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Emergências oncológicas: lise tumoral e compressão medular
As três emergências em que o tratamento começa antes de o diagnóstico fechar. Na compressão medular, a dexametasona sai antes da ressonância; na lise tumoral, a hidratação sai antes do primeiro exame alterado; na hipercalcemia, o soro sai antes do PTH voltar. A prova cobra exatamente essa inversão de ordem.
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 48 anos com linfoma de Burkitt de grande massa inicia quimioterapia. Cerca de 48 horas após a primeira dose, evolui com oligúria, câimbras e arritmia. Ao exame: PA 138x86 mmHg, FC irregular. Exames: potássio 6,4 mEq/L, fósforo 7,8 mg/dL, ácido úrico 12 mg/dL, cálcio 7,0 mg/dL, creatinina 2,8 mg/dL. Qual medicação é a de escolha para o controle da hiperuricemia nessa síndrome, sendo capaz de degradar o ácido úrico já formado?
Como esse tema cai
Este é o capítulo das emergências em que o tratamento começa antes de o diagnóstico fechar. Na compressão medular metastática, a dexametasona é prescrita antes da ressonância. Na síndrome de lise tumoral, a hidratação e o alopurinol começam antes do primeiro exame alterado. Na hipercalcemia da malignidade, o soro fisiológico corre antes de o PTH voltar do laboratório. Essa inversão de ordem é o que a prova cobra, e é o que separa a resposta certa da resposta que parece mais caprichada.
Os três quadros aparecem em três formatos de questão. O primeiro entrega um paciente com câncer conhecido e uma queixa banal — dor nas costas há três semanas — e pergunta a conduta: quem responde analgésico e retorno erra; quem responde ressonância de toda a coluna e corticoide acerta. O segundo entrega um painel laboratorial 48 horas depois da primeira quimioterapia e pede o nome da síndrome e o que fazer com o cálcio baixo. O terceiro pergunta qual medicamento o SUS tem e qual não tem, e ali quase todo mundo erra por um motivo estrutural que este capítulo explica.
A régua brasileira aqui é feita de três documentos que se encaixam. A Rename 2024 diz o que existe na assistência farmacêutica — e o que existe é surpreendente: dexametasona injetável e alopurinol estão no componente Básico, ao alcance de qualquer unidade; rasburicase não aparece uma única vez em 254 páginas. As Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, de dezembro de 2023, dão as doses de bisfosfonato e a regra de financiamento que explica a ausência. E a coorte do INCA publicada na Revista Brasileira de Cancerologia dá o retrato nacional da compressão medular: quem chega, com o quê, e o que sobra depois.
Fica fora deste capítulo o maquinário eletrolítico da hipercalcemia — a correção pela albumina, a classificação por gravidade, a ordem soro-calcitonina-antirreabsortivo e o rebote hipocalcêmico estão no capítulo de distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo, e não se repetem aqui: o que fica é a leitura oncológica do achado. Também ficam fora a neutropenia febril e a síndrome da veia cava superior, que são outra emergência e outro recorte, e o rastreamento e o diagnóstico precoce das neoplasias, que estão no capítulo de sinais de alarme na atenção primária.
O que muda decisão
Três emergências, três relógios
As emergências oncológicas se organizam pelo que se perde enquanto se espera. Na compressão medular metastática, o que se perde é a medula: instalado o déficit motor, boa parte dele não volta, e o relógio é de horas. Na síndrome de lise tumoral, o que se perde é o rim, e o relógio é de dias — a janela útil está antes da primeira dose de quimioterapia, não depois. Na hipercalcemia da malignidade, o que se perde é o estado de consciência e a função renal, e o relógio corre junto com a desidratação que a própria hipercalcemia provoca.
Esse relógio explica a inversão que a prova cobra. Em nenhuma das três se espera o diagnóstico completo para agir: dá-se corticoide ao paciente com câncer e dor nas costas com sinal neurológico antes da ressonância, hidrata-se o paciente de alto risco antes de qualquer alteração laboratorial e expande-se com soro antes de saber se o PTH está suprimido. O erro típico do candidato não é escolher o remédio errado, é escolher a ordem errada — pedir o exame antes de dar a droga que preserva o órgão.
As três também compartilham uma característica que muda a leitura da vinheta: nenhuma delas é doença nova, todas são complicação de doença conhecida. O paciente da vinheta quase sempre já tem câncer diagnosticado, ou tem uma pista grosseira de que tem — emagrecimento, massa, adenomegalia volumosa, desidrogenase láctica alta. Quando o enunciado dá um paciente oncológico e uma queixa aparentemente trivial, a pergunta não é se existe emergência: é qual delas.

Compressão medular metastática: o retrato brasileiro
A coorte do INCA acompanhou 90 pacientes com tumores sólidos que desenvolveram compressão medular metastática entre janeiro de 2017 e dezembro de 2018, com idade média de 54 anos. A distribuição do tumor primário é a primeira coisa a memorizar, porque é a mesma que as bancas usam: mama em 42 pacientes, tumores geniturinários em 25, pulmão em 10 e outros em 13. Mama, próstata e pulmão dominam a lista mundial de causas, e a coorte brasileira reproduz o padrão com o peso extra que a mama tem num instituto de referência.
O tempo mediano entre o diagnóstico do câncer e a compressão foi de 20 meses — quer dizer, a complicação chega no meio do seguimento, não na apresentação. O segmento mais acometido foi o torácico, em 53 dos 90 pacientes, seguido do lombossacro e do cervical; 14 pacientes tinham compressão em mais de um nível ao mesmo tempo. Esse último número, quase um em cada seis, é o argumento clínico para a regra de imagem que vem adiante: quem faz ressonância só do segmento que dói pode perder a segunda lesão.
O dado mais duro é o funcional. Ao diagnóstico da compressão, 50 dos 90 pacientes já não conseguiam andar — 55,6% da coorte. Dos 90, 85 foram internados; 15 morreram durante a internação e 70 receberam alta. E, entre esses 70 que saíram vivos do hospital, 36 continuavam sem marcha: mais da metade. É a estatística que justifica o adjetivo emergência — não porque o paciente morre naquela noite, mas porque a função que se perde naquela noite não volta.
A sobrevida põe tudo em perspectiva e é o que costuma faltar na resposta do candidato. A sobrevida mediana global após a compressão medular foi de 5,2 meses, com 65,5% vivos aos três meses, 47,5% aos seis e 33,6% aos doze. Mas ela varia brutalmente com o primário: 12,6 meses na mama, 4,1 nos geniturinários, 3,1 no pulmão e 2,6 nos demais. Na análise multivariada, comparados aos de mama, os pacientes de pulmão tiveram 4,1 vezes mais risco de morrer (IC 95% 1,79-9,41), os de tumor geniturinário 1,9 vez (IC 95% 1,06-3,45) e os de outros primários 3,1 vezes (IC 95% 1,58-6,24).
E a marcha é fator prognóstico, não só desfecho: quem deambulava ao diagnóstico teve sobrevida mediana de 7,9 meses contra 3,6 meses de quem não deambulava. Quem tinha até duas vértebras acometidas viveu 6,3 meses contra 4,1 meses de quem tinha mais de duas. Preservar a marcha não é objetivo estético de reabilitação — anda junto com viver mais.
A dor que chega semanas antes do déficit
O sintoma inicial foi dor na coluna em 81,1% dos pacientes da coorte do INCA, e essa é a informação mais aproveitável do capítulo, porque a dor precede o déficit em semanas. A janela terapêutica da compressão medular não abre quando o paciente não anda: abre quando ele reclama de dor nas costas e ninguém liga. O paciente que chega já sem marcha é, quase sempre, um paciente cuja dor foi tratada como lombalgia comum semanas antes.
A dor da metástase vertebral tem assinatura. É progressiva e não alivia com repouso — costuma piorar deitado e acordar o paciente à noite, o oposto da dor mecânica, que melhora quando o paciente se deita. Pode ser localizada sobre o processo espinhoso, com dor à percussão, ou irradiada em faixa ao redor do tronco, no trajeto da raiz. Sinais que se somam depois: fraqueza nas pernas, alteração de sensibilidade com nível, e por último a disfunção esfincteriana — que é o achado tardio, não o precoce. Na coorte, 11 pacientes tinham disfunção esfincteriana ao diagnóstico e 17 já usavam cateter vesical.
O detalhe que a banca explora é a ordem em que os achados aparecem. Esperar a retenção urinária para pedir a ressonância é esperar o fim: a bexiga é o último a falhar e o que menos recupera. Também vale a diferença de vizinhança: os sinais de alarme da lombalgia, detalhados no capítulo de lombalgia e hérnia de disco, incluem o diagnóstico de neoplasia acometendo a coluna vertebral como critério de encaminhamento à emergência no mesmo dia — apontam para este capítulo sem resolvê-lo. Ali a decisão é encaminhar; aqui é o que se faz quando o paciente chega.
Ressonância de todo o neuroeixo, em 24 horas
O exame é a ressonância magnética, e a extensão importa tanto quanto o exame. A diretriz NG234 do NICE, de 2023, recomenda ressonância de toda a coluna o quanto antes e sempre dentro de 24 horas da suspeita, com sequências sagitais em T1 ou STIR para achar as metástases, sagitais em T2 para mostrar o nível e o grau de compressão da medula ou da cauda equina, e cortes axiais complementares sobre qualquer anormalidade relevante. Não existe diretriz nacional dedicada ao tema; a régua que vale, portanto, é a internacional, e a NG234 é a mais recente e a mais citada.
Toda a coluna, e não o segmento doloroso, por dois motivos que a coorte brasileira ilustra: 14 dos 90 pacientes tinham compressão em mais de um nível, e o nível da dor nem sempre corresponde ao nível da lesão, porque a dor pode ser referida. Imagem parcial gera plano de radioterapia parcial — irradiar o campo errado é pior do que não irradiar, porque consome a janela e a tolerância do tecido.
Quando a ressonância é contraindicada — marca-passo antigo, claustrofobia intratável, indisponibilidade real —, a alternativa é a tomografia, e o NICE a recomenda explicitamente nessa situação. Ressonância fora do horário, de madrugada, o NICE reserva para as circunstâncias em que o diagnóstico urgente permite começar o tratamento imediatamente: se a radioterapia só vai começar de manhã, o exame da madrugada não muda nada. E, na suspeita com sinais de instabilidade da coluna, a imobilização começa antes de tudo, inclusive para o transporte.
Dexametasona: dar sempre; a briga é a dose
O corticoide reduz o edema vasogênico ao redor da medula comprimida, alivia a dor e compra tempo até o tratamento definitivo. Que ele deve ser dado, não há controvérsia, e a prova disso é antiga: no ensaio dinamarquês de Sørensen, 57 pacientes com compressão medular por tumor sólido foram randomizados para dexametasona em dose alta ou nenhum corticoide, todos recebendo radioterapia. Mantiveram a marcha após o tratamento 81% dos que receberam dexametasona contra 63% dos que não receberam, e aos seis meses seguiam deambulando 59% contra 33%. A sobrevida mediana foi idêntica nos dois grupos — o corticoide preserva função, não prolonga vida.
A briga é a dose, e ela existe porque o esquema testado por Sørensen era brutal: 96 mg intravenosos em bolus, seguidos de 96 mg por via oral por três dias e desmame em dez. Repare no que esse ensaio comparou e no que não comparou: o braço controle não recebia corticoide nenhum. Ele prova que dexametasona é melhor que nada; nunca testou 96 mg contra uma dose moderada. Quem cita Sørensen para defender a dose alta está estendendo o resultado para além do que o desenho permite.
Quem testou dose contra dose foi Vecht, em 1989: 37 pacientes randomizados para bolus inicial de 10 mg ou de 100 mg intravenosos, ambos seguidos de 16 mg/dia por via oral. A dor caiu igual nos dois grupos — escore médio de 5,2 antes, 3,8 em três horas, 2,8 em 24 horas e 1,4 em uma semana — e não houve diferença em deambulação nem em função vesical. E quem mediu o preço da dose alta foi Heimdal, no mesmo período: entre 28 pacientes consecutivos tratados com 96 mg de ataque, houve quatro eventos adversos graves — uma úlcera fatal com hemorragia, um sangramento retal, uma perfuração gastrointestinal e uma perfuração de sigmoide —, taxa de 14,3%. Trocado o esquema por 16 mg/dia, os 38 pacientes consecutivos seguintes tiveram três eventos, nenhum grave, e o mesmo número de pacientes deambulando.
Foi essa aritmética que a diretriz atual absorveu: o NICE recomenda 16 mg de dexametasona por via oral, ou dose parenteral equivalente, o quanto antes, mantidos 16 mg/dia enquanto o paciente aguarda cirurgia ou radioterapia. E aqui entra o dado brasileiro que quase ninguém sabe: dexametasona 4 mg/mL solução injetável e 4 mg comprimido estão na Rename 2024 no componente Básico — a droga que preserva a medula é das mais disponíveis do sistema, e o obstáculo real ao tratamento nunca é ela.
Duas cautelas fecham a seção. A primeira é a proteção gástrica e o controle glicêmico, porque a maior parte do dano do corticoide em dose alta apareceu no tubo digestivo. A segunda vale quando o paciente ainda não tem diagnóstico histológico e a hipótese é linfoma: o corticoide é linfolítico e pode dissolver a massa antes da biópsia, deixando o paciente sem tratamento definido. Nessa situação específica, corticoide e biópsia se negociam com o hematologista — não se adia por rotina, adia-se por motivo.
Radioterapia, cirurgia e o que Patchell provou
O tratamento definitivo é radioterapia, cirurgia descompressiva seguida de radioterapia, ou as duas coisas em ordem — e a pergunta de prova é quando a cirurgia entra. O ensaio de Patchell, publicado no Lancet em 2005, randomizou pacientes com compressão medular metastática para cirurgia descompressiva direta seguida de radioterapia ou radioterapia isolada, com dez frações de 3 Gy nos dois braços. Voltaram a andar ou seguiram andando 42 dos 50 operados (84%) contra 29 dos 51 irradiados (57%), com odds ratio de 6,2 (IC 95% 2,0-19,8; p=0,001), e a marcha durou mais: mediana de 122 dias contra 13. Entre os 32 que entraram no estudo já sem andar, voltaram a andar 10 de 16 (62%) no braço cirúrgico contra 3 de 16 (19%) no braço da radioterapia.
O resultado é robusto, mas o próprio resumo do artigo traz a ressalva que o candidato precisa carregar: o estudo foi interrompido numa análise interina porque a regra de parada predefinida foi atingida, com 123 pacientes avaliados para elegibilidade e 101 randomizados. Ensaio interrompido cedo por benefício tende a superestimar o efeito, e o intervalo de confiança amplo da odds ratio já denuncia o tamanho pequeno. Patchell mudou a prática — não transformou cirurgia em conduta universal.
A prática brasileira mostra o outro lado da mesma moeda. Na coorte do INCA, 72 dos 90 pacientes (80%) foram tratados com radioterapia e apenas 8 (8,9%) foram operados; outros 10 receberam outra modalidade. Quer dizer: menos de um em cada dez chegou à cirurgia que o ensaio consagrou. Parte disso é seleção correta — Patchell não se aplica a quem tem prognóstico de semanas, paraplegia estabelecida há mais de 48 horas, múltiplos níveis de compressão ou condição clínica proibitiva —, e parte é disponibilidade. O candidato que responde cirurgia para todos erra tanto quanto o que responde radioterapia para todos.
Os critérios que empurram para a cirurgia são reconhecíveis na vinheta: instabilidade da coluna ou fratura patológica com fragmento ósseo no canal, ausência de diagnóstico histológico (a cirurgia dá o tecido), tumor sabidamente radiorresistente, progressão do déficit durante a radioterapia, ou recidiva em campo já irradiado. Os que empurram para a radioterapia isolada: tumor radiossensível (linfoma, mieloma, seminoma, pequenas células), múltiplos níveis, prognóstico curto, paciente sem condição cirúrgica. Quando a cirurgia não é opção, o NICE manda oferecer radioterapia urgente, também dentro de 24 horas.
E há a terceira coluna do tratamento, que a coorte brasileira registra e a prova esquece: 46 dos 90 pacientes (51,1%) receberam bisfosfonato após o diagnóstico da compressão, e 52 (57,8%) foram encaminhados para a rede de cuidados paliativos. Numa doença com sobrevida mediana de 5,2 meses, definir cedo o cuidado paliativo é parte do tratamento, não o seu abandono.
Síndrome de lise tumoral: quem lisa
A lise tumoral é o avesso de uma boa notícia: o tumor responde tão rápido ao tratamento que o conteúdo das células despejado na circulação supera a capacidade de depuração do rim. Sai potássio, sai fósforo, saem ácidos nucleicos que viram ácido úrico. O fósforo em excesso sequestra cálcio e precipita como fosfato de cálcio no túbulo; o ácido úrico cristaliza no túbulo. O resultado é hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia, hipocalcemia e lesão renal aguda — e, no extremo, arritmia, convulsão e morte súbita.
O risco depende primeiro da doença. O guia do Einstein, aprovado em abril de 2024, estratifica em três faixas nomeadas pela probabilidade: baixo risco abaixo de 1%, risco intermediário entre 1% e 5%, alto risco acima de 5%. No alto risco moram o linfoma de Burkitt, o linfoma linfoblástico, a leucemia linfoblástica aguda com contagem alta de blastos, a leucemia mieloide aguda com leucometria a partir de 100 x 10⁹/L, a leucemia linfocítica crônica tratada com venetoclax e linfonodo volumoso, o linfoma plasmablástico e os linfomas agressivos com doença bulky e desidrogenase láctica ao dobro do limite superior. No risco intermediário ficam os tumores sólidos muito quimiossensíveis com doença volumosa ou avançada, a leucemia de células plasmáticas, os mesmos linfomas agressivos quando têm desidrogenase láctica alta mas não têm massa bulky, e a leucemia mieloide aguda entre 25 e 100 x 10⁹/L.
A coluna do baixo risco guarda duas surpresas para quem estratifica por gravidade da doença em vez de por biologia. Além da maioria dos tumores sólidos e do linfoma de Hodgkin, estão no baixo risco os linfomas não Hodgkin indolentes, a leucemia linfocítica crônica com linfócitos abaixo de 50 mil e sem venetoclax, fludarabina ou rituximabe, a leucemia mieloide aguda com leucometria abaixo de 25 x 10⁹/L — e, contrariando a intuição, o mieloma múltiplo e a leucemia mieloide crônica. São doenças graves e de prognóstico reservado, mas o que produz lise não é gravidade: é taxa de proliferação somada a quimiossensibilidade. O tumor que responde rápido demais é o que derruba o rim.
Dentro de cada doença, o que reclassifica é a carga tumoral: lesões com mais de 10 cm de diâmetro, leucometria acima de 50 mil/mm³, desidrogenase láctica pré-tratamento ao dobro do limite superior e envolvimento de medula óssea. São os quatro marcadores que transformam um linfoma agressivo comum num paciente de alto risco.
O risco depende, em terceiro lugar, do paciente: doença renal crônica prévia, desidratação ou baixa ingestão hídrica, hiperuricemia basal com ácido úrico acima de 7,5 mg/dL, hiperfosfatemia basal acima de 4,5 mg/dL, e uso de medicamentos que aumentam o depósito renal de urato — tiazídicos, metildopa, aspirina, etambutol. A régua prática de escalonamento é elegante: doença de risco intermediário que já chega com ácido úrico, potássio ou fosfato acima do limite superior sobe de faixa; doença de risco intermediário com disfunção ou envolvimento renal também sobe.
Dois detalhes desmontam distratores. O primeiro é que a lise pode ser espontânea, antes de qualquer tratamento, em tumores de altíssima proliferação — a ausência de quimioterapia na vinheta não afasta o diagnóstico. O segundo é a janela: as alterações aparecem tipicamente entre 48 e 72 horas após o início do tratamento citotóxico, e o monitoramento do paciente de alto risco se estende por até sete dias.
Cairo-Bishop: a laboratorial e a clínica
A classificação que os protocolos brasileiros reproduzem é a de Cairo e Bishop, publicada em 2004, e a primeira coisa a fixar é que ela tem dois andares. A lise tumoral laboratorial exige duas ou mais alterações, colhidas entre três dias antes e sete dias depois do início do tratamento oncológico: ácido úrico igual ou acima de 8 mg/dL, potássio igual ou acima de 6 mEq/L, fósforo igual ou acima de 4,5 mg/dL no adulto (6,5 mg/dL na criança) e cálcio igual ou abaixo de 7 mg/dL. Cada critério também é satisfeito por variação de 25% em relação ao valor basal do próprio paciente — para cima nos três primeiros, para baixo no cálcio.
A lise tumoral clínica é a laboratorial mais pelo menos uma manifestação: lesão renal aguda com creatinina acima de 1,5 vez o limite superior da normalidade, arritmia nova, convulsão ou morte súbita. A consequência prática dessa arquitetura é que não existe lise clínica sem lise laboratorial — o quadro clínico isolado, sem o painel de eletrólitos, não fecha o diagnóstico. Alternativa que oferece convulsão e insuficiência renal em paciente oncológico com eletrólitos normais está descrevendo outra coisa.
Dois cuidados de leitura do laboratório. A desidrogenase láctica sobe na lise e sobe cedo, mas não é critério diagnóstico: ela entra como marcador de carga tumoral e de risco, não como item da lista. E o cálcio precisa ser lido com a albumina ao lado, como em qualquer dosagem de cálcio total — o paciente oncológico desnutrido tem cálcio total baixo por hipoalbuminemia, e confundir isso com a hipocalcemia da lise é somar um critério que não existe. A conta da correção e o restante da leitura do cálcio estão no capítulo de distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo.
Profilaxia e tratamento: hidratar, alopurinol, rasburicase
O melhor tratamento da lise tumoral é não deixá-la acontecer, e a profilaxia se organiza pela faixa de risco. No baixo risco, hidratação por via oral e nenhuma profilaxia farmacológica nem monitoramento laboratorial de rotina. No risco intermediário, hidratação venosa mais alopurinol, com controle laboratorial a critério do especialista. No alto risco, hidratação venosa, alopurinol, controle laboratorial diário e rasburicase para quem chega com hiperuricemia prévia, com ácido úrico igual ou acima de 7,5 mg/dL.
A hidratação é o pilar e tem alvo, não volume fixo: manter débito urinário acima de 2 mL/kg/hora, com hidratação venosa da ordem de 3 L/m² por dia, usando diurético apenas se necessário para atingir o alvo. O alopurinol inibe a xantina oxidase e impede a formação de ácido úrico novo — não desfaz o que já está lá. A dose do protocolo brasileiro é 100 mg por via oral a cada 8 horas, isto é, 300 mg/dia, com redução à metade na vigência de lesão renal aguda. Alopurinol 100 mg e 300 mg comprimido estão na Rename 2024, no componente Básico.
A rasburicase é outra coisa: é uma urato-oxidase recombinante que degrada o ácido úrico já formado, com queda mensurável em horas. A dose é 0,15 a 0,2 mg/kg por dia, geralmente em dose única com reavaliação a cada 24 horas, podendo se estender por até sete dias conforme a evolução. A contraindicação que a prova adora é a deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase: o peróxido de hidrogênio gerado na reação provoca hemólise grave e meta-hemoglobinemia em quem não tem a enzima. E há a armadilha laboratorial: como a enzima continua degradando urato dentro do tubo à temperatura ambiente, a amostra para dosar ácido úrico depois da rasburicase precisa ir ao laboratório em gelo, sob pena de resultado falsamente baixo.
Duas condutas clássicas saíram. A alcalinização da urina com bicarbonato, que gerações aprenderam para solubilizar o urato, não é mais recomendada — a diretriz de Coiffier e colaboradores já a rejeitava em 2008, e o protocolo brasileiro de 2024 repete que ela não é mais preconizada. O motivo é mecanicamente simples: alcalinizar solubiliza o urato mas favorece a precipitação de fosfato de cálcio no túbulo, trocando um cristal por outro. A segunda é corrigir o cálcio: a hipocalcemia da lise só se repõe se houver sintomas — tetania, arritmia —, porque cálcio infundido sobre fósforo alto precipita em tecidos. O tratamento real da hipocalcemia da lise é derrubar o fósforo.
Estabelecida a lise, todo paciente interna, e o que tem sinal de gravidade — arritmia nova, convulsão, potássio acima de 6 — vai para terapia intensiva. O monitoramento bioquímico completo (ácido úrico, fósforo, potássio, cálcio, ureia, creatinina e desidrogenase láctica) é diário nos casos sem gravidade e de 6 em 6 horas nos graves, com quantificação do débito urinário e peso duas vezes ao dia. A nefrologia entra quando há disfunção renal, e a diálise resolve o que o volume não resolve — as indicações de urgência são as mesmas do capítulo de injúria renal aguda, com a hiperfosfatemia refratária somada à lista.
Hipercalcemia da malignidade: a leitura oncológica
A hipercalcemia é a emergência metabólica mais comum do paciente com câncer, e a leitura oncológica dela cabe em três ideias. A primeira é diagnóstica: nas Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, a hipercalcemia é o C do acrônimo CRAB, e tem corte definido — cálcio sérico 1 mg/dL ou mais acima do limite superior da normalidade, ou acima de 11 mg/dL. Num paciente com proteína monoclonal, esse cálcio não é só um distúrbio a corrigir: é critério que define doença ativa e dispara o tratamento do mieloma.
A segunda é prognóstica. Hipercalcemia com PTH suprimido em paciente oncológico marca doença avançada, e a mesma diretriz lista, entre as consequências da doença óssea do mieloma, dor intensa, fraturas, compressão da medula espinhal e hipercalcemia — as duas emergências deste capítulo saindo do mesmo osso. Quando a vinheta traz dor lombar, anemia, insuficiência renal e cálcio alto, o mieloma é a hipótese, e a compressão medular é o que se procura no exame neurológico.
A terceira é terapêutica, e aqui o capítulo faz uma remissão explícita em vez de repetir: a correção do cálcio pela albumina, a classificação por gravidade com os cortes de 12 e 14 mg/dL, a ordem soro fisiológico primeiro, calcitonina como ponte, antirreabsortivo desde o primeiro dia, glicocorticoide na hipercalcemia mediada por calcitriol e a vigilância do rebote hipocalcêmico estão no capítulo de distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo, e não se repetem aqui.
O que é específico da oncologia e não está lá são as doses e cautelas do bisfosfonato como tratamento da doença óssea, que as Diretrizes do Mieloma Múltiplo fixam: ácido zoledrônico 4 mg intravenosos uma vez ao mês, ou pamidronato 90 mg intravenosos uma vez ao mês, diluído em 500 mL de solução livre de cálcio e infundido em quatro horas, quando o zoledrônico não estiver disponível ou for contraindicado. O uso máximo é de 24 meses, com possibilidade de espaçar a partir de 12 meses em quem respondeu. A suplementação de cálcio 500 mg/dia e vitamina D 400 UI/dia é obrigatória para prevenir a hipocalcemia induzida pelo bisfosfonato — e, em quem chega hipercalcêmico, começa só depois de normalizado o cálcio sérico. Bisfosfonato é nefrotóxico: a depuração de creatinina se monitora mensalmente.
Por que o remédio da emergência oncológica não está na Rename
Aqui está o achado que resolve a família de questões sobre acesso, e ele é contraintuitivo. Uma varredura das 254 páginas da Rename 2024 mostra que dexametasona e alopurinol estão lá, no componente Básico — mas o arsenal específico da emergência oncológica não está. Ácido zoledrônico aparece só na apresentação de 5 mg/100 mL, no componente Especializado, tendo como documentos norteadores o PCDT da Doença de Paget e o PCDT da Osteoporose: não é a apresentação de 4 mg da oncologia. Pamidronato aparece só em 60 mg, norteado pelo PCDT da Osteoporose, não os 90 mg da diretriz do mieloma. Calcitonina aparece só em solução nasal, não a injetável usada na hipercalcemia grave. E rasburicase não aparece uma única vez. O padrão salta aos olhos quando se lê a coluna do documento norteador: cada apresentação listada existe amarrada ao protocolo que a incorporou — Paget, osteoporose — e nenhum deles é oncológico.
A explicação não é escassez, é arquitetura de financiamento — e ela vale sobretudo para o medicamento que corre dentro do serviço de oncologia. Está escrita em todas as diretrizes oncológicas do Ministério da Saúde, inclusive na do mieloma múltiplo de 2023: o Ministério da Saúde e as Secretarias de Saúde não padronizam nem fornecem medicamentos antineoplásicos diretamente aos hospitais ou aos usuários do SUS. Os procedimentos quimioterápicos da Tabela do SUS não fazem referência a qualquer medicamento; o hospital habilitado em oncologia é quem padroniza, adquire e fornece, cabendo-lhe codificar o procedimento correspondente para ser ressarcido. A partir da habilitação, a responsabilidade pelo fornecimento é do hospital, público ou privado.
As exceções são nominais e vale saber quais são, porque também caem: são adquiridos pelo Ministério da Saúde e repassados aos hospitais habilitados o mesilato de imatinibe (para GIST, leucemia mieloide crônica e leucemia linfoblástica aguda com cromossomo Philadelphia), o nilotinibe e o dasatinibe (leucemia mieloide crônica), o rituximabe (linfoma folicular e linfoma difuso de grandes células B) e o trastuzumabe com o pertuzumabe (carcinoma de mama). Fora dessa lista curta, medicamento oncológico não transita pela assistência farmacêutica.
A consequência para a prova é uma frase que vale para o tema inteiro: estar disponível no SUS e estar na Rename são coisas diferentes em oncologia. Alternativa que afirma que a rasburicase não é usada no SUS por não constar da Rename troca a causa pelo efeito — ela não consta porque nenhum medicamento oncológico de uso hospitalar consta, e o que decide o acesso real é a padronização do hospital habilitado. É a mesma lógica que explica por que a dexametasona da compressão medular é trivialmente acessível na ponta e o zoledrônico de 4 mg só existe dentro do serviço de oncologia.
As três emergências, seus relógios e seus gatilhos
Os cards separam as três pelo que se perde e em quanto tempo. O fluxo detalha a compressão medular, que é a que mais cai e a que mais depende da ordem certa. A primeira tabela traz os quatro valores de Cairo-Bishop; a segunda, a estratificação de risco da lise tumoral com a profilaxia correspondente; a terceira, os três ensaios que decidiram a dose de dexametasona.
- 1Paciente com câncer conhecido e dor na coluna: trate como suspeita de compressão medular até prova em contrário — a dor precede o déficit em semanas e é o sintoma inicial em 81% dos casos.
- 2Exame neurológico dirigido: força nos membros inferiores, nível sensitivo, reflexos, tônus esfincteriano. Disfunção urinária é achado TARDIO — não espere por ela para agir.
- 3Havendo déficit ou suspeita forte, comece dexametasona 16 mg (oral ou dose parenteral equivalente) IMEDIATAMENTE, antes da imagem, e mantenha 16 mg/dia enquanto aguarda o tratamento definitivo.
- 4Se há sinal de instabilidade da coluna, imobilize desde já, inclusive para o transporte.
- 5Ressonância magnética de TODA a coluna em até 24 horas: sagital T1 ou STIR, sagital T2 e axiais sobre a lesão. Sem ressonância possível, tomografia.
- 6Defina o tratamento com neurocirurgia e radioterapia no mesmo dia: cirurgia descompressiva seguida de radioterapia se há instabilidade, fragmento ósseo no canal, ausência de diagnóstico histológico, tumor radiorresistente, progressão sob radioterapia ou recidiva em campo irradiado.
- 7Radioterapia urgente, em até 24 horas, para quem não é candidato à cirurgia — o que inclui tumor radiossensível, múltiplos níveis, prognóstico curto e condição clínica proibitiva.
- 8Trate o esqueleto e o resto da doença: bisfosfonato quando indicado, analgesia, profilaxia de tromboembolismo, reabilitação precoce e definição de cuidados paliativos — a sobrevida mediana após a compressão é de 5,2 meses.
Compressão medular — relógio de horas
Dor nas costas que precede o déficit em semanas; disfunção esfincteriana é achado tardio. Dexametasona antes da imagem, ressonância de TODA a coluna em até 24 horas, radioterapia urgente ou cirurgia descompressiva seguida de radioterapia. O que se perde não volta: na coorte do INCA, 50 dos 90 já não andavam ao diagnóstico.
Lise tumoral — relógio de dias
Janela útil ANTES da primeira dose. Hidratar para débito acima de 2 mL/kg/h, alopurinol no risco intermediário e alto, rasburicase no alto risco com urato a partir de 7,5 mg/dL. Diagnóstico por Cairo-Bishop: duas alterações laboratoriais entre 3 dias antes e 7 dias depois do tratamento.
Hipercalcemia — relógio do volume
Soro fisiológico antes de qualquer coisa, porque a poliúria da hipercalcemia desidrata e a desidratação sobe mais o cálcio. Critério CRAB do mieloma: cálcio 1 mg/dL acima do limite superior ou acima de 11 mg/dL. A conduta detalhada está no capítulo de distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo.
| Analito | Valor crítico | Ou variação | O que fazer com ele |
|---|---|---|---|
| Ácido úrico | ≥ 8 mg/dL | Aumento de 25% sobre o basal | Alopurinol impede o urato novo; rasburicase degrada o que já existe. Amostra pós-rasburicase vai em gelo. |
| Potássio | ≥ 6 mEq/L | Aumento de 25% sobre o basal | É o que mata primeiro: monitorização cardíaca e tratamento imediato da hipercalemia. |
| Fósforo | ≥ 4,5 mg/dL no adulto (≥ 6,5 na criança) | Aumento de 25% sobre o basal | Volume e, se grave com falência renal, diálise. É o fósforo que precipita com o cálcio no túbulo. |
| Cálcio total | ≤ 7 mg/dL (ajustar pela albumina) | Redução de 25% sobre o basal | Só se repõe se sintomático: cálcio sobre fósforo alto precipita em tecidos. |
Lise tumoral: risco da doença e profilaxia correspondente
| Faixa | Quem está nela | Profilaxia |
|---|---|---|
| Baixo risco (< 1%) | Maioria dos tumores sólidos; mieloma múltiplo; leucemia mieloide crônica; linfomas não Hodgkin indolentes (zona marginal, folicular); linfoma de Hodgkin; leucemia linfocítica crônica com linfócitos abaixo de 50 mil e sem venetoclax, fludarabina ou rituximabe; leucemia mieloide aguda com leucometria abaixo de 25 x 10⁹/L | Hidratação por via oral; sem alopurinol e sem monitoramento laboratorial de rotina |
| Risco intermediário (1-5%) | Tumores sólidos muito quimiossensíveis (neuroblastoma, tumor de células germinativas, carcinoma de pequenas células) com doença volumosa ou avançada; leucemia de células plasmáticas; linfomas agressivos (T periférico, ATLL, difuso de grandes células B, células do manto, transformados) com DHL acima do limite mas SEM massa bulky; leucemia linfoblástica aguda com blastos abaixo de 100 x 10⁹/L e/ou DHL ao dobro; leucemia linfocítica crônica sob venetoclax com linfonodo ≥ 5 cm ou linfócitos ≥ 25 mil; leucemia mieloide aguda de 25 a 100 x 10⁹/L | Hidratação venosa com alvo de débito urinário; alopurinol 100 mg VO 8/8 h; controle laboratorial a critério do especialista |
| Alto risco (> 5%) | Linfoma de Burkitt; linfoma linfoblástico; linfoma plasmablástico; linfoma difuso de grandes células B infantil estádio III/IV com DHL ≥ 2× o limite; linfomas agressivos com doença bulky E DHL ao dobro; leucemia linfoblástica aguda com blastos acima de 100 x 10⁹/L e/ou DHL ao dobro; leucemia mieloide aguda a partir de 100 x 10⁹/L; leucemia linfocítica crônica sob venetoclax com linfonodo ≥ 10 cm; doença de risco intermediário que chega com disfunção ou envolvimento renal — ou com urato, potássio ou fosfato acima do limite | Hidratação venosa (~3 L/m²/dia), alopurinol, controle laboratorial diário e rasburicase 0,15-0,2 mg/kg quando o ácido úrico basal for ≥ 7,5 mg/dL |
Dexametasona na compressão medular: o que cada ensaio testou
| Ensaio | Comparação | Resultado | O que ele autoriza concluir |
|---|---|---|---|
| Sørensen, Eur J Cancer 1994 (n=57) | 96 mg IV em bolus + 96 mg VO por 3 dias, desmame em 10 dias, CONTRA nenhum corticoide | Marcha após o tratamento em 81% contra 63%; aos 6 meses, 59% contra 33%; sobrevida idêntica; efeitos adversos significativos em 3 (11%) | Dexametasona é melhor que nada. NÃO testou dose alta contra dose moderada |
| Vecht, Neurology 1989 (n=37) | Bolus inicial de 10 mg IV contra 100 mg IV, ambos seguidos de 16 mg/dia VO | Sem diferença em dor, deambulação ou função vesical; a dor caiu igual nos dois braços | O bolus alto não acrescenta benefício sobre o convencional |
| Heimdal, J Neurooncol 1992 (n=28 e n=38) | 96 mg de ataque em 28 consecutivos, depois 16 mg/dia em 38 consecutivos | 4 eventos graves com 96 mg (14,3%), incluindo úlcera fatal e duas perfurações; nenhum evento grave com 16 mg/dia, sem diferença em deambulação | O bolus alto acrescenta toxicidade. Junto com Vecht, é o que sustenta os 16 mg/dia do NICE |
Os 16 mg/dia de dexametasona são a recomendação 1.8.1 da diretriz NG234 do NICE (2023). Não existe diretriz brasileira dedicada à compressão medular metastática; a régua nacional cobre o entorno — a dexametasona injetável está na Rename 2024 e as Diretrizes do Mieloma Múltiplo nomeiam a compressão medular entre as complicações da doença óssea.
A tabela de Cairo-Bishop exige DUAS ou mais alterações, e cada uma vale tanto pelo valor absoluto quanto pela variação de 25% em relação ao basal do próprio paciente. A janela é de 3 dias antes a 7 dias depois do início do tratamento.
Incoerência de unidade na fonte: o protocolo da Unidade de Emergência do HC de Ribeirão Preto grafa o critério de potássio como 'maior ou igual a 6 mg/dL'. Potássio não se dosa em mg/dL — o valor correto é 6 mEq/L, como está no guia do Einstein. O mesmo documento declara validade da versão até 4 de agosto de 2018.
Incoerência interna no guia do Einstein de 2024, em dois pontos: o texto fixa o alvo de débito urinário em mais de 2 mL/kg/hora e o fluxograma fixa 100 mL/hora (para 70 kg, 2 mL/kg/h dá 140 mL/h); e a dose de rasburicase aparece como '0,15-0,2 mg/kg' no rodapé e como '0,15-0,2mg', sem o por quilo, dentro do fluxograma. Vale o texto, não o fluxograma.
Dois defeitos de faixa na mesma tabela de risco, em sentidos opostos. Na leucemia linfoblástica aguda, o risco intermediário traz 'menor que 100 x 10⁹/L' e o alto risco 'maior que 100 x 10⁹/L': o valor exatamente igual a 100 fica sem categoria. Na leucemia mieloide aguda, o intermediário traz 'de 25 a 100' e o alto 'a partir de 100': o valor 100 cai nas duas. Na dúvida, o paciente sobe de faixa — subestimar risco de lise custa rim.
Célula fora de lugar na mesma tabela: a linha 'Doença de Risco Intermediário com ácido úrico, potássio e/ou fosfato acima do LSN' aparece impressa na coluna do BAIXO risco, ao lado de 'Doença de Risco Intermediário com disfunção renal e/ou envolvimento renal' na coluna do alto risco. Doença intermediária não vira baixo risco por ter eletrólito alterado; a leitura correta é a que este capítulo adota — alteração basal de urato, potássio ou fosfato ESCALONA a faixa, como faz a disfunção renal.
Na coorte do INCA, a coluna da alta hospitalar da Tabela 2 traz n=70 no cabeçalho, mas os percentuais estão calculados sobre os 90 pacientes da coorte inteira — os percentuais somam 77,8%, que é exatamente 70/90. Refeita a conta sobre os 70 que efetivamente receberam alta, 36 seguiam sem marcha: 51,4%, e não os 40% que a discussão do artigo enuncia.
A odds ratio de 6,2 do ensaio de Patchell vem com intervalo de confiança de 2,0 a 19,8 — largura que denuncia o tamanho pequeno da amostra, coerente com um estudo interrompido cedo por regra de parada.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Esquema de dose alta (Sørensen, 1994)
96 mg intravenosos em bolus, seguidos de 96 mg por via oral por 3 dias e desmame em 10 dias, associados à radioterapia. Marcha preservada em 81% contra 63% de quem não recebeu corticoide, e 59% contra 33% ainda deambulando aos 6 meses. O comparador era ausência de corticoide.
Sørensen S, et al. Eur J Cancer. 1994;30A(1):22-7
Dose moderada (NICE NG234, 2023)
16 mg de dexametasona por via oral, ou dose parenteral equivalente, o quanto antes, mantidos 16 mg/dia enquanto o paciente aguarda cirurgia ou radioterapia. Apoia-se no ensaio de Vecht (1989), que não achou diferença entre bolus de 10 e de 100 mg, e no de Heimdal (1992), que achou 14,3% de eventos adversos graves com 96 mg e nenhum com 16 mg/dia.
National Institute for Health and Care Excellence. NICE guideline NG234, 2023, recomendação 1.8.1
Na prova
A pista está no vocabulário do enunciado e no ano da referência. Alternativa que traz 96 ou 100 mg de ataque reproduz o esquema do ensaio dinamarquês de 1994, ainda repetido por manuais antigos e por bancas que copiam de livro-texto. Alternativa que traz 16 mg/dia, com ou sem bolus de 10 mg, está no recorte da diretriz do NICE de 2023 e dos ensaios de dose contra dose. Prova recente e enunciado que menciona toxicidade, sangramento digestivo ou perfuração está pedindo a dose moderada; enunciado que cita explicitamente o estudo de Sørensen está pedindo o número histórico.
Painel internacional (Coiffier, 2008)
Rasburicase profilática nos pacientes de alto risco; hidratação com alopurinol ou rasburicase no risco intermediário; vigilância no baixo risco. A recomendação de rasburicase no alto risco não condiciona ao valor basal de ácido úrico.
Coiffier B, Altman A, Pui CH, Younes A, Cairo MS. J Clin Oncol. 2008;26(16):2767-78
Protocolo institucional brasileiro (Einstein, 2024)
No alto risco, hidratação venosa, alopurinol 100 mg VO 8/8 h e controle laboratorial diário; a rasburicase 0,15-0,2 mg/kg fica indicada para os pacientes com hiperuricemia prévia, com ácido úrico igual ou acima de 7,5 mg/dL. A rasburicase não consta da Rename 2024.
Hospital Israelita Albert Einstein. Guia do Episódio de Cuidado — Síndrome de Lise Tumoral, documento CPTW390.1, aprovado em 30/4/2024
Na prova
Cenário e vocabulário denunciam o recorte. Enunciado ambientado em serviço do SUS, ou que pede a conduta 'disponível', aponta para hidratação e alopurinol, com a rasburicase reservada a quem já chega hiperuricêmico. Enunciado que nomeia a diretriz internacional, ou que descreve linfoma de Burkitt com carga tumoral enorme e desfecho renal, está cobrando a profilaxia farmacológica pela urato-oxidase no alto risco. A diferença é de custo e disponibilidade, não de mecanismo — e nenhum dos dois lados discute que a hidratação vem antes de qualquer droga.
Superioridade da cirurgia no paciente selecionado (Patchell, 2005)
Entre 101 randomizados, andavam após o tratamento 42/50 (84%) no braço de cirurgia mais radioterapia contra 29/51 (57%) no de radioterapia isolada, com odds ratio de 6,2 (IC 95% 2,0-19,8) e mediana de 122 contra 13 dias de marcha preservada. O estudo foi interrompido numa análise interina por regra de parada predefinida.
Patchell RA, et al. Lancet. 2005;366(9486):643-8
Radioterapia como tratamento majoritário na prática brasileira
Na coorte de 90 pacientes do INCA, 72 (80%) foram tratados com radioterapia e apenas 8 (8,9%) com cirurgia. A diretriz NG234 recomenda radioterapia urgente, dentro de 24 horas, para quem não é candidato à cirurgia — que é a maioria, por prognóstico curto, múltiplos níveis, radiossensibilidade do tumor ou condição clínica.
Faria EM, et al. Rev Bras Cancerol. 2022;68(2):e-182160 — coorte do INCA; e NICE NG234, recomendação 1.10.4
Na prova
O enunciado costuma entregar a resposta num detalhe estrutural. Fragmento ósseo no canal, fratura patológica, instabilidade da coluna, ausência de diagnóstico histológico ou piora do déficit durante a radioterapia empurram para a cirurgia. Tumor radiossensível nomeado (linfoma, mieloma, seminoma, carcinoma de pequenas células), múltiplos níveis de compressão, paraplegia instalada há dias ou prognóstico de semanas empurram para a radioterapia isolada. Alternativa que generaliza — 'cirurgia para todos porque o ensaio mostrou superioridade' — ignora o critério de seleção do próprio ensaio.
Caso resolvido
- achado
- Dor vertebral de padrão neoplásico (progressiva, pior deitada, noturna) em paciente com câncer de mama, somada a paraparesia com hiperreflexia e nível sensitivo torácico. É compressão medular metastática até prova em contrário — e o nível clínico (mamilo, T4-T5 dermatomérico) não coincide necessariamente com o nível da lesão.
- interpretação
- A paciente está no melhor momento possível da doença: ainda anda. Na coorte do INCA, 50 de 90 pacientes já chegam sem marcha, e quem deambula ao diagnóstico tem sobrevida mediana de 7,9 meses contra 3,6 meses de quem não deambula. Mama é o primário mais frequente e o de melhor prognóstico (mediana de 12,6 meses). Tudo o que se faz nas próximas horas é para que ela continue andando.
- conduta imediata
- Dexametasona 16 mg agora, por via oral ou dose parenteral equivalente, sem esperar a imagem, mantendo 16 mg/dia até o tratamento definitivo, com protetor gástrico e controle glicêmico. Analgesia, repouso relativo e imobilização se houver suspeita de instabilidade. Rastreio de bexiga com medida de resíduo pós-miccional, mesmo sem queixa.
- diagnóstico
- Ressonância magnética de TODA a coluna em até 24 horas — sagital T1 ou STIR e T2, com axiais sobre a lesão —, não apenas do segmento dorsal doloroso: um em cada seis pacientes tem compressão em mais de um nível. Se a ressonância for impossível, tomografia.
- tratamento definitivo
- Discussão no mesmo dia com neurocirurgia e radioterapia. Carcinoma de mama é relativamente radiossensível e a paciente deambula: se não houver instabilidade, fratura com fragmento no canal nem compressão em nível único ressecável com bom prognóstico, o caminho é radioterapia urgente, dentro de 24 horas. Havendo instabilidade ou fragmento ósseo comprimindo, cirurgia descompressiva seguida de radioterapia, pelo padrão que o ensaio de Patchell estabeleceu para o paciente selecionado.
- o que vem depois
- Reavaliar a doença sistêmica (a compressão medular indica progressão e costuma mudar a linha de tratamento), iniciar bisfosfonato para a doença óssea, profilaxia de tromboembolismo venoso no paciente com mobilidade reduzida, reabilitação precoce e conversa honesta sobre prognóstico, com articulação de cuidados paliativos — que na coorte brasileira envolveu 57,8% dos pacientes.
Agora feche você
- achado
- Síndrome de lise tumoral CLÍNICA. Preenche a lise laboratorial de Cairo-Bishop com folga — ácido úrico acima de 8, potássio acima de 6, fósforo acima de 4,5 e cálcio abaixo de 7, com albumina normal, ou seja, quatro dos quatro critérios dentro da janela de 7 dias após o tratamento — e acrescenta manifestação clínica: lesão renal aguda (creatinina mais que dobrada) e arritmia nova.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Pedir a ressonância antes de dar a dexametasona É o erro de ordem mais cobrado do capítulo. A imagem define o tratamento, mas o corticoide reduz o edema e protege a medula enquanto o exame não sai — e ressonância de urgência, no mundo real, demora horas. Alternativa que coloca imagem antes de corticoide numa suspeita com déficit está errada mesmo quando todo o resto da conduta está certo.
- 2Esperar a retenção urinária para suspeitar de compressão medular A disfunção esfincteriana é o achado tardio, não o precoce: a sequência é dor, depois fraqueza, depois nível sensitivo e só por último bexiga. Na coorte do INCA, o sintoma inicial foi dor na coluna em 81,1% dos pacientes. Quem espera a bexiga falhar está esperando o dano irreversível.
- 3Fazer ressonância só do segmento que dói O NICE manda imaginar toda a coluna, e a razão está nos números: 14 dos 90 pacientes da coorte brasileira tinham compressão em mais de um nível, e a dor pode ser referida a distância do nível comprimido. Campo de radioterapia planejado sobre imagem parcial pode irradiar o lugar errado.
- 4Citar os 96 mg de dexametasona como padrão porque 'foi assim no ensaio' O ensaio que usou 96 mg comparou com nenhum corticoide, não com dose moderada. Quem comparou dose contra dose não achou diferença de eficácia, e quem mediu toxicidade achou 14,3% de eventos graves com o bolus alto contra zero com 16 mg/dia. A diretriz atual recomenda 16 mg/dia — o esquema alto sobrevive em prova como distrator de memória.
- 5Operar todo mundo porque 'Patchell provou que cirurgia é melhor' Patchell randomizou 101 pacientes e foi interrompido cedo por regra de parada, com intervalo de confiança amplo. Ele mudou a prática para o paciente selecionado — instabilidade, fragmento ósseo, tumor radiorresistente, ausência de histologia, progressão sob radioterapia. Na coorte do INCA, 80% receberam radioterapia e 8,9% foram operados. Cirurgia para todos é tão errado quanto radioterapia para todos.
- 6Alcalinizar a urina na lise tumoral Conduta de livro antigo que ainda povoa alternativas. Alcalinizar solubiliza o urato mas favorece a precipitação de fosfato de cálcio no túbulo — troca um cristal por outro. A diretriz internacional já a rejeitava em 2008 e o protocolo brasileiro de 2024 repete que ela não é mais preconizada. Só hidratação e controle do urato.
- 7Repor cálcio de rotina na lise tumoral A hipocalcemia da lise vem acoplada a fósforo altíssimo; infundir cálcio precipita fosfato de cálcio em rim e tecidos moles. Só se repõe com sintoma — tetania, arritmia. O tratamento real é derrubar o fósforo com volume e, se grave com falência renal, diálise.
- 8Achar que a lise tumoral só existe depois da quimioterapia A lise pode ser espontânea, em tumores de proliferação altíssima como o linfoma de Burkitt, antes de qualquer tratamento. A definição de Cairo-Bishop cobre a janela de 3 dias ANTES a 7 dias depois justamente por isso. Vinheta sem quimioterapia não afasta o diagnóstico — a carga tumoral e a desidrogenase láctica são as pistas.
- 9Dar rasburicase sem perguntar por deficiência de G6PD A reação da urato-oxidase gera peróxido de hidrogênio; sem a G6PD para neutralizá-lo, o resultado é hemólise grave e meta-hemoglobinemia. É a contraindicação formal do fármaco. Some-se o detalhe pré-analítico: amostra colhida depois da rasburicase precisa ir em gelo, ou o ácido úrico continua sendo degradado dentro do tubo e volta falsamente baixo.
- 10Explicar a ausência de um medicamento oncológico dizendo que ele 'não está na Rename' Em oncologia isso inverte causa e efeito. O Ministério da Saúde não padroniza nem fornece antineoplásicos — salvo imatinibe, nilotinibe, dasatinibe, rituximabe, trastuzumabe e pertuzumabe: o hospital habilitado padroniza, adquire e fornece, e é ressarcido pelo procedimento da Tabela do SUS. Por isso o zoledrônico de 4 mg e o pamidronato de 90 mg da oncologia não figuram na lista — onde constam apenas as apresentações amarradas aos protocolos de osteoporose e de doença de Paget — embora sejam usados diariamente na rede.
- 11Tratar dor lombar de paciente oncológico como lombalgia mecânica A dor da metástase vertebral piora deitada e acorda o paciente à noite — o inverso da dor mecânica. Neoplasia acometendo a coluna já é, no protocolo brasileiro de lombalgia, critério de encaminhamento à emergência no mesmo dia. Analgésico e retorno em 30 dias é a resposta que consome a janela.
O quadro é síndrome de lise tumoral (hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia, hipocalcemia e lesão renal). A rasburicase (urato-oxidase recombinante) degrada o ácido úrico já formado em alantoína, sendo de escolha na hiperuricemia estabelecida com disfunção renal (correta). Alopurinol e febuxostate apenas inibem a formação de novo ácido úrico (xantina-oxidase), não degradam o já existente. Colchicina trata gota aguda, não lise tumoral. Probenecida é uricosúrico, contraindicado com sobrecarga renal de urato e disfunção renal.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem de 47 anos, previamente hígido, é internado com diagnóstico recente de linfoma não-Hodgkin de alto grau, com grande massa abdominal. Cerca de 24 horas após a primeira sessão de quimioterapia, evolui com oligúria, náuseas e câimbras. Exames: potássio 6,4 mEq/L, fósforo 7,8 mg/dL, cálcio 6,8 mg/dL, ácido úrico 12 mg/dL, creatinina 2,9 mg/dL (prévia 0,9). Qual medida profilática, se tivesse sido plenamente instituída antes da quimioterapia, teria maior impacto na prevenção dessa complicação?
O quadro é síndrome de lise tumoral (hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e lesão renal aguda) em tumor de alta carga e alta taxa proliferativa. A prevenção mais eficaz é hidratação endovenosa vigorosa associada a agente hipouricemiante — rasburicase (em alto risco) ou alopurinol. Reposição de fósforo pioraria a hiperfosfatemia. Alcalinização urinária não é mais recomendada de rotina (precipita fosfato de cálcio). Furosemida em altas doses e restrição hídrica não previnem e podem agravar a lesão renal.
Mulher de 58 anos com linfoma de alto grau inicia quimioterapia em hospital de referência. Cerca de 48 horas após a primeira sessão, apresenta oligúria, náuseas e fraqueza. Exames: potássio 6,4 mEq/L, fósforo elevado, cálcio baixo, ácido úrico muito elevado e elevação de creatinina. Qual é o diagnóstico e a medida terapêutica mais importante?
O quadro pós-quimioterapia de linfoma de alto grau com hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e lesão renal aguda é clássico de SÍNDROME DE LISE TUMORAL. O tratamento fundamental é hidratação endovenosa vigorosa (para preservar diurese e clareamento de urato/fosfato), manejo urgente da hipercalemia (risco de arritmia) e redução do ácido úrico com alopurinol ou rasburicase; monitorização de indicação de diálise. Não é nefrite intersticial (restringir hidratação seria deletério), nem sepse neutropênica (o distúrbio é metabólico), nem hipercalcemia (aqui o cálcio está BAIXO).
Um homem de 58 anos, com diagnóstico recente de linfoma de alto grau, inicia quimioterapia e, 48 horas depois, é levado à UPA com náuseas, câimbras e oligúria. Os exames mostram hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e elevação da creatinina. Qual é a complicação mais provável e a conduta prioritária?
A tríade laboratorial de hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e hiperuricemia com lesão renal aguda, poucas horas após quimioterapia de neoplasia de alta carga tumoral (linfoma de alto grau), é característica da síndrome de lise tumoral. A conduta prioritária inclui hidratação endovenosa vigorosa, manejo da hipercalemia e demais distúrbios, controle da uricemia (alopurinol/rasburicase) e monitorização, com hemodiálise se refratário. As demais opções não explicam o conjunto de distúrbios metabólicos e o contexto de início recente de quimioterapia.
Homem, 67 anos, tabagista ativo (50 maços-ano), procura o pronto-socorro com edema facial, pletora, distensão das veias do pescoço e cefaleia que pioram ao inclinar-se para frente, com evolução de 2 semanas. Ao exame, há circulação colateral visível na parede torácica anterior e edema em esclavina (face, pescoço e membros superiores). A tomografia de tórax evidencia volumosa massa mediastinal à direita, comprimindo estruturas vasculares, além de nódulo espiculado no lobo superior direito. Qual é o diagnóstico da síndrome apresentada e a estrutura anatômica primariamente acometida?
Correta: o quadro de edema facial e cervical (edema em esclavina), pletora, turgência jugular, circulação colateral torácica e cefaleia que piora ao inclinar-se, associado a massa mediastinal à direita, é a síndrome da veia cava superior (SVCS), decorrente da obstrução do fluxo pela compressão/invasão da veia cava superior — mais comumente por câncer de pulmão (sobretudo o carcinoma de pequenas células e o escamoso). Errada: tamponamento cursa com hipotensão, abafamento de bulhas e pulso paradoxal, sem o padrão de congestão restrita à cabeça e membros superiores. Errada: síndrome de Pancoast (tumor do sulco superior) causa dor no ombro/braço e comprometimento do plexo braquial, não edema em esclavina. Errada: síndrome de Horner (ptose, miose, anidrose) resulta de acometimento simpático e integra o Pancoast, mas não explica a congestão venosa cefálica. Errada: derrame pleural volumoso desvia o mediastino, mas não produz edema em esclavina nem circulação colateral — sinais específicos de obstrução da cava superior.
Homem, 62 anos, com diagnóstico recente de adenocarcinoma de próstata metastático para coluna, refere dor lombar intensa e progressiva há 3 semanas, que piora ao deitar e à noite. Há 2 dias evoluiu com fraqueza progressiva em ambos os membros inferiores, parestesias abaixo do umbigo e, hoje, dificuldade para iniciar a micção. Ao exame: força grau 3/5 em membros inferiores, hiperreflexia patelar bilateral, nível sensitivo em T10 e bexiga palpável. Qual é a conduta imediata mais adequada, antes mesmo do exame de imagem?
O quadro é de compressão medular metastática (dor que piora ao deitar/noturna, déficit motor bilateral, nível sensitivo T10 e disfunção esfincteriana com retenção urinária) — emergência oncológica. Diante de déficit neurológico, deve-se iniciar corticoide em dose alta (dexametasona) por via endovenosa IMEDIATAMENTE, ainda antes da confirmação por imagem, para reduzir o edema e limitar a progressão do dano. A ressonância magnética de toda a coluna é o exame padrão-ouro e deve ser feita em seguida, com definição de descompressão cirúrgica e/ou radioterapia. A radiografia simples de coluna tem baixa sensibilidade e não deve ser aguardada; o corticoide não pode esperar. A radioterapia paliativa é parte do tratamento definitivo, mas não substitui o corticoide imediato e depende do estadiamento por imagem. Prescrever apenas analgesia opioide e reavaliar em 24 h com déficit progressivo pode tornar a lesão irreversível (a paraplegia estabelecida raramente reverte). E a fisioterapia motora não trata a emergência.
Homem, 24 anos, com diagnóstico de linfoma não-Hodgkin de Burkitt (alta carga tumoral, DHL muito elevado), internado para iniciar quimioterapia. Cerca de 24 horas após a primeira dose, evolui com náuseas, cãibras e oligúria. Exames: potássio 6,4 mEq/L (VR 3,5–5,0), fósforo 7,2 mg/dL (VR 2,5–4,5), cálcio 6,8 mg/dL (VR 8,5–10,5), ácido úrico 11,5 mg/dL (VR 3,5–7,2), creatinina 2,4 mg/dL (VR 0,6–1,2). O ECG mostra ondas T apiculadas. Além das medidas de emergência para a hipercalemia, qual é o agente farmacológico de escolha para o controle da hiperuricemia neste paciente que já apresenta lesão renal aguda instalada?
O quadro é síndrome de lise tumoral (hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e lesão renal aguda) em linfoma de Burkitt de alto risco. Com hiperuricemia grave (11,5 mg/dL) e injúria renal JÁ instalada, o agente de escolha é a rasburicase (urato-oxidase recombinante), que converte o ácido úrico em alantoína, altamente solúvel, reduzindo rapidamente os níveis e o risco de nefropatia por urato. O alopurinol bloqueia a formação de novo ácido úrico, mas NÃO reduz o já formado e tem início lento — é profilático, insuficiente para hiperuricemia grave estabelecida com IRA. O febuxostate também é inibidor da xantina-oxidase, com a mesma limitação do alopurinol (não degrada o urato existente). A alcalinização urinária com bicarbonato de sódio caiu em desuso na era da rasburicase, pois favorece precipitação de fosfato de cálcio e não é recomendada de rotina. A probenecida (uricosúrico) é contraindicada na lise tumoral, pois aumenta a carga de urato nos túbulos e piora a nefropatia. Obs.: antes da rasburicase deve-se afastar deficiência de G6PD.
Homem, 62 anos, procura o pronto-socorro por aumento rápido e volumoso de linfonodos cervicais e axilares bilaterais nas últimas 4 semanas, associado a febre e emagrecimento. Ao exame: adenomegalias generalizadas, endurecidas, além de hepatoesplenomegalia. Exames: LDH 820 U/L (VR 135-225), ácido úrico 9,8 mg/dL (VR 3,4-7,0), creatinina 1,9 mg/dL (VR 0,7-1,3), potássio 5,9 mEq/L (VR 3,5-5,0), fósforo 6,2 mg/dL (VR 2,5-4,5) e cálcio 7,4 mg/dL (VR 8,5-10,5). A biópsia confirma linfoma não Hodgkin difuso de grandes células B. Está programado o início imediato de quimioterapia (R-CHOP). Além da hidratação venosa vigorosa, qual medida é a MAIS adequada para a prevenção e manejo da principal complicação metabólica esperada nesse paciente?
Correta: o paciente tem linfoma agressivo de alta carga tumoral (adenomegalias volumosas, hepatoesplenomegalia, LDH muito elevada) e já apresenta laboratório de síndrome de lise tumoral (SLT) estabelecida: hiperuricemia, hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e lesão renal. Em pacientes de alto risco ou com SLT já instalada, a rasburicase (urato-oxidase recombinante) é a droga de escolha, pois degrada rapidamente o ácido úrico existente — superior ao alopurinol, que apenas bloqueia a formação de novo urato. O alopurinol isolado não reduz o urato já formado e é insuficiente no alto risco/SLT estabelecida. O distúrbio é hipocalcemia, não hipercalcemia; restrição hídrica e diurético agravariam a lesão renal e a lise. A reposição de cálcio na hipocalcemia assintomática da SLT deve ser evitada pelo risco de precipitação de fosfato de cálcio; só se corrige se sintomática. A furosemida com reposição de potássio é contraindicada diante da hipercalemia existente.
Homem, 68 anos, com adenocarcinoma de próstata metastático, apresenta dor dorsal progressiva há 2 semanas, que piora à noite e em decúbito. Há 24 horas evoluiu com fraqueza de membros inferiores (força grau 3/5), nível sensitivo em T8, retenção urinária e hiperreflexia patelar bilateral. Sinal de Babinski presente. RM de coluna evidencia massa epidural em T7-T8 comprimindo o cordão medular. Além do início imediato de corticoterapia em altas doses, qual é a próxima conduta prioritária?
Correta: a compressão medular metastática com déficit motor de instalação recente (<48h) é emergência neurocirúrgica — a cirurgia descompressiva precoce seguida de radioterapia oferece melhor recuperação neurológica que radioterapia isolada em pacientes com bom prognóstico e compressão de segmento único (evidência de Patchell). Erra: adiar a radioterapia para regime ambulatorial na semana seguinte perde a janela terapêutica de um déficit progressivo agudo. Erra: cintilografia para estadiamento não deve atrasar a descompressão em déficit progressivo. Erra: conduta expectante em déficit motor progressivo leva a paraplegia irreversível. Erra: a quimioterapia sistêmica é lenta e não resolve a compressão mecânica aguda do cordão.
Homem, 24 anos, com diagnóstico recente de linfoma de Burkitt, apresenta volumosa massa abdominal e DHL 3 vezes o limite superior da normalidade. Iniciou quimioterapia há 12 horas e refere náuseas e cãibras. Exame: FC 92 bpm, PA 130x80 mmHg, sem alterações ao ECG. Já em hidratação endovenosa vigorosa. Labs: K 6,2 mEq/L (VR 3,5-5,0), fósforo 7,8 mg/dL (VR 2,5-4,5), cálcio 7,2 mg/dL (VR 8,5-10,5), ácido úrico 11,5 mg/dL (VR 3,5-7,2) e creatinina 1,9 mg/dL (VR 0,7-1,3). Assinale a conduta mais adequada para o distúrbio do ácido úrico.
Trata-se de síndrome de lise tumoral estabelecida e de alto risco (Burkitt, DHL elevada, ácido úrico >8 mg/dL, já com lesão renal aguda e distúrbios eletrolíticos). A rasburicase (uricase recombinante) degrada o ácido úrico já formado, sendo o agente de escolha na SLT de alto risco/estabelecida; é contraindicada na deficiência de G6PD (risco de hemólise e metahemoglobinemia), por isso deve-se rastrear antes. Errada: o alopurinol apenas inibe a xantina-oxidase, prevenindo formação nova de urato, mas não reduz o ácido úrico já circulante — insuficiente no quadro estabelecido. Errada: a alcalinização caiu em desuso, pois favorece a precipitação de fosfato de cálcio e não é mais recomendada. Errada: a hipocalcemia assintomática NÃO deve ser corrigida com cálcio, pois eleva o produto cálcio-fósforo e a deposição tecidual; repõe-se apenas se sintomática ou com arritmia. Errada: furosemida não é rotina, podendo agravar a precipitação e a função renal, sobretudo se houver hipovolemia.
Mulher, 62 anos, com câncer de mama metastático para ossos, apresenta dor lombar progressiva há 3 semanas, que piora à noite e ao deitar. Há 2 dias evolui com fraqueza e parestesias em ambos os membros inferiores e, hoje, com dificuldade para iniciar a micção. Ao exame: força grau 3/5 em membros inferiores, hiperreflexia patelar e nível sensitivo em T10. Assinale a conduta inicial mais apropriada.
O quadro é clássico de compressão medular metastática (dor que piora ao deitar/à noite, déficit motor e sensitivo com nível medular e disfunção esfincteriana), uma emergência oncológica. A conduta é iniciar dexametasona endovenosa em dose alta IMEDIATAMENTE, sem aguardar a imagem, seguida de RM de todo o neuroeixo (a compressão pode ser multinível), para então definir radioterapia ou descompressão cirúrgica. Errada: a radiografia tem baixa sensibilidade e o atraso de 24 horas pode tornar o déficit irreversível. Errada: a cintilografia não define compressão medular e retarda o tratamento. Errada: radioterapia sem imagem é inadequada — é preciso localizar e estadiar o nível acometido. Errada: manejo ambulatorial é inaceitável diante de déficit neurológico agudo com risco de paraplegia definitiva.
Adolescente, 16 anos, apresenta massa abdominal volumosa de crescimento explosivo (dobrou de tamanho em poucos dias), dor abdominal e vômitos. Laboratório: LDH 2.100 U/L (VR 135–225), ácido úrico 9,5 mg/dL (VR 3,5–7,2), potássio 5,3 mEq/L (VR 3,5–5,0). A biópsia evidencia infiltrado difuso de células monótonas de tamanho médio com padrão em 'céu estrelado', Ki-67 próximo de 100% e translocação t(8;14) envolvendo o gene MYC. Antes de iniciar a quimioterapia, qual a medida prioritária para prevenir a principal complicação metabólica?
O quadro (massa de crescimento explosivo, LDH muito elevada, padrão em céu estrelado, Ki-67 ~100% e t(8;14)/MYC) define linfoma de Burkitt, altíssimo risco de síndrome de lise tumoral — evidenciada já pela hiperuricemia e hipercalemia. A profilaxia obrigatória é hidratação endovenosa vigorosa associada a rasburicase (indicada no alto risco/hiperuricemia estabelecida), sendo C a correta. Iniciar QT sem medidas precipitaria lise tumoral fatal. Restrição hídrica + furosemida é o oposto do necessário, piorando a precipitação de uratos. Bicarbonato isolado não é mais recomendado de rotina e é insuficiente sozinho. Aguardar retarda de forma inaceitável o tratamento de um linfoma de duplicação rapidíssima.
Homem, 24 anos, previamente hígido, é internado para início de quimioterapia por linfoma de Burkitt, com volumosa massa abdominal e DHL de 3× o limite superior da normalidade. Antes da primeira dose, os exames mostram: potássio 6,3 mEq/L (VR 3,5–5,0), fósforo 7,8 mg/dL (VR 2,5–4,5), ácido úrico 11,5 mg/dL (VR 3,5–7,2), cálcio total 7,4 mg/dL (VR 8,5–10,5) e creatinina 1,8 mg/dL (VR 0,7–1,3). Encontra-se assintomático, com diurese preservada. Qual a conduta mais adequada?
Trata-se de síndrome de lise tumoral de ALTO risco já estabelecida (Burkitt, DHL elevada, hiperuricemia franca e injúria renal), preenchendo critérios de Cairo-Bishop (hipercalemia + hiperfosfatemia + hiperuricemia + hipocalcemia). A base do tratamento é hidratação isotônica vigorosa para manter fluxo urinário, e como o ácido úrico já está muito elevado com disfunção renal, a droga de escolha é a rasburicase (uricase que degrada o urato circulante), superior ao alopurinol nesse cenário. A alcalinização urinária por bicarbonato caiu em desuso e é contraindicada com hiperfosfatemia, pois favorece precipitação de fosfato de cálcio nos túbulos; o alopurinol apenas bloqueia a formação de novo urato, não reduz o já formado. A restrição hídrica é o oposto do necessário — a hidratação vigorosa protege o rim, e o alopurinol isolado é insuficiente. A hipocalcemia assintomática NÃO deve ser corrigida com gluconato de cálcio endovenoso na vigência de hiperfosfatemia, pelo risco de calcificação metastática. E a hemodiálise fica reservada a casos refratários, oligoanúria ou distúrbios graves não controlados, não sendo a medida inicial neste paciente com diurese preservada.
Mulher, 58 anos, com câncer de mama metastático em tratamento sistêmico, refere dor dorsal torácica progressiva há 3 semanas, de forte intensidade, que piora à noite e ao decúbito. Há 2 dias evoluiu com fraqueza progressiva dos membros inferiores e, hoje, com retenção urinária. Ao exame: força grau 3 em membros inferiores, nível sensitivo em T6 e hiper-reflexia patelar bilateral. Qual a conduta inicial mais adequada?
O quadro é típico de compressão medular metastática (dor dorsal que piora à noite/decúbito, déficit motor ascendente, nível sensitivo e retenção urinária) — emergência oncológica em que o tempo até o tratamento define o prognóstico neurológico. Diante da suspeita clínica, corticoide em alta dose (dexametasona) deve ser iniciado IMEDIATAMENTE, sem esperar a imagem, e a ressonância magnética de toda a coluna (padrão-ouro, avalia todo o eixo por lesões múltiplas) é solicitada com urgência. A radiografia simples da coluna torácica é pouco sensível, e aguardar avaliação eletiva da neurocirurgia permite a instalação de déficit irreversível. A radioterapia antálgica local é parte do tratamento, mas exige imagem prévia para localizar o nível e planejar o campo, além de não substituir o corticoide imediato. A tomografia de coluna é inferior à ressonância para avaliação medular, e reavaliar só em 48 horas num quadro progressivo arrisca paraplegia definitiva. A mielografia é método em desuso, e postergar o corticoide até a confirmação diagnóstica contraria a conduta emergencial.
Homem, 62 anos, tabagista (40 maços-ano), procura o pronto-socorro com edema facial e cervical progressivo há duas semanas, associado a dispneia aos esforços e sensação de plenitude cefálica ao inclinar o tronco. Ao exame: turgência jugular bilateral sem colabamento, circulação colateral visível na parede torácica anterior e edema de membros superiores. PA 132/84 mmHg, FC 92 bpm, FR 20 ipm, SatO2 94% em ar ambiente, sem estridor, vigil e orientado. Radiografia de tórax evidencia alargamento do mediastino superior à direita, com massa paratraqueal. Assinale a conduta mais apropriada neste momento.
O quadro é síndrome da veia cava superior (edema em esclavina, turgência jugular, circulação colateral, massa em mediastino superior) em paciente HEMODINAMICAMENTE ESTÁVEL, sem edema laríngeo/estridor nem sinais de edema cerebral. Nessa situação (a maioria dos casos), a SVCS NÃO é emergência que justifique tratar antes de diagnosticar: como o tratamento definitivo depende da histologia (o mais comum é neoplasia pulmonar, mas linfoma e tumor germinativo mudam radicalmente a conduta e podem responder só à quimioterapia), a prioridade é obter o diagnóstico tecidual. Radioterapia empírica de urgência reserva-se a comprometimento de via aérea ou SNC e ainda pode inviabilizar o diagnóstico histológico. A anticoagulação não trata a compressão extrínseca; só tem papel se houver trombo associado, nunca como conduta central. Corticoide isolado não é tratamento definitivo e mascara linfoma, atrapalhando a biópsia. Quimioterapia empírica sem saber o tipo tumoral é inaceitável, pois os regimes diferem por histologia.
Homem, 58 anos, com carcinoma de pequenas células de pulmão em investigação, é levado ao pronto-socorro com edema facial intenso, cianose de face, estridor audível e rebaixamento do nível de consciência instalados nas últimas horas. Ao exame: edema de laringe à laringoscopia, turgência jugular acentuada e circulação colateral torácica. PA 138/86 mmHg, FC 110 bpm, FR 28 ipm, SatO2 89% em ar ambiente. Diante da síndrome da veia cava superior com sinais de gravidade, qual a conduta imediata?
Aqui a SVCS é uma verdadeira EMERGÊNCIA: há edema de laringe/estridor (comprometimento de via aérea) e rebaixamento de consciência (sugerindo edema cerebral). Nesses casos com risco de vida, a desobstrução deve ser imediata, com stent endovascular (alívio mais rápido dos sintomas) ou radioterapia de urgência, SEM esperar o diagnóstico histológico, diferentemente do paciente estável. Aguardar biópsia é apropriado no quadro estável, mas aqui retardaria a intervenção salvadora. Diurético pode dar alívio sintomático transitório, porém não resolve a obstrução mecânica e não é a medida principal. Anticoagulação isolada não desobstrui compressão extrínseca; só se aplica se houver trombo associado. Observação/elevação de cabeceira é suporte insuficiente frente a sinais de gravidade, configurando omissão inaceitável.
Mulher de 62 anos, com antecedente de carcinoma ductal de mama tratado há 4 anos com mastectomia e quimioterapia, procura a unidade de pronto atendimento queixando dor dorsal progressiva há 6 semanas, que piora à noite e ao decúbito e não alivia com analgésicos comuns. Há 2 semanas notou fraqueza progressiva nos membros inferiores, com marcha instável, e hoje não consegue mais deambular. Refere ainda dificuldade para urinar desde ontem. Ao exame: dor à percussão dos processos espinhosos de T7-T8, força grau 2 em membros inferiores, nível sensitivo em T8, reflexos patelares e aquileus exaltados, sinal de Babinski bilateral e globo vesical palpável. Qual é a conduta mais adequada?
O quadro é de compressão medular metastática — emergência oncológica: dor dorsal noturna em paciente com neoplasia prévia, evoluindo com paraparesia, nível sensitivo, sinais de neurônio motor superior (hiperreflexia, Babinski) e disfunção esfincteriana. A conduta padrão é corticoide (dexametasona) IMEDIATO para reduzir o edema vasogênico, RM de toda a coluna de urgência (padrão-ouro, detecta lesões em múltiplos níveis) e acionamento urgente de neurocirurgia e/ou radioterapia — o prognóstico funcional depende diretamente do estado neurológico no início do tratamento; horas importam. Errada: postergar 30 dias consolida a paraplegia; a radiografia simples é pouco sensível para acometimento epidural. Errada: fisioterapia não trata a compressão e o retorno eletivo perde a janela terapêutica. Errada: a cintilografia não avalia o componente epidural nem o grau de compressão, e a conduta eletiva é inaceitável diante de déficit em progressão.
Homem de 22 anos, com diagnóstico recente de linfoma de Burkitt, retorna ao pronto-socorro no terceiro dia após a primeira sessão de quimioterapia com náuseas, câimbras leves em panturrilhas e redução do volume urinário. Ao exame: lúcido e orientado, PA 128x80 mmHg, FC 92 bpm, afebril, sem sinais de Chvostek ou Trousseau, sem tetania, hidratado. Exames: potássio 5,4 mEq/L, fósforo 8,6 mg/dL (VR 2,5–4,5), cálcio total 6,4 mg/dL, albumina 4,0 g/dL, ácido úrico 12,3 mg/dL, creatinina 2,3 mg/dL (basal 0,9), LDH muito elevado. Eletrocardiograma sem alterações. Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, o diagnóstico e a conduta correta.
Correta: a tríade hiperfosfatemia + hiperuricemia + hiperpotassemia com hipocalcemia e injúria renal, dias após quimioterapia de neoplasia de alta carga (Burkitt), define síndrome de lise tumoral. O pilar do tratamento é a hidratação endovenosa vigorosa para manter alto débito urinário, associada a hipouricemiante (rasburicase ou alopurinol) e ao manejo da hiperpotassemia. A hipocalcemia é consequência da quelação pelo fósforo: repor cálcio sem sintomas graves favorece precipitação de fosfato de cálcio nos tecidos e nos túbulos renais, piorando a lesão renal — só se repõe cálcio se houver tetania, convulsão ou arritmia. Erra: exatamente nesse ponto. Não há hipoparatireoidismo; o mecanismo é a hiperfosfatemia aguda. A diálise é reservada a refratariedade (hiperpotassemia grave, sobrecarga volêmica, uremia, oligoanúria persistente), não é a primeira medida.
Homem de 27 anos com linfoma de Burkitt e massa abdominal volumosa recebeu a primeira dose de quimioterapia há 36 horas. Exames: ácido úrico 9,4 mg/dL (basal 6,1), potássio 6,2 mEq/L (basal 4,3), fósforo 5,6 mg/dL (basal 3,8), cálcio total 6,8 mg/dL com albumina 4,1 g/dL (basal 9,0), creatinina 1,1 mg/dL (basal 1,0), sem alterações no eletrocardiograma e sem sintomas neurológicos. Qual é a classificação correta do quadro?
A classificação de Cairo-Bishop tem dois andares e eles não se misturam. A lise LABORATORIAL exige duas ou mais alterações — urato igual ou acima de 8 mg/dL, potássio igual ou acima de 6 mEq/L, fósforo igual ou acima de 4,5 mg/dL no adulto e cálcio igual ou abaixo de 7 mg/dL, ou variação de 25% sobre o basal — dentro da janela de 3 dias antes a 7 dias depois do tratamento; aqui os quatro estão presentes. A lise CLÍNICA exige, ADICIONALMENTE, uma manifestação: lesão renal aguda com creatinina acima de 1,5 vez o limite superior, arritmia nova, convulsão ou morte súbita. A segunda e a quarta alternativas erram por promover alterações laboratoriais a manifestações clínicas — hipercalemia e hipocalcemia são critérios do andar de baixo, não do de cima; o que as tornaria clínicas seria a arritmia ou a convulsão que elas provocam, ausentes aqui. A terceira erra porque a função renal preservada exclui apenas a forma clínica por lesão renal, não a laboratorial. A quinta inventa um intervalo mínimo: a janela começa três dias ANTES do tratamento, justamente porque a lise pode ser espontânea.
Em uma discussão de caso sobre compressão medular metastática, um residente afirma que todo paciente deve ser operado antes da radioterapia, citando o ensaio randomizado de Patchell (2005). Qual é a crítica tecnicamente correta a essa generalização?
O ensaio de Patchell é sólido e mudou a prática, mas seu próprio relato traz o limite: foi interrompido numa análise interina porque a regra de parada predefinida foi atingida, com 123 pacientes avaliados para elegibilidade e 101 randomizados — e ensaio interrompido cedo por benefício tende a superestimar o efeito, o que o intervalo de confiança de 2,0 a 19,8 na odds ratio já sinaliza. Daí a conclusão correta ser 'cirurgia para o paciente selecionado', e não 'cirurgia para todos': na prática brasileira retratada pela coorte do INCA, 80% receberam radioterapia e 8,9% foram operados. A segunda alternativa é falsa: a diferença foi significativa (42/50 contra 29/51 andando, p=0,001). A terceira descreve mal o desenho: os braços eram cirurgia SEGUIDA de radioterapia contra radioterapia isolada. A quarta inverte a seleção — linfoma e mieloma são exatamente os tumores radiossensíveis em que a radioterapia isolada costuma bastar. A quinta é falsa: os dois braços receberam o mesmo esquema, dez frações de 3 Gy.
Mulher de 48 anos com câncer de mama metastático apresenta dor torácica dorsal há 3 semanas e paraparesia leve iniciada ontem. Foi solicitada ressonância magnética restrita ao segmento torácico, por ser onde a paciente localiza a dor. Qual é a principal objeção técnica a essa conduta?
A recomendação de imaginar TODA a coluna, e não apenas o segmento sintomático, tem duas justificativas concretas. A primeira é a frequência de doença em múltiplos níveis: na coorte do INCA com 90 pacientes, 14 tinham compressão em mais de um nível da coluna. A segunda é que a dor pode ser referida, de modo que o nível doloroso não coincide necessariamente com o nível comprimido — o que faria o campo de radioterapia ser planejado no lugar errado. A segunda alternativa inverte a realidade: a ressonância é justamente o exame de escolha, e a tomografia é a alternativa quando a ressonância é contraindicada ou indisponível. A terceira confunde avaliação de compressão com avaliação de instabilidade e propõe um exame que não se faz em paciente com suspeita de compressão medular. A quarta inverte a cronologia: a imagem é o que define o campo e a modalidade do tratamento. A quinta contraria os dados: o segmento torácico é o mais acometido — 53 dos 90 pacientes da coorte brasileira.
Homem de 66 anos, com adenocarcinoma de próstata metastático em bloqueio hormonal, chega ao pronto-socorro com dor lombar alta há 4 semanas, que piora ao deitar e o desperta à noite, e fraqueza progressiva nos membros inferiores há 3 dias. Exame: força grau 3 em ambos os membros inferiores, reflexos exaltados, hipoestesia com nível em cicatriz umbilical, tônus esfincteriano preservado, sem globo vesical. A ressonância magnética está agendada para daqui a 6 horas, quando abre o serviço de imagem. Qual é a conduta imediata mais adequada?
A sequência correta na compressão medular metastática inverte o reflexo habitual: o corticoide sai ANTES da imagem, porque reduz o edema vasogênico e protege função enquanto o exame não acontece, e a diretriz NG234 do NICE (2023) recomenda 16 mg de dexametasona por via oral, ou dose parenteral equivalente, o quanto antes, mantidos 16 mg/dia até o tratamento definitivo — que deve ser discutido no mesmo dia. A alternativa que espera a ressonância erra a ordem; a ressalva sobre diagnóstico histológico é real, mas se aplica à suspeita de LINFOMA sem tecido, não a um paciente com adenocarcinoma de próstata já diagnosticado. A alternativa da analgesia isolada trata o sintoma e perde a medula: o déficit motor instalado é o que menos recupera. A dose de 96 mg reproduz o esquema do ensaio de Sørensen (1994), cujo comparador era ausência de corticoide — quando se comparou bolus de 10 contra 100 mg (Vecht, 1989) não houve diferença em dor, deambulação ou função vesical, e o esquema alto produziu 14,3% de eventos adversos graves contra nenhum com 16 mg/dia (Heimdal, 1992). A radiografia e a cintilografia não avaliam o conteúdo do canal medular: o exame é a ressonância de toda a coluna, em até 24 horas.
Paciente com leucemia linfoblástica aguda e leucometria de 180.000/mm³ será submetido a quimioterapia de indução. O ácido úrico basal é de 8,6 mg/dL e não há diagnóstico de deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase. Além de hidratação venosa vigorosa com alvo de débito urinário, qual medida de prevenção é a mais adequada?
Trata-se de doença de alto risco (leucemia linfoblástica aguda com leucometria muito alta) que já chega com hiperuricemia basal acima do corte de 7,5 mg/dL, situação em que a urato-oxidase recombinante é a escolha: ela degrada o ácido úrico JÁ FORMADO, com queda em horas, enquanto o alopurinol apenas inibe a xantina oxidase e impede a formação de urato NOVO — por isso a segunda alternativa é insuficiente diante de um urato de 8,6 mg/dL, embora o alopurinol siga fazendo parte do esquema. A contraindicação formal da rasburicase é a deficiência de G6PD, afastada no enunciado, e o detalhe pré-analítico importa: a enzima continua degradando urato dentro do tubo, e a amostra precisa ir refrigerada, sob pena de resultado falsamente baixo. A alcalinização foi abandonada porque troca a precipitação de urato pela de fosfato de cálcio no túbulo — a diretriz internacional já a rejeitava em 2008 e os protocolos brasileiros atuais repetem que não é mais preconizada. A furosemida não é medida de rotina: diurético entra apenas para atingir o alvo de débito em paciente já reposto. A reposição profilática de cálcio é justamente o que não se faz: com fósforo alto, cálcio infundido precipita em tecidos, e só se repõe diante de sintoma.
Durante a passagem de plantão em um hospital público habilitado em oncologia, um interno pergunta por que a rasburicase, recomendada por diretrizes internacionais na profilaxia da lise tumoral de alto risco, 'não existe no SUS', argumentando que ela não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. Qual é a resposta tecnicamente correta?
A regra está escrita nas diretrizes oncológicas do Ministério da Saúde, inclusive nas do mieloma múltiplo de 2023: o Ministério e as Secretarias não padronizam nem fornecem medicamentos antineoplásicos diretamente; os procedimentos quimioterápicos da Tabela do SUS não fazem referência a nenhum medicamento, e o hospital habilitado em oncologia é quem padroniza, adquire e fornece, sendo ressarcido pelo procedimento. As exceções são nominais e curtas — imatinibe, nilotinibe, dasatinibe, rituximabe, trastuzumabe e pertuzumabe. Por isso a lista nacional de medicamentos essenciais não é o lugar onde se procura o arsenal oncológico hospitalar: no documento de 2024, o ácido zoledrônico aparece apenas na apresentação para osteoporose e doença de Paget, o pamidronato apenas em 60 mg com o protocolo de osteoporose como norteador, e a calcitonina apenas em solução nasal. A segunda alternativa confunde lista de financiamento com registro sanitário, que são coisas distintas. A terceira e a quarta descrevem mecanismos da assistência farmacêutica que não se aplicam ao medicamento oncológico de uso hospitalar. A quinta é falsa duas vezes: a alcalinização foi abandonada e não substitui controle do urato.
Sobre o prognóstico da síndrome de compressão medular metastática descrito na coorte brasileira do Instituto Nacional de Câncer, com 90 pacientes acompanhados entre 2017 e 2018, qual afirmativa está correta?
A coorte do INCA mostra que a marcha é simultaneamente desfecho e fator prognóstico: quem deambulava ao diagnóstico teve sobrevida mediana de 7,9 meses, contra 3,6 meses de quem não deambulava. A segunda alternativa inverte o dado central: 50 dos 90 pacientes (55,6%) já não conseguiam andar ao diagnóstico, e entre os 70 que receberam alta hospitalar, 36 seguiam sem marcha. A terceira contraria o achado principal do estudo, que foi justamente a influência do primário: a sobrevida mediana foi de 12,6 meses na mama, 4,1 nos tumores geniturinários, 3,1 no pulmão e 2,6 nos demais, e na análise multivariada o câncer de pulmão associou-se a 4,1 vezes mais risco de morrer que o de mama. A quarta inverte as proporções: 72 pacientes (80%) foram tratados com radioterapia e apenas 8 (8,9%) foram operados. A quinta troca os sintomas: o inicial mais frequente foi a dor na coluna, em 81,1%, enquanto a disfunção esfincteriana estava presente em 11 pacientes ao diagnóstico — ela é achado tardio, não de apresentação.
Homem de 71 anos, sem diagnóstico oncológico prévio, é internado com dor lombar há 2 meses, anemia (hemoglobina 8,9 g/dL), creatinina 2,4 mg/dL e cálcio total 12,8 mg/dL com albumina 3,9 g/dL. A radiografia de crânio mostra lesões líticas em saca-bocado. Além da expansão volêmica imediata com soro fisiológico, qual conjunto de condutas é o mais apropriado?
O quadro é hipercalcemia da malignidade com o CRAB quase completo do mieloma múltiplo — hipercalcemia (o critério das diretrizes brasileiras é cálcio 1 mg/dL acima do limite superior ou acima de 11 mg/dL), insuficiência renal, anemia e lesões ósseas líticas. A conduta correta associa três coisas: colher o PTH ANTES de tratar, porque depois do soro e do antirreabsortivo o valor perde interpretação; iniciar o antirreabsortivo; e completar a investigação com eletroforese e imunofixação. O exame neurológico e da coluna é obrigatório porque as diretrizes do mieloma listam a compressão da medula espinhal entre as complicações da doença óssea — as duas emergências saem do mesmo osso. A segunda alternativa inverte a ordem consagrada: a furosemida saiu do tratamento de rotina e, dada antes da reposição, agrava a desidratação e piora a hipercalcemia. A terceira aplica o corticoide fora do seu alvo: ele trata a hipercalcemia mediada por calcitriol (linfomas e granulomatoses), não a osteólise do mieloma, e não é primeira linha. A quarta abandona o pilar do tratamento: a diálise fica para o refratário ou para quem não pode receber volume. A quinta erra o momento: a suplementação de cálcio e vitamina D é obrigatória com bisfosfonato, mas nos pacientes hipercalcêmicos começa só depois de normalizado o cálcio sérico.
Paciente com leucemia aguda apresenta leucocitos de 190000/mm3, dispneia, hipoxemia e confusao mental. Qual a complicacao e a conduta?
Contagem leucocitaria muito elevada com sintomas respiratorios e neurologicos configura leucostase, na qual os blastos aumentam a viscosidade e obstruem a microcirculacao pulmonar e cerebral; o tratamento e urgente e combina hidratacao, citorreducao com quimioterapia ou hidroxiureia e leucaferese em casos selecionados, evitando transfusao de hemacias antes da citorreducao para nao elevar ainda mais a viscosidade. Infeccao pode coexistir e o antibiotico e frequentemente associado, mas nao explica o quadro isoladamente. Anticoagulacao plena em plaquetopenia grave e perigosa. Lise tumoral e complicacao relacionada, porem com hipercalemia, hiperfosfatemia e injuria renal, exigindo mais que alopurinol.
Homem de 66 anos com câncer de próstata metastático apresenta dor lombar intensa, fraqueza progressiva em membros inferiores e retenção urinária de instalação recente. Qual a conduta imediata?
Dor nas costas com déficit motor e disfunção esfincteriana em paciente oncológico é compressão medular metastática, emergência em que o prognóstico funcional depende de horas: corticoide imediato, imagem de urgência de todo o neuroeixo e definição entre radioterapia e descompressão cirúrgica. Tratar como dor e reavaliar depois engana quem foca no sintoma mais evidente, e o resultado é paraplegia definitiva — a função preservada no momento do tratamento é o principal preditor da função final.
Paciente com câncer de pulmão apresenta hipercalcemia de 14,2 mg/dL com náusea, confusão e desidratação. Qual a conduta inicial?
A hipercalcemia maligna cursa com desidratação por diurese osmótica e redução da capacidade de concentração renal, de modo que a hidratação salina é o primeiro passo, restaurando a filtração e aumentando a excreção de cálcio, seguida do bisfosfonato para inibir a reabsorção óssea. Usar diurético de alça antes de reidratar engana quem lembra do efeito calciúrico da droga, mas em paciente hipovolêmico ela agrava a depleção e piora a hipercalcemia.
Paciente com linfoma de Hodgkin recém-diagnosticado em mediastino inicia quimioterapia e apresenta, nas primeiras 48 horas, hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e elevação de creatinina. Qual o diagnóstico e a prevenção adequada?
A destruição maciça de células tumorais libera potássio, fósforo e ácidos nucleicos, precipitando a síndrome de lise tumoral com hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia secundária, hiperuricemia e lesão renal aguda: a prevenção é hidratação vigorosa e hipouricemiante, com alopurinol ou rasburicase conforme o risco. Atribuir a nefropatia por contraste engana porque o exame de estadiamento acabou de ser feito e a creatinina subiu, mas o contraste não explica o padrão eletrolítico completo, que é a assinatura do quadro.
Paciente em quimioterapia de inducao para leucemia aguda apresenta, 48 horas apos o inicio, potassio 6,4 mEq/L, fosforo 7,2 mg/dL, calcio 6,8 mg/dL, acido urico 12 mg/dL e creatinina em elevacao. Qual o diagnostico e a conduta?
Hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e hiperuricemia com injuria renal apos inicio de quimioterapia em neoplasia de alta carga definem sindrome de lise tumoral, cuja conduta prioriza hidratacao vigorosa, controle do acido urico com rasburicase nos casos de alto risco ou alopurinol na profilaxia, correcao dos disturbios eletroliticos e dialise quando refrataria. A reposicao agressiva de calcio deve ser evitada na hipocalcemia assintomatica pelo risco de precipitacao de fosfato de calcio. Injuria por contraste nao explica o perfil eletrolitico. Rabdomiolise cursaria com creatinoquinase muito elevada. Hipoparatireoidismo e insuficiencia adrenal nao produzem esse conjunto laboratorial.
Paciente com câncer avançado apresenta delirium e, à investigação, cálcio corrigido de 14,8 mg/dL. Qual a conduta?
A hipercalcemia maligna é uma das causas reversíveis mais gratificantes de delirium em paciente oncológico: a correção com hidratação e bisfosfonato costuma devolver lucidez, permitindo comunicação e decisões. Passar direto à sedação engana quem interpreta o delirium como sinal irreversível de fase final, e retira do paciente e da família uma janela de tempo consciente que ainda seria possível.
Paciente com hipercalcemia da malignidade recebe hidratacao e acido zoledronico, mas mantem calcio de 13,5 mg/dL apos 5 dias, com creatinina de 2,6 mg/dL. Qual a alternativa terapeutica mais apropriada?
O denosumabe inibe o ligante do RANK e reduz a reabsorcao ossea independentemente da funcao renal, sendo a escolha quando o bisfosfonato falha ou a creatinina esta elevada. Repetir o bisfosfonato em dose maior engana porque a droga e realmente o pilar do tratamento, mas o acumulo com filtracao reduzida aumenta a nefrotoxicidade sem beneficio adicional. A teriparatida e analogo de PTH e ELEVARIA o calcio, e o tiazidico REDUZ a calciuria, ambos na direcao oposta da necessaria.
Homem de 64 anos, tabagista, com carcinoma escamoso de pulmao, apresenta calcio de 13,8 mg/dL, PTH suprimido, fosforo baixo e cintilografia ossea sem lesoes. Qual o mecanismo mais provavel?
O carcinoma escamoso e o prototipo da hipercalcemia humoral da malignidade: o tumor secreta peptideo relacionado ao PTH, que ativa o mesmo receptor e por isso reproduz o perfil de fosforo baixo, mas com PTH INTACTO suprimido pelo mecanismo de retroalimentacao. A hipotese de metastases osteoliticas engana por ser a explicacao mais intuitiva para hipercalcemia no cancer, mas exigiria lesoes osseas, ausentes aqui. Linfomas costumam produzir calcitriol, um terceiro mecanismo.
Qual o mecanismo mais frequente de hipercalcemia nos pacientes com neoplasia sólida?
A hipercalcemia humoral da malignidade, mediada pelo peptídeo relacionado ao paratormônio, é o mecanismo mais comum, típico de carcinomas escamosos e de tumores renais e de mama, e cursa com paratormônio suprimido apesar do cálcio alto. As metástases osteolíticas são o distrator intuitivo e explicam parte relevante dos casos, sobretudo em mieloma e mama, mas não são a maioria. A produção de calcitriol é o mecanismo dos linfomas e das doenças granulomatosas, e a secreção ectópica de paratormônio verdadeiro é rara.
Antes de prescrever rasburicase a um paciente com linfoma de alto grau, qual condição precisa ser considerada por representar contraindicação?
A rasburicase degrada ácido úrico gerando peróxido de hidrogênio, e o eritrócito com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase não consegue neutralizá-lo, o que precipita hemólise grave e meta-hemoglobinemia. Insuficiência renal é o distrator natural, porque a intuição é que droga potente exige rim bom, mas ali a rasburicase é justamente mais útil, já que o rim doente não elimina urato. Idade e hipertensão não interferem. Em populações com maior prevalência da deficiência, o rastreio deve ser considerado quando não atrasar o tratamento de uma emergência oncológica.
Paciente oncológico recebe ácido zoledrônico para hipercalcemia. Qual cuidado deve preceder a administração?
Os bisfosfonatos endovenosos exigem atenção à função renal, pois podem agravar a lesão renal se administrados em paciente hipovolêmico ou com clearance muito reduzido, e a avaliação odontológica prévia é recomendada porque procedimentos invasivos durante o uso aumentam o risco de osteonecrose de mandíbula. Administrar cálcio profilático é a conduta oposta à indicada, embora a hipocalcemia pós-dose deva ser monitorada, sobretudo quando há deficiência de vitamina D — nesse caso a reposição de vitamina D é que se faz necessária.
Paciente em quimioterapia para linfoma de Burkitt apresenta fósforo de 8,4 mg/dL e ácido úrico de 12 mg/dL. Qual conduta NÃO deve ser adotada nesse cenário?
A alcalinização urinária aumenta a solubilidade do urato, mas eleva o risco de precipitação de fosfato de cálcio nos túbulos justamente quando o fósforo está alto, podendo piorar a lesão renal — por isso deixou de ser recomendada como rotina. É a conduta que sobrevive nos resumos antigos e continua sendo marcada como certa por hábito. Hidratação abundante segue como pilar, porque mantém fluxo tubular e dilui os solutos. Monitorização frequente, quelante de fósforo e avaliação precoce de terapia dialítica são condutas apropriadas.
Homem de 58 anos com linfoma conhecido relata dor lombar progressiva há 3 semanas, que piora à noite, e desde ontem apresenta fraqueza nas pernas e dificuldade para iniciar a micção. Qual a conduta imediata?
Dor lombar noturna em paciente oncológico que evolui com déficit motor e retenção urinária é compressão medular até prova em contrário, e o desfecho funcional depende de horas: corticoide imediato reduz o edema enquanto a ressonância do neuroeixo inteiro define o nível e busca lesões adicionais. Radiografia simples é o distrator que parece razoável por ser rápida, mas normaliza em boa parte dos casos e sua normalidade dá falsa segurança. Cintilografia não tem resolução para o canal medular e demora. Punção lombar não é o exame desse quadro e pode ser perigosa abaixo de um bloqueio.
Paciente de 19 anos com linfoma de Burkitt inicia quimioterapia. Em 24 horas apresenta oligúria e mal-estar. Qual conjunto de alterações laboratoriais é esperado na síndrome de lise tumoral?
A lise tumoral despeja o conteúdo intracelular na circulação: potássio, fósforo e ácidos nucleicos que viram ácido úrico. A hipocalcemia é consequência, não causa — o fósforo liberado se liga ao cálcio e o precipita. Trocar o sentido das alterações é o erro que denuncia decoreba sem mecanismo: nada na lise consome potássio ou fósforo. A hipercalcemia com hipofosfatemia é o padrão da hipercalcemia da malignidade mediada por peptídeo relacionado ao paratormônio, que é outro problema, de curso subagudo e em tumores sólidos ou mieloma. Reconhecer o padrão certo permite antecipar a monitorização a cada 6 horas.
Homem de 58 anos com linfoma apresenta cálcio 13,4 mg/dL, paratormônio suprimido, peptídeo relacionado ao paratormônio indetectável e calcitriol elevado. Qual o tratamento mais adequado além da hidratação?
Quando a hipercalcemia é mediada pela produção extrarrenal de calcitriol, como ocorre em linfomas e em doenças granulomatosas, o corticoide é altamente eficaz porque inibe a enzima que converte a vitamina D em sua forma ativa nos macrófagos e nas células tumorais. O cinacalcete é o distrator que engana quem associa cálcio alto a paratireoide, mas o paratormônio já está suprimido e não há alvo para o agente calcimimético. Suplementar vitamina D e usar análogo de paratormônio agravariam o quadro.
Homem de 24 anos com linfoma de Burkitt volumoso, LDH cinco vezes o limite superior e creatinina de 1,8 mg/dL, vai iniciar quimioterapia. Qual a medida profilática mais adequada antes da primeira dose?
Massa volumosa, LDH muito elevada e disfunção renal prévia colocam o paciente no grupo de alto risco, em que a combinação de hidratação generosa com rasburicase é a profilaxia indicada: a urato-oxidase degrada o ácido úrico já formado, e não apenas bloqueia sua produção. O alopurinol isolado engana quem trata todo risco igual: por inibir a xantina-oxidase, ele impede a formação de ácido úrico novo mas não remove o que já existe, e ainda acumula xantina, o que basta em risco intermediário mas não aqui. Hidratação sozinha é insuficiente no alto risco. Diurético não substitui volume e pode piorar a perfusão renal.
Qual das situações abaixo constitui indicação de terapia dialítica na síndrome de lise tumoral?
A indicação de diálise segue os mesmos princípios da injúria renal aguda grave: hipercalemia que não cede ao tratamento clínico, sobrecarga volêmica, acidose refratária, uremia sintomática e oligúria persistente — na lise tumoral, o limiar é mais baixo pela velocidade de acúmulo. Valores isolados de ácido úrico ou LDH marcam risco e orientam profilaxia, mas não indicam diálise por si sós, e essa é a confusão que leva a indicar procedimento invasivo desnecessário. Hipocalcemia assintomática não se corrige agressivamente enquanto o fósforo estiver alto, pelo risco de precipitação.
Homem de 61 anos com câncer de próstata metastático apresenta dor lombar progressiva há 3 semanas e, hoje, dificuldade para urinar e paresia de membros inferiores. Qual a conduta imediata?
Compressão medular metastática é emergência oncológica em que o tempo entre o déficit e o tratamento define a chance de o paciente voltar a andar: corticoide imediato e ressonância de toda a coluna, porque lesões em múltiplos níveis são frequentes, seguidos de radioterapia ou descompressão cirúrgica. Adiar a imagem é o erro que consolida a paraplegia. A radiografia simples tem sensibilidade insuficiente e sua normalidade não afasta nada — confiar nela é justamente a armadilha que atrasa o diagnóstico.
Paciente com lise tumoral apresenta cálcio iônico baixo, fósforo de 9,2 mg/dL e refere parestesias periorais, sem convulsão ou arritmia. Qual a conduta em relação ao cálcio?
Com fósforo muito elevado, repor cálcio de forma liberal favorece a formação de produto cálcio-fósforo alto e a precipitação de cristais em rim e tecidos moles, agravando a lesão renal. A conduta é usar a menor dose que controle o sintoma e atacar o fósforo com hidratação, quelante e, se necessário, diálise, porque a hipocalcemia é consequência e melhora quando o fósforo cai. Normalizar o cálcio a qualquer custo é o reflexo que a prova cobra, e é justamente o que se deve evitar. Sem sintoma neuromuscular ou arritmia, a hipocalcemia da lise não exige correção agressiva.
Paciente de 70 anos com linfoma difuso de grandes células B em estádio avançado recebe primeira dose de imunoquimioterapia. Qual complicação precoce deve ser antecipada nas primeiras 48 horas?
Carga tumoral alta, LDH elevada e quimiossensibilidade tornam a lise tumoral a complicação a antecipar nas primeiras horas, com hidratação, hipouricemiante e monitorização eletrolítica seriada. Cardiomiopatia, neuropatia e segunda neoplasia são toxicidades reais do tratamento, mas de instalação em semanas a anos — confundir a linha do tempo é o que faz o candidato marcar a complicação certa no momento errado. Reconhecer o risco antes da primeira dose é o que evita a injúria renal que atrasa todo o tratamento subsequente.
Paciente com mieloma múltiplo apresenta dor lombar intensa que piora à noite, com fraqueza progressiva em membros inferiores e alteração esfincteriana. Qual a conduta?
Dor noturna com déficit motor e alteração esfincteriana em paciente com neoplasia é compressão medular até prova em contrário, e o corticoide precoce associado à ressonância urgente define o desfecho funcional. Prescrever analgesia com retorno em duas semanas é o erro que custa a marcha do paciente. A cintilografia tem baixa sensibilidade nas lesões do mieloma, que são líticas e sem atividade osteoblástica. A radioterapia e a intervenção cirúrgica são definidas conforme o achado da imagem.
Qual conduta é adequada para o tratamento da hipercalcemia grave associada ao mieloma múltiplo?
A hipercalcemia da malignidade cursa com desidratação por diurese osmótica, e a reposição volêmica com salina é o primeiro passo, seguida de bisfosfonato para bloquear a reabsorção óssea, com ajuste de dose ou preferência por denosumabe conforme a função renal. Iniciar tiazídico é o erro que agrava, pois esse diurético aumenta a reabsorção tubular de cálcio. Restringir líquidos piora a hipercalcemia e a função renal, e a vitamina D pode elevar ainda mais o cálcio sérico.
Homem de 58 anos com carcinoma de células renais metastático, bom estado geral e expectativa de vida estimada em mais de um ano, chega ao pronto-socorro com dor dorsal e fraqueza nas pernas iniciada há 10 horas. Já recebeu dexametasona 16 mg. A ressonância de toda a coluna mostra compressão medular em um único nível torácico, com fratura patológica e fragmento ósseo retropulsado para dentro do canal. Ele ainda deambula com apoio, e não houve irradiação prévia nesse campo. Qual é o tratamento definitivo mais adequado?
Este é o perfil selecionado em que a cirurgia entra: instabilidade da coluna com fragmento ósseo dentro do canal, nível único de compressão, tumor sabidamente pouco radiossensível, déficit recente e paciente com condição clínica e prognóstico que justificam a via aberta. O ensaio que consagrou a descompressão seguida de radioterapia mostrou 42 de 50 operados andando contra 29 de 51 irradiados, com duração mediana da marcha de 122 dias contra 13 — mas foi interrompido em análise interina, e sua conclusão vale para o paciente selecionado, não para todos. Oferecer radioterapia isolada como equivalente universal apaga justamente a seleção: ela é a escolha em tumor radiossensível, múltiplos níveis, prognóstico curto ou paciente sem condição cirúrgica. Esperar 72 horas de corticoide consome a janela em que a função ainda se preserva, e déficit motor instalado é o que menos recupera. A vertebroplastia estabiliza o corpo vertebral e não retira fragmento do canal. E antirreabsortivo com analgesia é terceira coluna do cuidado, não tratamento da compressão — esperar a perda completa da marcha inverte o prognóstico, já que quem deambula ao diagnóstico vive mais.
Homem de 67 anos com mieloma múltiplo recém-diagnosticado, sem doença renal prévia e com boa ingestão hídrica, iniciará o primeiro ciclo de tratamento. Exames colhidos antes do tratamento: ácido úrico 5,2 mg/dL, potássio 4,1 mEq/L, fósforo 3,4 mg/dL, cálcio corrigido 9,4 mg/dL, creatinina 0,9 mg/dL e desidrogenase láctica dentro da normalidade. Não usa tiazídico nem outro fármaco que aumente o depósito renal de urato. Qual é a profilaxia de síndrome de lise tumoral indicada?
O mieloma é classificado como baixo risco em esquemas tradicionais, mas a avaliação também deve considerar carga tumoral, exames, condições clínicas e potência do tratamento. Os dados fornecidos não indicam rasburicase obrigatória; tampouco permitem dispensar categoricamente exames durante o tratamento. A prevenção é individualizada, com hidratação e decisão sobre hipouricemiante e monitorização conforme protocolo do esquema. Não se recomenda alcalinização urinária de rotina nem furosemida programada para todo paciente. Referência: eviQ, Prevention of tumour lysis syndrome, documento 108.
Mulher de 64 anos com mieloma múltiplo e doença óssea foi internada com cálcio corrigido de 13,1 mg/dL. Após expansão volêmica com soro fisiológico e uma dose de ácido zoledrônico, o cálcio está em 9,2 mg/dL, a creatinina em 1,0 mg/dL e a depuração estimada em 72 mL/min. Ela receberá alta para seguimento ambulatorial. Qual é a conduta correta para a doença óssea a partir de agora?
As diretrizes brasileiras do mieloma múltiplo fixam ácido zoledrônico 4 mg intravenosos uma vez ao mês para a doença óssea, com uso máximo de 24 meses e possibilidade de espaçar a partir de 12 meses em quem respondeu. A suplementação de cálcio 500 mg/dia e vitamina D 400 UI/dia é obrigatória para prevenir a hipocalcemia induzida pelo antirreabsortivo — e, em quem chegou hipercalcêmico, ela começa depois de o cálcio sérico normalizar, que é exatamente a situação atual. Como o fármaco é nefrotóxico, a depuração de creatinina se monitora mensalmente. Suspender e reintroduzir só na recidiva do cálcio confunde o tratamento da doença óssea com o resgate de um episódio agudo. O pamidronato 90 mg em 500 mL de solução livre de cálcio, infundido em quatro horas, é a alternativa para quando o zoledrônico não está disponível ou é contraindicado, o que não é o caso. Manter sem prazo e sem controle renal ignora o teto de 24 meses e a nefrotoxicidade. E adiar indefinidamente a suplementação converte a prevenção da hipocalcemia em risco, já que o cálcio agora está normal.
Mulher de 66 anos com adenocarcinoma de pulmão apresenta há 5 dias dor lombar em faixa que piora ao deitar, e hoje evolui com fraqueza progressiva em membros inferiores e retenção urinária. Qual a conduta prioritária?
Dor que piora em decúbito, fraqueza progressiva e retenção urinária em paciente oncológico é compressão medular metastática, emergência em que o corticoide é dado antes do exame e a ressonância cobre toda a coluna porque as lesões costumam ser multiníveis. O estado neurológico no momento do tratamento é o principal determinante de voltar a andar, o que torna qualquer espera — radiografia, cintilografia ou reavaliação em 48 horas — perda funcional definitiva.
Homem de 61 anos com linfoma não Hodgkin de alto grau inicia quimioterapia. Em 48 horas apresenta oligúria e exames: potássio 6,4 mEq/L, fósforo 7,8 mg/dL, cálcio 6,9 mg/dL, ácido úrico 13 mg/dL, creatinina 3,1 mg/dL. Qual o diagnóstico e a droga de escolha para o ácido úrico nesse contexto?
Hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e hiperuricemia após quimioterapia definem a lise tumoral. O alopurinol bloqueia a formação de novo ácido úrico, mas não degrada o que já se acumulou, e por isso não serve para quem já tem hiperuricemia estabelecida com injúria renal — essa é a troca que engana. A rasburicase converte o ácido úrico em alantoína solúvel, com queda em horas, respeitada a contraindicação na deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase.
Qual dos achados abaixo mais sugere que a hiperuricemia é decorrente de lise tumoral e não de gota primária?
O contexto bioquímico é o que separa: na lise a hiperuricemia vem acompanhada de marcadores de destruição celular maciça, com desidrogenase láctica muito elevada, potássio alto e queda de função renal em dias. Tofos, monoartrite podágrica e cristais no líquido sinovial descrevem gota, doença de anos de hiperuricemia, e são os distratores de quem lê apenas o valor do ácido úrico sem olhar a companhia que ele traz.
Qual das indicações abaixo é a mais apropriada para iniciar terapia de substituição renal em paciente com síndrome de lise tumoral?
A indicação dialítica segue os mesmos princípios da injúria renal aguda de qualquer causa: hiperpotassemia refratária, acidose grave, sobrecarga volêmica que não responde e uremia sintomática, somadas à hiperfosfatemia grave que não cede. Números isolados de creatinina ou de ácido úrico em paciente que urina não indicam diálise — é a armadilha de tratar exame em vez de doente. Critérios laboratoriais definem o diagnóstico, não a necessidade de máquina.
Paciente com lise tumoral espontânea e injúria renal aguda dialítica evolui, após três sessões, com melhora dos eletrólitos e retomada da diurese. A equipe de oncologia questiona quando iniciar a quimioterapia. Qual a orientação?
Nos tumores de alta proliferação, adiar o tratamento não reduz o risco de lise — aumenta, porque a massa tumoral cresce e com ela a carga a ser lisada. O caminho é estabilizar o metabólico, manter hidratação, hipouricemiante e monitorização estreita, e iniciar a terapia, com diálise disponível. Supor que a lise não se repete é o raciocínio mais perigoso da questão, já que o episódio prévio marca justamente um doente de risco alto.
Segundo o protocolo eviQ de prevenção da síndrome de lise tumoral, qual é o objetivo da hidratação de um adulto com risco intermediário ou alto, sem contraindicação cardíaca ou renal à expansão?
A hidratação favorece a excreção dos produtos da lise celular e deve ser acompanhada de controle do débito urinário, balanço, peso, eletrólitos e função renal. O eviQ expressa o alvo em mL por metro quadrado por hora, não como volume fixo aplicável a todo adulto. A prescrição precisa ser individualizada se houver limitação cardíaca ou renal. Diuréticos não substituem reposição adequada e não devem ser usados para forçar diurese em hipovolemia ou obstrução. Alcalinização urinária não é medida rotineira.
Mulher de 34 anos com leucemia linfoblástica aguda e leucometria de 180.000/mm³ vai iniciar quimioterapia de indução. Está com função renal normal e ácido úrico de 6,0 mg/dL. Qual a profilaxia mais adequada para síndrome de lise tumoral?
Leucemia linfoblástica com hiperleucocitose é categoria de risco alto, em que a profilaxia combina hidratação vigorosa e rasburicase, reservando-se o alopurinol para o risco intermediário. A alcalinização caiu em desuso porque, embora aumente a solubilidade do ácido úrico, favorece a precipitação de fosfato de cálcio nos túbulos e agrava a hipocalcemia. Restringir volume é o oposto do necessário, já que o fluxo urinário elevado é a principal proteção tubular.
Após coleta de sangue para dosagem de ácido úrico em paciente que recebeu rasburicase, o resultado retorna surpreendentemente baixo, próximo de zero. Qual a explicação mais provável?
A enzima continua ativa dentro do tubo e degrada o ácido úrico da amostra em temperatura ambiente, produzindo resultado falsamente baixo. A coleta precisa ser em tubo com heparina, resfriado, transportado em gelo e processado rapidamente. Aceitar o valor como resposta terapêutica é o erro que dá falsa segurança e faz suspender a monitorização em um doente que ainda pode estar em lise ativa.
Homem de 60 anos com linfoma difuso de grandes células B e deficiência conhecida de glicose-6-fosfato desidrogenase apresenta ácido úrico de 11 mg/dL antes do primeiro ciclo. Qual a conduta?
A rasburicase degrada o ácido úrico gerando peróxido de hidrogênio, que em quem tem deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase provoca hemólise grave e meta-hemoglobinemia — é contraindicação absoluta, não questão de dose. Restam hidratação vigorosa, alopurinol ou febuxostate e monitorização laboratorial seriada, com diálise se houver falência renal. Diálise profilática sem disfunção estabelecida não é conduta padrão.
Paciente com síndrome de lise tumoral apresenta cálcio total 6,0 mg/dL, albumina 3,8 g/dL, fósforo 9,2 mg/dL e está assintomático, sem sinais de tetania ou alteração eletrocardiográfica. Qual a conduta em relação ao cálcio?
Na hipocalcemia assintomática da lise tumoral, repor cálcio com fósforo muito elevado aumenta o produto cálcio-fósforo e favorece a precipitação metastática, inclusive renal, agravando a lesão tubular. O tratamento é reduzir o fósforo, com quelantes e diálise quando indicada, e o cálcio só entra na presença de sintomas ou repercussão eletrocardiográfica. Repor por reflexo diante do valor baixo é a armadilha central desta questão.
Paciente com leucemia linfoblástica aguda e leucometria de 190.000/mm3 inicia quimioterapia e evolui em 48 horas com potássio de 6,4 mEq/L, fósforo de 8,2 mg/dL, cálcio de 6,8 mg/dL, ácido úrico de 13 mg/dL e creatinina em elevação. Qual o diagnóstico e a conduta?
Hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e hiperuricemia com disfunção renal logo após o início da quimioterapia em tumor de alta carga desenham a síndrome de lise tumoral, e o tratamento combina hidratação vigorosa, correção dos distúrbios e redução do ácido úrico, com rasburicase nos casos de alto risco e diálise quando refratário. Pensar em sepse engana porque o paciente é neutropênico e infecção é sempre plausível, mas o padrão bioquímico é assinatura de lise. A hipocalcemia é consequência da hiperfosfatemia e repor cálcio agressivamente pode precipitar cristais. Não há exposição a contraste. Insuficiência adrenal não gera hiperfosfatemia e hiperuricemia.
Qual a diferença farmacológica que explica por que o alopurinol não substitui a rasburicase em paciente que já chega com ácido úrico muito elevado?
O alopurinol atua a montante, bloqueando a conversão de hipoxantina e xantina em ácido úrico, de modo que o estoque circulante só cai pela excreção — lenta e comprometida em quem já tem injúria renal. A rasburicase é uma urato-oxidase recombinante que degrada diretamente o ácido úrico circulante em alantoína, muito mais solúvel, derrubando os níveis em horas. Confundir os mecanismos é o que faz o aluno escolher o hipouricemiante errado no doente já instalado.
Sobre os critérios laboratoriais de Cairo-Bishop para síndrome de lise tumoral, qual conjunto de alterações é característico?
A lise celular despeja no plasma o conteúdo intracelular: potássio, fósforo e ácidos nucleicos que viram ácido úrico. A hipocalcemia é consequência, e não causa, porque o fósforo liberado se liga ao cálcio e precipita. Guardar essa lógica evita decorar: tudo que é intracelular sobe, e o cálcio, que é predominantemente extracelular, cai. A combinação com hipercalcemia é o distrator de quem confunde com a hipercalcemia da malignidade, cenário clínico e temporal distinto.
Mulher de 31 anos com massa mediastinal volumosa e diagnóstico presumido de linfoma linfoblástico será submetida a biópsia. Qual medida deve ser tomada ANTES do procedimento em relação ao risco metabólico?
Em tumor de alta taxa proliferativa a profilaxia começa antes do resultado, porque a lise espontânea já pode estar em curso e o corticoide, mesmo em dose de teste, é citotóxico o suficiente para desencadeá-la. Esperar a histologia é o atraso que produz injúria renal evitável. Iniciar corticoide sem hidratação e sem hipouricemiante é o erro oposto, e a restrição hídrica agrava a nefropatia por cristais em vez de proteger.
Homem de 38 anos procura o pronto-socorro com massa abdominal de crescimento rápido há 3 semanas, sudorese noturna e perda de 8 kg. Ainda não iniciou nenhum tratamento. Exames: ácido úrico 14 mg/dL, potássio 6,1 mEq/L, creatinina 2,9 mg/dL, desidrogenase láctica 4.200 U/L, fósforo 4,2 mg/dL, cálcio 8,0 mg/dL. Qual a hipótese?
Tumor de altíssima taxa proliferativa pode lisar espontaneamente antes de qualquer quimioterapia, e a desidrogenase láctica muito elevada com hiperuricemia desproporcional é a assinatura. Um detalhe distingue a forma espontânea da pós-tratamento: a hiperfosfatemia costuma ser discreta ou ausente, porque as células tumorais em rápida proliferação recapturam o fósforo liberado. Gota e rabdomiólise não explicam massa de crescimento rápido com sintomas B.
Qual afirmação sobre a definição clínica de síndrome de lise tumoral, segundo Cairo-Bishop, é correta?
A classificação separa a forma laboratorial, com duas ou mais alterações metabólicas em janela definida, da forma clínica, que soma a essas alterações uma repercussão orgânica: creatinina elevada, arritmia, convulsão ou morte súbita. Restringir o diagnóstico ao período pós-quimioterapia é o equívoco que faz perder a forma espontânea, e exigir oligúria ou biópsia impõe critérios que não constam da definição.
Qual grupo de neoplasias apresenta maior risco de lise tumoral espontânea?
O risco depende de massa tumoral grande, taxa de proliferação altíssima e quimiossensibilidade, tríade que o linfoma de Burkitt e a leucemia linfoblástica com hiperleucocitose reúnem — daí a lise poder ocorrer antes de qualquer droga. Tumores sólidos de crescimento lento, como próstata, mama luminal e carcinoide, raramente produzem lise espontânea, e o distrator do tumor metastático de grande volume confunde quem pensa apenas em massa, esquecendo a velocidade de renovação celular.
Sobre a monitorização laboratorial de paciente com risco alto de lise tumoral nas primeiras 72 horas, qual a periodicidade e o painel mais adequados?
Nas primeiras 48 a 72 horas as alterações evoluem em horas, e a vigilância a cada 6 a 8 horas é o que permite intervir antes da hiperpotassemia com repercussão elétrica e da nefropatia estabelecida. Reduzir o painel a creatinina e potássio deixa passar a hiperfosfatemia, que é o motor da hipocalcemia e da precipitação tubular. Monitorização diária ou espaçada é adequada apenas para o risco baixo.
Paciente com hiperleucocitose apresenta pseudo-hipoxemia e pseudo-hipoglicemia nos exames laboratoriais. Qual a explicação?
A enorme massa de leucócitos continua consumindo oxigênio e glicose dentro do tubo enquanto a amostra aguarda processamento, gerando valores falsamente baixos que podem induzir condutas erradas; a solução é processar rapidamente ou transportar em gelo e valorizar a oximetria de pulso. Atribuir ao contraste engana quem se lembra de interferências analíticas conhecidas, mas o contraste não produz esse padrão específico. Hemólise eleva potássio e desidrogenase láctica, não reduz glicose de forma isolada. Erro de calibração seria aleatório e não coerente com a leucometria. Crioglobulinas interferem em outras dosagens e exigem condições específicas de temperatura.
Homem de 46 anos com leucemia mieloide aguda recém-diagnosticada apresenta, no segundo dia de indução, potássio 6,4 mEq/L, fósforo 7,2 mg/dL, cálcio 6,8 mg/dL, ácido úrico 14 mg/dL e creatinina 2,8 mg/dL. Qual o diagnóstico e a conduta?
Hiperuricemia, hipercalemia, hiperfosfatemia e hipocalcemia com lesão renal logo após o início da quimioterapia em neoplasia de alta carga é síndrome de lise tumoral, tratada com hidratação vigorosa, controle do urato — rasburicase nos casos de alto risco — e manejo dos eletrólitos, com diálise se refratária. Atribuir à nefrotoxicidade engana quem não reconhece o padrão bioquímico característico e retarda a medida que salva o rim.
Sobre a leucaférese na leucemia aguda com hiperleucocitose, qual afirmativa é correta?
A leucaférese remove células rapidamente e pode aliviar sintomas de leucostase, mas é ponte para o tratamento definitivo e os dados de sobrevida não são consistentes, de modo que a quimioterapia citorredutora não pode ser adiada. Tratá-la como curativa engana quem vê a queda impressionante da leucometria e esquece que a medula continua produzindo blastos. Indicação de rotina em assintomático não se sustenta. Na leucemia promielocítica o procedimento é evitado por agravar a coagulopatia, e a prioridade é iniciar o agente diferenciador. A profilaxia de lise tumoral permanece necessária, inclusive porque a citorredução aumenta esse risco.
Paciente com leucemia mieloide aguda e hiperleucocitose apresenta cefaleia intensa e queda do nível de consciência. Tomografia mostra hemorragia intraparenquimatosa. Qual a explicação mais provável?
A hemorragia intracraniana é causa importante de morte precoce na hiperleucocitose porque somam-se plaquetopenia profunda, coagulopatia de consumo e lesão do endotélio pelos blastos aderidos, o que justifica transfusão de plaquetas com limiar mais alto nesses pacientes. Atribuir a aneurisma congênito engana quem procura causa estrutural isolada e ignora o contexto hematológico evidente. Trombose venosa produz infarto venoso e padrão de imagem distinto. Metástase pressupõe tumor sólido primário, ausente aqui. Hipertensão maligna teria níveis pressóricos extremos e outros sinais de lesão de órgão-alvo.
Paciente com mieloma múltiplo apresenta creatinina de 3,6 mg/dL, cálcio de 13,4 mg/dL e desidratação. Qual a conduta inicial para a hipercalcemia?
A hipercalcemia da malignidade cursa com desidratação por diabetes insípido nefrogênico e a base do tratamento é a reposição volêmica salina, que restaura a filtração e a excreção de cálcio, seguida de bisfosfonato ou denosumabe para bloquear a reabsorção óssea. Furosemida isolada engana quem lembra que ela aumenta a calciúria, mas usada sem hidratação agrava a desidratação e piora a hipercalcemia. Restringir líquidos é o oposto do necessário. Suplementar cálcio e vitamina D nesse momento é contraindicado. Paratireoidectomia trata hiperparatireoidismo primário, mecanismo diferente do que ocorre aqui.
Homem de 58 anos com leucemia mieloide aguda em quimioterapia apresenta dor lombar progressiva há 5 dias, com fraqueza dos membros inferiores, nível sensitivo em T8 e retenção urinária. Qual a conduta imediata?
Dor lombar com déficit motor progressivo, nível sensitivo e disfunção esfincteriana em paciente oncológico é compressão medular até prova em contrário, e a conduta é corticoide imediato somado a ressonância urgente de todo o neuroeixo, porque o desfecho funcional depende do estado neurológico no momento do tratamento. Radiografia simples engana por ser rápida e acessível, mas tem baixa sensibilidade e adiar 48 horas pode custar a marcha definitivamente. Analgesia ambulatorial ignora a emergência. Antibiótico sem imagem trata hipótese não confirmada. Punção lombar antes da imagem é arriscada diante de possível bloqueio medular.
Paciente com leucemia mieloide crônica recém-diagnosticada, leucometria de 300.000/mm3 e sintomas de leucostase. Qual medida inicial pode ser adotada antes ou junto do início do inibidor de tirosinoquinase?
Diante de leucometria extrema com sintomas, a citorredução rápida com hidroxiureia, eventualmente somada a leucaférese, precede ou acompanha o início do inibidor, sempre com hidratação e profilaxia de lise tumoral. Transfundir plaquetas engana quem confunde trombocitose e risco trombótico com necessidade de hemocomponente, e acrescentar plaquetas nesse cenário não faz sentido. Corticoide não tem efeito citorredutor relevante na linhagem mieloide. Esplenectomia de urgência é procedimento de alto risco e não reduz a produção medular. Radioterapia esplênica é medida paliativa em situações específicas, não conduta inicial.
Paciente idoso com leucemia mieloide aguda e leucometria de 150.000/mm3 chega ao pronto-socorro de hospital sem hematologista de plantão nem serviço de aférese, com dispneia. Qual a medida inicial mais apropriada enquanto se organiza a transferência?
A hidroxiureia é oral, disponível e reduz a leucometria em horas a poucos dias, e associada à hidratação, à oxigenoterapia e à profilaxia de lise é a conduta viável enquanto se organiza o cuidado especializado. Aguardar sem intervir engana quem teme atrapalhar a investigação, mas o diagnóstico já está estabelecido pelo hemograma e o paciente pode morrer de leucostase durante a espera. Antibiótico isolado trata apenas a hipótese infecciosa, que também deve ser considerada, sem enfrentar a leucostase. Transfundir hemácias nesse cenário aumenta a viscosidade e pode piorar o quadro. Corticoide não é tratamento da leucemia mieloide aguda.
Mulher de 55 anos chega ao pronto-socorro com dispneia, confusão mental e borramento visual. Hemograma: leucócitos 240.000/mm3 com 70% de blastos mieloides, Hb 6,9 g/dL, plaquetas 30.000/mm3. Qual a complicação em curso?
Contagem de blastos muito elevada com sintomas simultâneos pulmonares e neurológicos configura leucostase, em que células grandes e pouco deformáveis obstruem a microcirculação e consomem oxigênio localmente; é emergência com mortalidade precoce alta. Pensar em acidente vascular engana porque a confusão e o distúrbio visual sugerem evento cerebral, mas a apresentação simultânea em dois territórios e a leucometria extrema apontam para a causa hematológica. Edema cardiogênico não explica a alteração neurológica nem os blastos. Meningite exigiria febre e sinais meníngeos com alteração liquórica. Encefalopatia hipertensiva não produz esse hemograma.
Homem de 60 anos com leucemia mieloide aguda e leucometria de 180.000/mm3 tem ácido úrico de 11 mg/dL, desidrogenase láctica de 1800 U/L e função renal normal antes da quimioterapia. Qual a profilaxia mais adequada?
Carga tumoral muito alta com hiperuricemia já presente e desidrogenase láctica elevada define alto risco de lise tumoral, e a combinação de hidratação vigorosa com rasburicase, que degrada o ácido úrico já formado, é a profilaxia indicada. Alopurinol isolado engana por ser a profilaxia mais lembrada, mas ele apenas bloqueia a formação de novo ácido úrico e não remove o que já está acumulado, sendo insuficiente no alto risco. Restrição hídrica é o oposto do necessário. Alcalinização isolada caiu em desuso porque favorece precipitação de fosfato de cálcio. Esperar as alterações surgirem é conduta reativa e perigosa.
Paciente com leucemia mieloide aguda e leucostase apresenta hemoglobina de 6,5 g/dL e sintomas de hipóxia. Qual conduta deve ser evitada nesse momento?
Transfundir hemácias antes de reduzir a leucometria aumenta a viscosidade sanguínea e pode agravar a leucostase, de modo que se prefere adiar ou transfundir com muita parcimônia até iniciar a citorredução. Leucaférese e citorredução com hidroxiureia somadas à quimioterapia são exatamente o tratamento da leucostase. Hidratação e profilaxia de lise tumoral são obrigatórias, já que a citorredução libera enorme carga intracelular. Transfusão de plaquetas é apropriada porque a hemorragia intracraniana é causa de morte nesses pacientes. Suporte ventilatório e monitorização intensiva são adequados.
Qual achado clínico e laboratorial ajuda a diferenciar leucostase verdadeira de simples hiperleucocitose assintomática?
Leucostase é diagnóstico clínico: exige sintomas de hipoperfusão, principalmente dispneia com hipoxemia e alteração neurológica, em paciente com hiperleucocitose. Usar apenas o valor absoluto engana porque muitos pacientes com contagens muito altas permanecem assintomáticos, sobretudo nas leucemias linfoides, em que as células são menores e menos aderentes. Plaquetopenia é frequente na leucemia aguda, mas não define leucostase. Ferritina é marcador inflamatório inespecífico. Esplenomegalia aparece em várias doenças hematológicas e não distingue as duas situações.
Qual complicação metabólica deve ser antecipada ao iniciar quimioterapia em paciente com leucemia aguda e alta carga tumoral?
Leucemia aguda com hiperleucocitose e massa tumoral elevada é o cenário clássico da lise tumoral, e a prevenção começa antes da primeira dose, com hidratação vigorosa, hipouricemiante conforme o risco e controle laboratorial seriado nas primeiras 72 horas. Antecipar essa complicação é o que evita hiperpotassemia com arritmia e injúria renal dialítica em um paciente que já está em situação crítica.
Paciente com linfoma de alta carga tumoral inicia quimioterapia. Qual medida reduz o risco de síndrome de lise tumoral?
A prevenção começa antes da primeira dose, com hidratação generosa que mantém fluxo tubular alto, controle de diurese e uso de alopurinol ou rasburicase conforme a estratificação de risco, além de monitorização laboratorial frequente. Restringir líquidos engana quem teme sobrecarga em paciente com disfunção renal, mas é a hipovolemia que precipita a nefropatia por cristais. Administrar potássio em paciente sob risco de hipercalemia é perigoso. Contraste iodado é nefrotóxico e deve ser evitado no período. Anti-inflamatório não esteroidal reduz a perfusão renal e agrava o risco.
Mulher de 64 anos com mieloma múltiplo em tratamento refere, há 10 dias, dor torácica em faixa de piora progressiva, e há 2 dias fraqueza para subir escadas, com hiperreflexia em membros inferiores e sensibilidade alterada abaixo do umbigo. Qual a conduta imediata?
Dor em faixa com déficit motor progressivo, hiperreflexia e nível sensitivo em paciente com neoplasia é compressão medular, emergência em que corticoide imediato e ressonância de todo o neuroeixo precedem a definição entre radioterapia e cirurgia, porque o estado neurológico no momento do tratamento determina o desfecho funcional. Radiografia com retorno ambulatorial engana por parecer razoável diante de dor lombar comum, mas aqui já há sinais medulares. Relaxante muscular trata hipótese errada. Eletroneuromiografia não é exame de urgência nesse cenário. Radioterapia sem imagem não permite planejar o campo nem definir o nível acometido.
Paciente com neoplasia avançada apresenta náusea, confusão, constipação e poliúria. Cálcio corrigido de 13,8 mg/dL. Qual a conduta?
Náusea, confusão, constipação e poliúria com cálcio muito elevado configuram hipercalcemia da malignidade, causa reversível de sintomas que responde a hidratação salina seguida de antirreabsortivo, com decisão sempre alinhada às metas de cuidado. Tratar apenas o sintoma com antiemético engana quem se limita à queixa principal e deixa a causa avançar. Restrição hídrica e tiazídico elevam ainda mais o cálcio, sendo condutas opostas ao necessário. Suplementar cálcio e vitamina D agrava o quadro. Nutrição parenteral não trata a hipercalcemia e raramente é apropriada nesse contexto.
Mulher de 54 anos, com câncer de mama tratado há três anos, procura o pronto-socorro por dor lombar progressiva há três semanas, que piora à noite, e há dois dias apresenta parestesia em membros inferiores e dificuldade para caminhar. Ao exame, hiperreflexia patelar bilateral e nível sensitivo em T10. Qual a conduta imediata?
Dor nas costas que piora à noite em paciente oncológico, com sinais de liberação piramidal e nível sensitivo, é compressão medular metastática até prova em contrário: corticoide em dose alta imediatamente e ressonância de toda a coluna, porque lesões múltiplas em outros níveis são frequentes e mudam o campo de radioterapia. Pedir radiografia engana porque é rápida e barata, mas normal em boa parte dos casos e incapaz de mostrar o componente epidural. Cintilografia atrasa, e bisfosfonato previne eventos ósseos, não descomprime a medula.
Paciente com metástases ósseas de câncer de mama apresenta confusão mental, náuseas, poliúria e constipação. Cálcio total 14,2 mg/dL, albumina normal, creatinina 1,8 mg/dL. Qual a conduta inicial?
Na hipercalcemia maligna grave, o paciente chega desidratado pela diurese osmótica induzida pelo cálcio, e a primeira medida é expandir com soro fisiológico para restaurar a filtração e a excreção renal de cálcio, seguida de bisfosfonato endovenoso para bloquear a reabsorção óssea. Começar por furosemida engana porque a memória guarda o diurético como parte do tratamento, mas usado antes da expansão ele agrava a desidratação e piora a hipercalcemia. Restrição hídrica é o oposto do necessário e a diálise fica para refratariedade ou insuficiência renal grave.
Sobre a síndrome de lise tumoral, qual conjunto laboratorial é característico?
A lise tumoral libera o conteúdo intracelular na circulação, produzindo ácido úrico, potássio e fósforo elevados; o fósforo em excesso se liga ao cálcio e precipita, o que explica a hipocalcemia associada e o risco de insuficiência renal aguda. A combinação com hipercalcemia engana quem mistura duas emergências oncológicas distintas, já que a hipercalcemia maligna vem da destruição óssea por metástases ou por peptídeo relacionado ao paratormônio, e não da lise celular maciça, típica de neoplasias hematológicas de alta carga.
Homem de 70 anos com adenocarcinoma de próstata metastático apresenta cefaleia, vômitos em jato e papiledema. A tomografia mostra lesão expansiva com desvio de linha média de 8 mm. Qual a primeira medida farmacológica?
O edema vasogênico das metástases responde bem ao corticoide, e a dexametasona reduz a permeabilidade da barreira alterada, aliviando sintomas em poucas horas — é a primeira medida farmacológica. O manitol tem papel de resgate na herniação iminente, mas seu efeito é breve e ele não trata o edema vasogênico de forma sustentada, sendo a escolha de quem confunde controle agudo de pressão intracraniana com tratamento do mecanismo. Anticonvulsivante profilático não está indicado na ausência de crise.
Em relação à profilaxia da síndrome de lise tumoral, qual conjunto de características define maior risco?
O risco se concentra em neoplasias de altíssima taxa proliferativa e grande carga tumoral, sinalizadas por desidrogenase láctica alta, e cresce quando o rim já não consegue excretar a carga metabólica liberada. Imaginar que tumor sólido de crescimento lento oferece risco comparável é o engano típico, e é justamente o cenário de menor risco. O corticoide, longe de proteger, pode ele mesmo precipitar a lise em neoplasias linfoides sensíveis.
Paciente com leucemia de alto risco será submetido a indução, com ácido úrico de 11 mg/dL e deficiência conhecida de glicose-6-fosfato desidrogenase. Qual conduta profilática para lise tumoral é adequada?
A rasburicase é a droga de escolha para ácido úrico elevado com alto risco, mas está contraindicada na deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, porque a degradação do urato gera peróxido de hidrogênio e desencadeia hemólise grave e metemoglobinemia — resta a hidratação vigorosa com alopurinol. Indicá-la é exatamente o passo que a questão testa: acerta o fármaco de primeira linha e ignora a contraindicação embutida no enunciado. A alcalinização caiu em desuso por favorecer precipitação de fosfato de cálcio.
Mulher de 66 anos com mieloma múltiplo apresenta confusão, constipação, poliúria e desidratação. Cálcio total de 14,2 mg/dL, albumina de 3,8 g/dL. Qual a conduta inicial?
A hipercalcemia grave cursa com poliúria e desidratação profunda, e a expansão com soro fisiológico é o primeiro passo — restaura a filtração glomerular e aumenta a excreção de cálcio; o bifosfonato vem em seguida, com efeito em 2 a 4 dias. Usar o diurético de alça de saída é o erro histórico que sobreviveu nas provas: sem volume reposto, ele agrava a hipovolemia e piora a hipercalcemia, e hoje se reserva à sobrecarga volêmica durante a hidratação.
Mulher de 55 anos com câncer de mama metastático relata dor lombar progressiva há 3 semanas, que piora à noite, e desde ontem apresenta dificuldade para urinar e fraqueza nas pernas. Qual a conduta imediata?
Dor nas costas em paciente com neoplasia, somada a déficit motor e retenção urinária, é compressão medular metastática até prova em contrário: o corticoide em dose alta entra imediatamente, antes mesmo da imagem, e a ressonância deve cobrir toda a coluna porque lesões em outros níveis são frequentes e mudam o campo de radioterapia. Esperar radiografia simples é o erro mais custoso — ela é insensível para o comprometimento epidural, e o tempo perdido se traduz em déficit permanente, já que o estado neurológico no início do tratamento é o principal determinante de recuperação.
Sobre a compressão medular metastática, qual afirmação é correta quanto ao prognóstico funcional?
Quem chega deambulando tende a continuar deambulando; quem chega plégico há dias raramente recupera a marcha, e é isso que transforma a suspeita clínica precoce em prioridade absoluta. A ideia de que o paraplégico de longa data recupera é o oposto do observado e engana quem confia demais no efeito da radioterapia. A histologia importa por definir a radiossensibilidade, mas não substitui o estado funcional na hora do diagnóstico.
Homem de 62 anos com linfoma não Hodgkin de alto grau inicia quimioterapia. Em 48 horas apresenta oligúria e câimbras. Exames: potássio 6,3 mEq/L, fósforo 7,8 mg/dL, cálcio 6,9 mg/dL, ácido úrico 12 mg/dL, creatinina 2,4 mg/dL. Qual o diagnóstico?
O padrão é característico: potássio, fósforo e ácido úrico sobem porque a célula tumoral lisada despeja seu conteúdo na circulação, e o cálcio cai por se precipitar com o excesso de fosfato — tudo isso nas primeiras 72 horas de quimioterapia de tumor com alta carga e alta taxa de proliferação. A hipercalcemia da malignidade atrai quem lê neoplasia junto com distúrbio do cálcio, mas nela o cálcio está alto, e aqui o cálcio baixo é justamente a pista que fecha o raciocínio.
Qual dos tumores primários abaixo é a causa mais frequente de compressão medular metastática no adulto?
Mama, pulmão e próstata respondem pela maior parte das compressões medulares metastáticas por serem tumores prevalentes e com alta afinidade pelo esqueleto axial, seguidos por mieloma, linfoma e carcinoma renal. Melanoma metastatiza amplamente, mas sua incidência menor faz dele causa menos frequente, e é o distrator que confunde alta capacidade de disseminação com alta frequência absoluta. Tumores de cabeça e pescoço tendem a disseminação locorregional. Hepatocarcinoma e tumores germinativos raramente se apresentam desse modo, embora o segundo tenha bom prognóstico quando tratado.
Sobre a prevenção da síndrome de lise tumoral em paciente de alto risco, qual conduta é a mais adequada?
A base da profilaxia é hidratação endovenosa vigorosa para manter fluxo urinário alto, e nos pacientes de alto risco a rasburicase, que degrada o ácido úrico já formado, é superior ao alopurinol, que apenas bloqueia a formação de novo urato. Alcalinizar a urina de rotina deixou de ser recomendado porque aumenta a precipitação de fosfato de cálcio nos túbulos, trocando um problema por outro, e esse é o distrator que sobrevive de condutas antigas. Alopurinol é apropriado para risco intermediário. Restringir volume é o oposto do necessário, e diurético em dose alta sem volume adequado agrava a lesão renal.
Mulher de 70 anos com câncer de mama metastático apresenta dor lombar intensa e retenção urinária de instalação recente, além de anestesia em sela e diminuição do tônus do esfíncter anal. A força nos membros inferiores está preservada. Qual é a interpretação correta?
Anestesia em sela, retenção urinária e perda do tônus esfincteriano indicam acometimento das raízes da cauda equina, situação que compartilha com a compressão medular a urgência de imagem e descompressão, mesmo com força preservada. Atribuir a retenção ao opioide é o erro que mais atrasa esse diagnóstico, e a presença de déficit sensitivo perineal e esfincteriano desfaz essa explicação. Compressão cervical produziria acometimento de membros superiores e sinais piramidais difusos. Infecção urinária não causa anestesia em sela, e a neuropatia por quimioterapia é distal, simétrica e de instalação lenta.
Homem de 48 anos com linfoma de Burkitt inicia quimioterapia e, 48 horas depois, apresenta oligúria, potássio de 6,4 mEq/L, fósforo de 8,2 mg/dL, cálcio de 6,8 mg/dL, ácido úrico de 14 mg/dL e creatinina de 3,1 mg/dL. Qual é o diagnóstico?
A tétrade de hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia e hipocalcemia com lesão renal, surgindo logo após quimioterapia de tumor de alta carga e alta taxa de proliferação, define a síndrome de lise tumoral. A hipercalcemia da malignidade é o distrator que confunde quem lê apenas cálcio, mas nela o cálcio está alto, não baixo, e o quadro é subagudo e independente do início da quimioterapia. Nefropatia por contraste e necrose tubular por antibiótico não produzem esse padrão eletrolítico. A síndrome hemolítico-urêmica traria anemia hemolítica microangiopática com esquizócitos e plaquetopenia, ausentes aqui.
Qual é o fator prognóstico mais importante para a recuperação neurológica na compressão medular metastática?
A função neurológica no momento em que o tratamento começa é o preditor mais robusto do resultado funcional: quem chega deambulando tende a permanecer deambulando, e quem chega plégico raramente recupera a marcha, o que explica por que a compressão medular é emergência de horas e não de dias. A histologia importa para a radiossensibilidade e para a escolha do tratamento, mas não supera o estado funcional inicial. Extensão radiológica, marcadores laboratoriais e dor à percussão ajudam no diagnóstico e no planejamento, sem determinar o desfecho motor com a mesma força.
Qual esquema de corticoide é apropriado ao suspeitar de compressão medular metastática com déficit motor?
A dexametasona reduz o edema vasogênico peritumoral, alivia a dor e pode preservar função, devendo ser iniciada assim que a suspeita se estabelece, sem aguardar o exame de imagem, porque o tempo até o tratamento é o que define o prognóstico funcional. Esperar a confirmação é o distrator que parece metodicamente correto e custa neurônios. Corticoide oral em dose baixa é insuficiente na emergência, e dose de estresse de hidrocortisona pertence à insuficiência adrenal. A ressalva sobre mascarar histologia é real apenas na suspeita de linfoma sem diagnóstico prévio, situação em que se discute a biópsia antes, e não se aplica a paciente com neoplasia já conhecida.
Homem de 62 anos com adenocarcinoma de próstata metastático refere dor dorsal progressiva há 3 semanas, que piora ao deitar e desperta à noite, e há 2 dias apresenta parestesia em membros inferiores e dificuldade para subir escadas. Ao exame: paraparesia grau 4, hiperreflexia patelar e nível sensitivo em T8. Qual é a conduta imediata?
Dor dorsal que piora em decúbito e desperta à noite em paciente com neoplasia conhecida, somada a déficit motor e nível sensitivo, é compressão medular até prova em contrário: corticoide em dose alta imediatamente e ressonância de toda a coluna, porque lesões em múltiplos níveis são frequentes e mudam o planejamento. A radiografia é o distrator de quem quer confirmar barato: ela é insensível para acometimento epidural e um exame normal atrasa o tratamento. Analgesia e reabilitação tratam sintoma e ignoram a emergência. Tomografia de crânio investiga hipótese que não explica nível sensitivo torácico, e a cintilografia não avalia o compartimento epidural.
Paciente de 55 anos com mieloma múltiplo apresenta compressão medular em T6 confirmada por ressonância, com paraparesia instalada há 12 horas, lesão radiossensível e coluna estável. Qual é o tratamento definitivo mais apropriado?
Em tumores radiossensíveis, como mieloma e linfoma, com coluna estável e sem fragmento ósseo comprimindo a medula, a radioterapia associada ao corticoide é o tratamento local de escolha e produz bons resultados funcionais. A cirurgia descompressiva com estabilização é o distrator forte e tem papel definido, mas se reserva a instabilidade vertebral, compressão por fragmento ósseo, tumor radiorresistente, progressão durante a irradiação ou necessidade de diagnóstico histológico, e não é obrigatória em todo déficit motor. Quimioterapia isolada não descomprime com rapidez suficiente, vertebroplastia trata dor por fratura sem resolver a compressão, e observar déficit progressivo custa a marcha.
Homem de 70 anos com câncer de pulmão apresenta dor lombar isolada, progressiva, sem déficit neurológico, e a ressonância mostra metástase vertebral em L2 com invasão epidural sem compressão medular significativa. Qual a conduta?
A dor precede o déficit em semanas na maioria dos casos, e é exatamente nessa janela que o tratamento preserva a função, porque quem chega andando tende a continuar andando e quem chega plégico raramente recupera. Esperar o déficit aparecer é o erro conceitual mais grave nessa doença e transforma um caso tratável em sequela definitiva. A avaliação de estabilidade mecânica da coluna orienta a necessidade de estabilização cirúrgica associada.
Paciente com linfoma não Hodgkin apresenta compressão medular epidural em três níveis torácicos, sem instabilidade mecânica e sem indicação de biópsia adicional. Qual a melhor estratégia terapêutica?
Linfoma, mieloma e tumores de células germinativas são altamente radiossensíveis e quimiossensíveis, e nesse cenário a combinação de corticoide, radioterapia e tratamento sistêmico costuma resolver a compressão sem cirurgia, sobretudo quando há múltiplos níveis e não há instabilidade. Indicar cirurgia de todos os níveis é o erro que transporta a estratégia dos tumores radiorresistentes, como o carcinoma renal, para um tumor que responde bem ao tratamento não cirúrgico. Observar sem tratar ignora que o déficit progride e se torna irreversível.
Homem de 61 anos com carcinoma renal metastático apresenta compressão medular em T5 comprovada por ressonância, com paraplegia completa instalada há 72 horas e ausência de sensibilidade abaixo do nível. Qual a expectativa funcional e a conduta?
O status neurológico no início do tratamento é o preditor mais forte de desfecho: paraplegia completa com mais de 48 a 72 horas tem probabilidade baixa de recuperação da marcha, e o objetivo passa a ser controle da dor, estabilidade mecânica e cuidado de qualidade. Prometer recuperação completa é o erro que gera expectativa irreal e decisões terapêuticas desproporcionais. Suspender todo tratamento local também é inadequado, porque radioterapia e estabilização seguem tendo papel no controle de dor e na prevenção de deformidade.
Homem de 64 anos com câncer de próstata metastático refere dor dorsal progressiva há três semanas, pior à noite e ao deitar, e há dois dias apresenta fraqueza progressiva em membros inferiores, com hiperreflexia patelar e nível sensitivo em T8. Qual a conduta imediata?
Compressão medular metastática é emergência oncológica: o corticoide em dose alta é iniciado assim que há suspeita clínica com déficit, sem esperar a imagem, e a ressonância deve cobrir toda a coluna porque lesões em múltiplos níveis são frequentes e mudam o planejamento. Pedir radiografia simples é o erro que atrasa horas decisivas e tem sensibilidade insuficiente para lesão epidural. O status ambulatorial no momento do tratamento é o principal preditor de recuperação funcional, e cada hora de déficit instalado reduz a chance de voltar a andar.
Quais são as neoplasias primárias mais frequentemente associadas à compressão medular metastática, e qual o segmento mais acometido?
Mama, próstata e pulmão respondem pela maior parte dos casos, e o segmento torácico é o mais acometido, tanto pelo maior número de vértebras quanto pelo canal medular relativamente estreito nessa região. Mieloma, linfoma e carcinoma renal completam a lista de causas frequentes. Escolher os tumores digestivos como principais é o erro que ignora a epidemiologia do osso como sítio metastático preferencial de mama e próstata.
Paciente de 58 anos com mieloma múltiplo apresenta compressão medular em T6 por lesão única, com instabilidade da coluna, paraparesia de instalação há 12 horas e bom estado geral, com expectativa de vida superior a seis meses. Qual a melhor abordagem?
Em paciente com lesão única, instabilidade mecânica, bom desempenho funcional e expectativa de vida razoável, a descompressão cirúrgica seguida de radioterapia proporciona melhores taxas de deambulação do que a radioterapia isolada, resultado demonstrado em ensaio clínico randomizado. Radioterapia isolada segue adequada em tumores radiossensíveis sem instabilidade, em múltiplos níveis ou em pacientes sem condições cirúrgicas, e por isso é o distrator plausível. Vertebroplastia trata dor por fratura e não descomprime o canal.
Paciente com linfoma de alto grau inicia quimioterapia e, em 48 horas, apresenta oligúria, potássio de 6,8 mEq/L, fósforo elevado, cálcio baixo e ácido úrico muito elevado. Qual o diagnóstico e a conduta?
A tétrade de hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e hiperuricemia com lesão renal após início de quimioterapia em tumor de alta carga e alta taxa proliferativa define a síndrome de lise tumoral, tratada com hidratação vigorosa, controle das alterações eletrolíticas, redução do ácido úrico e diálise quando necessário. Hipercalcemia da malignidade cursa com cálcio elevado, o oposto do quadro descrito, sendo um distrator que testa a leitura do exame. A profilaxia em pacientes de alto risco é o que evita o quadro.
Paciente com linfoma e grande massa mediastinal inicia quimioterapia. Qual complicação metabólica deve ser prevenida ativamente?
Tumores de alta carga e alta taxa de proliferação, como linfomas agressivos e leucemias, têm risco elevado de lise tumoral após o início do tratamento, com hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia, hipocalcemia e lesão renal, o que exige hidratação vigorosa, agente hipouricemiante conforme a estratificação de risco e monitorização laboratorial frequente. As demais alterações listadas não constituem complicações características e previsíveis do início da quimioterapia em massa tumoral volumosa.
Paciente de 12 anos com sarcoma de Ewing em pelve inicia quimioterapia. Nas primeiras 48 horas apresenta hiperuricemia, hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e elevação da creatinina. Qual a complicação e a conduta?
A destruição maciça de células tumorais libera potássio, fósforo e ácido úrico e consome cálcio, produzindo o padrão eletrolítico descrito com lesão renal — é a síndrome de lise tumoral, tratada com hidratação abundante, controle do ácido úrico e vigilância eletrolítica estreita, com atenção especial à hipercalemia. As demais hipóteses não explicam o conjunto de alterações metabólicas nem a relação temporal com o início da quimioterapia em tumor de alta carga e alta taxa de proliferação.
Homem de 58 anos com câncer de próstata metastático apresenta dor torácica em faixa, fraqueza progressiva em membros inferiores e retenção urinária. Qual a hipótese e a conduta imediata?
Dor em faixa com déficit motor progressivo e retenção urinária em paciente com neoplasia conhecida é compressão medular até prova em contrário, emergência oncológica em que corticoide em dose alta é iniciado de imediato enquanto se obtém a ressonância e se define entre radioterapia e cirurgia — o estado neurológico no momento do tratamento determina o prognóstico funcional. Todas as demais hipóteses adiam a intervenção enquanto a medula segue comprimida.
Homem de 66 anos em tratamento oncológico apresenta creatinina elevada, potássio de 6,5 mEq/L, ácido úrico muito elevado e oligúria após início de quimioterapia para linfoma de alto grau. Qual medida preventiva deveria ter sido instituída?
Tumores de alta carga e alta proliferação exigem prevenção da lise tumoral, e o pilar é hidratação vigorosa iniciada antes da quimioterapia, com redução do ácido úrico e monitorização eletrolítica frequente. Restrição hídrica é exatamente o oposto e favorece a precipitação tubular. Suplementar potássio em quem vai desenvolver hipercalemia é perigoso, e tanto o anti-inflamatório quanto o tiazídico comprometem a função renal e o manejo eletrolítico justamente no momento de maior risco.
Mulher de 58 anos com câncer de mama metastático chega confusa, com náuseas, constipação e poliúria. Cálcio total de 14,2 mg/dL com albumina normal. Qual a conduta inicial?
A hipercalcemia maligna cursa com desidratação por diabetes insipidus nefrogênico e poliúria osmótica, de modo que a reposição salina restaura a filtração glomerular e a excreção de cálcio; o bisfosfonato ou o denosumabe atacam a reabsorção óssea, mas levam de dois a quatro dias para agir, o que justifica a calcitonina como ponte nas primeiras horas nos casos graves. O diurético de alça em dose alta como primeira medida é o erro clássico herdado de condutas antigas: em paciente hipovolêmico ele agrava a desidratação e piora o cálcio. Restringir líquido é o oposto do necessário.
Paciente com linfoma de alto grau inicia quimioterapia e, 48 horas depois, apresenta oligúria, potássio de 6,4 mEq/L, fósforo elevado, cálcio baixo e ácido úrico de 12 mg/dL. Qual a medida terapêutica mais específica para esse quadro?
Na síndrome de lise tumoral já instalada, a rasburicase degrada o ácido úrico existente em alantoína, de ação rápida, enquanto a hidratação mantém o fluxo tubular; o alopurinol apenas bloqueia a formação de novo urato e por isso serve à profilaxia, não ao resgate — é o distrator preferido de quem não distingue prevenir de tratar. A alcalinização caiu em desuso rotineiro porque favorece precipitação de fosfato de cálcio nos túbulos. Repor cálcio em hipocalcemia assintomática com fósforo alto aumenta esse mesmo risco de precipitação.
Paciente com neoplasia conhecida refere dor lombar intensa há três semanas, que piora à noite e ao deitar, com fraqueza progressiva nas pernas nas últimas 48 horas e retenção urinária. Qual a conduta imediata?
Compressão medular metastática é emergência oncológica em que o desfecho neurológico depende de horas: inicia-se corticoide imediatamente e faz-se ressonância de toda a coluna, porque as lesões costumam ser multinível e a imagem de um segmento só deixaria passar as demais, com radioterapia ou descompressão cirúrgica em seguida. Radiografia simples é o distrator do serviço sem recurso, mas ela é normal em boa parte dos casos e não exclui compressão. O grau de força ao iniciar o tratamento é o melhor preditor da marcha final, e por isso não se espera uma semana.
Menina de 6 anos inicia quimioterapia para leucemia linfoblástica aguda com grande massa tumoral. Nas primeiras 48 horas apresenta oligúria, potássio 6,4 mEq/L, fósforo 8,2 mg/dL, cálcio 6,9 mg/dL e ácido úrico 12 mg/dL. Qual o diagnóstico e a medida terapêutica central?
O quarteto hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e hiperuricemia após o início do tratamento de tumor com alta carga celular é a assinatura da lise tumoral: as células rompidas despejam potássio, fósforo e ácidos nucleicos, e o fosfato precipita com o cálcio, o que explica a queda do cálcio e a lesão renal. O tratamento se apoia em hidratação abundante e em alopurinol ou rasburicase. Repor cálcio de rotina é armadilha, porque aumenta a precipitação de fosfato de cálcio e só se justifica quando há sintomas.
Qual é a vantagem da rasburicase em relação ao alopurinol no manejo da hiperuricemia da lise tumoral?
A rasburicase é uma urato-oxidase que converte o ácido úrico já formado em alantoína, solúvel e excretável, reduzindo rapidamente os níveis, enquanto o alopurinol inibe a xantina oxidase e só impede a formação de novo urato, sem agir sobre o que já existe. A rasburicase, porém, é contraindicada na deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, pelo risco de hemólise grave e metemoglobinemia, e essa triagem é obrigatória em populações de risco — afirmar ausência de contraindicações é o erro mais perigoso do conjunto.
Qual alteração eletrolítica da síndrome de lise tumoral representa o maior risco imediato de morte e como se manifesta no eletrocardiograma?
A hipercalemia é a alteração que mata em minutos, com ondas T apiculadas, alargamento do QRS, perda da onda P e evolução para arritmia ventricular — exige gluconato de cálcio para estabilizar a membrana, insulina com glicose e beta-2 agonista para deslocar o potássio, e diálise quando refratária. A hipocalcemia prolonga, e não encurta, o intervalo QT. Hiperfosfatemia e hiperuricemia agridem o rim, mas não produzem esses padrões eletrocardiográficos, e hipernatremia não faz parte da síndrome.
Qual medida profilática é indicada em criança com alto risco de síndrome de lise tumoral antes de iniciar a quimioterapia?
A profilaxia se apoia em hidratação vigorosa sem potássio, para manter alto fluxo urinário, associada a rasburicase nos pacientes de alto risco ou alopurinol nos de risco intermediário. Restringir líquidos é o oposto do necessário. Repor cálcio de rotina em paciente hiperfosfatêmico pode precipitar deposição de fosfato de cálcio nos tecidos e piorar a lesão renal, ficando reservado à hipocalcemia sintomática. A alcalinização caiu em desuso pelo risco de precipitação de fosfato de cálcio. Ofertar potássio em quem vai desenvolver hipercalemia é conduta perigosa.
Criança de 7 anos com linfoma de Burkitt abdominal volumoso vai iniciar quimioterapia. Qual medida profilática é obrigatória antes do início do tratamento?
A altíssima taxa de proliferação e a grande carga tumoral fazem desse linfoma o cenário de maior risco de lise tumoral, e a prevenção com hidratação vigorosa, controle eletrolítico e redução do ácido úrico deve começar antes do primeiro ciclo. Operar a massa antes de tratar é o erro conceitual mais importante: a doença é quimiossensível e a cirurgia extensa apenas adia o tratamento e adiciona morbidade, cabendo à abordagem cirúrgica apenas a biópsia ou o manejo de complicações. Transfusão profilática e antibiótico prévio não têm indicação sem citopenia ou infecção.
Qual conduta é indicada em criança com leucemia e leucometria de 350.000/mm³ com sinais de hiperviscosidade, como alteração visual e confusão?
Leucostase com sintomas neurológicos ou respiratórios é emergência: exige citorredução rápida, eventualmente leucoaférese, com hidratação vigorosa e profilaxia da lise tumoral. Transfundir hemácias em paciente com hiperleucocitose aumenta a viscosidade e pode agravar a leucostase — é o erro clássico dessa situação, e a correção da anemia deve ser cautelosa. Aguardar 48 horas permite hemorragia e infarto do sistema nervoso central. Diurético reduz volume e piora a viscosidade, e corticoide inalatório não tem papel.
Adolescente com leucemia mieloide aguda chega com 180.000 leucócitos/mm3, dispneia, hipoxemia, cefaleia e confusão mental. Qual é a complicação e a conduta imediata?
Leucometria muito elevada aumenta a viscosidade e obstrui a microcirculação pulmonar e cerebral, e o tratamento é reduzir rapidamente a massa de blastos com hidratação, quimioterapia e, quando disponível, leucaférese. A transfusão de hemácias é o erro que agrava a leucostase, porque eleva ainda mais a viscosidade, e por isso deve ser adiada ou feita com cautela após a citorredução, o que torna essa alternativa a mais perigosa da lista. Sepse e meningite podem coexistir e devem ser tratadas, mas não explicam o quadro, e não há indicação de anticoagulação plena nesse cenário.
Adolescente de 13 anos com linfoma não Hodgkin apresenta dor lombar progressiva, fraqueza em membros inferiores, hiperreflexia e retenção urinária. Qual a conduta imediata?
Compressão medular é emergência oncológica: o tempo entre o início do déficit e o tratamento determina a recuperação neurológica, e a conduta é corticoide em dose alta imediato com ressonância de urgência, seguida de radioterapia, quimioterapia ou descompressão cirúrgica conforme o tumor. Analgesia com investigação eletiva e radiografia com retorno em uma semana perdem a janela funcional. Punção lombar antes da imagem, em suspeita de bloqueio medular, pode piorar o déficit. Suspender a quimioterapia e observar não trata a compressão.
Menino de 8 anos com leucemia linfoblástica aguda e grande massa mediastinal inicia quimioterapia. Em 24 horas apresenta oligúria, potássio de 6,8 mEq/L, fósforo de 8,5 mg/dL, cálcio de 6,8 mg/dL, ácido úrico de 14 mg/dL e creatinina três vezes acima do basal. Qual o diagnóstico e a conduta prioritária?
A tétrade hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e hiperuricemia com lesão renal, logo após iniciar a quimioterapia em tumor de alta carga, define a síndrome de lise tumoral. O tratamento é hiper-hidratação sem potássio, rasburicase quando disponível e manejo agressivo da hipercalemia, que é a alteração que mata primeiro. Sepse e nefrite intersticial não produzem esse padrão eletrolítico característico. A hipercalcemia da malignidade é o oposto do cálcio encontrado aqui, e a hipocalcemia decorre da quelação pelo fósforo.
Criança em tratamento oncológico apresenta dor lombar progressiva, fraqueza em membros inferiores e retenção urinária. Qual a conduta imediata?
Compressão medular é emergência oncológica em que cada hora de atraso reduz a chance de recuperação neurológica, e a conduta combina corticoide imediato para reduzir o edema e ressonância urgente para definir o nível e planejar radioterapia ou cirurgia. A radiografia simples não afasta compressão por massa em partes moles, e a punção lombar diante de possível bloqueio pode agravar o déficit.
Homem de 70 anos com câncer de próstata metastático em uso de bloqueio hormonal procura a Unidade de Pronto Atendimento com dor lombar intensa há duas semanas, que piorou muito nos últimos dois dias, associada a fraqueza progressiva nas pernas e dificuldade para urinar. Ao exame: paraparesia de instalação recente, nível sensitivo em região torácica baixa, reflexos exaltados em membros inferiores, globo vesical palpável e dor à percussão de processos espinhosos torácicos. Qual é a conduta imediata?
Dor lombar progressiva com paraparesia, nível sensitivo e retenção urinária em paciente com neoplasia conhecida configura compressão medular metastática, emergência oncológica em que corticoide em dose alta deve ser iniciado imediatamente e a ressonância magnética obtida com urgência, seguida de radioterapia ou descompressão cirúrgica, pois o prognóstico funcional depende do estado neurológico no momento do tratamento. Analgesia ambulatorial e fisioterapia retardam o diagnóstico e consolidam a paraplegia. Radiografia simples tem baixa sensibilidade e não avalia o canal medular. Ajustar apenas o bloqueio hormonal não descomprime a medula.
Menino de 7 anos, com diagnóstico recente de leucemia linfoblástica aguda com leucometria de 180.000/mm³, inicia quimioterapia de indução. Vinte e quatro horas depois, apresenta náuseas, oligúria e câimbras. Os exames mostram potássio de 6,4 mEq/L, fósforo elevado, cálcio reduzido, ácido úrico de 12 mg/dL e creatinina em elevação. O eletrocardiograma mostra ondas T apiculadas. Ele está consciente, com pressão arterial de 108x68 mmHg e frequência cardíaca de 104 bpm. A hipótese diagnóstica e a conduta corretas são
Hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e lesão renal aguda logo após o início da quimioterapia em leucemia com alta carga tumoral definem a síndrome de lise tumoral, tratada com hidratação vigorosa, manejo da hipercalemia e agente hipouricemiante, com diálise nos casos refratários. Nefrotoxicidade direta não explica o padrão eletrolítico característico. Desidratação simples não cursa com hiperuricemia e hiperfosfatemia dessa magnitude. Sepse urinária não produz esse conjunto metabólico nem se relaciona temporalmente ao início da indução.
Menino de 11 anos, em tratamento para linfoma, é levado ao pronto-atendimento com dor lombar intensa há uma semana, que piora à noite, associada a dificuldade progressiva para caminhar nas últimas 48 horas e episódio de perda urinária. Ao exame, há fraqueza proximal de membros inferiores, hiperreflexia patelar, nível sensitivo em torno de T10 e globo vesical palpável. Ele está lúcido, afebril, com pressão arterial de 108x66 mmHg. A conduta imediata correta é
Dor lombar noturna com déficit motor progressivo, nível sensitivo e retenção urinária indica compressão medular, emergência oncológica em que corticoide imediato e ressonância magnética urgente determinam o prognóstico funcional, pois o déficit instalado tende a ser irreversível. Analgesia com reavaliação em duas semanas permite lesão medular definitiva. Radiografia simples não exclui compressão por massa epidural. Punção lombar antes da imagem pode agravar o quadro e retarda a intervenção.
Mulher de 71 anos é atendida em ambulatório com fraqueza, poliúria e constipação há dois meses. Ela tem neoplasia de mama metastática em tratamento. Ao exame: desidratada, PA 118x72 mmHg, FC 96 bpm, mucosas secas, sem edema, lentificação psicomotora, sem déficits focais. Exames: cálcio total 14,2 mg/dL com albumina normal, fósforo reduzido, creatinina 2,2 mg/dL, previamente 1,0 mg/dL, paratormônio suprimido, proteína relacionada ao paratormônio elevada, eletrocardiograma com encurtamento do intervalo QT. A conduta imediata correta é:
Hipercalcemia grave com paratormônio suprimido e proteína relacionada ao paratormônio elevada caracteriza hipercalcemia da malignidade, cuja conduta imediata é hidratação venosa vigorosa com solução salina isotônica, restaurando a volemia e favorecendo a calciúria, associada a agente antirreabsortivo e ao tratamento da neoplasia. Repor cálcio agravaria o quadro. Tiazídico reduz a excreção de cálcio e é contraindicado. Aguardar resolução espontânea expõe a arritmias, injúria renal e alteração neurológica progressiva.
Homem de 58 anos, com linfoma não Hodgkin de alto grau e grande massa tumoral, inicia quimioterapia e evolui, após 48 horas, com oligúria, náuseas e câimbras. Ao exame: PA 138x84 mmHg, FC 96 bpm, sem edema importante, sem sinais focais, diurese reduzida. Exames: potássio 6,4 mEq/L, fósforo 7,8 mg/dL, cálcio 6,8 mg/dL, ácido úrico 14 mg/dL, creatinina 2,8 mg/dL, previamente 1,0 mg/dL, desidrogenase láctica muito elevada, eletrocardiograma com ondas T apiculadas. A hipótese e a conduta corretas são:
Hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e injúria renal aguda logo após o início da quimioterapia em linfoma de alto grau com grande massa tumoral caracterizam síndrome de lise tumoral, exigindo hidratação vigorosa, manejo da hipercalemia, redução do ácido úrico com agente apropriado e avaliação precoce de diálise. Nefropatia por contraste e nefrite intersticial não produzem esse perfil metabólico. Obstrução pós-renal exigiria hidronefrose e não explica o padrão bioquímico descrito.
Homem de 54 anos é atendido no pronto-socorro com dispneia, confusão e cefaleia há um dia. Ao exame: confuso, PA 148x88 mmHg, FC 112 bpm, FR 30 ipm, saturação 88% em ar ambiente, fundo de olho com hemorragias e dilatação venosa, sem déficits motores focais. Exames: hemoglobina 9,2 g/dL, leucócitos 320.000/mm3 com predomínio de blastos, plaquetas 42.000/mm3, desidrogenase láctica muito elevada, ácido úrico elevado, radiografia de tórax sem consolidação definida. A hipótese e a conduta corretas são:
Contagem leucocitária extremamente elevada com predomínio de blastos, associada a sintomas neurológicos e respiratórios por hiperviscosidade e obstrução microvascular, caracteriza leucostase, emergência que exige suporte, hidratação, prevenção de lise tumoral e citorredução urgente em serviço especializado. Pneumonia não produz blastos circulantes em tal magnitude. Acidente vascular cerebral não explica a hiperleucocitose. Anemia hemolítica autoimune não cursa com blastos nem leucocitose desse patamar.
Homem de 71 anos é atendido no pronto-socorro com dor lombar intensa e fraqueza em membros inferiores há dois dias, com dificuldade para deambular. Ele tem mieloma múltiplo em tratamento. Ao exame: dor à palpação de coluna torácica baixa, força grau 3 em membros inferiores, hiperreflexia, nível sensitivo em região torácica, retenção urinária com globo vesical palpável. Exames: cálcio 10,4 mg/dL, creatinina 1,6 mg/dL, hemoglobina 9,4 g/dL. A tomografia mostra lesão lítica vertebral com massa de partes moles invadindo o canal medular. A conduta imediata correta é:
Dor lombar com déficit motor, nível sensitivo e retenção urinária, associada a lesão vertebral invadindo o canal medular, caracteriza compressão medular, emergência oncológica em que o corticoide em dose alta deve ser iniciado imediatamente, com acionamento urgente de radioterapia ou neurocirurgia, pois o prognóstico funcional depende da rapidez da intervenção. Analgesia com investigação tardia permite paraplegia definitiva. Bisfosfonato e fisioterapia não descomprimem a medula.
Mulher de 62 anos, com câncer de mama tratado há três anos e em uso de inibidor de aromatase, comparece à Unidade Básica de Saúde com dor lombar progressiva há dois meses, que piora à noite e não alivia com repouso, associada a dificuldade recente para caminhar e parestesia em membros inferiores. Ao exame, há dor à percussão de processos espinhosos lombares e hiperreflexia patelar bilateral. Nega trauma e não teve melhora com analgésico simples. Qual é a conduta adequada?
Dor lombar noturna e progressiva em paciente com câncer de mama, somada a sinais neurológicos, sugere metástase vertebral com risco de compressão medular, emergência oncológica que exige imagem imediata e acionamento da referência, pois o prognóstico funcional depende do tempo até o tratamento. Anti-inflamatório com reavaliação tardia permite instalação de déficit irreversível. A radiografia simples tem baixa sensibilidade para lesões precoces e para avaliar o canal medular. As artralgias do inibidor de aromatase não cursam com sinais neurológicos focais.
Mulher, 58 anos, com linfoma de alto grau e grande massa abdominal, inicia quimioterapia. Após 36 horas, apresenta náuseas, cãibras e oligúria. Potássio 6,4 mEq/L (VR 3,5–5,0); fósforo 7,8 mg/dL (VR 2,5–4,5); ácido úrico 14 mg/dL (VR < 6,0); cálcio 7,0 mg/dL (VR 8,5–10,5); creatinina 2,6 mg/dL (VR 0,6–1,1). O eletrocardiograma mostra ondas T apiculadas em derivações precordiais. Qual o diagnóstico e a conduta?
Hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia e hipocalcemia com lesão renal aguda logo após o início da quimioterapia de tumor volumoso e de alta taxa proliferativa definem síndrome de lise tumoral, tratada com hidratação vigorosa, rasburicase ou alopurinol e correção urgente da hipercalemia, com diálise se necessário. A nefropatia por contraste não produz esse padrão eletrolítico característico. A hipercalcemia da malignidade cursa com cálcio elevado, o oposto do encontrado. A insuficiência adrenal aguda causa hiponatremia com hipercalemia, mas sem hiperfosfatemia e hiperuricemia dessa magnitude. A sepse urinária não explica o conjunto metabólico nem a relação temporal com a quimioterapia.
Homem, 67 anos, com câncer de próstata metastático para coluna, refere dor lombar progressiva há 3 semanas e, nas últimas 24 horas, fraqueza em membros inferiores e dificuldade para urinar. Ao exame, força muscular grau 3 em membros inferiores, nível sensitivo em T10 e hiperreflexia patelar bilateral, com globo vesical palpável. Não há febre nem sinais infecciosos locais ou sistêmicos. Qual a conduta imediata?
Dor lombar com déficit motor, nível sensitivo e retenção urinária em paciente com neoplasia conhecida caracteriza compressão medular metastática, emergência em que se administra corticoide em dose alta de imediato e se realiza ressonância de toda a coluna com urgência, seguida de radioterapia ou descompressão cirúrgica. Analgesia isolada com reavaliação tardia consolida o déficit neurológico, cuja recuperação depende da rapidez da intervenção. A radiografia simples tem baixa sensibilidade e a alta é inaceitável diante de déficit instalado. Fisioterapia não trata a compressão mecânica. A quimioterapia sistêmica tem início de ação lento e não substitui a descompressão local urgente.
Mulher, 61 anos, com carcinoma de mama metastático para ossos, apresenta confusão mental, constipação, poliúria e desidratação há 5 dias. PA 104/64 mmHg, FC 108 bpm, mucosas secas. Cálcio total 14,2 mg/dL (VR 8,5–10,5) com albumina normal; creatinina 1,8 mg/dL (VR 0,6–1,1); paratormônio suprimido. O eletrocardiograma mostra encurtamento do intervalo QT. Qual a conduta inicial?
A hipercalcemia da malignidade grave é tratada inicialmente com hidratação venosa vigorosa com soro fisiológico, que restaura o volume e aumenta a excreção renal de cálcio, seguida de bisfosfonato endovenoso ou denosumabe para inibir a reabsorção óssea. O diurético tiazídico reduz a excreção de cálcio e agrava a hipercalcemia, ao contrário do diurético de alça, usado apenas após reposição volêmica adequada. Repor cálcio é exatamente o oposto do necessário e pode ser fatal. A vitamina D aumenta a absorção intestinal de cálcio e agravaria o quadro. A restrição hídrica piora a desidratação que sustenta a hipercalcemia por redução da filtração glomerular.
Homem, 70 anos, com carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço em tratamento com radioterapia cervical, apresenta há 10 dias fraqueza, sonolência e confusão. PA 108/70 mmHg, FC 92 bpm. Cálcio total 13,8 mg/dL (VR 8,5–10,5); albumina 3,6 g/dL; fósforo baixo; paratormônio suprimido; peptídeo relacionado ao paratormônio elevado. Não há lesões ósseas líticas identificadas em exames de imagem recentes. Qual o mecanismo da hipercalcemia?
Hipercalcemia com paratormônio suprimido, fósforo baixo e peptídeo relacionado ao paratormônio elevado, na ausência de lesões ósseas, caracteriza hipercalcemia humoral da malignidade, mecanismo típico dos carcinomas espinocelulares. A hipercalcemia por metástases osteolíticas exigiria lesões ósseas demonstráveis, expressamente ausentes. O hiperparatireoidismo primário cursa com paratormônio elevado ou inapropriadamente normal, e não suprimido. A intoxicação por vitamina D eleva o calcitriol e costuma elevar também o fósforo, sem elevação do peptídeo relacionado ao paratormônio. A imobilização isolada raramente produz hipercalcemia dessa magnitude e não explica o marcador humoral elevado.
Homem, 60 anos, hipertenso, é atendido na UBS com queixa de fraqueza em membros inferiores e dor lombar intensa há 10 dias, com piora progressiva. Tem antecedente de neoplasia de pulmão em tratamento. Refere hoje dificuldade para urinar e diminuição da sensibilidade em região perineal. Exame: força grau 3/5 em membros inferiores, hiperreflexia patelar, nível sensitivo em T10, globo vesical palpável, tônus esfincteriano diminuído ao toque retal. Qual a conduta correta?
Dor lombar progressiva com déficit motor, nível sensitivo, hiperreflexia e disfunção esfincteriana em paciente oncológico caracteriza compressão medular metastática, emergência em que o prognóstico funcional depende de horas, exigindo corticoide imediato e ressonância urgente com definição de radioterapia ou cirurgia. Analgesia com ressonância em 30 dias condena o paciente à paraplegia definitiva. Radiografia simples pode ser normal mesmo com compressão significativa e liberar o paciente seria erro grave. Fisioterapia não trata compressão medular em curso. Sondagem vesical alivia a retenção, mas ignora a causa neurológica que precisa de intervenção imediata.
Homem, 58 anos, com linfoma difuso de grandes células B, inicia o primeiro ciclo de quimioterapia. Apresenta massa abdominal volumosa de 12 cm e desidrogenase lática muito elevada, com creatinina de 1,4 mg/dL (VR 0,7–1,3) e ácido úrico de 9,8 mg/dL (VR < 7,0). Está hidratado, com boa diurese, e a equipe planeja medidas preventivas antes da administração do esquema quimioterápico programado para o mesmo dia. Qual a medida preventiva mais adequada?
Massa volumosa, desidrogenase lática muito elevada, hiperuricemia e alteração da função renal caracterizam alto risco de síndrome de lise tumoral, prevenida com hidratação vigorosa, agente hipouricemiante como alopurinol ou rasburicase e monitorização laboratorial frequente de eletrólitos e função renal. A restrição hídrica é exatamente o oposto do necessário, pois reduz a depuração de ácido úrico e fosfato. A alcalinização urinária deixou de ser recomendada de rotina, pois favorece a precipitação de fosfato de cálcio. A transfusão de plaquetas não previne lise tumoral. O corticoide faz parte de alguns esquemas, mas isoladamente não previne a síndrome nem substitui a hidratação e o hipouricemiante.
Homem, 55 anos, internado na UTI por leucemia aguda em quimioterapia, apresenta oligúria e mal-estar 48 horas após o início do tratamento. Exame: PA 118/72 mmHg, FC 96 bpm, sem sinais focais. Potássio 6,3 mEq/L; fósforo 7,2 mg/dL; cálcio 6,8 mg/dL; ácido úrico 14 mg/dL; creatinina 2,8 mg/dL (basal 0,9); desidrogenase lática muito elevada. Diurese de 20 mL/h apesar de hidratação. Sem sangramento e sem febre no momento. Qual a hipótese diagnóstica e a conduta?
Hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e lesão renal aguda logo após quimioterapia em neoplasia de alta carga tumoral caracterizam síndrome de lise tumoral, cujo manejo inclui hidratação vigorosa, redução do ácido úrico com rasburicase ou alopurinol conforme o caso, controle da hipercalemia e avaliação precoce da necessidade de diálise. Nefropatia por contraste não produz esse padrão eletrolítico característico. Sepse não explica a hiperuricemia acentuada com hiperfosfatemia e hipocalcemia. Nefrite intersticial cursa com eosinofilúria e exposição a fármaco desencadeante, sem esse perfil metabólico. Obstrução urinária mostraria hidronefrose e não justifica as alterações eletrolíticas descritas.
Menino, 7 anos, iniciou quimioterapia para leucemia linfoblástica aguda há 24 horas e apresenta oligúria e mal-estar. PA 104/64 mmHg, FC 112 bpm. Potássio de 6,4 mEq/L, fósforo de 8,2 mg/dL, cálcio de 7,0 mg/dL, ácido úrico de 12 mg/dL e creatinina de 1,8 mg/dL, com desidratação leve e sem sinais de infecção ou sangramento ativo. Qual a conduta mais adequada?
A síndrome de lise tumoral, com hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e lesão renal, é tratada com hidratação vigorosa, correção dos distúrbios eletrolíticos e redução do ácido úrico com rasburicase ou alopurinol, além de diálise nos casos refratários. A restrição hídrica agrava a precipitação de cristais nos túbulos. A reposição agressiva de cálcio pode favorecer precipitação de fosfato de cálcio e é reservada à hipocalcemia sintomática. Suspender definitivamente a quimioterapia compromete o tratamento oncológico. O corticoide isolado não corrige os distúrbios metabólicos.
Homem, 70 anos, com câncer de próstata metastático, é atendido no pronto-socorro com lombalgia intensa e fraqueza progressiva em membros inferiores há 4 dias, com dificuldade para deambular e retenção urinária de instalação recente. Exame: força grau 3/5 em membros inferiores, nível sensitivo em T8, hiperreflexia, globo vesical palpável, tônus esfincteriano reduzido. Ressonância mostra lesão vertebral com compressão medular em T8, sem instabilidade mecânica evidente. Qual a conduta correta?
A compressão medular metastática é emergência oncológica, e a conduta é iniciar corticoide em dose alta imediatamente, drenar a bexiga em retenção e acionar radioterapia ou descompressão neurocirúrgica de urgência, pois o prognóstico funcional depende da precocidade da intervenção. Analgesia com radioterapia eletiva em 30 dias condena o paciente à paraplegia. Sondagem isolada com reavaliação tardia trata apenas a consequência urinária. Quimioterapia sistêmica não descomprime a medula em tempo hábil. Cintilografia óssea não é necessária antes de tratar uma compressão já documentada por ressonância e apenas atrasaria a intervenção.
Menino, 7 anos, com linfoma de Burkitt e massa abdominal volumosa, iniciará quimioterapia. Apresenta ácido úrico 11,2 mg/dL (VR 2,5–6,0), LDH 3.400 U/L, potássio 5,2 mEq/L, fósforo 6,8 mg/dL e creatinina 1,2 mg/dL. É de ascendência africana e ainda não realizou dosagem enzimática eritrocitária. Exame: massa abdominal palpável, T 37,2 °C, FC 118 bpm, diurese preservada com hidratação venosa. Qual cuidado é essencial antes de usar rasburicase?
A rasburicase converte ácido úrico em alantoína gerando peróxido de hidrogênio, o que provoca hemólise grave e metemoglobinemia em pacientes com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, sendo obrigatória a exclusão dessa enzimopatia, sobretudo em populações de maior prevalência. Suspender a hidratação é o oposto da conduta correta, pois o volume protege a função renal. Associar alopurinol não potencializa o efeito e é redundante com o mecanismo do medicamento. A hiperfosfatemia é tratada em paralelo, mas não contraindica a droga. A alcalinização urinária caiu em desuso, pois favorece a precipitação de fosfato de cálcio nos túbulos renais.
Adolescente de 14 anos é admitido com diagnóstico recente de leucemia aguda, apresentando dispneia, confusão mental e cefaleia há 12 horas. Exame: FR 32 ipm, SatO2 89% em ar ambiente, sonolência, sem sinais focais, T 37,6 °C, FC 128 bpm. Leucócitos 380.000/mm³ com predomínio de blastos; hemoglobina 8,0 g/dL; plaquetas 40.000/mm³; radiografia de tórax com infiltrado intersticial difuso bilateral. Qual a conduta prioritária?
Hiperleucocitose com sintomas neurológicos e respiratórios caracteriza leucostase, emergência que exige hidratação vigorosa e citorredução rápida com quimioterapia ou leucaférese, evitando-se transfusão de hemácias, que aumenta a viscosidade sanguínea e agrava o quadro. Transfundir hemácias de imediato é justamente o erro a ser evitado nessa situação. Aguardar apenas resposta a antibiótico posterga o tratamento da causa da hipoxemia. O corticoide isolado é insuficiente para reduzir a leucometria com a rapidez necessária. A exsanguineotransfusão total não é o procedimento indicado, sendo a leucaférese o método específico quando disponível.
Mulher, 58 anos, com câncer de mama metastático, apresenta dor dorsal progressiva há 3 semanas, com piora noturna, e há 12 horas evolui com fraqueza em membros inferiores e retenção urinária. Exame: paraparesia grau 3, nível sensitivo em T6, hiper-reflexia, Babinski bilateral, globo vesical palpável. Ressonância com lesão em corpo vertebral de T5 e componente epidural comprimindo a medula em 60% do canal. Qual a conduta imediata?
A compressão medular metastática é emergência oncológica: inicia-se corticoide em dose alta imediatamente e aciona-se avaliação para descompressão cirúrgica seguida de radioterapia, pois o estado neurológico no início do tratamento é o principal determinante do desfecho funcional. Programar radioterapia para a semana seguinte desperdiça a janela terapêutica. Analgesia com reavaliação em cinco dias permite paraplegia definitiva. A quimioterapia sistêmica isolada tem ação lenta demais para reverter a compressão. A fisioterapia é parte da reabilitação posterior, jamais o tratamento inicial da compressão aguda.
Mulher, 64 anos, com câncer de mama metastático, apresenta náuseas, constipação e sonolência há 4 dias. PA 100x62 mmHg, FC 106 bpm, mucosas desidratadas. Exames: cálcio total 14,2 mg/dL (VR 8,5–10,5); albumina 3,8 g/dL; PTH 6 pg/mL (VR 15–65); PTH-rP elevado; creatinina 1,8 mg/dL; fósforo 2,2 mg/dL (VR 2,5–4,5). Eletrocardiograma com intervalo QT encurtado. Qual a conduta inicial?
A hipercalcemia grave da malignidade, aqui mediada por PTH-rP com PTH suprimido, é tratada inicialmente com expansão volêmica por salina isotônica associada a bisfosfonato endovenoso, que bloqueia a reabsorção óssea. A furosemida isolada em altas doses agrava a depleção volêmica e não é mais recomendada como medida primária. A calcitonina reduz o cálcio rapidamente, mas apresenta taquifilaxia em poucos dias e serve apenas como ponte. A hemodiálise fica reservada a insuficiência renal grave ou refratariedade, cenários não estabelecidos com creatinina de 1,8 mg/dL. O corticoide é útil na hipercalcemia por linfoma ou doença granulomatosa, mecanismos distintos do descrito.
Adolescente de 14 anos com linfoma de Burkitt e grande massa abdominal inicia quimioterapia. Após 24 horas evolui com oligúria e cãibras. PA 108x68 mmHg, FC 104 bpm. Potássio 6,4 mEq/L (VR 3,5-5,0); fósforo 8,2 mg/dL (VR 3-4,5); cálcio 6,8 mg/dL (VR 8,8-10,8); ácido úrico 14 mg/dL (VR 2,5-7); creatinina 2,2 mg/dL, previamente 0,6 mg/dL (VR 0,3-0,7). O eletrocardiograma mostra ondas T apiculadas. Qual a conduta prioritária?
A hidratação vigorosa associada à rasburicase e ao tratamento imediato da hipercalemia é a conduta prioritária na síndrome de lise tumoral, definida por hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperuricemia e injúria renal aguda, com alterações eletrocardiográficas que indicam risco de arritmia fatal. A restrição hídrica agrava a precipitação tubular de urato e fosfato. Repor cálcio e fósforo por via oral é inadequado, pois a reposição de cálcio só é feita se houver sintomas e o fósforo já está elevado. Suspender a quimioterapia isoladamente não corrige os distúrbios metabólicos instalados. O alopurinol impede a formação de novo ácido úrico, mas não degrada o já circulante, sendo insuficiente nesse cenário.
Menino de 5 anos, em investigação de massa paravertebral torácica, apresenta há 2 dias dor dorsal intensa e, desde ontem, dificuldade progressiva para deambular. Ao exame há paraparesia de membros inferiores com força grau 3, nível sensitivo em T8, hiperreflexia patelar e retenção urinária com bexiga palpável. Está afebril, PA 106x66 mmHg, FC 100 bpm, sem sinais de sepse. Qual a conduta imediata?
Corticoide em dose alta com ressonância de coluna de urgência e avaliação especializada é a conduta imediata na compressão medular neoplásica, emergência oncológica sugerida por dor dorsal, paraparesia progressiva, nível sensitivo e retenção urinária, na qual cada hora de atraso reduz a chance de recuperação funcional. A fisioterapia com reavaliação em 72 horas desperdiça a janela terapêutica. A punção lombar pode agravar o déficit em presença de bloqueio medular e não deve preceder a imagem. A radiografia simples tem baixa sensibilidade para o canal medular e para partes moles. A sondagem isolada com alta trata apenas a consequência e ignora a emergência instalada.
Adolescente, 15 anos, com massa abdominal volumosa de crescimento rápido em 3 semanas, inicia quimioterapia e, 24 horas depois, apresenta oligúria e cãibras. PA 128x82 mmHg, FC 104 bpm. Exames: potássio 6,4 mEq/L (VR 3,5–5,0); fósforo 8,2 mg/dL (VR 2,5–4,5); cálcio 6,8 mg/dL (VR 8,5–10,5); ácido úrico 14,6 mg/dL (VR até 7,0); creatinina 2,8 mg/dL; desidrogenase láctica muito elevada. Qual a conduta específica para a hiperuricemia?
Na síndrome de lise tumoral estabelecida, com ácido úrico de 14,6 mg/dL e injúria renal, o tratamento específico é a rasburicase, que degrada o urato já formado com queda em horas, associada a hidratação vigorosa. O alopurinol apenas bloqueia a produção nova de ácido úrico e não remove o que já se acumulou, servindo à profilaxia. A alcalinização urinária caiu em desuso porque favorece a precipitação de fosfato de cálcio, agravando a hiperfosfatemia e a hipocalcemia. A colchicina trata a inflamação da gota, sem papel aqui. Restringir líquidos é o oposto do necessário e piora a nefropatia por uratos.
Homem, 46 anos, iniciou quimioterapia para linfoma de Burkitt há 48 horas. Evolui com oligúria e náuseas. Exames: potássio 6,6 mEq/L (VR 3,5–5,0), fósforo 8,4 mg/dL (VR 2,5–4,5), cálcio 6,8 mg/dL (VR 8,5–10,5), ácido úrico 14 mg/dL (VR 3,5–7,2) e creatinina 3,1 mg/dL (VR 0,7–1,3). O eletrocardiograma mostra ondas T apiculadas em derivações precordiais. Qual a conduta prioritária?
A hipercalemia com alteração eletrocardiográfica é a ameaça imediata na síndrome de lise tumoral e exige estabilização da membrana com gluconato de cálcio, seguida de medidas que deslocam e removem o potássio, além de hidratação e rasburicase. O alopurinol bloqueia a formação de novo ácido úrico, mas não reduz o já formado nem trata a hipercalemia. Corrigir agressivamente a hipocalcemia assintomática na vigência de hiperfosfatemia favorece precipitação de fosfato de cálcio. A restrição hídrica agrava a nefropatia por uratos. A alcalinização isolada não trata o risco arrítmico.
Mulher, 66 anos, com câncer de mama metastático, apresenta náuseas, constipação e confusão há três dias. PA 106/64 mmHg, FC 104 bpm, mucosas secas. Cálcio total de 14,2 mg/dL (VR 8,5–10,5) com albumina normal, fósforo de 2,2 mg/dL, creatinina de 2,0 mg/dL (VR 0,6–1,1) e paratormônio suprimido em 6 pg/mL (VR 15–65). Qual a conduta inicial mais adequada?
A hipercalcemia grave da malignidade cursa com desidratação por diabetes insipidus nefrogênico induzido pelo cálcio, e o tratamento inicial é a hidratação vigorosa com salina isotônica, seguida de bisfosfonato ou denosumabe para bloquear a reabsorção óssea. A furosemida isolada antes da reposição agrava a hipovolemia. A reposição de fósforo endovenoso precipita fosfato de cálcio nos tecidos e é perigosa. Tiazídico reduz a excreção urinária de cálcio e agrava a hipercalcemia. A paratireoidectomia não tem sentido, pois o paratormônio está suprimido, indicando causa não paratireoidiana.
Mulher, 59 anos, tabagista, com massa pulmonar central e diagnóstico histológico de carcinoma epidermoide, apresenta confusão mental, constipação, poliúria e fraqueza há 2 semanas. Exame: desidratada, PA 108x66 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 ipm, SatO2 95% em ar ambiente. Cálcio total de 14,2 mg/dL (VR 8,5–10,5), albumina normal, fósforo baixo e paratormônio suprimido. Cintilografia óssea sem lesões metastáticas identificadas. Qual o mecanismo mais provável dessa alteração?
Hipercalcemia grave com paratormônio suprimido, fósforo baixo e sem lesões ósseas em paciente com carcinoma epidermoide de pulmão corresponde à hipercalcemia humoral da malignidade, mediada pelo peptídeo relacionado ao paratormônio, síndrome paraneoplásica classicamente associada a essa histologia. Metástases ósseas líticas produziriam dor e alterações na cintilografia, além de mecanismo osteolítico local. O hiperparatireoidismo primário cursaria com paratormônio elevado ou inapropriadamente normal, e não suprimido. A secreção inapropriada de hormônio antidiurético causa hiponatremia com euvolemia, associando-se ao carcinoma de pequenas células, e não hipercalcemia. A intoxicação por vitamina D elevaria fósforo e calcitriol, com história de uso do suplemento, não relatada.
Homem, 66 anos, com carcinoma epidermoide de pulmão, apresenta confusão mental, poliúria e constipação há 5 dias. PA 108x64 mmHg, FC 104 bpm, T 36,7 °C; desidratado e sonolento. Cálcio total 14,6 mg/dL (VR 8,5–10,5); albumina 3,6 g/dL; PTH 4 pg/mL (VR 15–65); fósforo 2,2 mg/dL; creatinina 1,8 mg/dL (VR 0,6–1,2) e proteína relacionada ao paratormônio elevada. Qual a conduta inicial indicada?
Hipercalcemia maligna mediada por proteína relacionada ao paratormônio, com paratormônio suprimido, é tratada com hidratação vigorosa com solução salina para restaurar a volemia e a filtração glomerular, seguida de bisfosfonato intravenoso ou denosumabe, além do tratamento da neoplasia de base. A paratireoidectomia não tem papel, pois as paratireoides estão suprimidas. Repor cálcio agravaria o distúrbio. O tiazídico reduz a excreção renal de cálcio e é contraindicado, ao contrário da furosemida usada apenas após reposição volêmica. O calcitriol aumenta a absorção intestinal de cálcio e pioraria o quadro.
Homem, 46 anos, com leucemia mieloide aguda recém-diagnosticada, apresenta dispneia progressiva e confusão há 12 horas. PA 122x74 mmHg, FC 118 bpm, FR 32 ipm, SatO2 86% em ar ambiente. Exames: leucócitos 210.000 por milímetro cúbico com predomínio de blastos; hemoglobina 8,2 g/dL; plaquetas 42.000; radiografia com infiltrado intersticial difuso; tomografia de crânio sem hemorragia. Qual a conduta imediata?
A leucostase, com leucócitos acima de cem mil e sintomas pulmonares e neurológicos, é emergência oncológica que exige citorredução urgente, com quimioterapia de indução ou hidroxiureia e, em casos selecionados, leucaférese, associada a hidratação e profilaxia da lise tumoral. A transfusão de hemácias aumenta a viscosidade sanguínea e pode agravar a leucostase, devendo ser evitada antes da citorredução. A antibioticoterapia isolada não trata o mecanismo obstrutivo microvascular. A anticoagulação empírica aumenta o risco hemorrágico com plaquetopenia. O corticoide isolado não reduz a massa leucocitária.
Homem, 39 anos, com linfoma de alto grau e massa abdominal volumosa, iniciará quimioterapia em 24 horas. Assintomático no momento, com boa diurese. PA 124x76 mmHg, FC 88 bpm. Exames: desidrogenase láctica muito elevada; ácido úrico 8,6 mg/dL (VR até 7,0); potássio 4,4 mEq/L; fósforo 4,0 mg/dL; cálcio 9,2 mg/dL; creatinina 1,0 mg/dL; sem oligúria. Qual a profilaxia mais adequada?
A profilaxia da síndrome de lise tumoral em paciente de alto risco, com linfoma de alto grau, massa volumosa, desidrogenase láctica muito elevada e hiperuricemia basal, consiste em hidratação vigorosa e agente hipouricemiante, sendo a rasburicase preferida no alto risco e o alopurinol no risco intermediário. A alcalinização urinária foi abandonada por favorecer precipitação de fosfato de cálcio. Restringir líquidos é o oposto do necessário. A colchicina trata a inflamação da gota, sem papel profilático aqui. Aguardar alterações laboratoriais desperdiça a janela de prevenção.
Menino de 9 anos apresenta há 3 semanas aumento rápido do volume abdominal, dor e vômitos. Exame: massa abdominal palpável em quadrante inferior direito, com cerca de 12 cm, dolorosa. Ácido úrico 11,2 mg/dL (VR 3,5–7,2); LDH 3.800 U/L (VR até 250); potássio 5,6 mEq/L (VR 3,5–5,0); fósforo 6,8 mg/dL (VR 4,0–7,0 na idade); creatinina 1,4 mg/dL (VR 0,4–0,8 na idade). Biópsia com padrão de céu estrelado e índice de proliferação próximo de cem por cento. Qual a conduta prioritária?
O padrão de céu estrelado com índice de proliferação próximo de cem por cento define linfoma de Burkitt, o tumor de maior risco de síndrome de lise tumoral, que neste caso já se manifesta com hiperuricemia, hipercalemia, hiperfosfatemia e elevação da creatinina; a prioridade é hidratação vigorosa e rasburicase antes e durante a quimioterapia. Iniciar quimioterapia sem profilaxia metabólica precipita lise maciça com insuficiência renal e arritmia. A ressecção cirúrgica completa não é o tratamento, que é quimioterápico e altamente eficaz. A radioterapia abdominal não é modalidade inicial nesse linfoma. Observar por sete dias é inaceitável em neoplasia com tempo de duplicação de horas e lise tumoral já em curso.
Homem, 66 anos, com carcinoma epidermoide de pulmão, apresenta há 5 dias confusão mental, náuseas e constipação. Exame: desidratado, sonolento, PA 96/58 mmHg, FC 108 bpm, mucosas secas. Cálcio total 15,2 mg/dL (VR 8,5–10,5); albumina 3,8 g/dL (VR 3,5–5,0); creatinina 2,2 mg/dL (VR 0,7–1,3); paratormônio 4 pg/mL (VR 15–65); fósforo 2,0 mg/dL (VR 2,5–4,5). Eletrocardiograma com QT corrigido encurtado. Qual a sequência terapêutica correta?
O paciente tem hipercalcemia maligna grave, com paratormônio suprimido, provavelmente mediada pelo peptídeo relacionado ao paratormônio; a sequência correta é hidratação vigorosa com salina isotônica, que corrige a hipovolemia e aumenta a excreção renal de cálcio, seguida de bisfosfonato endovenoso, com calcitonina como medida de ação rápida enquanto o bisfosfonato faz efeito. Iniciar furosemida antes da hidratação agrava a depleção volêmica e a insuficiência renal. A calcitonina isolada tem efeito rápido, porém transitório, com taquifilaxia em poucos dias. O corticoide é útil em hipercalcemia por linfoma ou doença granulomatosa, não na mediada por esse peptídeo. A hemodiálise fica reservada a casos refratários ou com insuficiência renal grave, após tentativa de reposição volêmica.
Homem, 62 anos, com adenocarcinoma de próstata metastático, apresenta dor dorsal intensa há 3 semanas, que piora em decúbito, e há 2 dias fraqueza progressiva em membros inferiores com dificuldade para urinar. Exame: força grau 3 em membros inferiores, hiperreflexia patelar, nível sensitivo em T8, globo vesical palpável. PSA 180 ng/mL (VR < 4,0). Radiografia com lesões blásticas em coluna dorsal. Qual a conduta imediata?
Dor dorsal que piora em decúbito, déficit motor progressivo, nível sensitivo e retenção urinária em paciente com neoplasia conhecida configuram compressão medular metastática, emergência oncológica cuja conduta imediata é corticoide em dose alta e ressonância magnética de urgência de toda a coluna, seguida de radioterapia ou descompressão cirúrgica. Aguardar cintilografia óssea atrasa horas decisivas para a recuperação neurológica. Analgesia isolada com radioterapia eletiva desconsidera a urgência do déficit instalado. O bisfosfonato reduz eventos ósseos a longo prazo, sem reverter compressão medular aguda. A punção lombar é contraindicada nesse contexto e nada acrescenta ao diagnóstico da compressão.
Paciente com câncer e dor lombar nova evolui com fraqueza bilateral e incontinência; não se deve atribuir o quadro apenas à dor crônica. Qual complicação deve ser reconhecida prioritariamente?
Sintomas motores e esfincterianos exigem investigação urgente de compressão. Dor axial com déficit neurológico ou alteração esfincteriana em pessoa com câncer exige investigação e tratamento urgentes. Referência: https://www.nice.org.uk/guidance/ng234
Pessoa com metástases vertebrais apresenta rápida perda da capacidade de caminhar e anestesia abaixo de determinado nível. Qual complicação deve ser reconhecida prioritariamente?
A progressão neurológica sugere compressão medular estabelecida. Dor axial com déficit neurológico ou alteração esfincteriana em pessoa com câncer exige investigação e tratamento urgentes. Referência: https://www.nice.org.uk/guidance/ng234
Paciente tratado para linfoma tem arritmia, potássio elevado, fósforo alto e urato crescente nas primeiras horas de tratamento. Qual complicação deve ser reconhecida prioritariamente?
O conjunto de distúrbios após citoredução caracteriza lise tumoral. Liberação de conteúdo celular pode causar hiperuricemia, hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e lesão renal. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21561350/
Adulto com câncer de mama metastático tem dor vertebral noturna e novo nível sensitivo no tronco. Qual complicação deve ser reconhecida prioritariamente?
Um nível sensitivo associado a neoplasia exige excluir compressão medular. Dor axial com déficit neurológico ou alteração esfincteriana em pessoa com câncer exige investigação e tratamento urgentes. Referência: https://www.nice.org.uk/guidance/ng234
Paciente com leucemia de grande massa tumoral, antes do tratamento, desenvolve hiperuricemia, hiperfosfatemia e lesão renal aguda. Qual complicação deve ser reconhecida prioritariamente?
Lise tumoral também pode ocorrer espontaneamente. Liberação de conteúdo celular pode causar hiperuricemia, hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e lesão renal. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21561350/
Pessoa com câncer de próstata apresenta nova dor torácica vertebral, fraqueza progressiva nas pernas e retenção urinária. Qual complicação deve ser reconhecida prioritariamente?
Déficit motor e esfincteriano tornam compressão medular uma urgência. Dor axial com déficit neurológico ou alteração esfincteriana em pessoa com câncer exige investigação e tratamento urgentes. Referência: https://www.nice.org.uk/guidance/ng234
Após iniciar quimioterapia para linfoma volumoso, paciente apresenta elevação de potássio, fósforo e ácido úrico, com queda de cálcio e piora renal. Qual complicação deve ser reconhecida prioritariamente?
O perfil metabólico sugere liberação maciça de conteúdo tumoral. Liberação de conteúdo celular pode causar hiperuricemia, hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e lesão renal. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21561350/
Após terapia altamente efetiva para neoplasia hematológica, paciente apresenta oligúria, urato alto e hipocalcemia associada à hiperfosfatemia. Qual complicação deve ser reconhecida prioritariamente?
Precipitação e distúrbios metabólicos são consequências da lise tumoral. Liberação de conteúdo celular pode causar hiperuricemia, hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia e lesão renal. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21561350/
Homem em tratamento de câncer de próstata relata dor dorsal progressiva, fraqueza nas pernas e retenção urinária iniciada hoje. Há nível sensitivo e redução de força em ambos os membros inferiores. Qual complicação deve ser investigada com urgência?
Dor vertebral em paciente oncológico com déficit motor, nível sensitivo e disfunção esfincteriana configura suspeita de compressão medular e exige avaliação urgente. Referência: NICE. Spinal metastases and metastatic spinal cord compression, 2023. https://www.nice.org.uk/guidance/ng234
Qual complicação explica melhor a combinação e a direção das quatro tendências após quimioterapia?

Liberação de conteúdo celular aumenta potássio, fósforo e ácido úrico, com queda de cálcio.
Qual alteração do último painel se relaciona mais diretamente à elevação do fósforo mostrada?

Hiperfosfatemia na lise pode reduzir cálcio circulante e favorecer precipitação.
Além de abordar os demais distúrbios mostrados, a equipe pretende reduzir o ácido úrico já acumulado na última coleta. Com deficiência de G6PD excluída, qual agente o converte diretamente em alantoína?

O gráfico mostra urato de 13 mg/dL; rasburicase degrada urato já existente, ao contrário do bloqueio de formação. A escolha exige avaliação clínica e atenção à deficiência de G6PD.
Qual mecanismo integra as alterações e a deterioração renal rápida?

A combinação temporal de hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia e lesão renal é compatível com lise tumoral.
Qual eletrólito caiu após o tratamento?

O cálcio diminui enquanto potássio, fósforo e ácido úrico aumentam.
Qual dado indica piora da função renal?

A creatinina passou de 0,9 para 2,4 mg/dL.
Se surgem ondas T apiculadas e alargamento do QRS, qual prioridade se impõe enquanto se trata a síndrome?

Hipercalemia com alterações eletrocardiográficas é uma emergência e pode exigir cálcio intravenoso e medidas adicionais.
Qual produto do metabolismo de purinas está elevado?

A degradação de ácidos nucleicos aumenta a produção de ácido úrico.
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Recite as réguas numéricas na ordem em que a questão as usa. Cairo-Bishop, duas ou mais alterações entre 3 dias antes e 7 dias depois: urato ≥ 8 mg/dL, potássio ≥ 6 mEq/L, fósforo ≥ 4,5 mg/dL (adulto), cálcio ≤ 7 mg/dL — ou variação de 25% sobre o basal. Lise clínica: laboratorial + lesão renal aguda, arritmia, convulsão ou morte súbita. Profilaxia: débito urinário > 2 mL/kg/h, hidratação ~3 L/m²/dia, alopurinol 100 mg 8/8 h, rasburicase 0,15-0,2 mg/kg (contraindicada em G6PD). Compressão medular: dexametasona 16 mg/dia, ressonância de TODA a coluna em 24 h, radioterapia urgente em 24 h. CRAB do mieloma: cálcio 1 mg/dL acima do limite superior ou > 11 mg/dL; zoledrônico 4 mg/mês ou pamidronato 90 mg/mês. Números brasileiros: dor como sintoma inicial em 81,1%; 55,6% sem marcha ao diagnóstico; 80% radioterapia contra 8,9% cirurgia; sobrevida mediana 5,2 meses.
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Reveja os raciocínios que as pegadinhas exploram, sem consultar. Por que corticoide vem antes da imagem e por que a bexiga é achado tardio. Por que a ressonância é de todo o neuroeixo (um em seis tem mais de um nível). Por que o ensaio dos 96 mg não autoriza a dose alta — ele comparou com nada, e quem comparou dose contra dose não achou diferença de eficácia e achou 14,3% de toxicidade grave. Por que Patchell mudou a prática sem generalizar a cirurgia, e por que na rede brasileira 80% recebem radioterapia. Por que a alcalinização saiu e por que o cálcio da lise quase nunca se repõe. E o raciocínio estrutural que resolve as questões de acesso: em oncologia, o Ministério não fornece o antineoplásico — o hospital habilitado padroniza e é ressarcido pelo procedimento —, e por isso rasburicase, zoledrônico de 4 mg e calcitonina injetável não estão na Rename embora sejam usados todo dia. Feche simulando os dois casos: na compressão, corticoide-imagem-radioterapia; na lise, hipercalemia-volume-urato, sem alcalinizar e sem repor cálcio.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Treine a inversão de ordem numa estação: paciente com câncer de mama em seguimento chega com dor dorsal de três semanas e as pernas pesadas há dois dias — conduza sem esperar a imagem para agir. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
