinados em seção própria, chamada "Olhinho: o reflexo vermelho e o prazo de 30 dias", dentro do capítulo de triagens neonatais da apostila de Puericultura e Desenvolvimento. Aquele capítulo também ensina que alta com reflexo normal não encerra o assunto e que o teste não é obrigatório por lei federal. Nada disso se repete aqui: o que se aproveita é o outro lado do mesmo achado, o adulto em que a opacidade se instala devagar e ninguém procura.

Também ficam de fora, por já terem capítulo nesta mesma apostila, a crise aguda de fechamento angular e o restante do olho vermelho, e o glaucoma crônico de ângulo aberto — que, no próprio recorte, devolve a catarata para cá. A hipermetropia aparece naqueles capítulos como fator de risco anatômico da crise; aqui ela volta como erro de refração a corrigir. E a retinopatia diabética está na apostila de clínica médica, dentro das complicações microvasculares.

O buraco estenopeico também não é assunto novo: a apostila de semiologia já o ensina como instrumento, no capítulo que mostra o que a manobra remove. Aqui ele reaparece com outra função — a de critério. É com ele que a Organização Mundial da Saúde define, desde 2004, o que conta como erro refrativo não corrigido, e é com ele que a régua da atenção primária separa, em segundos, o olho que precisa de óculos do olho que precisa de cirurgia.

O que entra: a suspeita de catarata em três itens, os três tipos morfológicos e o sintoma de cada um, os dois limiares numéricos que a prova adora trocar, a régua brasileira de encaminhamento no adulto e na criança, as quatro ametropias com a lente que corrige cada uma, e a aritmética da fila — quantas cirurgias o país faz, para quem, e por que a média nacional descreve um Brasil que não existe.

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O que muda decisão

A doença que o acervo cita e não ensina

Vale começar pelo diagnóstico do próprio material de estudo, porque ele explica o formato das questões. A palavra catarata aparece no corpo de texto de vinte e sete capítulos desta plataforma: na rubéola congênita, no grupo das infecções congênitas, na hanseníase, na tuberculose, no corticoide sistêmico prolongado, nas complicações microvasculares do diabetes, na lista de problemas do idoso e até na profilaxia de tromboembolismo, porque a facectomia é a cirurgia limpa de referência. Em nenhum deles ela é a doença; é sempre a consequência de outra coisa. O mesmo padrão se repete nas questões: em quase vinte e quatro mil questões vivas, a palavra aparece em sessenta e quatro e é o assunto do enunciado em quatro. Facoemulsificação, facectomia, lente intraocular, ametropia, ambliopia e dioptria não são assunto de um único enunciado.

A consequência prática é direta. O estudante chega à prova sabendo reconhecer a catarata quando ela é o desfecho de uma síndrome que já estudou, e não sabe reconhecê-la quando ela chega sozinha, num homem de 68 anos que só reclama do farol do carro. E chega sem nenhum número: não sabe com que acuidade se encaminha, com que acuidade se opera, nem que esses dois números são diferentes.

A régua deste capítulo é brasileira e é de acesso. Não existe protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde para catarata do adulto — a Política Nacional de Atenção em Oftalmologia, instituída pela portaria GM nº 957 de 2008, organiza a oferta, não o diagnóstico. Quem escreve o critério clínico, no Brasil, são os protocolos de regulação ambulatorial, e o mais completo é o do TelessaúdeRS-UFRGS, na versão digital de 2023. É por ele que este capítulo se orienta, e é onde a banca brasileira vai buscar quando quiser cobrar conduta de atenção primária.

Suspeita de catarata: três itens, e a observação que amplia a faixa etária

O quadro de suspeita de catarata senil do protocolo brasileiro tem três itens, e só três: idade acima de 60 anos; queixa de turvação não dolorosa e progressiva da visão, em um ou ambos os olhos; e perda do reflexo vermelho através da pupila ou obscurecimento dos detalhes do fundo de olho. Nenhum exige lâmpada de fenda. Todos cabem numa unidade básica com um oftalmoscópio.

Debaixo do quadro há uma observação que a prova usa como gancho: a catarata pode ocorrer em adultos não idosos quando outros fatores de risco estão presentes, principalmente diabetes, uso de corticoide sistêmico prolongado ou trauma ocular prévio. É a mesma frase que aparece em outros capítulos do acervo — e é o que transforma um paciente de 42 anos em lúpus, com anos de prednisona, num caso de catarata e não de erro refrativo.

Os três itens do quadro descrevem a apresentação; a morfologia explica o sintoma. A esclerose nuclear dá tom amarelado ao núcleo e aumenta o índice de refração, deslocando a refração para a miopia. A cortical produz opacidade em cunha, em raios de roda, a partir da periferia, e o que incomoda é o ofuscamento e a fotofobia. A subcapsular posterior senta no ponto nodal do cristalino, por onde passa o feixe útil, e afeta a visão de modo desproporcional ao tamanho: ofuscamento, halos e fotofobia, com piora justamente onde a pupila se contrai — na luz forte e na leitura de perto.

O sinal que decide mais questões que qualquer outro é o desvio refracional da esclerose nuclear, e ele tem nome popular: segunda visão. O paciente présbita, que usava óculos de leitura desde os 45 anos, volta a ler o jornal sem eles. Não é melhora: é o cristalino miopizando, e a miopia adquirida compensa a presbiopia para perto enquanto piora o longe. O correlato clínico é a troca repetida de grau sem ganho — três receitas em dezoito meses e nenhuma resolve.

Do outro lado do diferencial, o achado que exclui: acuidade que melhora quando o paciente olha por um orifício estenopeico não é catarata. O orifício descarta os raios periféricos e encolhe o círculo de borramento; se a visão melhora, o problema estava na convergência dos raios, não na transparência do meio.

Vinte sobre trinta e seis sobre vinte e quatro: dois limiares, dois sujeitos

Aqui mora o par de números que mais separa quem estudou de quem decorou. O protocolo brasileiro manda encaminhar o paciente com diagnóstico de catarata quando há queixa de diminuição da capacidade visual funcional — a diminuição que interfere nas atividades da vida diária — ou quando a acuidade medida com a tabela, com correção se indicada, está em 20/30 ou pior. Os dois gatilhos são independentes: qualquer um dispara sozinho. O limiar de indicação cirúrgica que a literatura de bolso repete é outro: o manejo clínico basta enquanto a acuidade é de 6/24 ou melhor, e a cirurgia entra quando é pior que 6/24 ou quando há indicação médica. Em notação de vinte pés, 6/24 é 20/80.

São quase três linhas de tabela entre um número e outro, e a tentação é dizer que um dos dois está errado. Nenhum está. Os sujeitos são diferentes: 20/30 é o gatilho que manda o paciente sair da atenção primária, e 20/80 é o patamar em que o oftalmologista, no consultório, deixa de acompanhar e passa a operar. Entre um e outro cabe uma consulta especializada inteira, que a régua brasileira quer que aconteça.

Há um terceiro número, e ele é o mais perigoso porque não pertence a documento nenhum: 20/40. Ele circula em enunciados de prova como se fosse o limiar cirúrgico da catarata, e circula sempre dentro de uma afirmação falsa — do tipo "agendar facectomia quando a acuidade cair abaixo de 20/40". É um algarismo órfão, e quem o decorar vai errar as duas perguntas que o número verdadeiro resolve.

Eixo de acuidade visual de 20/20 a 20/100 com duas réguas sobrepostas. Na régua da atenção primária, acompanhamento até 20/30 e encaminhamento a partir de 20/30 ou pior. Na régua do oftalmologista, manejo clínico enquanto a acuidade for 6/24, equivalente a 20/80, ou melhor, e indicação cirúrgica quando pior que 6/24. Entre 20/30 e 20/80 uma chave indica o espaço da consulta especializada. Um marcador pontilhado em 20/40 assinala que esse valor não é limiar de nenhum documento. Uma faixa superior lembra que a queixa funcional encaminha sozinha.
Encaminhar e operar são dois limiares com sujeitos diferentes: 20/30 tira o paciente da atenção primária, 6/24 é onde o oftalmologista passa a operar, e 20/40 não pertence a nenhuma das duas réguas.

A régua brasileira ainda tem duas portas que não passam por acuidade nenhuma: o paciente já operado que voltou a enxergar mal e não resolveu com refração nem com óculos novos, e a suspeita de opacidade de cápsula posterior — a membrana que se opacifica atrás da lente implantada, em até um olho a cada cinco nos três anos seguintes à cirurgia, e que se resolve com capsulotomia a laser, não com nova cirurgia. Quem não conhece esse desfecho manda o paciente de volta para a fila cirúrgica.

E existe uma quarta, escrita não como número mas como frase, no informe brasileiro de 2025: a cirurgia é indicada sempre que a deficiência visual impedir ou dificultar as atividades cotidianas do paciente. É a versão funcional do critério, e é ela que decide o caso do motorista de 62 anos com 20/40 que não dirige mais à noite.

O protocolo também diz o que precisa estar escrito no encaminhamento, e a lista curta é o material mais fácil de virar alternativa: sinais e sintomas com o prejuízo funcional descrito, acuidade em cada olho, cirurgia prévia com tempo e local. Repare no item que quase ninguém registra: com ou sem correção. Uma acuidade de 20/60 sem óculos e uma de 20/60 com óculos são dois pacientes diferentes — o primeiro pode sair da consulta enxergando, o segundo já esgotou o que a lente resolve.

Nada disso vale para a baixa de visão súbita. Diminuição de acuidade aguda, ou associada a percepção de sombra ou cortina sobre parte do campo, fotopsia, moscas volantes ou metamorfopsia, não é caso de protocolo de catarata nem de refração: é emergência oftalmológica. Baixa de visão lenta encaminha; baixa de visão súbita corre.

As quatro ametropias, e a que não é doença

O manual nacional de triagem descreve quatro distúrbios e os descreve pela queixa, não pela óptica — e é assim que eles aparecem na vinheta. Na miopia a imagem foca antes da retina: o paciente tem dificuldade para longe, aproxima os objetos, franze a testa e aperta os olhos. Corrige-se com lente esférica negativa, divergente.

Na hipermetropia o foco cairia atrás da retina: o paciente vê bem de longe, mas faz esforço acomodativo para perto, e por isso resiste a leitura, artesanato e costura, mesmo sendo criança ou jovem. O manual acrescenta uma frase que a prova cobra: graus baixos de hipermetropia na infância são frequentes e normais. Corrige-se com lente positiva, convergente.

No astigmatismo a imagem se forma em mais de um ponto, e o resultado é borramento com fantasma — a comparação do manual é a de uma televisão com antena desregulada. Astigmatismos médios e altos borram igualmente para perto e para longe, e respondem por fadiga ocular e cefaleia. Corrige-se com lente cilíndrica.

A presbiopia é a que não é doença. É a perda progressiva da capacidade de focalização do cristalino, parte do envelhecimento, e o manual brasileiro a chama de universal, acometendo geralmente as pessoas com mais de 40 anos. A literatura internacional é mais precisa: manifesta-se sintomaticamente entre 40 e 45 anos, com prevalência praticamente universal aos 60, e mais de 80% das pessoas de 40 anos já a têm. O estadiamento é feito pela adição necessária para perto — de +0,75 a +1,25 dioptria dos 40 aos 45; de +1,50 a +2,25 dos 46 aos 55; e +2,50 ou mais depois dos 55.

Duas confusões nascem daí, e as duas viram alternativa. A primeira é chamar de hipermetropia a dificuldade isolada para perto que aparece aos 46 anos com visão de longe intacta em 20/20: a hipermetropia estava lá desde sempre e cobra esforço acomodativo em qualquer idade; a presbiopia é nova e só atinge o perto. A segunda é chamar de presbiopia a leitura que voltou a funcionar aos 68 anos: acomodação não melhora com a idade, e o que voltou foi o cristalino miopizando. Vale guardar, do diferencial da presbiopia, que a esclerose nuclear está na lista — é a única entrada dela que muda o desfecho para cirurgia.

A régua da criança é mais frouxa que a do adulto, e isso não é erro

O protocolo pediátrico brasileiro não usa um número: usa três, por faixa etária. De 3 a 4 anos incompletos, encaminha-se quem tem acuidade de 20/50 ou pior em um ou ambos os olhos, e explicita que não é preciso encaminhar quem tem 20/40 ou melhor. De 4 a 5 anos incompletos, o corte é 20/40 ou pior, com dispensa em 20/30 ou melhor. Dos 5 anos em diante, é 20/30 ou pior, com dispensa em 20/25 ou melhor.

Colocado ao lado do adulto, o resultado parece invertido: uma criança de 3 anos com 20/40 fica; um adulto com catarata e 20/30 vai. A criança, cujo sistema visual ainda é plástico e ainda corre risco de ambliopia, tem o limiar mais tolerante. A explicação não é descuido — é que a acuidade normal amadurece com a idade, e 20/40 aos 3 anos é uma medida esperada, não um achado. O erro do estudante é aplicar a régua do adulto na criança, e o erro do serviço é o inverso: encaminhar toda criança que não faz 20/20.

Existe um quarto critério, e ele não depende de idade nenhuma: diferença de duas ou mais linhas entre os olhos. Vale em qualquer faixa, e vale mesmo quando os dois valores absolutos estão dentro do aceitável — 20/25 num olho e 20/40 no outro obriga encaminhamento numa criança de 6 anos, ainda que 20/40 sozinho não obrigasse aos 4. É a assimetria que denuncia a ambliopia em formação, e é o critério que o manual nacional de triagem também adota, com as mesmas duas linhas.

Abaixo dos 3 anos a tabela não se aplica, porque a criança não coopera, e o protocolo troca de instrumento: encaminha-se por suspeita clínica a partir de alterações do comportamento, numa lista de observação leiga — não fixar objetos ao teste monocular, ficar inquieta quando se ocluí o olho de melhor visão, piscar mais que o usual, esfregar os olhos, franzir o rosto ou inclinar a cabeça, cobrir um olho para enxergar, segurar objetos junto ao rosto. Ao lado dela, o protocolo põe uma tabela de marcos do desenvolvimento visual de 0 a 3 anos, que é o que permite dizer se o comportamento é atraso ou é idade.

Sobram duas travas de encaminhamento que não são de acuidade. A criança com suspeita de ambliopia — baixa de acuidade somada a alteração de alinhamento, alteração do reflexo vermelho, ptose ou qualquer alteração palpebral que envolva o eixo visual — vai para oftalmologia pediátrica. E a criança menor de 8 anos que já usa lente corretiva também vai, presencialmente: o protocolo só admite telediagnóstico a partir dos 8 anos.

Esse piso deixa um vestígio curioso no próprio documento. Ao listar o que pode ser avaliado por telediagnóstico, o protocolo pediátrico escreve, textualmente, "paciente com 8 anos de idade ou mais e distúrbio de refração (miopia, hipermetropia, astigmatismo) ou acomodação (presbiopia)". Presbiopia aos 8 anos não existe: a frase veio do protocolo de adulto, onde faz sentido, e atravessou a revisão. Não muda conduta, mas ensina a ler documento — o mesmo parágrafo pode ser correto no adulto e impossível na criança, e a banca que copia o trecho copia o defeito junto.

Trinta por cento ou quatro por cento: a prevalência é um construto

A nota técnica que redefiniu o programa nacional de saúde ocular, em 2012, declara o objetivo assim: diagnosticar e corrigir problemas de refração, "considerando que 30% das crianças em idade escolar e quase 100% dos adultos acima de 40 anos possuem problemas de refração". A segunda metade da frase é defensável, porque presbiopia é quase universal depois dos 40. A primeira é o número que sustenta o programa inteiro.

Os inquéritos brasileiros de campo, feitos com a mesma técnica que o programa preconiza, encontram outra coisa. Em Passo Fundo, 1.608 escolares da primeira série de 26 escolas públicas foram triados com a escala de Snellen a 5 metros; 172 foram encaminhados; 88, ou 51,16% dos encaminhados, compareceram; entre os examinados, 62 tinham erro refrativo. Em Botucatu, professores treinados triaram 4.623 crianças de 4 a 10 anos com o mesmo corte, encaminharam 376, ou 8,1%, e prescreveram óculos para 183.

Agora as duas leituras do estudo gaúcho. Erro refrativo em 70,46% e erro refrativo em 3,92% são as mesmas 62 crianças. O que muda é o denominador: 62 sobre os 88 que foram examinados, ou 62 sobre os 1.581 que foram triados. Nenhuma das duas é errada, e as duas aparecem no mesmo artigo. Quem cita a primeira para descrever a população brasileira exagera por um fator de dezoito; quem cita a segunda para descrever o rendimento da triagem esconde que ela funciona.

O estudo paulista dá o segundo ponto de apoio: 183 óculos entre 4.623 crianças é 3,9% da população triada — praticamente o mesmo número, em outro estado, com outra faixa etária, cinco anos depois. Duas medidas independentes convergindo em 3,9% e um documento de política afirmando 30% é uma distância de quase oito vezes que nenhuma diferença de método explica sozinha.

Há um cálculo que atenua a distância, e é honesto fazê-lo. Em Passo Fundo, 84 dos 172 encaminhados nunca chegaram ao oftalmologista. Se eles tivessem a mesma proporção de erro refrativo dos que compareceram, os 172 renderiam cerca de 121 crianças com ametropia, e a prevalência populacional subiria de 3,92% para aproximadamente 7,7% — quase o dobro. A ressalva é grande: quem se dá ao trabalho de ir à consulta tende a ser quem tem queixa, de modo que os ausentes provavelmente têm menos erro refrativo, não o mesmo. O número real mora entre 3,9% e 7,7%, e continua longe de 30%. O mesmo efeito explica o desencontro entre os dois estudos — em Botucatu, 48,7% dos encaminhados acabaram com óculos; em Passo Fundo, 70,46% dos que compareceram tinham ametropia, e vinte e dois pontos de diferença no rendimento da mesma triagem se explicam menos pela técnica do que por quem apareceu.

O 153 que virou cegueira, e a definição que mudou de lugar em 2010

A apresentação do manual nacional de triagem, publicado em 2008 com tiragem de 100 mil exemplares, abre assim: "A Organização Mundial de Saúde reconheceu que existem 153 milhões de indivíduos cegos no mundo, por erros refracionais não corrigidos". O número existe, é da mesma época e é da própria Organização. O sujeito é que foi trocado.

O artigo de origem, publicado no boletim da Organização Mundial da Saúde em 2008 com dados de 2004, diz: estima-se que 153 milhões de pessoas tenham deficiência visual por erros refrativos não corrigidos, das quais 8 milhões são cegas. O manual brasileiro promoveu os 153 milhões inteiros à cegueira — uma inflação de dezenove vezes sobre o número real de cegos —, e ainda atribuiu o dado a um relatório brasileiro de 2007, não ao artigo que o produziu. É o mesmo algarismo com o sujeito trocado, impresso em cem mil cópias e distribuído como material de capacitação.

A definição operacional daquele artigo é a parte que interessa clinicamente: contou-se como deficiência visual a acuidade menor que 6/18 no melhor olho que pudesse melhorar para 6/18 ou mais por refração ou pelo orifício estenopeico. A mesma manobra que a semiologia ensina à beira do leito é o critério que define, em epidemiologia, o que é erro refrativo não corrigido.

Onze anos depois, o relatório mundial sobre visão publicou a classificação vigente, por acuidade no melhor olho: deficiência leve é pior que 6/12 e até 6/18; moderada, pior que 6/18 e até 6/60; grave, pior que 6/60 e até 3/60; cegueira, pior que 3/60. Para perto, deficiência é acuidade menor que N6, ou M 0,8, a 40 centímetros. Convertendo: 6/18 é 20/60, e 3/60 é 20/400.

O mesmo relatório conta a mudança que explica por que o erro refrativo virou a principal causa de deficiência visual moderada a grave no mundo. Até 2010, a prevalência era calculada pela acuidade melhor corrigida — testada com óculos ou com o orifício —, e quem podia ser corrigido simplesmente não entrava na conta. Em 2010 a Organização trocou o critério para a acuidade de apresentação: aquela com que a pessoa chega ao exame. É o limiar da época que deixava metade de fora, e a metade que ficava de fora era exatamente a que só precisava de óculos. O efeito colateral está declarado no próprio relatório: quem usa óculos adequados é medido com eles e sai da conta, de modo que 2,2 bilhões é um piso, não uma estimativa fechada.

Vale conferir a soma, porque ela mostra onde está o peso. Dos 2,2 bilhões, ao menos 1 bilhão é evitável ou ainda não atendido, e esse bilhão se decompõe em presbiopia não atendida (826 milhões), erro refrativo não corrigido (123,7 milhões), catarata (65,2 milhões), glaucoma (6,9 milhões), opacidade corneana (4,2 milhões), retinopatia diabética (3 milhões) e tracoma (2 milhões). Somando: 1.031 milhões. Óculos e cirurgia de catarata respondem por 1.015 dos 1.031 — 98% do bilhão evitável. O relatório ainda registra, em nota de rodapé, que pode haver sobreposição entre os 123,7 milhões e o 1,8 bilhão de pessoas com presbiopia.

A aritmética da fila: 868,69 descreve um Brasil que não existe

O informe técnico de agosto de 2025 da Demografia Médica juntou o Datasus e o painel da agência reguladora da saúde suplementar e produziu as taxas que faltavam. Em 2024, o Brasil fez 868,69 cirurgias de catarata por 100 mil habitantes; em 2023, foram 779,07. O sistema público respondeu por 64% do volume em 2024, com 1.181.837 cirurgias e taxa de 736,30 por 100 mil habitantes usuários exclusivos do público. Os planos fizeram os 36% restantes, com 664.861 cirurgias e taxa de 1.276,79.

A diferença entre as duas taxas é o dado que circula: os planos operam 73,4% mais que o público. Só que em 2023 essa mesma diferença era de 121%. Em um ano, a distância caiu quarenta e oito pontos — e a leitura muda conforme se olhe um ano ou dois. O público fez 984.009 cirurgias em 2023 e 1.181.837 em 2024, um aumento de 20%. Os planos fizeram 665.244 e 664.861, praticamente o mesmo número, com queda de 0,1% — mas a taxa deles caiu 4,8%, de 1.340,89 para 1.276,79, porque o número de beneficiários cresceu. Metade da aproximação veio de o público operar mais; a outra metade veio de o denominador privado crescer.

As três taxas impressas lado a lado têm três denominadores diferentes, e isso não é defeito — é o que torna a comparação possível, desde que declarado. A nacional divide todas as cirurgias por todos os brasileiros; a do sistema público divide as cirurgias públicas pela população sem plano; a privada divide as cirurgias dos planos pelos beneficiários. Quem soma as duas últimas, ou compara qualquer uma delas com a primeira, mistura populações. A série histórica mostra o mesmo efeito: no sistema público, entre 2000 e 2019 foram 8.424.521 procedimentos, com a taxa subindo de 13,15 para 32,28 por 10 mil habitantes, ou 322,8 por 100 mil sobre a população total. Colocar esse 322,8 ao lado do 607,10 de 2023 sugere quase o dobro em quatro anos; refazendo a conta de 2023 com a população total, as 984.009 cirurgias dão cerca de 463 por 100 mil — crescimento de 43%, não de 88%.

A média nacional é o número que mais engana. Em 2024, o Sudeste fez 1.012,61 cirurgias por 100 mil habitantes, o Sul 971,43, o Nordeste 814,05, o Centro-Oeste 591,42 e o Norte 435,04. Na comparação internacional do mesmo informe, o Brasil, com 868,7, fica abaixo de quinze dos vinte e três países listados, atrás de França e Coreia do Sul, e à frente de sete, com México (147) e China (220) nas últimas posições. A Índia aparece com 579. Ou seja: a taxa do Norte do Brasil é menor que a taxa nacional da Índia, e essa informação desaparece por completo na média de 868,69.

Um último número fecha a história do acesso: entre 2007 e 2008, a facoemulsificação passou de 34,3% para 69,7% dos procedimentos públicos, e chegou a 96,1% em 2019. A técnica que o mundo considera padrão já é praticamente a única que o sistema público brasileiro faz. O gargalo não é técnico.

O oftalmologista que é contado duas vezes

O mesmo informe abre com dois números na mesma página: 16.784 médicos especialistas em oftalmologia atuam no país, e a razão é de 8,96 especialistas por 100 mil habitantes. Os dois estão corretos e não conversam entre si.

A nota da tabela explica: a análise usou o número de registros de especialista, que é 19.054, e não o de indivíduos, porque 2.270 médicos — 13,5% do total — estão inscritos em mais de um conselho regional e podem atuar em mais de um estado, sendo contados em cada um. Refazendo a razão com os 16.784 indivíduos, o país tem cerca de 7,9 oftalmologistas por 100 mil habitantes, e não 8,96: uma diferença de 13,5%, exatamente a proporção de médicos com registro duplo. O mesmo fator reaparece na produção — a capa informa 96,92 cirurgias por oftalmologista por ano, e as 1.846.698 cirurgias de 2024 divididas por 19.054 registros dão exatamente isso; divididas pelos 16.784 médicos, dão 110.

A distribuição é o que explica a fila. O Distrito Federal tem 19,18 oftalmologistas por 100 mil habitantes, São Paulo 11,25 e o Espírito Santo 10,97; no outro extremo, Amazonas 3,60, Pará 3,77 e Maranhão 4,22 — mais de cinco vezes de diferença entre os extremos. As 48 cidades com 500 mil habitantes ou mais concentram 12.318 profissionais, com razão de 18,75, e a razão cai a cada degrau de porte municipal.

E aí aparece o paradoxo que a prova de gestão adora. A produção por oftalmologista é inversa à densidade: no Piauí, com 6,52 especialistas por 100 mil, cada um faz 180,38 cirurgias por ano; em Alagoas, 147,20; no Distrito Federal, com a maior densidade do país, apenas 21,54; em Tocantins, 37,06. Oito vezes de diferença de produtividade, na direção contrária à da oferta. É a assinatura do mutirão: onde faltam especialistas, os que existem operam em série, em campanhas concentradas.

O próprio informe lista quatro limitações, e todas empurram na mesma direção. Parte das cirurgias de mutirão pode não ser registrada no sistema público; a agência da saúde suplementar não verifica a completude do que as operadoras declaram; as cirurgias pagas diretamente pelo paciente não são alcançadas — de modo que a concentração no setor privado é maior que a medida; e o estudo pressupõe que todo oftalmologista opera catarata, quando parte deles exerce clínica não cirúrgica.

A triagem nacional: o reteste que só conta o melhor, e o buraco etário

Três documentos brasileiros medem acuidade de três maneiras. O manual nacional de triagem usa a escala de sinais de Snellen com o optotipo E, notação decimal de 0,1 a 1,0, a 5 metros, tomando a última linha em que a pessoa enxerga mais da metade dos optotipos. O protocolo de regulação usa a notação fracionária, entre 4 e 6 metros, com a menor linha respondida corretamente e, se o paciente acerta só parte dela, a linha de cima. O relatório mundial usa 6 metros, com visão normal em 6/6. Na conversão, 0,7 decimal fica entre 20/25 e 20/30 — o corte da triagem escolar e o do encaminhamento por catarata são vizinhos escritos em alfabetos diferentes.

Duas regras do manual enviesam o resultado numa direção previsível. A primeira: todos os alunos que não atingirem 0,7 devem ser retestados, e vale o resultado em que a acuidade medida foi maior — a justificativa é razoável, porque é comum errar na primeira medida, mas o efeito é sistemático, e o melhor de duas medidas puxa a triagem para encaminhar menos. A segunda: quem usa óculos para longe faz o teste com eles, o que significa que a triagem escolar brasileira mede acuidade de apresentação, no mesmo sentido em que a Organização Mundial da Saúde passou a medir depois de 2010. O encaminhamento é prioritário com acuidade inferior a 0,1, quadro agudo ou trauma recente; é regular com acuidade igual ou inferior a 0,7, diferença de duas linhas, estrabismo, queixa de perto acima dos 40 anos, diabetes ou história familiar de glaucoma.

O programa que aplica esse manual nasceu em abril de 2007 com três públicos: alunos da rede pública no ensino fundamental; jovens e adultos do programa nacional de alfabetização; e a população com 60 anos ou mais. A redefinição pactuada em 2012 reduziu o alvo aos alunos cobertos pelo programa de saúde na escola — 8.273.272 — e aos alfabetizandos, com meta de 2.248.103; os 60 anos ou mais deixaram de figurar como público declarado. Na mesma nota estão os valores que explicam a dificuldade de adesão: a consulta era paga a R$ 14,29 e passaria a R$ 21,00; os óculos, de R$ 28,00 para R$ 42,00.

Fica um buraco etário nas duas pontas. Embaixo: o protocolo de regulação só mede acuidade com tabela a partir dos 3 anos, e o programa entra pela escola, a partir dos 6, enquanto a janela em que a ambliopia ainda responde a tratamento fecha por volta dos 7 aos 8. Sobra a criança de 3 a 5 anos, que já coopera com a tabela mas ainda não está no ensino fundamental, dependendo inteiramente da puericultura — e a puericultura, nessa faixa, faz reflexo vermelho anual, não acuidade. Em cima, o adulto entre 18 e 59 anos fora de programa de alfabetização nunca esteve coberto, justamente a faixa em que a presbiopia começa e em que aparece a catarata por corticoide, diabetes ou trauma. Nada disso é proibição nem respaldo: é silêncio — não há recomendação nacional que desaconselhe medir acuidade nessas faixas, e não há programa que a financie.

04

Da vinheta ao limiar: que número vale, para quem, e quem é dono dele

Quase toda questão do tema se resolve em dois passos: identificar se o enunciado descreve opacidade de meio ou defeito de foco, e depois identificar de que documento é o número que está sendo cobrado. Baixa de visão progressiva e indolor com reflexo vermelho alterado é meio; baixa de visão que melhora com estenopeico, com óculos ou com lente de prova é foco. Encaminhamento e prioridade pedem a régua do protocolo de regulação; triagem escolar pede a régua do manual nacional; estatística mundial pede a classificação por acuidade no melhor olho; e indicação cirúrgica pede o limiar da literatura de bolso, que é outro.

Suspeita de catarata senil, em três itens

Idade acima de 60 anos; queixa de turvação não dolorosa e progressiva da visão, em um ou ambos os olhos; perda do reflexo vermelho através da pupila ou obscurecimento dos detalhes do fundo de olho. A observação do quadro amplia a faixa: pode ocorrer em adultos não idosos com diabetes, uso prolongado de corticoide sistêmico ou trauma ocular prévio.

Os quatro gatilhos de encaminhamento por catarata

Suspeita pelo quadro acima; diagnóstico com queixa de diminuição da capacidade visual funcional; diagnóstico com acuidade de 20/30 ou pior, com correção se indicada; e o já operado que voltou a enxergar mal — seja por necessidade de nova refração, seja por suspeita de opacidade de cápsula posterior. Qualquer um deles basta sozinho.

Acuidade da criança, por faixa etária

De 3 a 4 anos incompletos, encaminha 20/50 ou pior (dispensa em 20/40 ou melhor); de 4 a 5 anos incompletos, 20/40 ou pior (dispensa em 20/30 ou melhor); de 5 anos em diante, 20/30 ou pior (dispensa em 20/25 ou melhor). Em qualquer idade, diferença de duas ou mais linhas entre os olhos obriga encaminhamento.

Adição da presbiopia por faixa etária

Dos 40 aos 45 anos, de +0,75 a +1,25 dioptria; dos 46 aos 55, de +1,50 a +2,25; depois dos 55, +2,50 ou mais. A lente é esférica positiva, convergente, e só para perto — a visão de longe permanece intacta enquanto não houver outra ametropia associada.

O que corre e o que espera

Baixa de acuidade aguda, ou associada a sombra ou cortina no campo, fotopsia, moscas volantes ou metamorfopsia, é emergência oftalmológica, não protocolo de catarata. Também têm preferência no encaminhamento: descolamento de retina com até 2 semanas, doença vasoclusiva de retina com até 3 meses, glaucoma agudo, úlcera de córnea e ceratite em atividade.

Conteúdo mínimo que o encaminhamento tem de trazer

Na catarata: sinais e sintomas com prejuízo funcional descrito; acuidade em cada olho informando se foi com ou sem correção; se já foi operado, há quanto tempo e onde. No distúrbio de refração, acrescenta-se o diagnóstico prévio com o grau da lente e a data da última revisão. Acuidade sem a condição de medida declarada é dado ambíguo.

Os três tipos de catarata: onde fica, o que incomoda, para onde desvia a refração

TipoLocalizaçãoSintoma que dominaEfeito refracional
Nuclear escleróticaNúcleo do cristalino, com tom amarelado progressivoPiora lenta da visão de longe e troca repetida de grau sem ganhoAumenta o índice de refração e miopiza o olho — é a origem da chamada segunda visão
CorticalCórtex, em cunha ou raios de roda, da periferia para o centroOfuscamento e fotofobia, com acuidade central preservada por bastante tempoDesvio pouco previsível; incomoda mais pela dispersão de luz que pelo grau
Subcapsular posteriorJunto à cápsula posterior, no ponto nodal do cristalinoOfuscamento, halos e piora sob luz forte e na leitura de pertoPrejuízo desproporcional ao tamanho da opacidade, porque ocupa o feixe útil

Cada limiar com o seu dono e o seu sujeito

LimiarDocumentoO que ele decide
20/30 ou pior, com correçãoProtocolo de regulação ambulatorial de oftalmologia adulto, versão 2023Encaminhar o paciente com catarata da atenção primária para a oftalmologia
Prejuízo funcional, sem númeroO mesmo protocolo, como gatilho independenteEncaminhar mesmo com acuidade acima do corte, quando a visão atrapalha a vida diária
6/24, equivalente a 20/80Literatura de bolso, capítulo de catarataDeixar o manejo clínico e indicar a cirurgia
0,7 ou pior, em escala decimalManual nacional de triagem de acuidade visual, 2008Encaminhamento regular a partir da triagem escolar ou comunitária
Menor que 0,1 em qualquer olhoO mesmo manualEncaminhamento prioritário
Pior que 6/18 no melhor olhoClassificação mundial vigente por acuidade de apresentaçãoContar a pessoa como deficiência visual moderada ou pior nas estatísticas
Pior que 3/60 no melhor olhoA mesma classificaçãoContar a pessoa como cega
20/40 como corte cirúrgicoNenhumAlgarismo órfão que circula em distratoras — não é limiar de documento algum

Cirurgia de catarata no Brasil em 2024: três taxas, três denominadores

RecorteCirurgiasTaxa por 100 milDenominador usado
Brasil1.846.698868,69População total
Sistema público1.181.837 (64% do total)736,30População sem plano de saúde
Planos de saúde664.861 (36% do total)1.276,79Beneficiários de planos
Região Norte435,04População total da região
Região Sudeste1.012,61População total da região
Índia, para comparação579População total do país

As conversões entre notações usadas no capítulo: 6/6 é 20/20; 6/12 é 20/40; 6/18 é 20/60; 6/24 é 20/80; 6/60 é 20/200; 3/60 é 20/400. Na escala decimal do manual nacional, 1,0 é 20/20 e 0,7 fica entre 20/25 e 20/30.

O quadro de suspeita de catarata, as figuras de acuidade e as listas de conteúdo descritivo mínimo são da versão digital de 2023 do protocolo de regulação, elaborado em 19 de junho de 2017 e revisado em 10 de março de 2023. Quando um enunciado citar uma versão anterior, os limiares podem não coincidir.

As taxas de cirurgia são do informe técnico de agosto de 2025, com produção de 2023 e 2024. Elas não incluem cirurgias pagas diretamente pelo paciente, e parte das cirurgias de mutirão pode não estar registrada — as duas omissões empurram o número real para cima, não para baixo.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Rastrear acuidade visual em idoso assintomático

Evidência insuficiente para recomendar a favor ou contra

Para adultos assintomáticos de 65 anos ou mais que se apresentam na atenção primária sem deficiência visual conhecida e sem procurar atendimento por queixa visual, a evidência atual é insuficiente para avaliar o equilíbrio entre benefícios e danos do rastreamento — a chamada declaração de insuficiência. A conclusão atualizou a recomendação anterior de 2016 e não é uma recomendação contrária: é ausência de base para decidir.

US Preventive Services Task Force. Screening for Impaired Visual Acuity in Older Adults. JAMA, 24 de maio de 2022

Triagem ativa, feita por agente comunitário, na população de 60 anos ou mais

A versão original do programa nacional de saúde ocular incluiu explicitamente a população com idade igual ou superior a 60 anos entre os públicos-alvo, e delegou a medida de acuidade a agentes comunitários de saúde capacitados, com carga horária sugerida de 16 horas. O argumento declarado é funcional e não epidemiológico: problemas de refração não corrigidos dificultam as atividades cotidianas e aumentam o risco de acidentes nessa faixa.

Brasil. Ministério da Saúde e Ministério da Educação. Projeto Olhar Brasil: triagem de acuidade visual — manual de orientação, 2008

Na prova

Repare em quem é o sujeito da pergunta. Quando o enunciado diz "assintomático", "sem queixa visual" e cita força de recomendação, o avaliador está no terreno da medicina preventiva baseada em evidência e quer a insuficiência. Quando o enunciado descreve um idoso numa unidade básica, com agente comunitário e caderneta, o avaliador está no terreno da política brasileira e quer a triagem. As duas posições convivem porque respondem a perguntas diferentes: uma pergunta se o rastreamento muda desfecho, a outra organiza um serviço.

O que indica a cirurgia de catarata: o número ou a função

Um patamar de acuidade

O manejo clínico é suficiente enquanto a acuidade visual é de 6/24 ou melhor; a cirurgia entra quando a acuidade é pior que 6/24 ou quando há indicação médica de outra ordem. É a formulação que dá ao estudante um corte memorizável e verificável na tabela.

Cataract. StatPearls, NCBI Bookshelf NBK539699, atualizado em 27 de fevereiro de 2024

O prejuízo funcional, com ou sem número

As indicações variam por país e em geral incluem má acuidade visual, dificuldade visual, ou ambas; e a formulação brasileira é a de que a cirurgia é indicada sempre que a deficiência visual impedir ou dificultar as atividades cotidianas do paciente. No protocolo de regulação, o prejuízo funcional é gatilho de encaminhamento independente do valor medido.

Cataract Surgery. StatPearls NBK559253, atualizado em 18 de julho de 2023; e Informe Técnico nº 07 da Demografia Médica no Brasil, agosto de 2025

Na prova

Se a vinheta caprichar no impacto da vida — parou de dirigir à noite, deixou de ler, caiu em casa — o avaliador construiu o caso pela função e vai punir quem exigir o número. Se a vinheta entregar uma acuidade seca, sem contexto de vida, ele quer o patamar. E se entregar as duas coisas em conflito, com acuidade acima do corte e vida prejudicada, a régua brasileira resolve: os dois gatilhos são independentes, e o funcional basta.

Quantas crianças brasileiras em idade escolar têm erro de refração

Cerca de 30%

O documento que redefiniu o programa nacional declara, como premissa do objetivo, que 30% das crianças em idade escolar e quase 100% dos adultos acima de 40 anos possuem problemas de refração. É o número que dimensionou o público-alvo de mais de dez milhões de pessoas e o custeio correspondente.

CONASS. Nota Técnica 23/2012 — Saúde Ocular: redefinição do Projeto Olhar Brasil, 25 de julho de 2012

Cerca de 4%

Dois inquéritos brasileiros com triagem por optotipos e confirmação oftalmológica encontraram prevalência populacional de erro refrativo de 3,92% em 1.581 escolares de primeira série em Passo Fundo e de 3,9% em 4.623 crianças de 4 a 10 anos na regional de Botucatu, esta com refração sob cicloplegia. As duas medidas são de estados e anos diferentes e convergem.

Rev Bras Oftalmol. 2007;66(5):289-95; e Arq Bras Oftalmol. 2009;72(2)

Na prova

O que separa as duas posições é o que se chama de "ter erro de refração". A premissa do documento de política provavelmente conta qualquer ametropia detectável sob cicloplegia, inclusive a hipermetropia baixa que o próprio manual nacional chama de frequente e normal na infância; os inquéritos contam quem precisou de óculos. Quando a questão pedir magnitude de problema de saúde pública, o avaliador tende a querer o número do documento; quando pedir rendimento de triagem, quer o de campo. Diga sempre qual dos dois construtos está sendo medido antes de escolher o algarismo.

Qual acuidade conta na estatística: a de apresentação ou a melhor corrigida

A melhor corrigida, com corte em 6/18

O critério estabelecido em 1972 calculava a prevalência de deficiência visual pela acuidade melhor corrigida, isto é, testada com os óculos habituais ou com orifício estenopeico, e classificava como deficiência a acuidade melhor corrigida menor que 6/18, e como cegueira a menor que 3/60. Foi com essa lógica que se estimou, para 2004, um total de 153 milhões de pessoas com deficiência visual por erro refrativo não corrigido, das quais 8 milhões cegas.

Resnikoff S et al. Bull World Health Organ. 2008;86(1):63-70; critério de 1972 descrito no relatório mundial sobre visão

A de apresentação, desde 2010

Em 2010 a acuidade melhor corrigida foi substituída pela acuidade de apresentação — aquela com que a pessoa chega ao exame —, com a justificativa explícita de que o critério anterior deixava de fora uma grande proporção de pessoas com deficiência visual por erro refrativo não corrigido. A cegueira passou a ser subdividida em graus. Há ainda investigadores adotando um corte mais estrito, de 6/12, por evidência de que reduções menores já afetam o cotidiano.

World Health Organization. World report on vision, 2019, caixas 1.3 e 1.4

Na prova

Este é o par que faz o mesmo paciente mudar de categoria sem mudar de olho. Se o enunciado disser que a acuidade foi medida com a correção habitual, está na régua de apresentação; se disser "melhor corrigida" ou citar refração e orifício, está na régua antiga. E há um efeito colateral que vira alternativa: sob a régua de apresentação, quem usa óculos adequados é medido com eles e sai da conta de deficiência visual — o que significa que o total mundial de 2,2 bilhões é declaradamente um piso, e não uma estimativa fechada.

06

Caso resolvido

Homem de 69 anos, aposentado, motorista de táxi até o ano passado, chega à unidade básica com embaçamento visual progressivo e indolor nos dois olhos há cerca de dois anos. Reclama sobretudo do ofuscamento com faróis à noite, motivo pelo qual parou de dirigir depois do anoitecer. Conta que trocou o grau dos óculos três vezes nos últimos dezoito meses, sempre com pouca melhora, e que nos últimos meses voltou a ler o jornal sem os óculos de perto que usava desde os 46 anos. É hipertenso em uso de losartana, sem diabetes, sem uso de corticoide, sem trauma ocular. Nega dor, olho vermelho, secreção, sombra em cortina, fotopsia ou moscas volantes. Ao exame, os olhos são externamente normais; a acuidade visual medida na tabela a 5 metros, com os óculos que ele traz, é de 20/60 no olho direito e 20/50 no esquerdo; o reflexo vermelho está diminuído nos dois olhos e os detalhes do fundo estão obscurecidos à oftalmoscopia direta.
separar meio de foco
O primeiro corte não é diagnóstico, é físico: o problema está na transparência do meio ou na convergência dos raios? Aqui há reflexo vermelho diminuído e fundo obscurecido nos dois olhos, e a acuidade está baixa com a correção que ele usa. Isso é meio, não foco. Se restar dúvida à beira do leito, o orifício estenopeico resolve em segundos: acuidade que melhora pelo furo é defeito de foco; acuidade que não muda é opacidade.
conferir o quadro de suspeita, item por item
Idade acima de 60 anos: 69. Turvação não dolorosa e progressiva em ambos os olhos: dois anos de evolução, sem dor. Perda do reflexo vermelho ou obscurecimento dos detalhes do fundo: ambos presentes. Os três itens do quadro de suspeita de catarata senil estão preenchidos, e nenhum deles exigiu lâmpada de fenda. A ausência de diabetes, corticoide e trauma apenas confirma que ele está na faixa etária esperada, e não afasta nada.
ler a segunda visão pelo que ela é
Voltar a ler sem os óculos de perto aos 69 anos não é recuperação da acomodação — ela não volta. É a esclerose nuclear elevando o índice de refração do núcleo e miopizando o olho, o que compensa a presbiopia para perto e piora o longe. As três trocas de grau em dezoito meses são a mesma coisa vista de outro ângulo: o grau muda porque o cristalino muda, e por isso nenhuma receita segura.
medir do jeito que o encaminhamento vai exigir
A acuidade tem de ser registrada olho por olho, com a informação de que foi feita com a correção habitual. Vale a menor linha respondida corretamente e, se ele acertar só parte dela, vale a linha de cima. Registrado como "acuidade com correção, olho direito 20/60, olho esquerdo 20/50", o dado é interpretável; registrado como "acuidade 20/60", sem olho e sem condição, é ambíguo e o regulador não consegue usar.
aplicar os gatilhos de encaminhamento
Dois disparam ao mesmo tempo. O de acuidade: 20/60 e 20/50 com correção são piores que 20/30. E o funcional: parou de dirigir à noite, o que é diminuição da capacidade visual que interfere nas atividades da vida diária. Bastaria um. Como não há queixa aguda, sombra em cortina, fotopsia nem metamorfopsia, isto não é emergência oftalmológica — é encaminhamento para oftalmologia, não corrida para o pronto-socorro.
escrever o encaminhamento completo
Sinais e sintomas com o prejuízo funcional descrito — parou de dirigir à noite por ofuscamento; acuidade em cada olho com a condição de medida declarada; reflexo vermelho diminuído bilateral e fundo obscurecido; e a informação de que nunca foi operado de catarata. Quatro itens, todos disponíveis numa unidade básica. É esse conteúdo que decide a prioridade do caso na regulação.
não fazer o que a queixa sugere
A tentação é prescrever a quarta receita de óculos e reavaliar em seis meses. Nenhuma lente corrige opacidade de meio, e a própria história — três trocas sem ganho — já provou isso três vezes. Também não há colírio que reverta a opacificação do cristalino, e a tomografia de crânio não se justifica num quadro visual bilateral, lentamente progressivo, com achado de meio ao exame.
combinar a expectativa com o paciente
O tratamento é cirúrgico e é feito no sistema público, praticamente sempre por facoemulsificação com implante de lente intraocular — a técnica já respondia por 96,1% dos procedimentos públicos em 2019. O tempo, porém, depende de onde ele mora: a taxa de cirurgias por 100 mil habitantes varia de 435 no Norte a 1.012 no Sudeste. Dizer isso não é pessimismo; é o que evita que ele abandone a fila achando que foi esquecido.
07

Agora feche você

Duas pessoas chegam à mesma unidade básica na mesma manhã. A primeira é uma menina de 3 anos e 9 meses, trazida pela mãe porque a professora da creche achou que ela "aperta os olhos" para ver o quadro; a criança coopera com a tabela de figuras e a acuidade é de 20/40 no olho direito e 20/40 no esquerdo, sem assimetria, com alinhamento ocular normal, reflexo vermelho presente e simétrico, sem ptose; a mãe chega decidida a conseguir um encaminhamento ao oftalmologista e diz que a irmã mais velha usa óculos desde os 6 anos. A segunda é uma professora de 47 anos que parou de conseguir ler bulas e mensagens no celular há cerca de um ano, precisa afastar o material para enxergar, tem cefaleia frontal depois de corrigir provas à noite, enxerga placas de trânsito sem dificuldade, tem acuidade de longe 20/20 em ambos os olhos sem correção, e melhora plenamente a leitura quando o médico lhe empresta uma lente esférica positiva de +1,50 dioptria; ela pergunta se "já está com catarata", porque a mãe operou aos 70.
decida a criança pela régua da idade dela
Qual é o corte de acuidade para a faixa de 3 a 4 anos incompletos, e o que o protocolo diz explicitamente sobre quem tem 20/40 ou melhor nessa faixa? Depois pergunte-se o que mudaria se um dos olhos fosse 20/25 e o outro 20/40 — o valor absoluto de cada olho, aqui, não é o único critério em jogo.
diga o que ainda falta olhar na criança
A régua de acuidade não é a única porta de encaminhamento pediátrico. Que achados de exame, se estivessem presentes, obrigariam o encaminhamento mesmo com acuidade dentro do esperado? E que informação sobre o uso de lente corretiva mudaria o serviço de destino, e não apenas a decisão de encaminhar?
converse com a mãe sem devolver a criança em branco
Não encaminhar não é o mesmo que não fazer nada. Que combinação de retorno e de sinais de alerta você deixa registrada, sabendo que a janela de tratamento da ambliopia fecha por volta dos 7 aos 8 anos, e que a acuidade normal ainda vai amadurecer nos próximos dois anos?
nomeie o quadro da professora com os três dados que o definem
Idade de início, comportamento da visão de longe e resposta à adição positiva. Qual desses três exclui hipermetropia como explicação principal, e qual deles exclui catarata? Diga também que informação da história dela não tem valor diagnóstico nenhum, apesar de ser a que mais a preocupa.
escolha a lente e diga para que distância
Que tipo de lente corrige o quadro, e por que a mesma escolha óptica não torna as duas hipóteses equivalentes? Confira ainda se a adição de +1,50 dioptria é compatível com a faixa etária dela, usando o estadiamento por idade — e o que significaria, clinicamente, precisar de +2,50 aos 47 anos.
decida o destino de cada uma dentro da régua brasileira
Uma delas cabe em avaliação por telediagnóstico ou oftalmologia de média complexidade pelo protocolo do adulto; a outra tem piso etário para isso. Diga qual é qual, e escreva o conteúdo descritivo mínimo que o encaminhamento precisaria trazer — lembrando do item que quase ninguém registra e que torna a acuidade interpretável.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Marcar 20/40 como o limiar cirúrgico da catarata É o algarismo mais repetido em distratoras e não pertence a documento algum. O corte brasileiro de encaminhamento é 20/30 ou pior, com correção; o patamar de indicação cirúrgica da literatura de bolso é pior que 6/24, que equivale a 20/80. Quem decora o número que mais viu marca a alternativa que diz "agendar facectomia quando a acuidade cair abaixo de 20/40" e erra duas vezes: pelo número e pelo verbo, porque a atenção primária encaminha, não agenda cirurgia.
  2. 2Prescrever óculos novos para o idoso que trocou de grau três vezes em dezoito meses A troca repetida sem ganho é o sinal da esclerose nuclear, não do erro refrativo. Homem de 68 anos, ofuscamento com farol, três receitas em ano e meio, e agora lê o jornal sem os óculos que usava desde os 45: a alternativa "erro refrativo não corrigido; prescrever novas lentes e reavaliar em seis meses" é desenhada exatamente para quem lê só a queixa. Nenhuma lente corrige opacidade de meio, e seis meses de espera são seis meses de fila perdidos.
  3. 3Tratar a segunda visão como melhora A paciente conta, satisfeita, que voltou a bordar sem óculos. Quem registra isso como evolução favorável perde o diagnóstico. Acomodação não se recupera com a idade: o que aconteceu é que o núcleo do cristalino aumentou o índice de refração e miopizou o olho, compensando a presbiopia para perto enquanto piora o longe. A alternativa que diz "presbiopia revertida pelo enfraquecimento do músculo ciliar" inverte a fisiologia inteira.
  4. 4Achar que reflexo vermelho presente exclui catarata no adulto No recém-nascido, a ausência ou a assimetria do reflexo é o achado que dispara a urgência. No adulto, o quadro de suspeita fala em perda do reflexo vermelho ou obscurecimento dos detalhes do fundo de olho — e a catarata incipiente, sobretudo a cortical periférica, pode cursar com reflexo ainda presente e fundo já difícil de examinar. Reflexo presente não fecha nem abre o caso; a acuidade e a queixa funcional é que decidem.
  5. 5Aplicar a régua de acuidade do adulto na criança de 3 anos Menina de 3 anos e 8 meses, 20/40 nos dois olhos, sem assimetria: pela régua pediátrica brasileira, não precisa encaminhar — o corte nessa faixa é 20/50 ou pior. Quem transporta o 20/30 do adulto para a criança encaminha um caso normal e ocupa vaga de quem precisa. O inverso também acontece: transportar o 20/50 do pré-escolar para o escolar de 7 anos deixa de encaminhar quem já deveria ter ido.
  6. 6Ignorar a diferença de duas linhas porque os dois valores parecem bons Criança de 6 anos com 20/25 num olho e 20/40 no outro: os dois números, isolados, estão dentro do que a faixa tolera, e o encaminhamento parece dispensável. Mas a assimetria de duas linhas ou mais obriga encaminhamento em qualquer idade, tanto na régua de regulação quanto na de triagem escolar — é ela que denuncia a ambliopia em formação, e a janela de tratamento fecha por volta dos 7 aos 8 anos.
  7. 7Confundir presbiopia com hipermetropia porque as duas usam lente positiva Professora de 46 anos, acuidade de longe 20/20 sem correção, dificuldade isolada para perto que resolve plenamente com adição de +1,50 dioptria esférica: é presbiopia. A hipermetropia também se corrige com lente positiva, mas está presente desde sempre, cobra esforço acomodativo em qualquer distância e não aparece de repente na quinta década com o longe intacto. A alternativa que oferece lente negativa para uma queixa de perto está errada por duas razões, e a que oferece hipermetropia está errada só por uma.
  8. 8Repetir que existem 153 milhões de cegos por erro refrativo O número existe, mas descreve deficiência visual, não cegueira: são 153 milhões com deficiência visual por erro refrativo não corrigido, das quais 8 milhões cegas. A troca de sujeito está impressa no manual nacional de triagem de 2008, com tiragem de cem mil exemplares — de onde ela circula até hoje em aula e em enunciado. Um enunciado que ofereça "153 milhões de cegos" como afirmativa verdadeira está reproduzindo o erro da fonte brasileira, não o dado da fonte original.
  9. 9Ler a taxa nacional de cirurgia como se descrevesse o país inteiro O Brasil fez 868,69 cirurgias de catarata por 100 mil habitantes em 2024, e essa média coloca o país entre o Reino Unido e a Índia numa lista de vinte e três países. A mesma tabela mostra a região Norte com 435,04 — abaixo da taxa nacional indiana, que é 579. Quem responde "o acesso à cirurgia de catarata no Brasil é comparável ao de países de renda alta" está certo sobre a média e errado sobre um quarto do território.
  10. 10Chamar de catarata a baixa de visão que melhora com o orifício estenopeico Menina de 9 anos que não enxerga o quadro, aproxima o caderno, franze os olhos, e cuja acuidade melhora ao olhar por um furo em cartão opaco: o orifício descarta os raios periféricos e reduz o borramento, o que só funciona quando o defeito é de foco. Opacidade de meio não é atravessada por buraco nenhum. A alternativa que oferece catarata com encaminhamento urgente está lendo a queixa e ignorando a manobra.
  11. 11Mandar de volta para a fila cirúrgica quem tem opacidade de cápsula posterior Paciente operado há dois anos, satisfeito na época, volta com visão embaçada que os óculos novos não resolvem. Isso acontece em até um olho a cada cinco nos três anos seguintes à cirurgia, e o tratamento é capsulotomia a laser, em ambulatório — não é recidiva de catarata e não é nova facectomia. O protocolo brasileiro tem gatilho de encaminhamento próprio para essa suspeita, e quem não o conhece devolve o paciente ao começo da fila.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade baixa acuidade progressiva e indolor, ofuscamento noturno e alteração do reflexo vermelho define catarata; a miopização do cristalino ("segunda visão", trocas frequentes de grau e leitura sem óculos) é típica da esclerose nuclear. Como não há correção óptica que resolva a opacidade, a conduta do generalista é encaminhar para avaliação cirúrgica (facectomia por facoemulsificação com LIO), único tratamento eficaz e disponível no SUS. Erro refrativo é afastado porque a visão não melhora com o orifício estenopeico e o reflexo vermelho está alterado. Glaucoma de ângulo aberto cursa com pressão intraocular geralmente elevada, escotomas periféricos e reflexo vermelho preservado. DMRI causa metamorfopsia e escotoma central, sem opacificação do cristalino nem ofuscamento característico.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os três itens do quadro de suspeita de catarata senil e a observação que amplia a faixa etária. Depois escreva os dois limiares com o sujeito de cada um — que número manda encaminhar e que número manda operar — e diga por que 20/40 não é nenhum dos dois. Feche recitando a régua pediátrica nas três faixas etárias, mais o critério que não depende de idade, e converta de cabeça 6/18, 6/24 e 3/60 para a notação de vinte pés.

em 30 dias

Reconstrua a aritmética inteira sem consultar. Primeiro a da prevalência escolar: por que 70,46% e 3,92% descrevem as mesmas 62 crianças, e o que acontece com a prevalência se os 84 ausentes tivessem a mesma proporção dos que compareceram. Depois a da fila: as três taxas de 2024 com os três denominadores, e por que a diferença entre público e privado caiu de 121% para 73,4% em um ano. Depois a do denominador oculto: por que 8,96 e 7,9 oftalmologistas por 100 mil habitantes saem do mesmo estudo, e onde reaparece o mesmo ajuste de 13,5%. Por fim, escreva as quatro divergências com as duas posições e a fonte de cada lado, e diga, para cada uma, que palavra do enunciado revela qual régua o avaliador escolheu.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Consulta de rotina em unidade básica de saúde. Entra um homem de 66 anos, pedreiro aposentado, acompanhado da filha, que marcou a consulta porque o pai "anda derrubando as coisas" e parou de sair de casa depois que escurece. Ele diz que enxerga bem, que o problema é a iluminação da rua, e traz três receitas de óculos dos últimos dois anos. Você tem uma tabela de optotipos afixada na parede, uma trena, um oclusor, um cartão com um furo e um oftalmoscópio. A filha pergunta se o pai precisa de óculos novos ou de cirurgia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Catarata e erros de refração: o número que manda encaminhar não é o que manda operar — Preparatório para provas | OsceLabs