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Catarata e erros de refração: o número que manda encaminhar não é o que manda operar
Acuidade por idade, presbiopia e critérios de encaminhamento
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 68 anos, aposentado, procura a unidade básica de saúde queixando-se de embaçamento visual progressivo e indolor em ambos os olhos há cerca de dois anos. Relata muito ofuscamento com os faróis dos carros à noite, o que o fez parar de dirigir, e refere que trocou o grau dos óculos três vezes nos últimos 18 meses; nos últimos meses passou a conseguir ler o jornal sem os óculos de perto. É hipertenso, em uso de losartana. Ao exame: acuidade visual 20/100 em ambos os olhos, sem melhora com o teste do orifício estenopeico; reflexo vermelho diminuído e heterogêneo bilateralmente; pupilas fotorreagentes; pressão intraocular normal. Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, o diagnóstico mais provável e a conduta adequada.
Como esse tema cai
Este capítulo trata das duas causas de baixa de visão que não doem, não deixam o olho vermelho e não têm pressa: o cristalino que ficou opaco e o olho que não foca. São as duas condições que mais aparecem na sala de espera da atenção primária e as duas que menos aparecem como tema de capítulo — e é justamente por isso que a prova gosta delas.
O recém-nascido fica de fora, e não por omissão. O reflexo vermelho, o prazo das primeiras 48 horas, o encaminhamento em até 30 dias, a repetição aos 2, 6 e 9 meses no primeiro ano e aos 12, 18 e 24 no segundo, e as três hipóteses que dão nome à urgência — catarata congênita, glaucoma congênito e retinoblastoma — estão ensinados em seção própria, chamada "Olhinho: o reflexo vermelho e o prazo de 30 dias", dentro do capítulo de triagens neonatais da apostila de Puericultura e Desenvolvimento. Aquele capítulo também ensina que alta com reflexo normal não encerra o assunto e que o teste não é obrigatório por lei federal. Nada disso se repete aqui: o que se aproveita é o outro lado do mesmo achado, o adulto em que a opacidade se instala devagar e ninguém procura.
Também ficam de fora, por já terem capítulo nesta mesma apostila, a crise aguda de fechamento angular e o restante do olho vermelho, e o glaucoma crônico de ângulo aberto — que, no próprio recorte, devolve a catarata para cá. A hipermetropia aparece naqueles capítulos como fator de risco anatômico da crise; aqui ela volta como erro de refração a corrigir. E a retinopatia diabética está na apostila de clínica médica, dentro das complicações microvasculares.
O buraco estenopeico também não é assunto novo: a apostila de semiologia já o ensina como instrumento, no capítulo que mostra o que a manobra remove. Aqui ele reaparece com outra função — a de critério. É com ele que a Organização Mundial da Saúde define, desde 2004, o que conta como erro refrativo não corrigido, e é com ele que a régua da atenção primária separa, em segundos, o olho que precisa de óculos do olho que precisa de cirurgia.
O que entra: a suspeita de catarata em três itens, os três tipos morfológicos e o sintoma de cada um, os dois limiares numéricos que a prova adora trocar, a régua brasileira de encaminhamento no adulto e na criança, as quatro ametropias com a lente que corrige cada uma, e a aritmética da fila — quantas cirurgias o país faz, para quem, e por que a média nacional descreve um Brasil que não existe.
O que muda decisão
A doença que o acervo cita e não ensina
Vale começar pelo diagnóstico do próprio material de estudo, porque ele explica o formato das questões. A palavra catarata aparece no corpo de texto de vinte e sete capítulos desta plataforma: na rubéola congênita, no grupo das infecções congênitas, na hanseníase, na tuberculose, no corticoide sistêmico prolongado, nas complicações microvasculares do diabetes, na lista de problemas do idoso e até na profilaxia de tromboembolismo, porque a facectomia é a cirurgia limpa de referência. Em nenhum deles ela é a doença; é sempre a consequência de outra coisa. O mesmo padrão se repete nas questões: em quase vinte e quatro mil questões vivas, a palavra aparece em sessenta e quatro e é o assunto do enunciado em quatro. Facoemulsificação, facectomia, lente intraocular, ametropia, ambliopia e dioptria não são assunto de um único enunciado.
A consequência prática é direta. O estudante chega à prova sabendo reconhecer a catarata quando ela é o desfecho de uma síndrome que já estudou, e não sabe reconhecê-la quando ela chega sozinha, num homem de 68 anos que só reclama do farol do carro. E chega sem nenhum número: não sabe com que acuidade se encaminha, com que acuidade se opera, nem que esses dois números são diferentes.
A régua deste capítulo é brasileira e é de acesso. Não existe protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde para catarata do adulto — a Política Nacional de Atenção em Oftalmologia, instituída pela portaria GM nº 957 de 2008, organiza a oferta, não o diagnóstico. Quem escreve o critério clínico, no Brasil, são os protocolos de regulação ambulatorial, e o mais completo é o do TelessaúdeRS-UFRGS, na versão digital de 2023. É por ele que este capítulo se orienta, e é onde a banca brasileira vai buscar quando quiser cobrar conduta de atenção primária.
Suspeita de catarata: três itens, e a observação que amplia a faixa etária
O quadro de suspeita de catarata senil do protocolo brasileiro tem três itens, e só três: idade acima de 60 anos; queixa de turvação não dolorosa e progressiva da visão, em um ou ambos os olhos; e perda do reflexo vermelho através da pupila ou obscurecimento dos detalhes do fundo de olho. Nenhum exige lâmpada de fenda. Todos cabem numa unidade básica com um oftalmoscópio.
Debaixo do quadro há uma observação que a prova usa como gancho: a catarata pode ocorrer em adultos não idosos quando outros fatores de risco estão presentes, principalmente diabetes, uso de corticoide sistêmico prolongado ou trauma ocular prévio. É a mesma frase que aparece em outros capítulos do acervo — e é o que transforma um paciente de 42 anos em lúpus, com anos de prednisona, num caso de catarata e não de erro refrativo.
Os três itens do quadro descrevem a apresentação; a morfologia explica o sintoma. A esclerose nuclear dá tom amarelado ao núcleo e aumenta o índice de refração, deslocando a refração para a miopia. A cortical produz opacidade em cunha, em raios de roda, a partir da periferia, e o que incomoda é o ofuscamento e a fotofobia. A subcapsular posterior senta no ponto nodal do cristalino, por onde passa o feixe útil, e afeta a visão de modo desproporcional ao tamanho: ofuscamento, halos e fotofobia, com piora justamente onde a pupila se contrai — na luz forte e na leitura de perto.
O sinal que decide mais questões que qualquer outro é o desvio refracional da esclerose nuclear, e ele tem nome popular: segunda visão. O paciente présbita, que usava óculos de leitura desde os 45 anos, volta a ler o jornal sem eles. Não é melhora: é o cristalino miopizando, e a miopia adquirida compensa a presbiopia para perto enquanto piora o longe. O correlato clínico é a troca repetida de grau sem ganho — três receitas em dezoito meses e nenhuma resolve.
Do outro lado do diferencial, o achado que exclui: acuidade que melhora quando o paciente olha por um orifício estenopeico não é catarata. O orifício descarta os raios periféricos e encolhe o círculo de borramento; se a visão melhora, o problema estava na convergência dos raios, não na transparência do meio.
Vinte sobre trinta e seis sobre vinte e quatro: dois limiares, dois sujeitos
Aqui mora o par de números que mais separa quem estudou de quem decorou. O protocolo brasileiro manda encaminhar o paciente com diagnóstico de catarata quando há queixa de diminuição da capacidade visual funcional — a diminuição que interfere nas atividades da vida diária — ou quando a acuidade medida com a tabela, com correção se indicada, está em 20/30 ou pior. Os dois gatilhos são independentes: qualquer um dispara sozinho. O limiar de indicação cirúrgica que a literatura de bolso repete é outro: o manejo clínico basta enquanto a acuidade é de 6/24 ou melhor, e a cirurgia entra quando é pior que 6/24 ou quando há indicação médica. Em notação de vinte pés, 6/24 é 20/80.
São quase três linhas de tabela entre um número e outro, e a tentação é dizer que um dos dois está errado. Nenhum está. Os sujeitos são diferentes: 20/30 é o gatilho que manda o paciente sair da atenção primária, e 20/80 é o patamar em que o oftalmologista, no consultório, deixa de acompanhar e passa a operar. Entre um e outro cabe uma consulta especializada inteira, que a régua brasileira quer que aconteça.
Há um terceiro número, e ele é o mais perigoso porque não pertence a documento nenhum: 20/40. Ele circula em enunciados de prova como se fosse o limiar cirúrgico da catarata, e circula sempre dentro de uma afirmação falsa — do tipo "agendar facectomia quando a acuidade cair abaixo de 20/40". É um algarismo órfão, e quem o decorar vai errar as duas perguntas que o número verdadeiro resolve.

A régua brasileira ainda tem duas portas que não passam por acuidade nenhuma: o paciente já operado que voltou a enxergar mal e não resolveu com refração nem com óculos novos, e a suspeita de opacidade de cápsula posterior — a membrana que se opacifica atrás da lente implantada, em até um olho a cada cinco nos três anos seguintes à cirurgia, e que se resolve com capsulotomia a laser, não com nova cirurgia. Quem não conhece esse desfecho manda o paciente de volta para a fila cirúrgica.
E existe uma quarta, escrita não como número mas como frase, no informe brasileiro de 2025: a cirurgia é indicada sempre que a deficiência visual impedir ou dificultar as atividades cotidianas do paciente. É a versão funcional do critério, e é ela que decide o caso do motorista de 62 anos com 20/40 que não dirige mais à noite.
O protocolo também diz o que precisa estar escrito no encaminhamento, e a lista curta é o material mais fácil de virar alternativa: sinais e sintomas com o prejuízo funcional descrito, acuidade em cada olho, cirurgia prévia com tempo e local. Repare no item que quase ninguém registra: com ou sem correção. Uma acuidade de 20/60 sem óculos e uma de 20/60 com óculos são dois pacientes diferentes — o primeiro pode sair da consulta enxergando, o segundo já esgotou o que a lente resolve.
Nada disso vale para a baixa de visão súbita. Diminuição de acuidade aguda, ou associada a percepção de sombra ou cortina sobre parte do campo, fotopsia, moscas volantes ou metamorfopsia, não é caso de protocolo de catarata nem de refração: é emergência oftalmológica. Baixa de visão lenta encaminha; baixa de visão súbita corre.
As quatro ametropias, e a que não é doença
O manual nacional de triagem descreve quatro distúrbios e os descreve pela queixa, não pela óptica — e é assim que eles aparecem na vinheta. Na miopia a imagem foca antes da retina: o paciente tem dificuldade para longe, aproxima os objetos, franze a testa e aperta os olhos. Corrige-se com lente esférica negativa, divergente.
Na hipermetropia o foco cairia atrás da retina: o paciente vê bem de longe, mas faz esforço acomodativo para perto, e por isso resiste a leitura, artesanato e costura, mesmo sendo criança ou jovem. O manual acrescenta uma frase que a prova cobra: graus baixos de hipermetropia na infância são frequentes e normais. Corrige-se com lente positiva, convergente.
No astigmatismo a imagem se forma em mais de um ponto, e o resultado é borramento com fantasma — a comparação do manual é a de uma televisão com antena desregulada. Astigmatismos médios e altos borram igualmente para perto e para longe, e respondem por fadiga ocular e cefaleia. Corrige-se com lente cilíndrica.
A presbiopia é a que não é doença. É a perda progressiva da capacidade de focalização do cristalino, parte do envelhecimento, e o manual brasileiro a chama de universal, acometendo geralmente as pessoas com mais de 40 anos. A literatura internacional é mais precisa: manifesta-se sintomaticamente entre 40 e 45 anos, com prevalência praticamente universal aos 60, e mais de 80% das pessoas de 40 anos já a têm. O estadiamento é feito pela adição necessária para perto — de +0,75 a +1,25 dioptria dos 40 aos 45; de +1,50 a +2,25 dos 46 aos 55; e +2,50 ou mais depois dos 55.
Duas confusões nascem daí, e as duas viram alternativa. A primeira é chamar de hipermetropia a dificuldade isolada para perto que aparece aos 46 anos com visão de longe intacta em 20/20: a hipermetropia estava lá desde sempre e cobra esforço acomodativo em qualquer idade; a presbiopia é nova e só atinge o perto. A segunda é chamar de presbiopia a leitura que voltou a funcionar aos 68 anos: acomodação não melhora com a idade, e o que voltou foi o cristalino miopizando. Vale guardar, do diferencial da presbiopia, que a esclerose nuclear está na lista — é a única entrada dela que muda o desfecho para cirurgia.
A régua da criança é mais frouxa que a do adulto, e isso não é erro
O protocolo pediátrico brasileiro não usa um número: usa três, por faixa etária. De 3 a 4 anos incompletos, encaminha-se quem tem acuidade de 20/50 ou pior em um ou ambos os olhos, e explicita que não é preciso encaminhar quem tem 20/40 ou melhor. De 4 a 5 anos incompletos, o corte é 20/40 ou pior, com dispensa em 20/30 ou melhor. Dos 5 anos em diante, é 20/30 ou pior, com dispensa em 20/25 ou melhor.
Colocado ao lado do adulto, o resultado parece invertido: uma criança de 3 anos com 20/40 fica; um adulto com catarata e 20/30 vai. A criança, cujo sistema visual ainda é plástico e ainda corre risco de ambliopia, tem o limiar mais tolerante. A explicação não é descuido — é que a acuidade normal amadurece com a idade, e 20/40 aos 3 anos é uma medida esperada, não um achado. O erro do estudante é aplicar a régua do adulto na criança, e o erro do serviço é o inverso: encaminhar toda criança que não faz 20/20.
Existe um quarto critério, e ele não depende de idade nenhuma: diferença de duas ou mais linhas entre os olhos. Vale em qualquer faixa, e vale mesmo quando os dois valores absolutos estão dentro do aceitável — 20/25 num olho e 20/40 no outro obriga encaminhamento numa criança de 6 anos, ainda que 20/40 sozinho não obrigasse aos 4. É a assimetria que denuncia a ambliopia em formação, e é o critério que o manual nacional de triagem também adota, com as mesmas duas linhas.
Abaixo dos 3 anos a tabela não se aplica, porque a criança não coopera, e o protocolo troca de instrumento: encaminha-se por suspeita clínica a partir de alterações do comportamento, numa lista de observação leiga — não fixar objetos ao teste monocular, ficar inquieta quando se ocluí o olho de melhor visão, piscar mais que o usual, esfregar os olhos, franzir o rosto ou inclinar a cabeça, cobrir um olho para enxergar, segurar objetos junto ao rosto. Ao lado dela, o protocolo põe uma tabela de marcos do desenvolvimento visual de 0 a 3 anos, que é o que permite dizer se o comportamento é atraso ou é idade.
Sobram duas travas de encaminhamento que não são de acuidade. A criança com suspeita de ambliopia — baixa de acuidade somada a alteração de alinhamento, alteração do reflexo vermelho, ptose ou qualquer alteração palpebral que envolva o eixo visual — vai para oftalmologia pediátrica. E a criança menor de 8 anos que já usa lente corretiva também vai, presencialmente: o protocolo só admite telediagnóstico a partir dos 8 anos.
Esse piso deixa um vestígio curioso no próprio documento. Ao listar o que pode ser avaliado por telediagnóstico, o protocolo pediátrico escreve, textualmente, "paciente com 8 anos de idade ou mais e distúrbio de refração (miopia, hipermetropia, astigmatismo) ou acomodação (presbiopia)". Presbiopia aos 8 anos não existe: a frase veio do protocolo de adulto, onde faz sentido, e atravessou a revisão. Não muda conduta, mas ensina a ler documento — o mesmo parágrafo pode ser correto no adulto e impossível na criança, e a banca que copia o trecho copia o defeito junto.
Trinta por cento ou quatro por cento: a prevalência é um construto
A nota técnica que redefiniu o programa nacional de saúde ocular, em 2012, declara o objetivo assim: diagnosticar e corrigir problemas de refração, "considerando que 30% das crianças em idade escolar e quase 100% dos adultos acima de 40 anos possuem problemas de refração". A segunda metade da frase é defensável, porque presbiopia é quase universal depois dos 40. A primeira é o número que sustenta o programa inteiro.
Os inquéritos brasileiros de campo, feitos com a mesma técnica que o programa preconiza, encontram outra coisa. Em Passo Fundo, 1.608 escolares da primeira série de 26 escolas públicas foram triados com a escala de Snellen a 5 metros; 172 foram encaminhados; 88, ou 51,16% dos encaminhados, compareceram; entre os examinados, 62 tinham erro refrativo. Em Botucatu, professores treinados triaram 4.623 crianças de 4 a 10 anos com o mesmo corte, encaminharam 376, ou 8,1%, e prescreveram óculos para 183.
Agora as duas leituras do estudo gaúcho. Erro refrativo em 70,46% e erro refrativo em 3,92% são as mesmas 62 crianças. O que muda é o denominador: 62 sobre os 88 que foram examinados, ou 62 sobre os 1.581 que foram triados. Nenhuma das duas é errada, e as duas aparecem no mesmo artigo. Quem cita a primeira para descrever a população brasileira exagera por um fator de dezoito; quem cita a segunda para descrever o rendimento da triagem esconde que ela funciona.
O estudo paulista dá o segundo ponto de apoio: 183 óculos entre 4.623 crianças é 3,9% da população triada — praticamente o mesmo número, em outro estado, com outra faixa etária, cinco anos depois. Duas medidas independentes convergindo em 3,9% e um documento de política afirmando 30% é uma distância de quase oito vezes que nenhuma diferença de método explica sozinha.
Há um cálculo que atenua a distância, e é honesto fazê-lo. Em Passo Fundo, 84 dos 172 encaminhados nunca chegaram ao oftalmologista. Se eles tivessem a mesma proporção de erro refrativo dos que compareceram, os 172 renderiam cerca de 121 crianças com ametropia, e a prevalência populacional subiria de 3,92% para aproximadamente 7,7% — quase o dobro. A ressalva é grande: quem se dá ao trabalho de ir à consulta tende a ser quem tem queixa, de modo que os ausentes provavelmente têm menos erro refrativo, não o mesmo. O número real mora entre 3,9% e 7,7%, e continua longe de 30%. O mesmo efeito explica o desencontro entre os dois estudos — em Botucatu, 48,7% dos encaminhados acabaram com óculos; em Passo Fundo, 70,46% dos que compareceram tinham ametropia, e vinte e dois pontos de diferença no rendimento da mesma triagem se explicam menos pela técnica do que por quem apareceu.
O 153 que virou cegueira, e a definição que mudou de lugar em 2010
A apresentação do manual nacional de triagem, publicado em 2008 com tiragem de 100 mil exemplares, abre assim: "A Organização Mundial de Saúde reconheceu que existem 153 milhões de indivíduos cegos no mundo, por erros refracionais não corrigidos". O número existe, é da mesma época e é da própria Organização. O sujeito é que foi trocado.
O artigo de origem, publicado no boletim da Organização Mundial da Saúde em 2008 com dados de 2004, diz: estima-se que 153 milhões de pessoas tenham deficiência visual por erros refrativos não corrigidos, das quais 8 milhões são cegas. O manual brasileiro promoveu os 153 milhões inteiros à cegueira — uma inflação de dezenove vezes sobre o número real de cegos —, e ainda atribuiu o dado a um relatório brasileiro de 2007, não ao artigo que o produziu. É o mesmo algarismo com o sujeito trocado, impresso em cem mil cópias e distribuído como material de capacitação.
A definição operacional daquele artigo é a parte que interessa clinicamente: contou-se como deficiência visual a acuidade menor que 6/18 no melhor olho que pudesse melhorar para 6/18 ou mais por refração ou pelo orifício estenopeico. A mesma manobra que a semiologia ensina à beira do leito é o critério que define, em epidemiologia, o que é erro refrativo não corrigido.
Onze anos depois, o relatório mundial sobre visão publicou a classificação vigente, por acuidade no melhor olho: deficiência leve é pior que 6/12 e até 6/18; moderada, pior que 6/18 e até 6/60; grave, pior que 6/60 e até 3/60; cegueira, pior que 3/60. Para perto, deficiência é acuidade menor que N6, ou M 0,8, a 40 centímetros. Convertendo: 6/18 é 20/60, e 3/60 é 20/400.
O mesmo relatório conta a mudança que explica por que o erro refrativo virou a principal causa de deficiência visual moderada a grave no mundo. Até 2010, a prevalência era calculada pela acuidade melhor corrigida — testada com óculos ou com o orifício —, e quem podia ser corrigido simplesmente não entrava na conta. Em 2010 a Organização trocou o critério para a acuidade de apresentação: aquela com que a pessoa chega ao exame. É o limiar da época que deixava metade de fora, e a metade que ficava de fora era exatamente a que só precisava de óculos. O efeito colateral está declarado no próprio relatório: quem usa óculos adequados é medido com eles e sai da conta, de modo que 2,2 bilhões é um piso, não uma estimativa fechada.
Vale conferir a soma, porque ela mostra onde está o peso. Dos 2,2 bilhões, ao menos 1 bilhão é evitável ou ainda não atendido, e esse bilhão se decompõe em presbiopia não atendida (826 milhões), erro refrativo não corrigido (123,7 milhões), catarata (65,2 milhões), glaucoma (6,9 milhões), opacidade corneana (4,2 milhões), retinopatia diabética (3 milhões) e tracoma (2 milhões). Somando: 1.031 milhões. Óculos e cirurgia de catarata respondem por 1.015 dos 1.031 — 98% do bilhão evitável. O relatório ainda registra, em nota de rodapé, que pode haver sobreposição entre os 123,7 milhões e o 1,8 bilhão de pessoas com presbiopia.
A aritmética da fila: 868,69 descreve um Brasil que não existe
O informe técnico de agosto de 2025 da Demografia Médica juntou o Datasus e o painel da agência reguladora da saúde suplementar e produziu as taxas que faltavam. Em 2024, o Brasil fez 868,69 cirurgias de catarata por 100 mil habitantes; em 2023, foram 779,07. O sistema público respondeu por 64% do volume em 2024, com 1.181.837 cirurgias e taxa de 736,30 por 100 mil habitantes usuários exclusivos do público. Os planos fizeram os 36% restantes, com 664.861 cirurgias e taxa de 1.276,79.
A diferença entre as duas taxas é o dado que circula: os planos operam 73,4% mais que o público. Só que em 2023 essa mesma diferença era de 121%. Em um ano, a distância caiu quarenta e oito pontos — e a leitura muda conforme se olhe um ano ou dois. O público fez 984.009 cirurgias em 2023 e 1.181.837 em 2024, um aumento de 20%. Os planos fizeram 665.244 e 664.861, praticamente o mesmo número, com queda de 0,1% — mas a taxa deles caiu 4,8%, de 1.340,89 para 1.276,79, porque o número de beneficiários cresceu. Metade da aproximação veio de o público operar mais; a outra metade veio de o denominador privado crescer.
As três taxas impressas lado a lado têm três denominadores diferentes, e isso não é defeito — é o que torna a comparação possível, desde que declarado. A nacional divide todas as cirurgias por todos os brasileiros; a do sistema público divide as cirurgias públicas pela população sem plano; a privada divide as cirurgias dos planos pelos beneficiários. Quem soma as duas últimas, ou compara qualquer uma delas com a primeira, mistura populações. A série histórica mostra o mesmo efeito: no sistema público, entre 2000 e 2019 foram 8.424.521 procedimentos, com a taxa subindo de 13,15 para 32,28 por 10 mil habitantes, ou 322,8 por 100 mil sobre a população total. Colocar esse 322,8 ao lado do 607,10 de 2023 sugere quase o dobro em quatro anos; refazendo a conta de 2023 com a população total, as 984.009 cirurgias dão cerca de 463 por 100 mil — crescimento de 43%, não de 88%.
A média nacional é o número que mais engana. Em 2024, o Sudeste fez 1.012,61 cirurgias por 100 mil habitantes, o Sul 971,43, o Nordeste 814,05, o Centro-Oeste 591,42 e o Norte 435,04. Na comparação internacional do mesmo informe, o Brasil, com 868,7, fica abaixo de quinze dos vinte e três países listados, atrás de França e Coreia do Sul, e à frente de sete, com México (147) e China (220) nas últimas posições. A Índia aparece com 579. Ou seja: a taxa do Norte do Brasil é menor que a taxa nacional da Índia, e essa informação desaparece por completo na média de 868,69.
Um último número fecha a história do acesso: entre 2007 e 2008, a facoemulsificação passou de 34,3% para 69,7% dos procedimentos públicos, e chegou a 96,1% em 2019. A técnica que o mundo considera padrão já é praticamente a única que o sistema público brasileiro faz. O gargalo não é técnico.
O oftalmologista que é contado duas vezes
O mesmo informe abre com dois números na mesma página: 16.784 médicos especialistas em oftalmologia atuam no país, e a razão é de 8,96 especialistas por 100 mil habitantes. Os dois estão corretos e não conversam entre si.
A nota da tabela explica: a análise usou o número de registros de especialista, que é 19.054, e não o de indivíduos, porque 2.270 médicos — 13,5% do total — estão inscritos em mais de um conselho regional e podem atuar em mais de um estado, sendo contados em cada um. Refazendo a razão com os 16.784 indivíduos, o país tem cerca de 7,9 oftalmologistas por 100 mil habitantes, e não 8,96: uma diferença de 13,5%, exatamente a proporção de médicos com registro duplo. O mesmo fator reaparece na produção — a capa informa 96,92 cirurgias por oftalmologista por ano, e as 1.846.698 cirurgias de 2024 divididas por 19.054 registros dão exatamente isso; divididas pelos 16.784 médicos, dão 110.
A distribuição é o que explica a fila. O Distrito Federal tem 19,18 oftalmologistas por 100 mil habitantes, São Paulo 11,25 e o Espírito Santo 10,97; no outro extremo, Amazonas 3,60, Pará 3,77 e Maranhão 4,22 — mais de cinco vezes de diferença entre os extremos. As 48 cidades com 500 mil habitantes ou mais concentram 12.318 profissionais, com razão de 18,75, e a razão cai a cada degrau de porte municipal.
E aí aparece o paradoxo que a prova de gestão adora. A produção por oftalmologista é inversa à densidade: no Piauí, com 6,52 especialistas por 100 mil, cada um faz 180,38 cirurgias por ano; em Alagoas, 147,20; no Distrito Federal, com a maior densidade do país, apenas 21,54; em Tocantins, 37,06. Oito vezes de diferença de produtividade, na direção contrária à da oferta. É a assinatura do mutirão: onde faltam especialistas, os que existem operam em série, em campanhas concentradas.
O próprio informe lista quatro limitações, e todas empurram na mesma direção. Parte das cirurgias de mutirão pode não ser registrada no sistema público; a agência da saúde suplementar não verifica a completude do que as operadoras declaram; as cirurgias pagas diretamente pelo paciente não são alcançadas — de modo que a concentração no setor privado é maior que a medida; e o estudo pressupõe que todo oftalmologista opera catarata, quando parte deles exerce clínica não cirúrgica.
A triagem nacional: o reteste que só conta o melhor, e o buraco etário
Três documentos brasileiros medem acuidade de três maneiras. O manual nacional de triagem usa a escala de sinais de Snellen com o optotipo E, notação decimal de 0,1 a 1,0, a 5 metros, tomando a última linha em que a pessoa enxerga mais da metade dos optotipos. O protocolo de regulação usa a notação fracionária, entre 4 e 6 metros, com a menor linha respondida corretamente e, se o paciente acerta só parte dela, a linha de cima. O relatório mundial usa 6 metros, com visão normal em 6/6. Na conversão, 0,7 decimal fica entre 20/25 e 20/30 — o corte da triagem escolar e o do encaminhamento por catarata são vizinhos escritos em alfabetos diferentes.
Duas regras do manual enviesam o resultado numa direção previsível. A primeira: todos os alunos que não atingirem 0,7 devem ser retestados, e vale o resultado em que a acuidade medida foi maior — a justificativa é razoável, porque é comum errar na primeira medida, mas o efeito é sistemático, e o melhor de duas medidas puxa a triagem para encaminhar menos. A segunda: quem usa óculos para longe faz o teste com eles, o que significa que a triagem escolar brasileira mede acuidade de apresentação, no mesmo sentido em que a Organização Mundial da Saúde passou a medir depois de 2010. O encaminhamento é prioritário com acuidade inferior a 0,1, quadro agudo ou trauma recente; é regular com acuidade igual ou inferior a 0,7, diferença de duas linhas, estrabismo, queixa de perto acima dos 40 anos, diabetes ou história familiar de glaucoma.
O programa que aplica esse manual nasceu em abril de 2007 com três públicos: alunos da rede pública no ensino fundamental; jovens e adultos do programa nacional de alfabetização; e a população com 60 anos ou mais. A redefinição pactuada em 2012 reduziu o alvo aos alunos cobertos pelo programa de saúde na escola — 8.273.272 — e aos alfabetizandos, com meta de 2.248.103; os 60 anos ou mais deixaram de figurar como público declarado. Na mesma nota estão os valores que explicam a dificuldade de adesão: a consulta era paga a R$ 14,29 e passaria a R$ 21,00; os óculos, de R$ 28,00 para R$ 42,00.
Fica um buraco etário nas duas pontas. Embaixo: o protocolo de regulação só mede acuidade com tabela a partir dos 3 anos, e o programa entra pela escola, a partir dos 6, enquanto a janela em que a ambliopia ainda responde a tratamento fecha por volta dos 7 aos 8. Sobra a criança de 3 a 5 anos, que já coopera com a tabela mas ainda não está no ensino fundamental, dependendo inteiramente da puericultura — e a puericultura, nessa faixa, faz reflexo vermelho anual, não acuidade. Em cima, o adulto entre 18 e 59 anos fora de programa de alfabetização nunca esteve coberto, justamente a faixa em que a presbiopia começa e em que aparece a catarata por corticoide, diabetes ou trauma. Nada disso é proibição nem respaldo: é silêncio — não há recomendação nacional que desaconselhe medir acuidade nessas faixas, e não há programa que a financie.
Da vinheta ao limiar: que número vale, para quem, e quem é dono dele
Quase toda questão do tema se resolve em dois passos: identificar se o enunciado descreve opacidade de meio ou defeito de foco, e depois identificar de que documento é o número que está sendo cobrado. Baixa de visão progressiva e indolor com reflexo vermelho alterado é meio; baixa de visão que melhora com estenopeico, com óculos ou com lente de prova é foco. Encaminhamento e prioridade pedem a régua do protocolo de regulação; triagem escolar pede a régua do manual nacional; estatística mundial pede a classificação por acuidade no melhor olho; e indicação cirúrgica pede o limiar da literatura de bolso, que é outro.
Suspeita de catarata senil, em três itens
Idade acima de 60 anos; queixa de turvação não dolorosa e progressiva da visão, em um ou ambos os olhos; perda do reflexo vermelho através da pupila ou obscurecimento dos detalhes do fundo de olho. A observação do quadro amplia a faixa: pode ocorrer em adultos não idosos com diabetes, uso prolongado de corticoide sistêmico ou trauma ocular prévio.
Os quatro gatilhos de encaminhamento por catarata
Suspeita pelo quadro acima; diagnóstico com queixa de diminuição da capacidade visual funcional; diagnóstico com acuidade de 20/30 ou pior, com correção se indicada; e o já operado que voltou a enxergar mal — seja por necessidade de nova refração, seja por suspeita de opacidade de cápsula posterior. Qualquer um deles basta sozinho.
Acuidade da criança, por faixa etária
De 3 a 4 anos incompletos, encaminha 20/50 ou pior (dispensa em 20/40 ou melhor); de 4 a 5 anos incompletos, 20/40 ou pior (dispensa em 20/30 ou melhor); de 5 anos em diante, 20/30 ou pior (dispensa em 20/25 ou melhor). Em qualquer idade, diferença de duas ou mais linhas entre os olhos obriga encaminhamento.
Adição da presbiopia por faixa etária
Dos 40 aos 45 anos, de +0,75 a +1,25 dioptria; dos 46 aos 55, de +1,50 a +2,25; depois dos 55, +2,50 ou mais. A lente é esférica positiva, convergente, e só para perto — a visão de longe permanece intacta enquanto não houver outra ametropia associada.
O que corre e o que espera
Baixa de acuidade aguda, ou associada a sombra ou cortina no campo, fotopsia, moscas volantes ou metamorfopsia, é emergência oftalmológica, não protocolo de catarata. Também têm preferência no encaminhamento: descolamento de retina com até 2 semanas, doença vasoclusiva de retina com até 3 meses, glaucoma agudo, úlcera de córnea e ceratite em atividade.
Conteúdo mínimo que o encaminhamento tem de trazer
Na catarata: sinais e sintomas com prejuízo funcional descrito; acuidade em cada olho informando se foi com ou sem correção; se já foi operado, há quanto tempo e onde. No distúrbio de refração, acrescenta-se o diagnóstico prévio com o grau da lente e a data da última revisão. Acuidade sem a condição de medida declarada é dado ambíguo.
Os três tipos de catarata: onde fica, o que incomoda, para onde desvia a refração
| Tipo | Localização | Sintoma que domina | Efeito refracional |
|---|---|---|---|
| Nuclear esclerótica | Núcleo do cristalino, com tom amarelado progressivo | Piora lenta da visão de longe e troca repetida de grau sem ganho | Aumenta o índice de refração e miopiza o olho — é a origem da chamada segunda visão |
| Cortical | Córtex, em cunha ou raios de roda, da periferia para o centro | Ofuscamento e fotofobia, com acuidade central preservada por bastante tempo | Desvio pouco previsível; incomoda mais pela dispersão de luz que pelo grau |
| Subcapsular posterior | Junto à cápsula posterior, no ponto nodal do cristalino | Ofuscamento, halos e piora sob luz forte e na leitura de perto | Prejuízo desproporcional ao tamanho da opacidade, porque ocupa o feixe útil |
Cada limiar com o seu dono e o seu sujeito
| Limiar | Documento | O que ele decide |
|---|---|---|
| 20/30 ou pior, com correção | Protocolo de regulação ambulatorial de oftalmologia adulto, versão 2023 | Encaminhar o paciente com catarata da atenção primária para a oftalmologia |
| Prejuízo funcional, sem número | O mesmo protocolo, como gatilho independente | Encaminhar mesmo com acuidade acima do corte, quando a visão atrapalha a vida diária |
| 6/24, equivalente a 20/80 | Literatura de bolso, capítulo de catarata | Deixar o manejo clínico e indicar a cirurgia |
| 0,7 ou pior, em escala decimal | Manual nacional de triagem de acuidade visual, 2008 | Encaminhamento regular a partir da triagem escolar ou comunitária |
| Menor que 0,1 em qualquer olho | O mesmo manual | Encaminhamento prioritário |
| Pior que 6/18 no melhor olho | Classificação mundial vigente por acuidade de apresentação | Contar a pessoa como deficiência visual moderada ou pior nas estatísticas |
| Pior que 3/60 no melhor olho | A mesma classificação | Contar a pessoa como cega |
| 20/40 como corte cirúrgico | Nenhum | Algarismo órfão que circula em distratoras — não é limiar de documento algum |
Cirurgia de catarata no Brasil em 2024: três taxas, três denominadores
| Recorte | Cirurgias | Taxa por 100 mil | Denominador usado |
|---|---|---|---|
| Brasil | 1.846.698 | 868,69 | População total |
| Sistema público | 1.181.837 (64% do total) | 736,30 | População sem plano de saúde |
| Planos de saúde | 664.861 (36% do total) | 1.276,79 | Beneficiários de planos |
| Região Norte | — | 435,04 | População total da região |
| Região Sudeste | — | 1.012,61 | População total da região |
| Índia, para comparação | — | 579 | População total do país |
As conversões entre notações usadas no capítulo: 6/6 é 20/20; 6/12 é 20/40; 6/18 é 20/60; 6/24 é 20/80; 6/60 é 20/200; 3/60 é 20/400. Na escala decimal do manual nacional, 1,0 é 20/20 e 0,7 fica entre 20/25 e 20/30.
O quadro de suspeita de catarata, as figuras de acuidade e as listas de conteúdo descritivo mínimo são da versão digital de 2023 do protocolo de regulação, elaborado em 19 de junho de 2017 e revisado em 10 de março de 2023. Quando um enunciado citar uma versão anterior, os limiares podem não coincidir.
As taxas de cirurgia são do informe técnico de agosto de 2025, com produção de 2023 e 2024. Elas não incluem cirurgias pagas diretamente pelo paciente, e parte das cirurgias de mutirão pode não estar registrada — as duas omissões empurram o número real para cima, não para baixo.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Evidência insuficiente para recomendar a favor ou contra
Para adultos assintomáticos de 65 anos ou mais que se apresentam na atenção primária sem deficiência visual conhecida e sem procurar atendimento por queixa visual, a evidência atual é insuficiente para avaliar o equilíbrio entre benefícios e danos do rastreamento — a chamada declaração de insuficiência. A conclusão atualizou a recomendação anterior de 2016 e não é uma recomendação contrária: é ausência de base para decidir.
US Preventive Services Task Force. Screening for Impaired Visual Acuity in Older Adults. JAMA, 24 de maio de 2022
Triagem ativa, feita por agente comunitário, na população de 60 anos ou mais
A versão original do programa nacional de saúde ocular incluiu explicitamente a população com idade igual ou superior a 60 anos entre os públicos-alvo, e delegou a medida de acuidade a agentes comunitários de saúde capacitados, com carga horária sugerida de 16 horas. O argumento declarado é funcional e não epidemiológico: problemas de refração não corrigidos dificultam as atividades cotidianas e aumentam o risco de acidentes nessa faixa.
Brasil. Ministério da Saúde e Ministério da Educação. Projeto Olhar Brasil: triagem de acuidade visual — manual de orientação, 2008
Na prova
Repare em quem é o sujeito da pergunta. Quando o enunciado diz "assintomático", "sem queixa visual" e cita força de recomendação, o avaliador está no terreno da medicina preventiva baseada em evidência e quer a insuficiência. Quando o enunciado descreve um idoso numa unidade básica, com agente comunitário e caderneta, o avaliador está no terreno da política brasileira e quer a triagem. As duas posições convivem porque respondem a perguntas diferentes: uma pergunta se o rastreamento muda desfecho, a outra organiza um serviço.
Um patamar de acuidade
O manejo clínico é suficiente enquanto a acuidade visual é de 6/24 ou melhor; a cirurgia entra quando a acuidade é pior que 6/24 ou quando há indicação médica de outra ordem. É a formulação que dá ao estudante um corte memorizável e verificável na tabela.
Cataract. StatPearls, NCBI Bookshelf NBK539699, atualizado em 27 de fevereiro de 2024
O prejuízo funcional, com ou sem número
As indicações variam por país e em geral incluem má acuidade visual, dificuldade visual, ou ambas; e a formulação brasileira é a de que a cirurgia é indicada sempre que a deficiência visual impedir ou dificultar as atividades cotidianas do paciente. No protocolo de regulação, o prejuízo funcional é gatilho de encaminhamento independente do valor medido.
Cataract Surgery. StatPearls NBK559253, atualizado em 18 de julho de 2023; e Informe Técnico nº 07 da Demografia Médica no Brasil, agosto de 2025
Na prova
Se a vinheta caprichar no impacto da vida — parou de dirigir à noite, deixou de ler, caiu em casa — o avaliador construiu o caso pela função e vai punir quem exigir o número. Se a vinheta entregar uma acuidade seca, sem contexto de vida, ele quer o patamar. E se entregar as duas coisas em conflito, com acuidade acima do corte e vida prejudicada, a régua brasileira resolve: os dois gatilhos são independentes, e o funcional basta.
Cerca de 30%
O documento que redefiniu o programa nacional declara, como premissa do objetivo, que 30% das crianças em idade escolar e quase 100% dos adultos acima de 40 anos possuem problemas de refração. É o número que dimensionou o público-alvo de mais de dez milhões de pessoas e o custeio correspondente.
CONASS. Nota Técnica 23/2012 — Saúde Ocular: redefinição do Projeto Olhar Brasil, 25 de julho de 2012
Cerca de 4%
Dois inquéritos brasileiros com triagem por optotipos e confirmação oftalmológica encontraram prevalência populacional de erro refrativo de 3,92% em 1.581 escolares de primeira série em Passo Fundo e de 3,9% em 4.623 crianças de 4 a 10 anos na regional de Botucatu, esta com refração sob cicloplegia. As duas medidas são de estados e anos diferentes e convergem.
Rev Bras Oftalmol. 2007;66(5):289-95; e Arq Bras Oftalmol. 2009;72(2)
Na prova
O que separa as duas posições é o que se chama de "ter erro de refração". A premissa do documento de política provavelmente conta qualquer ametropia detectável sob cicloplegia, inclusive a hipermetropia baixa que o próprio manual nacional chama de frequente e normal na infância; os inquéritos contam quem precisou de óculos. Quando a questão pedir magnitude de problema de saúde pública, o avaliador tende a querer o número do documento; quando pedir rendimento de triagem, quer o de campo. Diga sempre qual dos dois construtos está sendo medido antes de escolher o algarismo.
A melhor corrigida, com corte em 6/18
O critério estabelecido em 1972 calculava a prevalência de deficiência visual pela acuidade melhor corrigida, isto é, testada com os óculos habituais ou com orifício estenopeico, e classificava como deficiência a acuidade melhor corrigida menor que 6/18, e como cegueira a menor que 3/60. Foi com essa lógica que se estimou, para 2004, um total de 153 milhões de pessoas com deficiência visual por erro refrativo não corrigido, das quais 8 milhões cegas.
Resnikoff S et al. Bull World Health Organ. 2008;86(1):63-70; critério de 1972 descrito no relatório mundial sobre visão
A de apresentação, desde 2010
Em 2010 a acuidade melhor corrigida foi substituída pela acuidade de apresentação — aquela com que a pessoa chega ao exame —, com a justificativa explícita de que o critério anterior deixava de fora uma grande proporção de pessoas com deficiência visual por erro refrativo não corrigido. A cegueira passou a ser subdividida em graus. Há ainda investigadores adotando um corte mais estrito, de 6/12, por evidência de que reduções menores já afetam o cotidiano.
World Health Organization. World report on vision, 2019, caixas 1.3 e 1.4
Na prova
Este é o par que faz o mesmo paciente mudar de categoria sem mudar de olho. Se o enunciado disser que a acuidade foi medida com a correção habitual, está na régua de apresentação; se disser "melhor corrigida" ou citar refração e orifício, está na régua antiga. E há um efeito colateral que vira alternativa: sob a régua de apresentação, quem usa óculos adequados é medido com eles e sai da conta de deficiência visual — o que significa que o total mundial de 2,2 bilhões é declaradamente um piso, e não uma estimativa fechada.
Caso resolvido
- separar meio de foco
- O primeiro corte não é diagnóstico, é físico: o problema está na transparência do meio ou na convergência dos raios? Aqui há reflexo vermelho diminuído e fundo obscurecido nos dois olhos, e a acuidade está baixa com a correção que ele usa. Isso é meio, não foco. Se restar dúvida à beira do leito, o orifício estenopeico resolve em segundos: acuidade que melhora pelo furo é defeito de foco; acuidade que não muda é opacidade.
- conferir o quadro de suspeita, item por item
- Idade acima de 60 anos: 69. Turvação não dolorosa e progressiva em ambos os olhos: dois anos de evolução, sem dor. Perda do reflexo vermelho ou obscurecimento dos detalhes do fundo: ambos presentes. Os três itens do quadro de suspeita de catarata senil estão preenchidos, e nenhum deles exigiu lâmpada de fenda. A ausência de diabetes, corticoide e trauma apenas confirma que ele está na faixa etária esperada, e não afasta nada.
- ler a segunda visão pelo que ela é
- Voltar a ler sem os óculos de perto aos 69 anos não é recuperação da acomodação — ela não volta. É a esclerose nuclear elevando o índice de refração do núcleo e miopizando o olho, o que compensa a presbiopia para perto e piora o longe. As três trocas de grau em dezoito meses são a mesma coisa vista de outro ângulo: o grau muda porque o cristalino muda, e por isso nenhuma receita segura.
- medir do jeito que o encaminhamento vai exigir
- A acuidade tem de ser registrada olho por olho, com a informação de que foi feita com a correção habitual. Vale a menor linha respondida corretamente e, se ele acertar só parte dela, vale a linha de cima. Registrado como "acuidade com correção, olho direito 20/60, olho esquerdo 20/50", o dado é interpretável; registrado como "acuidade 20/60", sem olho e sem condição, é ambíguo e o regulador não consegue usar.
- aplicar os gatilhos de encaminhamento
- Dois disparam ao mesmo tempo. O de acuidade: 20/60 e 20/50 com correção são piores que 20/30. E o funcional: parou de dirigir à noite, o que é diminuição da capacidade visual que interfere nas atividades da vida diária. Bastaria um. Como não há queixa aguda, sombra em cortina, fotopsia nem metamorfopsia, isto não é emergência oftalmológica — é encaminhamento para oftalmologia, não corrida para o pronto-socorro.
- escrever o encaminhamento completo
- Sinais e sintomas com o prejuízo funcional descrito — parou de dirigir à noite por ofuscamento; acuidade em cada olho com a condição de medida declarada; reflexo vermelho diminuído bilateral e fundo obscurecido; e a informação de que nunca foi operado de catarata. Quatro itens, todos disponíveis numa unidade básica. É esse conteúdo que decide a prioridade do caso na regulação.
- não fazer o que a queixa sugere
- A tentação é prescrever a quarta receita de óculos e reavaliar em seis meses. Nenhuma lente corrige opacidade de meio, e a própria história — três trocas sem ganho — já provou isso três vezes. Também não há colírio que reverta a opacificação do cristalino, e a tomografia de crânio não se justifica num quadro visual bilateral, lentamente progressivo, com achado de meio ao exame.
- combinar a expectativa com o paciente
- O tratamento é cirúrgico e é feito no sistema público, praticamente sempre por facoemulsificação com implante de lente intraocular — a técnica já respondia por 96,1% dos procedimentos públicos em 2019. O tempo, porém, depende de onde ele mora: a taxa de cirurgias por 100 mil habitantes varia de 435 no Norte a 1.012 no Sudeste. Dizer isso não é pessimismo; é o que evita que ele abandone a fila achando que foi esquecido.
Agora feche você
- decida a criança pela régua da idade dela
- Qual é o corte de acuidade para a faixa de 3 a 4 anos incompletos, e o que o protocolo diz explicitamente sobre quem tem 20/40 ou melhor nessa faixa? Depois pergunte-se o que mudaria se um dos olhos fosse 20/25 e o outro 20/40 — o valor absoluto de cada olho, aqui, não é o único critério em jogo.
- diga o que ainda falta olhar na criança
- A régua de acuidade não é a única porta de encaminhamento pediátrico. Que achados de exame, se estivessem presentes, obrigariam o encaminhamento mesmo com acuidade dentro do esperado? E que informação sobre o uso de lente corretiva mudaria o serviço de destino, e não apenas a decisão de encaminhar?
- converse com a mãe sem devolver a criança em branco
- Não encaminhar não é o mesmo que não fazer nada. Que combinação de retorno e de sinais de alerta você deixa registrada, sabendo que a janela de tratamento da ambliopia fecha por volta dos 7 aos 8 anos, e que a acuidade normal ainda vai amadurecer nos próximos dois anos?
- nomeie o quadro da professora com os três dados que o definem
- Idade de início, comportamento da visão de longe e resposta à adição positiva. Qual desses três exclui hipermetropia como explicação principal, e qual deles exclui catarata? Diga também que informação da história dela não tem valor diagnóstico nenhum, apesar de ser a que mais a preocupa.
- escolha a lente e diga para que distância
- Que tipo de lente corrige o quadro, e por que a mesma escolha óptica não torna as duas hipóteses equivalentes? Confira ainda se a adição de +1,50 dioptria é compatível com a faixa etária dela, usando o estadiamento por idade — e o que significaria, clinicamente, precisar de +2,50 aos 47 anos.
- decida o destino de cada uma dentro da régua brasileira
- Uma delas cabe em avaliação por telediagnóstico ou oftalmologia de média complexidade pelo protocolo do adulto; a outra tem piso etário para isso. Diga qual é qual, e escreva o conteúdo descritivo mínimo que o encaminhamento precisaria trazer — lembrando do item que quase ninguém registra e que torna a acuidade interpretável.
Onde a banca derruba
- 1Marcar 20/40 como o limiar cirúrgico da catarata É o algarismo mais repetido em distratoras e não pertence a documento algum. O corte brasileiro de encaminhamento é 20/30 ou pior, com correção; o patamar de indicação cirúrgica da literatura de bolso é pior que 6/24, que equivale a 20/80. Quem decora o número que mais viu marca a alternativa que diz "agendar facectomia quando a acuidade cair abaixo de 20/40" e erra duas vezes: pelo número e pelo verbo, porque a atenção primária encaminha, não agenda cirurgia.
- 2Prescrever óculos novos para o idoso que trocou de grau três vezes em dezoito meses A troca repetida sem ganho é o sinal da esclerose nuclear, não do erro refrativo. Homem de 68 anos, ofuscamento com farol, três receitas em ano e meio, e agora lê o jornal sem os óculos que usava desde os 45: a alternativa "erro refrativo não corrigido; prescrever novas lentes e reavaliar em seis meses" é desenhada exatamente para quem lê só a queixa. Nenhuma lente corrige opacidade de meio, e seis meses de espera são seis meses de fila perdidos.
- 3Tratar a segunda visão como melhora A paciente conta, satisfeita, que voltou a bordar sem óculos. Quem registra isso como evolução favorável perde o diagnóstico. Acomodação não se recupera com a idade: o que aconteceu é que o núcleo do cristalino aumentou o índice de refração e miopizou o olho, compensando a presbiopia para perto enquanto piora o longe. A alternativa que diz "presbiopia revertida pelo enfraquecimento do músculo ciliar" inverte a fisiologia inteira.
- 4Achar que reflexo vermelho presente exclui catarata no adulto No recém-nascido, a ausência ou a assimetria do reflexo é o achado que dispara a urgência. No adulto, o quadro de suspeita fala em perda do reflexo vermelho ou obscurecimento dos detalhes do fundo de olho — e a catarata incipiente, sobretudo a cortical periférica, pode cursar com reflexo ainda presente e fundo já difícil de examinar. Reflexo presente não fecha nem abre o caso; a acuidade e a queixa funcional é que decidem.
- 5Aplicar a régua de acuidade do adulto na criança de 3 anos Menina de 3 anos e 8 meses, 20/40 nos dois olhos, sem assimetria: pela régua pediátrica brasileira, não precisa encaminhar — o corte nessa faixa é 20/50 ou pior. Quem transporta o 20/30 do adulto para a criança encaminha um caso normal e ocupa vaga de quem precisa. O inverso também acontece: transportar o 20/50 do pré-escolar para o escolar de 7 anos deixa de encaminhar quem já deveria ter ido.
- 6Ignorar a diferença de duas linhas porque os dois valores parecem bons Criança de 6 anos com 20/25 num olho e 20/40 no outro: os dois números, isolados, estão dentro do que a faixa tolera, e o encaminhamento parece dispensável. Mas a assimetria de duas linhas ou mais obriga encaminhamento em qualquer idade, tanto na régua de regulação quanto na de triagem escolar — é ela que denuncia a ambliopia em formação, e a janela de tratamento fecha por volta dos 7 aos 8 anos.
- 7Confundir presbiopia com hipermetropia porque as duas usam lente positiva Professora de 46 anos, acuidade de longe 20/20 sem correção, dificuldade isolada para perto que resolve plenamente com adição de +1,50 dioptria esférica: é presbiopia. A hipermetropia também se corrige com lente positiva, mas está presente desde sempre, cobra esforço acomodativo em qualquer distância e não aparece de repente na quinta década com o longe intacto. A alternativa que oferece lente negativa para uma queixa de perto está errada por duas razões, e a que oferece hipermetropia está errada só por uma.
- 8Repetir que existem 153 milhões de cegos por erro refrativo O número existe, mas descreve deficiência visual, não cegueira: são 153 milhões com deficiência visual por erro refrativo não corrigido, das quais 8 milhões cegas. A troca de sujeito está impressa no manual nacional de triagem de 2008, com tiragem de cem mil exemplares — de onde ela circula até hoje em aula e em enunciado. Um enunciado que ofereça "153 milhões de cegos" como afirmativa verdadeira está reproduzindo o erro da fonte brasileira, não o dado da fonte original.
- 9Ler a taxa nacional de cirurgia como se descrevesse o país inteiro O Brasil fez 868,69 cirurgias de catarata por 100 mil habitantes em 2024, e essa média coloca o país entre o Reino Unido e a Índia numa lista de vinte e três países. A mesma tabela mostra a região Norte com 435,04 — abaixo da taxa nacional indiana, que é 579. Quem responde "o acesso à cirurgia de catarata no Brasil é comparável ao de países de renda alta" está certo sobre a média e errado sobre um quarto do território.
- 10Chamar de catarata a baixa de visão que melhora com o orifício estenopeico Menina de 9 anos que não enxerga o quadro, aproxima o caderno, franze os olhos, e cuja acuidade melhora ao olhar por um furo em cartão opaco: o orifício descarta os raios periféricos e reduz o borramento, o que só funciona quando o defeito é de foco. Opacidade de meio não é atravessada por buraco nenhum. A alternativa que oferece catarata com encaminhamento urgente está lendo a queixa e ignorando a manobra.
- 11Mandar de volta para a fila cirúrgica quem tem opacidade de cápsula posterior Paciente operado há dois anos, satisfeito na época, volta com visão embaçada que os óculos novos não resolvem. Isso acontece em até um olho a cada cinco nos três anos seguintes à cirurgia, e o tratamento é capsulotomia a laser, em ambulatório — não é recidiva de catarata e não é nova facectomia. O protocolo brasileiro tem gatilho de encaminhamento próprio para essa suspeita, e quem não o conhece devolve o paciente ao começo da fila.
A tríade baixa acuidade progressiva e indolor, ofuscamento noturno e alteração do reflexo vermelho define catarata; a miopização do cristalino ("segunda visão", trocas frequentes de grau e leitura sem óculos) é típica da esclerose nuclear. Como não há correção óptica que resolva a opacidade, a conduta do generalista é encaminhar para avaliação cirúrgica (facectomia por facoemulsificação com LIO), único tratamento eficaz e disponível no SUS. Erro refrativo é afastado porque a visão não melhora com o orifício estenopeico e o reflexo vermelho está alterado. Glaucoma de ângulo aberto cursa com pressão intraocular geralmente elevada, escotomas periféricos e reflexo vermelho preservado. DMRI causa metamorfopsia e escotoma central, sem opacificação do cristalino nem ofuscamento característico.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Mulher de 46 anos, professora, comparece à unidade básica de saúde relatando dificuldade progressiva para ler há cerca de um ano. Conta que precisa afastar o livro e o celular para enxergar as letras e que o problema piora à noite e com iluminação fraca; refere cansaço e cefaleia frontal após corrigir provas. Enxerga bem de longe, inclusive placas de trânsito ao dirigir. Nega doenças crônicas, uso de medicamentos ou trauma ocular. Ao exame: acuidade visual para longe 20/20 em ambos os olhos e 20/60 para perto; reflexo vermelho presente e simétrico, cristalino transparente à inspeção, pupilas isocóricas e fotorreagentes. Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, o diagnóstico e a conduta adequada.
Início após os 40 anos, dificuldade exclusiva para perto com visão para longe preservada, necessidade de afastar o material de leitura e astenopia (cefaleia e cansaço) definem presbiopia, decorrente da perda fisiológica da elasticidade do cristalino e da capacidade de acomodação. A correção é feita com lentes esféricas positivas (convergentes) para perto. Miopia produz baixa visão para longe, o oposto do quadro. Astigmatismo causa borramento em todas as distâncias e distorção de imagem, não o padrão isolado para perto. Catarata é afastada pelo reflexo vermelho normal, cristalino transparente e acuidade 20/20 para longe.
Um homem de 68 anos comparece à unidade básica de saúde queixando-se de embaçamento visual progressivo em ambos os olhos há cerca de dois anos, com piora nos últimos meses. Relata dificuldade para dirigir à noite por ofuscamento com os faróis e percepção de halos ao redor das luzes, além de referir que as cores parecem "desbotadas". Chama atenção o fato de ter voltado a ler o jornal sem os óculos de leitura que usava desde os 45 anos. É hipertenso e diabético tipo 2, com controle metabólico adequado, e trocou o grau dos óculos duas vezes no último ano, com pouco benefício. Ao exame, acuidade visual corrigida de 20/100 no olho direito e 20/80 no esquerdo, reflexo vermelho diminuído bilateralmente e fundoscopia com visualização prejudicada. Pressão intraocular e pupilas normais. Quais são, respectivamente, o diagnóstico mais provável e a conduta adequada?
Correta: a tríade evolução lenta e bilateral, ofuscamento/halos noturnos e dessaturação de cores, somada ao reflexo vermelho diminuído e à fundoscopia prejudicada, define opacificação do cristalino. O retorno da leitura sem óculos ("segunda visão") é a miopização típica da esclerose nuclear, que também explica as trocas repetidas de grau sem ganho — a baixa visual não é mais corrigível opticamente. A indicação de facectomia com lente intraocular é funcional (perda que compromete atividades como dirigir), e a cirurgia é ofertada pelo SUS mediante encaminhamento regulado. Presbiopia: incorreta — a presbiopia piora a visão de perto e é plenamente corrigida com lentes, não causando queda da acuidade corrigida nem alteração do reflexo vermelho. Retinopatia diabética com edema macular: incorreta — não justifica halos, miopização nem reflexo vermelho diminuído, e o paciente tem controle metabólico adequado; além disso, a fundoscopia estaria alterada e não apenas prejudicada por opacidade de meios. Glaucoma primário de ângulo aberto: incorreta — cursa com pressão intraocular usualmente elevada, perda periférica insidiosa com visão central preservada até fases tardias e escavação de disco, sem opacidade de meios.
Homem de 72 anos comparece à Unidade Básica de Saúde queixando-se de embaçamento visual progressivo e indolor há cerca de dois anos, com piora da visão noturna e ofuscamento diante de faróis de carro. Nega dor ocular, hiperemia ou trauma. À ectoscopia, os olhos não apresentam alterações externas; ao teste do reflexo vermelho, observa-se opacidade e redução do reflexo em ambos os olhos. A acuidade visual está reduzida e não melhora com correção por lentes. Qual é a conduta mais apropriada?
O quadro de baixa visual progressiva, indolor, com ofuscamento, redução do reflexo vermelho e opacidade cristaliniana bilateral em idoso caracteriza catarata senil, cujo tratamento definitivo é cirúrgico (facoemulsificação com implante de lente intraocular) — cabe à APS reconhecer e encaminhar. Nova refração não resolve, pois a acuidade não melhora com lentes. Não há colírio que reverta a opacidade do cristalino. TC de crânio não se justifica diante de achado ocular típico.
Menina de 9 anos é levada à Unidade Básica de Saúde após a professora relatar que ela aproxima o rosto do caderno, não enxerga o quadro à distância e franze os olhos para tentar focar. A visão para perto é boa e nega dor ocular, cefaleia ou hiperemia. Ao exame, os olhos são normais e a acuidade visual de longe melhora quando a criança olha através de um orifício estenopeico (pinhole). Qual é a hipótese diagnóstica e a conduta mais adequada?
Dificuldade para longe com boa visão de perto, associada à melhora da acuidade pelo orifício estenopeico, indica erro de refração — no caso, miopia, corrigida com lentes divergentes (côncavas); o encaminhamento para prescrição de óculos é a conduta na APS. Presbiopia afeta a visão de perto e é própria do adulto acima dos 40 anos. Cirurgia refrativa não é indicada em criança com o olho em desenvolvimento. Catarata cursaria com opacidade e reflexo vermelho alterado, ausentes aqui.
Homem de 72 anos, hipertenso, comparece ao ambulatório de oftalmologia com baixa acuidade visual progressiva e indolor em ambos os olhos há cerca de 2 anos, associada a piora da visão noturna e halos ao redor de luzes. Refere que, nos últimos meses, voltou a conseguir ler o jornal sem os óculos de perto que usava havia anos. À biomicroscopia, observa-se opacificação central acastanhada do cristalino em ambos os olhos; a fundoscopia não mostra alterações maculares. Assinale a alternativa que explica corretamente a melhora paradoxal da visão de perto relatada pelo paciente:
A catarata nuclear aumenta o índice de refração do núcleo do cristalino, tornando o olho mais míope (miopização/"segunda visão"), o que explica a leitura de perto sem óculos em présbita — a chave está na opacidade central acastanhada. A presbiopia não se reverte: a acomodação continua declinando, não melhora. A catarata subcapsular posterior inverte o sentido do desvio refracional (a nuclear miopiza, não hipermetropiza) e tipicamente prejudica mais a visão de perto e sob luz forte. O descolamento posterior do vítreo não altera a refração desse modo.
Mulher de 46 anos, sem comorbidades, procura a UBS relatando dificuldade progressiva há cerca de um ano para ler mensagens no celular e bulas, necessitando afastar os objetos dos olhos para enxergar melhor. Nega dificuldade para a visão de longe, dor, olho vermelho ou halos. A acuidade visual para longe é 20/20 em ambos os olhos sem correção; a visão de perto melhora plenamente com a adição de lente esférica positiva de +1,50 DE. Segmento anterior e fundoscopia normais. Assinale o diagnóstico e a conduta corretos:
Início na quinta década, visão de longe preservada (20/20), dificuldade isolada para perto que melhora com adição positiva (+1,50 DE) e necessidade de afastar o objeto configuram presbiopia, corrigida com lente convergente (positiva) para perto. Errada: hipermetropia se corrige com lente positiva, não negativa. A miopia não se aplica, pois a visão de longe é normal. O astigmatismo não explica o quadro, que responde a lente esférica, não cilíndrica.
Homem de 72 anos comparece à unidade básica com embaçamento visual progressivo e indolor há dois anos, piora da visão noturna e ofuscamento com faróis. Ao teste do reflexo vermelho há opacidade e redução do reflexo em ambos os olhos, e a acuidade reduzida não melhora com correção óptica. Qual é a conduta?
Baixa visual progressiva e indolor, ofuscamento, redução do reflexo vermelho e opacidade do cristalino em idoso configuram catarata senil, cujo tratamento definitivo é cirúrgico — no sistema público, quase sempre facoemulsificação com implante de lente intraocular, técnica que já respondia por mais de 96% dos procedimentos públicos em 2019. Cabe à atenção primária reconhecer e encaminhar. Não existe colírio que reverta a opacificação do cristalino, e corticoide tópico prolongado é, ele próprio, fator de risco para catarata. Investigação neurológica por imagem não se justifica num quadro bilateral, lentamente progressivo, com achado de meio ao exame. E nova refração já foi descartada pela própria medida: a acuidade não melhora com correção.
Um inquérito brasileiro avaliou inicialmente 1.608 escolares de primeira série; após 27 perdas, considerou uma amostra válida de 1.581. Foram encaminhados 172, 88 compareceram ao exame oftalmológico e 62 apresentaram erro refrativo. O artigo relata 70,46% e também 3,92%. Qual é a leitura correta dessas duas porcentagens?
As duas porcentagens usam o mesmo numerador: 62 crianças com erro refrativo. Entre as 88 que compareceram à consulta, 62/88 corresponde a 70,46%; na amostra válida do estudo, 62/1.581 corresponde a 3,92%. O estudo começou com 1.608 triadas, mas excluiu 27 por transferência ou evasão antes de definir a amostra válida. Não houve dupla contagem por olho nem dois desfechos distintos. A elevada perda de seguimento entre encaminhados limita a interpretação da prevalência populacional. Fonte: Estacia e colaboradores, Revista Brasileira de Oftalmologia, 2007, DOI 10.1590/S0034-72802007000500002.
Mulher de 71 anos com diagnóstico de catarata senil bilateral apresenta acuidade visual de 20/30 em cada olho, medida com a correção que utiliza. Relata que ainda realiza suas atividades sem limitação visual percebida. Segundo o protocolo de Regulação Ambulatorial – Oftalmologia Adulto do TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, versão digital 2023, qual é a conduta?
Nesse protocolo, catarata com queixa de prejuízo visual funcional ou acuidade visual de 20/30 ou pior, com correção quando indicada, constitui critério de encaminhamento. A paciente preenche o critério de acuidade, mesmo sem limitação percebida. O encaminhamento permite avaliação especializada e não equivale a indicação automática de cirurgia. Não há baixa aguda ou outro sinal descrito que justifique emergência. O limiar pertence ao protocolo identificado e não deve ser generalizado a todo fluxo de regulação.
Homem de 68 anos relata embaçamento progressivo e indolor há dois anos, ofuscamento com faróis à noite e, nos últimos meses, retorno da leitura do jornal sem os óculos de perto que usava desde os 45 anos. Trocou o grau três vezes em dezoito meses, sem ganho. Qual é a explicação do retorno da leitura sem óculos?
O fenômeno é a chamada segunda visão. O núcleo do cristalino, ao esclerosar, aumenta o índice de refração e torna o olho mais míope; essa miopia adquirida compensa a perda de acomodação para perto, ao mesmo tempo em que piora o longe — e é o que explica as três trocas de grau sem ganho. A opção que atribui o retorno à recuperação do músculo ciliar inverte a fisiologia: a amplitude de acomodação declina de forma monotônica com a idade e não se recupera. A que fala em desvio para a hipermetropia troca o sentido do deslocamento e ainda escolhe o tipo errado de catarata, porque a subcapsular posterior prejudica de modo desproporcional justamente a visão de perto e sob luz forte. E a pupila do idoso tende a diminuir, não a aumentar, o que reduziria e não ampliaria a profundidade de foco.
Professora de 47 anos refere dificuldade progressiva há um ano para ler bulas e mensagens no celular, com necessidade de afastar o material e cefaleia frontal ao fim do dia. Enxerga bem de longe, com acuidade de 20/20 sem correção em ambos os olhos, e a leitura melhora plenamente com adição esférica de +1,50 dioptria. Qual é o diagnóstico e a correção?
Início na quinta década, visão de longe intacta em 20/20 sem correção, dificuldade isolada para perto e resposta plena à adição positiva definem presbiopia, que é a perda fisiológica da capacidade de focalização do cristalino e se corrige com lente convergente só para perto. A adição de +1,50 dioptria é compatível com a faixa dos 46 aos 55 anos. A hipermetropia também se corrige com lente positiva, e não negativa — o erro da alternativa está na lente, antes mesmo do diagnóstico; além disso, a hipermetropia cobra esforço acomodativo desde sempre e não estreia aos 47 anos com o longe perfeito. Astigmatismo borra em todas as distâncias e não responde a lente esférica. E a catarata é incompatível com acuidade de longe de 20/20 sem correção.
Paciente de 74 anos operada de catarata no olho direito há dois anos, com boa visão no pós-operatório, retorna com embaçamento progressivo nesse olho que não melhorou com óculos novos prescritos há três meses. O exame externo é normal e não há dor nem hiperemia. Qual é a hipótese mais provável e a conduta?
A cápsula posterior é deixada no lugar para apoiar a lente implantada, e sua opacificação gradual ocorre em até um olho a cada cinco nos três anos seguintes à cirurgia. O tratamento é a capsulotomia a laser, ambulatorial, e o protocolo brasileiro tem gatilho de encaminhamento próprio para essa suspeita, definido como baixa de acuidade não resolvida com refração em paciente previamente operado. Falar em recidiva é impossível: o cristalino foi removido e não volta a opacificar. Descentração da lente costuma dar diplopia monocular ou distorção e não é a hipótese mais provável num quadro de embaçamento progressivo indolor. E insistir em nova refração é justamente o que a história já descartou, porque os óculos novos não resolveram.
Em 2024 o Brasil realizou 868,69 cirurgias de catarata por 100 mil habitantes; o sistema público realizou 736,30 e os planos de saúde, 1.276,79. As três taxas aparecem lado a lado no mesmo informe técnico. Qual afirmativa descreve corretamente a construção desses números?
A taxa nacional divide todas as cirurgias pela população total; a do sistema público divide as cirurgias públicas pela população que não tem plano de saúde; e a privada divide as cirurgias dos planos pelos beneficiários. Por isso a taxa nacional não é a média das outras duas nem pode ser comparada diretamente com elas. Se as três compartilhassem o denominador, a nacional teria de ficar entre as duas, e o valor privado não poderia superar o nacional em quase 50%. A média aritmética das duas setoriais daria mais de mil, longe do valor publicado. Declarar o denominador é o que torna a comparação legítima; misturá-los é o que produz a leitura errada de que o setor privado opera quase o dobro em volume, quando a diferença é de taxa e não de volume.
Menina de 9 anos aproxima o rosto do caderno, não enxerga o quadro à distância e franze os olhos. A visão de perto é boa, os olhos são externamente normais e a acuidade de longe melhora nitidamente quando ela olha através de um orifício estenopeico. Qual é a hipótese e a conduta?
A melhora com o orifício estenopeico é o dado que resolve o caso: o furo descarta os raios periféricos, encolhe o círculo de borramento e só funciona quando o defeito é de convergência dos raios. Opacidade de meio não melhora por buraco nenhum, o que afasta catarata — que ainda cursaria com alteração do reflexo vermelho, ausente aqui. Dificuldade para longe com perto preservado caracteriza miopia, corrigida com lente esférica negativa, divergente. Presbiopia é perda de acomodação relacionada à idade, começa entre os 40 e os 45 anos e compromete o perto, o oposto do quadro. E cirurgia refrativa não se indica em criança com o olho ainda em crescimento, cujo erro refrativo continua mudando.
Um material de capacitação brasileiro afirma que a Organização Mundial da Saúde reconheceu a existência de 153 milhões de indivíduos cegos no mundo por erros refracionais não corrigidos. Comparado à publicação internacional que originou o número, qual é o problema dessa frase?
A publicação original estimou 153 milhões de pessoas com deficiência visual por erros refrativos não corrigidos, das quais 8 milhões cegas, usando como critério a acuidade menor que 6/18 no melhor olho que pudesse melhorar para 6/18 ou mais por refração ou pelo orifício estenopeico. Promover os 153 milhões inteiros à cegueira infla o número de cegos em cerca de dezenove vezes. Não há erro de escala: a ordem de grandeza está certa. Não se trata de presbiopia isolada, que naquele mesmo período era contabilizada à parte e elevaria o total. E a estimativa não se restringe a maiores de 50 anos, tendo sido apresentada por faixas que incluem crianças em idade escolar e adultos jovens.
Menina de 3 anos e 9 meses coopera com a tabela de optotipos e apresenta acuidade visual de 20/40 no olho direito e 20/40 no esquerdo, com alinhamento ocular normal, reflexo vermelho presente e simétrico e sem alterações palpebrais. A mãe insiste no encaminhamento ao oftalmologista. Pela régua pediátrica brasileira de regulação, qual é a conduta correta?
A régua pediátrica é por faixa etária, porque a acuidade normal ainda amadurece. Entre 3 e 4 anos incompletos, encaminha-se com 20/50 ou pior, e o protocolo diz textualmente que não é preciso encaminhar quem tem 20/40 ou melhor. O corte de 20/30 pertence à faixa de 5 anos em diante e ao adulto: aplicá-lo aos 3 anos encaminha uma criança normal e ocupa vaga. Exigir 20/20 de todo pré-escolar é mais rigoroso ainda e não corresponde a nenhum documento. E dizer que a acuidade não muda mais depois dos 3 anos contraria a própria existência de três faixas com cortes diferentes. Vale lembrar o critério que independe da idade: diferença de duas ou mais linhas entre os olhos obriga encaminhamento mesmo com valores absolutos aceitáveis.
Menino de 8 anos é triado na escola pelo manual nacional de triagem de acuidade visual, com escala de sinais de Snellen a 5 metros e notação decimal. Na primeira medida a acuidade é de 0,5 em cada olho; no reteste, feito na sequência, é de 0,8 em cada olho. Não usa óculos, não tem estrabismo, não é diabético e não há história familiar de glaucoma; não há queixa aguda nem trauma recente. Qual a conduta segundo o manual?
O manual nacional determina que todos os alunos que não atingirem 0,7 sejam retestados e que valha o resultado em que a acuidade medida foi maior — a justificativa é que errar na primeira medida é comum, mas o efeito é sistemático e puxa a triagem para encaminhar menos. Com 0,8 valendo, o aluno fica acima do corte que dispara o encaminhamento regular, que é acuidade igual ou inferior a 0,7. Manter a primeira medida, ou adotar a menor das duas, inverte a regra escrita. A média das três medidas não existe no manual, que trabalha com o melhor resultado, não com tendência central. E a diferença de duas linhas, que de fato é critério de encaminhamento regular, refere-se à diferença entre os dois olhos — aqui eles são iguais nas duas medidas. Vale lembrar os outros gatilhos: encaminhamento prioritário com acuidade inferior a 0,1, quadro agudo ou trauma recente; regular com estrabismo, queixa de perto acima dos 40 anos, diabetes ou história familiar de glaucoma.
Homem de 68 anos refere baixa visual progressiva ha 2 anos, com ofuscamento intenso ao dirigir a noite, halos ao redor das luzes e melhora paradoxal da leitura sem oculos, que antes exigia lentes para perto. Qual o diagnostico mais provavel?
Baixa visual lentamente progressiva, ofuscamento, halos e a chamada segunda visao - melhora transitoria da leitura de perto pela miopizacao induzida pela esclerose nuclear do cristalino - compoem o quadro tipico da catarata. O glaucoma cronico engana porque tambem e insidioso e prevalente no idoso, mas compromete primeiro o campo periferico, preserva a visao central ate fases avancadas e nao produz ofuscamento com halos por opacidade de meio. Degeneracao macular cursa com metamorfopsia e escotoma central, e a retinopatia proliferativa se manifesta por hemorragia vitrea com perda subita.
Qual tipo de catarata caracteriza-se por miopizacao progressiva, com o paciente relatando que voltou a ler sem oculos, e maior dificuldade para enxergar ao longe?
A esclerose nuclear aumenta o indice de refracao do cristalino, produzindo miopizacao, o que explica a melhora transitoria da leitura sem oculos e a piora para longe - o fenomeno popularmente chamado de segunda visao. A catarata subcapsular posterior engana porque tambem e um tipo comum e sintomatico, mas seu efeito e oposto no cotidiano: piora desproporcional para perto e ofuscamento sob luz forte, quando a pupila se contrai sobre a opacidade central. Catarata cortical periferica incipiente costuma ser assintomatica, e as formas congenita e traumatica tem contextos proprios.
Qual criterio orienta a indicacao de cirurgia de catarata?
A decisao cirurgica considera o impacto funcional - dificuldade para dirigir, ler, trabalhar, risco de quedas - avaliado em conjunto com a acuidade visual e o exame oftalmologico, incluindo a expectativa de ganho visual conforme o estado da retina e do nervo optico. Fixar um valor universal de acuidade engana porque numeros sao praticos e circulam como regra em criterios administrativos, mas um professor com catarata incipiente pode ter incapacidade maior que um paciente sedentario com opacidade avancada. Idade e tempo de evolucao isolados nao definem indicacao.
Sobre a diferenca de conduta entre catarata na crianca e no adulto, qual afirmacao esta correta?
A diferenca fundamental esta na plasticidade do sistema visual: na crianca, a opacidade priva o cortex visual de estimulo em periodo critico e produz ambliopia irreversivel, o que torna a cirurgia urgente, enquanto no adulto a via visual ja esta desenvolvida e o momento cirurgico se define pelo impacto funcional. Igualar as duas situacoes engana porque a doenca tem o mesmo nome e o mesmo substrato anatomico, e a tentacao e aplicar a mesma logica de indicacao - erro que, na crianca, custa a visao daquele olho de forma definitiva.
Homem de 70 anos com diabetes ha 20 anos apresenta catarata e sera encaminhado para cirurgia. Qual avaliacao adicional e essencial no planejamento?
No diabetico, a retina precisa ser avaliada antes da cirurgia de catarata, porque retinopatia e edema macular limitam o ganho visual e podem piorar apos o procedimento, exigindo tratamento previo ou concomitante e ajuste da expectativa do paciente. Supor que a cirurgia sempre restaura a visao engana porque a facoemulsificacao tem resultados excelentes na maioria dos casos e essa fama gera expectativa de cura garantida, mas ela apenas remove o meio opaco - se a retina ou o nervo optico estao comprometidos, a visao nao retorna.
Homem de 80 anos com catarata avancada bilateral vive sozinho, ja sofreu duas quedas e nao consegue mais preparar suas refeicoes nem tomar as medicacoes corretamente. Qual a prioridade?
Baixa visual com repercussao funcional, quedas e erro de medicacao em idoso que vive sozinho e indicacao prioritaria de cirurgia, que reduz quedas, melhora autonomia e qualidade de vida. Esperar a catarata amadurecer engana porque essa era a conduta na era das tecnicas antigas e a ideia persiste no imaginario de pacientes e de alguns profissionais, mas com a facoemulsificacao a catarata muito densa e mais dificil de operar e traz mais complicacoes. A idade isolada nao contraindica, e oculos nao corrigem opacidade de meio.
Qual e a tecnica cirurgica atualmente padrao para a catarata senil e qual sua caracteristica?
A facoemulsificacao fragmenta o nucleo do cristalino por ultrassom e o aspira por uma incisao pequena, com implante de lente intraocular no saco capsular, permitindo anestesia topica, regime ambulatorial e recuperacao visual rapida. A extracao intracapsular engana porque foi de fato a tecnica padrao durante decadas e ainda e lembrada, mas removia o cristalino inteiro com a capsula, exigindo incisao ampla e correcao optica pesada. Nao existe colirio que dissolva a catarata, e o transplante de cornea trata opacidades corneanas, nao do cristalino.
Homem de 69 anos operado de catarata ha 5 dias recebeu orientacoes de alta. Qual conjunto de sinais deve motivar retorno imediato ao servico?
Dor crescente, queda da visao, hiperemia intensa e secrecao levantam suspeita de endoftalmite, enquanto flashes luminosos e pontos escuros novos sugerem descolamento de retina - todos motivos de retorno imediato. Sensacao de areia, hiperemia discreta em reducao, lacrimejamento leve e embacamento nas primeiras horas enganam porque sao queixas reais que assustam o paciente recem-operado, mas correspondem a evolucao esperada; saber distingui-las evita tanto o retorno desnecessario quanto, mais importante, a permanencia em casa de quem esta com uma complicacao grave.
Mulher de 78 anos com catarata madura em olho unico funcional apresenta dor ocular subita, olho vermelho, cornea turva, pupila em midriase media pouco reativa e pressao intraocular muito elevada. Qual a hipotese e a conduta?
Dor subita com olho vermelho, cornea turva, pupila em midriase media pouco reativa e pressao intraocular muito elevada, em paciente com catarata madura, caracteriza glaucoma agudo por mecanismo facomorfico, emergencia que exige reducao imediata da pressao e programacao cirurgica para remover o cristalino volumoso. Tratar como conjuntivite engana porque olho vermelho e a apresentacao mais comum no pronto-atendimento e a conjuntivite responde por quase todos esses casos, mas ela nao cursa com dor intensa, baixa visual, cornea turva nem alteracao pupilar.
Homem de 47 anos em uso cronico de corticoide sistemico por doenca autoimune apresenta baixa visual progressiva com ofuscamento intenso sob luz forte e maior dificuldade para leitura do que para longe. Qual a hipotese?
A catarata subcapsular posterior localiza-se no eixo visual, junto a capsula posterior, o que explica o ofuscamento intenso e a dificuldade desproporcional para perto, quando a pupila se contrai, e e classicamente associada ao uso cronico de corticoide, ao diabetes e a uveites, ocorrendo em pacientes mais jovens. A catarata nuclear senil engana por ser o tipo mais frequente, mas evolui em idades mais avancadas, produz miopizacao com melhora paradoxal da leitura e nao tem essa relacao com o corticoide. Presbiopia e ceratocone tem mecanismos e apresentacoes distintos.
Homem de 45 anos refere dificuldade progressiva para leitura de perto ha 2 anos, precisando afastar o texto, com visao para longe preservada. Qual o diagnostico e a conduta?
A dificuldade progressiva para perto a partir da quarta decada, com necessidade de afastar o texto e visao para longe preservada, e presbiopia, decorrente da perda fisiologica da capacidade de acomodacao do cristalino, corrigida com lentes para perto apos avaliacao refrativa. Pensar em catarata inicial engana porque a queixa e de baixa visual em paciente de meia-idade e o cristalino esta de fato envolvido nos dois processos, mas na presbiopia a visao para longe permanece normal e nao ha ofuscamento nem halos. As demais hipoteses produzem perda visual com outras caracteristicas.
Sobre a epidemiologia da catarata, qual afirmacao esta correta?
A catarata e a principal causa de cegueira reversivel no mundo, e como o tratamento cirurgico e altamente eficaz, a cegueira por catarata reflete sobretudo barreiras de acesso a cirurgia, o que a torna um problema de organizacao de servicos alem de clinico. Chama-la de irreversivel engana porque cegueira e uma palavra que sugere permanencia, e muitos pacientes e familiares assumem que nao ha o que fazer - justamente essa crenca contribui para o atraso na procura por atendimento. Diabetes, corticoide, trauma e uveite sao fatores de risco, mas nao condicoes necessarias.
Mulher de 66 anos foi submetida a facoemulsificacao com implante de lente intraocular ha 3 dias e retorna com dor ocular intensa, piora importante da visao, hiperemia acentuada e hipopio. Qual a hipotese e a conduta?
Dor intensa, queda importante da visao, hiperemia e hipopio nos primeiros dias apos cirurgia intraocular caracterizam endoftalmite, emergencia que exige encaminhamento imediato para coleta de material e injecao intravitrea de antibiotico, pois a demora custa o olho. Atribuir a inflamacao esperada engana porque algum grau de hiperemia e desconforto e normal no pos-operatorio e a equipe pode subestimar a queixa, mas dor crescente com piora visual e hipopio nunca fazem parte da evolucao habitual. Opacificacao capsular ocorre meses depois e e indolor.
Mulher de 73 anos com catarata bilateral sera submetida a cirurgia. Qual exame e essencial no planejamento para definir o poder da lente intraocular a ser implantada?
A biometria mede o comprimento axial do olho e a curvatura corneana, dados que alimentam as formulas de calculo do poder da lente intraocular e determinam o resultado refrativo pos-operatorio. A campimetria engana porque tambem e um exame oftalmologico frequente e importante no idoso, mas avalia campo visual e serve ao seguimento do glaucoma, sem relacao com o calculo da lente. Eletrorretinograma e angiografia avaliam funcao e circulacao retinianas em contextos especificos, e a tomografia de coerencia optica avalia estrutura, sem definir o poder da lente.
Sobre fatores de risco modificaveis associados a catarata, qual afirmacao esta correta?
Alem da idade, associam-se a catarata a exposicao cumulativa a radiacao ultravioleta, o tabagismo, o uso cronico de corticoide, o diabetes mal controlado e o trauma ocular, de modo que protecao com oculos de sol adequados, cessacao do tabagismo e controle metabolico sao orientacoes razoaveis. Atribuir tudo a idade engana porque a catarata e vista como consequencia inevitavel do envelhecimento e essa leitura desestimula qualquer prevencao, quando parte do risco e evitavel. Oculos de sol com protecao adequada reduzem, e nao aumentam, a exposicao.
Paciente de 64 anos com diabetes mal controlado sera operado de catarata. Qual informacao prognostica e correta?
No diabetico, o resultado da cirurgia depende do estado da retina: retinopatia e edema macular limitam o ganho visual e podem progredir apos o procedimento, o que exige avaliacao retiniana previa, controle metabolico e seguimento proximo. Contraindicar a cirurgia engana porque o risco adicional e real e a cautela parece protetora, mas negar o procedimento mantem o paciente com baixa visual e ainda impede a visualizacao adequada da retina para tratar a propria retinopatia. Afirmar resultado identico ao do nao diabetico cria expectativa irreal.
Mulher de 71 anos operada de catarata ha 2 anos, com boa recuperacao inicial, refere embacamento visual progressivo no mesmo olho ha 4 meses, indolor e sem hiperemia. Qual a causa mais provavel e o tratamento?
O embacamento progressivo e indolor meses a anos apos facoemulsificacao decorre tipicamente da opacificacao da capsula posterior, resolvida em minutos por capsulotomia a laser, procedimento ambulatorial. Falar em recidiva da catarata engana porque o paciente descreve exatamente o retorno dos sintomas anteriores e a expressao circula no senso comum, mas o cristalino foi removido e nao volta a opacificar - o que opacifica e a capsula preservada para apoiar a lente. Endoftalmite cursa com dor e hiperemia, e glaucoma agudo e descolamento tem apresentacoes agudas caracteristicas.
Menino de 4 anos comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. Os pais relatam que ele aproxima muito o rosto dos objetos e franze os olhos para ver a televisão. A professora observou dificuldade para reconhecer figuras à distância. O exame ocular externo é normal e o reflexo vermelho está presente bilateralmente. Não há estrabismo aparente nem história familiar relevante. Assinale a conduta correta.
Sinais de dificuldade visual, como aproximar objetos e franzir os olhos, indicam avaliação da acuidade visual com tabela adequada à idade e encaminhamento oftalmológico, pois erros refrativos não corrigidos na infância levam à ambliopia e a prejuízo no aprendizado. Considerar o comportamento normal desperdiça a janela de correção. Colírio lubrificante não trata erro refrativo e adiar para a idade escolar reduz a chance de recuperação visual. Tomografia de órbitas não é exame de triagem para baixa acuidade visual.
Menino de 5 anos é levado à Unidade Básica de Saúde porque a professora notou que ele aproxima muito o rosto do caderno e franze os olhos para ver o quadro. Não há queixa de dor ocular, lacrimejamento ou secreção. Nasceu a termo, sem intercorrências, com teste do reflexo vermelho normal ao nascer. Ao exame: reflexo vermelho presente e simétrico, motilidade ocular preservada, sem estrabismo evidente, acuidade visual pela tabela de Snellen 20/60 em ambos os olhos. A conduta correta é:
Acuidade visual de 20/60 aos 5 anos está abaixo do esperado para a idade e configura triagem alterada, exigindo avaliação oftalmológica com refração sob cicloplegia; a correção precoce previne ambliopia, que se torna irreversível com a maturação do sistema visual. Adiar por um ano desperdiça a janela de plasticidade em que o tratamento é efetivo. Lubrificante e redução de tela não corrigem erro refrativo e apenas atrasam o diagnóstico. Tomografia de órbitas não tem indicação em baixa acuidade sem sinais de doença estrutural, como leucocoria, proptose ou alteração do reflexo vermelho.
Menino de 9 anos é levado à Unidade Básica de Saúde por queixa da professora de queda no rendimento escolar. A mãe conta que ele se aproxima muito do caderno para escrever, aperta os olhos para enxergar o quadro e reclama de dor de cabeça no fim das aulas. Nega dor ocular, hiperemia ou secreção. Ao exame, a acuidade visual pela tabela de Snellen é 20/60 em ambos os olhos, o reflexo vermelho é presente e simétrico, a motilidade ocular está normal e não há estrabismo. A conduta mais adequada é:
Baixa acuidade visual bilateral em escolar que aperta os olhos para longe e tem cefaleia ao fim das aulas aponta para erro de refração não corrigido, causa frequente de mau desempenho escolar, e a conduta é encaminhar para refração e correção com óculos. Tomografia de crânio não se justifica em cefaleia com exame neurológico normal e explicação visual evidente, sendo exemplo de exame sem indicação. Colírio lubrificante trata desconforto de superfície e não corrige o defeito refrativo. Encaminhar à neurologia antes de corrigir a visão inverte a ordem de investigação e retarda a solução mais simples e efetiva.
A coordenação de atenção especializada de um município analisa a fila de espera por consulta oftalmológica e observa grande número de idosos com baixa visual bilateral progressiva, sem dor, com opacidade do cristalino ao exame, muitos deles aguardando há mais de dois anos. A equipe discute estratégias de organização da rede, considerando que se trata da principal causa de cegueira reversível no mundo e no Brasil. A medida com maior potencial de reduzir a cegueira evitável nessa população é:
A catarata é a principal causa de cegueira reversível, e a intervenção com maior impacto populacional é ampliar e regular a oferta cirúrgica com fluxo de referência bem definido a partir da atenção primária, o que reduz o tempo de espera e devolve autonomia aos idosos. Colírio lubrificante alivia sintoma de superfície e não interfere na opacidade do cristalino. Investir em laser para retinopatia diabética é importante, mas não responde ao problema identificado nessa fila. Restringir o encaminhamento aos já cegos contraria a lógica de prevenção secundária, pois a cirurgia precoce evita quedas, fraturas e perda de independência.
Mulher de 78 anos relata na Unidade Básica de Saúde que enxerga cada vez pior, com visão embaçada, ofuscamento com luz forte e dificuldade para descer escadas. Já tropeçou duas vezes no último mês, sem fraturas. Ao exame, acuidade visual reduzida em ambos os olhos, sem melhora significativa com correção óptica disponível, reflexo vermelho diminuído bilateralmente e pressão intraocular normal ao exame de triagem. Não há déficits neurológicos nem alterações na marcha além da insegurança relatada. A conduta adequada é:
Visão embaçada progressiva com ofuscamento e reflexo vermelho diminuído sugere catarata, causa tratável de baixa visão e fator de risco importante para quedas e fraturas no idoso; a correção cirúrgica melhora a função visual, a autonomia e reduz quedas. Restringir a saída de casa promove isolamento e descondicionamento. Colírio lubrificante não trata opacidade do cristalino. Tratar a perda visual como inevitável priva a paciente de uma intervenção com grande impacto funcional e de baixo risco.
Menino de 6 anos é levado à Unidade Básica de Saúde pela mãe após bilhete da escola informando que ele não copia da lousa, pede para sentar à frente e aperta os olhos para enxergar. Nunca fez avaliação oftalmológica. Ao exame: acuidade visual avaliada com tabela apropriada mostrando redução bilateral, mais acentuada à direita, com reflexo vermelho presente e simétrico, sem estrabismo evidente, sem hiperemia conjuntival, sem secreção e sem dor ocular. Qual é a conduta mais adequada?
Baixa acuidade visual em escolar, com reflexo vermelho normal e sem sinais inflamatórios, sugere erro refrativo não corrigido, principal causa de baixa visão nessa idade, exigindo avaliação oftalmológica e prescrição de correção óptica, o que previne ambliopia e melhora o desempenho escolar. Colírio lubrificante não corrige erro refrativo. Mudar de lugar na sala alivia temporariamente sem tratar a causa. Avaliação neurológica não precede a avaliação oftalmológica em quadro típico de baixa acuidade sem sinais neurológicos.
Uma mulher de 74 anos relata dificuldade progressiva para enxergar de longe há um ano, ofuscamento com faróis à noite e uma queda recente ao descer escada. A acuidade visual medida na unidade básica de saúde é de 20/100 em ambos os olhos, sem melhora com correção improvisada, e há opacidade do cristalino ao exame com oftalmoscópio. Ela é diabética e tem catarata referida em consulta anterior. Qual é a conduta mais adequada?
Catarata com repercussão funcional e queda associada indica encaminhamento para avaliação oftalmológica e tratamento cirúrgico, intervenção custo-efetiva que melhora visão, autonomia e reduz o risco de novas quedas, associada à avaliação multifatorial do ambiente domiciliar. Óculos não corrigem a opacidade do cristalino. Colírio lubrificante não altera a acuidade em catarata. Considerar a perda irreversível e restringir atividades produz incapacidade evitável em condição tratável.
Mulher, 70 anos, é atendida na UBS com queixa de dificuldade para enxergar de perto e de longe, com piora progressiva há 2 anos, além de ofuscamento com faróis à noite. Nega dor ocular, olho vermelho ou secreção. Exame: acuidade visual reduzida bilateralmente, reflexo vermelho diminuído em ambos os olhos, pupilas fotorreagentes, córneas transparentes, sem hiperemia. Pressão ocular estimada normal à palpação. Diabética com controle adequado. Qual a hipótese diagnóstica mais provável e a conduta?
Baixa visual progressiva e indolor, com ofuscamento noturno e redução do reflexo vermelho bilateralmente, em idosa, é a apresentação típica da catarata, cujo tratamento é cirúrgico e depende do impacto funcional, exigindo avaliação oftalmológica. Glaucoma agudo cursa com dor intensa, halos, olho vermelho e globo endurecido, ausentes. Retinopatia diabética proliferativa exige achados fundoscópicos de neovascularização, não descritos, e a fotocoagulação sem avaliação especializada é inviável. Degeneração macular cursa com metamorfopsia e escotoma central, sem alteração do reflexo vermelho. Ceratite bacteriana cursa com dor, hiperemia, secreção e opacidade corneana, o que contraria córneas descritas como transparentes.
Menina de 6 anos é levada à consulta escolar de rotina. A professora relata que ela aproxima muito o rosto do caderno, franze os olhos para ver o quadro e queixa-se de cefaleia ao fim das aulas. A criança é saudável, sem antecedentes relevantes e com desenvolvimento adequado. Ao teste de acuidade visual com tabela de optotipos, apresenta 0,4 no olho direito e 0,5 no olho esquerdo. Qual a conduta indicada?
Encaminhar ao oftalmologista é a conduta indicada, pois a acuidade visual encontrada está abaixo do esperado para a idade escolar e há sinais sugestivos de erro refrativo, com risco de ambliopia se não corrigido. Considerar a acuidade normal é erro, já que aos 6 anos espera-se valor próximo de 1,0. O colírio lubrificante não corrige erro refrativo e adia o diagnóstico. A tomografia de crânio não é o exame inicial diante de cefaleia claramente relacionada ao esforço visual. Mudar de lugar na sala alivia o sintoma sem tratar a causa.
Mulher, 71 anos, refere piora visual progressiva há 2 anos, com ofuscamento diante de faróis à noite e melhora paradoxal da leitura sem óculos. Nega dor ocular ou olho vermelho. PA 138x84 mmHg, FC 72 bpm. A acuidade visual é de 20/200 no olho direito e 20/80 no esquerdo; o reflexo vermelho está reduzido bilateralmente e a pressão intraocular é de 14 mmHg em ambos. Qual o tratamento indicado?
Catarata senil com redução importante da acuidade visual e impacto funcional tem tratamento cirúrgico, com facoemulsificação e implante de lente intraocular, operando-se primeiro o olho de pior visão. Prescrever novos óculos oferece alívio apenas transitório na fase inicial e não resolve a opacidade avançada com visão de 20/200. Não existe colírio com eficácia comprovada para retardar a catarata. A trabeculectomia trata glaucoma, e a pressão intraocular está normal. A fotocoagulação retiniana é usada em retinopatias vasculares e roturas, sem qualquer relação com opacidade do cristalino.
Lactente de 2 meses é encaminhado por reflexo vermelho ausente no olho esquerdo, detectado na maternidade e confirmado na puericultura. FC 132 bpm, FR 38 ipm, T 36,8 °C; desenvolvimento adequado, sem dismorfismos evidentes. Ao exame oftalmológico, identifica-se opacidade central do cristalino esquerdo de 4 mm, com fundo de olho não visualizado nesse olho e normal à direita. Qual a conduta indicada?
Catarata congênita unilateral com opacidade central significativa exige cirurgia precoce, idealmente nas primeiras semanas a poucos meses de vida, seguida de correção óptica e tratamento intensivo da ambliopia, pois a privação visual no período crítico causa perda irreversível. Aguardar até os dois anos consolida a ambliopia profunda. A opacidade do cristalino não regride espontaneamente. O colírio midriático pode ser adjuvante em opacidades pequenas, mas não é tratamento definitivo. Ocluir o olho acometido é o oposto do necessário, pois se oclui o olho melhor para estimular o pior.
Menino, 8 anos, apresenta queixa de dificuldade para enxergar o quadro na escola, com queda do rendimento escolar no último semestre. FC 88 bpm, T 36,7 °C; acuidade visual de 20/60 em ambos os olhos, que melhora para 20/20 com lentes negativas durante o teste. O exame externo, os reflexos pupilares e a fundoscopia são normais, sem estrabismo ou nistagmo associados. Qual o diagnóstico e a conduta?
Baixa acuidade visual para longe que melhora com lentes negativas, ou divergentes, define miopia, condição em que os raios luminosos convergem antes da retina, corrigida com óculos ou lentes de contato e acompanhamento da progressão na infância. A hipermetropia é corrigida com lentes convergentes, ou positivas. O astigmatismo irregular exigiria correção cilíndrica ou lentes rígidas, e o transplante é reservado a casos avançados de ceratocone. A ambliopia não corrige com lentes no momento do teste. A catarata reduziria o brilho do reflexo vermelho e não corrige com refração.
Idoso tem visão progressivamente embaçada e ofuscamento ao dirigir à noite, com opacificação do cristalino ao exame. Qual diagnóstico melhor explica os achados?
A alteração do cristalino explica a perda visual. Opacificação do cristalino provoca perda visual geralmente gradual, ofuscamento e alteração de contraste. Referência: https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/cataracts
Idosa tem dificuldade progressiva com luzes fortes e leitura, com opacidade do cristalino que limita a visão. Qual diagnóstico melhor explica os achados?
A opacidade do cristalino caracteriza catarata. Opacificação do cristalino provoca perda visual geralmente gradual, ofuscamento e alteração de contraste. Referência: https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/cataracts
Paciente tem mudança gradual da visão e aumento de ofuscamento, com opacificação significativa do cristalino à biomicroscopia. Qual diagnóstico melhor explica os achados?
A alteração anatômica é catarata. Opacificação do cristalino provoca perda visual geralmente gradual, ofuscamento e alteração de contraste. Referência: https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/cataracts
Paciente tem perda visual lenta, menor contraste e cristalino opaco, sem dor ou inflamação ocular. Qual diagnóstico melhor explica os achados?
O quadro favorece catarata. Opacificação do cristalino provoca perda visual geralmente gradual, ofuscamento e alteração de contraste. Referência: https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/cataracts
Um motorista apresenta catarata e relata dificuldade importante com faróis à noite, apesar de acuidade razoável no consultório. Qual informação deve integrar a discussão da indicação cirúrgica?
A decisão considera limitação funcional, exame e riscos e benefícios; a acuidade isolada não traduz todas as dificuldades causadas pela catarata. Referência: National Eye Institute/NIH. cataracts. https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/cataracts
Uma pessoa com catarata inicial ainda realiza suas atividades com conforto após ajuste dos óculos e iluminação. Não há complicações associadas. Qual conduta é apropriada?
A catarata não exige cirurgia imediata em todos os casos; medidas ópticas e ambientais podem ajudar nas fases iniciais. Referência: National Eye Institute/NIH. cataracts. https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/cataracts
Meses após cirurgia de catarata com recuperação visual inicial satisfatória, surge visão embaçada. O exame mostra lente intraocular bem posicionada e opacidade da cápsula posterior. Qual afirmação está correta?
A opacificação da cápsula posterior pode surgir após a cirurgia; o tratamento especializado pode incluir capsulotomia a laser. Referência: National Eye Institute/NIH. Cataract Surgery (2024). https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/cataracts/cataract-surgery
Mulher de 47 anos passou a afastar o texto para ler, sobretudo em pouca luz. A visão de longe permanece satisfatória, o exame ocular não mostra opacidade relevante e a adição de lente positiva para perto melhora a leitura. Qual mecanismo é mais provável?
A avaliação confirma a necessidade de correção para perto e verifica outras condições coexistentes. A queixa típica não dispensa exame ocular. Referências: National Eye Institute. Presbyopia — https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/presbyopia
Paciente realizará cirurgia de catarata. Antes de selecionar a potência da lente intraocular, a equipe solicita biometria óptica e ceratometria. Quais medidas esses exames fornecem, respectivamente?
O planejamento refrativo depende de medidas confiáveis e corretamente vinculadas ao olho que será operado. Não se escolhe uma potência única para todos os pacientes. Referências: NICE NG77. Cataracts in adults: management, recommendations — https://www.nice.org.uk/guidance/ng77/chapter/recommendations
Em um modelo óptico de olho hipermétrope com acomodação relaxada, raios provenientes de um objeto distante tenderiam a focalizar atrás da retina. Qual tipo de lente esférica corrige essa tendência?
A correção depende do erro refrativo medido. O modelo descreve a hipermetropia sem a compensação pela acomodação. Referências: AAO EyeWiki. Hyperopia — https://eyewiki.aao.org/Hyperopia
Homem que realizou LASIK para miopia há 20 anos vai operar catarata. Qual informação é importante para o planejamento da lente intraocular?
O histórico cirúrgico deve ser informado e incorporado às medidas atuais. A expectativa visual precisa ser discutida antes do procedimento. Referências: NICE NG77. Cataracts in adults: management, recommendations — https://www.nice.org.uk/guidance/ng77/chapter/recommendations
Durante refração, identifica-se astigmatismo regular com potências diferentes nos dois meridianos principais. Qual característica da prescrição é necessária para corrigir essa diferença de forma direcionada?
A medida do eixo é relevante para a qualidade da correção. Astigmatismo irregular pode exigir avaliação e soluções diferentes. Referências: AAO EyeWiki. Astigmatism correction at the time of cataract surgery — https://eyewiki.aao.org/Astigmatism_Correction_at_the_Time_of_Cataract_Surgery
Paciente com catarata muito densa precisa de medida do comprimento axial para cálculo da lente intraocular. Tentativas de biometria óptica não geram leitura confiável. Qual alternativa é adequada?
A dificuldade com um método exige uma alternativa de medida, preservando a confiabilidade do planejamento. O resultado deve ser conferido no contexto do exame. Referências: NICE NG77. Cataracts in adults: management, recommendations — https://www.nice.org.uk/guidance/ng77/chapter/recommendations
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Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Consulta de rotina em unidade básica de saúde. Entra um homem de 66 anos, pedreiro aposentado, acompanhado da filha, que marcou a consulta porque o pai "anda derrubando as coisas" e parou de sair de casa depois que escurece. Ele diz que enxerga bem, que o problema é a iluminação da rua, e traz três receitas de óculos dos últimos dois anos. Você tem uma tabela de optotipos afixada na parede, uma trena, um oclusor, um cartão com um furo e um oftalmoscópio. A filha pergunta se o pai precisa de óculos novos ou de cirurgia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
