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Outras EspecialidadesOftalmologia

Emergências oftalmológicas: o olho que embranquece e os dois relógios da retina

Conduta imediata na queimadura, globo aberto e isquemia retiniana

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 68 anos, hipertensa, procura atendimento por perda visual indolor, súbita e completa no olho esquerdo há 40 minutos. Nega trauma ou dor. Ao exame: acuidade visual de percepção luminosa no OE, defeito pupilar aferente relativo presente. A fundoscopia mostra retina pálida e edemaciada com uma mancha vermelho-cereja na mácula. Qual é o diagnóstico mais provável e a conduta imediata a ser tentada?

02

Como esse tema cai

Três quadros diferentes moram neste capítulo e têm em comum uma coisa só: o tempo até a primeira medida vale mais do que qualquer exame. São a queimadura química ocular, o trauma de globo aberto e a oclusão da artéria central da retina. Nenhum deles é doença de oftalmologista — todos os três são decididos, no Brasil, por quem está na porta.

O recorte se justifica por um vão de fronteira. O capítulo de catarata e erros de refração desta mesma apostila abre dizendo que trata das causas de baixa de visão "que não doem, não deixam o olho vermelho e não têm pressa". A oclusão arterial da retina cumpre os dois primeiros critérios e inverte o terceiro: não dói, não deixa o olho vermelho e é a maior pressa da especialidade. Já o capítulo de olho vermelho organiza tudo em torno de hiperemia, e a queimadura por álcali grave caminha para o oposto — quanto pior, mais branco fica o olho.

Há dois eixos de prova aqui. O primeiro é o do ato que precede o exame: na queimadura química não se mede acuidade, não se mede pH e não se espera o especialista antes de irrigar, e o enunciado costuma oferecer justamente essas três alternativas educadas. O segundo é o do relógio: cada um dos três quadros tem um piso de tempo escrito em documento brasileiro, e em dois deles há mais de um número em circulação, sem que nenhum revogue o outro.

03

O que muda decisão

Três urgências, três relógios

A queimadura química é a única condição em oftalmologia cuja conduta começa antes do diagnóstico. O agente continua reagindo com o tecido enquanto estiver na superfície, e cada minuto de permanência é dano acrescido — de modo que a irrigação não é tratamento da lesão, é interrupção do mecanismo. Tudo o que se faça antes dela, inclusive medir a visão, é tempo em que a córnea continua sendo digerida.

O trauma de globo aberto inverte a lógica: aqui o erro não é demorar, é tocar. Uma laceração de espessura total transforma o olho num saco pressurizado com um furo, e qualquer compressão — a pálpebra apertada, a gaze bem acomodada, o dedo que mede a tensão — extrude conteúdo intraocular que não volta. A conduta é uma lista de negativas seguida de transporte.

A oclusão arterial é a única das três em que o médico da porta praticamente não tem o que fazer com as mãos, e é justamente por isso a mais cobrada. O que ele tem é uma janela, um fundo de olho e uma investigação etiológica que muda o desfecho do outro olho e do cérebro. O quadro é típico e a prova o escreve sempre igual: perda visual súbita, indolor, monocular, sem hiperemia e sem secreção, com defeito pupilar aferente relativo e, à fundoscopia, retina pálida com mancha vermelho-cereja na mácula.

Vale registrar de saída que a expressão vermelho-cereja é armadilha de duas frentes. Na retina ela nomeia a mácula que continua perfundida pela coroide enquanto o resto da retina embranquece por edema isquêmico — o ponto vermelho é o único tecido vivo à vista. Na pele, a mesma expressão nomeia a coloração da intoxicação por monóxido de carbono, e é assim que o cartão nacional de intoxicação por monóxido a escreve, ao lado de "rosa carminado". São dois sinais sem qualquer parentesco, e a palavra é a mesma.

Queimadura química: o único ato que vem antes de examinar

A série brasileira que organiza este bloco acompanhou 47 pacientes no pronto-socorro de oftalmologia do Hospital São Paulo entre setembro e dezembro de 1997. O perfil é o que a prova reproduz: 39 dos 47 eram homens, a faixa de 21 a 30 anos concentrou 16 casos, e 22 acidentes — 46,8% — aconteceram no local de trabalho, com a construção civil respondendo por 12 deles, um quarto da série inteira.

O agente mais frequente não foi ácido de bateria nem soda cáustica: foi massa fina e cal, com 19 casos, 40,4% do total. Isso importa porque cal é álcali, e álcali não se comporta como ácido. O ácido coagula a proteína da superfície e a própria escara coagulada limita a penetração; o álcali saponifica os lipídeos da membrana e abre caminho para si mesmo, atravessando córnea e alcançando malha trabecular, íris e corpo ciliar. Na série, agentes de natureza básica responderam por 55,32% dos casos, e a córnea foi atingida em 45 dos 47 olhos.

Cal também é o pior formato possível: pó que se agrega em grumos e se aloja nos fundos de saco conjuntivais. Água jogada por cima de um grumo de cal não o remove — dissolve a superfície do grumo e mantém o resto queimando. Por isso a sequência correta em agente sólido é mecânica antes de líquida: everter as duas pálpebras, varrer os fundos de saco com haste úmida, retirar o que for particulado, e só então irrigar de forma contínua. Quem inverte a ordem irriga por trinta minutos um olho que continua com o agente dentro.

O que a série mediu de mais duro não foi a gravidade, foi a assistência. Dos 23 pacientes que passaram antes por outro serviço, 21 foram atendidos por médico generalista e apenas 1 por oftalmologista — e o texto registra que somente esse único caso recebeu cuidado emergencial considerado apropriado. Vinte e dois de vinte e três, portanto, chegaram ao serviço terciário com a lavagem malfeita ou não feita. Quatro pacientes usaram no olho leite, óleo ou água boricada.

Vinte minutos, ou o trajeto: o "ou" que apaga o próprio piso

O documento nacional que diz o que fazer é o mesmo volume de protocolos do SAMU 192, e ele diz duas coisas diferentes em dois cartões distintos. O cartão de trauma ocular, BT7, elaborado em agosto de 2014 e revisado em abril de 2015, manda irrigar "iniciando o mais rápido possível e mantendo a irrigação durante o trajeto para o hospital ou por um tempo mínimo de 20 min".

O cartão de descontaminação, BTox 12, elaborado em janeiro de 2016 e impresso no mesmo volume, escreve os mesmos dois elementos com outra gramática: lavar "por, no mínimo, 20 minutos. Pode ser realizado durante o transporte ao hospital". São as mesmas duas informações — o piso de vinte minutos e a permissão de irrigar em movimento — ligadas por uma conjunção alternativa num cartão e empilhadas como piso mais permissão no outro.

A diferença não é estilística. Sob a redação do cartão de trauma, um transporte de seis minutos satisfaz a primeira metade da alternativa e o piso de vinte minutos simplesmente nunca acontece: irrigou-se durante o trajeto, e o trajeto acabou. Sob a redação do cartão de descontaminação, os vinte minutos são obrigatórios e o trajeto é apenas onde eles podem ocorrer. Um "ou" e um "pode" separam duas condutas com o dobro de diferença de tempo, no mesmo manual, sem que nenhum dos dois cartões revogue o outro.

Há um agravante que fecha o argumento e vem do próprio cartão de trauma. A frase específica para agente em pó manda "realizar limpeza mecânica cuidadosa das pálpebras e face com gaze e depois iniciar a irrigação contínua dos olhos, mantendo-a durante o trajeto para o hospital" — e não repete o piso de vinte minutos. Ou seja: o subcaso deixado sem piso de tempo é exatamente o do agente sólido, que na série brasileira é cal e massa fina, o álcali mais frequente e o de pior comportamento tecidual.

Uma terceira régua brasileira circula em paralelo. A série de 2000 classificou como lavagem de tempo inadequado a que durou menos de 5 a 10 minutos, e registrou que todos os 42 pacientes que lavaram o olho ficaram abaixo disso. Lida hoje contra o piso de vinte minutos, essa contagem de erros é subestimativa: pelo critério da própria série, 42 de 42 lavaram pouco; pelo piso nacional atual, os mesmos 42 lavaram menos ainda do que o mínimo, por uma margem maior. Os dois números são brasileiros, nenhum foi revogado, e o mais antigo é o mais permissivo.

O olho que embranquece: por que o grau pior é o mais calmo

A classificação que a série brasileira adota chama-se de Hughes, referida aos dois artigos de 1946 sobre queimadura alcalina da córnea; a mesma tabela de quatro graus circula na literatura internacional sob o nome de Roper-Hall, que a modificou em 1965. Ela cruza duas colunas: a transparência da córnea e a extensão da isquemia limbar.

A isquemia limbar é o eixo prognóstico, e é ela que produz o achado contraintuitivo. O limbo abriga as células-tronco que reepitelizam a córnea; quando os vasos perilímbicos são destruídos, aquele setor deixa de sangrar e fica branco. Um olho queimado que está difusamente vermelho tem vasos perfundidos e limbo vivo. Um olho queimado com anel esbranquiçado em volta da córnea perdeu a irrigação da própria fábrica de epitélio. O sinal muda de natureza no meio da escala: nos graus iniciais a hiperemia é o achado, e nos graus finais o achado é a ausência de hiperemia.

Quatro olhos em sequência mostrando que a hiperemia diminui e o branqueamento perilímbico aumenta conforme a queimadura química se agrava.
A hiperemia é o achado dos graus leves. Conforme a isquemia limbar avança, o olho fica progressivamente mais branco e mais quieto — e o grau mais grave é o de aspecto mais calmo.

As duas colunas podem discordar, e a tabela não diz qual vence. O grau I exige isquemia limbar ausente e córnea sem opacidade; o grau II admite isquemia de até um terço e córnea opaca com íris ainda visível. Um olho com opacidade corneana e isquemia limbar zero é grau II pela coluna da córnea e grau I pela coluna do limbo, e nada no quadro resolve o empate. Na prática o que governa o prognóstico é a coluna do limbo — mas quem lê a tabela de fora não tem como saber disso pela tabela.

A distribuição de gravidade na série ajuda a calibrar a expectativa: 37 casos de grau I, 6 de grau II, 2 de grau III e 2 de grau IV. Trinta e sete de quarenta e sete, quase quatro em cada cinco, eram queimaduras sem opacidade e sem isquemia. É por isso que a queimadura química engana: a esmagadora maioria é leve e cura, e a minoria que cega tem, no primeiro olhar, menos vermelho do que a maioria que não cega.

Globo aberto: o exame é não tocar

Trauma de globo aberto é laceração de espessura total da córnea ou da esclera. A história típica de prova é metal contra metal — martelo, marreta, esmeril, funilaria — sem proteção ocular, com queixa que pode ser modesta: dor moderada e sensação de corpo estranho. A discrepância entre o mecanismo e a queixa é o próprio achado, porque um fragmento de aço em alta velocidade atravessa a córnea com orifício pequeno e pouco reativo.

Três sinais obrigam a tratar como globo aberto mesmo sem história clara. Pupila em gota ou irregular, apontando para o local da lesão, porque a íris se hernia pelo orifício e o repuxa. Câmara anterior rasa ou com sangue, porque perdeu volume ou recebeu sangramento. E conteúdo escuro herniado através da esclera, que é úvea exposta. A esses soma-se o sinal de Seidel, quando disponível: fluoresceína instilada e um filete claro correndo dentro do verde, que é aquoso diluindo o corante ao vazar pela ferida.

A conduta cabe em negativas. Não instilar colírio, não remover corpo estranho cravado, não medir pressão intraocular por palpação nem por tonômetro, não fazer curativo compressivo, não forçar a abertura das pálpebras. E cabe em cinco afirmativas: escudo rígido apoiado na órbita, e não no globo, jejum porque haverá anestesia geral, analgesia e antiemético porque vômito é manobra de Valsalva sobre um globo aberto, profilaxia antitetânica, e antibiótico sistêmico pela ameaça de endoftalmite. A tomografia de órbitas entra para procurar corpo estranho intraocular; ressonância não entra enquanto houver suspeita de fragmento metálico.

Aqui há um ponto em que o documento nacional e a regra da especialidade não coincidem, e vale dizê-lo com honestidade. O cartão de trauma ocular do SAMU manda, para ferimento, "cobrir o globo ocular com gaze umedecida em SF", e no mesmo cartão proíbe pressão direta e curativo compressivo. A intenção é claramente a de não comprimir. Mas gaze apoiada sobre um globo lacerado é contato, e contato é o que a regra oftalmológica proíbe: o escudo rígido existe justamente para transferir todo o apoio à borda óssea e deixar um vão de ar sobre a córnea. O cartão proíbe a pressão; a oftalmologia proíbe o toque. É um cartão de suporte básico, executado por técnico, e a diferença é de precisão de linguagem — não de descuido —, mas o enunciado de prova costuma cobrar a régua da especialidade.

A acuidade visual é o exame, e é ela que ninguém escreve

O estudo brasileiro que dá o esqueleto deste bloco analisou 120 olhos de 119 pacientes com trauma ocular aberto em hospital universitário de Curitiba, entre 2014 e 2019. Foram 139 prontuários com 140 olhos, dos quais 20 saíram — 3 por seguimento menor que seis meses e 17 por dado faltante —, e a subtração fecha exatamente nos 120 analisados.

O mecanismo predominante foi penetração, com 84 casos, contra 27 rupturas e 9 perfurações; a soma dá os mesmos 120 e as porcentagens de 70,0%, 22,5% e 7,5% fecham em 100. A distinção importa: penetração tem porta de entrada e nada mais; perfuração tem entrada e saída; ruptura é o globo que estoura por trauma contuso, em geral na parede mais fina, e é a que menos parece ferida aberta no primeiro olhar.

Das seis variáveis do escore de trauma ocular avaliadas, três mostraram associação significativa com a visão final: acuidade visual inicial, descolamento de retina e defeito pupilar aferente. E o tamanho do efeito da acuidade inicial é o que a prova esconde nos números. Entre os 14 olhos que chegaram enxergando mais que 20/200, 13 terminaram acima de 20/20092,9%. Entre os 106 que chegaram abaixo disso, apenas 24 subiram, 22,6%. O defeito pupilar aferente é ainda mais brutal como marcador: dos 44 olhos que o tinham, 43 terminaram abaixo de 20/200, 97,7%.

Também é preciso saber o que o escore não prevê bem. Ruptura, perfuração e endoftalmite, isoladamente, não alcançaram significância nesta população — a endoftalmite com 6 casos, a perfuração com 9. Ausência de significância com esses tamanhos amostrais não é prova de irrelevância clínica; é falta de poder. O estudo diz isso e pede estudos prospectivos maiores.

O contraste com o cartão pré-hospitalar nacional é o achado de sistema deste capítulo. O cartão de trauma ocular do SAMU não menciona acuidade visual em nenhuma linha. Em todo o volume de suporte básico de vida, a palavra acuidade aparece uma única vez, e não é num protocolo de olho: está na lista de sintomas da intoxicação por monóxido de carbono. O contraponto honesto é que medir visão não é tarefa de suporte básico, e a omissão é decisão de escopo, não descuido. Mas a consequência permanece: a variável que melhor prevê o olho é gerada no primeiro contato, e na série de queimaduras o intervalo médio entre o primeiro atendimento e a chegada ao serviço especializado foi de 9 horas.

Contar direito: o que os números brasileiros provam sozinhos

Duas verificações aritméticas destes artigos rendem questão, e as duas se provam sem consultar nada fora do próprio texto. A primeira está na série de queimaduras. O denominador é 47, e o artigo o usa corretamente quase todo o tempo: 19 casos de cal são 40,43%, 3 casos de soda cáustica são 6,38%, 2 casos de cianoacrilato são 4,25%. A soma dos agentes químicos listados dá 19+4+4+4+3+3+3+2+5, ou seja, exatamente 47 — o que fixa o denominador de forma independente.

Fixado o denominador, duas frases não fecham. O artigo escreve "queimadura da pele palpebral em 4 casos (4,26%)" e, adiante, "4 casos; 4,26%" para os pacientes que usaram leite, óleo ou água boricada. Mas 4 em 47 é 8,51%, e é assim que o mesmo artigo escreve 4 casos em três outros lugares — álcool, ácidos de limpeza e catalisadores de bateria, todos com 4 casos e 8,51%. O valor 4,26% pertence a 2 casos, e o artigo também o usa corretamente para 2 casos em outra passagem. É a mesma porcentagem grudada em dois numeradores diferentes, e a soma dos agentes prova sozinha qual dos dois está certo.

A segunda verificação está no estudo de trauma, e é mais elegante. A tabela de análise univariada tem, para cada variável, a contagem de olhos que terminaram acima de 20/200. Somando por linha: ruptura 34+5, endoftalmite 39+0, perfuração 37+2, descolamento 37+2, defeito pupilar 38+1 — cinco linhas dando 39. A linha da acuidade inicial dá 24+13, ou seja, 37. A distribuição de acuidade final publicada no corpo do texto — 19 olhos com 20/40 ou melhor e 20 olhos entre 20/200 e 20/50 — também dá 39. Cinco ocorrências contra uma, e a distribuição independente concorda com as cinco.

A mesma tabela guarda um detalhe de faixa que explica um desencontro aparente. A distribuição de acuidade inicial tem 2 olhos com 20/40 ou melhor e 13 entre 20/200 e 20/50, o que dá 15 olhos em 20/200 ou acima; mas o braço "maior que 20/200" da tabela tem N igual a 14. A diferença é um olho, e ele aparece do outro lado: 16 mais 64 mais 25 dá 105, e o braço "menor que 20/200" tem 106. O olho que estava exatamente em 20/200 foi contado como abaixo de 20/200, porque a tabela usa desigualdade estrita e a distribuição usa faixa fechada. A soma prova sozinha onde ele foi parar.

Há ainda uma conferência que vale registrar por ter dado certo, e por dizer algo sobre o documento. Na tabela que compara a distribuição de acuidade final da amostra brasileira com a do estudo original do escore, a coluna da amostra própria fecha em 100% nas cinco linhas; a coluna copiada do estudo original fecha em 100% em duas linhas e em 101% em três. O único bloco que o artigo mediu por conta própria é o único que fecha inteiro em todas as linhas.

Duas coisas nesses artigos eu não consegui reconciliar, e elas não entram como conteúdo. Na série de queimaduras, a distribuição por estado físico do agente soma 48 casos num total de 47 — provavelmente um paciente com dois agentes, mas o texto não diz —, e a frase que atribui nova terapêutica a 13 dos pacientes encaminhados registra 53%, quando o grupo de encaminhados é comprovadamente 23 pessoas (1 mais 21 mais 1, com as porcentagens 4,3%, 91,3% e 4,3% fechando) e 13 em 23 é 56,5%. Nenhuma das duas se resolve com o que está impresso, e nenhuma delas desfaz o que foi verificado acima.

Noventa ou duzentos e quarenta minutos: os dois relógios da retina

A oclusão da artéria central da retina é infarto de tecido do sistema nervoso central. A artéria central da retina é ramo da oftálmica, que é ramo da carótida interna, e é uma artéria terminal — não há colateral que socorra o território. O que sobrevive é a mácula, nutrida por difusão a partir da coriocapilar, e é essa ilha de tecido perfundido sobre um fundo de retina edemaciada e opaca que aparece como a mancha vermelho-cereja.

Quanto tempo há? Duas revistas brasileiras de oftalmologia respondem com números que diferem por um fator de quase três, e as duas frases estão publicadas, vigentes e sem retratação. Um relato de 2015 escreve que "estudos experimentais em macacos Rhesus têm demonstrado que após 240 minutos de isquemia, o tecido retiniano normalmente apresenta um dano maciço e irreversível". Um relato de 2024 escreve que "a retina é muito sensível à hipóxia e, após 90 minutos de isquemia, o dano se torna permanente".

O primeiro artigo repete a própria frase páginas adiante, e a repetição muda de força. Na segunda vez ela vira "estudos tem demonstrado que após 240 minutos de isquemia, o tecido retiniano apresenta um dano maciço e irreversível": desapareceram "experimentais em macacos Rhesus" e desapareceu "normalmente". O modelo animal virou "estudos" e a ressalva sumiu. É a mesma afirmação com duas forças, no mesmo documento, e quem cita a segunda versão está citando um dado de primata como se fosse dado humano.

A consequência clínica de escolher um relógio ou outro é enorme e vale explicitar. Com 240 minutos, existe janela para quem mora perto de um serviço. Com 90 minutos, a janela termina antes de a maioria dos pacientes brasileiros sair de casa. O próprio artigo de 2015 reconhece o problema ao escrever que, na prática, os pacientes se apresentam à consulta depois desse período — e é aí que ele derrapa no raciocínio. Da observação de que quase todos chegam tarde, o texto conclui "portanto é imprescindível a precocidade do diagnóstico e do tratamento". A premissa observada não sustenta essa conclusão: se a chegada tardia é a regra, o que o dado prova é uma falha de acesso e de rede, não a eficácia de agir cedo no paciente individual. As duas coisas podem ser verdadeiras, mas a segunda não decorre da primeira.

Para a prova, o gabarito não depende de qual relógio se adote: a conduta é a mesma em ambos e a resposta esperada é sempre encaminhamento oftalmológico de emergência com medidas imediatas de redução da pressão intraocular. O que os dois números mudam é a expectativa que se comunica ao paciente e à família, e é isso que distingue quem entendeu de quem decorou.

O que fazer enquanto o relógio corre — e o que devolver ao vizinho

As medidas imediatas descritas na literatura brasileira formam um conjunto pequeno e de intenção única: baixar a pressão intraocular para melhorar o gradiente de perfusão e, se possível, deslocar o êmbolo para um ramo mais periférico. Entram massagem ocular digital, paracentese de câmara anterior, acetazolamida e manitol a 20% por via intravenosa. Oxigenoterapia hiperbárica, corticoide e vasodilatadores aparecem descritos, com finalidades distintas.

E aqui é obrigatório o contraponto honesto, porque ele é o que separa marcar a questão de entender a doença. O artigo de 2024 registra que existe um algoritmo descrito na literatura para esse fim e, na frase seguinte, que não existe consenso nem protocolo de seguimento para o quadro, e que mesmo com as medidas propostas os estudos constatam prognóstico reservado. No caso que ele relata, a massagem ocular foi feita prontamente, de forma circular e prolongada, e a angiografia de trinta dias não mostrou melhora da circulação. Na prova, marque a massagem ocular; na cabeceira, saiba que ela é manobra de baixo rendimento, feita porque custa quase nada e porque não fazer nada é pior.

A parte da conduta com benefício demonstrado não é a que age sobre o olho perdido — é a que protege o que ainda existe. A oclusão arterial da retina é evento embólico do território carotídeo, e a investigação é a mesma de um acidente vascular: ecocardiograma e imagem de carótidas atrás da fonte, mais a revisão de anticoagulação em quem tem fibrilação atrial. Em paciente acima de 50 anos, arterite de células gigantes entra no diferencial e muda a conduta para corticoide imediato, porque ali o alvo é o olho contralateral.

Este capítulo devolve dois eixos a quem já os tem. O manejo do acidente vascular cerebral, com escala de gravidade, janela de trombólise e trombectomia, pertence ao capítulo de AVC isquêmico agudo desta mesma apostila; aqui fica apenas o reconhecimento de que a retina é território do mesmo sistema e de que o olho pode ser a primeira manifestação. E a Comunicação de Acidente de Trabalho, a notificação compulsória e o nexo causal pertencem ao capítulo de acidente de trabalho da apostila de Medicina do Trabalho, com os prazos que ele já ensina.

O que este capítulo entrega àqueles dois vizinhos é o número que falta a eles. Ao capítulo de acidente de trabalho: quase metade das queimaduras oculares químicas da série brasileira — 46,8% — foi acidente de trabalho, com a construção civil respondendo por 12 dos 47 casos, e o agente campeão foi cal e massa fina, com 19 casos. O equipamento que evitaria a maior parte disso está nomeado na norma regulamentadora de equipamentos de proteção individual, no anexo que lista óculos contra impacto de partículas volantes e protetor facial contra agentes químicos. Ao capítulo de acidente vascular: perda visual monocular súbita e indolor com defeito pupilar aferente é um evento isquêmico do território carotídeo e merece a mesma investigação de fonte embólica, ainda que o exame neurológico esteja normal.

04

A régua das três emergências

Toda vinheta destas três condições se resolve em duas perguntas antes de qualquer alternativa: houve contato com produto químico, e houve mecanismo de alta energia? Se a primeira for sim, a resposta é irrigar antes de examinar. Se a segunda for sim, a resposta é escudo rígido e nenhum toque. Se as duas forem não e a perda visual for súbita, indolor e monocular, o eixo é o vascular.

  1. 1Produto químico no olho? Irrigue já, antes de medir acuidade, antes de medir pH, antes de chamar o oftalmologista. Agente em pó: limpeza mecânica das pálpebras e fundos de saco com haste úmida primeiro, depois irrigação contínua.
  2. 2Mantenha a irrigação por, no mínimo, 20 minutos, e siga irrigando durante o transporte. Os vinte minutos são piso, não alternativa ao trajeto.
  3. 3Só depois de irrigado: acuidade visual de cada olho separadamente, aspecto da córnea e extensão do branqueamento perilímbico. Registre os três no prontuário.
  4. 4Mecanismo de alta energia, corte palpebral, martelo sobre metal ou explosão? Trate como globo aberto. Pupila em gota, câmara rasa ou com sangue, ou úvea herniada obrigam a isso mesmo sem história.
  5. 5Globo aberto: escudo rígido apoiado na órbita, jejum, analgesia, antiemético, profilaxia antitetânica, antibiótico sistêmico, tomografia de órbitas. Nenhum colírio, nenhuma pressão, nenhuma tonometria.
  6. 6Perda visual súbita, indolor, monocular, olho externamente calmo? Cheque o defeito pupilar aferente relativo e faça a fundoscopia procurando retina pálida com mancha vermelho-cereja macular.
  7. 7Confirmada a oclusão arterial: emergência oftalmológica, medidas de redução da pressão intraocular durante o transporte, e investigação de fonte embólica com imagem de carótidas e ecocardiograma. Acima de 50 anos, considere arterite de células gigantes.

Classificação de Hughes para queimadura química ocular, como a série brasileira a reproduz

GrauAspecto da córneaIsquemia limbarO que o olho parece
ISem opacidadeAusenteVermelho, transparente, íris nítida
IIOpacidade com íris visívelMenor que 1/3Vermelho com discreto branqueamento perilímbico
IIIDetalhes irianos obscurosDe 1/3 a 1/2Menos vermelho, córnea fosca, íris borrada
IVOpacidade importanteMaior que 1/2Pálido e quieto, sem íris visível

As três emergências pelo que a vinheta entrega

Achado da vinhetaQueimadura químicaGlobo abertoOclusão arterial da retina
DorIntensa, com blefaroespasmoModerada, às vezes leve demais para o mecanismoAusente
HiperemiaPresente, e some conforme agravaLocalizada junto à lesãoAusente, olho externamente calmo
PupilaNormalEm gota, irregular, apontando para a lesãoDefeito pupilar aferente relativo
Fundo de olhoNão é o exame do momentoNão se dilata nem se examina antes do reparoRetina pálida com mancha vermelho-cereja macular
Primeiro atoIrrigar, antes de examinarEscudo rígido e não tocarReduzir pressão intraocular e transportar
O que decide o desfechoMinutos até a irrigação e extensão da isquemia limbarAcuidade visual inicial e defeito pupilar aferenteTempo de isquemia e a fonte embólica encontrada

O piso de 20 minutos de irrigação aparece nos dois cartões nacionais, mas com gramática diferente: no cartão de trauma ocular ele é alternativa ao trajeto, e no de descontaminação é mínimo obrigatório que pode ocorrer durante o trajeto. Adote a leitura do segundo.

A coluna que governa o prognóstico da queimadura é a da isquemia limbar, não a da córnea. Quando as duas discordam, a tabela original não resolve o empate.

Escudo rígido significa apoio na borda óssea da órbita, com vão de ar sobre a córnea. Um copo plástico fixado com esparadrapo cumpre a função; gaze acomodada sobre o globo, não.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto tempo se irriga um olho que recebeu produto químico?

Irrigação mantida durante o trajeto para o hospital ou por um tempo mínimo de 20 minutos — a conjunção alternativa permite, na letra, que um transporte curto substitua o piso; e o subcaso do agente em pó não repete piso algum.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Básico de Vida, protocolo BT7 (Trauma ocular), elaboração agosto/2014, revisão abril/2015.

Lavagem com fluxo contínuo, pálpebras abertas, do canto nasal para a lateral, por no mínimo 20 minutos, podendo ser realizada durante o transporte ao hospital — aqui o piso é obrigatório e o trajeto é apenas onde ele acontece.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Básico de Vida, protocolo BTox 12 (Descontaminação), elaboração janeiro/2016.

Lavagem de duração menor que 5 a 10 minutos é considerada tempo inadequado — critério pelo qual todos os 42 pacientes da série que lavaram o olho lavaram mal.

Noia LC, Araújo AHG, Moraes NSB. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia. 2000;63(5):369-73.

Na prova

A banca brasileira quase nunca cobra o número: cobra a ordem dos atos. Quando o número aparece, o recorte é o do protocolo nacional de suporte básico, e a resposta esperada é irrigação copiosa e prolongada mantida até normalização do pH, com 20 minutos como piso. Enunciado que ofereça medir pH, medir acuidade ou aguardar o oftalmologista antes de irrigar está testando a ordem, não a duração.

Depois de quantos minutos de isquemia a retina está definitivamente perdida?

Após 240 minutos de isquemia o tecido retiniano normalmente apresenta dano maciço e irreversível, com o número derivado de estudos experimentais em macacos Rhesus.

Barcelos MA et al. Oclusão da artéria central da retina em paciente com poliangeíte microscópica. Revista Brasileira de Oftalmologia. 2015;74(6):386-9.

A retina é muito sensível à hipóxia e, após 90 minutos de isquemia, o dano se torna permanente.

Hueb DC et al. Oclusão da artéria central da retina por embolia gordurosa após injeção facial de gordura autóloga. Revista Brasileira de Oftalmologia. 2024;83:e0038.

Na prova

Nenhuma banca brasileira cobra esse número como gabarito, justamente porque há dois em circulação. O que ela cobra é a consequência comum aos dois: a oclusão arterial da retina é emergência de encaminhamento imediato, e não caso ambulatorial. Enunciado que ofereça repouso, seguimento eletivo ou consulta em uma a duas semanas está testando essa fronteira.

O que se coloca sobre um globo ocular aberto antes do transporte?

Cobrir o globo ocular com gaze umedecida em soro fisiológico e proteger o local, sem exercer pressão direta e sem curativo compressivo.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Básico de Vida, protocolo BT7 (Trauma ocular).

Oclusor rígido sem compressão, apoiado na borda óssea da órbita, mantendo vão de ar sobre a córnea, associado a jejum, antibiótico sistêmico e tomografia de órbitas.

Conduta esperada em trauma ocular aberto conforme a literatura oftalmológica brasileira de trauma; ver Deud BG et al. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia. 2021;84(6):576-81, para o desfecho que essa conduta protege.

Na prova

O recorte decide. Questão que se apresenta como protocolo de atendimento pré-hospitalar aceita a gaze umedecida do cartão nacional; questão de conduta médica de emergência espera o escudo rígido. O que as duas exigem em comum, e o que o distrator sempre viola, é a proibição de compressão e de qualquer colírio.

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Caso resolvido

Homem de 34 anos, pedreiro, é levado à unidade de pronto atendimento quinze minutos após respingo de argamassa com cal no olho direito, durante o trabalho. Não usava proteção ocular. Refere dor intensa e visão borrada. Ao exame há blefaroespasmo importante, hiperemia conjuntival difusa com áreas de palidez perilímbica e opacificação corneana discreta, com a íris ainda visível. O enfermeiro pergunta se deve aferir a acuidade visual e o pH da lágrima antes de chamar o médico.
Passo 1 — Interrompa o mecanismo antes de descrevê-lo
Nada precede a irrigação. Deite o paciente com a cabeça lateralizada para o lado direito, instile anestésico tópico apenas para vencer o blefaroespasmo, everta as duas pálpebras e inicie fluxo contínuo de soro fisiológico do canto nasal para o canto auricular, protegendo o olho esquerdo. A resposta ao enfermeiro é que acuidade e pH vêm depois.
Passo 2 — Trate o formato do agente, não só sua natureza
Cal é álcali em pó, e pó forma grumo. Antes e durante a irrigação, varra os fundos de saco superior e inferior com haste de algodão úmida, retirando o particulado. Sem essa etapa, o jato dissolve a superfície do grumo e mantém o núcleo queimando por baixo.
Passo 3 — Fixe o piso de tempo pela leitura correta
Mantenha a irrigação por no mínimo 20 minutos e siga irrigando durante o transporte. O cartão nacional de descontaminação escreve o piso como obrigatório e o trajeto como o lugar onde ele pode acontecer; é essa a leitura a adotar, e não a que trata o trajeto como substituto do piso.
Passo 4 — Só agora, examine e classifique
Meça a acuidade de cada olho separadamente e registre. Córnea opaca com íris ainda visível e isquemia limbar menor que um terço colocam o caso no grau II de Hughes. Anote a extensão do branqueamento perilímbico em frações da circunferência: é esse número, e não a intensidade da hiperemia, que carrega o prognóstico.
Passo 5 — Encaminhe e feche o circuito administrativo
Encaminhamento oftalmológico de emergência com o horário do acidente, o horário de início da irrigação, a duração dela e a acuidade medida. O evento é acidente de trabalho: comunique formalmente o empregador para emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho e notifique o agravo, seguindo os prazos que o capítulo de acidente de trabalho ensina. Registre em prontuário a ausência de proteção ocular.
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Agora feche você

Duas mulheres de 68 anos chegam ao pronto-socorro na mesma manhã com perda visual. A primeira relata que a vista do olho esquerdo apagou de uma vez, há 40 minutos, sem dor, sem vermelhidão e sem secreção; é hipertensa, tem fibrilação atrial e suspendeu a anticoagulação por conta própria há dois meses; o pulso está irregular. A segunda relata que enxerga cada vez pior do olho esquerdo há dois anos, com ofuscamento à noite, também sem dor e sem vermelhidão; refere que já trocou de óculos três vezes sem melhorar.
Passo 1
Separe as duas pelo tempo de instalação antes de qualquer exame, e diga qual delas rompe a regra de que baixa de visão sem dor e sem olho vermelho é assunto ambulatorial.
Passo 2
Descreva os dois achados de exame que confirmam a hipótese da primeira, um de pupila e um de fundo de olho, e explique por que a mácula aparece com cor diferente do resto da retina.
Passo 3
Diga o que fazer com a primeira nos próximos minutos, e depois qual investigação etiológica é prioritária e por que ela é a parte da conduta com benefício demonstrado.
Passo 4
Diga qual capítulo desta apostila resolve a segunda paciente, e qual das três características que definem aquele capítulo a primeira paciente também tem.
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Onde a banca derruba

  1. 1Achar que o olho mais vermelho é o mais grave na queimadura química É o inverso. A isquemia limbar destrói os vasos perilímbicos, e o setor comprometido deixa de sangrar e fica branco. Grau IV é olho pálido e quieto, com córnea opaca e sem íris visível. Branqueamento perilímbico numa vinheta de respingo de cal ou soda cáustica é sinal de gravidade, não de melhora.
  2. 2Medir acuidade visual, pH ou pressão antes de irrigar Nenhuma medida precede a irrigação na queimadura química. É a única situação da oftalmologia em que a conduta antecede o exame, porque o agente segue reagindo enquanto estiver na superfície. Alternativas que oferecem aferir acuidade de ambos os olhos, medir pH da lágrima ou aguardar avaliação especializada estão testando exatamente isso.
  3. 3Neutralizar ácido com base, ou base com ácido A reação de neutralização é exotérmica e acrescenta queimadura térmica à química. Água ou soro fisiológico em fluxo contínuo, em volume grande, é a resposta correta para qualquer agente. Colírio neutralizante e água boricada não são conduta — na série brasileira quatro pacientes usaram leite, óleo ou água boricada no olho.
  4. 4Jogar água sobre agente em pó sem retirar o particulado antes Cal e massa fina formam grumos que se alojam nos fundos de saco e continuam queimando debaixo do jato. A sequência é everter as duas pálpebras, varrer com haste úmida, retirar o particulado e só então irrigar de forma contínua. Cal e massa fina foram o agente de 19 dos 47 casos da série brasileira, 40,4% do total.
  5. 5Medir a pressão intraocular de um olho com suspeita de globo aberto Nem por palpação bidigital, nem por tonômetro. Qualquer compressão sobre um globo lacerado extrude humor vítreo, cristalino e úvea, e o que sai não volta. A mesma proibição vale para forçar a abertura das pálpebras e para remover corpo estranho cravado.
  6. 6Tranquilizar-se com queixa modesta em mecanismo de alta energia Fragmento metálico lançado por martelo sobre metal atravessa a córnea com orifício pequeno, e o paciente pode referir apenas desconforto e sensação de corpo estranho. Pupila em gota apontando para a lesão, câmara rasa ou com sangue e sinal de Seidel positivo obrigam a tratar como globo aberto mesmo sem história clara.
  7. 7Chamar de conjuntivite o olho vermelho pós-trauma para ganhar tempo Não há conjuntivite que altere a pupila. Pupila irregular, em festão ou em gota reclassifica o caso para cima imediatamente. O mesmo vale para hifema: sangue na câmara anterior nunca é achado de conjuntivite.
  8. 8Encaminhar a oclusão arterial da retina para ambulatório porque o olho está branco e não dói Ausência de dor e ausência de hiperemia levam ao raciocínio de doença crônica, mas aqui a perda é súbita, monocular e completa, com defeito pupilar aferente relativo. Esse conjunto é infarto de território carotídeo, e a conduta é emergência, com investigação de fonte embólica igual à de um acidente vascular.
  9. 9Confundir as duas manchas vermelho-cereja Na retina, a mancha vermelho-cereja da mácula é o tecido ainda perfundido pela coroide sobre um fundo isquêmico e opaco. Na pele, a coloração vermelho-cereja é achado de intoxicação por monóxido de carbono, com saturação de pulso falsamente normal. São sinais sem parentesco, com nome igual, e a vinheta às vezes brinca com isso.
  10. 10Anticoagular a oclusão arterial na emergência como se fosse oclusão venosa As medidas imediatas visam reduzir a pressão intraocular e deslocar o êmbolo: massagem ocular digital, paracentese de câmara anterior, acetazolamida, manitol. Anticoagulação plena imediata e fotocoagulação pertencem a outros quadros, e a literatura brasileira registra que não há consenso nem protocolo de seguimento para a oclusão arterial.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Perda visual súbita, indolor e grave com defeito pupilar aferente relativo e mancha vermelho-cereja na mácula sobre retina pálida é o quadro clássico de oclusão da artéria central da retina — emergência oftalmológica. As medidas imediatas incluem massagem ocular digital e redução da PIO (para tentar deslocar o êmbolo). O descolamento de retina cursa com flashes, moscas e defeito de campo, sem mancha vermelho-cereja. A oclusão da veia central mostra hemorragias em chama de vela difusas ("blood and thunder"), não retina pálida. A neuropatia óptica isquêmica cursa com edema de papila, não mancha macular. A hemorragia vítrea obscurece o fundo à fundoscopia.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Diga em voz alta a ordem dos atos na queimadura química — irrigar antes de qualquer medida, particulado antes de líquido, vinte minutos como piso e não como alternativa ao trajeto — e desenhe de memória as quatro linhas da tabela de Hughes, com a coluna da isquemia limbar à direita. Depois recite a lista de negativas do globo aberto e as cinco afirmativas que a acompanham. Por fim, descreva a fundoscopia da oclusão arterial em uma frase e diga qual exame etiológico você pede primeiro.

em 30 dias

Refaça a aritmética que sustenta duas afirmações deste capítulo: some as contagens de agentes químicos da série brasileira e confira que o denominador é 47, o que prova que 4 casos valem 8,51% e não 4,26%; e some, linha a linha, a coluna de olhos com visão final acima de 20/200 da tabela de trauma, conferindo que cinco linhas dão 39 e uma dá 37. Em seguida, diga sem consultar os dois números de tempo de isquemia retiniana em circulação na literatura brasileira, qual deles vem de modelo animal, e por que a conduta não muda com a escolha.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 34 anos, funileiro, chega ao pronto-socorro quarenta minutos depois de sentir algo atingir o olho direito enquanto batia uma peça de aço com marreta. Não usava óculos de proteção. Queixa-se de dor moderada e sensação de corpo estranho que não melhora ao piscar. Está apreensivo, pergunta se pode voltar ao trabalho amanhã e insiste para que você lave o olho dele com soro. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Emergências oftalmológicas: o olho que embranquece e os dois relógios da retina — Preparatório para provas | OsceLabs