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Exame ocular antes de encaminhar: as manobras que trocam a porta

Exame ocular antes do encaminhamento: acuidade, pupila, campo e fundo de olho

Acuidade, pupilas, motilidade e exame do segmento anterior

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 56 anos, míope alto, procura a unidade básica há dois dias com flashes luminosos no campo temporal do olho direito e, desde ontem, várias manchas escuras flutuantes no mesmo olho. Nega dor, hiperemia e trauma. Acuidade visual com correção: 20/25 à direita e 20/20 à esquerda. Pupilas isocóricas e reagentes, sem defeito pupilar aferente relativo. Inspeção com lanterna sem alterações. Não há oftalmoscópio na unidade. O protocolo de regulação do município classifica fotopsias e moscas volantes agudas na cor vermelha, de prioridade eletiva muito alta. Qual é a conduta correta?

02

Como esse tema cai

Todo encaminhamento oftalmológico carrega um exame. O que a atenção primária faz com uma lanterna, um cartão de acuidade e — quando existe — um oftalmoscópio é o único exame ocular que o serviço especializado vai ler antes de marcar a consulta. Ele não fecha diagnóstico e não precisa fechar. O que ele decide é outra coisa: se a pessoa entra numa fila de meses ou atravessa hoje a porta da emergência. Este capítulo trata desse ato — as manobras que cabem num consultório sem oftalmologista, o que cada uma subtrai e a porta que ela escolhe.

O recorte se justifica por um vão de fronteira. As doenças já têm dono nesta mesma apostila: o olho vermelho e a crise de fechamento angular, o glaucoma crônico de ângulo aberto, a catarata com os erros de refração, e as três emergências que se decidem na porta — queimadura química, globo aberto e oclusão arterial da retina. A retinopatia diabética mora na apostila de clínica médica, dentro das complicações microvasculares, e a hipertensiva, no capítulo de crise hipertensiva. O reflexo vermelho do recém-nascido e o rastreamento do prematuro pertencem à Pediatria. Sobrou o instrumento: quem o encosta no olho, com que pupila, e o que faz com o que viu.

Há duas réguas brasileiras em cima da mesa, e elas não pedem a mesma coisa do mesmo médico. Uma delas lista cinco manobras que o encaminhamento deveria trazer, e a última é o fundo de olho. A outra, com quase o dobro de páginas, nunca escreve a palavra oftalmoscopia: pede a acuidade de cada olho, os sintomas, e a foto da retina quando houver. As duas descrevem o mesmo país e o mesmo nível de atenção. A diferença entre elas não é de detalhe — é sobre o que se espera que o médico da unidade básica saiba ver.

O que entra: as cinco manobras, uma a uma, com o que cada uma exclui e o que ela não exclui; a pupila estreita como limite físico do que se enxerga da retina; a decisão de dilatar; a fotografia como substituta do aparelho e o que ela deixou de fora; e a régua da porta — o conjunto de queixas que, medido no consultório, não pode entrar em fila eletiva. Ficam de fora, por terem dono ao lado: a triagem do olho vermelho pelos três dados de hiperemia, dor e visão; os limiares de acuidade que indicam cirurgia de catarata; e o valor prognóstico da acuidade no trauma ocular.

03

O que muda decisão

O encaminhamento é o exame que chega antes do paciente

Quando a unidade básica escreve um encaminhamento para oftalmologia, o documento viaja sozinho. Chega a uma central de regulação, é lido por alguém que não viu a pessoa, e recebe uma classificação que determina quanto tempo ela espera. Nada do que aconteceu no consultório sobrevive além do que ficou escrito. Por isso o conteúdo descritivo mínimo — a lista de dados que cada protocolo exige do médico que encaminha — não é burocracia: é a única forma que o achado clínico tem de virar prioridade.

As duas réguas estaduais lidas aqui concordam num ponto e divergem no resto. Concordam que a acuidade visual de cada olho tem de estar escrita, com a informação de ter sido medida com ou sem a lente corretiva que a pessoa usa. Divergem em tudo o mais. O protocolo capixaba sugere um exame oftalmológico sucinto de cinco itens, que termina no fundo de olho por oftalmoscopia direta. O protocolo gaúcho, ao longo de oito fluxos e vinte e seis páginas, nunca menciona oftalmoscopia, campo visual, lâmpada de fenda, tonometria ou midríase: pede sintomas, acuidade e, para a retina, o laudo da fotografia, se houver.

A divergência não é ideológica. O serviço gaúcho está acoplado a um projeto de telediagnóstico ocular que oferece acuidade, refração, medida de pressão intraocular e documentação por imagem sem que a pessoa saia da atenção primária. Onde existe esse caminho, faz sentido pedir ao médico o que ele mede bem e delegar o resto ao equipamento; onde não existe, a régua volta a pedir o exame das mãos. As duas são coerentes com o próprio arranjo de serviço — e é isso que torna perigoso decorar uma delas como regra do país.

O que sobrevive às duas é o princípio: o encaminhamento tem de dizer o que foi medido e o que não foi. Escrever 'exame ocular normal' sem informar que manobra se fez é pior do que não escrever nada, porque induz quem regula a supor uma exclusão que ninguém fez. A frase útil descreve o ato: acuidade de cada olho, reflexos pupilares comparados, campo por confrontação, inspeção com lanterna e — se houve — fundo de olho, dizendo se a pupila estava dilatada.

Acuidade visual: um olho de cada vez, com a correção que a pessoa usa

A acuidade é a única medida ocular que qualquer consultório produz, e é a que ambas as réguas exigem. Ela responde a uma pergunta estreita e valiosa: quanto detalhe o sistema visual resolve naquele olho, agora. Não diz onde está a lesão, não separa córnea de retina de nervo, e não exclui doença. Fixa um número no tempo — e é a comparação entre dois números, ou entre os dois olhos, que carrega quase toda a informação.

Mede-se um olho de cada vez, com o outro ocluído sem pressão, à distância prevista pelo cartão, com a pessoa usando a correção que já tem. Ocluir apertando o globo embaça o olho tapado e contamina a medida seguinte. Medir sem os óculos habituais transforma présbita e míope em suspeitos de doença. E medir os dois olhos juntos apaga justamente o dado que mais decide: a assimetria. Um olho que enxerga bem compensa o outro no dia a dia, e é por isso que perdas unilaterais graves chegam tarde, descobertas por acaso quando a pessoa tapa um olho.

Quando a pessoa não distingue a maior figura do cartão, a escala continua fora dele, em degraus grosseiros e universais: contar dedos a uma distância anotada, movimento de mãos, percepção luminosa e ausência de percepção luminosa. São medidas rudimentares e perfeitamente registráveis. Escrever 'não enxerga' desperdiça a diferença entre um olho que ainda percebe luz e um que não percebe — diferença que, em várias urgências, separa o que se tenta salvar do que já se perdeu.

A leitura clínica do número tem uma regra simples: acuidade preservada não tranquiliza sozinha. A visão central ocupa fração minúscula da retina, e as doenças que começam pela periferia — a que descola, a que perde campo devagar — convivem por meses com um cartão perfeito. O contrário também vale: acuidade baixa que melhora com correção óptica, ou com o pequeno orifício que o capítulo de refração desta apostila ensina, aponta erro refrativo e desliga o alarme.

A pupila responde, e o que ela responde não depende de aparelho

Depois da acuidade, a manobra de maior rendimento por segundo gasto é o exame pupilar, e ela não precisa de nada além de uma lanterna e de um cômodo com pouca luz. Observa-se o tamanho das duas pupilas, a resposta direta — a pupila que se contrai sob a luz que a atinge — e a resposta consensual — a outra pupila, que se contrai junto. As duas vias, a que leva a informação e a que devolve a ordem, são diferentes, e é a dissociação entre elas que localiza.

A manobra que mais informa é comparativa: a luz alterna entre um olho e outro, com ritmo constante. Se um dos olhos, ao receber a luz, dilata em vez de contrair, ele está enxergando menos luz do que o outro estava enxergando um instante antes. Esse é o defeito pupilar aferente relativo, e o seu valor é ser objetivo: não depende de o paciente colaborar, não depende de queixa, e não some porque a pessoa está ansiosa. Ele diz que a assimetria é do nervo ou de uma extensão grande de retina, e não da córnea ou do cristalino.

O que ele não diz é igualmente útil. Opacidade de meios — catarata densa, córnea embaçada, sangue no vítreo — reduz muito a visão e, ainda assim, não produz defeito aferente relativo, porque a luz difusa continua chegando à retina em quantidade suficiente. Logo, o achado separa dois grandes grupos com uma lanterna: quem perdeu visão por opacidade e quem perdeu por doença de retina ou de nervo. Perda visual acentuada sem defeito aferente aponta para o primeiro grupo; com defeito aferente, para o segundo.

Vale registrar o limite. Numa perda bilateral e simétrica, os dois olhos enxergam mal por igual e a comparação não acusa nada: o defeito é relativo por definição. Anisocoria fixa, com pupilas desiguais mas ambas reagindo, é outro problema, de via eferente, e a queixa que a acompanha costuma ser de pálpebra ou de visão dupla. Descrever o tamanho de cada pupila, se reagem e se há defeito aferente cabe numa linha, e é com frequência a linha mais informativa do encaminhamento.

Dois quadros esquemáticos com o mesmo par de olhos, mostrando apenas fenda palpebral, íris e pupila: no primeiro, a lanterna ilumina o olho da direita e as duas pupilas ficam pequenas, ligadas por uma seta curva; no segundo, a lanterna passa para o olho da esquerda e a pupila iluminada aparece maior, com uma seta indicando o alargamento.
Alternar a luz entre um olho e outro em ritmo constante é a manobra que mais informa: o olho que dilata ao receber a luz está enxergando menos do que o outro enxergava um instante antes, e esse achado é objetivo — não depende de colaboração nem de queixa.

Campo por confrontação: o quadrante que some antes da visão central

A confrontação de campos é a manobra mais subestimada da lista e a mais fácil de fazer errado. Quem examina senta de frente, à distância de um braço, na mesma altura dos olhos da pessoa. Cada olho é testado sozinho, com o outro tapado, e a pessoa fixa o olho descoberto no olho oposto de quem a examina. Movem-se dedos ou um objeto pequeno na periferia, quadrante por quadrante, e pergunta-se quando aparece. A comparação é com o campo de quem examina, que serve de padrão.

O que essa manobra encontra é o que a acuidade central esconde. Uma sombra ou cortina que avança sobre parte do campo, um quadrante que sumiu, metade do campo que falta nos dois olhos — nada disso muda o número do cartão enquanto a região central estiver preservada. E são justamente esses os defeitos com maior valor de localização: perda que respeita a linha vertical, igual nos dois olhos, fala de via óptica atrás do quiasma; perda que respeita a linha horizontal, num olho só, fala de retina ou de nervo daquele lado; perda concêntrica lenta e bilateral é a assinatura clássica da neuropatia glaucomatosa, que tem capítulo próprio ao lado.

A confrontação é grosseira: só detecta defeitos amplos, e campo confrontado normal não substitui a perimetria de quem investiga glaucoma. O inverso não vale. Defeito encontrado por confrontação é achado positivo e forte, porque é preciso muita perda para aparecer numa manobra tão rudimentar. Achou, mudou a conduta; não achou, não excluiu.

Há um detalhe que separa o exame feito do exame simulado: pedir à pessoa que conte dedos em cada quadrante, em vez de perguntar se ela vê a mão. Perguntar 'vê minha mão?' convida ao sim automático e a resposta socialmente esperada. Contar dedos obriga a resolver detalhe, e é nessa hora que o quadrante ausente aparece. O mesmo vale para o teste comparativo de cor ou de brilho entre os dois olhos, que a pessoa descreve espontaneamente como uma metade mais apagada.

A lanterna: a luz oblíqua e o que ela mostra na superfície

A inspeção com lanterna é o item mais barato da lista e o único que examina diretamente a estrutura, e não a função. A luz vem de lado, quase rasante, e não de frente: a incidência oblíqua cria sombra, e é a sombra que revela relevo, irregularidade de superfície e profundidade da câmara anterior. Luz frontal apaga tudo o que é relevo e produz reflexo que atrapalha.

O que essa manobra resolve na atenção primária é a inspeção externa: posição e integridade das pálpebras, cílios voltados para dentro, lesão de margem palpebral, aspecto da conjuntiva e — o achado que muda a urgência — a transparência da córnea. Córnea transparente reflete a luz como um espelho limpo e deixa ver a íris com nitidez. Córnea que perdeu transparência, com aspecto fosco ou leitoso, ou com uma mancha esbranquiçada localizada, é achado de porta de urgência, e ambas as réguas o tratam assim.

A lanterna também dá o reflexo luminoso na córnea, que é o modo mais rápido de suspeitar de desalinhamento ocular: com a luz projetada de frente, a pequenina imagem refletida deve cair no mesmo ponto das duas córneas. Deslocada num dos olhos, há desvio. E dá ainda uma estimativa grosseira da profundidade da câmara anterior, iluminando o olho pela lateral e observando se a metade nasal da íris fica na sombra — informação que interessa antes de qualquer decisão de dilatar.

O que a lanterna não faz é o que a lâmpada de fenda faz: não mostra célula em câmara anterior, não estratifica a profundidade de uma lesão de córnea e não vê o cristalino em detalhe. Por isso a régua capixaba, ao delegar à atenção primária o manejo das condições mais comuns de olho vermelho, marca a fronteira com uma cláusula de retorno — o quadro que não resolve sai do consultório e vai para quem tem o aparelho.

Motilidade e alinhamento: mover os olhos e perguntar se dobra

A quarta manobra é a mais rápida e a que mais depende da pergunta certa. Pede-se que a pessoa acompanhe um alvo com os olhos, sem mover a cabeça, percorrendo as posições laterais, verticais e oblíquas. Observa-se se os dois olhos chegam juntos a cada posição. E, em cada posição, faz-se a pergunta que transforma a manobra em exame: está dobrando?

A resposta importa mais do que a inspeção, porque limitações discretas escapam ao olho de quem examina e não escapam à percepção de quem enxerga duplo. A visão dupla que desaparece ao tapar qualquer um dos olhos é binocular: os dois olhos estão desalinhados, e a causa é de músculo, de junção neuromuscular, de nervo craniano ou de órbita. A que persiste com um olho tapado é monocular, nasce dentro daquele olho — filme lacrimal irregular, opacidade do cristalino, astigmatismo alto — e não é problema de alinhamento.

Essa separação, feita com a mão do próprio paciente sobre um olho, muda a porta. Desvio de início abrupto, ainda mais se vier com dor de cabeça, visão dupla ou sinais meníngeos, é encaminhamento para emergência clínica — não para a fila da oftalmologia. Desvio antigo, estável, sem sintoma novo, é caso eletivo, e as réguas o classificam pela idade e pelo prejuízo funcional. O mesmo achado, portanto, muda de destino conforme a velocidade de instalação, e a velocidade só se conhece perguntando.

Vale a nota sobre a criança: desvio ocular na infância não espera a fila do adulto, porque o cérebro em desenvolvimento suprime a imagem do olho desviado e a supressão prolongada consolida perda visual que depois não se recupera. Daí a idade ser dado de encaminhamento, e não detalhe demográfico.

O oftalmoscópio direto: janela estreita, pupila estreita

A quinta manobra é a que quase ninguém faz. Numa entrevista com médicos de família de um serviço universitário, apenas dois dos doze tinham oftalmoscópio e um único realizava o exame na rotina — e essa é a base realista sobre a qual qualquer recomendação precisa ser lida. As barreiras relatadas foram operacionais antes de serem de conhecimento: manejar o aparelho com as duas mãos, escolher a luz, achar o foco, escurecer a sala, não ter aparelho nem colírio dilatador na unidade, e não ter tempo de consulta.

A física explica parte disso. O oftalmoscópio direto forma uma imagem direita e muito ampliada de uma área pequena, e o preço da ampliação é o campo: por uma pupila não dilatada, o que se enxerga é basicamente o polo posterior — disco óptico, os vasos que saem dele e a região central. A periferia da retina, onde começam os descolamentos e boa parte das lesões vasculares, fica fora do alcance. Não é falta de habilidade: é o que o instrumento entrega.

O que cabe nessa janela estreita ainda é muito. O disco óptico dá a margem — nítida ou borrada e elevada —, a cor, e a proporção entre a escavação central e o diâmetro do disco, que é o dado do glaucoma crônico, com dono ao lado. Os vasos dão calibre, trajeto e a relação nos cruzamentos. E o polo posterior dá as lesões elementares que outras apostilas leem em detalhe: hemorragias, exsudatos duros e algodonosos, microaneurismas, neovasos e edema. Vendo isso, o encaminhamento deixa de ser uma suspeita e passa a ser uma descrição.

Há duas advertências de método. A primeira: o exame se faz com o olho correspondente — olho direito de quem examina para o olho direito de quem é examinado —, sob risco de encostar narizes e perder o alinhamento. A segunda, mais grave: não ver o fundo não é achado normal. O que impede de ver — pupila estreita, catarata, sangue no vítreo, córnea opaca — pode ser exatamente a doença. Registrar 'fundo não visualizado, e por quê' é informação; registrar 'fundoscopia normal' quando nada se viu é apagar um dado.

Dilatar: o que a midríase abre e o que ela custa

A pupila é o diafragma da câmara, e o campo que o oftalmoscópio alcança depende do seu diâmetro. Numa sala clara, a pupila do adulto fica em poucos milímetros, e o cone de visão que ela permite mal cobre o disco e a região central. Escurecer a sala ajuda um pouco — a dilatação fisiológica é real e gratuita —, mas é lenta, instável e desfeita pela própria luz do aparelho. A midríase farmacológica existe para resolver isso, e a dificuldade de indicá-la aparece entre as barreiras relatadas por quem deveria usá-la.

O colírio dilatador de escolha para exame é o de ação anticolinérgica curta, que abre a pupila em cerca de vinte a trinta minutos e reverte em algumas horas, com paralisia parcial e transitória da acomodação. Daí seguem duas consequências: a pessoa sai da consulta com visão para perto embaçada e fotofobia, e deve ser orientada a não dirigir até a reversão. Explicar isso antes evita que ela atribua o embaçamento à doença.

O receio clássico é precipitar uma crise de fechamento angular ao dilatar. Ele merece proporção. O risco existe, é raro e concentra-se num perfil identificável: olho com câmara anterior rasa, que a própria lanterna sinaliza pela sombra na metade nasal da íris. Diante desse perfil, a decisão de dilatar deixa de ser de rotina. A contraindicação de fato inegociável é outra e não tem a ver com o olho: pupila que está servindo de monitor neurológico, em traumatismo craniano ou rebaixamento de consciência, não se dilata, porque a droga apaga o único sinal que se está vigiando.

Fora dessas duas situações, a pergunta não é se pode dilatar, e sim o que se perde ao não dilatar. Exame de retina sem dilatação vê o polo posterior; com dilatação, vê mais. Quando a indicação é procurar lesão de retina em quem não tem queixa visual, a versão sem dilatação responde a uma pergunta menor do que a que foi feita — e a diferença não aparece no laudo, aparece no que ficou fora do campo.

A foto no lugar do aparelho: o que o telediagnóstico resolveu

A saída brasileira para o gargalo não foi treinar todo mundo no oftalmoscópio: foi fotografar a retina na unidade básica e mandar a imagem para leitura remota. É por isso que a régua gaúcha pede o laudo da fotografia e não a oftalmoscopia. A troca resolve três problemas de uma vez: dispensa a destreza manual, produz um registro permanente que pode ser reavaliado e comparado, e desloca a interpretação para quem tem treino, sem deslocar a pessoa.

A leitura também pode ficar perto. Num estudo brasileiro de dois braços, catorze médicos sem formação em oftalmologia leram fotografias coloridas de retina antes e depois de um curso de duas horas. A sensibilidade para identificar retinopatia diabética subiu de oitenta e dois para noventa e nove por cento, e a especificidade, de quarenta e quatro para oitenta e três. O padrão do antes é o que mais ensina: sensibilidade alta com especificidade baixíssima é o comportamento de quem, sem treino, chama quase tudo de alterado — protege a pessoa e entope a fila.

A fotografia também tem borda. No mesmo estudo, dez olhos saíram da análise, e oito deles por opacidade de meios que inviabilizou a imagem — catarata, córnea, vítreo. Ou seja: a mesma condição que mais atrapalha o oftalmoscópio atrapalha a câmera, e o resultado não é uma foto ruim, é a ausência de exame. Imagem de qualidade insuficiente não é laudo tranquilizador; é indicação de exame presencial. E a retinografia colorida, por ser plana, não dá a percepção de profundidade que identifica espessamento da região central — motivo pelo qual quadros de mácula continuam pedindo avaliação estereoscópica.

Fica ainda um efeito de sistema que uma das entrevistas descreve com precisão desconfortável: existir a via de telediagnóstico pode desestimular o aprendizado do aparelho, e quem se muda para um lugar sem essa via descobre a lacuna tarde. A tecnologia resolve o acesso onde chega; onde não chega, resta a lanterna, o cartão, a confrontação e as mãos.

O sintoma escolhe a porta, e a fila não corrige o erro

Feito o exame, resta a decisão que este capítulo persegue: para onde vai a pessoa. E aqui as duas réguas brasileiras lidas colocam o mesmo paciente em portas opostas. O quadro em disputa é bem definido: percepção súbita de sombra ou cortina sobre parte do campo, fotopsia — flashes luminosos —, moscas volantes ou metamorfopsia, a percepção de que linhas retas ficaram tortas. Pode vir com acuidade central intacta, e frequentemente vem.

A régua gaúcha põe esse conjunto entre as condições que indicam encaminhamento para emergência oftalmológica, e reforça no preâmbulo ao dar preferência ao descolamento de retina com até duas semanas de evolução, expressamente após avaliação em emergência. A capixaba põe o mesmo conjunto — flashes, moscas volantes e déficit de campo, agudos ou subagudos — na cor de prioridade muito alta do sistema de regulação, isto é, na fila eletiva; e o próprio documento declara, na abertura, que esse sistema não se destina a vagas urgentes nem a emergências. Sua lista de urgência tem seis itens, e o descolamento de retina não está entre eles.

A conta clínica que decide é a da mácula. Enquanto a retina descolada não alcança a região central, a visão central permanece e a cirurgia tem chance de preservá-la; depois que a região central se solta, boa parte da acuidade não volta, mesmo com a retina recolocada. O intervalo em que se ganha é exatamente aquele em que a queixa é de flashes, moscas e cortina — com o cartão de acuidade ainda cheio. É o quadro que uma fila eletiva não distingue de uma queixa banal, porque nele o número está normal.

A leitura operacional para quem examina é curta e não depende de qual protocolo está em vigor na cidade. Diante de flash, mosca volante nova, cortina ou distorção de linhas retas, a velocidade de instalação vale mais do que a acuidade medida: início súbito manda para a porta, mesmo com visão central preservada, e a fila eletiva só entra depois que alguém com lâmpada de fenda e retina dilatada afastou o descolamento. Quando o protocolo local disser outra coisa, o encaminhamento deve registrar a data de início — é o dado que permite a quem regula reclassificar.

O que um exame normal não exclui, e o conectivo que apaga gente

Todo item da lista tem limite conhecido, e escrevê-lo vale tanto quanto escrever o achado. Acuidade normal não exclui glaucoma inicial, descolamento periférico nem lesão de campo. Pupilas simétricas e reagentes não excluem doença bilateral e simétrica. Confrontação normal não exclui defeito pequeno de campo. Lanterna normal não exclui doença dentro do olho. E fundo visto sem dilatação não exclui o que está fora do polo posterior.

Some-se a isso o problema de quem lê o documento. Protocolo é texto, e texto tem conectivo. A régua capixaba, ao listar as crianças que devem ser prontamente encaminhadas, escreve prematuras com menos de trinta e duas semanas de idade gestacional e menos de mil e quinhentos gramas de peso ao nascer. A diretriz nacional das sociedades de pediatria e de oftalmologia, que consta da lista de referências do próprio protocolo, escreve peso de nascimento menor ou igual a mil e quinhentos gramas e/ou idade gestacional menor ou igual a trinta e duas semanas. A troca de um conectivo pelo outro apaga uma população inteira: o prematuro de trinta e quatro semanas com mil trezentos e oitenta gramas cumpre o critério nacional pelo peso e falha no critério estadual por não cumprir os dois.

O mesmo defeito aparece na tabela de cores. Baixa de acuidade crônica na criança recebe prioridade alta quando ela tem menos de dez anos e prioridade média quando tem acima de dez anos. A criança de dez anos exatos não tem cor — e é justamente a que está no fim da janela em que a supressão visual da infância ainda responde a tratamento. Nenhum dos dois casos é erro de medicina: é erro de redação com consequência clínica, e quem encaminha o corrige descrevendo o dado bruto — idade, peso, semana — em vez da categoria do protocolo.

A conclusão prática fecha o capítulo onde ele começou. O exame ocular do não especialista não existe para diagnosticar; existe para produzir um documento que classifique certo. Ele consegue isso quando registra o que mediu, o que não conseguiu medir e por quê, quando informa a velocidade de instalação da queixa, e quando descreve dado bruto em vez de rótulo. Feito assim, um exame de cinco minutos com uma lanterna e um cartão vale mais, dentro de uma central de regulação, do que uma hipótese diagnóstica sem número nenhum.

04

Da queixa à porta: o que medir, o que escrever e para onde mandar

A régua abaixo organiza a decisão na ordem em que ela acontece no consultório: primeiro a manobra, depois o achado, depois a porta. Os cartões mostram as quatro manobras que não dependem de aparelho caro e o que cada uma subtrai. O fluxo é a sequência do exame. A tabela cruza a queixa com o destino segundo os dois protocolos estaduais lidos — e as linhas em que eles discordam estão marcadas na coluna de observação, porque é ali que a decisão precisa de julgamento clínico, não de memória de protocolo.

  1. 1Pergunte antes de examinar: há quanto tempo começou, foi súbito ou lento, é um olho ou os dois, dói ou não dói, e o que exatamente a pessoa vê de diferente (borrado, cortina, flash, mancha voando, linha torta, visão dupla).
  2. 2Meça a acuidade de cada olho separadamente, com a correção habitual, e registre o valor de cada um; abaixo do cartão, use contar dedos com distância anotada, movimento de mãos ou percepção luminosa.
  3. 3Examine as pupilas: tamanho de cada uma, resposta direta e consensual, e a luz alternando entre os dois olhos à procura de defeito aferente relativo.
  4. 4Confronte os campos, um olho de cada vez, pedindo que a pessoa conte dedos em cada quadrante.
  5. 5Ilumine com a lanterna de lado: pálpebras, cílios, conjuntiva, transparência da córnea, reflexo luminoso corneano nos dois olhos e a sombra na metade nasal da íris.
  6. 6Peça o seguimento do alvo nas posições do olhar e, em cada uma, pergunte se está dobrando; se dobrar, mande tapar um olho e veja se a duplicação desaparece.
  7. 7Se houver oftalmoscópio e a pupila permitir, olhe disco, vasos e polo posterior; se não conseguir ver, escreva que não viu e por quê.
  8. 8Escolha a porta pela velocidade e pelo tipo de queixa, não pelo número da acuidade; depois escreva no encaminhamento o que mediu, o que não mediu e a data de início.

Acuidade

Um olho de cada vez, oclusão sem pressão, com a correção que a pessoa usa. Abaixo do cartão a escala continua: contar dedos a uma distância anotada, movimento de mãos, percepção luminosa, ausência de percepção. Subtrai erro refrativo quando melhora com correção; não subtrai glaucoma inicial nem descolamento periférico.

Pupila

Direto e consensual, e depois a luz alternando entre os olhos com ritmo constante. Pupila que dilata ao receber a luz tem defeito aferente relativo: a perda é de nervo ou de retina extensa. Opacidade de meios não produz esse achado — é o que separa catarata densa de doença de retina com uma lanterna.

Campo

Um olho de cada vez, à distância de um braço, fixando o olho oposto de quem examina, contando dedos em cada quadrante. Achado positivo é forte, porque a manobra é grosseira e só acusa perda ampla. Campo confrontado normal não substitui perimetria em quem se investiga por glaucoma.

Fundo

O oftalmoscópio direto entrega imagem muito ampliada de uma área pequena: por pupila não dilatada, quase só o polo posterior. Dentro dele cabem disco, vasos e lesões elementares. Fora dele fica a periferia, onde começam os descolamentos. Não ver o fundo não é achado normal — registre o que impediu.

Queixa ou achadoTelessaúdeRS-UFRGS, Oftalmologia Adulto 2023Protocolo estadual capixaba (ICEPi/SESA-ES)Observação
Redução súbita da acuidade visualEmergência oftalmológicaUrgência/emergência (item 14.4), fora do sistema de regulaçãoConcordam
Sombra ou cortina no campo, fotopsia, moscas volantes ou metamorfopsia, agudasEmergência oftalmológica (mesma linha da perda súbita)Cor vermelha — fila eletiva de prioridade muito altaDiscordam: porta diferente para o mesmo quadro
Descolamento de retinaPreferência no encaminhamento até 2 semanas de evolução, após avaliação em emergênciaNão figura na lista de seis condições de urgênciaDiscordam: ausência de um lado
Dor ocular intensa com córnea fosca e globo tensoEmergência oftalmológicaUrgência (item 14.5, glaucoma agudo)Concordam
Mancha branca na córnea com dor e fotofobiaCeratite/úlcera em atividade tem preferênciaUrgência (item 14.6, úlcera de córnea)Concordam
Desvio ocular de início abrupto com cefaleia ou sinais meníngeosEmergência clínica (não oftalmológica)Não especificado com essa granularidadePorta clínica, não oftalmológica
Baixa de visão crônica, indolor, sem olho vermelhoTeleOftalmo ou oftalmologia de média complexidadeEletivo, cor conforme idade e prejuízo funcionalConcordam no eletivo
Exame que o encaminhamento deve conterAcuidade de cada olho, com ou sem correção; sintomas; laudo de retinografia quando houverAcuidade com Snellen, reflexos pupilares, campo de confrontação, lanterna, motilidade e fundo de olhoDiscordam: só um dos dois pede fundo de olho

Os dois documentos são estaduais e regulam redes diferentes. Nenhum deles revoga o outro, e o médico segue o que estiver pactuado na sua região — mas a decisão de porta diante de flash, mosca volante e cortina de início súbito não deve depender de qual protocolo a cidade adotou.

A coluna do protocolo capixaba reproduz a classificação por cor do sistema de autorregulação formativa, que o próprio documento declara destinado apenas a consultas, exames e procedimentos eletivos.

A linha do descolamento de retina descreve uma ausência: o quadro não consta da seção de urgência e emergência do protocolo estadual capixaba. Ausência foi conferida na leitura integral das seis condições listadas.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Flash, mosca volante e cortina de início súbito: emergência ou fila eletiva de alta prioridade

TelessaúdeRS-UFRGS (2023): emergência oftalmológica

Sob o título 'Condições clínicas que indicam a necessidade de encaminhamento para emergência oftalmológica': 'diminuição de acuidade visual aguda ou queixa visual associada à percepção súbita de sombra ou cortina sobre parte do campo de visão, fotopsia (flashes luminosos), moscas volantes ou metamorfopsia'. No preâmbulo, o documento dá preferência a 'descolamento de retina com até 2 semanas de evolução (após avaliação em emergência)'.

Protocolos de Regulação Ambulatorial — Oftalmologia Adulto, versão digital 2023, Protocolo 1 e Protocolo 3.

Protocolo estadual capixaba: cor vermelha, dentro do eletivo

No quadro de cor vermelha, definida como 'eletivo de alta prioridade': 'Fotopsias (visão de flashes luminosos), visão de moscas volantes e/ou déficits de campo visual, parcial ou total, agudos ou subagudos'. O mesmo documento abre declarando que a autorregulação 'não se destina, portanto à regulação de vagas urgentes e situações de emergência'. A lista de urgência tem seis itens — trauma, queimadura, corpo estranho, redução súbita da visão, glaucoma agudo e úlcera de córnea — e não inclui descolamento de retina.

Protocolo de Oftalmologia — Autorregulação Formativa Territorial (ICEPi/SESA-ES), item 1.1 e quadro 13.1.

Na prova

Contradição frontal entre dois documentos sobre o mesmo paciente, com defaults opostos. A vinheta que descreve flashes e moscas volantes de início recente, com acuidade central preservada, cobra a porta — e a resposta clinicamente defensável é a emergência, porque é a janela em que a mácula ainda está aplicada. Quando o enunciado citar o protocolo estadual como referência, a classificação por cor é a resposta formal; quando pedir conduta, a porta manda.

O que o médico que encaminha deve ter examinado do próprio olho

Protocolo capixaba: cinco manobras, com fundo de olho

'O encaminhamento também deve conter, se possível e dentro da realidade de cada local de trabalho, exame oftalmológico sucinto, incluindo: medida de acuidade visual com tabela de Snellen; avaliação de reflexos pupilares e campo visual de confrontação; inspeção ocular com lanterna...; avaliação de motilidade ocular extrínseca; e exame de fundo de olho com oftalmoscopia direta ou teste do reflexo vermelho.'

Protocolo de Oftalmologia (ICEPi/SESA-ES), seção 'Motivos para encaminhamento com diagnóstico ou suspeita diagnóstica'.

TelessaúdeRS: acuidade e sintomas; o fundo, por fotografia

O conteúdo mínimo pede sinais e sintomas, 'medida de acuidade visual em cada olho, informando se a mesma foi realizada com ou sem a lente corretiva' e, para retina, 'anexar laudo de retinografia, preferencialmente, ou descrever na íntegra os seus resultados, com data'. Em nenhuma das 26 páginas ocorrem as palavras oftalmoscopia, campo visual, lâmpada de fenda, biomicroscopia, tonometria ou midríase; 'fundo de olho' ocorre uma única vez, dentro do quadro de suspeita de catarata senil.

Protocolos de Regulação Ambulatorial — Oftalmologia Adulto 2023, 'conteúdo descritivo mínimo' dos oito protocolos.

Na prova

Não é contradição, é especificidade diferente e arranjo de serviço diferente: onde há telediagnóstico com câmera na unidade, a régua pede a foto; onde não há, pede as mãos. O que a diferença ensina é que 'exame oftalmológico do encaminhamento' não tem conteúdo único no Brasil — e que a única linha exigida pelas duas é a acuidade de cada olho, com a informação de ter sido medida com ou sem correção.

O conectivo do critério do prematuro: 'e' contra 'e/ou'

Diretriz nacional das sociedades (2007): peso OU idade gestacional

'Critérios de exame: a. PN ≤1.500 gramas e/ou IG ≤32 semanas'; primeiro exame 'entre a 4ª e 6ª semana de vida'. Qualquer um dos dois parâmetros basta.

Proposta de diretrizes brasileiras do exame e tratamento de retinopatia da prematuridade — SBP, SBOP e CBO, Arq Bras Oftalmol 2007;70(5):875-83, seção Recomendações.

Protocolo capixaba: peso E idade gestacional

'Crianças prematuras, com menos de 32 semanas de idade gestacional e menos de 1500 g de peso ao nascer, que não passaram por triagem/tratamento de retinopatia da prematuridade.' A diretriz de 2007 consta da lista de referências do próprio protocolo.

Protocolo de Oftalmologia (ICEPi/SESA-ES), seção 15, oftalmopediatria.

Na prova

O conectivo troca a população: com 'e/ou', o recém-nascido de 34 semanas e 1.380 g entra pelo peso; com 'e', ele fica sem categoria, porque não cumpre os dois. O rastreamento do prematuro é ensinado na apostila de Pediatria; o que interessa aqui é o método — ler o conectivo do protocolo local e, na dúvida, escrever no encaminhamento o peso e a idade gestacional em vez do rótulo 'preenche critério'.

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Caso resolvido

Homem de 58 anos, míope alto, procura a unidade básica de saúde relatando que, há dois dias, começou a ver 'raios de luz' no canto do olho direito, sobretudo à noite, e que hoje apareceram várias 'manchas escuras voando' no mesmo olho. Nega dor, olho vermelho, secreção e trauma. Diz que a visão 'está boa'. Ao exame: acuidade de vinte sobre vinte e cinco no olho direito e vinte sobre vinte no esquerdo, com os óculos que usa; pupilas isocóricas, ambas reagentes, sem defeito aferente relativo à luz alternada; lanterna sem alterações de pálpebras, conjuntiva ou córnea; motilidade completa e sem duplicação. Não há oftalmoscópio na unidade. O protocolo de regulação do município classifica esse quadro na cor vermelha, de prioridade muito alta, dentro da fila eletiva.
Separe a queixa do número
A acuidade quase normal é verdadeira e irrelevante para a decisão. Flash, mosca volante nova e miopia alta descrevem tração vítreo-retiniana aguda, que ocorre longe da região central. Enquanto a área central da retina estiver aplicada, o cartão continua cheio. O dado que carrega risco aqui é o tempo de instalação — dois dias —, não o valor medido.
Use o exame para o que ele serve
Pupilas simétricas e sem defeito aferente relativo tornam menos provável uma perda extensa de retina já instalada, e a lanterna normal afasta causa de superfície. Nenhum dos dois achados exclui descolamento periférico ou rotura de retina, porque nenhuma dessas manobras alcança a periferia. O exame, aqui, serve para descartar o que compete, não para tranquilizar.
Registre a ausência do fundo de olho
Não havendo aparelho, escreva no encaminhamento que o fundo de olho não foi realizado por indisponibilidade de oftalmoscópio, e não que ele foi normal. A frase muda a leitura de quem regula: informa que a periferia da retina permanece inteiramente por avaliar.
Reconheça a divergência dos protocolos e decida pela clínica
O protocolo local classifica o quadro em prioridade eletiva muito alta; a outra régua estadual põe exatamente essa combinação de queixas na lista de encaminhamento para emergência oftalmológica. A ausência do descolamento de retina entre as condições de urgência do protocolo local é uma lacuna do texto, não um julgamento clínico. Diante de lacuna, decide a anatomia.
Escreva o documento que permite reclassificar
Encaminhe com data de início, lateralidade, a miopia alta como fator de risco, as acuidades de cada olho, o resultado do exame pupilar e a declaração de que o fundo não foi visualizado e por quê. É esse conjunto que autoriza quem regula a subir a prioridade mesmo quando o quadro de cores não previu o caso.
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Agora feche você

Mulher de 63 anos, hipertensa e diabética há doze anos, comparece à consulta de rotina na unidade básica de saúde. Não tem queixa visual. Nunca fez avaliação oftalmológica. A unidade recebeu um retinógrafo há três meses e opera com leitura remota das imagens. Na aquisição, a técnica registra que as imagens dos dois olhos saíram com qualidade insuficiente e que o olho direito apresenta reflexo esbranquiçado à iluminação. Ao exame de consultório: acuidade de vinte sobre oitenta no olho direito e vinte sobre trinta no esquerdo, com a correção que usa; pupilas isocóricas e reagentes, sem defeito aferente relativo; lanterna com opacificação branca visível através da pupila direita; campo por confrontação sem defeito nos dois olhos.
Decida o que a imagem insuficiente significa
A fotografia falhou nos dois olhos. Isso é resultado nulo ou é achado? Diga qual é a causa mais provável da falha à direita, dado o reflexo esbranquiçado e a acuidade, e qual conduta a imagem insuficiente indica segundo a lógica do telediagnóstico.
Interprete a assimetria de acuidade
Um olho enxerga vinte sobre oitenta e o outro vinte sobre trinta, com correção. Quais são as duas grandes categorias que a manobra da luz alternada permite separar diante de perda visual assimétrica, e para qual delas o exame desta paciente aponta?
Diga o que continua por avaliar
Nomeie o que a ausência de imagem deixou sem resposta nesta paciente, considerando o tempo de diabetes, e explique por que a acuidade e o campo por confrontação normais no olho esquerdo não substituem esse dado.
Monte o encaminhamento
Escreva as linhas que o documento precisa conter para que a regulação classifique corretamente: o que foi medido, o que falhou e por quê, e qual pergunta o serviço especializado deve responder.
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Onde a banca derruba

  1. 1Escrever 'exame ocular normal' sem dizer o que foi feito A frase induz quem regula a supor exclusões que ninguém fez. Um exame sem oftalmoscópio não exclui doença de retina; um exame sem confrontação não exclui defeito de campo; um exame sem pupila alternada não exclui neuropatia óptica. O encaminhamento útil descreve as manobras realizadas e nomeia as que não foram possíveis, com o motivo.
  2. 2Confiar na acuidade preservada para mandar o paciente para a fila A visão central ocupa uma fração mínima da retina. Descolamento que ainda não alcançou a mácula, defeito periférico de campo e glaucoma inicial convivem com acuidade normal. Nas queixas de flash, mosca volante e cortina, o número do cartão não é o dado que decide a porta — a velocidade de instalação é.
  3. 3Medir a visão com os dois olhos abertos, ou sem os óculos habituais Medir os dois juntos apaga a assimetria, que é o achado de maior valor. Medir sem a correção que a pessoa usa transforma présbita e míope em suspeitos de doença ocular e produz encaminhamento desnecessário. E ocluir apertando o globo embaça o olho tapado, contaminando a segunda medida.
  4. 4Registrar 'fundo de olho normal' quando nada foi visto Pupila estreita, catarata densa, córnea opaca e sangue no vítreo impedem a visualização — e cada um deles pode ser a própria doença. Exame não realizado e exame normal são informações opostas. Escreva o que impediu de ver: isso, sozinho, já classifica o caso.
  5. 5Deixar de dilatar por medo genérico de crise de fechamento angular O risco é real, raro e restrito a olhos com câmara anterior rasa, que a própria lanterna sinaliza. A contraindicação inegociável é outra: pupila usada como monitor neurológico em traumatismo craniano ou rebaixamento de consciência. Fora disso, a pergunta correta é o que se perde ao examinar a retina por uma pupila de poucos milímetros.
  6. 6Tratar imagem de retina de má qualidade como resultado tranquilizador Opacidade de meios que impede a fotografia é a mesma que impede o oftalmoscópio. O produto não é uma foto ruim: é a ausência de exame. Imagem insuficiente indica avaliação presencial, e a fotografia plana também não mostra espessamento da região central, que pede avaliação com percepção de profundidade.
  7. 7Perguntar 'está vendo minha mão?' na confrontação de campos A pergunta convida ao sim automático e devolve o resultado que quem examina espera. Pedir que a pessoa conte dedos em cada quadrante obriga a resolver detalhe e faz aparecer a área ausente. O mesmo vale para comparar brilho ou cor entre os dois olhos, que a pessoa descreve espontaneamente como uma metade mais apagada.
  8. 8Repetir a categoria do protocolo em vez do dado bruto Rótulos como 'preenche critério de rastreamento' ou 'prioridade alta' viajam mal, porque dependem do conectivo e das faixas etárias do documento local — e essas perdem gente, como o prematuro que cumpre o peso mas não a idade gestacional, ou a criança de dez anos exatos entre duas faixas. Escrever peso, semanas, idade e data de início deixa a reclassificação possível.
  9. 9Confundir visão dupla monocular com desalinhamento ocular A duplicação que persiste com um olho tapado nasce dentro daquele olho — filme lacrimal, cristalino, astigmatismo alto — e não é problema de músculo nem de nervo. A que some ao tapar qualquer um dos olhos é binocular, e o início abrupto com cefaleia ou sinais meníngeos manda para a emergência clínica, não para a fila da oftalmologia.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Fotopsia e moscas volantes de início recente em míope alto descrevem tração vítreo-retiniana aguda, com risco de rotura e descolamento de retina. A acuidade preservada não tranquiliza: a visão central permanece normal enquanto a mácula estiver aplicada, e essa é justamente a janela em que a cirurgia preserva a visão central. Por isso a opção de encaminhar hoje para avaliação com retina dilatada é a única compatível com a anatomia. Aguardar sete dias ou condicionar o encaminhamento à queda da acuidade inverte a lógica: quando o número cai, a mácula já se soltou. Retinografia colorida não avalia a periferia retiniana e não afasta rotura periférica, além de ser inútil quando o objetivo é examinar a retina até a ora serrata. Repouso visual não altera a tração vítrea. Quanto à alternativa que segue a cor do protocolo municipal: a classificação eletiva existe para consultas ambulatoriais e o próprio sistema de autorregulação declara não se destinar a situações de urgência e emergência; a régua estadual do Rio Grande do Sul põe exatamente essa combinação de queixas na lista de encaminhamento para emergência oftalmológica. Diante da divergência, decide a anatomia da mácula, e o documento deve registrar a data de início para permitir reclassificação.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite, sem consultar, as cinco manobras do exame ocular do encaminhamento na ordem em que se fazem, e diga, para cada uma, uma coisa que ela subtrai e uma que ela não subtrai. Depois responda: qual é o único item que as duas réguas estaduais exigem em comum, e com que informação adicional ele tem de vir escrito? Por fim, descreva a manobra da luz alternada e diga por que opacidade de meios não produz defeito pupilar aferente relativo.

em 30 dias

Reconstrua de memória a divergência de porta: qual conjunto de quatro queixas uma régua manda para a emergência oftalmológica e a outra classifica na cor de prioridade muito alta da fila eletiva, e qual é o argumento anatômico que decide a favor da porta. Em seguida, escreva os dois critérios do prematuro lado a lado, com o conectivo de cada um, e mostre com um peso e uma idade gestacional qual criança cai fora do critério estadual e dentro do nacional.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Atenda uma pessoa que chega à unidade básica com queixa visual nova e nenhum sinal externo no olho. Pratique a sequência inteira: perguntar antes de examinar (tempo, velocidade, lateralidade, dor, o que exatamente ela vê de diferente), medir a acuidade de cada olho com a correção que ela usa, comparar as pupilas com a luz alternada, confrontar campos pedindo que ela conte dedos, iluminar de lado com a lanterna e testar a motilidade perguntando se dobra. Ao fim, decida a porta pela velocidade de instalação e não pelo valor da acuidade, e diga em voz alta o que você escreveria no encaminhamento — inclusive o que não conseguiu examinar e por quê. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Exame ocular antes do encaminhamento – Exame ocular antes de encaminhar: as manobras que trocam a porta — Preparatório para provas | OsceLabs