PediatriaOncologia Pediátrica

Linfomas na criança e no adolescente

Linfomas Hodgkin e não Hodgkin na infância

O gânglio que muda de dono aos 19 anos

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino, 6 anos, internado com aumento do volume abdominal e dor há 10 dias. Ao exame, massa volumosa em fossa ilíaca direita e flanco. A biópsia mostra padrão em "céu estrelado" com imunofenótipo CD20+, compatível com linfoma de Burkitt. Exames iniciais: ácido úrico 11,2 mg/dL (VR 2,4–5,4), potássio 6,1 mEq/L (VR 3,5–5,0), fósforo 7,8 mg/dL (VR 3,8–6,5), cálcio 7,2 mg/dL (VR 8,8–10,8), LDH 3.400 U/L (VR 180–430), creatinina 1,3 mg/dL, com diurese preservada. Qual a melhor conduta para o manejo da síndrome de lise tumoral antes de iniciar a quimioterapia?

02

Como esse tema cai

Este é o capítulo de quem recebe uma criança com um gânglio, uma massa abdominal que cresceu em duas semanas ou um adolescente que não consegue deitar. A vinheta entrega um sítio, uma velocidade e uma idade, e pergunta o que fazer antes da biópsia. Estadiamento formal, esquemas de quimioterapia e critérios de resposta ao tratamento não estão aqui.

Ficam fora, com endereço. O linfoma do adulto, com a classificação de Ann Arbor, o escore prognóstico de sete fatores, os cortes de velocidade de hemossedimentação e os esquemas de primeira linha, está no capítulo de Linfomas de Hematologia e Hemoterapia. A síndrome de lise tumoral, a compressão medular e a síndrome da veia cava superior como emergências oncológicas estão nos capítulos de Oncologia. O corte operacional dos 25% de blastos medulares e o vocabulário do gânglio neoplásico estão no capítulo de Leucemia linfoblástica aguda desta mesma apostila, que os desenvolve; aqui eles reaparecem só onde mudam a fronteira entre leucemia e linfoma.

O que este capítulo desenvolve é a faixa que o protocolo do adulto não cobre e a atenção básica encontra primeiro: quem é o dono do gânglio antes dos 19 anos, quais são as duas réguas de encaminhamento que convivem dentro do mesmo protocolo federal, o que o corticoide apaga, e por que a resposta para 'qual é o subtipo mais comum' muda conforme a série brasileira que se cita.

03

O que muda decisão

Adenomegalia persistente: quando o gânglio muda de significado

Como usar este capítulo: avalie duração, localização, consistência e sintomas sistêmicos da adenomegalia, distinguindo Hodgkin de não Hodgkin pelo padrão clínico e pela velocidade. Procure síndrome de lise e compressão mediastinal antes da biópsia e evite corticoide que possa apagar o diagnóstico.

A primeira decisão de um caso de linfoma pediátrico não é diagnóstica, é regulatória: a criança pertence a qual documento. E a resposta tem uma zona de sobreposição escrita em lei.

A Lei nº 14.308/2022, que institui a Política Nacional de Atenção à Oncologia Pediátrica, diz no parágrafo único do art. 1º que a política abrange as crianças e os adolescentes com suspeita ou diagnóstico de câncer na faixa etária de 0 a 19 anos. O parágrafo único do art. 4º repete o número do outro lado da rede: os centros habilitados em oncologia pediátrica deverão prever o atendimento de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Nos dois lugares o 19 é teto.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma de Hodgkin no Adulto, aprovado pela Portaria Conjunta nº 24, de 29 de dezembro de 2020, abre o item 4 assim: serão incluídos neste protocolo pacientes adultos, 19 ou mais anos, com diagnóstico de linfoma de Hodgkin. Aqui o 19 é piso.

O mesmo número, dois documentos federais, duas naturezas opostas. O adolescente de 19 anos com linfoma de Hodgkin está simultaneamente dentro da política que o chama de pediátrico e dentro do protocolo que o chama de adulto. Não é uma disputa acadêmica: define em qual serviço ele será habilitado, com qual protocolo terapêutico e sob qual registro de câncer.

O detalhe que fecha o argumento está dentro do próprio protocolo do adulto. Ele registra, no item de epidemiologia, que a incidência do linfoma de Hodgkin tem distribuição etária bimodal, com o primeiro pico no fim da adolescência e início da idade adulta jovem. Ou seja: o documento reconhece que a faixa de maior incidência começa antes do seu próprio critério de inclusão. E as palavras 'criança' e 'adolescente' não aparecem em nenhum ponto das 68 páginas, exceto no título de uma referência bibliográfica sobre linfoma de Hodgkin pediátrico na Bahia.

Para a prova, o que interessa é a régua: quando o enunciado nomeia a política pediátrica, o adolescente de 19 anos é pediátrico; quando nomeia o protocolo do linfoma de Hodgkin, ele é adulto. Enunciado que não nomeia documento nenhum e pergunta 'até que idade a criança é atendida em oncologia pediátrica' está cobrando a lei, e a resposta é 19 anos inclusive.

Hodgkin e não Hodgkin: ritmos clínicos diferentes

O erro estrutural do aluno que estudou linfoma pelo capítulo do adulto é importar o relógio errado. No adulto, o linfoma de Hodgkin é a doença que sobe de cadeia em cadeia, por contiguidade, durante meses. Esse comportamento sobrevive na criança e no adolescente.

O linfoma não Hodgkin pediátrico não se comporta assim. É quase sempre difuso, de alto grau, e a apresentação inicial costuma ser extranodal. Ele não sobe: aparece grande. O protocolo federal de 2017 descreve isso ao caracterizar o câncer infantojuvenil como de curto período de latência e crescimento rápido, e é por isso que a mesma frase que soa retórica no adulto — a demora muda o desfecho — é literal aqui.

A tradução clínica é o que a vinheta entrega. O linfoma não Hodgkin da criança chega por três portas: massa abdominal de crescimento rápido com dor, distensão e saciedade precoce; massa mediastinal com tosse, ortopneia, edema e pletora facial; ou adenomegalia periférica endurecida. O linfoma de Hodgkin do adolescente chega quase sempre pela terceira porta, com semanas a meses de história e, em parte dos casos, sintomas constitucionais.

Os dois desfechos ruins que o protocolo federal nomeia explicitamente também se dividem assim. Ele registra como consequência do atraso o paciente com massa de mediastino que evolui para insuficiência respiratória antes de ser feito o diagnóstico, e o paciente com insuficiência renal aguda por infiltração renal ou compressão das vias urinárias no linfoma de Burkitt abdominal. São as duas emergências, e nenhuma delas espera o resultado de uma sorologia.

Há uma terceira consequência do atraso que o documento lista e que quase nunca é cobrada: as ressecções intestinais extensas desnecessárias em crianças com linfoma de Burkitt abdominal. A criança entra em sala com hipótese de abdome agudo obstrutivo, e sai com intestino a menos e um diagnóstico que teria sido feito com uma biópsia. Vinheta com criança pequena, massa em fossa ilíaca direita e obstrução intestinal em duas semanas está pedindo que se pense em linfoma antes de pensar em apendicite complicada.

Subtipos mais frequentes e influência da faixa etária

A pergunta 'qual o subtipo mais frequente de linfoma não Hodgkin na infância' tem resposta diferente conforme a série que se cita, e a diferença não é ruído de amostra. São escolas distintas.

A coorte de 110 crianças do Instituto Materno-Infantil Professor Fernando Figueira, no Recife, entre 1994 e 2003, encontrou linfoma de Burkitt em 86 pacientes (78,2%), linfoma de grandes células em 13 (11,8%) e linfoma linfoblástico em 11 (10,0%). As três categorias somam os 110 do estudo.

A coorte de 27 pacientes do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, entre 1981 e 2013, registra na discussão que o linfoma linfoblástico respondeu por 23% dos linfomas não Hodgkin da instituição em 26 anos, e que o Burkitt é o subtipo principal do serviço.

O mesmo artigo mineiro cita, na introdução, que o linfoblástico representa cerca de um terço dos linfomas não Hodgkin de crianças e adolescentes, apoiado em três referências do grupo cooperativo alemão. Na discussão, escreve aproximadamente 30%, com outras três referências. E cita ainda uma série epidemiológica brasileira de 272 casos em que o linfoblástico foi 36%.

Quatro números para a mesma grandeza dentro de um artigo, e um quinto, de 10%, medido em Recife. As duas coortes brasileiras têm 28 e 21 referências e compartilham apenas dois itens, ambos do mesmo grupo alemão e ambos sobre esquema terapêutico. Nenhuma fonte epidemiológica é comum às duas. Isso não são duas medições da mesma população: são duas literaturas.

A explicação clínica é geográfica. O linfoma de Burkitt endêmico e o esporádico têm distribuição desigual, e a série do Nordeste registra idade média de 6,1 anos, predomínio masculino de 2,4 para 1 e sítio primário abdominal em 80,9% dos casos. A série de Belo Horizonte, que olhou só linfoblástico, tem mediana de 11,6 anos e mediastino como sítio mais frequente. O aluno não precisa decorar as cinco frações; precisa saber que, no Brasil, a resposta padrão para o subtipo mais comum de linfoma não Hodgkin pediátrico é Burkitt, e que a fração de linfoblástico varia de 10% a 36% conforme a origem do dado.

Localização primária e pistas para o imunofenótipo

Duas séries brasileiras do mesmo país descrevem topografias opostas, e a contradição é aparente: cada uma contou uma doença diferente.

Em Recife, entre os 110 casos, o sítio primário foi abdome em 89 (80,9%), mediastino em 8 (7,3%), linfonodos periféricos em 6 (5,5%) e outros em 7 (6,4%). Em Belo Horizonte, entre os 27 linfoblásticos, foi mediastino em 11 (40,7%), linfonodos em 9 (33,3%), abdome em 6 (22,2%) e outro sítio em 1. As duas itemizações somam os respectivos totais.

O corte que reconcilia é o imunofenótipo. No estudo mineiro, o linfoblástico teve origem T em 16 pacientes (59,3%), B em 6 (22,2%) e ficou não classificado em 5 (18,5%). Entre os 16 de linhagem T, a manifestação inicial mais comum foi acometimento mediastinal em 9 (56,3%), seguida de linfonodos em 6. Entre os 6 de precursor B, cinco tinham doença intra-abdominal ou nodal.

A regra prática que a prova cobra é essa: linfoblástico T vai para o mediastino anterior, com risco de compressão de via aérea e de veia cava superior; precursor B vai para linfonodo, osso, pele e partes moles; e Burkitt vai para o abdome, tipicamente região ileocecal, com massa de crescimento explosivo. Adolescente com massa mediastinal anterior, ortopneia e pletora facial é linfoblástico T até prova em contrário; pré-escolar com massa em fossa ilíaca direita crescida em duas semanas é Burkitt.

Um detalhe da série mineira merece leitura devagar. Ela informa que o imunofenótipo B foi encontrado em cerca de 20% dos casos, enquanto a literatura que ela mesma cita na introdução diz que apenas cerca de 10% dos linfoblásticos expressam marcadores de célula B. Seis de 27 é 22,2%; seis dos 22 efetivamente classificados é 27,3%. A itemização do próprio serviço não alcança o número da literatura que ele importa, e o texto não comenta a diferença.

Comprometimento de medula e definição de estádio

A fronteira entre leucemia linfoblástica aguda e linfoma linfoblástico é uma convenção, e o artigo mineiro diz isso com todas as letras: a distinção entre leucemia e linfoma é arbitrária e baseada na extensão do acometimento da medula óssea.

A convenção é o corte dos 25% de blastos. O capítulo de Leucemia linfoblástica aguda desta apostila desenvolve esse corte pelo lado da leucemia, com a régua da medula. O que vale acrescentar aqui é a redação completa da regra: pacientes com 25% ou mais de linfoblastos na medula são classificados como leucemia; pacientes com doença extramedular e menos de 25% de blastos na medula são classificados como linfoma.

Repare na conjunção. O lado do linfoma exige duas condições ao mesmo tempo: a doença extramedular e a medula abaixo de 25%. Não basta a medula estar limpa. Uma criança com medula com 5% de blastos e sem massa nenhuma não é linfoma linfoblástico — não é nada ainda, e a investigação continua. Enunciado que descreve massa mediastinal com mielograma mostrando 12% de blastos está fechando linfoma linfoblástico com envolvimento medular, não leucemia.

A consequência terapêutica é a que mais rende questão: como a fronteira é convencional e a biologia é a mesma, o linfoma linfoblástico é tratado com o protocolo da leucemia linfoblástica aguda. A série mineira registra exatamente isso, e conclui que o prognóstico favorável se confirma com regime intensivo derivado da terapia da leucemia.

Vale também o estadiamento, porque é a troca mais barata de ponto na prova. O linfoma pediátrico não usa Ann Arbor. Usa o sistema de St. Jude, também chamado de classificação de Murphy — que é o que as duas coortes brasileiras aplicaram, uma nomeando Murphy e a outra nomeando St. Jude. Ann Arbor, com os quatro estádios e os sufixos A, B, E, S e X, é o sistema que o protocolo do adulto adota.

Características do linfonodo que exigem investigação

O Protocolo de Diagnóstico Precoce para Oncologia Pediátrica tem 30 páginas e carrega, em duas delas, dois limiares incompatíveis para o mesmo achado físico.

Na página 12, o Quadro 1 de classificação da probabilidade de câncer infantojuvenil, cuja fonte declarada é o Manual AIEPI da Organização Pan-Americana da Saúde, coloca na faixa de risco de câncer ou doença grave, com conduta de encaminhamento urgente à onco-hematologia pediátrica, o achado de gânglios maiores que 2,5 cm de diâmetro, duros, não dolorosos, com evolução acima de 4 semanas.

Na página 17, a seção 5.3, sobre linfomas, define adenomegalia suspeita com uma lista de nove características, entre elas a persistência de enfartamento ganglionar maior que 3 cm depois de seis semanas de evolução, mesmo após tratamento específico adequado.

Uma criança com gânglio supraclavicular de 2,8 cm, endurecido, indolor, com cinco semanas de evolução preenche a régua da página 12 e não preenche a da página 17. O mesmo documento manda encaminhar com urgência e manda continuar observando.

Duas zonas de decisão aninhadas com um marcador clínico dentro da zona mais ampla e fora da zona mais restrita
O protocolo carrega dois limiares para o gânglio suspeito — maior que 2,5 cm por mais de 4 semanas e maior que 3 cm depois de 6 semanas. O marcador no intervalo lembra que características clínicas de risco impedem uma falsa tranquilização pelo corte mais restritivo.

E há um agravante de redação. A seção 5.3 enuncia a lista duas vezes, com conjunções diferentes. A primeira vez: 'uma adenomegalia é considerada suspeita quando descartada uma causa infecciosa, apresentando as características elencadas a seguir'. Uma página depois, reintroduzindo a mesma lista: 'a adenomegalia é considerada suspeita quando, descartada uma causa infecciosa, apresenta-se em conjunto com as seguintes características'.

Lida como disjunção, qualquer uma das nove características torna o gânglio suspeito, e a criança com adenomegalia supraclavicular endurecida vai para a biópsia. Lida como conjunção, ela precisaria ter ao mesmo tempo sintomas B, alteração em duas ou mais séries do hemograma, hepatoesplenomegalia, sorologias negativas, gânglio maior que 3 cm por seis semanas, crescimento após duas semanas de observação, topografia supraclavicular, topografia axilar e epitroclear sem porta de entrada, e consistência dura e aderida. Nenhuma criança preenche isso, e as que preenchem já não precisavam da lista.

A leitura correta é a disjuntiva, e a prova cobra a disjuntiva. Mas o item que a lista carrega e que quase ninguém percebe é 'sorologias negativas' para toxoplasmose, rubéola, vírus da imunodeficiência humana, citomegalovírus, mononucleose infecciosa e sífilis. Se essa condição for tratada como pré-requisito, a criança fica esperando resultado — e o mesmo documento manda encaminhar em poucas horas o paciente com linfadenomegalia associada a dispneia. Sorologia pendente não é sorologia negativa, e nenhuma das duas autoriza esperar quando há via aérea em risco.

Ainda no Quadro 1, a linha de febre está impressa como 'febre por mais de 7 dias se causa aparente'. A regra do manual de origem é febre por mais de sete dias sem causa aparente. Lida ao pé da letra, a versão publicada inverte o alerta. É um lembrete de que a régua se lê na fonte, não na reprodução.

Corticoide antes da biópsia pode apagar o diagnóstico

O achado com maior rendimento de prova em linfoma pediátrico não é um critério, é uma proibição temporal: o uso de corticoide antes da coleta de tecido.

O documento do INCA registra que o uso de prednisona ou dexametasona por mais de 48 a 72 horas pode impedir o diagnóstico da neoplasia, porque a análise anatomopatológica depende de biópsia de linfonodo, massa abdominal, massa mediastinal ou de mielograma, e o corticoide regride a doença linfonodal, a massa e a infiltração medular.

O mesmo trecho explica por que a armadilha é frequente. O alargamento de mediastino no radiograma simples de tórax é facilmente confundido com aumento de área cardíaca ou com pneumonia, e o quadro pode ainda ser confundido com broncoespasmo e crise de asma. Adolescente com tosse seca, dispneia progressiva e sibilos vai receber corticoide sistêmico em qualquer pronto-socorro do país. Setenta e duas horas depois, a massa encolheu, o paciente melhorou, e o tecido que faria o diagnóstico virou linfonodo necrótico e inespecífico.

O limiar tem uma folga de 24 horas embutida: 'mais de 48 a 72 horas' é uma faixa apresentada como se fosse um número. Sessenta horas de dexametasona estão dentro ou fora? Na prática, a régua útil é operacional e não numérica: antes de prescrever corticoide para um quadro respiratório que não fecha, procure a massa. Um radiograma de tórax feito antes da primeira dose custa menos que uma biópsia perdida.

O contraponto honesto precisa ser dito, porque a regra tem exceção clínica real. A criança com massa mediastinal volumosa e compressão de via aérea pode não tolerar decúbito dorsal nem sedação para a biópsia, e nessa situação o corticoide deixa de ser um erro e passa a ser a ponte que permite chegar viva ao diagnóstico. A saída é a ordem, não a proibição: buscar tecido pelo caminho menos invasivo primeiro — citologia com imunofenotipagem de derrame pleural ou peritoneal, mielograma, biópsia de linfonodo periférico acessível sob anestesia local — e só então tratar a compressão. Quando o corticoide precisar ser dado antes, isso tem de estar registrado, porque muda a interpretação de tudo que vier depois.

Um dado de rastreio vale registrar: a proibição do corticoide está no documento do INCA de 2014 e não é reproduzida no protocolo federal de 2017, que repete quase toda a seção de linfomas do livro. A palavra corticoide não ocorre nenhuma vez nas 30 páginas do protocolo. Quem estudar apenas pelo documento mais recente não encontra a trava mais cobrada do tema.

Síndrome de lise tumoral e compressão mediastinal

O manejo formal da síndrome de lise tumoral pertence ao capítulo de emergências oncológicas. O que pertence a este capítulo é o reconhecimento de que, no linfoma de Burkitt da criança, a lise pode ser o quadro de abertura, antes de qualquer quimioterapia.

A razão é a cinética. O protocolo federal caracteriza o tumor pediátrico como de crescimento rápido, e o documento do INCA lista, entre as consequências do atraso, a insuficiência renal aguda por infiltração renal, por compressão tumoral das vias urinárias e por síndrome de lise tumoral. Massa que dobra em dias tem morte celular espontânea em volume suficiente para elevar ácido úrico, potássio e fósforo sem que ninguém tenha administrado nada.

A consequência prática inverte a intuição do aluno: a criança com massa abdominal volumosa e potássio de 6,1 mEq/L não está tendo uma complicação do tratamento, está exibindo a doença. Hidratação e proteção renal entram antes da primeira dose, e a coleta do tecido não pode esperar a normalização — porque o distúrbio só vai piorar enquanto a massa continuar crescendo.

Um contraste útil entre as duas séries brasileiras mostra que a carga tumoral não é uniforme entre subtipos. Na coorte mineira de linfoblásticos, o ácido úrico estava disponível em 22 dos 27 pacientes, com média de 4,3 mg/dL e faixa de 2,0 a 8,5 — valores modestos. O perfil de risco metabólico do linfoblástico mediastinal não é o do Burkitt abdominal, ainda que os dois sejam linfomas de alto grau na mesma faixa etária.

Encaminhamento e prazos para confirmação diagnóstica

A Lei nº 12.732/2012 garante ao paciente com neoplasia maligna o primeiro tratamento no Sistema Único de Saúde em até 60 dias, contados a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico, ou em prazo menor conforme a necessidade terapêutica registrada em prontuário. A lei ainda define o que conta como tratamento iniciado: terapia cirúrgica, radioterapia ou quimioterapia.

O § 3º, incluído pela Lei nº 13.896/2019, acrescenta que, nos casos em que a principal hipótese diagnóstica seja neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação devem ser realizados no prazo máximo de 30 dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. Essa lei entrou em vigor 180 dias após a publicação oficial, de 31 de outubro de 2019 — ou seja, no fim de abril de 2020.

Os dois prazos não se somam nem se sobrepõem: eles se encaixam em série, e o ponto de contato é justamente o buraco. Os 30 dias cobrem os exames que produzem o laudo. Os 60 dias só começam a contar depois que o laudo é firmado. Entre a suspeita clínica e a solicitação fundamentada não corre prazo nenhum, e entre a assinatura do laudo e a comunicação à família também não. O total legalmente tolerado, da solicitação ao primeiro tratamento, é de 90 dias.

Confronte isso com a cinética. A coorte de Recife mediu a duração das queixas antes da admissão: variou de 3 a 365 dias, com média de 50,2 dias e mediana de 30 dias; 43 dos 110 pacientes (39,1%) chegaram com mais de 30 dias de sintomas. A criança mediana daquela série já tinha gastado, em sintomas e antes de entrar no sistema, o equivalente à janela inteira que a lei reserva para os exames. E o relógio legal ainda não havia começado.

A Lei nº 14.308/2022 poderia ter fechado essa janela e não fechou: institui a política de oncologia pediátrica, manda implementar encaminhamento ágil de crianças com suspeita de câncer, manda fomentar centros regionais para diagnóstico precoce e reforça a obrigatoriedade do registro, mas não fixa prazo próprio para a criança. O prazo aplicável continua sendo o da lei geral de 2012, escrita para adulto, com o relógio ancorado no laudo patológico — no doente cuja doença dobra mais devagar.

Da suspeita clínica à biópsia representativa

Duas coortes brasileiras sustentam quase todos os números deste capítulo, e vale ler o que elas dizem quando se refazem as contas a partir dos numeradores.

Na série de Recife, o texto informa que 10 pacientes (9,1%) tinham doença localizada e 100 (90,9%) doença avançada, e completa: 'dentre estes, a maior parte, 95 (86,4%) pacientes, tinha linfomas com estádio III'. A frase promete o denominador dos 100 avançados, mas 95 sobre 100 seria 95%. O valor impresso, 86,4%, é 95 sobre 110 — o total da coorte. A soma decide qual versão venceu: 95 de estádio III mais 10 localizados deixam apenas 5 pacientes para o estádio IV, o que só fecha com a coorte inteira como denominador. O número está certo; a palavra 'destes' é que está errada.

Na mesma tabela, todas as linhas somam 110, inclusive as que declaram 'sem informação' — escolaridade materna, renda familiar e renda per capita têm a categoria explícita. Uma única linha não fecha: a da desidrogenase láctica, com 73 pacientes (67,0%) até 500 e 36 (33,0%) acima. 73 mais 36 é 109. As porcentagens confirmam o denominador reduzido: 73 sobre 109 dá 67,0%, enquanto 73 sobre 110 daria 66,4%. Um paciente sumiu da linha sem virar 'sem informação', e o leitor lê 67% como se fosse a coorte toda.

A mesma variável traz uma faixa que atravessa o próprio piso: a desidrogenase láctica variou de 110 a 3.130, com média de 504,41 ± 476,86. Subtraindo o desvio da média chega-se a 27,6 — abaixo do menor valor observado. É a assinatura de uma distribuição fortemente assimétrica descrita como se fosse simétrica, e a mediana de 364 confirma. Vale ainda uma conferência de unidade: o artigo escreve a dosagem em unidades por decilitro; a coorte mineira escreve a mesma enzima em unidades por litro, com média de 831,63 e máximo de 3.897. Lido ao pé da letra, o corte de 500 por decilitro equivaleria a 5.000 por litro, acima de todo o intervalo observado no outro estudo. A conversão não fecha, o que localiza o problema na unidade impressa, não no corte clínico.

A imunoistoquímica foi feita em 33 dos 47 pacientes admitidos entre 1999 e 2003 (70,2%), o que corresponde a 30,0% dos 110 do estudo. As duas conversões estão corretas. Dos 33, linhagem B em 25 (75,7%), T em 6 (18,2%) e não-B não-T em 2 (6,1%) — os três somam 33, e as porcentagens somam 100,0%. Mas 86 crianças receberam rótulo de Burkitt, que é por definição um linfoma de células B maduras: 78% da coorte carrega um diagnóstico dependente de imunofenótipo, e só 30% teve imunofenótipo feito. Nas demais, a morfologia decidiu sozinha.

O desfecho é o achado mais duro, e não está no resumo. Dos 110, 94 (85,4%) entraram em remissão e 16 (14,6%) morreram nos primeiros 30 dias, antes de serem avaliados quanto à remissão. Dos 94 que remitiram, 7 (7,4%) recaíram e 15 (16,0%) morreram, sendo 11 em primeira remissão e 4 após recidiva. Refazendo a conta a partir dos numeradores: 27 das 110 crianças (24,5%) morreram sem que a doença jamais tivesse recidivado ou progredido — 16 antes de qualquer avaliação de resposta e 11 em primeira remissão — contra 4 (3,6%) que morreram depois de a doença voltar. Na população que chega tarde e desnutrida, o atraso e a toxicidade mataram quase sete vezes mais que o tumor voltando.

Um número do resumo não reconcilia com a tabela e não entra neste capítulo: o resumo afirma renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo em 36,4%, enquanto a tabela registra 51 pacientes nessa faixa, o que dá 46,4%. Nenhum numerador do artigo produz 36,4% sobre 110 nem sobre os 68 com informação disponível. Quando não fecha, não se usa.

A coorte mineira traz o artefato de construção. São 27 pacientes, mas a sobrevida do resumo é dada para 20: sete foram excluídos da análise de Kaplan-Meier por tratamento prévio em outra instituição (3), imunodeficiência grave concomitante (3) e um caso com células atípicas na medula não consideradas linfoblastos. As três primeiras exclusões são correlacionadas com o desfecho — um subgrupo escolhido depois, por ser mais homogêneo, deixa de ser a coorte. O mesmo resumo informa 5 mortes (18,5%) sobre os 27 e 78% de sobrevida em cinco anos sobre os 20, e convida a leitura cruzada. Aqui, porém, a exclusão não comprou o que parece ter sido feita para comprar: com 22 dos 27 vivos em primeira remissão, a sobrevida bruta da coorte inteira é 81,5%, acima dos 78% do subgrupo depurado. As duas contas são internamente coerentes — 24 remissões mais 3 mortes antes da remissão fecham 27, e 22 vivos mais 2 mortes pós-recidiva fecham as 24 —, o que torna a exclusão dispensável e, ainda assim, publicada.

Uma última conta, esta do protocolo federal, fecha exatamente: a estimativa de 12.600 casos novos de câncer até os 19 anos em 2016 se reparte em 6.050 no Sudeste, 2.750 no Nordeste, 1.320 no Sul, 1.270 no Centro-Oeste e 1.210 no Norte. A itemização soma a manchete.

04

As réguas que decidem

Três quadros que resolvem a maior parte das questões do tema: as duas réguas de gânglio que convivem no protocolo federal, o contraste entre os dois grandes grupos de linfoma na criança, e a dispersão das séries brasileiras.

  1. 11. A criança respira bem? Linfadenomegalia com dispneia, ortopneia, edema e pletora facial é referência em poucas horas. O radiograma de tórax ajuda, mas não pode atrasar o encaminhamento.
  2. 22. Qual é o sítio e qual é a idade? Massa abdominal em pré-escolar aponta Burkitt; massa mediastinal anterior em adolescente aponta linfoblástico T; adenomegalia cervical indolor em adolescente aponta Hodgkin.
  3. 33. O gânglio preenche alguma das réguas? Maior que 2,5 cm, duro, indolor e com mais de 4 semanas já basta pelo Quadro 1. Não espere os 3 cm e as 6 semanas da outra régua para encaminhar.
  4. 44. Alguém já prescreveu corticoide? Se sim, registre dose e duração: acima de 48 a 72 horas, o resultado da biópsia pode vir inespecífico e não afasta nada.
  5. 55. Há sinal de lise antes do tratamento? Ácido úrico, potássio, fósforo, cálcio e função renal na admissão da massa abdominal volumosa. O distúrbio pode ser de abertura, não de tratamento.
  6. 66. O tecido veio pelo caminho menos invasivo possível? Derrame pleural ou peritoneal com imunofenotipagem, mielograma e biópsia de linfonodo periférico vêm antes de toracotomia ou laparotomia.

O 19 é teto de um lado e piso do outro

A política de oncologia pediátrica cobre de 0 a 19 anos; o protocolo do linfoma de Hodgkin inclui pacientes de 19 ou mais anos. O adolescente de 19 está nos dois. Quem responde tem de dizer qual documento o enunciado nomeou.

Corticoide antes de tecido apaga o diagnóstico

Prednisona ou dexametasona por mais de 48 a 72 horas pode regredir linfonodo, massa e infiltração medular. O diferencial que mais leva a essa prescrição é o de crise asmática, e é justamente onde a massa mediastinal se esconde.

Doença extramedular e menos de 25% de blastos

A fronteira entre leucemia e linfoma linfoblástico exige as duas condições ao mesmo tempo, não só a medula abaixo do corte. Acima de 25% é leucemia, e o tratamento é o mesmo protocolo nos dois casos.

O prazo legal começa tarde demais

Os 60 dias para o primeiro tratamento contam do laudo patológico; os 30 dias dos exames correm antes disso. Entre a suspeita e a solicitação fundamentada não corre prazo nenhum, e é aí que a criança perde semanas.

Sorologia pendente não é sorologia negativa

A lista de adenomegalia suspeita traz 'sorologias negativas' como uma de nove características. Tratá-la como pré-requisito transforma uma lista de alerta em fila de espera, e a criança com dispneia não tem essa fila.

Duas réguas para o mesmo gânglio, no mesmo protocolo de 2017

RéguaOnde estáTamanhoTempoOutros requisitosConduta
Quadro 1 (fonte: Manual AIEPI / OPAS)Página 12, classificação da probabilidade de câncerMaior que 2,5 cmEvolução acima de 4 semanasDuro e não dolorosoEncaminhamento urgente à onco-hematologia pediátrica
Seção 5.3, linfomasPágina 17, lista de adenomegalia suspeitaMaior que 3 cmDepois de 6 semanas, mesmo com tratamento adequadoUm dos nove itens da lista basta na leitura disjuntivaEncaminhamento ao oncologista pediátrico
Quadro 5 do livro do INCA (2014)Sinais e sintomas × tipos de câncerMaior que 2 cmNão especificadoDiferencial com linfadenite e infecção sistêmicaContextualizar com idade, sexo e tempo de evolução
Emergência (as duas fontes)Linfadenomegalia com dispneiaIrrelevanteIrrelevanteCompressão de via aérea ou de veia cava superiorReferência em poucas horas; o radiograma não pode atrasar

Linfoma de Hodgkin × linfoma não Hodgkin na faixa pediátrica

EixoLinfoma de HodgkinLinfoma não Hodgkin
Faixa etária típicaAdolescente e adulto jovem (primeiro pico do padrão bimodal)Pré-escolar e escolar; idade média de 6,1 anos na série do Nordeste
VelocidadeSemanas a meses; progressão por contiguidadeDias a semanas; difuso e de alto grau desde o início
ApresentaçãoAdenomegalia cervical ou supraclavicular indolor, com ou sem sintomas constitucionaisExtranodal: massa abdominal, massa mediastinal anterior, derrame
Subtipo dominante no BrasilClássico, esclerose nodularBurkitt (78,2% em Recife); linfoblástico de 10% a 36% conforme a série
EstadiamentoAnn Arbor / Cotswolds no protocolo do adultoSt. Jude (Murphy) na criança e no adolescente
Emergência de aberturaMassa mediastinal volumosaLise tumoral espontânea e insuficiência renal no Burkitt abdominal

Quanto do linfoma não Hodgkin pediátrico é linfoblástico: cinco respostas

Origem do númeroBaseFração de linfoblástico
Coorte de Recife, 110 casos (1994-2003)Medição própria10,0% (11 de 110)
Coorte de Belo Horizonte, 26 anosMedição própria do serviço23%
Série epidemiológica brasileira de 272 casosCitada pela coorte mineira36%
Introdução da coorte mineiraTrês referências do grupo cooperativo alemãoCerca de um terço
Discussão da coorte mineiraOutras três referênciasAproximadamente 30%

As nove características da adenomegalia suspeita, na seção 5.3 do protocolo de 2017: sintomas B; alteração em duas ou mais séries do hemograma; hepatoesplenomegalia; sorologias negativas para toxoplasmose, rubéola, vírus da imunodeficiência humana, citomegalovírus, mononucleose e sífilis; persistência acima de 3 cm depois de seis semanas mesmo com tratamento adequado; crescimento progressivo após duas semanas de observação; topografia supraclavicular ou de região cervical baixa; topografia axilar e epitroclear sem porta de entrada; e consistência dura, indolor e aderida a planos profundos.

Vias de confirmação que o protocolo federal nomeia, em ordem de invasividade: citopatologia com imunofenotipagem de líquido pleural ou peritoneal quando há derrame ou ascite; aspirado de medula óssea com imunofenotipagem se houver infiltração; punção aspirativa por agulha fina do linfonodo para citologia e imunofenotipagem; e biópsia a céu aberto do tumor mais acessível para hematoxilina-eosina e imuno-histoquímica.

A distribuição regional dos 12.600 casos novos estimados até os 19 anos em 2016: Sudeste 6.050, Nordeste 2.750, Sul 1.320, Centro-Oeste 1.270 e Norte 1.210. O percentual mediano de tumores pediátricos nos registros de câncer de base populacional brasileiros é próximo de 3% do total.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual gânglio manda encaminhar: 2,5 cm em 4 semanas ou 3 cm em 6 semanas

Quadro 1, página 12

Gânglios maiores que 2,5 cm de diâmetro, duros, não dolorosos, com evolução acima de 4 semanas classificam a criança na faixa de risco de câncer ou doença grave, com encaminhamento urgente a serviço especializado em onco-hematologia pediátrica.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de Diagnóstico Precoce para Oncologia Pediátrica, 2017, p. 12, com fonte declarada no Manual AIEPI da Organização Pan-Americana da Saúde.

Seção 5.3, página 17

Persistência de enfartamento ganglionar maior do que 3 cm depois de seis semanas de evolução, mesmo após tratamento específico adequado, é uma das características que tornam a adenomegalia suspeita.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de Diagnóstico Precoce para Oncologia Pediátrica, 2017, p. 17, reproduzindo o INCA/Instituto Ronald McDonald, 2ª edição, 2014.

Na prova

Repare em qual instrumento o enunciado nomeia. Se ele fala em classificação de risco na atenção básica, em Estratégia Saúde da Família ou usa o vocabulário do AIEPI, a régua cobrada é a de 2,5 cm e 4 semanas. Se ele descreve a semiologia do gânglio neoplásico ou fala em investigação de linfoma, a régua é a de 3 cm e 6 semanas. Quando nenhum instrumento é nomeado, as características qualitativas são consenso nos dois textos: duro, indolor, aderido a planos profundos e de topografia supraclavicular.

Sintomas B: febre, sudorese e perda de peso somam ou bastam isoladamente

Disjunção

A classificação subdivide os pacientes em A ou B conforme a ausência ou a presença de febre, sudorese noturna ou emagrecimento com perda maior que 10% do peso corporal em 6 meses.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma de Hodgkin no Adulto, Portaria Conjunta nº 24, de 29/12/2020, item de estadiamento.

Conjunção

A perda de peso inexplicada de mais de 10% nos seis meses anteriores ao diagnóstico, associada à febre e à sudorese noturna, são sintomas constitucionais denominados sintomas B.

INCA; Instituto Ronald McDonald. Diagnóstico Precoce do Câncer na Criança e no Adolescente, 2ª ed., 2014, capítulo de sinais e sintomas gerais.

Na prova

A régua que decide estadiamento é a disjuntiva do protocolo: um sintoma sistêmico basta para o sufixo B. A redação do livro do INCA descreve a tríade completa e serve ao reconhecimento na atenção básica, não ao estadiamento. Enunciado que dá apenas sudorese noturna volumosa e pergunta o sufixo está cobrando a régua do protocolo; enunciado que pergunta se a criança deve ser encaminhada está cobrando a lista de alerta, na qual esse item entra junto com os outros oito.

Até que idade o paciente é pediátrico em oncologia

Teto de 19 anos

A política abrange as crianças e os adolescentes com suspeita ou diagnóstico de câncer na faixa etária de 0 a 19 anos, e os centros habilitados em oncologia pediátrica deverão prever o atendimento dessa mesma faixa.

Lei nº 14.308, de 8 de março de 2022, art. 1º, parágrafo único, e art. 4º, parágrafo único.

Piso de 19 anos

Serão incluídos neste protocolo pacientes adultos, 19 ou mais anos, com diagnóstico de linfoma de Hodgkin.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma de Hodgkin no Adulto, Portaria Conjunta nº 24, de 29/12/2020, critérios de inclusão.

Na prova

O enunciado sempre entrega qual documento está em jogo, e é ele que resolve a sobreposição. Pergunta sobre habilitação de serviço, linha de cuidado ou registro de câncer infantojuvenil responde pela lei, com 19 anos incluídos. Pergunta sobre esquema terapêutico de linfoma de Hodgkin responde pelo protocolo, no qual 19 anos já é adulto. Se o enunciado descreve um paciente de 18 anos, não há conflito: ele é pediátrico pelos dois textos.

Que fração dos linfomas não Hodgkin pediátricos é linfoblástica

Escola dos grupos cooperativos europeus

O linfoma linfoblástico representa cerca de um terço dos casos de linfoma não Hodgkin em crianças e adolescentes, e aproximadamente 30% na discussão do mesmo artigo.

Oliveira MCLA et al. Rev Assoc Med Bras. 2015;61(5):417-422, introdução e discussão, sustentadas em referências do grupo cooperativo alemão.

Medição em série do Nordeste brasileiro

Entre 110 crianças, o linfoma de Burkitt respondeu por 78,2% e o linfoma linfoblástico por 10,0% dos casos.

Pedrosa MF et al. J Pediatr (Rio J). 2007;83(6):547-554, tabela de tipo histológico.

Medição em serviço de Minas Gerais

O linfoma linfoblástico respondeu por 23% dos linfomas não Hodgkin da instituição em 26 anos, e uma série epidemiológica brasileira de 272 casos registrou 36%.

Oliveira MCLA et al. Rev Assoc Med Bras. 2015;61(5):417-422, discussão.

Na prova

A pergunta quase sempre é sobre o subtipo mais comum, e a resposta brasileira é Burkitt em qualquer das séries. A fração exata do linfoblástico não é cobrável, porque varia de 10% a 36% conforme a origem do dado; o que é cobrável é o par sítio-fenótipo: mediastino anterior com linhagem T, abdome com Burkitt. Quando o enunciado der um número de fração, ele terá nomeado a fonte.

06

Caso resolvido

Menino de 5 anos, previamente hígido, é levado à unidade básica por aumento do volume abdominal percebido há cerca de duas semanas, com dor difusa, saciedade precoce e uma evacuação a menos por dia. Ao exame está em bom estado geral, afebril, com abdome distendido e massa palpável em quadrante inferior direito, endurecida e pouco móvel. Não há adenomegalia periférica nem hepatoesplenomegalia. A mãe conta que há três dias procurou um pronto-socorro, onde o quadro foi atribuído a constipação e ele recebeu orientação dietética. Exames trazidos: hemoglobina 11,2 g/dL, leucócitos 8.400/mm³ sem blastos, plaquetas 310.000/mm³, creatinina 0,9 mg/dL, potássio 5,4 mEq/L e ácido úrico 9,8 mg/dL.
A velocidade já fecha o grupo
Massa abdominal endurecida que apareceu em duas semanas num pré-escolar é linfoma não Hodgkin até prova em contrário, e no Brasil o subtipo esperado nessa combinação de idade e sítio é o de Burkitt: na coorte de Recife, o abdome foi o sítio primário em 80,9% dos casos e a idade média foi de 6,1 anos. Neuroblastoma e tumor de Wilms entram no diferencial de massa abdominal, mas costumam ser mais insidiosos e não têm essa cinética.
O hemograma normal não tranquiliza
Alteração em duas ou mais séries do hemograma é uma das nove características de adenomegalia suspeita, mas é apenas uma delas, e o linfoma não Hodgkin abdominal costuma cursar com sangue periférico normal enquanto a medula está poupada. Aqui não há adenomegalia, e a régua do gânglio não se aplica: o que classifica a criança na faixa de encaminhamento urgente é 'massa palpável no abdômen', item próprio do Quadro 1.
A lise já começou, e nada foi administrado
Ácido úrico de 9,8 mg/dL e potássio de 5,4 mEq/L numa criança que não recebeu quimioterapia nenhuma são a doença se manifestando, não uma complicação do tratamento. É exatamente o cenário que o documento do INCA descreve como insuficiência renal aguda por infiltração renal, compressão de vias urinárias ou lise tumoral entre as consequências do atraso. Hidratação e proteção renal entram agora, antes de qualquer droga antineoplásica.
O encaminhamento é urgente, não eletivo
A conduta é referenciar imediatamente a serviço habilitado em oncologia pediátrica, com a criança já hidratada. Não cabe repetir exames, não cabe agendar ultrassonografia para daqui a quinze dias e não cabe prova terapêutica com laxante. O protocolo federal separa a faixa de risco de câncer ou doença grave justamente porque a conduta dela é encaminhar, e não investigar na atenção básica.
O tecido vem pelo caminho menos invasivo
No serviço de referência, a confirmação virá por citopatologia com imunofenotipagem de líquido ascítico se houver ascite, por mielograma com imunofenotipagem se houver infiltração, ou por biópsia do tumor mais acessível. Laparotomia com ressecção intestinal extensa é o desfecho que o protocolo lista como consequência do atraso, não como via diagnóstica.
O relógio legal ainda não começou
Os 30 dias do parágrafo acrescentado pela Lei nº 13.896/2019 cobrem os exames de elucidação mediante solicitação fundamentada; os 60 dias da Lei nº 12.732/2012 só passam a correr quando o laudo patológico for firmado. Numa doença que dobra em dias, os prazos legais são teto administrativo, nunca meta clínica.
07

Agora feche você

Adolescente de 15 anos procura o pronto-socorro pela terceira vez em três semanas por tosse seca e falta de ar aos esforços, progressiva. Nas duas visitas anteriores recebeu diagnóstico de crise asmática, com broncodilatador inalatório e prednisolona oral, que iniciou há 60 horas e ainda está em uso. Hoje refere que não consegue dormir deitado. Ao exame: taquipneico, com edema de face, pletora facial, turgência jugular e circulação colateral no tórax superior; ausculta com murmúrio reduzido à direita e sem sibilos. O radiograma de tórax mostra alargamento do mediastino anterior e velamento do seio costofrênico direito. O plantonista pede opinião antes de decidir a próxima dose.
Diga por que o rótulo de asma não se sustenta
Nomeie os três achados que não pertencem a broncoespasmo e explique por que a ausência de sibilos, num paciente que piora, é um dado a favor da hipótese alternativa, e não contra ela.
Nomeie a hipótese e o imunofenótipo esperado
Diga qual grupo de linfoma ocupa o mediastino anterior nessa faixa etária e qual linhagem predomina, apoiando-se na proporção observada na coorte mineira de linfoma linfoblástico.
Resolva o problema do corticoide já administrado
Diga o que as 60 horas de prednisolona fazem com a biópsia, qual é o limiar que a fonte registra e por que a folga entre os dois números da faixa importa aqui. Diga também o que precisa constar no prontuário.
Escolha a via de obtenção de tecido
Ordene as vias possíveis da menos para a mais invasiva, aproveitando o achado radiológico do seio costofrênico, e diga por que a toracotomia diagnóstica não é a primeira escolha neste paciente.
Decida sobre a próxima dose de corticoide
Diga em que condição o corticoide deixa de ser erro e passa a ser ponte, e o que precisa acontecer antes para que essa decisão não custe o diagnóstico.
Enquadre o prazo
Diga a partir de que marco os 60 dias começam a contar, o que os 30 dias cobrem, e por que nenhum dos dois responde pela urgência deste paciente.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Estadiar linfoma da criança por Ann Arbor Ann Arbor e Cotswolds são a régua do protocolo do adulto. O linfoma da criança e do adolescente é estadiado pelo sistema de St. Jude, também chamado de classificação de Murphy — que foi o usado pelas duas coortes brasileiras deste capítulo. Marcar Ann Arbor numa vinheta pediátrica atrai porque é o nome mais conhecido, e é justamente por isso que a alternativa existe.
  2. 2Concluir que gânglio que regrediu não era linfoma A condicional é de mão única: persistência acima do corte torna o gânglio suspeito, mas regressão não afasta nada. O documento do INCA diz explicitamente que corticoide regride doença linfonodal, massa e infiltração medular. Criança que melhorou depois de prednisona para suposta crise asmática é o cenário em que a regressão mais engana.
  3. 3Achar que desidrogenase láctica normal afasta Burkitt Na coorte de Recife, 78,2% dos casos eram Burkitt e 90,9% tinham doença avançada, e ainda assim apenas 36 pacientes (33%) tinham a enzima acima do corte usado. Dois terços de uma casuística dominada por Burkitt avançado não elevaram o marcador. Ele mede carga tumoral e serve ao risco, não ao diagnóstico.
  4. 4Ler a lista de adenomegalia suspeita como conjunção A seção 5.3 do protocolo de 2017 enuncia a mesma lista duas vezes, uma delas com a expressão 'em conjunto com'. Exigidas simultaneamente, as nove características descrevem uma criança que já não precisa de lista. A leitura útil e cobrada é disjuntiva: um item basta para tornar o gânglio suspeito, e a topografia supraclavicular sozinha já é um deles.
  5. 5Esperar sorologia para encaminhar 'Sorologias negativas' é uma das características da lista, não uma etapa obrigatória anterior ao encaminhamento. Sorologia pendente não equivale a sorologia negativa, e o mesmo documento manda referenciar em poucas horas quem tem linfadenomegalia com dispneia. Transformar um item de alerta em pré-requisito é o mecanismo mais comum de atraso.
  6. 6Contar os 60 dias da primeira consulta A Lei nº 12.732/2012 conta os 60 dias a partir do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico, não da suspeita nem da primeira consulta. Os 30 dias do parágrafo acrescentado em 2019 cobrem apenas os exames de elucidação, mediante solicitação fundamentada. Quem soma tudo a partir da queixa inicial erra o marco zero das duas regras.
  7. 7Levar a criança à laparotomia para fazer o diagnóstico O protocolo federal lista, entre as consequências do atraso, ressecções intestinais extensas desnecessárias em crianças com linfoma de Burkitt abdominal. Massa ileocecal de crescimento explosivo em pré-escolar pede tecido, não ressecção. Derrame com imunofenotipagem, mielograma e biópsia de linfonodo acessível vêm antes.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o paciente tem linfoma de Burkitt (alta carga tumoral, LDH muito elevado) com síndrome de lise tumoral JÁ estabelecida por critérios laboratoriais de Cairo-Bishop (hiperuricemia, hipercalemia, hiperfosfatemia e hipocalcemia). A base do tratamento é hidratação venosa vigorosa, e diante de hiperuricemia estabelecida com alto risco a rasburicase (uricase recombinante, que DEGRADA o ácido úrico já formado) é superior ao alopurinol. O alopurinol apenas bloqueia a formação de novo urato (não degrada o já existente) e a alcalinização urinária caiu em desuso — favorece precipitação de fosfato de cálcio nos túbulos e é contraindicada junto à rasburicase. Iniciar quimioterapia antes de corrigir a lise agrava agudamente os distúrbios metabólicos e o risco de arritmia/insuficiência renal. A conduta é o oposto — hidratação abundante; furosemida só se houver hipervolemia/oligúria, e restrição hídrica é deletéria. Alopurinol isolado é insuficiente frente à hiperuricemia já instalada e à altíssima carga tumoral.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as duas réguas de gânglio do protocolo de 2017, com tamanho, tempo e conduta de cada uma, e diga em qual página de qual seção cada uma mora. Ao lado, escreva o gânglio de 2,8 cm com cinco semanas e marque para qual lado ele cai em cada régua. Em seguida enuncie o corte dos 25% com a conjunção completa, e diga o que falta a uma criança com medula de 5% de blastos e sem massa. Escreva o limiar do corticoide com a faixa exata e as duas doenças com que o alargamento de mediastino é confundido. Por fim, para cada uma das quatro divergências do capítulo, escreva as duas posições, quem sustenta cada uma e o ano do documento.

em 30 dias

Volte pelos números que mudam decisão. O 19 como teto na Lei nº 14.308/2022 e como piso no protocolo do linfoma de Hodgkin no adulto. Os 2,5 cm com 4 semanas contra os 3 cm com 6 semanas, e os 2 cm do quadro de sinais e sintomas do livro de 2014. As 48 a 72 horas do corticoide. Os 30 dias dos exames e os 60 dias do primeiro tratamento, com o marco zero de cada um e a vigência de 180 dias da lei de 2019. A fração de Burkitt de 78,2% e a de linfoblástico entre 10% e 36%. O sítio abdominal em 80,9% de uma série e o mediastino em 40,7% da outra, com a explicação do fenótipo. E refaça, a partir dos numeradores, a conta que mostra que 27 das 110 crianças de Recife morreram sem que a doença tivesse recidivado, contra 4 depois da recidiva.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Treine a conversa que este capítulo cobra: a criança com massa que cresceu em duas semanas, ou o adolescente que não consegue deitar. A estação testa se você procura a massa antes de prescrever corticoide, se reconhece a lise que já veio pronta e se encaminha com urgência em vez de investigar na atenção básica. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Linfomas Hodgkin e não Hodgkin na infância – Linfomas na criança e no adolescente — Preparatório para provas | OsceLabs